História Genius - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS), Red Velvet
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Kim Taehyung (V), Seulgi
Tags Abo, Taekook, Vkook
Visualizações 1.099
Palavras 8.651
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Lemon, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


[Essa capa lindona foi feita pela liltae, ela nunca decepciona. Sabiam que ela é o próprio flash? Obrigada meu amor, você é massa demais e eu amei!! <3]

Olá, pessoal.

Sou eu, só mudei meu usuário shuashuas. Mas ainda podem me chamar de Fuyu, eu gosto :3

Antes de mais nada, eu quero deixar claro que essa one tem lemon sim, mas o meu foco não é esse. Eu montei um plot cuidadosamente, abordando um assunto do qual eu quis muito falar, então esse capítulo é realmente muito amado por mim. Perdoem possíveis erros, demorei muito para finalizar isso aqui ):

Me encontrem nas finais, boa leitura.

Capítulo 1 - Unique - Colors


 

— E aí, decidiu quem vai ser o seu parceiro? Hoje é o último dia, você sabe. Precisamos entregar a lista com os nomes das duplas.

— O nome Kim Taehyung, é uma ideia muito absurda? — Riu — Pensei em convida-lo. Na verdade, ainda estou na dúvida.

Jungkook retirava o pouco material necessário de dentro de seu armário enquanto os outros dois garotos conversavam ao seu lado sobre o trabalho do bimestre. Para o ômega, a faculdade era sempre um lugar exaustivo no período diurno, principalmente porque um certo Jeon odiava acordar cedo e consequentemente acabava adormecido em uma aula ou outra. Não que se considerasse exatamente “acordado” enquanto verificava sua mochila para se certificar de que os seus pincéis foram, de fato, guardados ali. Mas, ouvir aquele nome proferido pelo garoto de cabelos alaranjados seria sempre um excelente motivo para atrair a sua atenção.

— O Taehyung? Você pirou? — O beta de fios laranjas jogou as mãos para o ar em um movimento teatralmente dramático ao passo em que o ômega estapeava a própria face — Esse garoto é burro como uma porta, é o que todos dizem. Não vê que ele vive faltando às aulas? Eu nunca o vi em prova alguma, tampouco nos dias de entrega de trabalho. É como um zumbi, ele nunca participa das tarefas.

Jeon não se recordava do nome daqueles dois, ainda que estivessem cursando a mesma área: Artes. Sinceramente, sua única preocupação era não pegar no sono na hora errada, e de repente aquela conversa se tornou interessante o suficiente para se manter acordado. Ao menos, por enquanto.

— Sim, eu sei... Mas não é como se eu tivesse opção. Ou ele, ou aquele outro garoto que fica tirando meleca durante as aulas. — O ômega loiro fez careta e Jungkook segurou o riso com a mão, sem muito sucesso, já que os alvos de suas encaradas e ouvidos bem atentos lhe lançaram olhares inquisitórios — Enfim. Você já tem um parceiro, então eu não tenho alternativa.

Ajeitaram suas mochilas nas costas apressadamente, e o ômega se deu conta de que também precisaria fazer o mesmo, pois a matéria seguinte começaria em no máximo, cinco minutos. Fechou a porta do armário e o trancou, mesmo que ali dentro houvesse apenas um panfleto de um restaurante que servia frango frito e alguns lápis de cor. É, seria pouco provável que alguém estivesse interessado em lhe roubar algo. A não ser que estivessem desesperados por um frango.

— Eu não sou de julgar as pessoas, sabe? — “Claro que não”, pensou Jungkook, enquanto seguia poucos passos atrás dos meninos na direção da sala de aula  — Só que ele não fala com ninguém! Só se dá ao trabalho de discutir com os professores, quer dizer, quem esse cara pensa que é? — O alaranjado falava com tamanho desgosto, que Jeon passou a sentir pena de Taehyung — Olha, o que eu sei é que ele provavelmente não sabe de nada e não está disposto a aprender, e por isso se recusa a frequentar a faculdade. Ele é claramente um idiota, eu não colocaria minhas notas em risco ao lado dele, jamais. Não se pode ser bonito, cheiroso e inteligente ao mesmo tempo!

— É como um crime universal.

— É disso que estou falando.

Em algum momento, Jeon os perdeu de vista devido a grande quantidade de alunos que entravam ao mesmo tempo na sala. Apesar da curiosidade, sentia certo alívio por não mais ser obrigado a escutar pessoas falando daquilo que não entendiam, como sempre. O Jeon não tinha uma opinião formada sobre o Kim, aquele alfa que sequer olhava para si. Ele não o conhecia e tampouco falava com ele, portanto não era capaz de possuir embasamento algum para defini-lo com exatidão. Mas, também não era cego: Taehyung era muito bonito. Uma vez, enquanto aguardava a aplicação de uma prova, Jeon se distraiu ao desenhar o rosto do alfa na borda de seu caderno — não que estivesse prestando atenção nos movimentos de seus dedos que apenas buscavam uma maneira de colocar no papel aquilo que lhe pinicava na mente. Kim não estava presente para perceber, ele nunca estava, de qualquer maneira. Então o moreno apenas se deixou levar pela vontade que sempre tinha de reproduzir aquela simetria toda presente no rosto do mais velho. Só que no final de tudo, ele acabava detestando o resultado, parecia cada vez mais impossível criar algo semelhante aos traços do alfa, e era justamente isso que o deixava mais inconformado e cada vez mais motivado a continuar tentando. Tudo sob os panos, claro.

Para a sua surpresa — e também a da classe inteira —, Kim Taehyung passou pela porta sem se preocupar em bater ou verificar se o professor estava presente. Apenas entrou, colocando sua mochila sobre a mesa, com cara de poucos amigos. “Difícil te defender assim”, pensou Jungkook. O ômega observava cada movimento do Kim, ali do seu cantinho, sem mover um músculo ou chamar muita atenção.  Taehyung era realmente belo e por onde passasse, atrairia olhares para si — infelizmente nem todos seriam de admiração, ao menos não naquela faculdade. Jungkook retirou um lápis do estojo e ficou mordendo sua ponta para disfarçar, como era de seu costume. Um hábito que sua mãe odiava, aliás.

O Kim sequer notou suas encaradas e se notou, ignorou, assim como ignorou também aqueles alunos que conversavam normalmente antes de sua chegada, cessando o diálogo repentinamente quando ele apareceu. Sentiu o peito apertar um pouco, as pessoas às vezes eram muito cruéis.

E daí se, supostamente, Taehyung não fosse o melhor aluno da classe? O que pode definir uma pessoa como inteligente, afinal? E se ele, de fato, odiasse estar ali e só o fizesse por obrigação, como tantos outro faziam? Era dono de sua própria vida e o mundo ao redor continuava muito hipócrita.

