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História Fora do meu alcance - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Yey eu voltei :)

O tema dessa história será absolutamente direcionado a dano e conforto emocional com o romance que vocês estão habituados a ver na minha escrita. É muito bom poder voltar e me sentir inspirado para produzir novamente, e eu mal posso descrever a saudade imensa que senti de tudo isso. As atualizações serão semanais, porém, caso eu sinta que estou muito adiantado, eu estarei publicando capítulos mais cedo.

Espero que gostem ❤︎❤︎

Capítulo 1 - Sussurros Descuidados


 

Josuke custou a abrir seus olhos, sentindo uma breve tontura gracejar seus sentidos conforme ele se levantava. O toque macio e suavemente adorável de seu cobertor juntamente ao caráter rugoso na ponta de seus dedos o alertou de que ele estava na sala: sua garganta era seca como o inferno enquanto ele se esgueirava no sofá, marchando a passos não tão delicados rumo à cozinha e pegando um copo d’água. Seu corpo desidratado implorava por uma segunda dose assim que ele acabou a primeira, então Josuke se apoiou na bancada e respirou fundo.

 

Tudo que ele se recordava era a sensação imunda que o consumiu a noite inteira, onde sua estrutura era dolorosa e sua boca arranhada em uma sólida ânsia de vômito.

 

Quer dizer, ele não podia encontrar muitas opções que pudessem responder a razão pela qual ele havia renunciado sua cama espaçosa pelo seu sofá estreito e duro no primeiro piso. No entanto, foi uma atitude esperada de um bêbado corriqueiro que não sabia por onde andar. Ele não precisou esperar tanto por uma resposta mais explícita, pelo menos não depois que ele viu um homem de pé e próximo ao seu corpo, encarando-o com seus olhos verdes assíduos que lhe disseram que a situação era muito pior do que ele imaginou.

 

Esse homem foi ninguém menos do que Kishibe Rohan.

 

“... Você está aqui.” Josuke disse, mais para si mesmo do que para qualquer um em uma tentativa estúpida de auto-convencimento. “Eu não quero parecer grosseiro, mas por que você está na minha casa?”

 

O nariz de Rohan se enrugou em uma careta confusa. Ele cruzou os braços, ocultando a porção visível de seu abdômen. “Você não se lembra de nada do que aconteceu ontem, Higashikata?”

 

O jovem adulto tensionou suas sobrancelhas grossas, observando um pouco mais a expressão desgostosa que o mangaká estava dirigindo a ele. Suas roupas eram consideravelmente mais formais do que ele era habituado a ver em seu corpo esbelto pelas calçadas da cidade, entretanto, sua feição derrotada e suas olheiras profundas diziam que ele não parecia muito longe da situação em que o mais alto estava.

 

Ele assoprou quando finalmente se deixou pensar melhor no dia anterior, permitindo que determinadas memórias pretéritas viessem à tona. “Estávamos na formatura de Koichi?”

 

Propriamente, na graduação do homem mais baixo. Josuke ainda podia visualizar a mesa larga e chamativa do bufê, além das enfileiradas garrafas de vinho tinto e bebidas coloridas chamando-o sem descanso – o que ainda não explicou a razão pela qual a maior celebridade de Morioh estava em sua casa nesse momento.

 

Isto é, Rohan não foi apenas uma celebridade. Ele não era só um homem rico e famoso entre milhões de pessoas que apreciavam o seu trabalho, mas também foi alguém que, entre todos os outros, nunca estaria aceitando entrar em sua residência por conta própria. Os anos fizeram bem à rivalidade existente entre Josuke e Rohan, mas não fizeram mudanças excepcionalmente significativas em seu relacionamento.

 

Ele tragou, não percebendo quando o mesmo se aproximou sutilmente dele e apontou para o purificador de água ao seu lado. “Eu posso pegar isso?”

 

“Claro. Pegue o quanto quiser.” Josuke se distanciou, um tanto surpreso com o modo educado na qual o artista o pediu. O mais alto observou como o mangaká tomou um dos copos, atento ao modo como seu Pomo de Adão vibrava em sua clara expressão de sede (o que o levou a desviar seus olhos azuis assim que ele foi pego olhando). “Rohan?”

