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História Fora do meu alcance - Capítulo 4


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Notas do Autor


Capítulo escrito à base de álcool. Não me levem a sério.

Capítulo 4 - Estupidez Ingênua


 

 “Você está bêbado.”

 

“Eu não estou bêbado.” Rohan rosnou, interrompendo momentaneamente o trajeto do garfo aos seus lábios para dar-lhe um olhar majoritariamente irritado. “Eu apenas sinto o meu corpo quente como uma tigela de chili.”

 

Josuke riu nasalmente da forma como as frases de Rohan estavam apontando para uma via contraditória às suas acusações. Seu rosto era vermelho como fogo e sua voz se tornou levemente arrastada. “Bem, eu não me lembro de ter apimentado a minha comida o suficiente para que você se sinta assim, então darei a responsabilidade ao álcool por isso.”

 

“Grande coisa. Você está constantemente me irritando sobre a minha auto-imagem enquanto está aqui agora, apontando minha tolerância a essas cervejas baratas somente porque eu elogiei seu prato.”

 

Exceto que, se ele parasse para pensar melhor, Rohan havia acabado de pegá-lo.

 

No entanto, ele ainda não se arrependia de ter convidado o mangaká para almoçar naquela tarde, depois de ter passado um bom tempo se esforçando na cozinha e lutando contra suas habilidades culinárias.

 

“Desculpe, acho que eu apenas não pude repará-lo muito bem.” Higashikata cantarolou após ingerir mais um pouco de sua cerveja modesta, sorrindo maliciosamente para a figura do homem mais velho na porção oposta da mesa. “Você poderia me dizer novamente?”

 

Rohan parou de comer. Ele retornou à sua expressão irritada, lambendo superficialmente os próprios lábios para se livrar do molho. O mangaká parecia mais impecável do que qualquer outro dia ao estar perfeitamente sentado em uma das cadeiras acolchoadas na cozinha de Josuke: suas pernas torneadas estavam cruzadas enquanto ele seguia o mesmo exemplo que o oficial, se embebedando de forma desinibida como quem tomava um gole de suco.

 

Josuke estimou que havia prestado mais atenção nisso do que realmente deveria.

 

“Seu macarrão é salgado. Tente trabalhar com menos sódio da próxima vez ou estará se tornando hipertenso.” O artista simplesmente disse, tamanha insensibilidade que fez com que o policial suprimisse o desejo de fazer beicinho.

 

“Definitivamente não foi isso o que você disse antes, mas vou acolher sua crítica. Eu não quero ver você doente também, de qualquer maneira.”

 

Josuke ainda podia ouvir o suspiro suave de Rohan depois de dizer o quão delicioso seu almoço estava, comendo em uma velocidade quase assustadora para um adulto de seu tamanho.

 

“O que isso quer dizer?”

 

“Quer dizer que você essa não será a última vez que você estará provando da minha comida.” O mais alto revelou seriamente, enfim terminando sua própria refeição. O mangaká ainda não parecia tê-lo compreendido ao arquear uma sobrancelha até ele. Higashikata apenas se esticou, apoiando as mãos em seu rosto ao sentir que o álcool já havia começado a fazê-lo se sentir mais corajoso para enfrentar as facetas que Rohan o exibia. “Eu estive prestando atenção à forma como você se alimenta nos últimos dias. Seus hábitos alimentares são uma droga e eu decidi que estarei ajudando você a corrigir isso.”

 

Isto pareceu ter pego Rohan de forma desprevenida. Ele olhou para ambos os pratos sobre a superfície, como se estivesse examinando-os antes de contorcer sua fisionomia em algo mais digestivo. “Eu não sou uma criança, Josuke. Felizmente, eu sou um adulto e sei cuidar de mim mesmo. Você não pode tirar conclusões precipitadas somente porque eu vomitei em cima de você.”

 

Lá estava seu caráter defensivo. Josuke percebeu que os muros que Rohan construíam eram muito menores quando você os encarava de perto.

 

“Você considera o costume de alternar entre baixíssimas quantidades de comida em um dia e se alimentar até sua barriga estiver prestes a explodir em outro?” Ele o rebateu. Sua voz mais acentuada do que anteriormente de modo que atraiu sua atenção.

