História Fragmentados - Capítulo 1


Escrita por: e enbyangelz

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga)
Tags Bangtan Boys, Bts, Daegu, Intercâmbio, Oneshot, Taegi, Taehyung, Tykaesthetic, Xenofobia, Yoongi
Visualizações 242
Palavras 7.327
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção, LGBT, Slash, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hey, hey, angels! Tudo bom com vocês?

Cá estou eu, dessa vez com o Tykaesthetic para mais uma fic. Desde já quero deixar claro que escrevi a história com muito carinho e zelo, e tentei passar uma mensagem legal com ela. Espero que gostem e se sintam bem lendo-a, huh? Nunca tinha escrito com o tema intercâmbio, e foi uma ótima experiência. Tomara que esteja aceitável para uma primeira tentativa ^^
>>> Agradecimentos de betagem e capa nas notas finais!

Boa leitura! >.<

Capítulo 1 - Single Chapter: Fragmentos de nós dois


O tempo em Chicago não estava dos mais bem-humorados, por assim dizer. Fazia por volta de treze graus com sensação de dez, além do ar estar tão seco que minha garganta ficou inflamada. Esse, porém, era o menor dos meus problemas ― ainda que eu ache uma completa tortura ter que tomar xarope de limão e mel que, na verdade, tinha gosto de mofo.

A indisposição da minha garganta não era motivo para faltar à faculdade, claro, e mesmo tendo saído mais tarde de casa para entrar no segundo período, ainda me sentia indisposto. Com uma caixa de lenços dentro da tiracolo e um grosso cachecol cobrindo meu pescoço até o maxilar, acomodei-me no vagão do metrô quase vazio. O horário de pico da manhã já havia passado, e pelo menos com isso eu podia contar para deixar meu dia um pouquinho melhor.

Passei a viagem de quinze minutos inteira com a cabeça contra o vidro da janela, admirando o belo borrão que eram os túneis subterrâneos por onde a lagarta de metal passava. Acho que cochilei em algum momento, mas acordei pouco antes que a voz monótona e robótica anunciasse meu ponto de descida. Deixei o metrô e atravessei a estação a passos preguiçosos, até emergir em Hyde Park. Estava a menos de uma quadra da Universidade, mas parecia uma vida inteira de distância.

Caminhava sem pressa, entretido demais na paisagem ao meu redor. Fazia por volta de três meses que estava em Chicago, mas ainda não tinha me acostumado por completo àquela agitação, muito diferente da agitação de Daegu ― uma agitação que eu podia chamar de minha. Ainda não podia chamar Chicago de minha cidade ― ou my city, whatever.

A University of Chicago erguia-se suntuosamente em meio a um campus verdejante e ladeado de ipês coloridos. Majestosa, esbelta e elegante, ela intimidava qualquer um que passava por ali, exalando áurea acadêmica. Confesso que ainda não tinha me habituado por completo em estudar ali, porque querendo ou não sempre que me deitava para dormir só conseguia pensar que tudo aquilo não passava de um sonho e eu despertaria na manhã seguinte na minha casa em Daegu, ao som dos chamados da minha mãe e o cheiro de pão fresco.

Atravessei o campus vazio, sentindo-me como uma alma penada vagando por aí em busca de alguém para atormentar. Subi a escadaria de mármore que levava à entrada da instituição e atravessei o saguão em formato de cúpula, com as paredes preenchidas quase que por inteiro com artigos de jornal que enalteciam a qualidade de ensino da Universidade.

Precisei consultar a minha grade de horários para lembrar qual era a minha próxima aula no segundo período. Decepcionado, dirigi-me até as escadas, rumo ao terceiro andar. Já sentia meus pulmões arderem e um ataque de tosse vir com tudo sem nem ter pisado no primeiro degrau.

 

― xXx ―

 

Quando o sinal do primeiro intervalo soou, fechei meu caderno e guardei todos os materiais dentro da tiracolo. Os demais alunos se retiravam da sala de aula entretidos em conversas animadas, fazendo planos para o fim de semana ― que no meu caso não iam muito além do completo repouso e pastilhas para inflamação na garganta.

Vi de soslaio uma figura de cabelos descoloridos e olhos tão verdes que chegava a ser irritante. O rapaz magrelo se aproximou de mim com seu fichário embaixo do braço e um sorriso doce nos lábios finos, acenando com a mão pequena.

Hey, Taehyung! ― Era adorável a forma como Drew se embolava todo para proferir o meu nome. Ele, assim como boa parte das pessoas com quem havia feito amizade naqueles três meses de intercâmbio, tinha dificuldade em dizer o meu nome com a entonação correta, sem “comer” nenhuma sílaba. ― Como você está, cara? Vi que faltou no primeiro período.

Estou bem, Drew, não se preocupe. ― Sorri para ele enquanto saíamos da sala, rumo aos armários. ― Achei melhor dormir um pouco mais hoje, caso contrário ficaria feito um zumbi na aula. Espero estar zerado até segunda-feira.

Se precisar de alguma coisa é só falar. Bem, eu vou indo, combinei de me encontrar com a Judy na biblioteca. Nos vemos depois?

Claro. Até depois.

Drew sorriu e se afastou, sumindo entre a massa de gente que circulava pelo corredor. Esquivei-me entre os corpos e esbarrei com alguns até chegar ao meu armário. Coloquei a senha, tirei o cadeado e peguei as apostilas que iria precisar até o último período, depositando as que já havia usado lá dentro. Fechei, tranquei e me vi sozinho em pleno intervalo. Não estava com fome, mas achei que seria legal beber alguma coisa.

Saí abrindo caminho gentilmente entre as pessoas de novo até descer para o térreo, rumo ao campus. Próximo a uma das saídas havia uma máquina de refrigerantes que nunca havia visto ninguém usar, mas estava sempre abastecida. Cacei por algumas moedas dentro da minha tiracolo e escolhi uma latinha de Pepsi. Enquanto pressionava o botão, esperando a lata cair, fui surpreendido por uma mão em meu braço, tocando-me com firmeza e gentileza contida. Era um toque familiar, por isso sequer me sobressaltei.

