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História Forget - Memories - Capítulo 11


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Notas do Autor


Opa, bão? Voltei com mais um capitulozinho um pouco mais leve, porém nem tanto. Dei uma narrativa mais "suave" nesse capítulo por que minha intenção é mostra como os personagens é entre si, mostrando um pouco do lado "normal" do Carter.
Tem muitas cenas amorzinho, muito dialogo ( acho que é o capitulo com mais dialogo que já escrevi) e algumas coisitas a mais.
Espero que gostem ,por que, eu, particularmente, adorei escrever isso tudo.

Capítulo 11 - Capítulo 8 - Retratação emocional


   

                                                              Forget – Memories

 

 

                          Capítulo 8 – Retratação emocional

 

 

 

 

- Agora me diz mais uma vez – Diego falou desacreditado.

 

Carter respirou profundamente enquanto observava passivamente o rosto retorcido em descrença do amigo que estava a sua frente com as mãos na cintura. Desde que recebeu alta do hospital Diego começou a frequentar mais sua casa, em meio as suas folgas.

 

A reaproximação deles foi um tanto esperada após a conversa que teve com Tamara no dia em que acordou naquele quarto de hospital. Carter sentia-se acolhido novamente pelos amigos e a presença do outro era muito bem-vinda.

 

Menos naquele momento. Diego é o tipo de pessoa grudenta e, que em vários momentos, tentava mimar Carter de uma maneira sufocante. Buscando a melhor paciência o policial apenas acena e sorria na maior parte das vezes pra esconder o desconforto que sentia.

 

Outras vezes apenas gritava com o amigo, que o ignorava e continuava como se nada tivesse acontecido.

 

- Pela milésima vez – Carter começou calmamente, tentando não pegar a muleta mais próxima e jogar em Diego – O Capitão Helhein disse que me daria 4 meses de recuperação, em vez dos 2, que o médico deu.

 

- Mas porquê? – Diego perguntou consternado – Tem certeza que foi isso?

 

-Ele me odeia, por que não faria isso?

 

- Ele não te odeia – Diego se sentou ao lado de Carter de maneira delicada para não o machucar – Ele é o único que te trata como a pessoa que tu é.

 

- Não me parece – Carter bufou irritado.

 

- Talvez ele tenha percebido que tu precise desses dois meses extras.

 

Carter olhou para o amigo de maneira desagradável e, as palavras que ouviu, desceu de maneira intragável, o que o deixou extremamente irritado por um momento. Diego parecia tenso ao ver a expressão do amigo.

 

Diego, desconcertado, começou a balbuciar algumas coisas apressadas, em busca de mudar suas palavras, por mais que não se arrependesse do que havia dito. Carter, por outro lado, parou. Sua expressão suavizou e ele respirou fundo.

 

Estava cansado de brigar com Diego. Suas palavras, por mais que não fossem bem-vindas, era entendível. Nessa hora a gata Marrine apareceu e deitou ao lado de Carter. Distraidamente, o homem começou a acariciar sua gata.

 

- Não vai surtar? – Diego perguntou aliviado

 

- Quer que eu surte? – Carter olhou para o outro com uma expressão irritada novamente.

 

- To bem – Diego sorriu nervoso e se levantou – Os últimos meses não foram fáceis pra ti – Diego ponderou um pouco, ignorando a expressão pesada do outro – Eu sei que fui um maldito babaca em não estar aqui…

 

- Não começa – Carter cortou revirando os olhos – Se for pra falar merda, nem abre a boca. A culpa foi minha.

 

- É estranho tu assumir a culpa – Diego fez uma careta estranha no rosto e logo em seguida fingiu, dramaticamente, um arrepio pelo corpo – Mesmo sabendo que a culpa foi tua.

 

- Obrigado pela parte que me agrada.

 

- Disponha – O homem deu de ombros e pensou um pouco – Carter?

 

-Sim? – Carter respondeu, sentindo uma mudança no tom de voz brincalhão do amigo, o que o preocupou.

 

- Quero falar contigo sobre um assunto.

 

Carter observou Diego. Seu corpo parecia tenso, seu olhar sério e inabitual o deixava estranho, assim como o tom de voz resguardado. Não precisava pensar muito para chegar a conclusão que dali em diante, entrariam em um assunto, no mínimo, delicado.

 

Entretanto, o policial já sabia o que viria. Ou pelo menos tinha uma ideia. Um pensamento não muito bem-vindo veio em suas lembranças e gritos daquela noite, quando brigou com sua ex, vieram à tona em sua cabeça. As lagrimas de Élin.