O ômega ficou perdido nos óculos de grau do alfa por alguns segundos, seus olhos estavam fixos na entrada da classe e o moreno nem percebia exatamente o que atraía a atenção do outro. Apenas ficou daquele jeito, observando aquela boina que modelos da Gucci usariam, na cabeça de Taehyung. Os dedos longos estirados sobre a mesa, o peito que subia e descia em sintonia com uma respiração tranquila, a serenidade em seu semblante. Tudo bem equilibrado, ficaria absurdamente lindo em uma pintura a óleo. Ou uma aquarela...

— Bom dia! Aposto que todos estão animados para a aula de hoje. Certo? — A professora adentrou o local, tirando Jungkook de um transe perigosamente profundo. Quando foi que sua boca ficou tão seca? — Não digam nada! Tenho medo da resposta, gosto do meu emprego.

A turma pareceu se divertir com o jeito humorado de Seulgi, a responsável pelas aulas de Teoria da Cor. Pelo canto do olho, fitou minimamente aquele garoto de roupas exageradamente largas em tons pastéis, perguntando-se de qual obra de arte havia saído. Talvez fosse uma, literalmente.

Taehyung não exibiu um único sorriso, e isso às vezes era motivo para preocupar Jungkook. Não que tivesse intimidade com o alfa, como já foi dito, mas as pessoas costumavam preocupar o Jeon em níveis estratosféricos. Aquelas visivelmente tristes em especial, como era o caso do Kim. O mais novo era mesmo uma criaturinha muito confusa mesmo, imagine só preocupar-se com o estado emocional de alguém que você sequer conhece. Bem, o ômega era alguém curioso por natureza e o mundo ao seu redor aguçava seus sentidos de maneira que gostaria, quem sabe, até mesmo de ser uma mosquinha. Apenas para poder bisbilhotar a mente alheia e descobrir o que se passava na cabeça das pessoas e dentro de suas crises de existência. Era a sua maneira singular de ser.

— Isso significa que tenho um carro para quitar, portanto, para a felicidade de vocês, eu não vou sair daqui tão cedo. Sinto muito.

A mulher continuava com seu diálogo e em algum momento, Jungkook começou a realmente prestar atenção no que ela dizia — o que era impressionante —, desligando-se daquele alfa dono de um olhar distante. Como se estivesse demasiadamente submerso em seus próprios pensamentos. Jeon gostava daquela matéria em especial e a professora em questão tornava tudo mais leve, essa era a vantagem da faculdade, talvez a única da qual se lembrava: a desconstrução de alguns estereótipos enraizados no colegial. Tinha que admitir que graças ao ensino superior, muitos tabus enroscados em seus neurônios se quebraram como pequenos cacos de vidro, era bom sair da caixinha para variar. Claro que nem tudo são flores.

Jeon não era alguém de boa memória, foi por isso que mesmo após milhares de avisos, se esqueceu completamente de arranjar um parceiro para o trabalho daquele bimestre. Bateu com a palma na testa. A professora sentada ao seu lado lhe olhou com algo que ele conseguiria definir como pena, mas, para poupar o seu próprio ego, ô ômega decidiu não pensar muito sobre isso.

— Olha só, Jungkook, Taehyung é o único que não tem um parceiro. — Jeon arqueou a sobrancelha, lembrando-se daquele aluno de cabelos alaranjados de outrora. Aparentemente ficou com o rapaz da meleca mesmo — Se quiserem uma nota, terão de fazer juntos.

Seulgi anotava os nomes “Kim Taehyung” e “Jeon Jungkook” em seu caderno organizado especialmente para o controle das duplas, sequer reparando no desespero que tomava conta do rosto do ômega. Certo, precisava se acalmar, seria apenas mais uma tarefa como tantas outras que já tinha feito, Taehyung não podia ser assim tão insuportável como todos diziam. Tudo ficaria bem, pensou.

— Seulgi, eu vou fazer meu trabalho sozinho. — O choque veio quando ouviu a voz grossa do alfa parado ao lado da professora. Era Taehyung em carne e osso, não parecia muito contente, considerando sua feição aborrecida e a maneira ríspida com a qual dialogava.

Jungkook achava que aquela era a segunda vez em que ouvia sua voz na vida. A primeira, foi quando o ômega ansiava por uma torta de frango na fila da cantina e ouviu Taehyung pedir “uma coca, por favor”. Ficou admirado de novo, sua voz era realmente muito bonita. Mas, também, não precisava ofender. O ômega se sentia igualmente indisposto, porém, ao contrário do Kim que falava palavras rudes, ao menos sabia que se esforçaria para dar o seu melhor.

Franziu o cenho, formando um bico nos lábios rosados.

— Kim... — Seulgi parou por um breve momento para massagear as têmporas, o ômega sabia que era uma mulher jovem ainda, mas a falta de paciência com alunos teimosos lhe parecia já bem antiga — Já conversamos sobre isso. Eu estou tentando te ajudar, você não tem uma nota comigo desde o início do ano. Nós fizemos um acordo, certo?

— Sim, eu lhe disse que faria o trabalho de maneira impecável se fosse preciso. Mas você não avisou nada sobre não ser uma tarefa individual. — Cruzou os braços, e Jungkook se sentiu pequenino.

— E qual é o problema em fazer com o Jeon? — Jungkook arregalou os olhos, por Deus, amava Seulgi, mas naquele momento tinha vontade de lhe perguntar o que raios passava por sua cabeça — Ele pode muito bem te ajudar a recuperar esse bimestre, acho perfeito.

Pela primeira vez, viu o alfa lhe observando como se estivesse calculando sua existência, provavelmente julgando se Jungkook era no mínimo utilizável. Ele desejava sumir, evaporar, virar geleia naquela cadeira e derreter até o chão.

No final, Taehyung liberou um suspiro pesado e abaixou os ombros em uma postura que claramente demonstrava sua derrota. Jeon só não sabia se era bom ou ruim, já se sentia muito incomodado com todo aquele contato forçado e imaginava que para o alfa era igual. Seria Kim Taehyung um idiota sem coração?

— Eu não tenho escolha, não é mesmo?

— Você tem a escolha de tirar zero ou fazer com o Jungkook, Kim. — A professora sorriu, sem realmente demonstrar muito bom humor dessa vez. Levantou-se e pegou seu caderno de anotações de cima da mesa — Pensem rápido, meninos. Eu preciso começar a aula.

Os minutos seguintes se resumiam em olhares estranhos trocados entre os dois jovens, sendo Jungkook o mais nervoso. Mas ele não precisou se esforçar para arranjar alguma desculpa e escapar daquela situação, não queria ser responsável por fazer com que o Kim se sentisse mal. Ainda que fosse injusto ser tratado daquela maneira, como se sua opinião não importasse.

— Tudo bem pra você, Jeon? — Apesar da voz um tanto desanimada, Taehyung já caminhava até o outro lado da sala para pegar seus materiais e colocar sobre a mesa que ficava colada com a do ômega. Seulgi observava tudo com um olhar paciente.

Jungkook engoliu em seco.

— C-claro. Por mim tudo bem.

— Estamos combinados, então. — A professora piscou para o ômega e deu às costas.

