1. Spirit Fanfics >
  2. From the Bottom... - Interativa >
  3. T1: Família

História From the Bottom... - Interativa - Capítulo 9


Escrita por: Yuukuu

Notas do Autor


E lá vamos nós, nessa ftb-feira com um capítulo focado na Tengoku ~

Não tenho muito o que dizer, espero que gostem! o/

Capítulo 9 - T1: Família


18 DE ABRIL - 14:00

 

Quem passasse de carro ou a pé por aquela rua não teria ideia de que aquele pequeno conjunto de apartamentos, com míseros dois andares e quatro apartamentos em cada nível, era praticamente o centro da Tengoku. Apenas uma porta realmente abria, e todas as paredes foram derrubadas para fazer do lugar uma única casa grande: o aspecto exterior era totalmente diferente do que se encontrava lá dentro.

Desde que a Liga foi formada como um front de resistência à Senjō, aquela pequena estrutura era usada para alojar vários dos membros que não podiam ir para casa, ser o lugar de reuniões de estratégia e um esconderijo em geral.

Com os anos, a Tengoku foi se tornando mais estabelecida e eles não precisavam se esconder tanto: o lugar acabou caindo em desuso, mas algumas poucas pessoas ainda o usavam ou mesmo moravam lá.

O líder da Tengoku, Yamada Sohei, e um dos membros, Amane Akira, estavam entre as poucas pessoas que ainda viviam lá. Sentados em uma mesa enorme ainda no primeiro andar, com alguns papéis jogados na mesa, os dois finalizavam uma partida de xadrez. Pelo aspecto da casa, era claro que um dia várias pessoas viveram lá. A mesa facilmente sentaria dezoito, mais de uma geladeira podia ser usada, embora apenas uma estivesse ligada na energia. A casa estava bem velha, mas ainda limpa e o mais bem-cuidada o possível.

— Xeque-mate. — O jovem de cabelos brancos clamou ao fazer um movimento com seu rei. Yamada cruzou os braços e encarou o tabuleiro por alguns segundos, mas no final suspirou e admitiu derrota.

— Quando foi que você melhorou tão rápido? — O líder perguntou.

— Quer ir mais uma? — Akira prontamente ignorou a pergunta e começou a reunir as peças.

Yamada soltou um pequeno sorriso, pronto para aceitar o convite, mas os dois logo foram interrompidos por um estrondo vindo da porta.

— Chegou a voz da razão da reunião!!! — Hikatsu, uma mulher alta de cabelos marrons que passavam de suas costas, abriu a porta sem nenhum escrúpulo ou bater primeiro, enquanto os dois homens que já estavam lá dentro fecharam a cara, provavelmente meio descontentes com o barulho repentino.

— Se você fosse a voz da razão, Hika, a gente teria afundado há muito tempo. — Yamada resmungou um pouco, mais irritado pela porta do que pela animação excessiva da colega.

— Ih, tá emburrado hoje, é? — Hika puxou uma cadeira perto da mesa na qual os dois já estavam sentados e quase se deitando sob ela, extremamente relaxada.

Seguindo Hika, mas bem mais quieta e, de certa forma, respeitosa, uma mulher igualmente alta entrava na residência e fechava a porta com delicadeza, em seguida trancando-a e checando a fechadura. Curvando a cabeça um pouco para cumprimentar Yamada e Akira, gesto devolvido por eles, e ela puxou uma cadeira para sentar.

— Qual o motivo da reunião de hoje? — Aquela mulher levantou os óculos e perguntou num tom sério. — Não vai voltar com aquele mesmo assunto de sempre, não é?

— Ih Kouga, do jeito que ele já está de mau-humor, pode até ser. — Hika provocou. — Acho que ele não se cansou de apanhar da gente não né.

— Vocês… — Yamada resmungou de novo. — Eu só estou fazendo meu trabalho. Deixar minha sucessão decidida faz parte do trabalho do líder.

— Blá blá blá, novo líder, blá blá blá. Mas você tá ansioso pra morrer, hein? — Hika respondeu, ainda provocando. — Infelizmente para você, ainda vai ter que cuidar da nossa Liga por muitos anos, boa sorte!

— Enfim. — O líder tentou voltar para o assunto original. — Vocês já tem algum plano ou ideia para o festival de junho?

— Junho… Ah é, o aniversário, não é? Vamos completar dez anos daqui dois meses... — Kouga voltou a falar, dando um pequeno sorriso. — O tempo com certeza voa.

