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História Fogo Cruzado - imagine youxmyg - Capítulo 2


Escrita por:


Capítulo 2 - Xx1xX


Fanfic / Fanfiction Fogo Cruzado - imagine youxmyg - Capítulo 2 - Xx1xX

— A gente devia ir até um bar comemorar. 

A declaração enfática do meu amigo Park Jimin, com quem eu dividia um apartamento, não foi nada surpreendente. Ele estava sempre disposto a comemorar, mesmo as coisas mais insignificantes. Sempre considerei isso parte de seu charme. 

— Sair pra beber um dia antes de começar num emprego novo com certeza não é uma boa ideia.

— Vamos lá, S/N. 

Jimin  sentou  no  chão  da  sala  do  nosso  novo  apartamento,  em  meio  à  bagunça  da  mudança,  e abriu  seu  sorriso  irresistível.  Fazia  dias  que  só  cuidávamos  da  arrumação,  e  ainda  assim  ele estava  lindo.  Com  seu  corpo  esguio,  cabelos  escuros  e  olhos puxado,  Jimin  era  o  tipo  de homem  cuja  aparência,  quaisquer  que  fossem  as  circunstâncias,  raramente  era  algo  menos do  que  incrível.  Isso  me  deixaria  com  raiva,  se  ele  não  fosse  a  pessoa  que  eu  mais  adorava no  mundo. 

—  Não estou dizendo pra gente encher  a  cara,   ele  insistiu. — Só uma ou duas  tacinhas  de vinho.  A  gente  pega  o  happy  hour  e  volta  pra  casa  lá  pelas  oito. 

—  Não  sei  se  vou  ter  tempo. Apontei  para  minha  calça  de  ioga  e  meu  top  de  ginástica.  — Depois  que  eu  cronometrar  a  caminhada  até  o  trabalho,  vou  pra  academia. 

—  É  só  andar  depressa  e  malhar  mais  depressa.  

A  expressão  de  Jimin,  sorrindo com os olhos quase fechado,  me  fez  rir.  Nunca  perdi  a  esperança  de  que seu  rosto  incrível  aparecesse  um  dia  em  outdoors  e  revistas  de  moda  do  mundo  inteiro. Qualquer  que  fosse  sua  expressão,  ele  era  um  arraso. 

—  Que  tal  amanhã,  depois  do  trabalho?, ofereci  em  troca.  —  Se  eu  conseguir  sobreviver  ao primeiro  dia,  aí  sim  vamos  ter  o  que  comemorar. 

—  Combinado.  Hoje  vou  estrear  a  cozinha  nova  fazendo  o  jantar. 

—  Hã... Cozinhar  era  um  dos  prazeres  do Jimin,  mas  não  um  de  seus  talentos.  —  Legal. 

Afastando  uma  mecha  de  cabelo  que  caíra  sobre  seu  rosto,  ele  me  olhou  com  um  sorriso. 

—  A gente  tem  uma  cozinha  de  fazer  inveja  à  maioria  dos  restaurantes.  Não  tem  erro  ali. 

Não  muito  convencida,  eu  me  despedi  com  um  aceno,  decidida  a  me  esquivar  da  conversa sobre  a  cozinha.  Desci  para  o  térreo  de  elevador  e  sorri  para  o  porteiro  quando  ele  abriu  a porta  pra  mim. 

Assim  que  pus  o  pé  para  fora,  fui  envolvida  pelos  aromas  e  ruídos  de  Seul,  que  me convidavam  a  sair  e  explorar.  Eu  não  estava  apenas  do  outro  lado  do  mundo  em  relação  à  minha antiga  casa  no  Brasil  —  parecia  estar  em  outro  mundo.  Dois  países totalmente diferentes  — um  infinitamente  ameno  e  sensualmente  preguiçoso,  o  outro  pulsando  como  um  organismo vivo  carregado  de  uma  energia  frenética.  Nos  meus  sonhos,  eu  me  imaginava  em  um pequeno  e  charmoso  prédio  na zona leste da cidade ,  mas,  por  ser  uma  boa  menina,  acabei  num bairro nobre.  Se  não  fosse  o  Jimin,  eu  estaria  completamente  sozinha  em  um  apartamento enorme  que  custa  por  mês  mais  do  que  a  maioria  das  pessoas  ganha  em  um  ano. 

Ibuki,  o  outro  porteiro,  me  cumprimentou  tirando  o  quepe. 

—  Boa  noite,  senhorita  S/N.  Vai  precisar  de  um  táxi  esta  noite? 

—  Não,  obrigada,  Ibuki. Bati  no  chão  com  os  amortecedores  do  meu  tênis  de  ginástica.  —  Vou sair  pra  caminhar. 

Ele  sorriu.  —  Esfriou  um  pouquinho  agora  no  fim  da  tarde.  O  tempo  está  gostoso. 

—  Me  disseram  pra  aproveitar  o  mês  de  junho,  antes  que  comece  o  calor  de  verdade. 

—  Um  ótimo  conselho,  senhorita  S/N. 

Ao  me  afastar  da  fachada  envidraçada  e  moderna  que  de  alguma  forma  não  destoava  da idade  do  edifício  e  da  vizinhança,  desfrutei  da  relativa  tranquilidade  da  rua  arborizada  antes de  chegar  à  Long Tower.  Eu  ainda  tinha  esperanças  de  me adaptar  rapidamente,  mas  por  enquanto  me  sentia  uma  falsa  coreana.  Já que a aparência fisica não era de uma, pelo menos queria falar o idioma corretamente. Eu  tinha  um apartamento  e  um  emprego,  mas  ainda  não  me  sentia  segura  o  bastante  para  me  aventurar no  metrô,  e  não  tinha  me  acostumado  a  acenar  ostensivamente  para  os  táxis.  Enquanto caminhava,  eu  tentava  não  parecer  impressionada  e  atônita,  mas  era  difícil.  Havia  tanta  coisa para  ver  e  experimentar. 

