História Get free - Capítulo 39


Escrita por:


Capítulo 39 - Sophie - Te Peguei



"She
 remembered 
who she was
and the game
changed."

                      Lalah Delia 



Segunda-Feira 15/07/2019 

Estou deitada na grama observando as nuvens enquanto meu avô, sentado em uma cadeira há alguns metros, está completamente perdido em um livro - Dickens, provavelmente. Bill é apaixonado por Charles Dickens. Minha avó mexe com seu canteiro de flores na lateral da casa.

Fazem duas semanas que cheguei aqui e todos os dias são calmos e sossegados assim. Isso me permite pensar no que fazer em relação a Evan. O choque inicial já passou e eu não me sinto mais uma merda. Na verdade, todo aquele pânico se transformou em raiva, sem contar o nojo, e eu quero que o filho da puta pague pelo que fez.

Fico repassando aquela noite na cabeça, tentando encontrar algum detalhe que perdi... Ele não sabia que eu estaria no bar e eu sei que colocou alguma coisa em minha bebida. Isso significa que já planejava drogar alguma garota e levá-la para o motel. Aquela não pode ter sido a primeira vez... Evan não parecia nervoso. Talvez ele esteja acostumado com isso. Encontrar garotas em bares universitários, onde ninguém vai reparar em mais uma menina saindo nos braços de um cara... 

Tenho uma ideia - que pode muito bem não dar em nada, mas nunca se sabe. E Rosalya estava certa, eu realmente preciso registrar uma ocorrência contra o desgraçado, por mais difícil que seja não posso deixá-lo impune. Preciso pelo menos tentar.

Me levanto e caminho até minha avó. Lindsay, assim como Bill, tem 69 anos. Eles se conheceram ainda na faculdade onde meu avô cursava literatura e ela, música. Eram - e ainda são - completamente apaixonados um pelo outro. Se casaram em alguns anos e tiveram meu pai, que é filho único. Ela era uma pianista de concertos e meu avô dava aulas na universidade em que se formou. Os dois se aposentaram há um tempo e agora vivem aqui, na mesma cidade que meu pai, mas alguns quilômetros afastados - não são muito fãs do barulho e da correria do centro.

— Vó, eu tenho que ir embora mais cedo para resolver algumas coisas... — Ela para de mexer na terra preta do jardim e me olha, curiosa.

— Está tudo bem, boneca? 

Sorrio, assentindo.

— Sim, é só... Realmente importante.

— Não vejo nenhum problema. Mas você vai ter que contar isso para o Bill, ele tinha planos de te levar para pescar...

Dou uma gargalhada e encaro meu avô - completamente alheio ao mundo, imerso em sua leitura. Ele adorava me levar para pescar, mas a verdade é que nós dois nunca pegamos um peixe sequer. Toda vez que estamos sentados à beira do lago, pegamos nossos livros e passamos horas lendo - sem nem tocar nas varas. Era nosso costume há uns cinco anos já e eu amava cada segundo.

— Ele vai entender... Eu volto qualquer dia desses.

 

— Tem certeza que não quer ficar mais, Soph? Eu tinha grandes planos para nossa pescaria esse ano... — Bill me ajuda a levar as malas até o carro.

— Juro que volto em algum fim de semana e nós poderemos ir. Preciso resolver umas coisas antes das aulas começarem... E... Bom, se vocês puderem não dizer nada ao meu pai, eu agradeceria. — Eles me olham desconfiados e eu sorrio. — Não estou fazendo nada grave, relaxem.

— Cuidado, Soph. Se precisar de alguma coisa é só ligar. Lindsay e eu estaremos aqui. — Eu assinto e dou um abraço apertado nos dois antes de entrar no carro.

— Vai com cuidado, filha. — Ouço a voz de Lindsay enquanto dou a partida.
 

Dirijo por quase uma hora até chegar na cidade. Faço check-in em um hotel no centro e deixo minhas coisas no quarto. Não estou longe da minha antiga faculdade, então decido ir andando. Pego somente o celular e a carteira antes de sair.

Ando por alguns minutos e chego em frente à universidade. O lugar está deserto, mas os portões continuam abertos - provavelmente por causa das pessoas que moram na república e não vão para casa durante o mês de férias. 

Atravesso a rua e paro na frente do bar. Respiro fundo, sentindo minhas mãos tremerem um pouco, e entro no lugar. São duas da tarde, então as mesas estão vazias. Um rapaz loiro e alto organiza o balcão - ele sorri simpaticamente quando me aproximo.

— Boa tarde. Precisa de alguma coisa? — Eu me sento do outro lado e tiro o celular do bolso.