— Parece até que foi ontem. — Hika colocou as pernas na mesa e ficou ainda mais confortável na cadeira. — O Akira dava uma birra diferente por dia, queria seguir o Yamada pra todo canto e acabava ficando trancado no quarto quando acabava a paciência. Aí ele aprendeu a abrir fechadura e o Yamada nunca mais teve paz.

Akira não se manifestou, apenas soltou um longo suspiro e virou o olhar para outro lugar, fazendo com que Hika e Yamada acabassem rindo um pouco.

— Não que o Yamada fosse muito melhor. — Foi a vez de Kouga lembrar de algo. — Eu lembro que todo o dia ele tava tomando um tapa ou um puxão de orelha diferente dos líderes.

— Sim, e desde o começo ele bancava de líder lá dentro do nosso batalhão, mesmo que eu fosse oficialmente a líder.

— Beleza, Hika, beleza. — Yamada abriu um sorriso sorrateiro, entrando na brincadeira. — A gente nunca vai esquecer de como você ficou indignada por ter sido colocada no batalhão das crianças, já que já tinha 15 anos e era quase adulta!! Me lembra até um certo alguém.

— Uia, mas vai dizer que você não lembra de como me odiava naquela época, porque quando eu estava lá era eu que mandava, e não você? — Hika debochou.

— E os mais novos chamavam vocês de papai e mamãe. No começo os adultos até pensaram que vocês ganharam esse apelido porque eram um casal, e aí descobriram que foi só porque vocês viviam brigando se estivessem no campo visual um do outro. — Kouga completou.

— Em minha defesa, eu nunca odiei o Yamada. Ele que me odiava. Eu só achava engraçado provocar ele. — Hika deu de ombros, sem mostrar um pingo de remorso.

— Eu realmente era insuportável naqueles dois primeiros anos, não posso nem me defender.

Depois disso, os quatro ficaram quietos por alguns minutos, provavelmente cada um lembrando das memórias que tinham daqueles velhos tempos. Uns sorriam sem medo, outros mais tímidos ou disfarçadamente. 10 anos é muito tempo…

Principalmente quando eles lembram como são os únicos que sobraram daquele tempo, que atualmente são os únicos membros da Tengoku que estavam lá desde o começo.

Nem todos morreram, claro. Foi o destino da maioria, mas alguns estavam presos, outros tinham largado essa vida e ido para bem longe de Shikoku. Mas com isso em mente, não era atoa que aqueles quatro eram como irmãos.

— Enfim, por que nos chamou hoje? — Kouga questionou, voltando ao assunto principal.

— Foi exatamente por essa história de 10 anos. — Yamada levantou cadeira que estava sentado e pegou um canetão, voltando-se para o mapa de Shikoku preso na parede. — Eu estou começando a planejar o festival dos 10 anos, por isso vou precisar mexer um pouco vocês de posto para que possam me ajudar.

O clima ficou sério num estalar de dedos. Era como se eles tivessem saído do “modo amigos” e passassem a agir de acordo com suas posições. Cada um daqueles quatro tinha um papel específico dentro da Tengoku, e de vez em quando trocavam essas posições entre si, de acordo com a necessidade. Tsukasa, o vice-líder, sempre tinha o mesmo papel: ficar entre os membros da Tengoku e manter a paz entre eles, resolver os pequenos problemas internos. O garoto era a pessoa dentro da Liga a qual todos se sentiam seguros em pedir ajuda. Ele não intimidava ninguém como os “anciões”, mas ao mesmo tempo conseguiu respeito entre os vilões por mostrar que realmente se importava com cada um deles. Isso era algo que só Tsukasa conseguia fazer, por isso não iria ser movido de posto. A falta dele não era tão problemática para a reunião.

— Akira, qual o status do oeste? Riscos do leste da Umi tentar começar a atacar nos próximos dois meses? — Yamada se voltou ao jovem de cabelos brancos que se mantinha bastante quieto até então.

— Nenhuma mudança. Mais calmo que o normal, na verdade. O novo líder deles parece estar conseguindo manter aquela região sob controle para que eles não comecem a agir por si mesmos como fizeram antes, então a região anda bem calma. Não acho que vão tentar nos incomodar tão cedo também.

— Isso na minha opinião é preocupante. — Hika questionou, meio desconfiada. — Alguma informação sobre como anda as disputas internas entre eles?