 

“Sim?”

 

“Eu estive muito bêbado? Você precisou me trazer para casa?” Ele questionou, sentindo o clima desconfortável se ampliando ao seu redor. No fim das contas, Josuke rezou para que não fosse algo mais constrangedor do que isso.

 

Um nervosismo incomum o invadiu com essa pequena possibilidade.

 

“Não exatamente.” Rohan deu de ombros, porém um pouco mais defensivo do que estava anteriormente ao passar pela porta. Seu rosto adquirindo uma característica levemente tímida e um rubor incomum pinicando a ponta de suas orelhas. “Eu acho que eu sou aquele que se tornou mais alterado do que o habitual ontem à noite.”

 

Foi inevitável que Josuke deixasse seus lábios se abrirem em um semblante exímio de surpresa. Ele se segurou muito para não sorrir nesse momento, conquanto uma grande parte dele estivesse pensando em como ele gostaria de poder se lembrar da figura embriagada de Rohan. Algo dizia que essa era uma visão que você não deveria deixar escapar.

 

Rohan tossiu, eliminando qualquer hipótese que pudesse existir de que ele obtivesse mais informações sobre isso. “Eu não costumo beber muito álcool. Por alguma razão, eu acho que você decidiu deixar seus instintos politicamente corretos agirem e acreditou que deveria me tirar de lá antes que eu fizesse algo ilegal.”

 

Josuke não estava de plantão na última noite, então não havia motivos para que ele desse suporte a uma atitude como essa: apesar de que, em todos os efeitos, ser um policial exigia exercer seu oficio até mesmo fora de seu local de trabalho.

 

“Eu posso não me lembrar disso, mas eu tenho certeza que apenas o fiz porque estava preocupado com você. Eu não preciso ser um policial para proteger os meus amigos.”

 

“Desde quando nós somos amigos?” Rohan resmungou - um tom de vermelho brilhante tingindo suas bochechas em alguma espécie de raiva internalizada.

 

“Desde que você dormiu na minha cama?”

 

O artista parecia prestes a rebatê-lo, quando seus olhos se arregalaram repentinamente. Josuke demorou um pouco a processá-lo, até se dar conta do que havia dito.

 

Porra, não isso o que ele quis dizer.

 

“M-Me desculpa. Isso soou-”

 

Rohan parou na porta principal, soltando um arquejo tão gutural que o outro pôde sentir um calafrio percorrer sua espinha. O artista mordeu o lábio inferior, ainda evitando encará-lo. “Eu não tenho motivos para estar aqui. Meu plano era sair sem que você percebesse e, se tivesse a sorte, você nem mesmo saberia que eu estive aqui. No entanto, eu cometi o erro de decidir que deveria conferir isso e talvez usar Heaven’s Door para te fazer esquecer.”

 

Higashikata deixou um sorriso torto escapar depois disso. Ele precisou esfregar as próprias têmporas para ter certeza de que ele estava escutando todos os sons corretamente e que tudo não passava de uma ilusão.

 

Rohan continuava a mesma pessoa teimosa e egocêntrica que ele sempre foi. “Por que diabos você usaria seu stand em mim?”

 

“Ninguém deve ver Kishibe Rohan vulnerável.” Ele simplesmente respondeu: como se estivesse esperando por essa pergunta (ou como se apenas fosse algo extremamente natural que ele não percebeu o quão contestável parecia ao decretá-lo em voz alta). “Eu queria ter certeza de que não disse nada que você não deva saber.”

 

“Há coisas que eu não deva saber?”

 

 Todos têm coisas a esconder, mas existia algo errado na forma que Rohan estava fazendo isso.

 

O mangaká o encarou nesse minuto. Seus lábios escamados pelo frio e ligeiramente borrados em algum tipo de coloração avermelhada abrindo e fechando em incerteza constante, o que distraiu Josuke de qualquer outro detalhe. Ele se viu questionando a razão pela qual ele usava esse tipo de coisa, contudo, uma grande parte dele pensou que não era relevante. Combinava com Rohan, e ele estaria cometendo um grave erro se dissesse o contrário.