O  estímulo  sensorial  era  atordoante  —  o  cheiro  da  fumaça  dos  escapamentos  misturado  com o  da  comida  dos  carrinhos  dos  ambulantes;  a  música  dos artistas  de  rua;  a  impressionante  semelhança  de  rostos e estilos;  as  maravilhas arquitetônicas...  E  os  carros.  Minha  nossa.  O  fluxo  calmo de  carros,  sempre  organizados e separado  uns dos  outros,  era  algo  que  eu  nunca  tinha  visto  na  vida. 

No Brasil havia  sempre  uma  ambulância,  uma  viatura  ou  um  caminhão  de  bombeiros  tentando  romper  a torrente  de  táxis  amarelos  com  o  uivo  eletrônico  de  sirenes  ensurdecedoras.  Fiquei impressionada  com  os  caminhões  de  lixo  que  se  arremessavam  em  ruas  estreitas  de mão  única  e  com  os  entregadores  que  encaravam  a  massa  compacta  de  veículos,  com  prazos rigorosos  a  cumprir. Os  verdadeiros  coreanos  nem  reparavam  em  tudo  isso  —  a  cidade  para  eles  era  familiar e  confortável  como  um  velho  par  de  sapatos.  Eles  não  viam  as  ondas  de  vapor  escapando dos  bueiros  e  saídas  de  ar  com  um  encanto  carregado  de  romantismo,  nem  pareciam  notar quando  o  chão  tremia  sob  seus  pés  com  a  passagem  do  metrô  —  ao  contrário  de  mim,  que sorria  como  uma  idiota  e  encolhia  os  dedos  dos  pés.  Seul era  um  caso  de  amor totalmente  novo  para  mim.  Eu  estava  embasbacada  e  não  conseguia  esconder. 

Tive  que  me  esforçar  bastante  para  manter  uma  atitude  indiferente  enquanto  me  dirigia  ao local  em  que  ia  trabalhar.  Pelo  menos  em  termos  profissionais,  as  coisas  estavam acontecendo  da  maneira  como  eu  queria.  Meu  desejo  era  ganhar  a  vida  com  base  em  meus próprios  méritos,  o  que  significava  começar  por  baixo.  A  partir  da  manhã  seguinte,  eu  seria  a assistente  de  Kim Suho na  Kiwoca,  uma  das  maiores  agências  de propaganda  da Coreia do Sul.  Meu  padrasto,  o  magnata  do  setor  financeiro  Park Julian,  não  gostou  nada  da  ideia  —  na  opinião  dele,  se  eu  fosse  menos  orgulhosa,  poderia trabalhar  para  algum  amigo  dele  e  colher  os  benefícios  inerentes  a  esse  tipo  de  proximidade. 

—  Você  é  teimosa  como  seu  pai,   ele  falou.  —  Ele  vai  demorar  a  vida  inteira  para  conseguir pagar  seu  financiamento  estudantil  com  o  que  ganha  como  policial. 

Esse  foi  outro  motivo  de  disputa,  e  meu  pai  se  recusou  terminantemente  a  ceder.  

—  De  jeito nenhum  outro  homem  vai  pagar  pela  educação  da  minha  filha, respondeu  S/P quando  Julian  fez  sua  proposta.  Ele  ganhou  meu  respeito  com  essa  atitude.  E  acho  que  o de  Julian  também,  embora  ele  nunca  vá  admitir  isso.  Eu  entendia  o  lado  dos  dois,  porque queria  pagar  eu  mesma  pelos  meus  estudos...  mas  não  teve  jeito.  Para  meu  pai,  era  uma questão  de  honra.  Minha  mãe  não  quis  se  casar  com  ele,  mas  isso  não  diminuiu  sua determinação  em  agir  como  pai  em  toda  e  qualquer  situação.

Como  remoer  frustrações  do  passado  nunca  leva  a  nada,  concentrei—me  na  tarefa  de  chegar ao  trabalho  o  mais  rápido  possível.  Decidi  cronometrar  o  trajeto  em  um  horário  de  pico  de  uma segunda—feira,  e  fiquei  satisfeita  por  conseguir  chegar  ao  Long Tower,  sede  da  Kiwoca ,  em  menos  de  meia  hora. 

Inclinei  a  cabeça  e  segui  o  contorno  do  edifício  até  encontrar  o  azul  do  céu.  O  Long Tower  era absolutamente  fenomenal  —  uma  torre  imponente  com  um  brilho  safírico  que  parecia  chegar até  as  nuvens.  Nas  entrevistas  que  fiz  ali,  vi  que  o  outro  lado  das  portas  giratórias  ornadas com  cobre  era  tão  suntuoso  quanto  seu  exterior,  com  piso  e  paredes  revestidos  de  mármore dourado  e  mesas  e  catracas  de  alumínio  polido. 

Tirei  meu  novíssimo  crachá  do  bolso  da  calça  e  mostrei  para  os  dois  seguranças  de  terno escuro  sentados  à  mesa.  Eles  me  barraram  assim  mesmo,  sem  dúvida  por  eu  estar  muito malvestida  para  aquele  ambiente,  mas  depois  me  deixaram  entrar.  Após  subir  os  vinte andares  de  elevador,  pude  fazer  uma  estimativa  do  tempo  de  viagem  de  casa  até  o  trabalho. 

