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História FREEDOM Chris Evans - Capítulo 9


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Notas do Autor


Ei, meus amores! Tudo bem com vocês?

Aqui vai mais um capítulo para entreter vocês durante essa quarentena. Fiquem bem e a salvo, sejam prudentes.
Boa leitura!

Instagram: @dwhite_book

Capítulo 9 - Como uma mentira


Fanfic / Fanfiction FREEDOM Chris Evans - Capítulo 9 - Como uma mentira

Los Angeles - Califórnia.

A água quente caía sobre o corpo de Chris, escorrendo pelos cabelos e descendo por suas costas. Era relaxante e, se não estivesse tão agitado para arrumar as malas e ir para Atlanta, continuaria ali por mais alguns estendidos segundos.

Saiu do banheiro enrolado em uma toalha, ignorando debilmente o fato de estar molhando o carpete. A cama de lençóis cinza estava perfeitamente arrumada e, por isso, não demorou para que encontrasse seu celular e digitasse uma mensagem para Eleanor. Conversavam bastante e naquele momento, não paravam de rir sobre o grude entre Shanna e Graham. Lea estava almoçando com os dois e, por se sentir segurando vela, acabou achando em Chris a graça para aquela situação. 

Saiu para a sala, pisando no chão frio e deixando o aparelho pela mesa de centro.

Seu apartamento em Boston ainda não era extremamente familiar quanto aquela mansão, afinal, ficava mais em Los Angeles. Além disso, depois que voltou a residir a maior parte do tempo em uma casa, não conseguia se acostumar com a problemática de um apartamento.

Estava decidido a encontrar uma casa em Boston.

O interfone tocou, interrompendo seu trajeto até a cozinha.

_ Sim? - disse assim que atendeu.

_ Sou eu, Jennifer.

Chris apoiou a mão na parede ao lado do interfone, respirando fundo. A última coisa que precisava era discutir uma relação que já havia acabado. Odiava ser o vilão, mas Jennifer insistia em não entender.

_ Entra - suspirou, destrancando o portão.

Esqueceu completamente do que iria fazer e voltou-se para o quarto, colocando uma roupa.

Foi até a sala, vendo a mulher caminhar com uma bolsa grande pelo hall de entrada. Ela olhou para todo os lados e depois para ele, buscando algo de diferente.

_ Vim buscar minhas coisas.

Chris riu pelo nariz, se sentando no sofá.

_ Não tem nada seu aqui.

Ela revirou os olhos.

_ Você acha que não tem. - disse, seguindo para o corredor e indo em direção ao quarto do rapaz.

Evans, sem entender, levantou e foi atrás dela, procurando se lembrar do que ela estava falando. 

_ Eu sei que você tem todo esse complexo de cara independente no relacionamento e que cada um deve respeitar o espaço do outro. Eu super entendo isso, mas venhamos e convenhamos, você é completamente surtado! - ela estava ajoelhada dentro do closet quando ele entrou, abrindo algumas gavetas e pegando peças de roupas que ele nunca havia visto naquela casa. - Achou mesmo que eu ia passar a maior parte do tempo na sua casa e ficar carregando bolsa cheia de coisas toda vez que tivesse que ir embora? O que custava me liberar uma gaveta, Chris? Esse closet é enorme, você nunca descobriu que minhas roupas estavam aqui porque sabe que essa parte ficava vazia!

Ele estava visivelmente incomodado e não era só pelas gavetas.

_ E por que estamos tendo essa conversa depois que nos separamos? - ele coçou uma das sobrancelhas. - Se estava incomodada, era só me dizer.

Ela riu de deboche.

_ Como se eu não tivesse tentando.

E Jennifer tentou, ele se lembrava. Ela havia conversado com o ator sobre o assunto e ele, sem mais nem menos, discursou sobre estabelecer espaços e entender que cada um possui a própria vida. Foi uma péssima metáfora sobre juntar as escovas de dentes ser a mesma coisa que pegar carona na fama um do outro.

A verdade era que Chris havia tido muitos relacionamentos e todos foram arruinados pela forma como suas namoradas o usavam para crescer em Hollywood. Ele só havia criado algumas defesas.

_ É, mas agora não adianta, esta tudo acabado. - reforçou. - Você até esta levando tudo.

Ela balançou a cabeça em afirmação, levantando e indo para fora do quarto.