― Oi, Yoongi hyung. ― Ah, o bom e velho coreano! Como era libertador falar a minha língua mãe deliberadamente, mesmo estando fora da Coreia.

― Oi, Taehyung. Está melhor? ― Havia algo muito próximo da frieza em seu tom, mas não me permiti enganar. Assenti e me abaixei para pegar o meu refrigerante. ― Ah, ótimo, porque hoje é o seu dia de lavar a roupa.

Sabia que estava bom demais para ser verdade. Não que Yoongi seja uma pessoa insensível e apática, muito pelo contrário, mas era comum que em alguns momentos sua personalidade fosse… duvidosa. Ri comigo mesmo e me virei para o outro coreano. Min Yoongi tinha olhos felinos, banhados num breu intenso e muitas vezes assustador. Os lábios pequenos quase sempre se mantinham em linha reta, de quando em quando manifestando reações com movimentos mínimos, mas perceptíveis. Sua pele extremamente alva passava um ar de imortalidade; ele parecia indestrutível e inalcançável com seu humor ácido e preocupação disfarçada.

Muito, muito bonito.

― Não se preocupe, hyung, sabe que eu não falto com as obrigações domésticas. ― Abri a lata de Pepsi e bebi um gole. Agradeci por não estar muito gelada, caso contrário minha garganta morreria de vez.

― Eu sei que não, mas é divertido implicar com você. Você franze o nariz quando é afrontado, sabia?

Nãos sei se foi a naturalidade em seu tom ou o fato de Yoongi ter praticamente confessado prestar atenção em alguma coisa em mim, mas senti meu rosto esquentar e uma vontade súbita de me esconder tomar o meu peito. Suspirei e desviei o olhar, concentrado no cadarço encardido do seu par de All Stars vermelhos.

― Não seja idiota, Yoongi.

Um tapa na nuca foi o que tive em resposta. Praguejei baixinho e recuei um passo, com a testa franzida. Soube que ele estava certo quando senti meu nariz se franzir também. Bufei.

― Viu só? ― Yoongi riu, abrindo aquele sorriso de dentes brancos e pequenos. Eu sempre gostei do seu sorriso, desde que nos conhecemos. ― Você não passa de uma criança, Tae.

― Aish, me deixa em paz! O que você quer, afinal? ― Tomei um gole de refrigerante apenas para não precisar olhar diretamente em seus olhos incisivos.

― Quero te perguntar se você vai fazer alguma coisa no fim de semana.

― Não, afinal ainda estou doente. Vou tirar o fim de semana pra descansar. Por quê?

― Talvez um colega meu dê uma passada no nosso apartamento no sábado. ― Yoongi ajeitou a touca preta em sua cabeça e arrumou a mecha negra que escapava da peça tricotada.

Abri um sorriso malicioso, embora tenha sido atingido por um refluxo de repente. Engoli em seco com uma careta.

― Não pense merda, garoto. ― Yoongi revirou os olhos e trocou o pé de apoio.

― E o que você quer que eu pense?

― Você já levou Drew Jensen ‘pro apartamento várias vezes e eu nunca fiz essa carinha! ― acusou, apontando o dedo indicador na minha cara.

― Primeiramente, eu só levei o Drew pra lá duas vezes, e, segundamente ― afastei seu dedo do meu rosto, ― Drew e eu somos bons amigos, e além de tudo ele é hétero. Mesmo se eu estivesse a fim dele, deixando bem claro que não estou, eu não teria chance alguma.  

― ‘Tá legal, senhor anjo, vai me dizer que nesses três meses que estamos aqui você nunca pegou ninguém. ― A ironia em suas palavras feriu meu ego, bem lá no fundo.

Minha garganta ficou tão seca que assemelhou-se à minha falta de sexo. Bebi mais um gole de ‘refri.

― Ah, não! ― Yoongi jogou a cabeça pra trás e gargalhou com gosto. Soou um pouco cruel, admito. ― É sério, Kim?! Você não pega ninguém há três meses?!

― Cala a boca ― balbuciei, envergonhado. Encolhi os olhos e ofereci a latinha em minhas mãos ao mais velho, que aceitou prontamente. ― Eu não pego ninguém há três meses, e daí? Minha vida não depende disso, Yoongi.

― Calma aí, TaeTae, não precisa levar ‘pro lado pessoal. ― Sorriu de escárnio. ― Bom, eu já fiz tudo que tinha para fazer aqui. Se me der licença, vou ver se o Nathan está confirmado para sábado. Até mais tarde, Kim.

E, sem dizer mais nada, retirou-se junto do meu refrigerante.

Na verdade eu não liguei muito, então simplesmente segui para o campus e inspirei profundamente o ar de Chicago. Um solzinho ralo dava trégua na brisa gélida que antes bambeava até os ossos, e me vi tentado em sentar-me na grama bem aparada e relaxar um pouco.

Consegui um espaço bom sob um ipê roxo, afastado da muvuca dos demais alunos, todos conversando entre si, comendo besteiras, lendo exemplares de capa dura ou estudando. Deixei minha tiracolo sobre as coxas e fechei os olhos, aproveitando o calor gostoso contra o meu rosto. A grama estava fresca, mas não úmida.

Peguei-me pensando em tudo que havia acontecido nos últimos três meses. Parecia mais que haviam sido três anos. A saudade da minha casa, da minha família, dos meus amigos, da minha cidade e do meu país era quase esmagadora, tanto que em muitos dias eu sequer conseguia sair da cama. Parecia errado viver fora das minhas origens, ter arrancado as raízes de vez para me cultivar em outro lugar.