Nada  mau. Eu  estava  saindo  do  elevador  quando  vi  uma  asiática  bonita  e  muito  bem  arrumada  passar pela  catraca  sem  levantar  devidamente  a  bolsa,  que  ficou  enroscada  e  se  abriu,  provocando um  dilúvio  de  dinheiro  sobre  o  chão.  As  moedas  caíram  e  saíram  rolando  alegremente  —  e  as pessoas  que  passavam  se  esquivavam  do  caos  e  seguiam  em  frente  como  se  nada  estivesse acontecendo.  Em  um  gesto  de  compaixão,  eu  me  curvei  para  ajudá—la  a  recolher  o  dinheiro, junto  com  um  segurança  que  havia  tido  o  mesmo  impulso. 

—  Obrigada, ela  disse,  abrindo  um  breve  sorriso  no  rosto  quase  coberto  pelos  cabelos e curvando o corpo. 

Retribuí  o  sorriso.  —  Imagina.  Essas  coisas  acontecem. 

Eu  tinha  acabado  de  me  agachar  para  alcançar  uma  moedinha  que  fora  parar  perto  da entrada  quando  dei  de  cara  com  um  luxuoso  par  de  sapatos  da gucci,  encimado  por  uma elegante  calça  preta.  Esperei  um  pouco  para  que  aquele  homem  saísse  do  caminho,  mas, como  ele  não  se  mexia,  levantei  a  cabeça  para  ampliar  meu  campo  de  visão.  O  terno  feito  sob medida  já  era  suficiente  para  deixar  meus  sinais  de  alerta  ligados,  mas  era  o  corpo  alto  e esguio  por  baixo  dele  que  o  tornava  sensacional.  Ainda  assim,  apesar  de  toda  aquela demonstração  impressionante  de  masculinidade,  foi  só  quando  vi  seu  rosto  que  percebi  o  que havia  de  fato  diante  de  mim. 

Uau.  Simplesmente...  uau. 

Em  um  gesto  cheio  de  elegância,  ele  se  agachou  bem  de  frente  para  mim.  Com  toda  aquela beleza  masculina  ao  alcance  dos  meus  olhos,  tudo  o  que  eu  podia  fazer  era  encarar. 

Admirada. 

Foi  então  que  o  espaço  que  havia  entre  nós  desapareceu. 

Ao  olhar  para  mim,  ele  mudou...  como  se  um  escudo  tivesse  sido  removido  de  seus  olhos, revelando  uma  força  vital  esmagadora  que  me  fez  perder  o  fôlego.  O  magnetismo  poderoso que  ele  exalava  se  intensificou,  transformando—se  em  uma  impressão  quase  tangível  de  uma energia  vigorosa  e  inesgotável. 

Reagindo  puramente  por  instinto,  eu  me  inclinei  para  trás.  E  caí  de  bunda  no  chão.

Meus  cotovelos  latejavam  violentamente  pelo  baque  contra  o  piso  de  mármore,  mas  a  dor passou  quase  despercebida.  Eu  estava  mais  preocupada  em  olhar,  hipnotizada  por  aquele homem  na  minha  frente.  Seus  cabelos  de  um  preto  bem  vivo  emolduravam  um  rosto  de  tirar  o fôlego.  Sua  estrutura  óssea  faria  um  escultor  chorar  de  alegria,  e  sua  boca  de  contornos firmes,  seu  nariz  retilíneo  e  seus  olhos  castanhos  intensos  lhe  conferiam  uma  beleza  selvagem.  A não  ser  pelos  olhos  ligeiramente  puxado,  sua  fisionomia  denotava  uma  impassibilidade total. 

Tanto  sua  camisa  como  seu  terno  eram  pretos,  mas  a  gravata  combinava  perfeitamente  com  o brilho  do seus olhos.  Seus  olhos  eram  penetrantes  e  inquisidores,  e  estavam  pregados  em  mim.  Meu coração  começou  a  bater  mais  forte;  meus  lábios  se  abriram  parcialmente  com  a  aceleração da  respiração.  Seu  cheiro  era  tentador.  Não  era  colônia.  Loção  corporal,  talvez.  Ou  xampu.  O que  quer  que  fosse,  era  inebriante,  assim  como  ele. 

Ele  estendeu  a  mão  para  mim,  mostrando  suas  abotoaduras  de  ônix  e  um  relógio  que aparentava  ser  caro. Inspirando  tremulamente,  pus  a  mão  sobre  a  dele.  Minha  pulsação  disparou  quando  ele  a apertou.  Seu  toque  era  como  uma  onda  de  eletricidade,  que  subiu  pelo  meu  braço  e  arrepiou os  pelos  da  minha  nuca.  Por  um  momento  ele  permaneceu  imóvel,  com  uma  ruga preenchendo  o  espaço  entre  suas  sobrancelhas  absurdamente  bem  desenhadas. 

—  Está  tudo  bem? 

Sua  voz  era  suave  e  profunda,  com  uma  rouquidão  que  fez  meu  estômago  gelar.  Era uma  evocação  ao  sexo.  Ao  que  o  sexo  tinha  de  melhor.  Por  um  momento  cheguei  a  pensar que  poderia  ter  um  orgasmo  só  de  ouvi—lo  falar. 

Meus  lábios  estavam  ressecados,  então  passei  a  língua  por  eles  antes  de  responder:  

—  Sim. 

Ele  se  levantou  com  uma  notável  economia  de  gestos,  puxando—me  junto  para  cima. 