— Essas estão ruins como sempre. As lideranças estão se entendendo melhor, mas os membros em si não conseguem se dar bem. Eu ouço que alguns vilões daquela área confiam mais na gente que na Umi do centro de Ehime, o que diz bastante.

— E essa é a diferença entre eles e nós. — Hika voltou a falar.

— Mas estrategicamente falando, isso é ótimo. — Kouga tomou a palavra. — Quanto mais a briga interna deles durar, melhor para nós. Enquanto a Umi estiver desorganizada, eles vão proteger o Yamada. Podemos ter certeza que o Suguru e a Aoi votaram ao seu favor no julgamento, porque se você cair, a Senjō vai passar a focar neles. É um problema que não querem agora. Então, enquanto a Umi estiver desorganizada, não importa o que a Nishikawa tente fazer, estaremos na vantagem entre os pilares.

— Sim. Eles se beneficiam do nosso problema com a Senjō e nós nos beneficiamos dos problemas internos deles. — Yamada resumiu. — Mas não é uma situação que nenhum de nós querermos manter, não somos aliados. Não podemos contar com isso a longo prazo, especialmente agora que o Suguru está tentando arrumar a casa.

O líder se calou por um minuto, olhando o mapa, e logo voltou a falar.

— Akira, preciso que se mova do oeste e passe a segurar o front do norte, contra a Senjō. Acha que dá conta?

— Claro.

— Ótimo. Hika, você sai do norte fica conosco aqui na capital para cuidar do armamento e nos ajudar com os assuntos internos.

— Finalmente me colocou de volta no armamento! Troca aceita com prazer! — Hika falou meio debochada, mas mostrava um pouco de animação. Hika era quase uma fanática por armas, principalmente espadas, ela própria possuir sete diferentes mostra bem isso. Cuidar do armamento da Tengoku, as armas brancas e de fogo que pertenciam à Liga e eram distribuídas a alguns vilões quando precisavam, sempre foi o posto favorito dela.

— E por fim, Kouga. Eu quero que você cuide do oeste, mas como a região está calma, pode delegar essa tarefa para os nossos membros que vivem por lá, só preciso que fique monitorando. De resto, continue aqui pelo centro para me ajudar a planejar o festival.

— Entendido. — Ela respondeu, firme.

Eles com certeza eram como irmãos, mas na hora que o assunto era a Tengoku, o clima mudava totalmente. Todos respeitavam Yamada como o líder. Apesar de considerarem a Tengoku como a família deles, aqueles quatro sabiam separar bem os assuntos pessoais dos assuntos da Liga.

— O próximo assunto que eu quero discutir é…

Eles pararam de falar ao ouvir sons de alguém destrancando a porta e mexendo na maçaneta. 

Tsukasa entrou no apartamento com as duas mãos afundadas dentro do casaco moletom que vestia. Sem falar uma palavra, com os olhos fechados, cabeça baixa e uma cara emburrada, ele fechou a porta com o pé e começou a ir direto para seu quarto, sem falar com ninguém presente. Ele estava claramente de mau-humor nesses últimos dias, parecia que ainda não tinha melhorado nada.

— Tsukasa. — Yamada o interrompeu, olhando para as mãos que ele escondia. — O que você tá escondendo aí?

— Eu não tô escondendo nada Yamada, que saco!!!

...Entrar automaticamente em modo de defesa com certeza não ajudava seu caso.

— Mostra o que você tem nas mãos então. — Yamada soltou um sorriso meio debochado. Era difícil conter a risada quando Tsukasa mentia tão mal assim.

— Por que eu faria isso?! Você não confia em mim?! E tá rindo por quê, eu sou palhaço por acaso?!

Hikatsu também se esforçava para conter o riso, o garoto realmente estava naquela fase. Kouga, por sua vez, lançou um olhar de reprovação para o líder.

— Cala a boca, Yamada. — Em seguida, ela se voltou para Tsukasa. — Desembucha, você não é nada bom em esconder.

— Eu não tô escondendo nada!! Cansei, continuem com a reunião da terceira idade de vocês aí, tô afim de jogar buraco não, eu tô caindo fora!!

— Nada disso. Chegou em hora perfeita, a gente precisa de você aqui. Onde já se viu o vice-líder fugindo da reunião? — Yamada segurou Tsukasa pelo braço, o puxando um pouco, mas o mais novo fez questão de fazer uma baita cara feia e travar o braço no lugar, não cedendo 1cm, para que suas mãos ainda estivessem escondidas no bolsão.

