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História Forgotten: A Volta de um Esquecido - Capítulo 10


Escrita por: TaiTai_Sarah

Notas do Autor


Foi mal pela demora fml, prometo q não acontece mais >.<

Capítulo 10 - Capítulo IX


P.O.V: Sara

━━━━━━◇◆◇━━━━━━

Nasce uma herdeira

Sem motivo, eu sorria.

Horas haviam se passado e eu organizava a multidão de pensamentos em minha cabeça enquanto a água quente escorria pelos meus ombros e corpo. A luz dos postes já haviam se apagado e a dos comércios (da cidade num todo) batiam na janela do banheiro e se misturavam formando uma aquarela linda. O sol de domingo já ofuscava um pouco os meus olhos, e eu não havia pregado o olho porém nunca havia me sentido tão descansada e leve. Sorria de vergonha, pois não sabia de onde diabos tinha tirado coragem para fazer o que fiz mais cedo...

~flashback ~

"- É que... Eu não sabia outro jeito de te lembrar, sabe? Não consegui encontrar outra coisa que você... Já não tenha feito com outra pessoa... - Kastiel me segurava pelos ombros, de uma forma firme porém suave e carinhosa, e me doeu ver seu olhar ficar morteiro e suas asas me descobrirem, como se indicassem o quão horrível era para ele se lembrar de tudo, de mim esquecendo ele cada vez mais, até que eu não fizesse a mínima ideia de quem ele seria.

Seus olhos, voltados ao chão, marejaram, e eu nunca me senti tão horrível em toda a minha vida. Já fui esquecida por muitos colegas e por pessoas que eram importantes para mim, por isso pensar que eu fiz o que me fez chorar tantas vezes era desolador. Pensava em agir quanto aquilo, mas não tinha ideia do que falar ou fazer.

Então, encorajada pelas palavras que martelavam à cabeça, pertencentes à Max Lucado - "Por sua graça não me sinto culpado, com sua direção não me sinto confuso e por seu amor não sinto mais medo" -  sequei aquela lágrima que caía sobre seu rosto, e pelos deuses, como ele tinha uma pele macia. Logo tomei coragem, e numa tentativa de compensar tudo que eu havia feito ele passar, desta vez eu o puxei para um abraço. Aos poucos minha mente ia buscando lembranças, e meus dedos, gatilhos em que ele estivesse presente. Seu cabelo foi um deles; eu sempre gostei de fazer carinho em cabelos ondulados, principalmente nos cabelos dele.

Talvez pela diferença de altura, talvez pelo cansaço, ou por qualquer outra razão, ele caiu de joelhos. Eu não me atrevi a soltá-lo; se fizesse isso agora, Kastiel me encontraria num estado vergonhosamente vermelho. Era como se até ali, eu estivesse num estado de inércia, sem ter senso e vergonha na cara, e agora eu voltava ao estado são e começava a me perguntar qual foi a última vez que eu fique tão perto e tão colada a alguém que não fosse da minha família, se é que me entendem.

Pensei em afastar ele, mas antes disso, como se conhecesse os meus pensamentos, Kastiel enlaçou minha cintura e me puxou ainda mais para perto. eu fiquei completamente sem reação, e aguentei firme ali até que tivesse certeza de que minhas bochechas estavam normais, e sorrindo, confessei;

- É muito bom te ver de novo, Kasti. - Não era mentira. Eu realmente percebi e me lembrei dele, e realizei o quão saudosa eu estava do seu abraço e dos seus toques repentinos e ao mesmo tempo, carinhosos. 

Mergulhada na imensidão azul-marinho do seu olhar, tive certeza; eu realmente não quero te esquecer de novo Kasti... Acredite."

~ fim do flashback ~

- Puta merda Sara, vai demorar muito? - João exclamava batendo na porta do banheiro que sempre dividimos aqui na casa da minha avó. Abafado pela água do chuveiro e pela porta, ouvi a voz do meu tio, advertindo João.

- Olha a boca rapaz! Fica tranquila querida, ele tá só brincando. Deixa tua prima em paz, diabinho... - Eu tinha que admitir, amava quando meu tio passava as noites aqui com meu primo, tudo se transformava em motivo de riso. E sejamos sinceros, é ótimo ter um primo levando ronca logo pela manhã.