Foi um processo difícil, mas ao mesmo tempo emocionante. Decidi que queria fazer faculdade fora da Coreia logo no primeiro ano de ensino médio, quando descobri o inferno que era a vida escolar ― visão essa que nos é escondida durante o ensino fundamental, onde pensamos que tudo é arco-íris e borboletas. Deixei bem claro para os meus pais a minha intenção de deixar a Coreia, pelo menos até eu me formar e ter o meu diploma tão almejado em serviço social, e de primeira eles não pareceram concordar. Contudo, tudo mudou assim que comecei a explorar a minha sexualidade e descobri-me bissexual quando tive meu primeiro namorado ― uma vez que também já tinha namorado uma garota.

As acusações, o bullying e a exclusão foram previsíveis, mas não menos dolorosos. Preconceito existe em todo o lugar, até mesmo nos países mais esquecidos do mundo, mas parecia mais lógico me refugiar num país menos tradicional nesse sentido. Sim, talvez eu estivesse fugindo, mas no fundo eu sempre quis sair da Coreia, então uni o útil ao agradável. Foi quando me agrediram enquanto eu voltava da escola num dia de chuva que os meus pais concordaram que o intercâmbio não era uma má ideia ― foi uma pena eles terem percebido isso apenas quando me viram à porta de casa, encharcado e com hematomas no rosto e nos braços. Pensar nisso ainda dói, mas é uma dor distante, quase como uma brisa.

Comecei a juntar dinheiro desde então, vivendo um dia de cada vez até terminar o ensino médio. Quando fui atrás de um CI para me guiar nesse intercâmbio, recebi a notícia que outro rapaz de Daegu o havia procurado uma semana antes, buscando intercâmbio para o mesmo local que eu e pretendia ingressar na mesma faculdade que eu almejava.

E foi assim que conheci Min Yoongi.

Logo na primeira reunião que nós três tivemos ― eu, Yoongi e o CI ―, o nosso conselheiro sugeriu que dividíssemos um apartamento durante o intercâmbio, porque de acordo com ele seria mais fácil e confortável nos adaptarmos a um país e a uma cultura diferente ao lado de alguém com origens semelhantes às nossas ― nesse caso iguais. Encontramo-nos por pura coincidência, mas nenhum de nós dois negou que seria bom ter alguém com quem contar durante o tempo de intercâmbio, principalmente quando esse alguém tinha bastante em comum com você.

Planejamos tudo juntos, desde o prédio onde alugaríamos um apartamento até a nossa divisão de tarefas domésticas. Com a quantia que tínhamos juntado de dinheiro daria para pagar quatro meses de aluguel e ainda cobrir as despesas domésticas. Em todo o caso aquelas economias não durariam para sempre, então nós teríamos que arrumar um emprego mais cedo ou mais tarde ─ nossos currículos foram enviados a vários estabelecimentos e empresas, apenas tínhamos que aguardar uma resposta.

Sendo assim, partimos para os Estados Unidos. Juntos. No começo eu e Yoongi mal conversávamos, mas aos poucos fomos nos abrindo mais um com o outro nesse sentido, afinal se fôssemos morar juntos durante um intercâmbio era de se esperar que houvesse no mínimo uma amizade entre a gente. Mas só havia tensão.

Não chamávamos um ao outro de amigo, muito menos de colega ou conhecido. Não éramos nada disso, mas não tinha como rotular a nossa convivência de modo preciso. A gente dividia um apartamento, cada um tinha as suas tarefas, eu cursando serviço social e ele cursando direito, os dois na mesma Universidade. Era comum assistirmos filmes juntos, sairmos juntos, até mesmo já dormimos na cama um do outro! Poderia sim ser considerado uma amizade para quem admirasse se fora, mas para nós não parecia o bastante, e ao mesmo tempo era demais para nos definir. Por fim, achamos melhor não definir, simplesmente. Viveríamos como nos habituamos a viver, sem exigências e sem necessidade de ter um nome para o que éramos ou deixávamos de ser um para o outro.

 

― xXx ―

 

O dia seguinte amanheceu tão gélido quanto o anterior, e me custou deixar o conforto morno da cama para trás. Obriguei-me a levantar, esticar os lençóis, afofar os travesseiros e dobrar as cobertas ― algo que Yoongi nunca fazia, aliás. Tomei um banho quente ― para não dizer escaldante ― e vesti-me com roupas quentinhas. Saí do quarto, ajeitando os cabelos úmidos com os dedos por pura preguiça e dirigi-me até a cozinha pequena.

Yoongi ainda não havia acordado pelo visto, mas não seria eu quem o tiraria do seu sono profundo ― logo na primeira semana de intercâmbio aprendi que não se deve acordar Min Yoongi se não quiser ter um abajur arremessado em sua direção, literalmente. Preocupei-me apenas em preparar algumas torradas para o café da manhã, café preto e suco de maçã verde ― que sabia ser o preferido do hyung. Não é como se eu fizesse isso apenas para agradá-lo, simplesmente me acostumei ― e finjo acreditar nisso fielmente.

Enquanto esperava o café ficar pronto, dei uma passada na lavanderia espremida entre a geladeira e a porta da despensa. As roupas que havia estendido na tarde anterior já estavam secas, então as recolhi, dobrei e deixei sobre a máquina de lavar. Segunda-feira seria a vez de Yoongi passá-las, já que a tarefa tinha sido minha na semana anterior. Lembrei-me da primeira vez que Yoongi foi passar roupa e ri sozinho, a memória fresca como se fosse recente: seus resmungos e palavrões direcionados ao ferro de passar roupa que espirrava água quente em si graças à sua inabilidade.

― Acordou de bom humor, Taehyung. ― Um Min Yoongi sonolento adentrou a cozinha, coçando os olhos inchados de quem acabou de despertar.