— Ah qual é, deixa só eu ir no banheiro!! Já já eu venho!!!

Vendo que não iria conseguir vencer tamanha teimosia, Yamada em seguida olhou para Akira, que até então estava resignado da situação. Fez um rápido aceno com a cabeça em direção à Tsukasa e o homem de cabelos brancos pareceu entender o recado. Soltou um longo suspiro, deixando óbvio que não queria ter sido incomodado com aquilo, mas mesmo assim obedeceu.

— Tsukasa, o que foi? — Akira perguntou, curto e direto.

— E-Eu… — Dessa vez, o mais novo gaguejou. — D-Depois eu te conto. Agora não.

— E pra mim, vai contar não? — Hika perguntou em um tom meio sarcástico que fingia um pouco de decepção: sabia qual seria a resposta, a pergunta foi bem mais para provocá-lo. — Não me diga que… É um bilhete de amor?! Você tem uma namoradinha?! Devia ter me avisado antes, eu posso te ensinar uma coisa ou duas!

— Arghhh, NÃO, SAI FORA!!! Não tem namoradinha nenhuma e você sabe muito bem disso!!! Me deixa em paz, credo! — Ele respondeu com firmeza, o que fez Hika deixar escapar a risada.

Do jeito que o adolescente estava agindo, era como se Yamada e Hika fossem os pais chatos, Kouga estava no meio-termo e Akira era o "irmão mais velho legal" no qual ele ainda confiava. Honestamente, às vezes dava dó, mas era divertido mexer um pouco com Tsukasa quando ele estava agindo que nem um pinscher atacado.

Yamada cruzou os braços e se levantou. Começou a andar em círculos em volta de Tsukasa, que o seguia com um olhar desconfiado e cara mais emburrada ainda, afundando suas mãos ainda mais no bolsão do casaco moletom. 

O garoto estava tão preocupado que o líder tentasse puxar seu braço ou algo do tipo que não conseguiu reagir quando Yamada puxou seu celular do bolso traseiro e o ergueu o mais alto que podia. Yamada era 10cm mais alto que Tsukasa, ele não tinha chances.

— EI, DEVOLVE!!! — O garoto gritou e pulou, tirando as mãos do bolsão para tentar agarrar o celular de volta.

Foi quando Hika não conseguiu mais conter a risada e riu alto, enquanto Akira e Kouga apenas viraram a cabeça e colocaram a palma da mão no rosto.

Tsukasa ficou mais vermelho que um tomate, percebendo que tinha caído na armadilha. Depois das risadas, porém, o clima ficou um pouco mais sério.

Yamada olhou o que o garoto estava escondendo e suspirou. Toda a graça da situação tinha ido embora.

— Foi a Honda de novo?

Tsukasa desviou o olhar para o chão novamente, agora mais por vergonha do que por tentar esconder alguma coisa. Em cada pulso do garoto tinha uma algema - a corrente que deveria estar unindo-as, quebrada no meio. Yamada puxou a cadeira na qual estava sentado com um movimento e a colocou ao lado de Tsukasa, apontando para ela sem dizer uma palavra. O mais novo entendeu o comando e se sentou, ainda não olhando para os outros. Em questão de segundos, ele saiu de um filhote atacado que latia e tentava morder a canela de todo mundo para um filhote amedrontado e acuado. Estava agindo como se tivesse tentado esconder um erro e foi pego no flagra – o que, tecnicamente, era o que tinha acontecido. Enquanto todos os outros ficaram com expressões sérias no rosto, a de Hika estava bem mais irritada e ela não fez questão de esconder o que estava pensando. Todos sabiam muito bem qual era a situação, mas Hika tinha um ódio em especial por aquilo.

— Quer dizer que aquela puta voltou a andar por aqui, é?! — Hika não escondia sua raiva. — Aliás, você não tava andando sozinho, não é?! O que os seus amigos fizeram, viram o carro e fugiram?! A lealdade deles é de aplaudir, viu, deixando o vice-líder pra trás para ser preso e não ajudando em nada!!!

— Não foi isso! Eu posso explicar!! — A voz do garoto agora era puro desespero, não sobrou nada da rebeldia que ele latia há dois minutos atrás.

— Então explica. — Kouga falou de maneira ríspida e o garoto abaixou a cabeça.

