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História .gentilmente ; noren - Capítulo 1


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Notas do Autor


espero que vocês estejam bem <3

aviso: minúsculas propositais; dark fantasy.

Capítulo 1 - .capítulo único


na primeira vez que renjun chegou na cabana de jeno, ele emanava um cheiro de destruição e morte, o seu corpo estando quase todo coberto por uma densa névoa escura que abraçava a forma do seu corpo.

— eu soube que você é um dos melhores curandeiros por aqui — renjun falou, a sua voz soando um pouco estranha e distante, quase como se viesse de todo lugar ao mesmo tempo.

jeno pode sentir algo profundo e intenso se assentar dentro de seus ossos ao ver renjun, algo que fez um arrepio percorrer sua coluna abaixo e os fios de sua nuca se levantarem, a sua mente gritando, “monstro, monstro, monstro! corra!

mas jeno não correu para longe apesar do que os seus instintos diziam. o seu trabalho era ajudar as pessoas, afinal.

— sim, eu sou um curandeiro. como eu posso te ajudar?

a fumaça negra se dissipou um pouco, permitindo jeno a ver um pouco das feições de renjun de forma mais clara; ele tinha olhos escuros e profundos que enfeitiçariam qualquer um — mas jeno estava acostumado com monstros e as táticas que eles usavam para atrair as suas presas, então tentou permanecer forte e inabalável pela aura de renjun.

— eu não gosto disso — renjun disse, movendo as suas mãos na frente do seu peito; elas deixavam um rastro escuro pelo ar quando eram movidas, uma sombra tardia que acompanhava todos os seus gestos. — eu não gosto de toda essa escuridão e os pensamentos ruins. e eu quero isso fora de mim. eu quero ser normal de novo… — e, numa voz mais baixa, continuou, — eu não quero mais ser um monstro.

rastejar-se entre diferentes mundos, permanecendo preso no véu entre pesadelos e realidade, era capaz de destruir qualquer um com o passar do tempo. era um peso difícil de se aguentar. jeno tinha ouvido histórias sobre humanos que foram amaldiçoados ou tinham se tornado presas para monstros que conseguiram atraí-los, ficando acorrentados ao mesmo estilo de vida, e se alimentando do medo de pessoas e de sua força vital.

jeno se perguntou sobre qual dos casos tinha acontecido com renjun.

mas ali, sentado na sua frente, renjun pareceu nada como um monstro, pareceu nada com a assustadora e poderosa criatura que jeno já tinha encontrado antes, há muitas luas no meio da floresta. naquela época, ele era temível e grande, mas agora renjun apenas o fitou com olhos grandes e cheios de lágrimas, o rosto tão pálido e sem cor que parecia mais cinza, fumaça escura ao redor do seu pescoço e seu rosto fazendo a sua imagem oscilar até que desaparecesse antes de surgir novamente.

— você pode fazer isso por mim?

jeno pigarreou, surpreso com o pedido de renjun.

— eu não sei… eu não sei se consigo fazer isso.

ele podia fazer poções e curar doenças, podia criar feitiços simples e tirar encantamentos, mas para remover a escuridão total e a essência do que fazia alguém um monstro parecia impossível. jeno não sabia se ele era capaz de algo tão grande assim. se alguém sequer conseguiria fazer tal feito.

afinal, se você tirasse o vazio de dentro de um monstro, aquilo traria a pessoa de volta ou só o deixaria mais vazio e faminto? loucamente procurando por algo para saciar aquela sede interminável?

jeno sabia sobre monstros que só traziam caos e destruição, o medo roubado de pessoas que havia devorado correndo por suas veias e sendo a fonte de mantê-los todo-poderosos difíceis de matar e destruir.

mas renjun apenas assentiu, ombros pesados com o peso da derrota sobre eles.

— mas você pode tentar? por favor?

jeno aceitou e renjun entrou dentro em sua cabana, parecendo fora de lugar em meio à todas as plantas que cresciam pelas paredes, enchendo cada canto de sua simples casa; flores surgiam em cada encontro das paredes e desciam pelo teto. era um cômodo cheio de vida — e agora havia uma figura negra no meio de tudo, totalmente desnorteada.

renjun emanava desespero e perturbação, os seus olhos tão escuros e perdidos que jeno quase sentiu que ele não podia mandá-lo embora de sua casa, apesar de que ele sabia, no fundo, que não tinha como ajudar renjun a deixar de ser um monstro.

jeno não tinha como destruir a pouca esperança que ainda existia em renjun.

então, enquanto renjun esperava por ele fazer e testar diferentes poções, enquanto esperava por ele folhear livros antigos e recitar feitiços mais velhos do que as árvores que protegiam a floresta, jeno o ensinou a cavar na terra de modo fundo o suficiente para plantar novas sementes; ensinou a cuidar das flores que cresciam e caíam do teto de sua casa; ensinou como cuidar das poções mais simples e embalá-las para os clientes que vinham buscá-las.

renjun tropeçou e caiu e chorou por diversas vezes, xingando a tudo e a todos ao seu redor, os seus dedos cravando fundo na terra enquanto tentava fazer as flores crescerem, tentando não deixar as mudas que jeno tinha cuidado por tanto tempo e com tanto cuidado morrerem em suas mãos com um simples toque.

mas não era fácil para um monstro aprender a cuidar de algo. para eles, não destruir e matar tudo ao seu redor quando tudo o que antes conheciam era se alimentar do caos e do fim de todas as coisas, era difícil. tentar e criar vida, fazer com que prosperasse, às vezes parecia algo impossível de fazer.

mas, debaixo das lágrimas e suor de renjun, com o tempo pequenas flores amarelas começaram a surgir da terra escura enquanto a lua dançava no céu escuro.