Sobressaltei-me, mas ele não pareceu perceber. Apenas dei de ombros e desliguei a cafeteira que já havia terminado seu trabalho. Enchi uma caneca de café estampada com a bandeira da Coreia do Sul e adocei com açúcar mascavo. De canto de olho vi Yoongi se servindo de suco de maçã. Sorri quando ele revirou os olhos, deliciado ao primeiro gole.

― Gostou do suco? ― perguntei, bebericando meu café.

― Está ótimo, obrigado ― ele respondeu.

Peguei uma torrada e a coloquei inteira na boca, sem me importar com os modos. Eu e Yoongi já tínhamos passado dessa fase, tanto que já perdi as contas de quantas vezes o vi andar apenas de cueca pelo apartamento naqueles três meses. Como era de se esperar o mais velho permaneceu alheio e copiou meu ato. Em poucos minutos as torradas já tinham sido devoradas por nós dois, e obviamente a louça suja sobrou pra mim.

― Vou tomar um banho e me aprontar. Nathan estará aqui em uma hora. ― Foi a desculpa que ele usou para se retirar na maior cara de pau e me deixar ali, com a esponja na mão.

Uma vez a cozinha estando organizada e limpa, segui para o meu próprio quarto, onde iria me refugiar pelo resto no fim de semana. Tomei meus comprimidos para gripe ― que por sorte estava dando adeus ― e forcei uma colherada daquele xarope horrível garganta abaixo. Agradeci por ela já não estar mais inflamada a ponto de parecer revestida por lixas.

Puxei minha tiracolo para cima da cama e espalhei meus cadernos e apostilas pelo colchão. Achei que revisar as matérias da semana não faria mal, e aí sim, depois de alguns exercícios e resumos, enfiaria-me debaixo dos cobertores novamente e hibernaria até o dia seguinte.

Estava na metade da matéria de sociologia quando a campainha tocou e tão logo ouvi os passos apressados de Yoongi pelo corredor gritando um “já vai!”. Imaginei ser o tal Nathan, e não estava errado.

Entre, Nathan. E aí, cara? Tudo bem? ― Ouvi o Min cumprimentar.

Não prestei atenção em mais nada desde então, e tentei não me sentir ofendido ao perceber que Yoongi não havia o levado ao meu quarto para nos apresentar. Afastei tais pensamentos e foquei nas minhas revisões.

Assim que terminei tudo que tinha para rever, guardei meus materiais e deixei a tiracolo ao lado da cama. Espreguicei-me e saí do quarto para tomar um copo d’água, ansioso pelo conforto da minha cama que me aguardava de bom grado. Surpreendi-me ao encontrar Yoongi e Nathan na cozinha, aos beijos. O hyung prensava o corpo esguio do moreno contra a pia e o mantinha preso ali com as mãos ao lado dos quadris estreitos. Eles devoravam a boca um do outro com tamanha gula que a respiração se tornava ruidosa entre uma mordida e outra de lábio. Estanquei na porta e permaneci quieto, com medo de um deles me notar e eu acabar “quebrando o clima”.

Estava pronto para dar meia volta e ir me deitar com sede mesmo quando Nathan abriu os olhos e me viu ali. Seu espantou pintou-lhe as bochecha de carmesim e ele afastou Yoongi com um empurrão. Pude ver uma fina linha de saliva conectar os lábios de ambos, mesmo após separados.

O que…?

Nathan apontou pra mim antes que Yoongi terminasse sua pergunta. Min se virou e seus olhos se focaram em mim com certa indiferença que fez meu peito se remexer, incomodado. Engoli em seco e o vi cruzar os braços, tombando a cabeça.

― O que foi, Tae? ― Nathan franziu as sobrancelhas, claramente confuso com a nossa língua mãe, a qual ele certamente não dominava.

― Nada. Eu só ia pegar um copo de água, mas… deixa pra lá, podem continuar. ― Ainda desconcertado com o que presenciei, troquei o pé de apoio e fitei Nathan de relance; ele não me encarava, a ponta de seus tênis parecia mais interessante.

Yoon deu de ombros e jogou os cabelos para trás, notando a tensão no cômodo. Ele então abriu um sorriso fechado.

― Ei, Tae, por que não vai até o mercadinho aqui perto e compra um pote de sorvete de baunilha? Depois eu te devolvo o dinheiro, prometo.

Apenas assenti, porque não queria contestá-lo. Em seus olhos negros vi um brilho escarlate que eu sabia bem o que significava: eu deveria demorar o máximo possível já que as intenções do Min envolviam não ser interrompido novamente enquanto estivesse com Nathan.

Fui até o meu quarto calçar um par de tênis e trocar o moletom velho que vestia por uma camisa de mangas longas e uma jaqueta jeans. Peguei minha carteira e minhas chaves, e, quando passei pela cozinha rumo à entrada do apartamento, os dois já não estavam mais lá. Resolvi sair antes que minha mente começasse e tramar contra mim e a imagem dos dois na cama do hyung domasse meus pensamentos.

 

― xXx ―

 

O mercadinho ficava há duas ruas de distância do prédio onde morávamos, e levei em torno de dez minutos para chegar lá. Normalmente chegaria mais rápido, mas estava me demorando de propósito; já bastava os meus planos frustrados de dormir o resto do fim de semana, não queria ter que ouvir os gemidos de Yoongi e Nathan. Entrei no mercadinho com o olhar baixo e sem grande ânimo. Algo em meu âmago parecia ter murchado tão abruptamente que me senti enjoado.

Ao fundo, perto dos estandes de quadrinhos e jogos, um grupo de quatro garotos ria, conversando aos sussurros. Todos dirigiram seus olhares para mim assim que entrei, olhares esses que me acompanharam até a o grande freezer onde os sorvetes ficavam armazenados. Ignorei os olhares queimando em minha nuca e descendo em arrepios congelantes pela minha espinha; era melhor me fazer de idiota ao invés de comprar briga por nada. Eu estava em desvantagem, afinal.