Continuamos  nos  encarando,  porque  eu  não  conseguia  olhar  para  outra  coisa.  Ele  era  mais jovem  do  que  imaginei  a  princípio.  Meu  palpite  seria  menos  de  trinta,  mas  seus  olhos pareciam  muito  mais  experientes.  Implacavelmente  inteligentes  e  afiados. 

Era  como  se  eu  estivesse  sendo  atraída  para  ele,  como  se  houvesse  uma  corda  em  torno  da minha  cintura  me  arrastando  de  forma  lenta  mas  inexorável  em  sua  direção. 

Piscando  para  despertar  dessa  espécie  de  delírio,  eu  o  soltei.  Ele  não  era  apenas  lindo,  era... fascinante.  O  tipo  de  cara  que  faz  uma  mulher  querer  abrir  sua  camisa  com  um  único  puxão  e ver  os  botões  irem  abaixo  junto  com  as  inibições.  Olhei  para  seu  terno  civilizado,  requintado  e absurdamente  caro  e  só  consegui  pensar  em  uma  trepada  violenta,  de  rasgar  os  lençóis. 

Ele  se  abaixou  para  apanhar  o  crachá  que  eu  nem  percebi  que  havia  derrubado,  libertando— me  de  seu  olhar  irresistível.  Meu  cérebro  lutava  para  voltar  a  funcionar  normalmente. 

Fiquei  irritada  por  me  sentir  tão  desconcertada  enquanto  ele  parecia  tranquilo  e  controlado.  E por  quê?  Porque  eu  estava  deslumbrada,  ora  essa. 

Ele  me  olhou  lá  de  baixo,  e  essa  posição  —  ele  praticamente  ajoelhado  na  minha  frente  —  fez com  que  eu  quase  perdesse  o  equilíbrio  novamente.  Enquanto  se  levantava,  seus  olhos permaneciam  fixos  nos  meus. 

—  Tem  certeza  de  que  está  tudo  bem?  É  melhor  você  sentar  um  pouco. 

Senti  meu  rosto  ficar  vermelho.  Que  maravilha  parecer  insegura  e  estabanada  diante  do homem  mais  confiante  e  elegante  que  já  conheci. 

—  Eu  só  perdi  o  equilíbrio.  Está  tudo  bem. 

Ao  desviar  os  olhos,  vi  a  mulher  que  havia  derrubado  no  chão  o  dinheiro.  Ela  agradeceu  ao segurança  que  a  ajudou  e  então  se  virou  para  falar  comigo,  desculpando—se  enfaticamente. Virei  para  ela  e  estendi  a  mão  com  o  punhado  de  moedas  que  havia  pego,  mas  seu  olhar tinha  se  voltado  para  o  deus  de  terno,  e  ela  imediatamente  se  esqueceu  de  mim.  Depois  de um  tempo,  simplesmente  fui  até  ela  e  despejei  as  moedas  dentro  da  bolsa.  Então  arrisquei outra  olhada  e  o  encontrei  voltado  na  minha  direção,  ignorando  a  moça  e  seus agradecimentos.  Para  ele.  Não  para  mim,  a  pessoa  que  de  fato  havia  ajudado. 

Levantei  minha  voz  acima  da  dela.  —  Você  poderia  devolver  meu  crachá,  por  favor?

Ele  estendeu  a  mão  para  me  devolver.  Apesar  de  eu  ter  me  esforçado  para  pegá—lo  de  volta sem  nenhum  contato  físico,  seus  dedos  resvalaram  nos  meus,  fazendo  com  que  aquela sensação  de  eletricidade  voltasse  a  circular  pelo  meu  corpo. 

—  Obrigada, murmurei  antes  de  passar  por  ele  e  tomar  o  caminho  da  rua  pela  porta  giratória. 

Parei  um  pouco  na  calçada,  inspirando  profundamente  o  ar  de  Seul,  que  recendia  a  um milhão  de  coisas,  algumas  boas,  outras  tóxicas. 

Havia  um  Toyota  estacionado  na  frente  do  prédio,  e  eu  observei  meu  reflexo  nas  janelas escuras  e  impecavelmente  limpas  daquele  carrão.  Eu  estava  vermelha,  e  meus  olhos  pareciam  especialmente  radiantes.  Aquele  rosto  era  familiar  para  mim  —  era  o  que  eu  via  no espelho  do  banheiro  antes  de  ir  para  a  cama  com  um  homem.  Era  o  meu  olhar  de  estou— pronta—pra—foder,  e  não  deveria  estar  estampado  na  minha  cara  naquele  momento,  de  jeito nenhum. 

Meu  Deus.  Controle—se. 

Cinco  minutos  com  o  sr.  Moreno  Perigoso  e  eu  já  estava  me  sentindo  dominada  por  um impulso  impaciente  e  inquietante.  Era  capaz  de  sentir  seu  toque,  e  um  desejo  inexplicável  de voltar  para  o  lugar  onde  ele  estava.  Eu  poderia  argumentar  que  ainda  não  havia  terminado  o que  tinha  ido  fazer  no  Long,  mas  sabia  que  ia  me  arrepender  depois.  Quantas  vezes  eu ainda  precisaria  fazer  papel  de  idiota  em  um  único  dia? 

—  Já  chega, disse  baixinho  para  mim  mesma.  —  Hora  de  ir. 

A calmaria era o que definia a volta, os coreanos eram realmente pessoas muito frias em relação a comportamento, confesso que me sinto feliz estando longe do Brasil. 

Quando  voltei  a  me  misturar  ao  intenso  tráfego  de  pedestres  para  ir  à  academia,  minha  boca se  sentiu  tentada  a  abrir  um  sorriso.  Ah,  Seul,  pensei,  sentindo—me  à  vontade novamente,  você  é  demais. 