 

O sorriso sádico de Carter. 

 

- Sobre? – Carter falou apreensivo.

 

- Élin.

 

Carter apenas balançou e, de maneira desajeitada, tentou pegar suas muletas próximo ao sofá e se levantar, para se afastar dali, assim, evitando o assunto. Teria feito isso, entretanto, se Diego não o tivesse tomado as muletas de suas mãos e o abaixado de maneira delicada no sofá, o sentando novamente.

 

- Não vai fugir – Diego falou sério

 

- Aproveitando que eu to doente pra me obrigar a fazer alguma coisa? – Tentou pegar a muleta do amigo.

 

- Para de ser criança – O homem olhou pra cima, agora ele ficando irritado – A gente precisa falar disso.

 

- Tu precisa falar sobre isso – Carter, irritado, olhou para o lado, mas não tentou mais fugir – Eu preciso de uma bebida.

 

- Bebida não te faz bem – Diego apontou de maneira entediada.

 

- Um pouco hipócrita vinda da pessoa que me ensinou a beber.

 

- Eu tenho minha parcela de culpa – Diego falou envergonhado, mas logo sorriu – Mas pode parar de fugir do assunto.

 

Carter respirou fundo, mais uma vez, buscando alguma calma. Não iria conseguir evitar aquele assunto por mais tempo. Dentro de si, tudo que queria evitar lembrar da mulher que compartilhou os melhores momentos da sua vida, voltou à tona.

 

As memórias voltaram. Todas elas.

 

Apesar que nunca estiveram escondidas. Mas era torturante lembrar de todas elas com aquela clareza absurda. Era dolorido ter que lidar com aqueles pensamentos tão duros em sua mente. As vozes sussurram lentamente e calmamente. Tudo ao seu redor obscurecia.

 

Um sorriso triste nasceu em seus lábios. As memórias queridas voltavam com um tom sofrido.

 

Naquela época considerava Élin a pessoa que passaria toda a sua vida, que dividiriam uma casa e criariam uma vida juntos. Sua vida estava perfeita. A mulher dos seus sonhos, o trabalho dos sonhos. Uma vida perfeita.

 

Queda.

 

Tudo ruiu.

 

Élin o traiu.

 

Seu trabalho.

 

Sua vida.

 

Acabou.

 

Carter sentiu uma dor na cabeça e seus sentidos voltaram rapidamente. Olhou para cima, assustado, e encontrou Diego o olhando apreensivo e preocupado. Uma nova crise. O policial, mais uma vez, perdeu-se dentro de si próprio. Mas foi resgatado pelo amigo.

 

De uma maneira desagradável.

 

- Precisava me bater? – Carter passou a mão na cabeça, onde Diego tinha dado um tapa.

 

- Isso anda ficando frequente – Diego ignorou e o olhou.

 

- Isso é uma pergunta?

 

- Tu deveria começar a voltar a tomar os remédios.  

 

- Ah, não, tu também não – Carter retorquiu irritado – Não preciso disso, me distraem no trabalho.

 

- Ou vai acabar te matando – Diego passou a mão pela calça, de maneira irritada e observou o amigo – Carter, se o psiquiatra te prescreveu isso, significa que tem algum fundamento.

 

- Eu me sinto um louco quando tu fala isso.

 

- Se trata de saúde mental – Diego falou frustrado, se agachou e ficou de frente com o amigo – Tem muita merda presa aí dentro – Apontou para o peito de Carter e o olhou nos olhos – Se tu não se livrar de um pouco disso ai tudo, vai ser pior.

 

- E onde falar sobre aquela mulher maldita vai me ajudar?

 

- Uma mulher maldita que uma vez tu amou – Salientou pacientemente – Vocês passaram muitas coisas…

 

Um barulho de campainha impediu Diego de continuar falando. O policial olhou para o amigo, aparentando estar tão confuso quanto ele. O moreno olhou para o homem sentado no sofá e o questionou com o olhar.

 

Raramente Carter recebia visitas.

 

- Deve ser alguém querendo vender alguma coisa – Carter falou, sentindo-se aliviado, mesmo que brevemente, por evitar o assunto.

 

- Tu não me escapa – Diego falou irritado ao perceber o alívio do amigo – Já volto pra continuarmos.

 

- No teu tempo – Carter sorriu amargamente.