 

Kishibe balançou a cabeça, libertando-o de seus devaneios elucidados. “Por que eu deveria me justificar para você? Você não passa de uma criança grande que não consegue suportar a ideia de ter inimigos. Você não se importa de verdade.”

 

 “Você não pode afirmar essas coisas sem nem mesmo me conhecer, Rohan. Eu estava tentando ajudar você.”

 

O mais velho estalou a língua no céu da boca, desviando seus olhos verdes do usuário com destreza absoluta. Ele girou a maçaneta, ajustando suas roupas amassadas antes de passar por ela.

 

“Você não sabe o que estava tentando fazer, Higashikata Josuke.”

 

 

-

 

 

Josuke passou pelo corredor de alimentos congelados, pairando em alguma seção acerca de produtos enlatados e não tão saudáveis que ele costumava comprar raramente. Não que ele não confiasse em suas próprias habilidades culinárias – ou sequer naquilo que sua mãe ou ensinou – mas, neste momento, ele sabia que não conseguiria preparar nada mais eloquente para o jantar.

 

 Todos os seus músculos doíam naquele fim de tarde: alguns hematomas estavam espalhados pelo seu corpo, além de um par de cortes frescos e roxos em seu rosto devidamente enfaixado. Josuke tinha tido um dia difícil no posto policial por conta de um invasor que decidiu que seria uma boa ideia roubar um resort de férias em plena luz do dia (e justo na ressaca do policial mais jovem). Foi uma dor de cabeça ter de lidar com tudo isso a par da náusea estressante que estava se formando em suas fibras em consequência de todo o álcool que ele esteve ingerindo no dia anterior. Portanto, escusado seria dizer que o mesmo não possuía grandes energias para elaborar uma refeição mais convincente do que macarrão instantâneo.

 

Higashikata suspirou ao passar uma quantidade relativa a três pacotes de lámen para a cesta, pensando que seria o suficiente para que ele se mantesse satisfeito pelo resto da noite – e também como alguém que morava sozinho e não planejava receber visitas.

 

 A verdade é que, por trás de todos os acontecimentos extenuantes, Josuke sabia que existia um deles que definitivamente poderia abstê-lo de toda e qualquer fonte de energia: desde que ele se tornou consciente até o instante em que ele se deitou em sua cama e se lembrou do perfume inegável que havia se instalado nela.

 

 Ele não conseguia se esquecer de Rohan.

 

 A maneira como ele se retirou naquela manhã, com uma angústia inexplicável e motivos supérfluos que o policial julgou como incapazes de justificar. O mais novo não precisou conhecê-lo muito bem para saber que o artista estava escondendo alguma coisa, e também não precisou dele para ter a certeza de que era relacionado ao que aconteceu anteriormente. Ele desejou poder se lembrar, se martelando por horas a fio. Desejando identificar qualquer rastro que pudesse dizê-lo o que ele tinha feito de errado. Higashikata esteve absorto nisso, mais uma vez reflexivo ao passo em que varria o setor de bebidas. Ele se questionou a respeito da origem de seu desejo por estar em um lugar tão específico e como suas pernas o fizeram concluir que esta era uma boa ideia.

 

 Contudo, Josuke já estava observando as garrafas de uísque há alguns minutos.

 

“Você vai levá-lo?”

 

Ele pulou imediatamente no ar, sentindo seu coração acelerar em uma maratona irrevogável. O mesmo assoprou, tentando recuperar seu fôlego ao se virar para trás. “Koichi. Deus, você me assustou.”

 

O homem de cabelos grisalhos esculpiu uma risada espalhafatosa ao seu lado, dando pequenos tapinhas em sua cintura, na qual representou a única parte do corpo de Josuke que ele poderia alcançar nesse momento. “Desculpe. Eu estava indo ao caixa quando te vi e decidi que deveria conferir como você estava.” Ele explicou, apontando para sua esposa na outra porção do estabelecimento. Higashikata olhou superficialmente para Yukako, acenando para ela de volta ao constatar que ela estava de bom humor hoje.

 

O menor tossiu, evidenciando a posição excêntrica em que o maior estava ao permanecer entre o imenso refrigerador e a prateleira de bebidas enlatadas. “Bem, eu confesso que não esperava ver você cogitando beber tão cedo outra vez.”