Já era difícil o suficiente estar sentado ao lado dele há quase duas aulas inteiras. E de brinde, Jungkook ainda recebia olhares pesados dos outros alunos enquanto Seulgi explicava mais sobre o tão temido trabalho do bimestre. Vez ou outra, o ômega se dava ao luxo de bisbilhotar, de canto, o rosto de Taehyung, apenas para se certificar de que estava tudo bem. O que ele encontrava, no entanto, era a habitual expressão séria que o Kim mantinha estampada em sua face, sem olhar para ninguém, sem conversar com ninguém, como sempre. Isso fazia o estômago do moreno se revirar.

— Para os desavisados, vou repetir. Ya, atenção! — Seulgi bateu palmas para chamar a atenção daqueles que estavam distraídos demais conversando paralelamente — Apenas porque não quero ver ninguém na prova de recuperação. Vocês devem escolher uma foto qualquer, pode ser de um animal ou uma pessoa. Depois, apliquem efeito preto e branco naquela que for escolhida, para que consigam distinguir melhor a sombra da luz. Vocês verão que partindo desse princípio, seus olhos conseguirão, aos poucos, fazer o mesmo com fotos coloridas. — A professora caminhou lentamente até sua cadeira, posta bem à frente da sala e se sentou — Quero que reproduzam essa imagem com tinta TGA em uma folha A4, utilizando preto, cinza e branco. Preto para as sombras mais escuras, cinza para as menos escuras e branco onde não houver absolutamente nenhuma sombra. Façam uma escala do cinza, desde o mais escuro até o mais claro, não esqueçam, isso é importante!

Enquanto a mulher finalizava as explicações que Jungkook já tinha anotado há tempos, nos mínimos e mais desnecessários detalhes, Taehyung sequer se dava ao trabalho de fazer o mesmo. Ao que tudo indicava, aquele projeto seria inteiramente carregado nas costas do Jeon, que àquela altura do campeonato, não se sentia nada satisfeito com isso.

Quando o final daquela aula chegou, Taehyung pediu licença e voltou para o antigo lugar na classe, aquele onde ninguém sentava além dele — como se uma maldição pudesse atingir a cabeça daquele que ousasse fazê-lo. O ômega tentou não demonstrar o quanto aquilo tinha ferido seu ego, mas, no final das contas, estava ciente de que aquele era Kim Taehyung em toda a sua singularidade. Um trabalho em dupla não faria dele seu melhor amigo.

Esperava, apenas, que conseguissem trabalhar juntos, isso seria o suficiente por hora. Já sobre aquela convivência forçada, Jeon não criava muitas expectativas.

 

xxx

 

O final do dia letivo enfim, chegou, e nem sinal de Taehyung o procurar para conversar sobre como ambos levariam aquela tarefa adiante. O alfa simplesmente desapareceu depois do intervalo, provavelmente voltando para o conforto de sua casa enquanto o ômega continuou lá, esforçando-se para não botar fogo na cadeira preferida do Kim.

— Folgado. É isso que ele é, um folgado. — Bateu a porta do armário com força, por pouco não o quebrando. Uma garota que passava por perto o olhou assustada, e assim que foi notada, saiu às pressas. Jungkook suspirou pesadamente.

Tinha um trabalho em dupla para entregar e seu parceiro não dava a mínima, ao menos não demonstrava.

Os dias seguintes não foram diferentes, Taehyung não deu as caras durante quase três semanas, e Jungkook já pensava em pedir para Seulgi permitir que fizesse aquela pintura sozinho, sem favorecer o alfa em absolutamente nada. Era o que ele planejava naquela sexta feira após a última aula, caminhando desanimadamente na direção da cantina para pedir um salgado qualquer. Estava morto de fome e decidido a resolver aquela situação de uma vez por todas.

— Ah, droga! E-eu...

Um perfeito cabeça de vento, esse era Jeon Jungkook. Somente ao procurar pela carteira dentro do bolso após fazer seu pedido, notou que não havia uma única moedinha ali dentro. Vida de universitário não é para os fracos, nunca foi.

— Me desculpe, estou sem dinheiro. Não tinha percebido. — A atendente de cabelos azuis lhe observava do outro lado do balcão com uma expressão vazia, era como se não desse a mínima para nada e para ninguém. O ômega não era o primeiro aluno a esperar o pedido ser feito para finalmente procurar pelo dinheiro, nada de novo sob o sol.

Jungkook, por outro lado, se sentia extremamente desconfortável e sem graça. Abaixou a cabeça, tristonho, preparado para sair dali com o rabinho entre as pernas, se perguntando onde raios havia deixado seu dinheiro. Revirou os bolsos da calça jeans até que o forro fosse posto para fora, apenas um pedacinho de papel caiu dali. A atendente lhe olhou com pena, Jeon fez bico. Provavelmente se esquecera de que gastara todas as suas últimas economias comprando aquela maldita tinta para aquele igualmente maldito trabalho de Seulgi.

— Aqui está. — Viu apenas aquela mão familiar estender algumas notas para a moça de fios azulados, que prontamente pegou o dinheiro e lhe entregou o lanche em seguida. Arregalou os olhos quando se deu conta do que estava acontecendo.

Era o próprio Kim Taehyung, pagando pelo lanche que ele mesmo não conseguiria pagar. O alfa se colocou à frente e lhe estendeu o salgado, como se não fosse nada demais. Como se não tivesse sumido por três semanas inteiras sem dar satisfação. E agora brotava da terra, agindo naturalmente, deixando um Jeon Jungkook furioso. Quis tacar aquela droga daquele lanche em sua face, fazê-lo engolir cada pedacinho, mas tinha muita fome e nenhum dinheiro. Prioridades, certo?

— Achei que você tinha morrido. — Catou o lanche da mão alheia sem um pingo de consideração e mordeu, morrendo de ódio. Estava gostoso. — Não precisava pagar nada pra mim. — Murmurou de bocha cheia, e viu o canto dos lábios do alfa se erguer minimamente. Mal podia acreditar no que estava vendo.

Era a primeira vez que Kim Taehyung demonstrava alguma emoção que não fosse o desprezo por qualquer pessoa que estudava consigo. Ele vestia as mesmas roupas leves e largas de sempre, dessa vez, com os cabelos úmidos. Provavelmente havia saído do banho recentemente, Jeon conseguia sentir o seu cheiro. Era bom.

— As pessoas geralmente dizem “obrigado”, mas você é diferente. — Kim deu de ombros e sua mão agarrou o pulso do ômega, puxando-o sem muita delicadeza na direção da saída da faculdade. — Acho que você pode confirmar com os seus próprios olhos que estou muito vivo, não é? Vivíssimo, para a tristeza do planeta.

Taehyung não parecia se importar com o garoto que era puxado aos tropeços enquanto praticamente corria até o lado de fora da faculdade. Jungkook só conseguia sacodir o braço em uma falha tentativa de se desvencilhar de seu aperto, mas era inútil. O alfa era forte demais.