 

Carter viu o amigo andar, de maneira irritada, até a porta. No fundo agradecia a presença do amigo naquela hora, o ajudando a evitar uma nova crise. Mesmo que de uma maneira totalmente errada. Mas de toda forma, tinha ajudado.

 

Sua mente, perturbada, o martirizava várias vezes durante suas crises e muita coisa que ele queria evitar voltavam com força total. Ter algo para ajudar sempre era muito bem aceite.

 

Antes da vida de Carter cair aos pedaços por terra, suas crises eram mínimas e não existia necessidade dos medicamentos, não tanto quanto era necessária em sua adolescência conturbada. Podia lembrar da primeira vez que havia colocado aqueles remédios na boca.

 

E poderia ainda lembrar, perfeitamente, da maneira que seu corpo se comportava.

 

Muitas das vezes sua atenção iria para o espaço e seu foco nunca estava a 100%. Havia sido muito difícil entrar na academia de polícia por causa desse fator. Mas, de alguma forma, esfoço e força de vontade, Carter conseguiu realizar uma meta.

 

Diego sempre esteve lá para apoiá-lo. Desde crianças, o amigo, descendente de mexicanos, sempre esteve ao seu lado, independente da xenofobia que sofria dos outros, sempre com um sorriso gentil no rosto, suportando todos os problemas do amigo e os dele próprio.

 

Carter muitas das vezes sentia-se mal por nunca ter conseguida dar o mesmo apoio moral e emocional para o amigo.

 

- Carter – Diego gritou da porta, chamando-o e o acordando de seus devaneios.

 

- Sim? – Carter respondeu preocupado

 

- Por que tem um ruivo barbado, alto, gostoso e de olhos lindos procurando por ti? – Diego gritou novamente, mas com um tom divertido – Espera. Esse não foi o cara que quase vomitou no meu sapato?

 

- William? – Carter gritou confuso.

 

Marrine, ao ser acordada por seu dono gritando, começou a miar alto ao seu lado como se estivesse reclamando com ele por estar sendo desnecessário.

 

- Sim – William respondeu. Parecia estar se divertindo com a situação.

 

- Querem parar de gritar na porta do meu apartamento? – Carter gritou irritado e a gata miou novamente.

 

- Por que tu tá gritando, então? – William perguntou devolvendo com um grito.

 

Assim que terminou a gritaria, o ruivo apareceu sorridente na sala de Carter, sendo acompanhado por Diego logo atrás que o observava com olhares maliciosos e sorrisos divertidos.

 

O médico usava uma camiseta azul sem mangas, mostrando os grandes bíceps e parte do peitoral, seu short simples e amarelado era chamativo, assim como o par de pernas bem trabalhadas na academia. William tinha um sorriso radiante no rosto.

 

Em suas costas havia uma mochila e em suas mãos tinha algumas sacolas que pareciam ser de comidas e variados. Carter evitou soltar um suspiro ao ver aquele homem, tão belo, a sua frente. Há algum tempo havia dedicado muito das suas horas pensando no médico.

 

Mais do que queria admitir.

 

- Virou costume aparecer sem avisar? – Carter perguntou mal-humorado.

 

- Teu humor continua uma beleza mesmo morrendo – William retorquiu e deixou a mochila em cima do sofá enquanto olhava para Diego – Ele sempre foi assim?

 

- Desde criança – Diego concordou com cumplicidade.

 

- Lamentável – William fingiu desgosto.

 

- Continuo aqui e vão se foder.

 

- Calma aí donzela – Diego falou sorrindo.

 

- O que tu veio fazer aqui? – Carter perguntou razinza e sem paciência.

 

- Jogar cartas, ver o por do sol – O ruivo começou a divagar aleatoriamente – planejar um assalto? 

 

- Posso te dar uma planta ou duas de um banco – Diego entrou na brincadeira.

 

- Facilitaria muito minha vida.

 

- Não sei se me preocupo com essa interação de vocês – Carter falou suspirando exasperado.

 

- Eu trouxe isso – William pegou de uma sacola uma garrafa. Whisky, e o preferido de Carter.

 

William entregou a garrafa nas mãos de Carter e o policial viu que era exatamente a mesma marca que o outro havia chegado dias atrás. Mais uma vez, havia sido uma compra muito cara, por isso, ele não conseguiu não olhar repreendendo. O ruivo apenas ignorou.

 

Diego olhou por cima, viu a marca e soltou um assobio admirado.

 

- Isso foi caro – Comentou o amigo.

 

- Um pulmão – O médico comentou divertido.