— Oi, meu nome é Sophie... Eu precisava de uma ajuda sua. — Abro a foto de Evan e entrego o aparelho para ele. — Por acaso você conhece esse cara?

O moço pensa por alguns segundos, com o cenho franzido e responde:

— De vista, sim. Ele veio aqui algumas vezes, sempre nos finais de semana. Não reparei muito, estamos sempre lotados nesses dias... — Ele me entrega o celular e eu assinto, forçando um sorriso.

— Vocês tem câmeras de segurança por aqui?

— Não... Sinto muito. 

— Tudo bem, muito obrigada. — Guardo o celular no bolso e pego a carteira, tirando uma nota de vinte. — Pode me dar uma cerveja?

Ele me entrega a garrafa gelada e eu tomo, satisfeita. Hoje está um calor do caralho... Eu deveria ter vindo de carro. 

— Sabe, a loja do lado tem uma câmera na entrada. Pode ser que pegue a porta do bar... — O barman diz, entregando meu troco. Meu rosto se ilumina.

— Deus! Obrigada, vou até lá agora. — Termino minha bebida em um gole e saio em disparada até o prédio ao lado. 

É uma loja de conveniência 24h e, realmente, tem uma câmera que deve pegar toda a calçada, até a entrada do bar. Caminho até o caixa, onde um rapaz mexe no celular, parecendo extremamente entediado. Limpo a garganta para que ele perceba a minha presença.

— Boa tarde, meu nome é Sophie. — Ele me olha como se dissesse "foda-se", mas eu continuo. — Você poderia me deixar dar uma olhada nas filmagens da câmera da porta?

O rapaz arqueia a sobrancelha e balança a cabeça negativamente, rindo com deboche.

— Só porque você quer, madame. 

Eu pego a carteira e tiro todo o dinheiro de dentro, jogando em sua frente.

— Qual é, eu realmente preciso disso. Te dou todo o dinheiro que tenho comigo. — Ele encara as três notas de cinquenta no balcão e ladeia um sorriso. — Por favor... — Leio seu nome no crachá de identificação. — Ethan.

Pega o dinheiro e coloca no bolso, em seguida se levanta e faz sinal com a cabeça para que eu o siga. Subimos uma escada estreita que leva até uma sala minúscula, com apenas uma mesa, uma cadeira desconfortável e um computador antigo. Ele liga o aparelho e abre uma pasta com vários arquivos de vídeo. Aponta a cadeira velha para que eu me sente.

— Fica a vontade, madame. Nós mantemos os registros de alguns meses atrás, talvez você encontre o que precisa... Mas tem que ir embora assim que o meu turno terminar, se quiser pode voltar amanhã durante o dia. — Eu assinto, me acomodando no assento.

Procuro a pasta com as filmagens do ano passado e, felizmente, encontro. Abro o arquivo do dia 13 de outubro e acelero a velocidade do vídeo até chegar a noite. Meu estômago gela ao vê-lo entrando no bar - a imagem é nítida o suficiente para que eu o reconheça. Acelero um pouco mais e, algumas horas depois, Evan sai pela porta me segurando pela cintura. Estou andando com dificuldade, mas ele consegue me levar sem nenhum problema. Quem visse a cena provavelmente pensaria que fôssemos namorados ou algo assim.

Ele caminha em direção à loja de conveniência e a câmera pega o ângulo exato do seu rosto. Definitivamente é ele. Me ver daquele jeito faz com que eu quase tenha outro ataque de pânico, porque não me lembro de nada daquilo e estou claramente vulnerável demais para resistir. 

Fecho os olhos e respiro fundo, tentando pensar em algo que me acalme. Me lembro do último encontro com Castiel, de como me senti inteira naquela noite. Eu não estava em um dos meus melhores dias, mas queria ficar com ele. 

Achei que não conseguiria deixá-lo me tocar, porque continuava revivendo o trauma de Evan... Mas Cass não era nada como aquele filho da puta. Ao olhar em seus olhos, sentindo seu corpo contra o meu e nossas mãos entrelaçadas, percebi que não tinha porquê ter medo, ele nunca me machucaria.

Abro os olhos devagar e encaro a imagem na tela. Ele vai pagar por isso.

Ouço uma batida na porta e Ethan me chamando. Saio da salinha e nós descemos até a loja. 

— São quatro da tarde, já deu minha hora. — Ele diz, retirando o crachá pendurado no pescoço e arrumando os cabelos. —  Você pode voltar amanhã às 9h. 

— Tudo bem. Muito obrigada, de verdade. — Ele assente e abre a porta para que eu saia. No caminho de volta, paro em uma loja de eletrônicos e compro um pen drive - preciso salvar as filmagens. 
 