Minha  ideia  era  fazer  o  aquecimento  na  esteira  e  matar  o  restante  do  tempo  me  exercitando em  alguns  aparelhos,  mas,  quando  vi  que  a  aula  de  kickboxing  para  iniciantes  estava  para começar,  decidi  me  juntar  aos  alunos  que  aguardavam.  Quando  a  aula  terminou,  senti  que havia  retomado  o  controle  sobre  mim.  Meus  músculos  tremiam,  e  eu  me  sentia  cansada  na medida  certa,  com  a  certeza  de  que  dormiria  como  uma  pedra  quando  me  deitasse. 

—  Você  foi  muito  bem. 

Limpei  o  suor  do  rosto  com  uma  toalha  e  olhei  para  o  jovem  que  havia  falado  comigo.  Magro, embora  com  uma  musculatura  bem  definida,  ele  tinha  olhos  castanhos  bem  vivos  e  uma  pele  impecável.  Seus  cílios  eram  grossos  e  longos,  de  fazer  inveja,  mas  os cabelos  grudavam na testa suada. 

—  Obrigada. Minha  boca  se  contorceu  num  lamento.  —  Está  na  cara  que  é  a  minha  primeira vez,  né? 

Ele  sorriu  e  estendeu  a  mão.  —  Jung  Hoseok. 

—  S/N. 

—  Você  leva  jeito,  S/N.  Com  um  pouco  mais  de  treino  ninguém  vai  ter  coragem  de  encarar você. Ele  apontou  para  o quadro  de  cortiça  pendurado  na  parede.  Estava  coberto  de  folhetos  e  cartões  de  visita. Apanhou  uma  folha  de  um  bloco  de  papel  fluorescente  e  ofereceu  para  mim.  —  Já  ouviu  falar em  krav  maga? 

—  Vi  em  um  filme  da  Jennifer  Lopez. 

—  Sou  professor  e  adoraria  ensinar  você.  Aí  tem  meu  site  e  o  telefone  da  minha  academia. 

Gostei  da  abordagem  dele.  Foi  bem  direta,  assim  como  seu  olhar,  e  o  sorriso  era  autêntico. 

Imaginei  que  estivesse  querendo  me  paquerar,  mas,  se  era  essa  a  intenção,  ele  disfarçou bem  o  suficiente  para  me  deixar  em  dúvida. 

Hoseok  cruzou  os  braços.  Ele  vestia  uma  camiseta  preta sem  mangas  e  uma  bermuda  comprida.  Seu  tênis  tinha  a  aparência  surrada  dos  calçados realmente  confortáveis.  —  No  site  tem  todos  os  horários.  Você  pode  assistir  a  uma  aula,  só pra  ver  se  gosta. 

—  Vou  pensar  a  respeito,  pode  deixar. 

—  Muito  bem. Ele  estendeu  a  mão  e  me  cumprimentou  com  firmeza  e  confiança.  —  Espero ver  você  de  novo.

Um  cheiro  maravilhoso  se  espalhava  pelo  apartamento  quando  cheguei,  e  a  voz  de  Sia saía  cheia  de  emoção  das  caixas  de  som,  cantando  —  Snowoman.  Olhei  para  o outro  lado  da  sala  integrada  com  a  cozinha  e  vi  Jimin  balançando  ao  som  da  música  enquanto mexia  alguma  coisa  perto  dele.  No  balcão,  havia  uma  garrafa  de  vinho  tinto  e  duas  taças,  uma delas  pela  metade. 

—  Ei,  eu  chamei  ao  me  aproximar.  —  O  que  você  está  fazendo  aí?  Dá  tempo  de  tomar  banho primeiro? 

Ele  serviu  o  vinho  na  outra  taça  e  a  arrastou  pelo  balcão  até  mim  com  movimentos  seguros  e elegantes.  Olhando  para  Jimin,  ninguém  seria  capaz  de  dizer  que  ele  passou  a  infância  entre temporadas  com  a  mãe  viciada  em  drogas  e  lares  adotivos,  e  a  adolescência  em reformatórios  juvenis  e  centros  de  reabilitação  estatais.  —  Macarrão  à  bolonhesa.  E  deixe  o banho  para  mais  tarde,  já  está  pronto.  Se  divertiu  bastante? 

—  Lá  na  academia,  sim. Puxei  um  dos  banquinhos  de  madeira  do  balcão  e  me  sentei.  Contei a  ele  sobre  a  aula  de  kickboxing  e  sobre  Jung  Hoseok.  —  Quer  ir  comigo? 

—  Krav  maga?, Jimin  balançou  a  cabeça.  —  Isso  não  é  moleza,  não.  Eu  ficaria  cheio  de hematomas  e  acabaria  perdendo  alguns  trabalhos.  Mas  posso  ir  com  você  até  lá,  pro  caso  do sujeito  ser  um  maníaco. 

Fiquei  calada  enquanto  ele  despejava  o  macarrão  no  escorredor.  —  Um  maníaco? 

Meu  pai  havia  me  ensinado  muito  sobre  os  homens  —  por  isso  eu  sabia  que  o  deus  de  terno era  encrenca  certa.  As  pessoas  costumam  sorrir  quando  ajudam  alguém,  como  uma  forma  de criar  uma  ligação  momentânea  para  quebrar  o  gelo. 

Por  outro  lado,  eu  também  não  tinha  sorrido  para  ele. 

