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História Fora do meu alcance - Capítulo 2


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Notas do Autor


A atualização era pra ser semanal, mas eu não me sinto nada bem nos últimos dias e o apoio de vocês está sendo uma das únicas coisas que ainda é capaz de me manter acordado, então decidi publicar mais cedo.

Espero que tenham uma boa leitura e, antes de tudo, tenham atenção para os AVISOS da história, pois esse capítulo pode possuir alguns gatilhos sobre determinados temas sensíveis.

Capítulo 2 - Coração de Ouro


 

Higashikata olhou para o relógio em seu pulso, percebendo como os ponteiros delimitavam o tempo perdido que ele calculou erroneamente três anos atrás, quando o adquiriu em seu aniversário de vinte e dois anos.

 

Havia sido um presente de seu pai britânico, enviado diretamente de alguma grande cidade elitista cujo seus empregados selecionaram a dedo e a gosto: um dos mais elegantes que ele pudesse encontrar.

 

Inicialmente, Josuke não entendeu as intenções reais de seu pai com um ato tão esporádico. Não que Joseph Joestar deixasse de oferecer presentes significativos desde que eles se conheceram em sua adolescência, mas tudo que o policial pôde se recordar de um ato correspondente era o financiamento de sua faculdade – quando Josuke enfim atingiu sua maioridade e concluiu o ensino médio. Depois disso, os presentes se tornaram algo mais incomum, e Higashikata não precisou questionar-se a respeito deles.  A questão é que, diante de um objeto luxuoso, ele não pôde julgar ou medir sua necessidade (senão seu possível significado).

 

Somente quando ele teve a chance de abrir a caixa sofisticada e colorida em um dourado claro e, ao mesmo tempo, vivo e emudecido, Josuke entendeu a mensagem que Joseph quis transmitir até ele.  “Para que você nunca esqueça que o tempo pode mudar muitas coisas, exceto o seu esmerado coração de ouro”, foi o que ele descreveu em um dos cartões, arrancando um sorriso pretensioso do jovem adulto – e talvez um par de lágrimas.

 

Todavia, por mais que ele tentasse acreditar que não passava de um simples presente a despeito de todos os outros que poderiam vir, havia outra coisa que Higashikata Josuke não deveria esquecer: o tempo não só muda, mas como também leva coisas. Joseph estava velho, e ele sabia disso. Essa foi a razão para o relógio estar no pulso de Josuke agora, mesmo depois que seu funeral aconteceu há pouco mais de um ano. Ainda era um relógio caro e insignificante se você pensasse no simples fato de que ele era efêmero como qualquer outra coisa, e foi justamente nisso que Josuke se apegou nos primeiros momentos.

 

No entanto, o luto o fez perceber que nem tudo é apenas o que você pode enxergar.

 

Ele o encarou por uma última vez no posto policial, suspirando assim que os cinco minutos de atraso indicaram que o seu horário de almoço havia começado.  Eventualmente, Josuke deveria consertar a pontualidade. O oficial atravessou o estacionamento, entrando na viatura mais uma vez: sem embargo de que, infelizmente, não para se alimentar. Seus planos estavam ocupados para uma pequena visita à porção leste de Morioh, onde jazia um mangaká solitário e consideravelmente arrogante da cidade.

 

A casa de Rohan era, sem nenhuma dúvida, um lugar espaçoso. A maioria optaria por denominá-la como uma mansão ao descer no distrito comercial depois da estação, presenciando a enorme construção que – para uma amarga piada do destino – abrigava apenas um residente. Ele não foi tão modesto ao buscar por uma moradia mais exuberante e nobre enaltecendo uma sala de estar, uma de jantar, cozinha e sótão, além de sete outros quartos. Em uma visão geral, você concluiria que havia sido um grande exagero, e que nem mesmo Rohan poderia preencher todos os aposentos adequadamente (e ele sequer foi alguém que gostava de festas, e muito menos pessoas). Josuke pensou nisso sempre que teve a chance de adentrá-la, apesar de representar um número tediosamente baixo.