 

Rohan estalou indiferente, se preparando para pegar sua lata quando Josuke a afastou dele – o que o fez revirar seus olhos e se recostar à cadeira.

 

“Não pensei que você estivesse trabalhando na área investigativa agora, porém, eu serei obrigado a passá-lo.”

 

“Eu não estou brincando, Rohan.”

 

O artista cruzou os braços. “Isso não é da sua conta.”

 

“Apenas me escute, sim?” O policial pediu calmamente, soltando sua bebida. Todavia, Kishibe não deu deixas de que estaria cedendo-o tão cedo. “Eu posso fazer o seu almoço todos os dias e lhe trazer uma porção no meu turno. Eu sei que eu não estou nada perto da culinária perfeita de Tonio, mas ele absolutamente não seria capaz de trazer sua comida até você na proporção e horas corretas.”

 

Um tipo estranho de silêncio preencheu o espaço entre eles. Não que Josuke tivesse dito algo especialmente excêntrico, ou basicamente errado com suas palavras de uma forma incomum. Na verdade, nada do que ele havia acabado de proferir foi uma coisa nova ou reservadamente impulsiva.

 

Josuke estava sério ao suscitar que, durante determinado período, ele o observou. Tornou-se um hábito percorrer o restaurante Trussardi mais vezes ao decorrer de toda a semana, ademais de apreciar a vista que nem todos teriam a chance de acolher senão ver como Kishibe Rohan costumava efetuar suas refeições. De fato, ele esteve pensando por um tempo em toda a sua proposta antes de convidá-lo até sua casa, além de providenciar a certeza de que Rohan não estaria recusando.

 

O policial ainda não era um especialista em desdobrar todos os seus sentimentos e emoções mais profundas em relação ao mangaká, mas ele pensou que, desde que ele fosse o único que pudesse ajudá-lo, ele poderia fazê-lo sem pensar duas vezes.

 

Kishibe estava estático até esse momento: seu único movimento visível sendo os seus dedos longos contornando superficialmente a borda da lata vazia.

 

Ele murmurou algo inaudível após um suspiro mais longo, sorrindo para si mesmo. “Você me assusta bastante, Higashikata Josuke. Está começando a me fazer acreditar que você está armando alguma espécie de chantagem emocional cabulosa onde minha paz está sempre em jogo.”

 

“Eu não chegaria a um nível tão baixo.“ Josuke assoprou, se levantando da mesa ao pegar seu prato, além do exemplar de Rohan assim que ele foi capaz de acabar.

 

Os dois se juntaram depois disso, limpando silenciosamente a cozinha à medida que Josuke enxaguava e armazena todas as louças e Rohan as secava. O artista estava limpando entre os dedos no instante em que fitou o relógio em sua parede, forçando os olhos para enxergar os ponteiros minúsculos.

 

“Huh. Eu preciso ir embora antes de ficar bêbado.”

 

Josuke se virou, terminando de guardar todos os talheres em seus armários. Contudo, ele não foi muito apto de impedir sua risada ao imaginar o que levaria Rohan a estar receoso com a possibilidade de ser visto tão alterado. Ele ainda tinha algumas latas no freezer. “Não é como se tivéssemos mais coisas para se esconder.”

 

Kishibe manobrou seu foco, pronto para pegar seu casaco em um dos suportes próximos à entrada. “Não é com isso que eu estou preocupado, Josuke.”

 

Higashikata respirou fundo, assistindo as costas largas do mais baixo se afastarem gradativamente. Ele se lembrou de quando o mesmo saiu por ela pela primeira vez, angustiado em inseguranças sem sentido e prestes a se acomodar novamente à sua casa vazia e solitária, com somente a cor morta das paredes altas para lhe fazer companhia.

 

Por que ele não queria que Rohan fosse embora?

 

“Não precisamos beber mais.” Ele exclamou impulsivamente, fazendo com que o artista parasse. “Nós... Podemos assistir a um filme.”

 

“E qual seria a sua sugestão?” Rohan questionou. Um sorriso crescendo em seu rosto atraente impossível de se esquecer.