 

- O que será que o médico dele acha disso? – Diego perguntou preocupado com os efeitos do álcool com o medicamento.

 

William, por um segundo ficou paralisado. Carter, que até então havia ficado em silêncio contemplando sua bebida favorita, percebeu a falta de conversa e olhou para o ruivo, que rapidamente se aproximou e arrancou a garrafa de suas mãos.

 

- Por que todo mundo resolveu se aproveitar que eu não posso me defender? – Carter bufou irritado e olhou para as muletas que estavam longe.

 

- Como teu médico, acho melhor deixar isso pra depois – William falou, sorrindo culpado.

 

- Como médico dele? – Diego perguntou confuso.

 

- Ele que fez minha cirurgia – Carter explicou, ainda irritado.

 

Diego ficou mudo, parou um tempo, pensando, enquanto olhava para William, que apenas o observava envergonhado. Pegando todo mundo de surpresa, o moreno simplesmente lançou seus braços ao redor do ruivo e ficou emocionado, deixando algumas lagrimas escapar.

 

Carter ficou parado vendo aquela demonstração surpresa de afeto na sua frente. Não seria de se estranhar, entretanto. Diego sempre foi um pouco emotivo e não controlava suas emoções tão facilmente como Carter.

 

- Muito obrigado por salvar ele – Diego falou, enquanto o largava do abraço.

 

- De nada – William falou um pouco atordoado e com uma expressão um pouco afetada.

 

- Não é como se eu tivesse a beira da morte – Carter falou, tentando parecer insensível ao que tinha acabado de acontecer.

 

- Tu chegou com anemia devido a hemorragia excessiva – William com um tom neutro, explicando medicamente – Se tivesse demorado mais um pouco, tu teria morrido.

 

- Tanto faz – Carter falou se ajeitando no sofá.

 

 

Com o passar de uma hora, William e Diego já pareciam melhores amigos enquanto conversavam. O ruivo e ele compartilhavam o mesmo amor por carros e logo engataram uma longa conversa sobre o tema, sem dar espaço para que Carter se meter.

 

Em algum momento, eles pararam de falar sobre carros, mas, ao invés de conversarem sobre algo “decente”, começaram a falar sobre futebol. Mais uma vez, Carter ficou irritado sobre ter sido posto de lado pelo melhor amigo.

 

Não iria surtar igual adolescente ciumento por estar perdendo seu melhor amigo para o seu novo amigo.

 

Entretanto, Carter se sentia cansado mentalmente, tanto quanto fisicamente. Desde que havia recebido alta do hospital a 3 dias, ele teve de se acostumar a andar para cima e para baixo com as muletas. Como não havia prática, acabava sendo desgastante.

 

Além de tudo, queria estar sozinho. Não queria a presença dos dois naquele momento. Não que quisesse evitar os dois. Diego e Tamara não o deixaram um segundo sequer sozinho, sempre o sufocando.

 

E agora William estava ali também querendo sabe-se lá o que. Carter queria sua paz novamente. Pelo menos que por um dia.

 

- Então, é isso – Diego se levantou e cumprimentou William com um aperto de mãos – Tenho que ir, que entro daqui a pouco no trabalho.

 

- Aah, que pena – Carter retorquiu com uma expressão fingida de saudade e pesar.

 

- Também vou sentir falta – Diego apontou o dedo do meio para Carter.

 

- Foi bom te conhecer – William falou gentilmente.

 

- Eu também – Diego respondeu e sorriu malicioso – E eu aprovo Carter.

 

- Aprova? – Carter perguntou confuso.

 

- Sim, o assalto no banco – Diego falou, mudando de assunto subitamente.

 

William ficou meio avermelhado e saiu para a cozinha, deixando os amigos sozinhos. Carter olhou para as costas do homem se afastando e voltou a olhar para o amigo que o olhava inocentemente, como se não tivesse falado nada.

 

Demorou exatamente meio segundo para Carter perceber.

 

- Não tem nada disso que tu tá pensando.

 

- Eu não to pensando em nada – Diego fez pouco caso, mas seu sorriso não saia do rosto.

 

- Diego – Carter avisou ameaçadoramente.

 

- Não esta aqui quem falou – O homem jogou as mãos para o alto – Mas que ele é gostoso, ele é.

 

 

Carter não pensou muito quando lançou uma das muletas - que havia recuperado depois de insistir para Diego horas antes - em cima do amigo, que apenas pegou o objeto, sem deixar o sorriso do rosto desaparecer.