 

Confraternizações, encontros de estudos, visitas inexplicáveis e apenas isso resumiu o que o levou a pisar na estrutura pomposa da casa que um dia ele ajudou a incendiar, no qual todos eles só foram possíveis graças às fracassadas vezes em que ele o procurou com o objetivo de obter sua anistia. Mas essa era uma situação muito mais expressiva do que todas as outras. Em realidade, muito mais importante - se Josuke tivesse que denominá-lo. 

 

Ele subiu as escadas com a melhor postura pacífica que encontrou, ajustando seu quepe em sua cabeça (que escondia uma boa parte de seu pompadour) e se preparando para apertar a campainha do artista com suas luvas brancas. Suas mãos tremiam inexplicavelmente no instante em que ele se aproximou do interruptor e, de repente, a porta se abriu sem que ele nem precisasse terminar de tocá-la.

 

Uma figura devidamente esbelta e arrumada surgiu atrás dela, com uma feição incrédula e sobrancelhas finas juntas. “O que diabos você está fazendo aqui, Higashikata?”

 

A forma de tratamento o fez se sentir intimidado, e talvez quase disposto a desistir quando ele se lembrou de sua autoridade pública. O usuário mais jovem enrijeceu sua postura, vendo-o erguer uma sobrancelha pela maneira como Josuke usou de sua diferença de altura para tentar tomar seu controle.

 

Ele murmurou: “Eu ainda estou no meu expediente, então acho que seria apropriado se você se referisse a mim como oficial.”

 

“Você está aqui por causa do seu trabalho?” Rohan questionou, cruzando os braços e se apoiando à porta: exibindo mais uma vez seus incríveis bíceps desnudos e impossíveis de ignorar.

 

Josuke não percebeu que estava prendendo sua respiração - pelo menos não até este momento.

 

“Ótimo.” Kishibe articulou, sem esperar por uma resposta ao abrir um sorriso largo e altamente sarcástico que criou uma série de questionamentos abrasivos no cérebro do policial. “Tenha um bom dia.”

 

Rohan estava simplesmente fechando a porta na cara de Josuke, quando uma ideia estúpida veio à sua mente. De fato, uma tão estúpida que incendiou seus neurônios a ponto de torná-los obsoletos o bastante para esquecê-lo de que essa era uma péssima decisão.

 

No momento em que Rohan a empurrou, Josuke colocou seu braço entre a abertura. Sem objeções, isso não deveria ter doído tanto quanto ele ou Rohan imaginaram, mas esse não foi o principal problema. Um gemido escapou da garganta de Josuke, fazendo com que - automaticamente - ele puxasse seu braço de volta. O artista poderia apenas tê-lo ignorado e aproveitado o curto episódio para se trancar na mansão, entretanto, ele sabia que essa não foi uma ação grande o suficiente a ponto de fazer Josuke recuar. E então, ele olhou para o policial: e depois, olhou de volta para o seu braço, onde uma mancha de sangue crescente começou a se tornar cada vez mais visível sob o uniforme que ele estava usando.

 

Rohan se aproximou dele após uma fração de segundos, o que o levou a se afastar assim que sentiu a ponta dos dedos do mangaká tocarem sua contusão coberta. “Josuke, me deixe ver.”

 

“Eu estou bem." Josuke não queria que Rohan tivesse que se sentir culpado por ele. Ele não queria que ele se sentisse em dívida, ou atribuído em algo que não fosse sua responsabilidade. "Eu não deveria ter tentado forçar você a me deixar entrar.”

 

Kishibe apenas pareceu ter se irritado ainda mais ao julgar pelo modo como seu rosto estava gradativamente atingindo diferentes tipos de tons de vermelho. “Cale a boca, eu sei que isso não foi o que machucou você!"

 

“Eu sou um policial, isso faz parte do meu trabalho.”