Saí do banho e João logo entrou; tinha pressa de tomar café. era uma regra antiga da nona, "ninguém toma café sem antes tomar banho." eu não tinha problema nenhum com isso, já meu primo...
Entrei no quarto e mais que depressa tirei do guarda roupas a minha legging preta preferida e uns dos meus moletons que eu jamais daria ou venderia ( apenas pelo fato de ser alguns números maior que o meu, o que me conquistava), pois havia constatado que o que me esquentava não era o Sol e sim a água quente do banho, e que o astro estava mais para luz de geladeira; ilumina sem esquentar. Enfim, Curitiba.

Já com os cabelos secos, saí do quarto e caminhei sem muita pressa até a cozinha, onde minha vó já tinha quase terminado de por a mesa;

- Netinha! dormiu bem? - Vó, eu nem dormi k 

- Bom dia nona! Sua benção... - Indo até a pia, onde ficam os armários, não respondi nem vou responder a última pergunta, já que por mais que eu não tenha muitos segredos com ela, não achei que precisasse  contar que eu estava com borboletas no estômago por um espírito (e que Kastiel não saiba disso)

- Que Deus e os outros te abençoem... Sara, você-

- Bons dias caras familiares - João deu o ar de sua graça chegando na cozinha com pose de um romancista do século 19, pagando de culto. Antes que continuasse a farsa, foi interrompido por vovó, que odiava ser cortada enquanto dizia algo sério. Quem diria uma senhora de idade pagando na mesma moeda...

- Você por um acaso tomou banho? - Me sentei no mármore da pia, de frente com as costas de vovó. Quando coisas assim começam a acontecer, gosto de ver o circo pegar fogo de uma maneira bem confortável.

João respondeu agitando os cabelos, soltando pingos d'água pra cima. Meu tio, silencioso como a serpente do deserto, apoiou-se na pia também, mas ainda ficou de pé.

- Eles estão fazendo de novo... - Cochichou sem sequer olhar para mim, concentradíssimo nos olhares acirrados do meu primo e da minha vó. Olhando os cabelos curtos e da mesma cor castanho-escuro dos de João, respondi no mesmo tom de fofoca;

- Sim, mal posso esperar pra ver onde isso dá. - Tio Felipe concordou, puxando para si a garrafa de café. Ele comportava-se mais como amigo do que como pai de João, e isso era bom, funcionava para ambos. Minha tia quase nunca vinha pra casa, era como minha mãe, mas resolveu nos deixar em paz a alguns anos; sinceramente, não achei que João e Felipe ficariam tão felizes com isso.

Era como se eles aproveitassem a minha liberdade e a de meu pai por nós, apossando-se de suas partes na linhagem Waterhouse já cedo, dominando tudo rápido e maratonando animes e séries o suficientes para uma vida. Duas, no caso. Esses eram meu tio e primo.

- Escovou os dentes? - Sem dizer uma palavra, até porque já estava costumado com isso, mostrou os dentes brancos e aparentemente recém escovados.- Hm... Pode comer então.

- Aleluia meus deuses! - Deu graças levantando as mãos para o alto e, sentando-se, continuou - Vó eu te amo, mas você é um estorvo quando quer!

- Olha o respeito moleque! - Nosso avô chegou na cozinha, com a carranca típica. Eu e meu tio seguramos o riso com a cara de "cu trancado" de João.

- Bom dia pai... - Não ouvi o resto da frase de Felipe. Nem a resposta do meu avô.

Senti meus dedos formigarem e minha mão tremer e perder a força, então larguei a caneca na pia afim de não derrubá-la. O ruído estridente na minha cabeça se tornou silêncio, e eu sabia que todos me olhavam devido ao meu movimento repentino, mas eu não conseguia sequer ouvi-los, e não os via pois fechava os olhos, tentando afastar aqueles sons. Eu sabia que eu tinha gritado, já que senti arranhar a minha garganta, mas ainda sim não ouvia nada; tropeçava nos meus pés mesmo estando parada. Era desesperador, eu não tinha certeza de nada. Até que algo ficou claro; a voz mansa e suave, como a de muitas águas, como a de um deus:

"Eueniesse tempus quo et heres... Expergiscere: Expergiscere"

- SARA! - Meu primo me agitava pelos ombros, meu tio descia as escadas com algo parecido com um remédio nas mãos e meus avós trocavam olhares cúmplices.