—  Gata, disse  Jimin,  tirando  as  tigelas  da  prateleira,  —  você  é  uma  mulher  sexy  e deslumbrante.  Duvido  da  masculinidade  de  qualquer  homem  que  resista  à  tentação  de chamar  você  pra  sair  assim  que  tem  a  chance. 

Agradeci  franzindo  o  nariz  para  ele. 

Ele  me  serviu  uma  tigela  contendo  pequenos  tubos  de  macarrão  cobertos  com  um  molho  ralo de  tomate  com  pedaços  de  carne  moída  empelotada  e  ervilha. 

—  Você  não  para  de  pensar  em  alguma  coisa.  O  que  é? 

Hum...  Peguei  o  cabo  do  garfo  enfiado  na  tigela  e  decidi  não  fazer  nenhum  comentário  sobre a  comida.  —  Acho  que  hoje  vi  o  homem  mais  lindo  do  planeta.  Talvez  o  mais  lindo  da  história do planeta. 

—  Ah,  é?  Pensei  que  fosse  eu.  Conte  mais. 

Jimin  preferiu  ficar  do  outro  lado  do  balcão  e  comer  em  pé. Esperei  que  ele  desse  algumas  garfadas  na  gororoba  antes  de  criar  coragem  e  experimentar. 

—  Não  tem  muito  mais  pra  contar,  na  verdade.  Caí  de  bunda  no  saguão  do  Long Tower  e  ele  me deu  uma  mão. 

—  Alto  ou  baixo?  Loiro  ou  moreno?  Forte  ou  magro?  E  a  cor  dos  olhos? 

Empurrei  minha  segunda  garfada  goela  abaixo  com  um  gole  de  vinho.  

—  Alto.  Moreno.  Magro.  Olhos  castanhos.  Podre  de  rico,  a  julgar  pelas  roupas  e  pelos  acessórios.  E  incrivelmente sexy.  Você  sabe  como  é:  alguns  caras  bonitos  não  mexem  com  os  hormônios  da  gente, enquanto  outros  não  tão  bonitos  têm  um  sex  appeal  absurdo.  Esse  cara  tinha  as  duas  coisas. 

Senti  um  frio  na  barriga  como  quando  o  Moreno  Perigoso  tocou  em  mim.  Lembrei  do  seu  rosto com  uma  clareza  cristalina.  Deveria  ser  proibido  um  homem  ser  tão  estonteante.  Eu  ainda estava  me  recuperando  dos  danos  que  ele  havia  provocado  nos  meus  neurônios. 

Jimin  apoiou  o  cotovelo  no  balcão  e  se  inclinou  para  mim,  com  sua  franja  comprida  cobrindo um  de  seus  olhos  pequenos  e  faiscantes.  —  E  o  que  aconteceu  depois  que  ele  ajudou  você  a levantar? 

Encolhi  os  ombros.  —  Nada. 

—  Nada? 

—  Fui  embora. 

—  Quê?  Não  rolou  nem  uma  paquera? 

Comi  mais  uma  garfada.  Na  verdade,  a  comida  não  estava  ruim.  Ou  então  era  eu  que  estava morrendo  de  fome.  —  Ele  não  era  do  tipo  que  dá  pra  paquerar,  Jimin. 

—  Não  existe  essa  história  de  gente  que  não  dá  pra  paquerar.  Até  as  pessoas  casadas  e felizes  gostam  de  uma  paquera  inofensiva  de  vez  em  quando. 

—  Esse  cara  não  tinha  nada  de  inofensivo, — eu  disse  num  tom  seco. 

—  Ah,  sei. Jimin  balançou  a  cabeça,  mostrando  que  tinha  entendido.  —  Esses  são  divertidos, mas  é  melhor  não  se  envolver  com  eles. 

Jimin  obviamente  sabia  do  que  estava  falando;  homens  e  mulheres  de  todas  as  idades  se atiravam  a  seus  pés.  Ainda  assim,  de  alguma  forma  ele  conseguia  fazer  sempre  a  escolha errada.  Já  tinha  sido  traído,  perseguido  obsessivamente,  aturado  ameaças  de  suicídio...  O que  quer  que  pudesse  acontecer,  já  tinha  acontecido  com  ele. 

—  Não  vejo  como  eu  poderia  me  divertir  com  esse  cara, continuei.  —  Ele  era  intenso  demais. Mesmo  assim,  aposto  que  ele  deve  ser  incrível  na  cama,  com  toda  aquela  intensidade. 

—  É  assim  que  se  fala.  Esqueça  o  cara  real.  Use  o  rosto  dele  nas  suas  fantasias  e  faça  com que  nelas  ele  seja  perfeito. 

Preferia  mantê—lo  longe  dos  meus  pensamentos  de  toda  e  qualquer  maneira,  então  mudei  de assunto.  —  Você  tem  algum  trabalho  amanhã? 

—  Claro. Jimin  me  passou  os  detalhes  de  sua  programação  para  o  dia  seguinte,  mencionando anúncios  para  uma  marca  de  jeans,  produtos  de  bronzeamento,  cuecas  e  colônias. 

Esqueci  de  todo  o  resto  e  me  concentrei  nele  e  no  seu  sucesso  cada  vez  maior.  A  demanda por  Park Jimin  crescia  diariamente,  e  ele  estava  ganhando  entre  fotógrafos  e  clientes  uma reputação  de  profissionalismo  e  dedicação.  Eu  estava  felicíssima  por  ele,  e  muito  orgulhosa. 

Jimin  havia  conquistado  muito,  depois  de  ter  sofrido  um  bocado. 

Apenas  depois  do  jantar  percebi  duas  enormes  caixas  de  presente  encostadas  no  sofá. 