 

-- FLASHBACK --

 

— Obrigado pela refeição!

Sentados em um pequeno restaurante de ramen barato, os três adolescentes se levantaram e deixaram o dinheiro no balcão após não deixarem um grão nas tigelas. O cozinheiro acenou e gritou um “até amanhã!”. Tsukasa e os outros dois adolescentes não muito mais velhos que eles voltaram a andar pelas ruas de Tokushima, jogando papo fora.

— E então, qual o plano agora, Tsukasa? — Um deles perguntou.

— Vejamos… Vamos passar nas duas praças aqui perto, garantir que não está rolando nenhuma briga. E depois visitar os templos de Kitajima e Aizumi. Ver quantos de nós se machucaram nos últimos dias.

— Me parece um bom plano. — O outro respondeu, passando os braços por trás da cabeça. — Falando em templos, alguma notícia do Ishiki-kun? Ele tem andado bem sumido, não é? A gente pode tentar passar no da família também.

— Nenhuma… A gente se falou uma ou duas vezes por mensagem, mas quase nada. Ele tá meio estranho desde que começou o ensino médio. Eu falei com a irmã dele e parece que ele foi pra uma escola meio longe.

— Ele deve estar ocupado porque as aulas acabaram de começar! Relaxa baixinho, já já vocês vão voltar ao que eram antes!!

— Ei, não me chama de baixinho! — Tsukasa deu um tapa nas costas do outro e os três começaram a rir.

Porém, à medida que eles foram caminhando, Tsukasa foi percebendo algo estranho. Após alguns minutos, o garoto parou de andar e discretamente virou a cabeça para trás. Em seguida, puxou o capuz do moletom para cobrir sua cabeça. Agora não tinha dúvidas. Ele colocou uma mão no ombro de cada amigo e sussurrou.

— Mudança de planos, a gente passa nos templos amanhã. Tem um policial disfarçado atrás da gente. Corram. Você pra esquerda e você pra direita. Só tem uma pessoa naquele carro, e ela com certeza vêm atrás de mim. Eu já sei lidar com ela e consigo fugir sem problemas, mas não quero que vocês dois se arrisquem. Vazem.

— Como assim?! A gente não pode te deixar pra trás se tem um herói atrás de…

— É uma ordem. — Tsukasa interrompeu o amigo com uma voz bem mais ríspida. — Vão. Agora. 

 

Por mais que não conseguissem compreender a ideia de Tsukasa, os dois obedeceram. Após lançar um olhar para trás, sentiram um leve empurrão nas costas e dispararam. Começaram a correr quando estavam não muito longe de um cruzamento. Cada um foi para um lado, assim como comandado. Tsukasa por sua vez também começou a correr, mas indo reto, e ao mesmo tempo tirou um pequeno papel do bolso e jogou entre os prédios com a maior força que podia.

Assim como esperado, o carro branco que o seguia rapidamente acelerou e deu um sinal para o garoto parar. Ele obviamente não obedeceu, continuou correndo, sequer olhando para trás, sabia que aquela pessoa nunca iria desistir de seguí-lo.

A "perseguição" só foi acabar quando o carro invadiu um pouco a calçada, fazendo com que o garoto parasse bruscamente de correr e caísse no chão. Uma única policial saiu do carro com uma arma apontada, Tsukasa nada feliz com a situação.

— Tá louca, Honda?! Quer me matar é?! — O garoto questionou com raiva, um tom de voz elevado.

— Silêncio. — Ela chegou perto do garoto e puxou as duas mãos dele para trás, o algemando e em seguida o colocando sentado na calçada. — Calma, Satoshi-kun, você sabe que eu não estou aqui pra te machucar.

Aqueles dois eram velhos conhecidos um do outro. Eiko Honda era provavelmente a única policial daquela região que tinha coragem de tentar fazer alguma coisa contra Tsukasa. Praticamente todos os outros, incluindo vários heróis, consideravam que não valia o custo-benefício: Tsukasa não era só o vice-líder da Tengoku como também era amado por praticamente todos os membros. Eles não deixariam impune se o garoto aparecesse com um arranhão sequer. Mas Honda não tinha esse medo das represálias, por isso fazia questão de procurar e abordar Tsukasa sempre que tinha a chance. Por isso que o garoto já reconhecia o carro dela: aquele não tinha sido o primeiro, nem o quinto, nem o décimo encontro entre eles. Tsukasa tinha conseguido evitá-la, ou ela estava ocupada com outras coisas, por quase 6 meses, mas parece que tudo que é bom dura pouco.

