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História Frágeis Hipócritas - Capítulo 2


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Notas do Autor


Oi

Capítulo 2 - Dois


Thomas


Prédio Wilton Syulin, quarto n° 49. Era o que dizia a folha que eu tinha pegado na secretaria e que possuía as instruções do que eu deveria fazer.

O prédio estava cheio de alunos carregando bugigangas pra cima e pra baixo, pais se despedindo dos filhos, alguém carregando uma mala imensa e quase não conseguindo subir as escadas, um zum-zum-zum alto soava por todos os lados como se as pessoas ali tentassem falar baixo, mas falhavam e a mistura das vozes se juntava numa sintonia alta, barulhenta e sufocante demais. Passo por todos eles e chego até o último quarto no corredor no quarto andar.

Havia um garoto lá dentro arrumando as malas. Ele tinha o cabelo loiro e era alto (mais alto que eu e eu sempre fui um cara alto). Ele estava tirando as camisas de dentro da mala e as colocando na gaveta da cômoda perto da escrivaninha. Parou o que estava fazendo quando eu abri a porta e ficou me encarando por tempo suficiente para eu começar a me sentir desconfortável, mas então ele sorriu e estendeu a mão.

— Você deve ser o Thomas, não é? Era o que dizia a folha de matrícula. — Havia alguma coisa na voz dele, ela era baixa e constante, as palavras saíam como uma melodia. — Noah, eu sou o Noah.

Eu ainda estava parado na porta, entro e largo as minhas coisas no chão antes de apertar a mão dele ainda estendida.

— Oi. Legal te conhecer, cara. — Tento sorrir, mas acho que não foi um sorriso convincente, não como o sorriso dele. Brigo comigo mesmo por falar a palavra “cara”, eu dizia muito isso.

— Você é novo aqui, né?

— Em Hartson? Não exatamente.

Não explico mais do que isso. Ele não quer saber mais, também não quero falar.

Solto a mão dele. Noah volta a guardar suas coisas na cômoda.

— Espero que você não se importe por eu ter ficado com a cama perto da janela — Noah diz —, gosto de ficar observando lá fora enquanto faço a lição de casa. E isso deve ter saído estranho, mas eu não sou nenhum esquisitão, eu acho. Pelo menos não esquisito de um jeito ruim. De um jeito bom, sabe? E é, isso foi esquisito. Vou parar agora.

— Não, não, não, tudo bem. Não gosto da luz de manhã. — Sento na cama do outro lado do quarto, a que não está com as coisas dele.

— Bom.

Noah pega uma caixa debaixo da cama e começa a arrumar os livros dentro dela numa prateleira. Noah tinha livros, muitos livros. E ele possuía um sistema próprio de organização, agrupava os livros pelas cores: amarelo, azul, cinza, laranja, preto, verde, vermelho. Descobrir depois de muito tempo que ele arrumava as cores em ordem alfabética. Quando estava no meio da cor laranja, com um exemplar de O Sol é Para Todos na mão, ele fala:

— Olha, er... Thomas, acho que a gente deveria conversar. O último cara com quem eu dividir o quarto era um babaca mal educado que eu tive que suportar no último ano. E não tô dizendo que você seja assim, mas seria legal estabelecer algumas regras pra fazer isso daqui funcionar.

— Regras? Tipo?

Ele coloca o livro no lugar antes de se virar.

— Tipo não mexa nos meus salgadinhos, por favor. Ethan vivia comendo os meus salgadinhos.

— OK, seus salgadinhos. O que mais?

— Se você quiser um livro emprestado pode pegar, mas coloca de volta no lugar, certo? Você não ronca, ronca?

Faço que não com a cabeça.

— O desgraçado do Ethan tinha desvio de septo. Já teve vontade de matar alguém enquanto dormia? Eu já. Outra, você não tem uma obsessão pela cor verde ou é fã do Star Trek, é?

— Não.

— Gosta de música? Eu escuto muita música, se isso te incomodar é só você falar. E mais uma coisa.

— O que? — Pergunto.

— Eu... Era uma coisa que Ethan odiava, mas eu... — Ele parecia quase tímido agora. — Eu tenho problemas pra dormir de noite, é escuro, sabe? Eu não tô dizendo que eu tenha medo do escuro, talvez eu tenha um pouco, ou não. Enfim, eu sempre deixo uma luz acesa.

Olho para cara de Noah e ele parecia grande demais para ter medo do escuro.

— Tudo bem, Noah. — O nome dele parecia estranho saindo da minha boca. — Tudo bem.

— E você?

— O que tem eu?

— As suas regras.

— Ah.

As minhas regras quais seriam?

— Sem regras. Nenhuma que eu consiga pensar pelo menos.

— Se aparecer alguma me avisa.