_ Sim, mas eu me senti no direito de te avisar isso, caso encontre outra pessoa. - Jenny tinha uma voz mais séria, procurando soar como alguém que o alertava. - Você precisa entender o que é um relacionamento, Christopher, ou nunca vai conseguir sustentar um.

Ela foi até a cozinha conseguindo o efeito que, no fundo, desejava. Chris estava desestabilizado com aquilo, logo levando seus pensamentos diretamente para Eleanor.

Ele não era completamente leigo e sabia que possuía um jeito singular, mas tinha motivos pelos quais Eleanor havia se mostrado não oferecer nenhuma ameaça e, por isso, havia sido tão fácil aderir uma postura diferente com ela.

O ator se sentou sobre o banco, vendo Jennifer abrir todas as prateleiras da cozinha.

Pensou em tudo aquilo que sua mente trabalhava e, nem ao menos, questionou se ela era a pessoa certa para lhe responder:

_ E se, porventura, eu encontrasse alguém com o mesmo jeito?

Jenny se ergueu, olhando para ele. Imaginou se a tal pessoa havia parecido, já que Chris parecia muito mais em paz do que da última vez que haviam se encontrado. Porém, queria que o homem se tornasse uma página virada em sua vida. Só estava extremamente enfurecida pelo término e desejava que Evans se sentisse mal por ela escolher ir embora, já que ele havia feito isso tantas vezes.

_ Então você vai sentir na pele o que fez comigo. E espero que sinta.

Carlisle - Massachusetts.

O barulho do pneu passando sobre a estrada cheia de areia era de rasgar os ouvidos, fazendo Eleanor fechar o vidro e preferir o ar sufocante de dentro do carro.

Os grandes portões da propriedade se abriram no momento em que estacionou de frente para os mesmos e a mulher revirou os olhos ao passar por alguns seguranças que falavam no rádio.

Ao longo do caminho revestido por árvores havia a imagem do lago como paisagem e percebeu que os jardineiros que cuidaram de seu entorno haviam se levantado para vê-la entrar. 

Chegar até onde desejava era, praticamente, seguir por uma estrada que era escondida pelas árvores. Sempre achou aquilo lindo, mas nunca pôde apreciar da maneira deveria. Fazer aquele trajeto trazia lembranças horríveis.

Após uma curva fechada, ao longe, já era possível enxergar a mansão a sua esquerda e, à direita após as copas das árvores darem espaço ao céu aberto, havia os inúmeros hectares de plantação. O casarão era exageradamente expressivo, deixando claro em sua fachada o quanto havia sido caro. Os jardins a sua volta estavam perfeitamente cuidados e as quatro grandes portas abertas da garagem exibiam carros de valor imensurável.

O estômago da mulher se embrulhou ao ver aquilo.

Tentou não se sentir intimidada pela grande mansão de pedraria cinza e de janelas extremamente brancas, como se fossem pintadas todos os dias.

Estacionou o carro atrás de uma caminhonete de preço claramente dispendioso e respirou fundo antes de sair.

O barulho de seus saltos sobre as pedras foi alto e se não fosse pelos passos pesados de quem se aproximava não teria percebido devido ao barulho que ela mesmo emitia.

_ Senhorita White. - um homem bem afeiçoado e de terno elegantemente desenhado a cumprimentou, vendo-a sair do veículo com o casaco em mãos. - Sou Spencer. Posso guardar seu veículo na garagem?

Ela não parou, já andando em direção a porta de entrada e deixando o pseudo mordomo para trás.

_ Ninguém encosta nele.

Foi cumprimentada por mais dois empregados ao passar pelos portais da frente e, assim que se viu no hall de entrada, foi obrigada a desacelerar.

O ambiente era muito pesado e parecia que, a partir do momento que passará por aquela porta, todo o peso que havia deixado sobre aquela casa caía sobre si novamente. Ela sentia-se a mulher que um dia foi senhora daquele lugar. Conseguia sentir seu temor ao andar por aqueles corredores e a falta de autoridade lhe causar desespero. Era capaz de destinguir o nojo que a acompanhava todos os dias e o medo de que James passasse por aquela porta.

_ Senhorita. - Spencer se pôs ao seu lado, respirando pesadamente e mostrando que havia corrido para alcançá-la. - Seu pai está em uma reunião no escritório.

Ela respirou fundo, buscando a postura que escolheu adotar no momento em que decidiu ir até aquele lugar.

_ Ele pouco me importa. - se virou para o homem. - Cadê o Billy?

_ Está na aula de hipismo no haras.