 

O policial se afastou rapidamente, disfarçando suas intenções prévias – embora ele soubesse que não poderia mentir para Koichi. “Eu só estava olhando, de qualquer maneira.”

 

“Entendo. Eu acredito que seja melhor dessa forma, você parece abatido. Deveria dar um tempo até se recuperar.”

 

Josuke se sentiu confuso ao notar o modo enfático como seu melhor amigo descreveu seu estado atual. De acordo com todas as memórias que ele pôde obter até esse instante, tudo deveria indicar que ele não havia se embebedado além do que imaginou. Ele não teria conseguido ajudar Rohan nessa circunstância, então ele apenas decidiu ignorar suas deduções.

 

 “Eu queria agradecer você por ter vindo à minha formatura. Foi muito importante para mim.”

 

O oficial curvou calmamente os lábios, incapaz de se conter o bastante para não estender sua mão direita e afagar a cabeça do homem mais baixo, que bufou em resposta.

 

 “Você não deve me agradecer, Koichi. Nós estamos muito orgulhosos de você. Tenho certeza que Okuyasu também está, mesmo que ele não tenha estado lá para ver isso.” Tornou-se uma tarefa árdua vê-lo desde que ele havia se integrado às Forças de Autodefesa do Japão, servindo como um suboficial militar em Tóquio.

 

 O grupo ainda podia se encontrar em determinadas épocas do ano, onde todos estavam menos ocupados de seus encargos e possuíam o bônus de eventos comemorativos, como o Ano Novo ou o Dia da Constituição. Em suma, eles nunca estavam se afastando totalmente. Entretanto, foi incomparável com a época em que eles eram apenas adolescentes corajosos que se aventuravam generosamente além de batalhas contra usuários de stand e serial killers que ameaçavam a cidade.

 

Não havia muito que dizer sobre isso, porém Josuke sabia que eles estariam se comunicando em breve. “Sim, você está certo.” Koichi apertou seu maxilar, demonstrando uma despedida eminente. “Foi bom encontrar você aqui, Josuke. Espero que você não leve nenhuma dessas garrafas quando eu for embora e se cuide adequadamente. Eu estive verdadeiramente preocupado com você ontem e me sinto aliviado que Rohan tenha te ajudado a se recompor e te levado para casa.”

 

Josuke ergueu uma sobrancelha ao terminar de ouvi-lo.

 

 “O que?”

 

Ele sorriu para si mesmo, revirando os olhos na direção do homem de uniforme “A propósito, preciso me certificar de agradecê-lo por isso. Eu nunca pensei que ele estaria se esforçando para me manter feliz a ponto de cuidar de você como fez ontem. Rohan é realmente um grande amigo.”

 

Higashikata sentiu a palma de suas mãos suadas quando ele entendeu o que estava acontecendo. Ele engoliu em seco sua própria saliva, refletindo acerca do intenso comportamento que presenciara horas atrás. “Então... Rohan não estava bêbado?"

 

O jovem franziu o cenho. As peças do quebra-cabeça que Josuke estava montando começando a se juntar.

 

“Rohan se absteve de ingerir álcool por conta de sua reputação como mangaká anos atrás. Eu pensei que você soubesse disso.”

 

"Eu me esqueci." O policial riu nasalmente, se afastando de forma gradual do corpo de Koichi e o deixando cético de sua conduta. "Obrigado por me lembrar! Vejo você outro dia, Koichi."

 

Ele se locomoveu ao caixa em uma questão de pouquíssimos segundos, pagando suas compras e entrando na viatura. À medida que Josuke dirigia rumo à sua própria casa, ele pensou sobre as palavras de seu melhor amigo:

 

Se Kishibe Rohan não havia estado bêbado enquanto eles estavam juntos, então o que significaram todas as recordações turvas do mesmo vomitando em seu banheiro? E, principalmente, por que Rohan havia mentido para ele?

 

Foi algo que Josuke estava disposto a descobrir, independente de toda e qualquer consequência que ele precisasse enfrentar no caminho.

 


Notas Finais


"George Michael - Careless Whisper"


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