Fiquei uns três minutos enrolando ali, fingindo analisar pote por pote até encontrar o sorvete que queria, embora já estivesse certo de qual sabor iria levar. Logo os sussurros voltaram e os olhares pesados me abandonaram. Suspirei aliviado.

Finalmente peguei um pote de sorvete de baunilha e me dirigi ao caixa. A jovem detrás do balcão mascava um chiclete distraidamente, enrolando uma mecha que escapava da sua trança no dedo indicador. Ela passou o sorvete e proferiu o preço. Paguei, recebi meu troco e lhe agradeci baixinho antes de deixar o mercadinho com a sacola parda nos braços.

Durante a caminhada de volta para casa, permaneci com os pensamentos perdidos além do meu estado consciente. Era só virar na próxima esquina que eu chegaria até o conforto do meu lar, isso se não fosse por uma mão pesada em meu ombro, detendo meus passos. Assustado, virei-me e dei de cara com quatro rapazes, que deduzi serem os mesmos que estavam me encarando no mercadinho. Eles tinham sorrisos debochados e olhares acusatórios, como se soubessem de algo que eu desconhecia. Senti meus músculos se retestarem com tanta força que fiquei pregado no lugar, o pânico abrindo espaço entre as minhas terminações nervosas.

Oi, gracinha ― o que havia tocado meu ombro proferiu. Ele era um palmo mais alto que eu, com ombros largos e pele bronzeada. Seus bíceps ficavam marcados sob a camisa que vestia. ― Você não é daqui, não é?

Se perdeu no caminho para o matadouro de cães, foi? ― Um ruivo de cabelos encaracolados se manifestou.

A acusação explícita de que me alimento de cachorros fez meu estômago se revirar. A raiva fervilhou meus miolos, mas me recusei a respondê-los. Realmente estava em desvantagem, seria idiota bater de frente com eles. Permaneci com a expressão indiferente, quieto e com os ombros relaxados, na medida do possível.

Abre o olho, japonês! Estamos falando com você. ― Riu outro de boné e cabelos até os ombros. Seus dentes eram amarelados, e de onde eu estava consegui sentir o cheiro de tabaco que provinha dele.

Sou coreano. ― Quis me bater ao resmungar entredentes, sem poder me conter. Comprimi os lábios e mordi o interior da bochecha, berrando comigo mesmo mentalmente.

O grupo de brutamontes riu alto, como se tivessem ouvido a melhor piada do dia. Revirei os olhos e mordisquei o lábio, pensando seriamente em sair correndo dali.

Olha só, ele ficou ofendido ― o último, gorducho e com o rosto cheio de acne, disse.

O que vocês querem comigo, afinal? ― Juntei coragem e mantive meu tom o mais firme que pude.

Só nos divertir, querido ― o fortão respondeu. ― Qual é, tenha mais senso de humor!

Deixa ele, Rick. Deve ser rabugento assim porque o pinto é pequeno, certeza! ― O ruivo abriu um sorriso cheio de maldade. Seus olhos claros refletiam a luz do sol como a lâmina de uma adaga.

E eu senti o golpe: fundo e agudo em meu peito. Nunca pensei que ouvir merdas assim fosse tão constrangedor e doloroso, mas era impossível ignorar o fato de que aqueles idiotas estavam tirando uma com a minha nacionalidade, usando isso contra mim e me ferindo lindamente. Lágrimas quentes arderam em meus olhos, mas me recusei em derramá-las. Sentia-me pequeno, insignificante. Eu era apenas uma partícula de areia, e eles a orla inteira.

Relaxa aí, japa. ― O tal Rick deu um soquinho no meu ombro. Aproveitei-me da situação para recuar um passo, mesmo que o soco não tivesse sido forte. Fechei a cara e trinquei o maxilar, quente de raiva, vergonha e mágoa. Algo amargo se dissolvia em minha boca. ― Não fica bravinho com o Bryan, ele só estava brincando, não é, Bryan?

Exato, Rick. Só zoeira ― o tal Bryan respondeu, sem esconder a ironia em suas palavras.

Muito boa a zoeira de vocês, parabéns  ― Minha voz embargada era tão patética que eu quis me jogar na rua e esperar até que o primeiro carro me atropelasse. Ao invés disso apenas recuei mais um passo e dei as costas para os quatro engraçadinhos. ― Mas vocês bem que podiam ir se ferrar.

Arrependi-me das minhas palavras tão logo as proferi. Não consegui dar nem um passo adiante antes que eles me puxassem com força e eu fosse ao chão, chocando as costas no asfalto áspero da calçada. Grunhi de dor, e logo vieram o que pareciam ser socos e chutes contra o meu corpo. Braços, pernas e abdômen. O gosto férreo de sangue dominou a minha boca, e entre a vista embaçada por lágrimas pude ver um filete escarlate escorrer entre os meus lábios junto de saliva. Cuspi no chão aquele sangue amargo e vergonhoso.

Minha cabeça se chocou com o chão, deixando-me tonto e desnorteado. Meus olhos se fecharam instantaneamente, e nas duas ou três vezes em que consegui abri-los o que vi foram quatro vultos difusos e sem forma, mas que me feriam de verdade. O último relance que tive foi da sacola parda ao meu lado e o pote de sorvete na calçada; a dor se apossou do meu corpo, expandindo-se de pontos específicos até que eu não conseguisse sentir nada além de um vazio pelo qual eu despenquei até a inconsciência.

 

― xXx ―
 

Estava sobre algo macio e quentinho, mas ainda assim meu corpo doía como o inferno. Puxei o ar pelo nariz e senti tudo arder por dentro. Acho que choraminguei, mas não importa muito. Aos poucos fui abrindo os olhos até vislumbrar o teto azul do meu quarto. Franzi o cenho e forcei minha memória a resgatar os últimos acontecimentos.

Gostaria de não ter lembrado, sinceramente.

