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História Get free - Capítulo 74


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Capítulo 74 - Seus olhos


POV‌ Sophie

— Sophie Lynn, eu te amo — Priya diz, olhando a lista de testemunhas que meu pai conseguiu adiantar.

— De nada — sorrio, me sentando de frente para ela e Kyle.

Ela o entrega uma cópia e Ky começa a separar os depoimentos um por um. A audiência é hoje e já temos uma defesa preparada, mas precisamos aproveitar cada segundo. Passo os olhos pelos nomes escritos no papel em minha frente e tenho a impressão de ter ouvido esse nome Edward Bryant em algum lugar.

— Vocês conhecem algum Bryant? — pergunto.

Priya estreita os olhos, pensativa, mordendo a ponta da caneta em sua mão.

— Acho que não... por quê?

— Nada — dou de ombros, voltando para a lista.

Quando estamos prestes a sair - exceto Kyle, que não gosta muito de tribunais, então sempre prefere ficar trabalhando daqui - Leah surge na porta, ofegante, segurando um pedaço de papel. Ela tinha ido ao hospital pegar os exames de Logan, depois do juíz expedir o mandato.

— Isso custou meus ingressos pro show do Bon Iver — diz, respirando fundo para retomar o ar. — Mas acho que acabei de vencer o caso. Ou pelo menos ficamos bem mais perto da vitória...

Priya pega a folha e olha com atenção em um silêncio cortante.

— Esse não é o mesmo que a promotoria nos entregou...

— Não, porque alguém enterrou evidência no primeiro julgamento do Mason. Aquele exame toxicológico foi completamente forjado. Tive que subornar o enfermeiro e vasculhar no meio de uma porrada de caixas com papéis velhos pra achar isso...

— Puta que pariu — murmuro, olhando para os números na mão de Priya. São bem parecidos com meu próprio exame toxicológico de quando Evan me drogou. 

— Não achei um especialista para testemunhar tão em cima da hora, mas acho que a gente consegue pelo menos gerar uma dúvida grande com isso.

Leah corre até sua sala e volta terminando de vestir uma camiseta limpa. Percebo o olhar de Priya fixo no sutiã de renda vermelho da outra e tenho que segurar um sorriso - e minha língua, na verdade.

Passamos o caminho todo discutindo sobre Logan. Se havia alguma dúvida, agora temos certeza de que ele é inocente. Só o fato de alguém ter falsificado seus exames no primeiro julgamento é suficiente para provar... mas ainda temos muitas lacunas vazias e essas coisas sempre são imprevisíveis.

Ao entrarmos no tribunal, o lugar está lotado de expectadores. Atrás da nossa mesa, vejo uma mulher negra, de cabelos grisalhos, chorando desesperadamente. Ela está segurando a mão de um homem, que imagino ser o marido, enquanto a garota abraça seus ombros. A moça se parece muito com Logan. Essa deve ser sua família. Enquanto todo o resto da sala nos dirige olhares frios e carregados de desprezo, os três são os únicos que nos olham com expectativa.

— Senhorita Davies — uma voz masculina me tira dos meus pensamentos e eu me viro, dando de cara com o promotor arrogante. — Acho que ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecermos.

Dou um sorriso falso, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

— É um prazer, senhor Jenkins.

— É todo meu... a maçã não caiu tão longe da árvore, não é? — diz, passando as mãos pelo terno cinza. — Bom, eu deveria ir agora. Manda um abraço para o seu pai em meu nome.

— Claro.

Ele se afasta depois de me encarar de cima à baixo, com um sorriso frio que não chega aos olhos negros e meio enrugados. Apesar do desconforto, tento ignorar isso e me concentrar  no julgamento que está quase começando.

Logan é trazido para a sala - usando terno e gravatas dessa vez, e não o macacão alaranjado de sempre. Ele se senta do outro lado da mesa, próximo de Priya e dá um sorriso discreto para os familiares que estão atrás de nós. Em poucos minutos o juíz entra e determina que a promotoria é quem vai apresentar os argumentos primeiro.