— Aviso.

Ele sorriu (parecia que ele sempre estava sorrindo), e voltou a arrumar os livros.

Meu celular vibra, uma mensagem de Christine perguntando se eu já cheguei. Christine é uma garota legal, sei que é, mas as coisas têm estado estranhas entre nós desde o Natal. Não nos vemos faz três meses e não sei mais ao certo o que nós temos. Acho que chegamos naquele ponto sem volta onde duas pessoas se esforçam para tentar manter as coisas iguais ao que eram antes, mas nada é igual, vocês não são os mesmos, não dá para salvar algo que não existe mais. Mas ainda assim é Christine, não existe ninguém que me conheça tão bem quanto ela. E ela não tem culpa por eu ter me afastado e agido como um babaca. Respondo a mensagem dela, pergunto se ela está bem e se quer conversar mais tarde.

Vejo as minhas coisas ainda jogadas perto da porta não quero arruma-las agora. Estava com fome, mas não queria ir até a cantina. Observo Noah arrumando as coisas deles, colocando tudo em ordem, depois dos livros ele começou a pregar papéis na parede, depois pegou uma máquina de escrever verde e velha de dentro da mesma caixa que tinha os livros e colocou em cima da escrivaninha. Guardou o resto das roupas na cômoda e quando acabou ajoelhou e pegou algo debaixo do colchão.

— Quer um? — Noah me estende um maço de Marlboro.

— Não, valeu.

— Tá bom. — Ele pega um cigarro e põe entre os lábios, se joga na cama e procura o isqueiro. Quando ele abre a boca e a fumaça sai percebo o olhar dele em mim. — Dansiel ficaria uma fera se me visse agora, ele odeia quando a gente fuma nos dormitórios, mas aquele filho da mãe tá ocupado demais no primeiro dia de aula beijando a bunda dos pais riquinhos pra ver qualquer merda.

— Sério? Pensei que ele já tinha se aposentado.

— Dansiel?! Não, meu Deus, ainda não! Eu não entendo porquê.

— Aquele velho sádico se diverte demais transformando a vida de todo mundo num inferno pra largar isso aqui.

— É — Noah ri fraco. — Tem razão, Thomas.

Thomas. Noah continuava dizendo o meu nome. Estranho, era estranho.

Ele levanta e vai até a janela, o cigarro se esvaindo aos poucos na mão dele. O meu novo colega de quarto fica tanto tempo em silêncio que penso que ele se esqueceu da minha presença, mas então ele volta a falar, os olhos ainda observando lá fora.

— Odeio essa merda.

— Como assim?

— Isso. — Ele faz um gesto abraçando a janela, o lado de fora do prédio.

Vou até a janela e observo também. As pessoas passando, pais, alunos, funcionários.

— Odeio essa merda — repete. — É tudo tão falso e frágil. Eu sempre penso nisso, como é frágil. Como pode desmoronar a qualquer segundo. Como as pessoas lá fora vivem ignorando isso. Como elas podem simplesmente ignorar? — Ele apaga o cigarro e deixa a bituca no parapeito da janela. — Eles são tão hipócritas, uns filhos da puta fudidos e hipócritas. Cegos. E que não ligam pra porra nenhuma. Como eles podem simplesmente ignorar, Thomas? Como?

Não sabia ao certo do que ele estava falando, se estávamos pensando na mesma coisa, mas eu respondo:

— Como eles podem não ignorar? Faz parte do papel.

 Noah sorri.

O sorriso dele sempre parecia sincero.

— Música?

— O que?

— Música, Thomas! Quer ouvir uma música?

Dou de ombros.

— Sim?

Então ele coloca uma música pra tocar, uma música que eu não conheço, e começa a dançar.

— Vamos lá, Thomas!

Ele faz uma dancinha com os ombros e me puxa junto, a cabeça balançando no ritmo da música, ainda sorria, me fez rir dos passos de dança desajeitados. Noah era sim esquisito, mas eu gostava disso nele.

— Você sabe, não sabe? — Noah disse. — Você sabe, Thomas. Então porque você não dança, só um pouquinho, enquanto pode?

Então eu dancei.

Foda-se.

Só foda-se toda essa merda.

Comatose, eu descobri o nome da música um tempo depois. Havia um trecho específico dela que eu tinha gostado, na segunda estrofe, a parte que dizia:

It’s easy to be
Who you never want to be
Locked up inside your own life
But just like I told ya
You’re never getting older
Dreamin till we wake up and die

Talvez eu soubesse, Noah com certeza sabia.

Frágeis e hipócritas.

Sonhando até acordamos e morremos.




Notas Finais


Espero que goste se você tiver lendo isso.
Obg :):
P.S.: a música é Comatose de Low Hum


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