A dor que se apossou do meu coração escorreu no formato de grossas lágrimas pelas minhas bochechas. Elas queimavam minha pele como uma tatuagem, deixando claro para quem me visse que eu estava despedaçado por dentro. Apenas um fragmento de tempo foi suficiente para causar uma reviravolta dentro de mim e me deixar ferido, por dentro e por fora.

Juntei as poucas forças que tinha e me pus sentado em minha cama, envolto pelas cobertas. Apoiei minha coluna dolorida contra os dois travesseiros empilhados e respirei bem fundo e devagar, na esperança que o oxigênio colocasse tudo no devido lugar dentro de mim.

Fui iludido.

Não me importei em secar o rosto quando a porta se abriu e Yoongi entrou, espantado ao me ver desperto. Seus olhos carregavam uma nuvem nublada de preocupação e ódio dissolvido com cuidado para não me alarmar. Tentei sorrir, mas não consegui. Ele não pareceu se importar, apenas caminhou até a minha cama em silêncio e sentou-se diante de mim.

Ficamos ali nos encarando, esperando pra ver quem iria se manifestar primeiro. Percebi que as mãos de Yoon tremiam sobre o seu colo, e por reflexo estendi a minha para tocá-lo. Esse mínimo movimento foi suficiente para fazer uma labareda de dor se alastrar pelo meu braço, queimando meus músculos. Gemi.

― Shh, não se esforce. ― Seu tom manso apaziguou tudo por dentro. Ele envolveu minha mão com a sua, fria, trêmula e macia ao toque. ― Você tem que se poupar, TaeTae.

― Como eu cheguei aqui? ― pigarreei, a voz arranhada pelo desuso.

― Quando Nathan estava indo embora acabou passando pela rua que leva ao mercadinho e viu você no chão, desacordado e com hematomas. Ele ligou pra mim e eu fui ajudá-lo a socorrer você, o trouxemos para cá e ele o examinou. Nathan cursa medicina na Universidade. ― Ele fez uma pausa, desferindo um carinho gostoso nas costas da minha mão com o seu polegar, em movimentos circulares. ― Ele disse que eram apenas hematomas e pequenos cortes pelo corpo, mas que seria bom levá-lo ao hospital quando acordasse, para ter certeza de que não afetou nenhum órgão.

Apenas assenti, sem saber o que dizer.

― Vocês transaram? ― Não sei por que perguntei isso de repente, mas as palavras saltaram da minha boca. Senti-me corar.

― Não, não transamos. ― Yoongi negou com a cabeça, repentinamente incomodado com alguma coisa. Ele notou meu olhar curioso e suspirou, umedecendo os lábios. ― Nós tentamos, na verdade. Estávamos nas preliminares, mas… não rolou. Simplesmente não fiquei duro. Não consegui.

― Ah.

Novamente silêncio. A situação era estranha demais para que algum de nós soubesse como direcionar aquela conversa para algum lugar útil. Foi tudo tão rápido, tão de repente. Nunca imaginei que eu ou ele iríamos sofrer um ataque xenofóbico assim, à luz do dia, sem mais nem menos. Era uma sensação de fracasso, de perda, derrota. Perdi uma batalha que nem sabia estar travando.

― Taehyung ― ele me chamou, sério. Seus olhos agora pareciam duas fendas. ― O que aconteceu? Quem fez isso com você?

Eu esperava aquela pergunta, mas demorei um pouco para responder. Contei tudo o que aconteceu desde que saí do apartamento e dei muitas pausas que poderiam ser consideradas “dramáticas”. Não queria fazer suspense ou deixar o gostinho de curiosidade no ar, queria apenas poder apagar o que aconteceu e seguir em frente, como se aquela vala profunda não tivesse sido aberta em meu peito.

Yoongi hyung me ouvia com atenção e não fez nenhuma pergunta ou comentário. Quando terminei de falar ele puxou o ar e soltou com força pelo nariz, parecendo um touro raivoso. Oh, sim, ele estava com raiva, pura e genuína. Vi-o morder os lábios e arranhar a garganta com um pigarro seco.

― Malditos! ― xingou alto, soltando minha mão com certa brutalidade. Encolhi os ombros. ― Imbecis! Filhos da puta! Quero que morram, todos eles! Ah, se algum dia eu os vir na rua eu juro que…

― Hyung! ― chamei sua atenção, elevando o tom de voz. Ele se calou e me fitou, sombrio. ― Não adianta xingá-los. O que eles fizeram está feito, infelizmente não tem como voltar atrás. Acredite, eu o faria se pudesse.

Algo pareceu se acender em seus olhos e ele normalizou a respiração afoita. Relaxou os ombros, voltou a segurar a minha mão e se aproximou mais, tornando nossos rostos bem próximos. Meu coração falhou uma batida quando Yoongi juntou sua testa na minha, mantendo nossos lábios próximos e as respirações mistas. Fomos envolvidos por um casulo de calor familiar e gostoso, com cheirinho de lar.

― Sinto muito. Você não precisa ouvir isso agora ― ele disse baixinho pela proximidade. ― Eu… porra, Tae, não sabe o quão desesperado eu fiquei quando te vi na calçada, largado e machucado. Não sei descrever o que senti exatamente, mas sei que tive medo. Medo de perder você. Eu só desejei não ter chamado Nathan para vir aqui em casa hoje, desejei não ter pedido que você fosse comprar aquele maldito sorvete!

Havia arrependimento e culpa na sua voz. Neguei com a cabeça e, por reflexo, levei minha mão livre ao seu rosto, ignorando o incômodo dolorido em meu braço. Afaguei sua bochecha e contornei o maxilar delineado com a ponta dos dedos.

― Não é culpa sua, Yoongi hyung. Ninguém poderia prever que aqueles brutamontes fossem fazer isso comigo. Não se culpe, por favor.