 

“E onde está o seu conhecimento básico de que ferimentos assim precisam ser tratados? Não seja ignorante, você é inteligente o bastante para saber que poderia pegar uma infecção e morrer.”

 

Um nervosismo estava começando a pinicar seu estômago. Ele não soube dizer se ele se tratou da natureza hostil de Rohan ou, simplesmente, a falta dela. Josuke não era habituado a vê-lo se importar, sobretudo consigo mesmo. Rohan era alguém que podia ser insistente e persuasivo quando queria e, como o esperado, também foi o melhor no que decidiu fazer.  Um homem que não suportava estar inconsciente de qualquer coisa, e que faria tudo que estivesse em seu alcance para trazê-lo à tona.

 

Higashikata se perguntou se ele deveria admirá-lo por isso, além de pensar que Heaven’s Door não poderia obter um usuário mais apropriado. “Eu já disse que estou bem, Rohan. Apenas me deixe ir.”

 

“Não.” Ele disse, apontando para o lado de dentro. “Entre, eu vou cuidar disso.”

 

“O que?” O policial esteve à beira de crer que poderia estar com alguma espécie de problema auditivo.

 

“Higashikata Josuke,” Rohan grunhiu, ou melhor, rosnou seu nome de modo que fez todos os pelos do maior se eriçarem. “eu tenho plena consciência de que essa estupidez é obra da sua óbvia falta de intelecto. Se você não entrar sozinho na minha casa agora, eu vou fazer você entrar.”

 

Josuke queria ter tido petulância suficiente para responder que ele não conseguiria, mas algo dentro dele (que esteve lutando impetuosamente com a sua ansiedade) foi maior do que qualquer vontade de sair e fingir que nada disso tinha acontecido.

 

A casa de Rohan não havia mudado consideravelmente desde a última vez que ele esteve entrando nela. Na verdade, se a lógica pudesse ajudá-lo a explicar, Josuke poderia facilmente dizer que determinadas teias de aranha e móveis microscopicamente calibrados em certas posições nunca haviam  – de fato – sido movidos ao longo dos anos.

 

As mesmas paredes sem fotografias, o mesmo eco inconsistente que ressoava por todo o espaço, até os mínimos detalhes mais minuciosos.  As mudanças realistas que podiam ser notadas deveras se resumiram à reparação da estrutura que Rohan precisou realizar no passado devido ao incêndio “acidental” que Josuke sabia muito mais do que deveria.

 

Ele sibilou um formigamento crescendo em seus músculos quando Rohan fechou a porta atrás dele, adentrando a sala de estar em direção às escadas mais largas após enviar um olhar refinado ao policial. "Sente-se no sofá. Eu vou checar se ainda tenho um dos meus kits de primeiros socorros, então não saia daqui."

 

Higashikata suspirou, ainda suspeito do que estava acontecendo ao se sentar em uma das poltronas e sentir todas as suas articulações estalando em um ruído contínuo. Rohan o fez entrar lá, mas ele nem mesmo tinha certeza se possuía o material correto para cuidar dele. "Como se eu pudesse ir tão longe."

 

O mais novo permaneceu imóvel, pensando silenciosamente na solidão de Rohan e no que aconteceria se algum acidente ocorresse e ninguém estivesse lá para ampará-lo. Ele teve a certeza de que nem mesmo seus milhões de fãs poderiam auxiliá-lo nesse momento.

 

 Porém, ele não teve muito tempo para pensar no assunto. Rohan apareceu pouco tempo depois que saiu, com uma maleta efetivamente pequena, mas generosa.

 

Ele se sentou próximo ao homem mais alto, colocando o objeto em seu próprio colo ao passo em que checava um dos frascos de antissépticos. "Acho que ainda está dentro da validade."

 

Josuke fez uma careta, balançando a cabeça. "Espero que sua comida não seja tão mal quanto a sua disponibilidade de medicamentos."