Robert Jenkins anda de um lado para o outro como se fosse o dono da sala, cuspindo baboseiras sobre a origem de Logan, dizendo que a falta de dinheiro ao crescer o tornou um marginal e era uma questão de tempo até que ele quisesse se aproveitar de uma garota rica e indefesa. Como as pessoas conseguem comprar esse discurso? Priya encara o promotor com um olhar que eu definitivamente não quero ser vítima. Nunca. Parece que ela está prestes a pular na garganta dele aqui mesmo.

Observo Logan pelo canto dos olhos e vejo seu maxilar trincado, além das mãos enlaçadas com mais força do que deveria. Se sentar aqui e ouvir um homem desconhecido o julgando e falando toda essa barbaridade sobre sua família... a família que ele preza tanto. A única coisa que ele tem em sua vida. Essa é com certeza a pior sensação.

— Além disso — Robert diz, caminhando até a frente da nossa mesa. — Até mesmo defesa de Logan Mason é formada por pequenos criminosos... o que mostra a propensão da advogada à simpatizar com infratores da lei.

— Objeção, Meritíssimo. Acusação sem fundamento e completamente fora do contexto — Priya diz em uma voz firme, se levantando.

— Aceita — o juíz bate o martelo e se inclina na mesa, nos olhando por cima dos óculos. — Qual o seu ponto, senhor Jenkins?

— O meu ponto, meritíssimo, é que a própria senhorita Davies aqui teve uma passagem pela polícia há alguns anos... por tentativa de agressão fisica e destruição de propriedade privada. Como o júri pode levar a sério uma defesa formada por alguém que quebrou a lei?

Uma série de sussurros percorre a sala - sobretudo no meio do júri. Eles me encaram desconfiados e cochicham entre si.

Arregalo os olhos, perplexa. O sorriso fino de Robert faz com que eu sinta uma onda de raiva percorrendo todo meu corpo. Esse maldito filho de uma puta. Isso não tem absolutamente nada a ver com Mason, mas ele mencionou porque sabe que vai gerar dúvidas e tirar nossa credibilidade. Eu tinha dezoito anos e passei uma única noite na cadeia depois de quebrar o carro do meu ex com uma barra de metal...

Isso é insignificante comparado com a acusação de homicídio que estamos enfrentando aqui.

— Objeção! — dessa vez Priya está quase gritando. — O promotor está atacando a defesa com uma informação completamente irrelevante para o caso!

— Aceita — o juíz diz, claramente irritado. — O júri deve desconsiderar qualquer informação não relacionada ao caso e, promotor, atenha suas falas ao réu.

— É claro, Meritíssimo — o tom falso de culpa em sua voz me causa repulsa. — Erro meu. Não vai acontecer outra vez.

Robert volta para sua mesa e Priya fica de pé, contornando a sala até ficar de frente para o júri.

No dia do seu aniversário, Logan Mason saiu mais cedo da venda onde trabalhava, passou em casa e se despediu dos pais, que passaram o dia todo cuidando do seu restaurante, antes de ir para sua festa. Era a única folga dele durante toda a semana. Ao contrário do que a promotoria quer fazer com que todos acreditem, esse rapaz não foi criado em meio à marginalidade. Seus pais são pessoas honestas e, realmente, não são as mais ricas que os senhores já viram, mas têm mais a oferecer do que a maioria de nós aqui nessa sala. Em algumas horas, receberam a notícia de que seu filho estava sendo apreendido por assassinato e na época não puderam pagar um bom advogado.

"Como resultado, meu cliente foi vítima de um sistema que pouco se importa com pessoas como ele. Pra que se esforçar tanto em um caso onde já se tem um réu perfeito? Negro, sem educação de qualidade, vindo de um bairro pobre e violento. Logan Mason já estava condenado antes mesmo do seu julgamento começar. Pela mídia. Por todos nós, que enxergamos nele somente o que queríamos ver. Ele não tinha nenhuma chance.