Ela olhou para o lado de fora, buscando na memória em que direção ficava aquele lugar.

_ Ótimo.

Começou a andar, mas Spencer a alcançou.

_ Tenho ordens para pedir que a senhora continue aqui até que seu pai possa recebê-la.

Ela olhou para o homem com uma expressão cansada, imaginando por qual motivo ele imaginava que aquele pedido seria acatado.

Se não fosse por sua singular intensão de estar ali, apenas sairia pela porta e buscaria Billy.

Ela suspirou, virando-se novamente em direção a sala principal e voltando a andar.

O homem se encontrou perdido, não sabendo agir diante daquela ação.

_ Onde a senhorita vai?

Eleanor apertou os olhos com força, já sentindo sua cabeça latejar na presente daquele homem. 

_ Não te interessa. - gritou, subindo as escadas. - E, se me seguir, se prepare para um escândalo.

O corredor do segundo andar continuava com a mesma decoração brega que a mãe de James havia escolhido. George era tão inútil que, nem ao menos, havia redecorando a casa.

O cômodo que procurava estava bem diante de si, uma vez que a porta era de frente para o corredor. Caminhou até ela, vendo sua madeira escura mais desgastada do que se lembrava.

Até mesmo o cheiro daquele quarto era o mesmo.

Ainda havia um exagerado lustre em seu centro, destacando o teto alto. As bregas e gigantes cortinas ainda deixavam o ambiente mais escuro do que deveria ser. A lareira estava mais branca do que quando estava acostumada, mas as cabeças abatidas dos animais continuavam de frente para a imensa gama de seda branca.

Eleanor caminhou até ela, sentindo o tecido sob seus dedos. Era triste lembrar que um dia havia dormido ali.

O celular começou a tocar em seu bolso e, ao tentar saber sobre quem se tratava, Lea percebeu que sua visão estava embaçada por um choro silencioso.

Caminhou até uma das poltronas que ficam de frente para lareira, normalizamos sua voz antes de atender.

_ Oi. - forçou um sorriso, por mais que estivesse feliz em saber que ouviria a voz dele.

_ Ei! Te acordei? - Chris questionou, provavelmente percebendo algo estranho em sua voz.

Lea fez uma pausa, se odiando por mentir.

_ Sim.

Ele riu do outro lado da linha.

_ Me desculpe. É que estou quase chegando no estúdio e pensei que seria bom ouvir sua voz.

Ela sorriu, dessa vez, verdadeiramente.

_ Não se desculpe, fico feliz que ligou.

A realidade era que já havia se passado duas semanas desde a partida do ator e aquela era a segunda vez em que se falavam por ligação. Trocavam alguma mensagem no final do dia, mas Chris estava sempre cansado ou atrasado para algum compromisso. Sentia falta dele, mesmo sendo difícil de admitir, mas escondia uma pontada de decepção pelas coisas não estarem acontecendo da maneira que imaginou.

Não se sentia no direto de questionar sobre o assunto, então apenas guardava seus sentimentos para si.

_ E então, hoje é sábado. Você está em casa?

Ela odiava aquelas perguntas.

_ É... Eu estou em casa. Por que?

_ Minha família vai fazer a noite do cinema com as crianças e Shanna disse que ia te convidar.

Lea começou a coçar a cabeça de nervoso, buscando as palavras.

_ Ela falou comigo, mas achei melhor ficar em casa para descansar e preparar minhas aulas da semana. Talvez eu consiga ir para Sudbury mais tarde, não sei. 

Houve um silêncio enquanto Chris buscava qualquer assunto para que aquela conversa não se encerrasse, mas caiu em si e percebeu que talvez Eleanor não estivesse tão afim de continuar conversando, já que não fazia o mesmo que ele.

_ Tudo bem, vou te deixar descansar então. - disse, tendo esperança em uma boa resposta.

Lea apenas perguntou em tom baixo, sentido-se derrotada.

_ Você sabe quando volta? 

Chris suspirou.

_ Ainda não.

Ela balançou a cabeça de maneira como se Chris estivesse a sua frente, tentava se conformar. 

_ Certo. Boa gravação, então.

Ele esperou alguns segundos, ainda tendo esperança de que aquela conversa não havia terminado, mas estava errado.

_ Se cuida, Lea.

Eleanor escutou aquela frase antes de desligar, subindo as pernas e abraçando-as enquanto digeria a saudade que aquela conversa deixava explícita.