— Ya! Me solte, garoto! O que acha que está fazendo? — Jungkook ainda tinha fiapos de frango nos dentinhos enquanto xingava aquele que sequer dava importância aos resmungos. Deu tapas fracos no braço do mais velho, e já sem muitas opções, utilizou de um método muito conhecido por sua mãe quando ele aprontava alguma arte na infância.

Beliscou o braço de Taehyung sem dó nem piedade, e não foram necessários nem dois segundos para que o alfa lhe soltasse, o olhando indignado. Nem seus pais o beliscavam daquela maneira! Por que, então, aquele pirralho o faria?

— Você me beliscou! — Massageou o braço com um bico nos lábios avermelhados, Jeongguk também fazia careta.

— E você quase arrancou meu braço! — Berrou —‘Tá doido? Qual é a porra do seu problema? Você some por uma eternidade e aparece agora, do nada, me puxando pelo braço como se tivesse algum direito! Isso é tão antiquado, sabia? — Taehyung não parecia feliz, era o que sua expressão demonstrava, além de achar curioso o fato de alguém utilizar as palavras “porra” e “antiquado” na mesma frase. Mas não era como se o moreno estivesse muito satisfeito com todo aquele absurdo.

O alfa nunca conversava consigo, aliás, não conversava com ninguém. Jeon odiaria se rebaixar ao nível daqueles dois alunos que falavam mal do Kim, dias atrás, mas a vontade que tinha naquele momento era de correr até esses dois meninos e gritar para quem quisesse ouvir que eles estavam, sim, cobertos de razão, e que se explodisse o mundo inteiro. Taehyung não passava de um desalmado, pronto. Era o que se repetia em sua mente sem parar, como um disco riscado que ele se recusava a jogar fora. Um babaca, aquele alfa era um tremendo de um babaca.

Poucos alunos olhavam para a cena da qual o Kim odiava participar, nunca gostou de escândalos e ser alvo de toda aquela atenção chegava a lhe dar coceiras. Sabia que aquilo era mal interpretado por todos, ninguém esperava ver um alfa puxando um ômega daquela maneira, sem o menor respeito. Todos aqueles estereótipos esquisitos, mas não se tratava disso. O Kim não o puxava porque era um ômega, ou porque queria demonstrar que era muito mais forte do que ele, claro que não! Ele apenas desejava sair rápido daquele lugar recheado de pessoas hipócritas que gostavam de apontar o dedo para si sem, ao menos, olhar para o próprio espelho antes de sair de casa. Estava farto disso. Farto de ser obrigado a conviver com todos eles, farto de não ser compreendido nem mesmo pelos próprios pais ou por aqueles que diziam lhe amar. Esperava que um desconhecido tirasse conclusões precipitadas sobre si, mas alguém da família? Talvez sua mente estivesse divagando por lugares perigosos, por lembranças que não deveriam se manifestar naquele momento. Não era a hora certa. Ele suspirou pesadamente e passou a mão pelo rosto, lambendo os lábios por segundos que se assemelhavam a uma eternidade, ao menos aos olhos de Jungkook. Como alguém tão grosseirão conseguia ser tão bonito? Era realmente injusto. O universo gostava mesmo de brincar com as pessoas e lhes acertar diretamente em suas feridas, tinha certeza disso.

— Desculpe. Eu não queria te machucar. — Jeon franziu o cenho ao ouvir a voz rouca, ficando até um pouco sem jeito. Notou como as bochechas do alfa estavam ligeiramente avermelhadas por causa dos olhares alheios, seus olhos bem desenhados presos aos próprios pés, dentro daqueles calçados que só ficavam bonitos nele, e em mais ninguém — É só que o meu motorista está a caminho, eu terminei o nosso trabalho e quero que venha comigo para verificar se está de acordo. Eu não podia trazê-lo, ainda está secando... Então... — Ele massageou o braço, claramente desconfortável com toda aquela situação.

Jungkook sentiu peso na consciência misturado naquele ninho de confusão mental dentro de sua cabeça.

— Espera, você terminou o nosso trabalho sem a minha ajuda? — Maldita hora em que gastou dinheiro com aquelas tintas à toa — M-mas eu comprei as tintas!

— Eu te devolvo esse dinheiro, eu prometo.

— Não foi isso o que eu quis dizer. — Suspirou. Estava, como sempre, escolhendo as palavras erradas para serem ditas na pior hora possível. Massageou as têmporas por um breve instante — É só que... Trabalho em dupla deve ser desenvolvido pelos dois. Sabe? É uma parceria. Você não devia ter feito tudo sozinho.

— Eu não poderia ter feito de outra forma. —  Jeon viu um carro preto encostar na calçada, e Taehyung abriu a porta de trás, olhando brevemente para aquele ômega que achava muito bonito, mas não admitiria tão cedo — Venha comigo, sim? Algo me diz que você vai gostar. Eu não vou te morder, Jeon, ya! — O mais velho continuava lhe esperando pacientemente, e entrou no veículo em seguida, acomodando-se no banco de trás. Deu duas batidinhas ali, indicando que o ômega deveria se aproximar e partir consigo — Por favor! Foi muito trabalhoso para que você nem ao menos o veja antes de entregar.

“Para início de conversa, eu não pedi para você fazer tudo sozinho”, pensou.

O moreno não tinha muita certeza sobre a parte da mordida, já que o alfa parecia mais arisco do que qualquer animal selvagem do qual já ouviu falar. Não era assim naquele momento, mas nada lhe tirava da cabeça a imagem de um Kim Taehyung fazendo birra com a professora de Teoria da Cor, apenas porque não desejava formar dupla com Jeon Jungkook. Respirou fundo e contou até três, torcendo para que não fosse tudo parte de um plano para lhe sequestrar e chantagear seus pais.

Bem, não tinha muito dinheiro mesmo, então, se essa era a meta do Kim, ia falhar miseravelmente. Não tinha uma moedinha furada nos bolsos, mas ainda possuía bons órgãos. Talvez o alfa estivesse planejando vende-los, quem sabe?

Balançou a cabeça como que para afastar aqueles pensamentos absurdos, Taehyung era, no máximo, um ignorante. Considera-lo um criminoso já era demais, certo? Pensando nisso, e abandonando boa parte de sua sanidade ali naquela calçada, junto com os alunos que observavam aquela situação estranha, Jeon entrou e se sentou ao lado do alfa, batendo a porta do carro com pouca força. Segurava firme nas alças da mochila e podia ver os rostos de todos aqueles que encaravam os dois. Talvez fosse incomum demais para todos eles ver Kim Taehyung interagindo “normalmente” com algum outro ser humano que não fosse um dos professores do curso. Mas Jungkook só queria que todos fossem embora e cuidassem de suas próprias vidas, e graças a Deus o motorista pareceu ler seus pensamentos, já que deu partida no veículo rapidamente após a confirmação do outro.

Espera, motorista? Taehyung tinha um motorista particular? Por todos os deuses!