Ela levou o garoto para a parte de trás do carro e se sentou no banco do motorista. Não era burra de deixar Tsukasa preso à vista do público, bastava um membro da Tengoku ver e as coisas iriam se escalar muito.

— Honda, a gente tava literalmente andando na rua ao meio-dia, isso não é crime. — Ele começou a se defender, com um pouco de raiva.

— Você não está preso, apenas detido. E você fugiu de mim, então eu tenho todo o direito de fazer isso. — Ela retrucou. — Não devia estar na escola?

— Eu acabei o 9° ano, Honda. O ensino médio não é obrigatório, então eu não vou. Tenho todo o direito de fazer isso.

Ela suspirou. Seria uma conversa difícil.

— Você jogou alguma coisa fora lá atrás, não foi? O que era? — Ela se virou para olhar nos olhos do garoto, que fechou a cara mais ainda.

— Eu não joguei nada!!!

Honda não respondeu, apenas ligou o carro e dirigiu para alguns quarteirões atrás, onde lembrava de ter visto Tsukasa jogando alguma coisa fora ao começar a correr.

A conversa que tiveram no caminho foi uma que já tinha acontecido dezenas de vezes, mas ainda era igualmente desconfortável para os dois.

— Satoshi-kun, eu não sou sua inimiga, você sabe que não quero seu mal. Eu só quero impedir que você tenha o mesmo destino de todas as crianças que ficaram sob as asas do Yamada.

Ela tinha tocado num assunto sensível. Tsukasa imediatamente ficou com o rosto vermelho, dessa vez de raiva.

— Não fale dos meus irmãos!!!! Você não sabe de nada!!!!

— Eles não são seus irmãos, Satoshi-kun. Eles são outras crianças que foram arrastadas para o campo de batalha, que nem você. Se acha que o Yamada é um “irmão mais velho” tão bom assim, por quê todos os seus irmãos estão mortos? Por que nenhum deles conseguiu viver mais de dois ou três anos depois de entrar para a Tengoku? — Ela falou, com um tom de voz rígido mas que ao mesmo tempo tinha um pouco de dó misturada.

— Então vamos aos fatos, já que você não sabe de nada!! Primeiro, eu entrei na Tengoku antes de conhecer ele, então ele não me arrastou pro campo de batalha coisíssima nenhuma. Quase todos os meus irmãos também já estavam na Tengoku quando o conheceram. A gente já tava envolvido até o pescoço nisso, iríamos durar bem menos se não fosse por ele, porque foi o Yamada quem nos ensinou a lutar!!! Você diz que a gente, que estamos sob os cuidados dele, morremos cedo, mas e os outros garotos da Tengoku? Com eles é o mesmo!! É assim que funciona, vilões vivem pouco, não importa onde estão!! A gente pode morrer cedo, mas os nossos últimos anos sempre são bem melhores do que tínhamos antes!! Foi o caminho que escolhemos seguir!! E para sua informação, tem um que ainda tá vivo, muito bem vivo!! Dez anos e contando!!!

Honda suspirou. Não iria conseguir discutir com Tsukasa irritado daquele jeito. Ouvir aquelas palavras, com ele não encontrando nada de errado no que dizia, também doía.

— Se acalma um pouco e não levante a voz. — Honda respondeu num tom ríspido, não como quem dava uma bronca nele, mas ela estava preocupada que alguém pudesse atacar para resgatar o garoto se eles demorassem muito ali. — Eu já volto para continuarmos conversando.

Ela fechou a porta da viatura e foi procurar o bendito papel que Tsukasa jogou fora. Não perguntou mais uma vez porque sabia que não iria conseguir respostas. Honda tinha experiência não só com Tsukasa, mas com várias outras crianças envolvidas com a Tengoku, e sabia que muitas vezes o papel era só uma distração para dar a eles uma brecha para fugir. Mesmo assim, precisava ter certeza. Podia ter algo importante escrito lá que ele realmente queria se livrar.