Não agia daquela forma por mal, realmente sentia falta dele e, por estar completamente envolvida, decidiu ir até Carlisle naquele dia. Precisava colocar a cabeça no lugar para dar continuidade àquela relação, Chris merecia isso.

Depois de sua partida, sofreu intensamente com a desagradável presença de seu passado, sendo atormentada por noites. Entretanto, não era como antes pois ela não queria mais se entregar. Antes, por falta de força, apenas lutava contra a imagem de James e tomava seus remédios quando estava a beira do desespero, se vitimizava a todo momento. Era só uma batalha para que os próximos dias fossem melhores até outra crise surgir. Após Chris, algo lhe revigorou. Ela estava sendo assombrada, mas não podia aceitar aquela situação e, todas as vezes que uma crise acontecia, ela fazia de tudo para revertê-la. Corria, lia, cozinhava, dirigia… Não importava, ela só não aceitava ficar trancada dentro de seu apartamento esperando que aquela situação passasse. Todavia, era algo difícil de controlar. Quanto mais forte Eleanor parecia, mais insistente eram seus incômodos.

Estava decidida, faria de tudo para melhorar. E, por isso, escolheu encarar seus maiores medos de frente, indo até o lugar onde todo seu terror aconteceu.

_ Então você mente para os seus amigos. - ouviu a voz de George vinda da porta. - Sabe, eu quase fiquei ofendido quando a escutei dizer que estava em casa.

Ela revirou os olhos, olhando brevemente para ele com a expressão cansada.

_ Cadê o Billy?

George vestia um terno vinho escuro com detalhes em veludo. Aquilo, unido ao seu caminhar formal, era ridículo. Ele andou mais para dentro, parando próximo a filha.

_ Na aula de hipismo, como Spencer lhe informou.

Ela bufou, jogando a cabeça para trás. Odiava a voz daquele homem.

_ Por que esta me impedindo de vê-lo agora?

Ele riu.

_ Não é óbvio? Só quero passar um tempo ao lado da filha que não vejo há mais de um ano.

Ela se levantou, erguendo consigo o ar de deboche.

_ Quer me manipular para saber o que vou falar para ele. - afirmou.

George não mudou sua expressão, continuando com um sorriso controlado estampado no rosto.

_ Apenas venha, Eleanora.

Ele começou a caminhar, não esperando por uma resposta.

Lea queria tomar uma postura diferente, recusando a presença do pai a qualquer custo. Mas ele estava incluído no pacote superação e ela precisava se dar a chance de suportar estar com ele, nem que fosse um pouco.

_ É nojento ver que você usa aquele quarto. - disse enquanto estavam no corredor.

Não podia ver o rosto do pai, pois ele caminhava a sua frente, mas ouviu sua risada.

_ Acha mesmo que sou tão desprezível assim? Nunca dormi naquele lugar, tudo o que você deixou ainda esta dentro daquele closet.

Eleanor pensou sobre o que havia acabado de descobrir. De fato, não havia explorado o resto do cômodo, apenas imaginando que George era vaidoso o bastante para querer ficar no maior quarto da casa. Ser revelada sobre o contrário era surpreendente, mas ele ainda era o mesmo homem de antigamente.

_ Idolatra o agressor da própria filha a ponto de querer seguir seus passos e não quer ser considerado desprezível? - disse, ríspida. - Um campo de golfe dentro de uma fazenda? Fala sério, você é muito engomado para bancar um fazendeiro.

Chegaram ao escritório no andar de baixo e ela viu George dispensar os empregados que estavam por perto, fazendo com que ficassem a sós. Ele indicou a cadeira da frente para que ela se sentasse e a mesma o fez, vendo-o servir duas xícaras de chá e se acomodar na grande cadeira por de trás da mesa.

_ Precisa aceitar que devemos tudo à James. Ele era inteligente, fez um império.

Ela riu pelo nariz, balançando a cabeça em negação ao ouvir aquelas palavras.

_ Não devo nada à ele.

Ele bebericou o chá, falando com a xícara próxima aos lábios.

_ Mas vendeu duas das fazendas que ele lhe deixou e usa do dinheiro para se manter na capital.

_ É o meu direito depois de tudo que passei.

George suspirou, colocando o chá sobre a mesa.

_ Veja como quiser. - encarou a xícara da filha, ainda intacta. - Não vai beber?

Ele passou uma das mãos no rosto, suspirando.

_ Não.

Ele balançou a cabeça em afirmação, sabendo o quanto a mulher a sua frente estava incomodada.