Chego no hotel e tomo um banho quente. Pela primeira vez nas últimas semanas tenho um fio de esperança.

 Saio do banho e me jogo na cama, exausta. São quase cinco da tarde ainda, mas acho que eu dormiria até amanhã se pegasse no sono agora.

 Meu celular toca - olho no visor e meu sorriso é involuntário quando vejo o nome de Castiel.

— Sentindo muito a minha falta, rockstar? — Ouço sua gargalhada gostosa do outro lado - que faz meu corpo se arrepiar.

— Você não tem ideia, baby. Como estão suas férias? — Mordo os lábios, sentindo um pouco de culpa.

— Nada de novo… 

Conversamos por quase uma hora - ao que tudo indica, a turnê está sendo um verdadeiro sucesso. Até que os gritos impacientes de Mike nos interrompem e Cass tem que ir. Fico com um sorriso bobo por um tempo, mesmo depois de desligarmos. Meus pensamentos se perdem no ruivo e nem percebo quando caio no sono.

Terça-Feira 16/07/2019
 

Me levanto às oito da manhã e vou tomar um café antes de sair. Preciso prestar queixa contra Evan e sei que não vou conseguir fazer isso sozinha - tenho que contar ao meu pai. A ideia de ter que encará-lo e falar sobre isso me faz engolir em seco. Na época, eu me sentia humilhada e suja demais - incapaz de verbalizar o que aconteceu. Ainda tenho essa sensação - talvez com menos intensidade que antes - mas a raiva de Evan supera qualquer outra coisa. 

Empurro a porta da loja e encontro Ethan repondo algumas mercadorias na prateleira, ele me encara e dá um sorriso - parece estar de bom humor.

— Oi, madame. Pode subir, a porta está destrancada. — Sorrio e aceno com a cabeça, indo em direção à sala.

— Valeu, Ethan. 

Me sento na cadeira e coloco o pen drive, copiando o arquivo daquela noite. Decido ver mais algumas horas de vídeo. O moço do bar mencionou que Evan esteve ali por algumas noites, talvez ele tenha feito isso com outra garota. O pensamento me enoja, mas é bem possível.

Quatro horas se passam. Meus olhos lacrimejam e ardem, eu estou faminta... Não aguento mais encarar este monitor. Quando vou fechar a tela, vejo-o entrando no bar.  Não tenho certeza, porque a imagem está um pouco borrada. Acelero o vídeo e, quarenta minutos depois, ele sai pela porta com uma garota. Faz o mesmo caminho que fez comigo - talvez seu carro esteja na rua de trás. Ele passa e a câmera captura com nitidez seu rosto e o da garota, que pende a cabeça para trás. 

Ela é morena e, como eu, um pouco baixa e magra.  A garota parece incapaz de segurar seu peso nas próprias pernas e caminha com muita dificuldade - ele praticamente a arrasta pela calçada, sem esforço. 

— Te peguei. — Sussurro, sentindo o coração disparado em meu peito.

Pauso o vídeo e tiro uma foto do rosto da menina com o celular - a data é de apenas três semanas atrás, em um sábado a noite. Copio o vídeo para o meu pen drive e saio em disparada da sala. 

— Ethan, muito obrigada por tudo. — Digo, passando pelo balcão. Não consegui ouvir sua resposta, já estava correndo pela calçada em direção ao campus no outro lado da rua.

 

Entro na universidade e vou direto para os dormitórios, na esperança de ter alguém ali. Começo a bater nas portas, de uma em uma, até que finalmente alguém me atende.

Uma garota loira e alta, com um rosto simpático abre a porta. Sorrindo, eu desbloqueio o meu celular e coloco na altura dos seus olhos, perguntando:

— Oi, me desculpa incomodar... Você sabe se esta moça estuda aqui? — Ela franze o cenho, se concentrando na foto.

— Me lembro de vê-la pelo campus durante as aulas, sim. Mas a maioria dos alunos está fora por causa das férias, talvez você devesse voltar no mês que vem...

— Claro... Era só isso que eu precisava saber, muito obrigada. — Ela sorri, assentindo e fecha a porta.

 

Caminho de volta para o hotel, pensando no que fazer. Pego o celular e ligo para o meu pai, que atende quase de imediato.
 

— Ei, boneca, como vai? 

— Pai... Eu preciso falar com você. É urgente...

— Aconteceu alguma coisa? Seus avós estão bem? — Ele diz, preocupado.

— Oh, não é nada disso, eles estão bem. Na verdade, estou em um hotel aqui no centro, próximo à universidade. 

— Sophie, você está me preocupando. Vem até o escritório e a gente conversa. É horário de almoço, não tem quase ninguém aqui.