 

Depois de se despedir, o homem deixou a muleta de Carter, longe de suas mãos e foi embora, antes de William voltar para a sala. O policial xingou o amigo antes dele desaparecer, mas não deixou de sorrir.

 

Carter estava sentindo falta daquilo tudo, das loucuras dos seus amigos.

 

Pouco tempo depois o médico voltou para a sala, agora, com uma lata de cerveja na mão. Carter viu seus olhos procurar algo pela sala, e assim que não encontrou o que procurava, olhou para o policial.

 

- Ele já foi? – William perguntou e Carter apenas assentiu com a cabeça – Ele é um cara legal. Ainda bem que se acertaram.

 

 

- William – Carter chamou a atenção do Ruivo – O que tu veio fazer aqui?

 

- O clima não está tão bonito hoje? – Ele mudou de assunto bebendo um pouco da sua cerveja.

 

- Dá pra responder?

 

-Vim beber aquela bebida que tu me prometeu no outro dia – Deu um gole na cerveja

 

- Eu não te convidei – O policial o observou mortalmente

 

- Não? – William perguntou preguiçosamente – Se eu falar é capaz de tu criar supercura mutante e me socar até fora do teu apartamento.

 

- Quero fazer isso sem ter supercura – Carter falou pacientemente, ignorando a piada.

 

Ficaram em silêncio por um momento. Carter, começou a pensar em vários motivos que trariam o ruivo na sua casa. Companhia, talvez. Talvez. Algo havia acontecido. O policial parou de tentar pensar. Sua cabeça estava cansada demais para continuar tentando processar algum tipo de resposta.

 

Apenas decidiu seguir com o rumo dos acontecimentos. Sabia que uma hora ou outra não iria demorar para saber a resposta. E a resposta não demorou a surgir. Depois de um tempo William voltou a falar, ainda de maneira despropositada e preguiçosa.

 

- Vim te fazer companhia.

 

- Eu imaginei isso – Carter falou.

 

- Por alguns dias.

 

- O que? – Carter foi pego de surpresa e agora o encarava sério – Porquê?

 

- Por que eu finalmente virei teu médico – Respondeu como se fosse a coisa mais obvia do mundo – E eu preciso cuidar de ti.

 

-Não, não precisa – Retorquiu apressadamente.

 

Seu coração martelava compulsivamente seu peito, como se fosse sair a qualquer momento. Se fosse qualquer outra pessoa falando aquelas palavras, talvez, não surtiria tanto efeito. Mas William as dizendo, era outra coisa.

 

Havia algo ali nele, querendo escapar. Carter não sabia como se sentir dado toda aquela exposição do ruivo. Talvez o homem nem tinha se dado conta do que havia dito. Talvez o homem não soubesse o peso de suas palavras.

 

Carter sabia.

 

Mas não queria saber.

 

“Cuidar de ti”, as palavras de William socavam sua cabeça como se seu cérebro estivesse em um ringue de luta livre.

 

 - Não preciso – O ruivo continuou, mas soltou um sorriso para Carter – Mas eu quero.

 

-Tu não trabalha? – Carter tentava argumentar, querendo evitar aquela proximidade por tantos dias.

 

- Então – William sorriu envergonhado – Eu talvez esteja de férias.

 

- Talvez?

 

-Eu peguei férias que eu ainda não tinha tirado ano passado – William falou enquanto evitava o olhar de Carter.

 

- Tu fez isso por mim? – Carter perguntou. Algo em seu interior se revirou.

 

- Não seja egocêntrico – William falou com bom humor – Quem faria isso por um chato como tu?

 

- Tu poderia sair e pegar alguma mulher em vez de ficar aqui comigo – Carter falou, revirando os olhos agora.

 

- Prefiro estar aqui.

 

William falou e Carter ficou sem saber o que responder. A situação era no mínimo surreal demais para sua cabeça. Várias e várias coisas passaram por entre sua cabeça, pensamentos iam e vinha tentando encontrar uma explicação logica para o comportamento do médico.

 

Assim como para suas próprias reações.

 

 

Vergonha. Surpresa. Alguma felicidade.

 

 

Seu lado egoísta estava satisfeito com as palavras do ruivo. Queria aquilo mais do que poderia algum dia admitir. Não conseguia se lembrar quando foi a última vez que teve alguém tão empenhado em cuidar da sua saúde.

 

Sua mãe.