 

"Bem, não será você quem estará provando isso, de qualquer forma."

 

Rohan estendeu sua mão para ele, esperando.

 

Josuke teve alguns segundos de relutância antes de chiar em uma breve lamentação, deixando seu braço livre para que o mesmo pudesse examiná-lo.

 

Houve uma sensação estranha assim que os dígitos do artista começaram a trabalhar nele, puxando suas mangas o suficiente para que os arranhões nos braços de Josuke se tornassem mais aparentes. Ele não imaginava que suas mãos fossem tão macias, ou simplesmente tão delicadas. Contudo, Higashikata pensou que esse mero detalhe deveria pertencer ao fato de que Rohan era um mangaká e esses pormenores poderiam se interligar.

 

As sobrancelhas de Rohan ficaram mais unidas conforme ele observava o sangue seco nos ferimentos do outro, de repente beliscando sua pele machucada.

 

 "Merda, isso dói! Por que diabos você fez isso?!"

 

“Quem sabe.” Kishibe deu de ombros, se esforçando em continuar seu trabalho. 

 

Josuke deveria sair pela porta o mais rápido possível.

 

O mais baixo limpou as bordas regulares dos ferimentos de Josuke, higienizando as polegadas que estavam mais avermelhadas e limpando o excesso de sangue. O policial gemeu suavemente no instante em que Rohan precisou aplicar mais pressão em um dos cortes, fazendo-o estremecer perante a queimação quase insuportável da solução de iodo.

 

Rohan riu baixinho, interrompendo momentaneamente seu processo. "Isso é engraçado."

 

"Me ver sofrer?" Higashikata se queixou, vendo-o recolher algumas ataduras e balançar negativamente a cabeça.

 

"Vê-lo reclamar disso enquanto você já esteve praticamente empalado por dois enormes pedaços de madeira em seu corpo." Ele desdobrou, segurando o braço de Josuke de volta e preparando-se para enfaixá-lo, que se tornou instantaneamente imóvel. Rohan piscou quando percebeu o que havia acabado de dizer, olhando para a expressão vazia de Josuke com um semblante arrependido. "Me desculpe."

 

"Por que está se desculpando?" Higashikata perguntou, aumentando um pouco o volume de sua própria voz.

 

Rohan se encolheu na poltrona, demonstrando uma tensão que o policial não foi capaz de ler. "Eu não deveria ter te lembrado."

 

As coisas estavam começando a perder seu sentido, e Josuke se recordou do que o levou em direção ao local de Rohan em primeiro lugar.

 

"Você não me pediria desculpas por isso." Essencialmente se fosse algo que não deixou as pessoas claramente incomodadas, ademais da áspera realidade de que o mangaká também fez parte dessa história, onde Josuke não foi o único a ganhar novas cicatrizes internas há quase uma década. "O que eu te contei enquanto estive bêbado, Rohan?"

 

"Eu não sei do que você está falando." Ele respondeu, estabelecendo as mesmas barreiras protetivas que Josuke conhecia.

 

"Pare de mentir para mim. Eu sei que você não estava bêbado naquela noite e você não precisa ocultá-lo."

 

Os olhos esmeraldas de Rohan se arregalaram instantaneamente, porém não por muito tempo. Seu semblante desmascarado se contorceu em traços mais acusatórios, como se não compreendesse o motivo para o oficial estar novamente chegando nesse cenário.

 

 "Essa é a razão pela qual você veio até mim?"

 

Higashikata brincou com o tecido gelado de seu uniforme, fitando os esparadrapos e fitas micropore. "Existem lacunas que eu não consigo preencher."

 

Eles ficaram em silêncio, aguardando por tudo aquilo que precisava ser dito, mas que ninguém ousava dizer.