Virou o rosto, assustado, encarando aquela criatura de feição simetricamente calculada. Ele parecia tranquilo.

— Você tem tipo... — Olhou para o senhorzinho de bigode e depois dele para o alfa — Um m-motorista?

O Kim concordou com a cabeça, mas foi tudo o que fez. Não disse mais nada e isso deixou o ômega extremamente desconfortável, mais do que antes. Bem, decidiu ficar calado, não conseguiria arrancar nada do mais velho, de qualquer maneira.

Lhe restava observar a paisagem através do vidro.

 

xxx

 

Essa é a sua casa? — Jeongguk observava a mansão banhada em amarelo claro enquanto o carro preto atravessava a entrada. Taehyung novamente concordou com a cabeça e o veículo seguiu por uma trilha em formato circular em volta de uma fonte de água com algum deus grego que Jungkook não conhecia esculpido no centro.

Nas laterais daquele quintal onde qualquer um poderia construir um shopping, haviam rosas vermelhas e plantinhas da qual o moreno não se lembrava sequer do nome — pois era péssimo com isso —, que se esgueiravam até se enroscarem nos muros, misturando-se a ele de maneira que ambos se tornassem um só. Jeon desceu do carro ainda inseguro se deveria ou não dar o primeiro passo ao lado daquele garoto que mal conhecia — mas que lhe atraía um bocado. Taehyung era o tipo de pessoa que atiçava o seu lado curioso como provavelmente mais ninguém conseguiria fazer, e a cada passo avançado, se tornava mais faminto por informações sobre ele.

Quem era Kim Taehyung, afinal?

— Nós já podemos entrar, Jeon. Meus pais não estão, espero que não se importe com esse tipo de coisa. Se te deixa mais confortável, existem funcionários por todos os cantos. — Riu sem humor — São minha companhia. — O alfa sussurrou atrás de si, o fazendo dar um pequeno pulinho de susto. Qualquer um estaria rindo naquela situação, mas o Kim continuava com a expressão tranquila, com exceção dos olhos completamente presos ao rosto do mais novo. Indecifráveis, diziam tantas coisas e ao mesmo tempo não diziam absolutamente nada.

— C-claro. Sem problema. — Engoliu em seco, e seguiu o mais velho quando seu corpo magro passou ao seu lado e tomou sua frente.

Se o lado externo da mansão já era grande, a parte interna era ainda maior. Jeon foi recebido por dois funcionários da casa que se prontificaram a retirar a mochila de suas costas e pendurar em algum lugar que ele sequer conseguiu notar, estava encantado demais com o que enxergava naquele momento.

Era completamente diferente de uma mansão tradicional, pois havia cor até nos pés do sofá roxo que tomava conta do cômodo inteiro. Plantinhas e cactos decoravam as janelas estupidamente grandes, seus vasos possuíam pinturas abstratas e as cortinas eram amarelas. Seria bobagem se dar ao trabalho de medir o tamanho da televisão, e o tapete felpudo talvez fosse a única parte da decoração de cor preta ali dentro. Seguindo os passos do alfa que lhe chamava gentilmente com um movimento do indicador, Jungkook viu a cozinha americana nos fundos, com um grande balcão de mármore cinza atrás da imensa mesa de vidro, debaixo de um lustre vermelho. Não teve tempo de observar os outros detalhes, não queria demonstrar ser tão curioso dentro da casa do Kim. Então apenas abaixou a cabeça e o seguiu pela escada quando este o solicitou, passando por um corredor decorado por obras de arte famosas até se deparar com uma porta branca, contrastando com todo aquele ambiente colorido de outrora. Talvez os pais de Taehyung fossem artistas, quem sabe.

— Está aqui dentro, ignore a bagunça. Sei que isso soa clichê, mas... — Taehyung suspirou, observando o rosto do moreno por algum tempo. Jungkook se viu hipnotizado pelos olhos cor de mel tão intensos, e o que quer que o alfa planejasse lhe dizer, morreu no ar, pois o rapaz se calou.

Ele lhe deu passagem e o ômega entrou no cômodo, sentindo como se fogos de artifício explodissem em seu estômago. O ateliê era completamente diferente de qualquer outro canto daquela casa, pois ali dentro não havia luxo algum. Era apenas um cômodo todo construído com um material que se assemelhava muito a madeira, inclusive o piso. Ele podia ouvir seus passos pesados no chão enquanto descobria aquele pequeno mundo de Taehyung, encantado com a simplicidade. Não havia uma grande televisão ali dentro, tampouco um sofá. Havia uma tela, bem no centro e à poucos centímetros de distância da parede e das duas janelas com cortinas brancas de um tecido bordado. Nas laterais, haviam dois pufes de cor azul, e só. Debaixo do cavalete que sustentava a tela, haviam alguns caixotes e pequenos potinhos de tinta abertos no chão. Uma aquarela perdida em algum canto e os pincéis, ao lado do godê todo colorido que mais parecia um arco-íris.

Jungkook só não esperava que naquela tela, seu rosto estivesse estampado.

Sim, Taehyung tinha pintado o rosto do ômega, que contrastava em uma escala de preto e branco. Estava tão perfeito que se não tivesse ciência de que era uma pintura de verdade, poderia facilmente confundir com uma fotografia. Os traços mais delicados definiam os olhos e os cílios pesados. Os cabelos eram quase tão reais quanto os seus próprios, e ao fundo, havia um mar, debaixo de um céu cinzento. Jungkook reconhecia aquela fotografia pois era a que usava de perfil na única rede social que possuía, mas ele sequer tinha Taehyung adicionado lá. Por último, bem no canto do ateliê, havia uma vitrola antiga cantando sua própria música como se não houvesse mais ninguém ali para escuta-la. Parecia tão solitária quanto o alfa.

— Esse aqui é o meu ateliê. É bem pequenino, na verdade, espero que não se incomode com isso. — Taehyung não percebia que o que mais atraía a atenção do ômega não era o tamanho daquele local e sim, o trabalho feito por suas mãos. Coçou a cabeça, um pouco sem jeito. Não recebia visitas com frequência. Na verdade, nem recebia visitas.

— Esse... E-esse sou eu. — Não foi uma pergunta e o Kim sabia. Jungkook permanecia em pé, de frente para aquela tela grandiosa, escarando o seu próprio rosto desenhado com tanta delicadeza. Nem a foto original poderia se comparar.

— Sim. — Ouviu os passos atrás de si, e Taehyung, delicadamente, pousou as mãos sobre os seus ombros, olhando para a mesma direção — Se isso te incomodar, podemos criar outro. Mas eu peço que ao menos, me deixe explicar.

— V-você já pode começar...