 

Por um tempo. Carter ficou reflexivo, perdido em pensamentos sobre sua mãe. Não pode evitar lembrar sobre ela, a saudade o abateu, mas, dessa vez, não ouve uma crise ao lembrar dela. Apenas conseguia ver seus sorrisos e sua melhor forma.

 

 

Seu pilar principal.

 

 

Aos poucos Carter parava de tentar pensar racionalmente. Havia descoberto a algum tempo que William não agia de uma maneira previsível e qualquer leitura sobre ele era quase impossível. Ver o homem, tão empenhado e misterioso, era estranho.

 

Em sua cabeça, pessoas misteriosas não tinham a personalidade de William.

 

Era no mínimo surpreendente, quando parado para pensar. O médico, homem de sorriso fáceis, hora ou outra, quando em silêncio, pegava um tom sombrio em seu olhar, sua expressão ficava triste e pesada.

 

Aquela vez não seria diferente como as últimas vezes. Carter, ao perceber, perguntou, a sua maneira invasiva. Afetado pelas perguntas, o médico apenas desfez todas as perguntas com um “tudo bem” um pouco seco.

 

Frustrante.

 

Aquela forma tão próxima, mas tão distante causava um nervosismo incomum em Carter. Fosse o que fosse, o policial ainda esperava o dia em que poderia conversar francamente com o médico sobre tudo o que lhe afligia.

 

Cada vez que o conhecia mais um pouco, essa realidade parecia um pouco mais distante.

 

Por que tão difícil?

 

O resto do dia se passou tranquilamente. Conversaram sobre assuntos aleatórios e William se prestou a cozinhar com ingredientes que ele próprio havia trago. Segundo o médico, era uma comida que ajudaria na recuperação do enfermo.

 

Ver o médico cozinhar, na sua cozinha minúscula, era no mínimo interessante e divertido. O homem mexia rapidamente nas panelas com um costume surpreendente. William parecia pertencer aquele lugar enquanto Carter o observava contemplativo.

 

A torta de Carne e a macarronada não era nada “saudável” no ponto de vista de Carter, mas não deixava de estar deliciosa. O ruivo era muitas coisas, mas principalmente, um bom cozinheiro.

 

Carter estava satisfeito com tudo que estava acontecendo. Antes queria estar sozinho, ter seu momento de paz, mas rapidamente se pegou feliz por estar acompanhado por aquele homem que, hora ou outra, soltava alguma piada ruim, só para vê-lo sorrir.

 

A noite chegou rapidamente. William comentou algo sobre um filme e rapidamente Carter concordou em assistir. Seria um programa de terça a feira a noite simples, considerando que nenhum dos dois estava trabalhando. 

 

Carter não conseguiu prestar atenção naquele filme de terror e os sustos nem o fazia tremer na cadeira. Sua atenção, entretanto, estava no outro sofá. O médico olhava para a tela com o mesmo interesse de um aluno em uma aula de matemática.

 

Nenhum dos dois estavam prestando qualquer atenção no filme, mas sim, perdidos dentro deles próprios. Carter julgando seus sentimentos e reavaliando tudo o que havia acontecido naquele dia e William, envolto do seu mistério pessoal.

 

Em dado momento, Carter adormeceu, mas não demorou muito para ser acordado por William que o ajudou a levar para o quarto. Talvez ajudar não fosse a palavra mais certa. O ruivo, sem autorização do policial, apenas o levantou pelo colo e o colocou na cama, como se fosse uma criança.

 

Carter xingou, deu socos e tapas, mas, mesmo dolorido, William não recuou e continuou ignorando tudo o que lhe acontecia.

 

- Idiota – Carter falou quando estava sentado em sua cama.

 

- Quer alguma coisa antes de dormir? – William perguntou prestativo.

 

- Que tu desapareça em uma vala qualquer

 

- Lamento informar, mas vou apenas dormir aqui.

 

William apontou para o lado da cama de Carter, e, só nesse momento, o policial percebeu a presença da cama do quarto de hospedes ao lado da sua, devidamente arrumado e com cobertas que não vinham da casa dele.

 

- Não – Carter falou assim que percebeu.

 

- Sim

 

- Não – William revirou os olhos e Carter continuou – Não estou morrendo.

 

- Mas pode precisar de alguma coisa.

 

- Não preciso de ajuda.

 

- Eu tive que te ajudar pelo menos umas 15 vezes hoje – William falou pacientemente.

 

- Fez por que quis – Carter falou maldoso.

 

- Eu quis, e eu quero dormir aqui – William sorriu vitorioso.