_ Sua mãe me procurou. - contou, esperando uma reação diferente, mas Eleanor apenas lhe encarou novamente, ainda com o cansaço em sua expressão. - Queria dinheiro.

_ E o que você disse à ela?

George riu.

_ “Vá se foder.”

Lea se remexeu na cadeira, arrumando sua postura e suspirando mais uma vez.

_ Também me procurou assim que me mudei para Boston.

Ele achou interessante.

_ E o que você falou para ela?

Eleanor riu de nervoso.

_ “Vá se foder.”

George riu, sentindo seu ego se inflar.

_ Tal pai, tal filha.

A mulher revirou os olhos, se levantando.

_ Infelizmente.

Ela caminhou até a janela, observando os campos do lado de fora. Estava começando a se sentir claustrofóbica, mas era apenas a presença daquele homem que tentava bancar um bom pai.

_ Sabe, sinto falta de você e sua irmã aqui.

Eleanor riu em deboche.

_ Não acredito que estou escutando uma coisa dessas.

Mais uma vez, George não se abalou, continuando com um sorriso enquanto falava.

_ Você pode pensar o que for, mas é verdade.

Lea olhou para ele por alguns segundos, mostrando que estava odiando aquela afirmação.

_ Onde esta a Donna? - desconversou. - Não vi nada cheio de purpurina na decoração até agora, esse não parece um lugar onde ela mora.

_ E não é. - ele falou um pouco mais alto, recostando-se na cadeira e unindo as mãos frente ao corpo. - Nós nos separamos.

Aquilo, enfim, despertou o interesse da mulher, ganhando sua atenção.

_ Jura?

_ Sim. - ele não expressava tristeza. - No final sempre fica apenas meus filhos e eu.

Por mais que aquelas palavras tivessem saído com objetivos específicos, Eleanor não comprou aquela conversa. Sabia que George estava tentando manter as aparências, como sempre havia feito e, por algum motivo, achava que deveria reforçar isso diante da filha. Mas aquela fachada era a última coisa que a mulher queria aderir.

_ Não conte tanta vantagem. Duas de suas filhas já foram, é questão de tempo para que Billy faça o mesmo.

Ele sorriu, mas Eleanor estava tão ocupada em evitar o contato visual que nem percebeu.

Pegou a xícara, desistindo de tentar digerir aquele chá, foi até uma das plantas de canto e jogou o conteúdo sobre elas, indo até o mini bar e pegando um copo de whisky. Ficou por alguns segundos observando a silhueta da filha de frente para a janela. Não era a melhor das pessoas, mas tinha lembranças e ainda era difícil de acreditar que a menina que um dia ele entregou para James havia se tornado aquela mulher.

_ Por que veio até aqui, Eleanora? - perguntou, ainda próximo ao bar.

Viu os ombros dela subirem, mostrando que ela respirava fundo.

_ Para ver meu irmão.

Deu um gole em seu whisky e continuou a estudá-la.

_ Não entraria naquele quarto se fosse apenas por isso. - disse, mostrando o quanto podia ser esperto. - Elas ainda aparecem para você, não é? As lembranças.

Eleanor fechou os olhos, sentindo uma raiva subir pelo seu peito. Ninguém era digno de falar sobre aquilo, principalmente ele.

_ Isso não é da sua conta.

Ele suspirou, caminhando até ela. Se pôs ao lado da filha, encarando a paisagem estampada na janela.

Lea perguntou, por míseros segundos, se George podia estar se sentindo culpado ao tocar naquele assunto. Mas percebeu que, mesmo o pai lhe implorando por perdão, ela não seria capaz de reverter aquela relação.

O observou pelo canto do olho enquanto ele colocava o copo vazio na mesa próxima.

_ Vem, vou te levar até seu irmão.

-

Os campos eram demasiadamente verdes e a brisa era extremamente acolhedora. Por que não conseguia perdoar aquele lugar? Se fosse qualquer outro ambiente, amaria estar ali, mas mesmo reconhecendo todas as qualidades daquela fazenda, continuava a odiando.

Ela caminhava sobre a grama, ignorando o caminho de pedras que descia até o haras ficava em um nível mais abaixo. O local estava maior do que se lembrava, mostrando que havia sofrido reformas. Era um ambiente equipado para treinar uma equipe, mas apenas Billy corria pelos obstáculos.