 

Josuke seguramente não pensou nisso. Ele pescou qualquer coisa que aparecesse em sua mente em um curto intervalo de tempo – e que ele tivesse a certeza de estar devidamente armazenado em sua pilha de discos.

 

O policial tragou, apoiando suas mãos atrás de seu próprio corpo.

 

 “Postman Blues.”

 

Rohan se afastou da maçaneta, agitando a cabeça ao depositar seu casaco de volta ao suporte.

 

“Você me convenceu.”

 

 

-

 

 

Josuke olhou para o seu relógio de pulso. Fazia aproximadamente trinta minutos desde que eles haviam começado a assisti-lo. Eles estavam sentados em seu sofá a certa distancia segura que esteve deixando o policial inquieto nos primeiros momentos, uma vez que ele se certificou de que Rohan não passasse frio ao dividir sua melhor coberta. Os dois estavam particularmente bem concentrados ao filme, embora ambos já tivessem visto sua apresentação desde a data de estreia – o que aconteceu antes da transição do milênio. Houve apenas alguns comentários sarcásticos pela escolha óbvia que Josuke efetuou, tudo porque o filme se tratava de envolvimentos policias.

 

A trama estava em um cenário tranquilo quando Higashikata decidiu se revirar no sofá, chamando a atenção do mangaká apenas para reviver uma questão que esteve confundindo-o desde que eles começaram.

 

“Quando você irá me dizer o que te levou a desonrar os seus imbatíveis votos contra o seu consumo alcoólico?”

 

Rohan relaxou seu maxilar, como se estivesse aguardando por essa pergunta como quem esperava pelo jantar. Ele também se acomodou na poltrona, se protegendo o máximo que pôde do frio que cutucou suas pernas.

 

“O meu editor.”

 

Higashikata agitou a cabeça. “O que?” Ele interrogou, vendo-o pigarrear.

 

“O meu editor me abandonou, está tudo acabado. Ninguém quer trabalhar comigo.”

 

Josuke ficou paralisado por alguns segundos, ousando ao pensar nas chances de perguntá-lo se Rohan estava apenas brincando com ele. Ele acreditou nessa hipótese porque, mesmo quando isso poderia se tratar de uma verdade, ele jurou que seria o último a descobrir.

 

Todavia, Rohan não parecia nada anedótico ao encará-lo com seus olhos verdes cansados e sérios.

 

Kishibe grunhiu de modo súbito, balançando a cabeça. “Talvez eu seja um tanto responsável por isso. Honestamente, eu pareço enferrujado.”

 

“Deus, Rohan, você está absolutamente bem para mim.” Josuke confessou, sendo o mais sincero que pôde em toda a sua vida. Ele interrompeu a reprodução do filme rapidamente, se dedicando a direcionar todo o seu foco ao artista.

 

“Eu não parecia bem para ele.” Rohan riu de seu próprio infortúnio, fazendo com que Josuke pudesse sentir seu coração ridiculamente apertado. “Ele me trocou por um mangaká sórdido que apenas escreve sobre peitos e lutas sem sentido. Meu mangá é melhor do que isso.”

 

Higashikata não percebeu quando esteve viajando para lugares de seu passado à medida que Rohan falava.

 

De repente, ele sentiu a chuva batendo em seus ombros e a voz de seu superior clara em seus ouvidos. Seu tom era atencioso enquanto ele elogiava um dos outros recrutas que faziam parte da academia e que pertencia ao mesmo grupo de Josuke, afagando seus braços animadamente do mesmo modo que costumava fazer com ele. Isto é, até presenciar uma crise estritamente violenta. E, então...  Digamos que ele adquiriu um novo favorito. Um mais brilhante e menos defeituoso. Um mais perfeito. Um menos humano.

 

Higashikata suspirou. Não havia motivos para ele estar se recordando disso agora. Ele levou as mãos atrás do pescoço, jogando uma das almofadas sobre o colo do artista.

 

“Não se preocupe tanto. Eu tenho certeza que você voltará em breve. Existem inúmeros editores incríveis no Japão e eles estariam sendo tolos se não o escolhessem.”