Parecia que trocávamos confidências, segredos que não contamos a ninguém mais. Umedeci meus lábios secos e vi ele copiar a ação, atento à minha boca. Sorri, e ele sorriu também. Nós dois sabíamos o que ia acabar acontecendo, estava tão óbvio que chegava a ser infantil negar que ambos queríamos aquilo. Não sei quem tomou a iniciativa, mas num fragmento de segundo estávamos nos beijando, lenta e carinhosamente.

Seus lábios cobriam os meus como um escudo. Senti-me seguro naquele beijo cálido e gostoso, molhado na medida certa. Ele mordiscava meus lábios no momento certo, formigando-me o corpo de modo prazeroso. Yoon se inclinou mais em minha direção e envolvi seu pescoço com os braços, mantendo-o próximo. A dor havia se tornado surpreendentemente suportável.

Suas mãos desceram pelos meus ombros e descansaram em minha cintura. Ele apertou uma vez, e não consegui esconder o desconforto dos hematomas que ali haviam. O hyung acariciou o local com os dedos como se pedisse desculpas.

E eu as aceitei, assim como sabia que dali em diante aceitaria tudo que viesse dele.

Nosso contato se findou no que pareceram ser várias primaveras depois. Sorrimos juntos, igualmente acanhados, mas não havia resquício algum de arrependimento. Yoongi se deitou e me trouxe junto, para cima do seu peito aconchegante, e me alinhei ali. Ele afagava meus cabelos, cantarolando baixinho. Duas ou três músicas  depois, me manifestei:

― Por que nunca rotulamos a nossa relação, hyung?

Ele parou de cantar e ficou alguns segundos em silêncio. Quando respondeu, sua voz parecia uma ventania morna de verão:

― Porque nunca precisamos, Tae. No fundo estava tudo muito claro, só precisávamos da deixa certa.

― E eu precisei apanhar pra que isso acontecesse.

Ri, e ele me acompanhou. No fundo não tinha muita graça, mas precisávamos descarregar aquela euforia de alguma forma.

― Eu não consegui transar com o Nathan porque fiquei pensando em você. Você estava demorando demais pra voltar, fiquei preocupado.

Sua confissão me fez sorrir. Ergui o rosto até que os nossos olhos se encontrassem e deixei um selinho em seus lábios.

― Será que ele ficou chateado?

― Acho que sim, mas nós não iríamos dar certo, de qualquer forma.

Minutos inertes se passaram, onde ficamos apenas aproveitando a companhia um do outro. Acho que acabei cochilando, porque quando voltei a abrir os olhos Yoongi me chamava baixinho, com os lábios rentes ao meu ouvido. Arrepiei-me.

― O que foi, hyung? ― perguntei.

― Tenho que te levar ao hospital, pabo. Precisamos ter certeza de que são apenas hematomas ou algo mais sério, vamos.

Ele me afastou com gentileza e se levantou, ajeitando as roupas em seu corpo. Calçou seus tênis e fez menção de me ajudar a levantar, mas o interrompi.

― Yoonie-ah.

― O que foi, Tae?

― Acho que o CI tinha razão.

― Sobre o quê?

― É ótimo ter um fragmento da sua terra natal com você num país diferente. Obrigado por estar aqui.

Então ele sorriu, largo e gengival. Ajoelhou-se na cama, segurou o meu rosto e tomou meus lábios com cuidado, como se eu fosse capaz de quebrar.

― A gratidão é mútua, Tae. Vem, vamos logo. Prometo que compro bolo pra você depois que sairmos do hospital.

Ri e afirmei com a cabeça, porque ele sabia como me convencer de qualquer coisa. Ele era a melhor parte da Coreia que eu poderia ter trazido comigo. Meu melhor fragmento.

 

― xXx ―

 

O hospital não estava cheio, mas ainda assim precisamos esperar cerca de meia hora até que eu fosse atendido. Fiz um Raio-X, uma tomografia e passei por um ortopedista, e, de acordo com os resultados, estava tudo na mais perfeita ordem; Nathan tinha razão: foram apenas hematomas e pequenos cortes.

Confesso que não tinha me dado conta da proporção das coisas antes de ir ao banheiro e erguer minha camisa: pelo meu abdômen estavam espalhadas pequenas galáxias arroxeadas e azuladas, fundindo-se em cosmos esverdeados. Estava bem feio e doía até quando eu respirava ― não só fisicamente.

O médico que me atendeu receitou alguns medicamentos para dor e pomadas que eu deveria passar diariamente nos machucados. Ele pediu também que eu ficasse em repouso por uma semana e poupasse muitos esforços, afinal, querendo ou não, eu tinha levado uma surra de quatro rapazes ― agradeci pelo doutor não ter perguntado o porquê de eu ter apanhado de quatro pessoas, tornaria tudo ainda mais embaraçoso.

Pegamos um táxi ao sair do hospital e paramos numa farmácia pra comprar os remédios e as pomadas que haviam sido receitados. Enquanto Yoongi pagava por tudo, aproveitei para mandar uma mensagem a Drew e pedir que ele me mantivesse atualizado quanto às matérias da próxima semana, já que por recomendações médicas eu deveria ficar em casa.

 

[ Drew J. ]

Mas o que aconteceu, Tae? A sua gripe piorou?

 

Senti a vergonha subir-me às bochechas e achei melhor me aproveitar daquele gancho. Não queria que Drew soubesse o que tinha realmente acontecido, porque era bem capaz que a universidade inteira soubesse logo no dia seguinte ― não que ele seja um fofoqueiro, mas é incrível como as informações mais pessoais sobre nós têm a habilidade de se espalharem como um vírus.

 

[ Você ]

Sim, Drew, a gripe não está dando trégua. Fiquei com uma baita febre e o Yoongi me levou ao hospital agora há pouco. Estamos na farmácia comprando alguns remédios que o médico me receitou.