— Eu estava buscando por uma imagem para o nosso trabalho, é claro que eu pretendia fazer com você, da maneira que devia ser. — Agora falava mais baixo, como se quisesse que apenas Jungkook o ouvisse. Como se não estivessem sozinhos — Porém, eu me deparei com o seu perfil em algum momento, e eu... — Suspirou, sua respiração atingindo a nuca de Jungkook e lhe causando calafrios — Não sei explicar. É só que eu não gosto de reproduzir nada com o qual eu não me identifique. Nada que não possua algo que eu queira dizer, e essa pintura me diz muita coisa. Por isso, eu escolhi o seu rosto. Porque quando eu olho para você, é como se... — O corpo do ômega foi virado de frente para o alfa, e então o Kim levantou o seu rosto com as duas mãos — É como se fosse minha obrigação te recriar nas minhas telas.

As mãos presas ao seu rosto eram calorosas e macias, e os olhos dóceis daquele que lhe mirava não se comparavam em nada com o olhar ríspido com o qual Taehyung lhe fitara semanas atrás. Baixou o olhar para os lábios carnudos, aqueles malditos lábios carnudos que ele, por tantas vezes, tentou reproduzir com grafite, e nunca conseguiu com exatidão. Porque era impossível fazer jus à beleza do Kim. Era impossível que algo se comparasse a ele dignamente.

— Eu não te conheço tanto assim, nós nem somos íntimos. — O alfa sorriu, parecia falar mais consigo mesmo do que com o moreno. Seu dedo indicador deixou um singelo carinho na bochecha branquinha — Eu senti tanta raiva de você durante tanto tempo, porque isso sempre esteve preso em mim. Essa vontade de te desenhar. De verificar se você ficaria tão bonito no papel quanto fica na realidade.

O coração do ômega batia descompassadamente e ele não percebeu o momento exato em que perdeu tanto ar. Suas bochechas deveriam estar escarlates, e seus dedos instintivamente se enroscaram nos pulsos do mais velho. O cheiro de Taehyung estava ainda mais forte.

— Taehyung...

O nome saiu como um sussurro, e o Kim sorriu minimamente. Era tão raro vê-lo sorrir que Jungkook gostaria de registrar aquele momento para sempre em sua memória para nunca mais esquecer. Tão valioso. E ainda era um mistério para si.

— Jungkook. — Respondeu simplesmente, ainda com aquele olhar terno pesando sobre o rosto do mais novo.

— Você está escutando Mozart? — Não soube explicar porque aquela pergunta lhe surgiu justamente naquele momento, mas não conseguiu apenas segura-la no fundo do peito. Taehyung riu baixo, afastando-se daquele ômega encantador. Jungkook ganhara pontos consigo por reconhecer um de seus artistas preferidos — Em uma vitrola. Você está escutando Mozart em uma vitrola.

— Imagino que seja uma grande surpresa para você, certo? — Kim expressou graça nos lábios carnudos, virando-se lentamente e entrelaçando os dedos atrás das costas, caminhava até a sua querida vitrola. — Aposto que ninguém poderia imaginar que eu, o pior exemplo da classe, seria capaz de apreciar um pouquinho dos clássicos.

Jungkook o observou se afastar e enfiou as mãos nos bolsos, sem saber onde esconder o rosto. Era verdade que aquilo era uma grande surpresa para si, seria para qualquer um. Mordeu o lábio inferior nervosamente.

— É só que eu não... Esperava por isso. — Confessou.

— Eu sei o que os outros falam de mim por aí, Jeon. Não sou tão idiota quanto pensam. — Sussurrou, fazendo o coração do ômega apertar mais do que deveria.

— Não foi isso que eu quis dizer. E você não deve dar importância ao que dizem, as pessoas não sabem de nada.

— Está tudo bem, eu não os culpo por isso. — Riu nasal, passando o dedo indicador por uma mancha de tinta na parede, distraidamente — Minha própria família me ensinou que pessoas inteligentes devem frequentar as aulas religiosamente para aumentar o seu nível de conhecimento. Mas eu não... Consigo.

— Você não consegue? — Jungkook caminhou até estar bem próximo do alfa, sabia que ele falava sobre suas frequentes faltas no curso.

— É, não consigo. — Respirou profundamente, virando-se para observar o Jeon, que àquela altura do campeonato já se sentia demasiadamente curioso com aquele ser — A minha mente está sempre cheia de coisas, às vezes demoro para absorver novas informações porque minha cabeça desmonta cada uma delas, como um quebra-cabeça, sabe? É exaustivo. Eu simplesmente não consigo não analisar minhas questões minuciosamente, e isso leva muito tempo. Eu pinto constantemente para descontar essa energia que me tortura, ao mesmo tempo em que me abençoa. — Apertou o lóbulo da orelha do ômega — É insuportável ficar preso a uma cadeira durante horas, colocando expectativas em um método de ensino que eu, particularmente, considero falho. Pessoas não são máquinas, Jeon. — Jungkook ainda não sabia ao certo o que responder, ouvindo Taehyung falar daquela maneira, fazia com que se sentisse literalmente burro. Gostaria de poder rir de si mesmo, mas estava preso demais aos seus olhos caramelo — Enfim, não te chamei para falar das minhas crises de existência e sim, para saber se você aprova a tela que eu fiz.

Então Jeon despertou do transe, piscando várias vezes.

— Oh! Eu, na verdade, hm. Eu... — Tossiu disfarçadamente, sentia-se tão estúpido — Eu acho que não esperava por isso e para ser sincero, ainda estou um pouco surpreso. — Riu, sem graça.

— Eu já esperava por essa reação e eu entendo. Se você desejar, podemos criar outra coisa ou-

— Não. A sua pintura está perfeita. Será ela. — Tentou sorrir da maneira mais amigável que conseguia, ainda que seu estômago estivesse queimando como o inferno. Gostaria de tê-lo conhecido dessa forma antes, mas, talvez, as coisas tivessem mesmo o seu tempo único para acontecer. Talvez não dependesse apenas de si. Talvez tudo acontecesse para funcionar no momento certo.

— Você gosta do Van Gogh, Jungkook? — Kim puxou os dois pufes e pediu para que o ômega se sentasse ao seu lado. Assim ele fez, percebendo como eram confortáveis e fazendo uma nota mental para não se esquecer de comprar um daqueles quando possível.

— Eu conheço o básico sobre ele. — Sentiu-se pequeno, mas Taehyung não lhe repreendeu. Sorriu a concordou com a cabeça, não queria deixa-lo desconfortável — “A Noite Estrelada” é uma pintura famosa.

— Alguns dizem que essa pintura foi feita de dentro de um dos quartos nos quais ele ficou durante a internação. Há teorias de que ele mesmo tenha buscado se exilar, porque se considerava doente. — Entrelaçou os dedos sobre o colo, brincando com seus próprios polegares — Mesmo que o irmão o considerasse mentalmente estável naquela fase da vida. Eu me pergunto o que leva um artista como ele, com uma percepção tão incrível e única sobre o mundo, se considerar alguém incapaz. Ele foi recusado um milhão de vezes antes de obter algum sucesso. Eu ainda não tenho certeza sobre os requisitos reais que são capazes de definir um homem como alguém... Sábio. Não sei dizer se a doença está na nossa cabeça ou nos olhos de quem aponta o dedo para nós. Inteligência é algo muito relativo.