Viu o instrutor olhar para a mansão, recebendo ordens de George - que ficará na varanda - para que o menino fosse liberado. O homem gritou para o aluno que parou seus movimentos sem entender. Enquanto caminhava, Eleanor pôde ver o irmão deixar o circuito cabisbaixo, provavelmente chateado por seu treino ser interrompido, mas não foi necessário ir até o professor para ser informado sobre o que estava acontecendo. Em meio ao seu caminho, ainda sobre o cavalo, Billy viu a irmã e abriu um largo sorriso.

Ela deu a volta, entrando grande construção de madeira e atravessando todo o haras às pressas para chegar até o garoto. Quando estava no meio do corredor cheio de pequenos estábulos, viu Billy correr, jogando as luvas pelo meio do caminho.

Os dois se abraçaram cheios de saudade e Lea tentou o erguer do chão, mas fora ele quem a elevou, girando-a no ar.

_ Meu Deus, como você esta grande!

Depois de deixar Carlisle, viu o irmão apenas uma vez e percebeu o quanto a chegada da adolescência estava o transformando. Todavia, pelo o que se lembrava, ele ainda era mais baixo do que ela e se deparar com um homem com mais de 1,80 fez a mulher se surpreender. Não acreditava que ele tinha apenas treze anos.

Os dois se separaram, mas Lea não tirava as mãos dele.

_ Está crescendo barba. - Billy apontou para alguns pelos que surgiam de forma aleatória em seu rosto, fazendo-a gargalhar. - Está dando para ver?

_ Eu não acredito que você esta se tornando um homem!

O menino sorriu com o elogio.

_ Um homem bem bonito, não é? - zombou, deixando-a ainda mais alegre.

Ele a abraçou de lado, guiando-a para a parte aberta do haras.

Conversaram durante muito tempo enquanto caminhavam pelos estábulos e Billy apresentava todos os cavalos para a irmã. Até perderam a noção da hora, mas nem se importavam com isso.

Eleanor, pela primeira vez desde que chegara naquele lugar, conseguia se sentir mais leve. A presença do irmão era capaz de tapar algumas feridas e ela apreciava isso, dando verdadeira importância para aquele momento. 

Assim como Hanna, Billy era bastante falante, não deixando a conversa morrer. Ele era atencioso e queria saber sobre tudo o que ela fazia. Lea foi transparente, apenas escondendo o fato de que estava se relacionando com alguém. Por mais que amasse o irmão, sabia que George conseguia arrancar algumas informações dele e, por isso, preferiu deixar para mencionar Chris em outro momento.

Foram para o ambiente aberto, passando pelos circuitos e se sentando sobre a cerca de madeira que circundava o haras. Pela primeira vez em muito tempo, ficam em silêncio, apenas apreciando o campo verde a frente.

_ Você vai ficar? - a voz fraca de Billy o entregou.

Aquela era uma pergunta esperançosa e Lea sabia que a resposta o decepcionaria.

Ela umedeceu os lábios, olhando para ele no intuito de lhe transmitir confiança.

_ Não. - tentou soar doce. - Mesmo que eu amasse esse lugar, ainda tem o George…

Billy estalou a língua, saltando da cerca e dando alguns passos para frente da irmã. Ele mediu as palavras por um tempo, mostrando que tinha grandes questionamentos.

_ Sabe… Eu não entendo o motivo de você querer ir embora daqui. O problema era o James e ele já morreu.

Eleanor balançou a cabeça em negação.

_ Você era apenas uma criança quando tudo aconteceu e ainda é muito cedo para entender meus motivos.

Aquela frase o deixou visivelmente enfurecido. 

_ A única coisa que não consigo entender é você abrir mão da sua família! Até Hanna, antes de ir para Espanha, vinha mais aqui do que você.

Lea olhou para ele por alguns segundos, buscando compreender onde Billy queria chegar. Ele nunca havia a questionado daquela maneira e era a primeira vez que mostrava tão pouca empatia.

_ George me vendeu! - a voz dela também se exaltou. - Qual parte dessa história você esta escolhendo esquecer? Hanna não vem aqui porque se não fosse eu, ela seria a mercadoria. Eu não venho porque fui agredida em cada canto desse lugar!

Ela não queria se vitimizar e estava se sentindo muito bem ao dizer aquelas palavras, afinal, o garoto estava merecendo um choque de realidade. 

Aquilo fez com que Billy abaixasse um pouco a guarda, sendo sensibilizado. Entretanto, tinha muitas resoluções sobre aquele assunto e nenhuma delas eram iguais as da irmã.