 

- Faz o que quiser.

 

- É o que eu pretendo – William sorriu mais uma vez e foi até a porta, fechando-a – Algum problema eu ficar sem camisa? Tá calor.

 

- Já disse, faz o que quiser.

 

William apenas nada falou. Discretamente, Carter viu o homem tirando a camisa, ficando com o peitoral a mostra totalmente. O policial deixou um suspiro sair de seus lábios. Quando ele havia ficado tão afetado com a visão de um homem sem camisa?

 

O médico não parecia ter percebido, logo, o homem foi até a janela e abriu deixando o vento noturno de verão entrar pela abertura. William foi até a luz, desligou e logo estava no colchão no chão, deitado enquanto tentava dormir.  

 

Pelo calor, pouco tempo depois, Carter resolveu tirar a própria camisa e deixou no chão, no lado da cama, ao contrário de onde William estava. Assim que pôs a camisa no chão, o policial escutou um miado.

 

Ele havia jogado a camisa em cima da cama da gata. Revirando os olhos, ele, com alguma dificuldade, se esticou e pegou a camisa de cima da gata, que apenas o olhava com olhinhos fulminantes e brilhantes em meio a escuridão.

 

 

O policial soltou um “gata ingrata” e do outro lado da cama, ouviu um riso de William, mas nenhuma palavra sobre o assunto.

 

Não ouve mais diálogos e logo cada um deles dois se perderam em seus próprios pensamentos até adormecerem.

 

Em algum momento Carter acordou assustado.

 

Um gemido de dor assombrava o quarto escuro. Era um gemido masculino seguido de frases desconexas, que vinham da cama de baixo. Carter demorou um tempo até perceber o que se passava e finalmente, com alguma dificuldade, se sentou na cama, tentando entender o que estava acontecendo.

 

Pegando o telefone ao lado da cama, ele ligou a luz do dispositivo e iluminou a cama de baixo. A primeira coisa que viu foi William, deitado com as cobertas jogadas por todos lados e ensopado de suor. Seus olhos estavam fechados e sua expressão era de pura dor.

 

Aos poucos, depois que a luz foi acendida em seu rosto, o homem deitado começou a se debater, como se tentasse alcançar alguma coisa. Sua voz aumentava de tom a cada vez que fala repetia o mesmo nome “Amelinda”.

 

Amelinda. Carter lembrou do nome da ex-mulher de William. O tom de voz tinha uma urgência desesperadora e agora William estendia o braço para cima como se tentasse pegar algo. Aos poucos lágrimas começaram a sair dos olhos do homem enquanto repetia o nome da mulher.

 

Carter estava em choque com a cena, então demorou algum tempo para reagir ao que estava acontecendo. Era um pesadelo. A primeira vez que Carter viu William, ele estava tendo um pesadelo, mas não tão agressivo quanto estava sendo esse.

 

Da primeira vez Carter não fez nada e deixou o homem viver seu pesadelo, mas agora seria diferente, dessa vez devia ao ruivo e queria fazê-lo parar de sofrer, assim como ele estava fazendo com ele durante aquele dia.

 

Mesmo que sem intenção, o ruivo havia o ajudado com sua solidão de ter, mesmo que por um tempo, perdido seus amigos. Se não fosse pelo médico, ele não saberia seu estado atual, e, até, talvez, estivesse morto pelas balas.

 

Carter se aproximou da própria cama, ficando sentado na beirada, com alguma dificuldade. As dores em seus membros aumentaram um pouco, já que o efeito do remédio havia começado a passar. Mesmo estando próximo, ainda teria que dar alguns passos até a cama do outro.

 

Suas muletas não estavam ali. William não havia trago para o quarto. Se forçasse sua perna, poderia machucá-la um pouco mais. Mas Carter não se importou, e logo ficou de pé. O primeiro passo com a perna boa foi fácil, mas assim que colocou a perna baleada no chão, a dor o fez pender para baixo.

 

Para cima do ruivo em sofrimento.

 

Assim que caiu em cima de William, o homem parou subitamente de se remexer em cima da cama, e, rapidamente, parecia ter acordado. Carter teve seu corpo abraçado no mesmo instante, mas nesse mesmo momento, teve certeza de que o homem não estava acordado.

 

O ruivo inclinou o corpo para frente, ficando numa posição sentada enquanto, de maneira afoita e desesperada, abraçava o corpo de Carter, buscando algum refúgio do que quer que fosse seus pesadelos.