Por isso a promotoria antiga pegou o caminho mais fácil, ocultando evidências que comprovariam sua inocência e poupariam os quatorze anos que Logan passou em uma cela."

Me levanto e a entrego o exame toxicológico.

— Isso é um exame de sangue feito em meu cliente na mesma noite. Há resquícios de escopolamina, cetamina, flunitrazepam e outras substâncias comumente utilizadas ao aplicar o golpe do Boa noite, Cinderela.

— Objeção! — Robert grita, batendo as duas mãos em sua mesa. — A evidência não está listada, Vossa Excelência! Com certeza não foi obtida legalmente!

Priya entrega o papel ao juíz e ele se demora um pouco, analisando. Vejo quando seu olhar para em Mason e nos seus pais atrás - ainda escuto sua mãe fungando baixinho, em um choro desesperado. Finalmente, diz:

— Vou permitir.

Priya finaliza sua defesa e a audiência é pausada até a deliberação do júri. Nós saímos da sala, nos sentando no corredor. Logan fica com sua família, abraçando a mãe durante todo o tempo. Todos exibem o mesmo sorriso caloroso e contagiante que me faz sentir um aperto no peito. Eu espero realmente que a gente vença isso.

— Queria enfiar um taco com arame farpado no rabo daquele velho desgraçado... — Leah diz, tomando um gole de água.

— Shhh — Priya cutuca sua costela quando um grupo de pessoas com crachás da imprensa passam por nós.

— Me desculpa, eu não achei que isso viria a tona e... — começo.

— Sophie, não, por favor. Eu já sabia e te contratei mesmo assim. Não faz a menor diferença e a gente vai conseguir apesar disso... o Jenkins é que é um merda.

Sorrio, agradecendo-a com um olhar.

Somos chamados de volta para a sala depois de longos quarenta minutos. Quando uma das mulheres do júri anuncia que eles não chegaram a um veredito, ouço Logan e seus pais respirando aliviados - assim como nós três. Ele nos abraça antes de ser levado pelos guardas, que o algemam ao sair.

Ficamos com a família por um tempo antes de irmos embora - a mãe, Regina Mason, nos convida várias vezes para conhecermos o restaurante e diz que podemos sempre contar com sua comida de graça, como pagamento. Priya não está cobrando nada deles, então só estão tentando retribuir de alguma forma. Bom, é claro que eu vou. Não se recusa comida de graça assim.

— Bem jogado com essa coisa racial... imaginei algo assim vindo de você — Jenkins diz, parando em nossa frente.

— Não é um jogo quando se tratam de fatos, promotor — Priya responde, se afastando e deixando-o sozinho.

— Se você quiser enfiar um taco com arame farpado no rabo dele, pode contar comigo — digo para Leah quando entramos no elevador, depois de atravessar o mar de fotógrafos que se juntaram na saída.



 

POV Castiel

— E então? — pergunto para Mike, enquanto ele anda pelo estúdio inteiro, boquiaberto, passando as mãos pelos aparelhos de gravação em cima da mesa de madeira que pega a parede inteira.

— Ficou muito foda... puta merda, parece que é até melhor que nosso estúdio. Ainda não sei como você conseguiu esconder isso tudo da Sophie.

— Acho que ela vai me matar quando souber...

Há alguns meses, depois de não ter ideia do que fazer com todo o dinheiro que estava ganhando, comprei uma casa enorme e afastada da cidade. É irritante sair do apartamento todo dia e dar de cara com um fotógrafo nos pegando de surpresa - um site de fofocas fez questão de colocar uma foto da Soph em que ela está com os olhos arregalados e no meio de uma mordida num donut gigante. Apesar de eu ter achado hilário, ela não gostou muito da ideia de ter a foto impressa e pendurada na parede da sala.