— isso vai acabar um dia? — renjun sussurrou uma noite, uma confissão para as estrelas e para a lua, para os ouvidos de jeno. — ainda está aqui dentro de mim. eu consigo sentir. eu consigo sentir dentro de mim pedindo por algo mais, algo maior. eu não consigo segurar para sempre.

jeno olhou tristonho para renjun, a sua testa franzida.

— eu não sei — ele respondeu. — eu não sei se eu consigo tirar isso de dentro de você e você ainda sobreviver no final.

agora, depois que tanto tempo tinha passado, após ele ter ensinado a renjun tudo o que ele sabia e tendo vivido ao seu lado por diversas mudanças de estações, jeno se sentia egoísta. ele não queria curar renjun se aquilo significa que ele iria embora. ele não sabia se queria correr o risco de tentar algo quando, dentro dele, jeno sabia que não traria os resultados que renjun tanto queria.

— tem alguma maneira de me salvar? — renjun perguntou, os seus lábios vermelhos e os olhos escuros. a fumaça ao redor do seu corpo tinha desaparecido quase por completo, apenas algumas mechas grossas permaneceram flutuando ao redor de sua figura, seguindo atrás dele como uma sombra viva. — tem alguma maneira de fazer tudo isso desaparecer?

— eu não sei — jeno repetiu. — se existe, então eu não conheço. e se eu tentasse algo, eu não sei se você sobreviveria.

renjun não respondeu, olhando para o céu antes de olhar para jeno.

— você tem certeza?

— sim. você… você ainda iria querer tentar? mesmo sabendo de todo o risco?

jeno não queria fazer isso. a sua cabeça e coração doía só de pensar em fazer algo, de ter a imagem de renjun desaparecendo à sua frente por causa de algo que as suas mãos fizeram. a boca de jeno encheu-se com um gosto amargo, fazendo com que ele se engasgasse com as suas palavras, mas ele as cuspiu todas para fora porque era o que renjun queria escutar. era o que renjun merecia — uma escolha independente do que jeno pensava ou sentia.

renjun não o respondeu de imediato. ele se afastou por um tempo, voltando para a floresta por dias antes de voltar ainda sem dizer uma palavra, a névoa escura ao redor de seu corpo tendo se tornado algo maior e mais denso do que quando havia partido.

por dias, renjun apenas trabalhou no jardim, cuidando das plantas dentro da cabana e silenciosamente ajudando jeno com suas poções. eles não trocaram uma só palavra, mas jeno descobriu que eles não precisavam delas quando renjun olhava pra ele e jeno conseguia lê-lo claramente, conseguia entender o que ele precisava e o que ele queria mesmo sem expor verbalmente suas necessidades.

jeno esperou pacientemente. ele sabia como monstros eram — como às vezes eles se perdiam dentro de si e o quão difícil era trazê-los de volta se muito tempo havia passado. mas, ainda assim, ele deu espaço para renjun porque, mais do que tudo, ele não queria que renjun desaparecesse e o deixasse sozinho. renjun ainda tinha uma escolha a tomar.

não era difícil amar um monstro, jeno descobriu, não era nada difícil quando a criatura só ansiava por um toque gentil e uma salvação que nunca conseguiria atingir. jeno viu os espaços vazios na essência de renjun e ele sabia como seria fácil tentar preencher aquele espaço com ele mesmo — mas aquele era renjun; mesmo com espaços e perdas, com vazios e falhas, aquele era renjun.

então jeno esperou.

as flores cresceram, foram cortadas, e tinham sido plantadas de novo quando renjun finalmente se aproximou dele, os seus olhos escuros ainda carregando um universo cheio de mistérios, mas já não mais tão profundos e desesperados como da primeira vez.

— eu não quero desaparecer — ele falou, sua voz rouca por desuso. — eu não quero mais ser um monstro e também não quero machucar as pessoas, mas eu não quero sumir. eu quero ficar com você e fazer as flores crescerem, mesmo que isso signifique que elas têm que morrer centenas de vezes antes que eu consiga fazê-las crescerem.

jeno tentou segurar um soluço, a sua garganta e olhos queimando com lágrimas que não ousava derramar.

— q-que bom… eu também não quero que você vá — a sua mão trêmula repousou sobre a de renjun. a pele dele era fria e nuvens de fumaça negra a deixava apenas ainda mais gelada, mas jeno não afastou a sua mão. — eu vou te ensinar tudo sobre as flores para que não morram com você. eu vou te ensinar mais do que você já sabe.

— eu acho que elas vão apodrecer de primeira independente do que eu faça — renjun disse, a sua voz pesada. — mas eu só tenho que aceitar isso, assim como tenho que aceitar e viver com outras coisas dentro de mim também. não é como eu quero e preciso me adaptar a tudo isso.

— tudo bem. a gente pode lidar com tudo juntos.

renjun respirou fundo, engolindo em seco, o seu pomo de adão subindo e descendo com força. ele olhou da mão de jeno para o rosto dele, os seus olhos brilhando, e disse:

— ok.

o desejo de saciar aquela sede nunca o deixaria sozinho. ser um monstro fazia parte de renjun e estava enlaçado de forma tão intrínseca em sua essência que não se tinha como separar o que era renjun e o que era a criatura que se alimentava do medo dos outros.

ainda assim, jeno amava cada parte dele.


Notas Finais


até a próxima <3


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