Minha cabeça era um turbilhão e eu parecia ter saído de uma overdose de cocaína. Da minha boca só saiam balbucios. Minhas pernas tremeram por uma última vez e eu cedi, quase caindo de joelhos se João não estivesse me segurando:

- Heres... - Eu sabia o que eu estava falando, era latim antigo, a língua oficial da nossa linhagem, mas eu me sentia estranha em falá-lo com tanta naturalidade e fluência. Eu só não conseguia parar; quanto mais eu resistia a falar, mais sentia fraqueza - ... Nunc est quod se revelare, entequam suus 'sero occidisti.

Meu primo me soltou e eu voltei totalmente a mim, meio tonta. A força esvaía-se de minhas mãos e se renderam ao tremor; senti minhas bochechas se hidratarem com a fina corrente de água que saíam involuntariamente der meus olhos. Olhei envergonhada aos meus parentes, que devolviam o olhar com toques de pavor, exceto meus avós, antes, olhavam decididos para mim. Tomando toda a coragem que tinha dentro de mim, perguntei;

- Alguma alma bondosa me diz o que aconteceu? - Sem muita demora, meu avô respondeu se sentando, com uma tranquilidade que eu gostaria de ter naquele momento.

- Você tem que fazer o seu último resurgemus - Como um tiro, senti cada palavra quase que perfurar o meu peito. 

━━━━━━◇◆◇━━━━━━

Meus avós perceberam o meu incômodo em falar daquele assunto, e me deram um tempo pra pensar, o que, analisando as circunstâncias, é inútil. Eu não tenho mais escolha; pelo que meu avô disse, o "tarde demais" que àquela voz se referia, era a morte. Eu subi novamente as escadas, abrindo excitante a porta do meu quarto, trocando os passos devagar e finalmente sentando na ponta de minha cama, pensando, organizando os acontecimentos. 

Comecei por deitar minhas costas (ainda com os pés no chão), levar as mãos à cabeça e traduzir pra mim mesma o que eu havia falado. 

A primeira voz, doce e calma, a que soprou em minha mente ("Eueniesse tempus quo et heres... Expergiscere: Expergiscere") dizia que era chegada a hora da herdeira, ou da escolhida, e logo depois um pedido para que eu "acordasse" ou "despertasse". Notoriamente, era algo direcionado apenas a mim, pedindo que eu fizesse o que deveria ser feito, e pude constatar isso pela reaparição de Kastiel, cumprindo as escrituras;

"Eis que no tempo certo, ela se lembrará, e ele a guardará novamente. E seu nome carregará o peso do escudo de Deus; Kastiel será o nepente dessa criança."

Já a segunda, mais firme e ordenada, a qual usou da minha boca, era para a minha família, mais precisamente os meus avós, que se declaram meus responsáveis perante aos deuses ("Heres, nunc est quod se revelare, entequam suus 'sero occidisti") mandava que a selecionada ascendesse, antes que fosse tarde demais. 

Já o resurgemus de que meu avô falara, em latim (a língua comum da nossa linhagem) é o mesmo que ascensão, é quase como um ritual de iniciação, feito por todos os integrantes da família Waterhouse desde Agnes. Por causa da profecia, foram estipulados certos "níveis" de resurgemos; cada um limitando e liberando pequenas porcentagens de poder e principalmente, de visão.

É justamente isso que me da medo. Foi literalmente um inferno tentar fazer os últimos dois resurgemus sem que minha mãe soubesse, mas mesmo que conseguíssemos fazer isso, a ideia de ter uma visão ilimitada me dá medo. Se eu entrasse nisso de corpo e alma, nada impediria que eu não visse os demônios que se referem à profecia "habitará naquela cuja proteção se divide entre nós e Deus, e que o poder desperta a cobiça dos demônios da morte." e tampouco eu poderia escolher não vê-los enquanto estivesse coma minha mãe, o que causaria a desconfiança dela, ela acabaria descobrindo tudo e não sobraria um pedaço meu pra terminar a história. Um ciclo diabólico e vicioso.