— Ok. Chego em alguns minutos. —  Desligo o celular e desço até o estacionamento para pegar o carro. Deus... Não faço a mínima ideia de como vou começar. 

Chego em quinze minutos, estacionando na frente do prédio. Passo pelas portas de vidro e, logo na entrada, vejo um "Davies" enorme estampado na parede em letras prateadas. Não consigo segurar o sorriso. Entro no elevador e aperto o botão para o 12° andar - minha respiração está acelerada e não consigo parar de roer as unhas da mão.

Saio no andar vazio, a não ser por umas cinco pessoas afobadas passando de um lado para o outro com pilhas de papéis nas mãos. Caminho pelos corredores até a sala do meu pai. 

Dou algumas batidas na porta, antes de abri-la. Ele está em pé, de frente para a grande janela de vidro que dá uma visão incrível da cidade toda. Uma das mãos está no bolso enquanto segura o celular na outra, lendo alguma coisa no aparelho. Se vira para me encarar, desligando o visor.

Na hora, sinto as lágrimas brotando em minha garganta. Harry é a pessoa mais importante da minha vida e agora me arrependo de não ter dito a verdade antes. Ele nunca iria me julgar ou me culpar por Evan... 

Desabo em um choro alto, soluçando, enquanto as lágrimas lavam o meu rosto - de uma forma que eu não fazia em anos. Seus braços me rodeiam, apertando meu corpo com força e é como se eu fosse uma criança novamente. Dentro do seu abraço eu sabia que nada me faria mal, eu estaria protegida de qualquer coisa.

— Soph, meu anjo... — Sua voz baixa e paternal faz com que eu chore ainda mais, não consigo evitar.  

— Me desculpa, eu devia ter te contado... — Digo, ainda com os olhos fechados e a voz abafada em seu peito. — Mas eu não queria que você me visse daquela forma... Eu só... Sinto muito.

Harry pega meu rosto entre as mãos e enxuga minhas lágrimas, depositando um beijo em minha testa.

— O que aconteceu, Soph? — Me afasto e caminho até o sofá, sentando com as pernas cruzadas. Ele se põe ao me lado, fitando meu rosto.

— Você vai ficar bravo. Muito bravo. Mas, por favor, não me interrompa. Preciso falar de uma vez. — Sua expressão se torna mais dura e preocupada.

Começo a lhe contar tudo. A noite no bar, o dia seguinte em que acordei no motel, a volta de Evan no próximo mês e sobre as filmagens que encontrei. Sinto um nó no estômago, mas mesmo assim vou até o final. Meu pai me ouve, sem tirar os olhos de mim. Quando termino, ele se levanta e passa as mãos pelos cabelos, andando de um lado para o outro em minha frente. Consigo sentir a raiva emanando do seu corpo.

Ele se senta na mesa de centro, virado para mim e esfregando o rosto.

— Eu quero matar esse verme desgraçado. — Sua voz grave e sombria arrepia minha espinha.

— Pai... Eu preciso da sua ajuda para colocá-lo na cadeia. Com a minha denúncia e a dessa outra garota, se eu conseguir encontrá-la, ele vai enfrentar anos atrás das grades. — Me ajoelho em sua frente e pego suas mãos. — Por favor... 

Ele assente e ergue minhas mãos, depositando um beijo em meus dedos.

— Vou botar o filho da puta na cadeia... Nem que seja a última coisa que eu faça.

— Eu trouxe a cópia das filmagens e... Bom, quando tudo aconteceu eu fiz algumas consultas médicas e pedi um exame de sangue completo, inclusive o toxicológico. Ele mostra que o Evan me drogou... Eu não tinha coragem de procurar alguém na época, mas sabia que eventualmente iria.

Sua expressão suaviza e ele sorri, balançando a cabeça.

— Eu sempre digo, boneca: você é mesmo filha do seu pai. Nós temos provas para uma pena de pelo menos 12 anos... Eu sei que vai ser difícil, mas você precisa ir a uma delegacia e abrir uma ocorrência para começar o processo. — Eu assinto. — Nós não precisamos ir hoje...

— Tudo bem... Agora, por favor, eu preciso comer. — Ele sorri e, ao nos levantarmos, me abraça novamente. 

Pela primeira vez desde que soube que Evan voltaria me sinto segura. É a sensação de quando você é uma criancinha e se perde dos pais no meio de uma multidão. Fica desesperada, achando que nunca mais vai encontrá-los. Mas te encontram e, naquele momento, seu coração se enche de alívio por estar com eles novamente, como se eles pudessem te proteger de todo o mal do mundo. Acho que todos voltamos a ser crianças quando somos abraçados pelos pais...
 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...