 

Naquela posição, onde Kishibe Rohan estava sentado ao seu lado e próximo à sua primorosa máquina de fax enquanto cuidava calmamente de seus ferimentos, Josuke percebeu como os últimos anos em que eles estiveram seguindo suas vidas tornaram Rohan pequeno. Isto é, ou tornaram Josuke grande, se você usasse alguma lógica. Ele parecia ainda mais delicado agora, sarcasticamente magro em comparação ao mais velho – o que foi engraçado, porque o artista não ficava para trás em questão de seus músculos definidos e estatura padronizada. Rohan nunca estaria sendo frágil, não importava em qual perspectiva Josuke olhasse. Assim, o outro parecia realmente mais decidido ao pegar um de seus curativos: tamanha tranquilidade que o policial piscou duas vezes antes de acreditar que, talvez, ele estivesse encarando toda aquela situação como algo natural.

 

O artista se espreguiçou, terminando de realizá-lo. "Você começou me contando como sentia que era um policial irresponsável.” O mais velho bradou, recuperando a atenção de Josuke, no qual sentiu uma onda de calor esquentar seu corpo quando ele entendeu o que o outro estava dizendo. “Eu sabia que você estava bêbado e, honestamente, eu não planejava lidar com isso. Porém, você continuou me perseguindo e insistindo em falar comigo. Eu apenas me cansei de tentar te evitar, então permiti que você falasse o quanto quisesse. Contudo, as coisas se tornaram cada vez mais embaraçosas conforme você continuava a murmurar, embora eu não soubesse exatamente sobre o que tudo se tratava.”

 

Josuke sentiu suas pernas ficarem fracas. Ele gesticulou para que Rohan prosseguisse, salientando seu pânico intrínseco ao mesmo tempo em que ele continuava a ouvi-lo e sua voz era explicitamente trêmula.

 

“Você disse que seu avô estaria enojado do que você se tornou, e eu senti que deveria questioná-lo a respeito disso. E então…" O mangaká fez uma pausa. Ele ergueu seu queixo, permitindo que Josuke o encarasse: seu rosto fino e delgado, além de sua pele de porcelana exalando sua complacência incomum que raramente blindava sua personalidade egocêntrica, mas que nunca deixou de fazer parte dela. "Você implorou para que eu usasse meu stand em você e te fizesse esquecer sobre Kira."

 

Higashikata continuou parado, sem esboçar nenhum tipo de reação. Rohan deixou de encará-lo em certo ponto, permitindo que ele refletisse em torno de seus próprios pensamentos.

 

Em realidade, o policial pensou que não houve palavra melhor para descrever o que ele estava fazendo.  Algo imundo, longe de todo e qualquer senso de justiça. 

 

Josuke sempre gostou de julgar pessoas. Alguma coisa dentro dele sempre vibrou nos momentos em que ele entrava através de discussões fundamentadas na certeza de que, no final de todas as contas, ele quem estaria ganhando. O título de pseudo-delinquente que o mesmo recebera no colegial não foi muito supérfluo enquanto ele esteve golpeando seu punho em valentões arrogantes e outros veteranos que não possuíam o mínimo de empatia. Foi um prazer poder ensiná-los aquilo que eles deveriam aprender, e Josuke pensou que não havia nenhum mal em fazê-lo. Ele acreditou que a habilidade de Crazy Diamond era uma resposta aos seus instintos impulsivos, coroando-o como o responsável por dar as pessoas o tratamento que elas mereciam: mesmo que isto significasse um cenário onde ele voltaria machucado para casa.

 

Essa situação continuou até o dia em que ele conheceu seus melhores amigos, ademais de um dos únicos informados a despeito da dura realidade que ousou derrubar as enormes muralhas que – por um longo tempo – estiveram protegendo falsamente a cidade de impasses maiores. A quantidade de pessoas que apareceram ao seu redor e que precisavam ser julgadas foi quase extenuante. Você não precisava procurar bastante para encontrar, entre os diversos tipos de mal-feitores, indivíduos de caráteres duvidosos e habilidades perigosas se você decidisse uni-las em primeira instância. 