- Netinha, posso entrar? - A voz abafada de vovó ressoou pelo quarto e eu permiti que entrasse, sem sair da posição em que estava, apenas tirando a mão dos olhos e colocando-as do lado do meu corpo.

Senti a cama afundar, e logo depois senti o aroma adocicado da baunilha do shampoo dela do meu lado. Sempre fez isso, se abaixava e conversava comigo e com meu primo quase de igual para igual, com um tom amigo e amoroso, não como o de minha mãe que exalava autoridade e medo. Tenho para mim que é por isso que nós dois respeitamos tanto a vovó; não queremos perder essa intima relação quer ela mesma nos permite ter. Depois de alguns segundos em silêncio, falou comigo;

- Nós conversamos. - Abri os olhos, e encarei o teto. Eu tinha demandado semanas da minha vida pintando o teto, e confesso que ver os tons de azul misturados delicadamente com os de amarelo, recompondo "Noite Estrelada" de Van Gogh, me acalmava. Percebendo que eu procurava algum conforto nas linhas curvas da pintura, vovó se calou por alguns momentos.

- E? - A cama ficou mais leve, o que significava que ela havia se sentado. Eu não tinha certeza da minha expressão naquele momento, mas sabia que não era tão tensa quanto a de minha vó, que eu poderia jurar que levava um pouco de medo na testa franzida e nas sobrancelhas tristemente arqueadas.

- Decidimos que se você for fazer isso, nós é quem vamos falar com a sua mãe. 

- E eu tenho escolha vó? Além do meu medo, eles foram claros, se eu não fizer isso agora, eu... - Decidi não terminar a frase, tanto por mim quanto pela minha avó. Que João não saiba, mas eu sei que eu acabei (por ser a primeira neta) me tornando sua protegida. Por isso, não queria desesperar a nona.

Ela colocou uma mão na minha coxa, virando se para mim, com a face um tanto mais animada e esperançosa: - Sim, quer dizer, não, mas... Dessa vez você vai ter apoio... Vai ter pra onde fugir. - Olhei para ela.

A última frase tinha um peso muito grande. Em todos os meus desabafos com vovó eu sempre relatei que me sentia só, que estava cansada de lutar por mim mesma e me defender sozinha. Em quase todos eles, eu dizia que só queria um porto seguro, um lugar ou alguém para onde eu pudesse fugir e me livrar de qualquer mal que eu tenha sofrido até ali. refleti um pouco, e cheguei a conclusão de que valia a pena enfrentar minha mãe desta vez. 

Era hora de assumir. Mesmo deitada, franzi a testa, tomando uma atitude que devia ter sido tomada a tempos. Percebi que eu estava agindo pelas vontades dos outros, seguindo regras feitas por homens insensatos e me impondo limites desnecessários e ridículos. Eu seria a chefe daquilo tudo, devia agir como tal, assumindo o poder que me foi reservado e metendo medo nesses demônios, não o contrário. Minhas amarras tinham de ser soltas, eu devia agir e fazer escolhas por mim mesma, agora era a deixa perfeita para ser quem eu sou entre as paredes do meu quarto. Só que, desta vez, para o mundo inteiro ver.

Me levantei rápida, mas decididamente, quase assustando minha vó. Afirmei olhando-a por cima dos ombros: - Cê tem razão vó, se eu vou ter apoio, então que as bestas labradoras me aguardem

(N/A: explico o que são bestas labradoras no fim do capítulo.)

Vovó me encarava feliz e orgulhosa, mas um tanto surpresa. Maneando a cabeça, se levantou e disse quase num riso:

- Netinha, você é mesmo complicada... Eu diria até um pouquinho louca. - Fez piada, apoiando a mão no meu ombro. Também rindo, eu a guiei para fora do quarto, onde diria a todos que faria o deveria ser feito. Porém, com a mão na tranca, decidi responder vovó à altura:

- Qual é o problema em ser confiante vó...?! 

Continua...


Notas Finais


NOTA DA AUTORA: Bestas labradoras ( ou bestas gementes ( ͡° ͜ʖ ͡°)) são da mitologia celta, e elas seriam fruto da união de uma princesa e de um demônio. Seu uivo é parecido com o de vários cachorros juntos (daí o nome) e elas só poderiam ser mortas por cavaleiros ungidos, e seu objetivo seria causar discórdia entre os homens.


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