 

Agora a perna e o ombro de Carter ardiam como o inferno e a pressão do abraço não ajudava para a situação do policial. Mesmo em meio a dor, ele pegou o rosto de William entre suas mãos instáveis e começou a chamá-lo

 

Começou, de maneira dolorida, falar que era apenas um sonho. Demorou um pouco até o ruivo ter alguma reação com as palavras do policial.

 

Aos poucos o ruivo começou a se acalmar enquanto dormia e havia começado a acordar com Carter o chamando. William enfim pareceu ter acordado. Estava assustado, banhado em suor e a mesmo tempo amedrontado.

 

O médico agora respirava profundamente. Seu rosto abaixou no nível de Carter e a testa dos dois se encostaram. William depois de um tempo escondeu o rosto no pescoço do policial, e começou a chorar silenciosamente.

 

- Me promete – William sussurrou através de suas lagrimas – Me promete que nunca vai me abandonar.

 

Carter suspirou. Não era para ele. William ainda estava sonhando e pensando na sua ex esposa ou em qualquer pessoa que fosse. Não soube como dizer o quão frustrado ficou com a situação. Mesmo ele não entendendo o motivo de toda a sua frustração.

- Carter – William sussurrou seu nome, deixando o policial com olhos arregalados em surpresa – Me promete que nunca vai me abandonar – Seu tom de voz era urgente e seus braços apertava Carter um pouco mais.

 

Carter ficou sem reação.

 

Não sabia o que pensar.

 

Mas não controlou suas palavras e falou com muita verdade.

 

-Eu prometo.

 

O homem aliviou um pouco os braços ao redor de Carter, finalmente percebendo que talvez estivesse o machucando com toda aquela pressão inicial. O médico nada disse, apenas ficou ali, respirando contra o pescoço do policial, em um abraço desajeitado.

 

A dor de Carter era suportável, não estava sendo mais machucado, mas não era isso que o preocupava naquele momento. Internamente ele torcia para que não tivesse estourado algum ponto.

 

O policial se sentiu ser puxado para baixo, mas não resistiu e logo estava deitado sobre o peito de William que subia e descia com certa pressa. O coração dele batia muito rápido, como se fosse explodir a qualquer momento.

 

Pela primeira vez, Carter passou seus braços ao redor William, sem se importar ou ficar incomodado. Era bom estar naquele abraço. Depois que o ruivo acordou e o fez prometer, nenhum dos dois abriu a boca para falar algo.

 

Não precisava de dizer mais nada. Carter sabia que o outro estava agradecido. Sabia dizer isso apenas pela aquela mão passeando carinhosamente por suas costas e pelo abraço que estava recebendo. Era confortável estar ali.

 

Mas com o conforto vinham duvidas. Muitas dúvidas. A curiosidade de Carter voltou a crescer novamente. Amelinda. Por que William estava tendo um pesadelo com sua ex-mulher? Pensou em várias coisas, mas não havia conseguido chegar em nenhuma conclusão.

 

Ficaram abraçados por um longo tempo, até que William voltasse a dormir. Carter pensou em voltar para sua cama, mas estava tão confortável ali, que apenas se aconchegou ao homem e dormiu sem pensar muito.

 

Se pensasse demais, deixaria de aproveitar o momento e sua intenção era deixar rolar.

 

 

Havia feito uma promessa.

 

Carter não tinha certeza sobre suas palavras, apesar que no momento, parecia serem as palavras certas.

 

Não era uma mentira, todavia.

 

Mas estava preocupado.

 

Seus sentimentos agora eram grandes. Não iria conseguir esconder o que vinha sentindo nos últimos meses. Ele conseguiria?

 

Conseguiria esconder seus sentimentos por William?

 

Ele não sabia a resposta e tinha medo dela.

 

 

 

 


Notas Finais


Gostaram? Eu, como sou emotivo, acabei chorandinho enquanto escrevia, por causa de uns negócios ai. Espero que tenham gostado da interação do Diego com o Carter e do Diego com o William logo depois. Eu tenho amor pelo Diego, e, acho que nem todo mundo pegou no capitulo 7, mas a Tamara meio que revela que o Diego é bissexual. Por isso não estranhem as falas dele. No fim, eu apressei mais um pouco as coisas, era pra ter mais diálogos, mas achei que ficou perfeito a narração final. Eu só tenho amor pelos meus personagens e é isso

De toda forma, obrigado pra quem leu, se encontrarem algum erro grave ou uma construção de cena incoerente, me avise.
Até a próxima xdx


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