 

Rohan se contorceu ao seu lado, bufando ao devolver seu movimento. Josuke se atreveu a provocá-lo um pouco mais com a ponta de seus pés gelados, o que fez Rohan tremer e xingá-lo mais alto, devolvendo a almofada em seu rosto. “Esse é o meu álibi, espero que esteja satisfeito ao descobrir sobre a minha humilhação. Agora, coloque o filme de volta! Eu quero me lembrar da exata expressão que Sawaki fez ao descobrir a carta sobre a garota no hospital.”

 

O policial rolou seus olhos. “Como você diz.”

 

Eles continuaram a assisti-lo, um tanto mais dispostos para interações maiores depois disso. Josuke efetuava piadas sem fundamentos sobre as cenas dramáticas, enquanto Rohan apenas zombava de suas perspectivas supérfluas como um verdadeiro crítico, desdobrando todos os conceitos mais profundos sobre a trama.

 

Eram seis da tarde quando tudo acabou. O oficial estava quase cochilando em seu sofá no segundo em que o artista balançou seus ombros: os créditos finais sendo exibidos em sua TV de plasma.

 

Ele tratou de se manter acordado, insistindo em acompanhá-lo até a porta. O mais velho estava novamente recolhendo sua peça como fizera anteriormente, o que levou Higashikata a se recordar de um detalhe importante.

 

“Okuyasu virá na próximo mês.”

 

Kishibe o olhou de soslaio, agasalhando-se em uma espécie de câmera lenta. “Eu não me lembro de nenhum feriado tão iminente.”

 

“As nevascas estão mais expressivas esse ano. Tóquio estará enfrentando uma especialmente agressiva em breve e eles lhe deram uma folga.” Josuke o explicou, se esforçando em seu estado embriagado de sono para trazer as palavras do suboficial à tona em seu cérebro. “Embora seja por poucos dias, eu estou feliz em saber que poderemos vê-lo de novo tão cedo.”

 

O mangaká assentiu após uma breve pausa, marchando em direção à porta. Ele sorriu subitamente, o que fez o mais alto se sentir majoritariamente confuso assim que o mesmo segurou sua barriga. “Faça katsudon na próxima semana.” A porta se abriu, emoldurando a neve derretendo e se acumulando nas ruas em camadas brancas e espessas. “É o meu prato favorito.”

 

O menor parou mais uma vez, respirando profundamente antes de se virar para ele.

 

O rosto de Higashikata estava preenchido por um vermelho brilhante, evitando fitá-lo em uma feição envergonhada que Rohan quis desenhar. Sua barriga parecia coçar internamente em uma aflição prorrogada na forma de úlceras gástricas que representavam suas borboletas, batendo suas asas incansavelmente pela parede de seu estômago.

 

O mais novo semicerrou seus olhos, enfim reunindo seu orgulho em frangalhos para questionar o que esteve preso às suas lembranças por um longo tempo.

 

“Eu flertei com você?” Ele começou, assistindo o modo como os brincos dourados de Rohan balançavam ao vento gélido, torturando sua pele de porcelana em meio à neve. “Eu quero dizer, enquanto eu estive bêbado.”

 

A expressão do artista pareceu mais séria.

 

O corpo de Josuke entrou em pânico, completamente paralisado diante do fato de que ele não fazia a menor ideia do que esperar nesse momento. Kishibe riria dele? Ele manifestaria seu stand e o xingaria? Foi algo que ele precisou respirar fundo para processar – ou simplesmente esperar para descobrir.

 

Discretamente, Rohan fez um breve gesto com suas mãos para que Josuke chegasse mais perto dele. O policial engoliu em seco, andando a passos cautelosos em sua direção ao mesmo tempo em que o mangaká o afastou assim que ele esteve em determinado limite, se aproximando de suas orelhas. Josuke podia sentir o hálito quente de Rohan chicoteando seus ouvidos.

 

Dessa maneira, ele tocou sua nuca, fazendo-o se arrepiar no instante em que sussurrou:

 

 “Você quer me foder tanto que isso te faz parecer estúpido.”

 

Metodicamente, Josuke pensou que, em uma visão menos ética dentro de suas faculdades mentais, ser um homem estúpido não poderia ser necessariamente algo assim tão ruim.

 

Certo?



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