Taehyung continuou explicando sobre a maneira como enxergava o mundo ao seu redor, talvez nem tenha percebido que estava realmente desabafando com Jungkook. Mas é claro que o moreno não se importava nem um pouco com isso, ele o ouviria por quantas horas fossem necessárias. Kim parecia alguém muito solitário e cheio de ótimas ideias dentro da cabeça, guardadas pelo medo de serem rejeitadas pela sociedade.

E então Jungkook entendeu quem era Kim Taehyung.

Taehyung era alguém cheio de crises dentro de si, simplesmente porque processava informações além do que era considerado normal. Taehyung não faltava na faculdade por ser um homem “burro”, como tantos diziam. Ele faltava porque havia muita energia mental em sua cabeça e isso dificultava um bocado sua convivência com as outras pessoas, porque no final das contas, conseguia ser um ser humano extremamente sábio, em um nível acima da média. Acima de tudo o que Jeon já tinha visto em seus vinte e dois anos de vida.

Talvez, a burrice estivesse na maldade das línguas venenosas daquela faculdade, que não conseguiam entender como Taehyung era especial. Mas Jungkook entendia que não seria bom para Taehyung continuar daquela maneira. Não adiantaria possuir tantas ideias boas sem conseguir coloca-las em prática. Não adiantaria ser tão reflexivo e paciente como o Kim demonstrava ser, se isso não pudesse beneficiar o alfa de alguma maneira. Exatamente por isso, o ômega decidiu que o ajudaria a enfrentar o que fosse necessário para que ambos conseguissem se formar sem que alguém saísse machucado o suficiente para desistir de ser quem era.

Kim Taehyung não era burro. Kim Taehyung era um gênio.

 

xxx

 

O trabalho daquele bimestre foi entregue semanas depois, e para a surpresa da classe — não para a de Jungkook —, era o rosto do ômega representado ali. Seulgi deu a nota máxima, e Taehyung finalmente pôde tirar suas tão esperadas férias sem mais problemas.

Os primeiros dias após a primeira conversa que tiveram se desenrolaram com lentidão. O Kim ainda se mantinha consideravelmente afastado, reservado. Mas diferente das outras vezes, lhe cumprimentava sempre que chegava, e sempre que ia embora. Depois de um determinado período, Jungkook passou a se sentar ao seu lado nas refeições durante o intervalo, percebendo que ele apreciava um bom kimchi. A amizade se desenvolveu gradativamente, mas alguns alunos ainda encaravam o alfa com aquele mesmo olhar dono de diversos julgamentos. “Porque ele está andando com aquele zé ninguém?”, “Taehyung é burro como uma porta, por isso falta tanto”, eram coisas que muitos ainda insistiam em falar por ali. Mas as línguas, todas elas, uma a uma, foram se pagando conforme o tempo passava. Kim já ia às aulas com mais frequência, não que realmente gostasse de estar ali perto daqueles que não o compreendiam ou a sua confusão interna, resultados de tantas reflexões. Mas ele o fazia por Jungkook, porque aquele garoto sim, parecia valer a pena naquele mar de gente.

Sempre que se sentia desanimado, Jeon aparecia para lhe confortar de alguma forma. Fosse mostrando novos aplicativos para pintura digital ou apenas os famigerados joguinhos de celular. Visitou o ateliê do alfa mais umas três vezes, apenas para ajuda-lo a dar os toques finais naquele trabalho tão lindo e bem construído que havia desenhado durante três semanas inteiras. Levava sempre alguma besteira para que pudessem se alimentar e Taehyung achava fofa a forma como Jeon o tratava, muito diferente de seus próprios pais ou dos alunos do curso.

O ômega agia consigo de maneira verdadeira e singela. Ele era tratado como um amigo. Como alguém normal, sem grandes complicações ou complexos de identidade. Eram só Kim Taehyung e Jeon Jungkook contra o mundo.

E assim foi durante os próximos três anos.

O último ano chegou, e com ele a época preferida do ômega: o inverno. Estava razoavelmente frio, então tratou de colocar o gorrinho que ganhara de Taehyung em seu último aniversário antes de sair de casa e pedir um táxi até a familiar mansão do Kim. Todos os funcionários já o conheciam de longa data, ele sequer precisava de permissão para entrar. Não era nem mesmo anunciado como faziam com outras visitas.

Jungkook subiu as escadas às pressas, empolgado para cair no abraço apertado do mais velho. Foi exatamente isso que fez ao abrir a porta do quarto do Kim, criando um impacto quando seu corpo se chocou com o dele e os dois caíram sobre a cama grandiosa. Taehyung ria gostoso, daquela maneira que fazia o seu coração acelerar cada vez mais.

— Sabia que as cores não existiriam sem a presença da luz, Kookie? — O alfa murmurou, e Jungkook já traçava uma linha de beijos por seu pescoço, chegando aos poucos no peitoral amorenado que tanto gostava.

— Estudamos sobre isso no primeiro bimestre do primeiro ano. Eu ainda me lembro, ok? — Resmungou, agora desabotoando a camisa branca que o outro vestia e tirando o próprio casaco em seguida. Os aquecedores estavam ligados, de qualquer maneira.

— Sim, eu sei. — Kim o ajudou a retirar as calças jeans apertadas, exibindo aquelas coxas torneadas que mordia sempre que possível — Mas o preto, justamente o preto, é percebido quando toda a luz é absorvida. É curioso que ele seja considerado mórbido quando retém praticamente toda a luz, você não acha? É tão interessante.

— Discutimos sobre essa fascinante descoberta depois, pode ser? Eu serei todo ouvidos. — Riu, deixando os dentinhos salientes visíveis. Taehyung sorriu retangular, da mesma maneira que fazia quando Jeon cozinhava lámen. O ômega havia ensinado a parte pouco saudável da vida e ele precisava admitir que estava gostando muito.

Ambos já estavam sem roupas quando Jungkook se sentou em seu colo, encaixando o membro rijo dentro de si ao passo em que jogava a cabeça para trás e apertava os ombros daquele que lhe enchia de beijos desesperadamente. Ouviu o alfa rosnando baixo próximo ao seu lóbulo, mordendo sua pele sem dó.

— E agora, você será todo meu?

— Você sabe que sim.

Taehyung agarrou as nádegas fartas com possessão, tinha se tornado um vício desde que descobrira como o calor do ômega lhe fazia falta. Os dedos do moreno se enroscaram nos fios sedosos, puxando levemente. O Kim permitia que ele fizesse o que bem entendesse consigo e só ele possuía essa permissão. Só Jungkook. Assim como Taehyung era o único que podia lhe tocar daquela maneira íntima, quente demais.