Finalmente sozinho dentro do carro, Tsukasa começou a se mexer. Quebrar algemas como aquelas era algo que ele já estava acostumado a fazer, não era aquilo que iria pará-lo. O garoto se mexeu um pouco até conseguir sentar sob os dedos de suas mãos. Depois de longos dois minutos, com seus dedos quentes, começou a esfregá-los nas correntes das algemas. Era sua individualidade: ao esquentar seus dedos, ele conseguia afiar qualquer objeto com eles. Em questão de segundos, um dos lados da corrente estava afiadíssimo. Com um movimento de torção, conseguiu colocar a parte afiada contra a intacta e, aplicando força, conseguiu cortar a corrente, apesar de ter cortado um pouco o braço no processo. Não importava, depois cuidaria daquilo, agora só precisava de uma brecha. Tsukasa começou a chutar a porta do carro e se mexer lá dentro, embora ainda fingisse estar algemado, para chamar a atenção de Honda. Ela percebeu a movimentação estranha e foi até o carro, tomando cuidado para posicionar seu corpo entre qualquer brecha, para não dar ao garoto espaço de fugir.

— O que aconteceu, Sato…

Ela nem teve tempo de terminar de falar a frase antes que Tsukasa se jogasse em cima dela, a empurrando para trás, mas Honda conseguiu se manter de pé. Tentou agarrar o garoto pela roupa, mas ele fez um giro brusco com o corpo e passou parte da algema ainda extremamente afiada perto dela.

— Cuidado que a minha individualidade tá ativa!!! — Tsukasa gritou e Honda deu um passo para trás, abrindo espaço suficiente para o garoto fugir.

A policial pensou em correr atrás de Tsukasa, mas percebeu que os riscos já estavam grandes. Eles estavam numa área onde vários membros da Tengoku iriam começar a aparecer, isso se já não estivessem lá, por causa do horário. Ela percebeu alguns olhando com cara feia para ela… Por isso, Honda não teve outra escolha senão deixá-lo ir, mais uma vez. Era assim que a maior parte dos encontros deles acabavam. Vez ou outra conseguia levar Tsukasa para uma delegacia, mas ele sempre fugia.

Mais uma vez, se sentiu derrotada.

Se você fosse tão mal quanto tenta parecer, não teria tomado cuidado pra não me machucar… — Ela sussurrou para si mesma, enquanto observava Tsukasa fugir.

 

… 

 

Tsukasa se calou após explicar o que aconteceu. Ele claramente não queria que Yamada nem os outros soubessem do que aconteceu, por isso tentou esconder. Apesar de tudo, ele ainda era o vice-líder da Tengoku, sabia muito bem como a liga tinha muita coisa em seu prato e que não precisavam de mais problemas. Além disso, um deslize daqueles de cair nas mãos de alguém associado aos heróis era algo que não poderia se repetir.

— Tsukasa. — Yamada colocou a mão no ombro do garoto. — Não leve as palavras dela para o coração. Ela claramente não sabe do que está falando. Se você se sente feliz aqui dentro, não importa o que ela ache ou pense. A vida é sua.

— É. — Akira finalmente abriu a boca. — Você sabe bem do que aconteceu.

— Você precisa parar de se descuidar. Um dia vai decidir esperar para tentar fugir e não vai ter a oportunidade. E aí? O que vai acontecer? — Kouga falou de forma ríspida. — Mas agora já passou. Use como aprendizado pra próxima vez que estiver nessa situação.

— Tá bom… Mas para de falar comigo como se eu fosse criança… — Tsukasa resmungou baixinho.

— Agora vai tirar essas algemas e depois volte para se juntar a nós. — Yamada deu um tapa no ombro do menor, com um pequeno sorriso.

— Sim senhor! — Ele rapidamente se levantou e foi em direção a uma das portas.

— E da próxima vez que você for sair, eu vou contigo. Quando eu ando contigo, aquela puta chega nem perto. — Hika rapidamente falou, antes que o garoto se retirasse.

— Ugh, eu não preciso de uma babá, sai fora!!!! — Num piscar de olhos, Tsukasa deixou a dúvida e tristeza para trás e revirou os olhos, resmungando e indo em direção ao seu quarto, batendo a porta com força.

Alguns começaram a rir, os que não riram abriram um leve sorriso. Com o problema resolvido, rapidamente voltaram a focar nos assuntos que precisavam ser debatidos, depois de alguns minutos Tsukasa também finalmente se juntou a eles.

Tinham muito trabalho a fazer.


Notas Finais


O capítulo novamente ficou um pouco mais longo do que o meu alvo, mas espero que tenham conseguido acompanhar mesmo assim ~

Obrigado pelo apoio e até o próximo!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...