 

Quando Josuke esteve sentado dentro de todas as paredes brancas do Hospital Budogaoka, com graves ferimentos por todo o seu corpo e inúmeras lembranças da batalha contra Kira Yoshikage, ele sofreu. Josuke chorou porque uma boa parte do amargo gosto da vitória que estava impregnado em seus lábios foi pelo motivo errado. Ele quis correr porque, se ele precisasse admitir, ele estava mais feliz porque pôde subjugar Kira do que salvar a cidade, e ele se odiou por isso.

 

Desse modo, ele se tornou um grande policial, que praticava abusos de poder quando entrava em intensas crises de estresse pós-traumático, punindo mais do que deveria em segredo. Certamente, Morioh não era segura nesses momentos, e Josuke desejou que ele pudesse deixar de existir.

 

No entanto, o homem que ele espancou no passado estava em sua frente agora, cuidando de seus ferimentos sujos como se fossem dignos de serem curados. A mesma pessoa que ele um dia julgou, não apenas pela sua intenção assassina contra as pessoas que Josuke mais amou, mas por conta de uma parte de si mesmo.

 

Ele sabia que tinha um penteado desatualizado como merda. Ele também sabia que não havia sentido em suas tentativas de justificá-lo, mas ele precisava de algo para culpar: e essa foi a única coisa que sua mente encontrou.

 

Rohan passou as mãos pelos próprios cabelos, quebrando toda a divagação que Josuke estava fazendo. Ele se levantou de seu assento, juntando todos os materiais na maleta. "Eu preciso continuar trabalhando em meu mangá. É o que eu estava fazendo antes de você aparecer."

 

Foi difícil acreditar, mas Rohan interrompeu seu trabalho por ele. O outro precisou se conter para não questioná-lo se a experiência que ele estava absorvendo ao cuidar de seus ferimentos foi apenas para referências em Pink Dark Boy, pensando que era melhor não enviá-lo além de seu limite por hoje.

 

O policial olhou mais uma vez para o seu relógio de pulso, vendo que restavam somente alguns minutos para que ele tivesse que retornar ao seu posto. "Certo. Meu intervalo também está se esgotando."

 

O mangaká o acompanhou até a porta: cada movimento mais silencioso enquanto eles ignoravam o que tinha acabado de acontecer.

 

Kishibe chamou sua atenção, cutucando moderadamente seu ombro esquerdo: o que enviou uma corrente surpresa por suas fibras.

 

“Não se esqueça de trocar o curativo regularmente. Você pode me procurar se estiver precisando de algum analgésico.”

 

Higashikata esteve estático nos segundos que se antecederam à fala de Rohan, transbordando um sentimento novo em seu corpo. Ele podia enxergar os flashes de luz em sua aura, como se uma atmosfera límpida estivesse se montando nas costas do artista. O oficial não conseguiu deixar de sorrir fraco com a maneira que seu cérebro o idealizou tão subitamente, aliviando a garganta.

 

O seu querido coração de ouro derreteu, lhe restando apenas um pedaço de cobre sujo e detestável em seu peito.

 

“Obrigado por isso, Rohan.”

 

O artista sequer se surpreendeu. Presunçosamente, ele se escondeu na penumbra da mansão, ocultando seu rosto o máximo possível – embora Josuke soubesse que ele também estava sorrindo. "Tch. Às vezes me esqueço de que você não é mais um adolescente hormonal, Higashikata Josuke, então eu descubro que não estou errado."

 

O jovem adulto cantarolou, prestes a descer as escadas. "Gosto da maneira como você contribui com a minha auto-estima." Assim, ele deu um último olhar a Rohan, que olhou para ele de volta.

 

"Apenas… Não se machuque de novo."


Notas Finais


Estresse pós-traumático não é brincadeira. Nos piores casos, o TEPT pode levar ao suicídio.

Casos de abuso de autoridade policial também são igualmente graves, portanto, se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, não hesite em procurá-la.

Obrigado por ler!


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