O ômega começou com fracas reboladas, subindo e descendo lentamente da forma que fazia o alfa lhe arranhar cada parte das costas alvas, ele sabia disso. Era o motivo pelo qual continuava a tortura-lo. Aumentou a intensidade aos poucos, já sendo capaz de ouvir o barulho provocado pelo choque entre sua bunda e as coxas do Kim. Sempre que chegava à base do pênis, era acertado no fundo, sentindo completamente como era ter Taehyung duro dentro de si. Duro por ele, e nada no mundo conseguia fazê-lo se sentir mais completo do que quando se unia ao alfa daquela forma, como se fossem um só.

Viu algumas pintinhas nos ombros e beijou cada uma delas, não perdendo a oportunidade de morder sua pele. Deixar sua marca, seu registro, seu cheiro. Para que todos soubessem que aquele homem incrível era seu, somente seu. E não havia no mundo e nem nunca haveria ninguém igual a ele. Porque Taehyung era um só, era único. Se considerava muito sortudo, e amado, como de fato era.

Puxou Taehyung para trás, deitando-se no colchão e devorando seus lábios cheios e inchados. Kim se perdia entre corresponder aos doces sorrisos do Jeon e revirar os olhos de prazer, a cada nova investida que dava em seu interior.

— Você não pode ser real. — O alfa alisou a barriga definida, muito diferente da sua que possuía várias gordurinhas, mas, que eram muito queridas pelo outro. E ele sempre fazia questão de lembrar disso — Alguém tão belo assim, não pode ser real.

Forçou o pênis com mais intensidade dentro de Jungkook, sabia que acertaria seu ponto erógeno com facilidade. O conhecia muito bem, melhor do que a palma da própria mão. Como resposta, teve o prazer de se deliciar com os gemidos arrastados e manhosos. Ele os ouviria para sempre se pudesse.

— E-eu quero virar. — Jungkook pediu em seu ouvido, os olhos fechados se apertavam e a franja negra grudava em sua testa. Kim lhe deixou um beijo nos cabelos.

— Quer ficar de quatro pra mim, Kookie? — Provocou, com um sorriso diabólico desenhado no rosto.

— Quando f-foi que você p-perdeu a classe, Tae? — A cada nova investida, Jungkook se arrastava nas palavras. Era difícil pronunciar qualquer coisa com clareza quando o mais velho se afundava com tanta vontade dentro de si, enterrando-se até o limite, retirando-se apenas para lhe arrancar mais um gemido.

— Vire-se. — O alfa saiu de dentro de seu corpo e o ajudou a se posicionar. Jungkook apoiou a cabeça no travesseiro e empinou o máximo que conseguia. Queria sentir Taehyung até o ápice. O Kim, por sua vez, tratou de apertar aquela cintura fina e delicada com força, deixando claro que era sua. Que só ele poderia fazer daquela forma. Segurava com tanta firmeza que Jeon poderia facilmente deixar-se ser comandado por ele e apenas por ele.

— Ghh! Taehyung... — Murmurava coisas sem sentido quando o mais velho voltou a lhe acertar ali dentro, saindo e entrando com mais força do que antes. Era claro que precisava se aliviar com urgência.

Kim depositou um beijo demorado nas costas do ômega, naquela pintinha, naquele ponto exato. Porque ele conhecia o corpo de Jungkook como suas próprias telas, como suas próprias tintas, como seus pincéis. Jeon era, por si só, uma obra de arte. E uma que felizmente só ele poderia ter acesso, coitado daquele que ousasse lhe roubar o seu garoto.

Taehyung se retirou rapidamente de dentro do ômega quando o ápice veio, e Jungkook não tardou a agarrar seu membro para tornar aquele orgasmo mais intenso. O Kim se desfez em seus dedos, os gemidos se misturavam ao suor. Jeon Jungkook tinha cheiro de Kim Taehyung e Kim Taehyung tinha cheiro de Jeon Jungkook.

Mesmo sem ter recuperado completamente todo o ar, ele deitou o ômega no colchão e lhe sugou o pênis com toda a força que podia. A língua passeava pela pele quente e seus dedos longos foram introduzidos na entrada no moreno, acertando com cada vez mais precisão. Não foram necessários nem cinco minutos para Jeon, enfim, ter o seu próprio orgasmo. O alfa se importava com o prazer que proporcionaria ao seu ômega, nada seria prazeroso se Jungkook não pudesse sentir o mesmo.

Quando os corpos caíram, cansados, sobre o edredom, Taehyung sorriu satisfeito, beijando a testa do mais jovem. Aqueles olhos negros que ele desenhava quase sempre se fixaram aos seus próprios, e seu lábios se juntaram mais uma vez. Um beijo calmo, doce, tranquilo, oposto ao que tinham acabado de fazer naquela cama. O ósculo foi finalizado após um último selinho, e Taehyung acreditava ser completamente dependente daqueles lábios rosados.

— Eu não entendo como alguém como você foi capaz de se apaixonar por mim. — Jeon sussurrou contra o peito daquele que lhe apertava em um abraço, acariciando suas costas — Mas ainda bem que eu te tenho, Tae. Eu te amo.

— Não entende como você é a luz que me trouxe cor, não é?

— Acho que eu sou o preto, então. Você é toda a luz que me preenche, Taehyung. — Fechou os olhos, continuando a receber carinho daquele que seria eternamente a melhor descoberta de sua vida.

Porque  para Jeon Jungkook, Kim Taehyung seria, eternamente, um gênio.


Notas Finais


Yay, finalmente liberei esse melzinho.

Bem, eu não sou um gênio (ahsuahssua) mas eu gosto de escrever sobre o que eu conheço e sobre coisas que sinto. Foi libertador colocar aqui alguns desabafos meus, espero que gostem.

Gente, para aqueles que querem me encontrar no twitter agora, eu desativei a minha conta (lonlywale). Na verdade, vai ser bem difícil me encontrar em algum lugar que não seja aqui no Spirit. Eu peço desculpas por isso, mas foi proposital o meu desligamento. Para aqueles que quiserem conversar, basta que me mandem mensagens por aqui mesmo. Posso não responder na hora mas eu sempre leio depois.

Hmmmm... Ah! Quero falar rapidinho sobre esse plot.

Genius surgiu por dois motivos: existe uma música que encontrei recentemente, da Sia com duas parcerias, que me fez ter vontade de escrever. Vocês podem escutar aqui: https://www.youtube.com/watch?v=HhoATZ1Imtw

É bem legalzinha.

E o segundo motivo que simplesmente caiu como uma luva, foi a recente revelação do Jungkook, que afirmou acreditar que no fundo, o Taehyung é um gênio. Namorados se conhecem, não é mesmo?

Bem, eu pretendia explicar mais sobre a personalidade do Taehyung, mas gostaria muito que vocês tirassem suas próprias conclusões, se possível. Eu quero responder tudo na medida do possível, então se surgirem dúvidas, falem comigo.

Amo vcs
Twitter: opa, rsrsrsrs (podem me bater)

Dois Invernos (att em breve): https://www.spiritfanfiction.com/historia/dois-invernos-13270981


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...