_ Você e Hanna dizem que não podem me levar daqui pois ainda sou de menor, mas porquê só ela me visita?

Lea suspirou.

_ Eu ainda sou aterrorizada, Billy. Ainda me lembro de tudo o que vivi aqui e, algumas vezes, sinto como se James me perseguisse, me torturando da mesma maneira que antes.

O menino ficou em silêncio, digerindo aquela confissão. De fato, nunca entenderia a irmã, pois nunca passou pelo o mesmo que ela. Seu único problema sempre foi uma mulher extremamente vaidosa que o proibia de a chamar de mãe, pois um filho, segundo ela, envelheceria sua imagem perante as pessoas. Donna foi embora de sua vida por livre e espontânea vontade quando o divórcio com George aconteceu e ele não se vitimiza, pois não sentia a menor falta dela. Era trágico, mas sabia que o drama de Eleanor tomava dimensões totalmente diferentes. 

_ Você acha que, talvez, pudesse fazer algo para melhorar isso?

_ Como o que?

Ele deu de ombros, dando voz aos seus questionamentos.

_ Dizem que perdoar liberta a alma. Talvez pudesse começar por George. - sugeriu, alheio ao espanto da irmã por ouvir aquelas palavras. - Ele não tem sido tão ruim assim.

Eleanor estreitou as sobrancelhas, erguendo o rosto para o irmão e tentando crer que ele havia proferido aquelas palavras.

Saltou da cerca como ele havia feito antes, caminhando para a sua frente.

E, então, aos poucos, tudo começou a fazer sentido na cabeça da mulher. O haras reformado, todos os cavalos, a conversa para descobrir as intenções dela antes de ser levada até Billy… George estava jogando, como sempre havia feito e não queria enganar a ela, somente ao filho.

Ele havia planejado todo aquele momento e sabia que ela explodiria e que Billy, depois de muita manipulação, não veria mais o pai como ameaça e se colocaria contra a irmã.

Eleanor se sentiu uma tola por não perceber as coisas de início. O menino não poderia formular tantos questionamentos em sua mente se alguém não tivesse lhe jogado as informações. George estava fazendo isso.

Ele esperava uma reação explosiva e Eleanor estava cansada de ter que fazer o contrário.

Deu as costas para Billy, subindo novamente para a mansão em passos pesados. Escutava os protestos d garotos, mas ela não parava.

George observava os dois enquanto fingia jogar o ridículo mini golfe. Quando os seguranças perceberam a agressiva aproximação da mulher, se colocaram de prontidão para detê, mas o patrão ergueu uma das mão sinalizando que ficassem no mesmo lugar.

_ Você não se cansa de ser um desgraçado! - vociferou no momento que se colocou de frente para ele. - Esta satisfeito agora que conseguiu manipular seu filho para que ele faça as suas vontades?

Para sua completa aversão, George ainda estampava sua feição controlada.

_ Não creio que fiz algo de errado. - ele largou o taco no apoio, voltando-se novamente para ela. - Billy será meu sucessor nos negócios, é claro que ele e eu precisamos nos aproximar.

_ Você está o comprando e colocando ideias contra tudo que não lhe convém na cabeça dele!

O menino, mais afastado, ouvia a conversa apreensivo, temendo o que podia acontecer ali.

George suspirou, provavelmente encenando. Encarou o filho por alguns segundos, ainda sob o olhar raivoso de Eleanor. Quando se voltou para a mulher, expressava uma feição mascaradamente triste.

_ É o Billy quem pode dizer isso. - falou calmamente. - Se acha que sou um pai tão ruim, pode o levar, como você sempre quis.

A feição de Eleanor se desfez e ela deu alguns passos para trás, medindo as proporções para saber até onde aquilo poderia ser real. Todavia, não poderia perder aquela oportunidade, pois sempre esperou que George tomasse aquele posicionamento. 

Ela respirou fundo, começando a caminhar para dentro da casa.

_ Vem, Billy. Vamos arrumar as suas coisas. - passou pelo menino, segurando sua mão e o puxando.

Ele deu alguns passos junto a ela, mas parou no meio do caminho, chorando. Quando Eleanor o encarou, compreendeu o que aconteceria. 

Ele queria ficar.