—  O  que  é  isso  aí? 

—  Isso  aí, Jimin  respondeu,  acompanhando—me  até  a  sala,  —  é  o  máximo. 

Percebi  imediatamente  que  aquilo  era  coisa  de  Julián  e  minha  mãe.  O  dinheiro  era  algo  de que  minha  mãe  precisava  para  ser  feliz,  e  para  minha  sorte  Julian,  o  marido  número  três, era  capaz  de  suprir  essa  necessidade  e  muitas  outras  também.  Diversas  vezes  desejei  que isso  a  fizesse  sossegar,  mas  minha  mãe  nunca  aceitou  bem  o  fato  de  eu  ter  outro  tipo  de relação  com  o  dinheiro. 

—  O  que  foi  agora? 

Jimin  jogou  seu  braço  por  cima  dos  meus  ombros  —  algo  facílimo  para  ele,  que  era  pelo menos  dez  centímetros  mais  alto  que  eu.  —  Não  seja  ingrata.  O  cara  ama  sua  mãe.  Adora mimá—la,  e  ela  adora  mimar  você.  Não  importa  o  que  você  pense,  ele  não  faz  essas  coisas por  você.  Julian  faz  tudo  isso  por  ela. 

Concordei  soltando  um  suspiro.  

—  O  que  temos  aí? 

—  Roupas  chiques  para  o  jantar  beneficente  de  sábado.  Um  vestido  arrasador  para  você  e  um smoking  Dior  pra  mim,  porque  comprar  presentes  pra  mim  é  o  que  ele  faz  por  você.  O  fato de  eu  estar  aqui  pra  ouvir  você  reclamar  da  vida  melhora  um  pouco  esse  seu  mau  humor. 

—  Isso  é  verdade.  Ainda  bem  que  ele  sabe  disso. 

—  Claro  que  sabe.  Julian  não  seria  um  zilionário  se  não  soubesse  de  tudo. Jimin  me  pegou pela  mão  e  me  arrastou  até  lá.  —  Então.  Dá  só  uma  olhada. 

×××××

Na  manhã  seguinte,  às  dez  para  as  nove,  atravessei  a  porta  giratória  do  saguão  do  Long Tower. 

Para  causar  uma  boa  impressão  no  meu  primeiro  dia,  tinha  ido  vestida  com  um  tubinho  básico e  sapatos  pretos  de  salto  alto  para  combinar,  que  substituíram  meus  tênis  de  caminhada durante  a  subida  do  elevador.  Meus  cabelos  estavam  presos  em  um  coque  muito  bem— feito,  que  parecia  um  número  oito  estilizado,  uma  cortesia  de  Jimin.  Eu  não  tinha  o  menor  jeito para  penteados,  mas  ele  era  capaz  de  criar  obras—primas  glamorosas.  Estava  usando também  o  colar  de  pérolas  miúdas  que  meu  pai  havia  me  dado  como  presente  de  formatura e uma pulseira da Tiffany's,  oferecimento  de  Julian  e  minha  mãe. 

Até  cheguei  a  pensar  que  estava  me  preocupando  demais  com  a  aparência,  mas  assim  que pisei  no  saguão  lembrei  que  tinha  me  esborrachado  naquele  chão  usando  roupa  de  ginástica e  fiquei  agradecida  por  não  me  parecer  em  nada  com  aquela  garota  estabanada.  Os  dois seguranças  não  pareceram  ter  me  reconhecido  quando  mostrei  o  crachá  a  caminho  das catracas. 

Vinte  andares  acima,  lá  estava  eu  no  hall  de  entrada  da  Kowica.  Diante  de mim  havia  uma  parede  de  vidro  à  prova  de  balas,  emoldurando  a  porta  dupla  que  levava  à recepção.  A  recepcionista,  sentada  a  uma  mesa  em  formato  de  lua  crescente,  viu  meu  crachá através  do  vidro.  Ela  acionou  o  botão  para  destravar  a  porta,  e  eu  o  guardei. 

—  Olá,  Mirai, eu  cumprimentei  enquanto  entrava,  admirando  sua  blusa  vermelha.  Ela  era estrangeira assim como eu,  de  origem  russa,  com  certeza,  e  muito  bonita.  Seus  cabelos  eram  loiros,  grossos e  bem  cortados,  mais  curtos  atrás  e  compridos  e  afiados  na  frente.  Seus  olhos eram  azuis  e  calorosos,  e  seus  lábios,  fartos  e  naturalmente  rosados. 

—  S/N,  oi.  Suho  ainda  não  chegou,  mas  você  sabe  aonde  ir,  certo?

—  Com  certeza. Despedindo—me  com  um  aceno,  entrei  pelo  corredor  à  esquerda  da recepção  e,  no  final,  virei  de  novo  à  esquerda  para  chegar  a  um  antigo  espaço  aberto  que havia  sido  subdividido  em  baias.  Uma  delas  era  a  minha,  e  fui  direto  até  ela. 

Guardei  minha  bolsa  e  a  sacola  com  os  tênis  de  caminhada  na  última  gaveta  da  minha  mesa de  metal  e  liguei  o  computador.  Eu  tinha  levado  também  algumas  coisas  para  personalizar meu  espaço.  Uma  delas  era  uma  montagem  emoldurada  de  três  fotos  —  eu  e  Jimin  em Ulsan,  minha  mãe  e  Julian  no  iate  dele  na  Argentina  e  meu  pai  fardado em  uma  viatura  de  polícia  no BOPE,  Sao Paulo.  Outra  era  um  arranjo  de  flores  bem colorido  que  Jimin  havia  me  dado  como  presente  de  primeiro  dia  de  trabalho.  Coloquei  um  ao lado  do  outro  e  me  recostei  na  cadeira  para  visualizar  o  conjunto. 