 

[ Drew J. ]

Puxa, que chato :(

Espero que você melhore nessa semana de repouso, Tae

E fique despreocupado, eu vou te mandar todas as matérias que os professores passarem, okay? Só se preocupe em ficar melhor

 

[ Você ]

Muito obrigado, Drew. Você é um anjo

 

[ Drew J. ]

Que nada, apenas me preocupo com os meus amigos ;D

Se precisar de qualquer coisa é só chamar <3


 

― xXx ―


 

― Confesso que me senti mal em mentir ‘pro Drew ― eu disse assim que entramos no apartamento. Yoongi tirou os sapatos e os deixou ao lado da porta. ― Ele sempre foi tão legal e prestativo comigo… na verdade, fiquei com vergonha de contar.

Sentei-me no sofá da sala e tirei meu casaco, sentindo-me um completo caco. Minha cabeça ainda não conseguia processar a quantidade de coisas que aconteceram num único dia.

― Você teve os seus motivos ― Yoon respondeu antes de se sentar ao meu lado e ligar a televisão. ― Por enquanto é melhor que apenas a gente saiba. E o Nathan, claro, mas não se preocupe com ele, sei que não irá espalhar pra ninguém.

― Assim espero.

― Está com fome? Posso fazer alguma coisa pra gente.

― Não, obrigado. ― Espreguicei-me e resmunguei alguns palavrões devidos às pontadas de dor pelo corpo. ― Eu só quero tomar um banho e dormir.

Yoongi me olhou por alguns segundos e assentiu, parecendo concentrado em algo.

― Acho que vou fazer o mesmo. Consegue ir sozinho?

― Claro. ― Levantei-me com cuidado.

― Me chame se precisar de ajuda.

― Eu estou bem, hyung.

 

Não, eu não estava nada bem. Depois de um banho mais demorado que o previsto graças à sensibilidade dos hematomas e a forma patética com a qual me vesti ― como uma criança que não tem forças nem para colocar uma camisa sozinha ―, desabei na minha cama, em prantos. Sentia-me o ser humano mais idiota do mundo, e, mesmo tendo acabado de sair do banho, a sensação de sujeira irritava minha pele e me arrepiava.

Solucei e gritei contra o travesseiro, sem medo de colocar pra fora aquela avalanche de tristeza que chegou rasgando tudo por dentro e varreu meu coração, deixando-o apertado no peito.

A porta se abriu ruidosamente e Yoongi quase correu até mim, tomando-me seus braços. Ele me segurava como um bebê, acomodado em seu colo, e não disse nada além de um “shh, está tudo bem”. Acho que murmurei algumas coisas durante o choro, mas não me lembro. Só conseguia sentir dor. Raiva. Nojo. Tristeza. Eu queria me lavar com vinagre e esponja de aço, quem sabe assim aquela sensação horrível desaparecesse?

― Taehyung-ah, se acalme. ― Yoongi afagou meus cabelos e me apertou contra o seu peito. Nem tinha percebido o quão forte agarrava o seu suéter. ― Shh, pronto, passou… tranquilo, Tae, tranquilo.

Atentei-me apenas à sua voz para sair daquele ninho amargo. As lágrimas secaram conforme os meus batimentos seguiam os seus ― que eu sentia claramente contra o meu braço recostado em seu peito. Meus olhos ardiam e sentia os lábios secos.

Quando Min afrouxou seus membros do meu entorno foi que notei o quão forte ele estava me segurando. Nossos olhares se cruzaram e ele tinha uma expressão dolorida, como se acabasse de levar uma facada certeira. Eu sorri, um agradecimento mudo por ele estar ali.

― Obrigado, hyung. E me desculpa, eu…

― Não se justifique, Tae ― cortou-me, a voz baixa e ponderada. ― É mais do que natural que você demonstre essa reação. Olha pelo que você passou! No seu lugar eu teria desmoronado muito antes.

― Eu realmente tenho muita sorte por te ter aqui. ― Deitei a cabeça em seu ombro e sorvi do aroma de cravos que a sua pele exalava.

― Você precisa dormir, ‘saeng.

Ele se deitou e me levou consigo, depois cobriu a nós dois. Em nenhum momento seus braços deixaram de me envolver e apoiar meu tronco, como se em algum momento eu fosse me repartir em dois para sempre. O mais estranho é que a sensação que me dominava era exatamente essa: eu parecia estar por um fio.

― Hyung?

― Hum.

― Namora comigo?

Foi simples assim, porque achei que fosse o certo e porque era isso que eu queria, com todo o meu coração. O silêncio se prolongou por minutos angustiantes para mim, onde senti a ansiedade manter o sono e a exaustão encolhidos no cantinho do meu ser.

― É claro que eu namoro com você, Taehyung. ― Pelo tom de sua voz eu sabia que ele estava sorrindo. ― Agora vamos dormir, huh?

Assenti e sorri tão largamente que as minhas bochechas doeram. O sono e a exaustão vieram num gole único e certeiro que fez minhas pálpebras pesarem. Pouco antes de adormecer, um fiozinho de pavor se entrelaçou em meus nervos, mas não fez muito mais do que isso. Eu adormeci com a esperança de dias melhores a partir dali, porque eu estava ciente da luta que estava travando e do quão séria ela era. E, principalmente, eu teria meu cavaleiro de armadura reluzente para me resgatar quando eu caísse.


 

End.


Notas Finais


Oi, oi! E então, gostaram? Eu e a equipe do projeto fizemos tudo com muito carinho e cuidado pra vocês.
Queria agradecer a: @uritaechu pela betagem. Muito obrigadx pela atenção e carinho! <33 @jimiel pela capa que eSTÁ UM H I N O!
Estou muito gratx ao trabalho duro de ambos, pois sem vocês essa fanfic não seria o que é. Obrigadx também às ADM's do Tykaesthetic e os demais membros pelo carinho e cuidado, não só comigo, mas uns com os outros também. Somos uma equipe unida, e isso é lindo de se vivenciar :D szsz

Até uma próxima, angels! Beijinhos ~ chu :*


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