O menino a abraçou e ela precisou corresponder, não podendo negar o quanto o amava. Lea também chorou, se culpando por permitir que aquilo acontecesse. Billy era apenas um menino e George conseguiu o que queria. Sentia-se mais uma vez destruída e percebeu que a partir dali, a vida do irmão estava destinada ao mesmo fim que a dela e Hanna. Assim, como elas, em algum momento da vida, o pai o arruinaria

_ Me desculpe. - ele disse entre soluços.

Ela o abraçou com mais força, molhando a camisa dele com suas lágrimas. Se afastou, segurando o rosto de Billy e dizendo aquilo que seu coração pedia:

_ Esta tudo bem. Eu te amo.

O soltou, enxugando o rosto e procurando firmar suas emoções para sair daquela maldita fazenda.

George a encarava de forma fria e, se não o conhecesse tão bem, poderia jurar que ele estava tentando mascarar uma tristeza sobre aquele acontecimento. Ele acenou com a cabeça para a filha, não conseguindo sustentar o contato por muito tempo. O olhar de desprezo que ela o dirigia era doloroso.

E então, assistiu a mulher ir até a garagem, demorar algum tempo para ligar o carro e, em um ato de raiva, acelerar contudo contra a caminhonete que estava estacionada a frente, fazendo a porta da caçamba cair quando o Corolla deu a ré. O carro de Eleanor estava claramente danificado na frente, mas ainda estava andando e aquele era o motivo perfeito para que ela cantasse os pneus e fosse embora.

Se o objetivo da mulher era causar ira e George, ela havia conseguido. O homem comprara aquela caminhonete há menos de uma semana.

Beadford - Massashucetts.

Eleanor parou o carro no estacionamento de um café ao longo da estrada. Havia acabado de sair de Carlisle, já alcançando a cidade de Breadford, no caminho para Boston.

Ainda sentia as mãos trêmulas e o grande instinto de voltar para aquela cidade e trazer Billy a força, mas não podia fazer isso, havia sido uma escolha dele. Naquele momento, precisava se acalmar para seguir pela estrada em segurança e, pelo caminho que já havia feito, um único desejo a acompanhava.

Não podia ser verdadeira e contar sobre tudo, mas precisava se abrir. E sentia que talvez fosse o destino lhe pregando uma peça para que finalmente fizesse o que Chris tanto queria, e de livre e espontânea vontade, sem ele precisar ficar lhe enchendo de perguntas. Eleanor só precisava dele e sabia que falar a livraria do fardo de passar os próximos dias de vitimizando inconsequentemente por aquele assunto.

Buscou o celular dentro da bolsa, procurando o contato as pressas.

Ele atendeu no segundo toque.

_ Lea? - Chris não conseguiu esconder a voz de surpresa.

_ Você esta ocupado? - ela ainda estava acelerada, impactando na voz.

_ N-não… Ainda estou em gravação, mas vim descansar um pouco no meu trailer. Aconteceu alguma coisa?

Um carro estacionou ao seu lado e uma família animada saiu do mesmo. Aquilo fez com que ela perdesse a atenção por alguns segundos.

_ Sim…

Chris suspirou, não sabendo se estava preocupado ou completamente realizado pelas palavras de sua ex namorada não serem reais. Lea estava mostrando mudança e, finalmente, iria se abrir.

Depois da chata visita de Jennifer, passou dias se perguntando o quanto Eleanor poderia lhe afetar. E, pela primeira vez desde que se envolveram, ele teve medo. Como tudo o que sentia, não podia explicar o motivo de seu temor, mas sabia que, caso as coisas não saíssem como o esperado, sentiria-se despedaçado. Porém, naquele momento, viu que seus temores foram em vão. Assim como ele, ela também estava disposta a tentar mudar.

_ Certo. Eu estou aqui para te ouvir.

Lea deitou a cabeça sobre o volante, buscando forças para começar a falar. Ela precisava daquilo, necessitava desabafar sobre como foi doloroso o momento em que Billy escolheu ficar… Chris ainda estaria alheio sobre os reais motivos daquela loucura que havia vivido. Para ele, George seria apenas um péssimo pai, com atos aos quais ela não revelava e Billy seria o irmão ingênuo que recusou seguir a irmã porque fora manipulado.

Seria mais uma história cheia de pontas soltas e omissões, mas foi a única chance que Eleanor encontrou para expor sua dor.

E ela não podia mais passar o pano para si mesma. Suas omissões eram o mesmo que mentira.

_ Procurei meu pai e meu irmão hoje…

 


Notas Finais


E ai, o que acharam?
Espero vocês no próximo xoxo
Mil beijos!


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