—  Bom  dia,  S/N. 

Fiquei  em  pé  imediatamente  para  falar  com  meu  chefe.  —  Bom  dia,  senhor  Kim. 

—  Pode  me  chamar  de  Suho,  por  favor.  Venha  comigo  até  minha  sala. 

Eu  o  segui  pelo  corredor  estreito,  mais  uma  vez  pensando  em  como  era  agradável  olhar  para meu  novo  chefe,  com  sua  pele  branca  e  radiante e  seus  olhos castanhos  risonhos.  Suho  tinha  um  maxilar  anguloso  e  um  sorriso  charmosamente desalinhado.  Era  magro  e  elegante,  e  sua  postura  segura  inspirava  confiança  e  respeito. 

Ele  apontou  para  uma  das  duas  cadeiras  posicionadas  diante  de  sua  mesa  de  vidro  com estrutura  cromada  e  esperou  que  eu  me  sentasse  para  se  ajeitar  em  sua  cadeira.  Contra  o pano  de  fundo  dos  arranha—céus  da  cidade,  Suho  parecia  bem—sucedido  e  poderoso.  Na verdade,  ele  era  apenas  um  gerente  de  contas  júnior,  e  seu  escritório  parecia  um  armário  em comparação  aos  ocupados  por  diretores  e  demais  executivos,  mas  ainda  assim  a  vista  era impressionante. 

Ele  se  recostou  e  sorriu.  —  Já  está  tudo  ajeitado  no  novo  apartamento? 

Fiquei  surpresa  por  ele  ter  se  lembrado  —  positivamente  surpresa.  Eu  o  conheci  quando  fiz minha  segunda  entrevista  para  o  emprego  e  gostei  dele  logo  de  cara. 

—  Na  medida  do  possível, respondi.  —  Ainda  tem  algumas  caixas  espalhadas  aqui  e  ali. 

—  Você  veio  de  São Paulo,  não  é?  Uma  bela  cidade,  mas  muito  diferente  de  Seul.  Está sentindo  falta  das  pessoas de lá? 

—  Estou  sentindo  um pouco falta  do  falar português.  É  difícil  acostumar  com  o coreano. 

—  Espere  só  passar mais uns meses. Ele  sorriu.  —  Então...  é  seu  primeiro  dia,  e  você  é  minha primeira  assistente,  o  que  significa  que  a  gente  vai  ter  que  trabalhar  à  base  de  tentativa  e  erro. Não  estou  acostumado  a  delegar  tarefas,  mas  tenho  certeza  de  que  logo  pego  o  jeito. 

Eu  me senti  instantaneamente  à  vontade.  —  Mal  posso  esperar  para  receber  tarefas. 

—  Ter  você  por  aqui  é  um  passo  importante  pra  mim,  S/N.  Quero  que  seja  feliz  trabalhando aqui.  Você  toma  café? 

—  O  café  está  na  base  da  minha  pirâmide  alimentar. 

—  Ah,  uma  assistente  que  gosta  das  mesmas  coisas  que  eu. Seu  sorriso  se  alargou.  —  Não vou  pedir  pra  você  servir  café  pra  mim,  mas  não  me  incomodaria  se  me  ajudasse  a  aprender  a mexer  na  cafeteira  nova  que  instalaram  na  copa. 

Retribuí  o  sorriso.  

—  Sem  problemas. 

—  Seria  uma  decepção  muito  grande  se  eu  não  tivesse  nada  pra  você? Ele  coçou  a  nuca, meio  sem  graça.  —  Que  tal  a  gente  dar  uma  olhada  nas  contas  em  que  estou  trabalhado  pra ver  o  que  podemos  fazer?

O  restante  do  dia  passou  num  piscar  de  olhos.  Suho  conversou  com  dois  de  seus  clientes  e teve  uma  longa  reunião  com  a  equipe  de  criação  para  conceber  ideias  para  a  campanha  de uma  rede  de  escolas  de  ensino  profissionalizante.  Foi  fascinante  ver  pessoalmente  como  os diversos  departamentos  se  alternavam  para  levar  uma  campanha  da  teoria  à  prática.  Eu poderia  ter  ficado  até  mais  tarde  para  entender  melhor  o  funcionamento  dos  escritórios,  mas meu  telefone  tocou  às  dez  para  as  cinco. 

—  Escritório  do Kim Suho.  S/N  falando. 

—  Saia  logo  daí  pra  gente  ir  beber  tudo  aquilo  que  você  não  quis  ontem. 

O tom  imperativo  fingido  de  Cary  me  fez  dar  risada.  —  Tudo  bem,  tudo  bem.  Estou  saindo. 

Desliguei  o  computador  e  saí.  Quando  cheguei  aos  elevadores,  saquei  o  celular  e  digitei  uma mensagem  de  —  Já  estou  a  caminho  para  ele.  Uma  campainha  soou,  indicando  qual  dos elevadores  ia  parar  no  meu  andar.  Posicionei—me  diante  dele  e  voltei  minha  atenção  ao  envio da  mensagem.  Quando  a  porta  se  abriu,  dei  um  passo  à  frente.  Tirei  os  olhos  da  tela  para  ver aonde  ia  e  dei  de  cara  com  um  par  de  olhos  castanhos.  Prendi  a  respiração. 

O deus  do  sexo  era  a  única  pessoa  do  elevador.


Notas Finais


Espero que tenham gostado, 👋🏻😎.


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