Eu pretendia contar a Soph, mas decidi fazer uma surpresa depois que estivesse tudo pronto... o que significa que está quase na hora. O estúdio que mandei fazer no porão está completo, todos os cômodos já foram pintados, os pisos trocados e a piscina no lado de fora foi reformada.

Só assim, com tudo limpo e novo, consigo perceber que talvez eu tenha exagerado. O lugar é muito grande. Acho que só a cozinha já é do tamanho do nosso apartamento. E a televisão da sala que é praticamente uma tela de cinema não é nada sutil...

— O que você planeja fazer com quatro quartos? — Mike diz, acendendo um cigarro preso nos lábios.

— Não tenho ideia...

É. Realmente. Posso ter exagerado um pouco.

— Vocês podem transformar um quarto em algo inspirado naquele filme do Christian Grey... sabe, o cara sadomasoquista — franzo o cenho, segurando a risada e Mike rola os olhos. — Assisti com o Alexy outro dia.

— De que tipo de quarto estamos falando aqui?

— Lembra do clube de BDSM que eu te convenci a ir comigo quando eu ficava com a garota que me amarrava na cama?

A Harper. Impossível me esquecer dela. Depois de um show que a gente fez, entrei no camarim e dei de cara com a garota ajoelhada no chão, amordaçada e usando uma coleira, esperando por Mike - que já tinha voltado para o hotel, então acabei tendo que dar uma carona para Harper em um silêncio constrangedor.

— Sei... isso seria interessante.

— Aposto que a Sophie ia gostar. Depois das coisas que o Alexy me contou que ela fez com aquele Nathanael...

Nathaniel — corrijo-o, entredentes. — Espera, o quê? Nem eu sei as coisas que ela fez com ele.

Porque eu não quis saber, na verdade. Me recuso a ter essa imagem mental em meu cérebro pra sempre.

— É bem quente, cara... — ele ladeia um sorriso, pensativo. — Acho que a palavra "frio" se encaixa melhor...

Argh, cala a boca. Não quero vomitar.

Dá de ombros, subindo as escadas do porão até a cozinha.

Saímos juntos e eu paro na frente do portão gigante de metal, olhando para a casa de longe. A sacada do andar de cima é inteira de vidro e as paredes num tom de cinza claro - que eu mesmo escolhi. Daqui é possível enxergar a piscina, rodeada por luzes brancas saindo da grama ao redor.

 

Volto para o apartamento quando já é noite - foi praticamente uma viagem da casa até aqui. Meu humor está melhor do que o normal, já que os remédio que o médico prescreveu melhoraram bastante minha dor de cabeça. Vou conseguir fazer os últimos shows numa boa se continuar assim. Apesar do tesão acumulado, mas estou tentando lidar com isso.

— Cass! Você voltou! — Sophie se materializa em minha frente antes mesmo de eu fechar a porta, exibindo um sorriso exagerado.

— Sophie... — digo lentamente, desconfiado.

Tento dar um passo à frente, mas ela me segura. Seu olhar é o mesmo de quando estragou minha camiseta da coleção. Parece uma criança culpada, tentando esconder a arte, com seus olhos brilhosos e fodidamente hipnotizantes.

— Antes de você entrar, preciso te contar uma coisa. — Estreito os olhos, encarando-a. — Credo, não me olha assim, parece que vai me matar.

De repente uma música alta começa na sala - reconheço o show Iron Maiden que estava assistindo antes -, fazendo as paredes vibrarem e escuto um grito estridente. Sophie, engole em seco e eu empurro seu corpo para o lado, passando direto por ela.

Vejo Amélie pulando no sofá e balançando os cabelos sem parar, tocando uma guitarra imaginária, com os olhos fechados. Não consigo evitar o sorriso se formando em meus lábios, porque é como se eu estivesse me vendo quando era criança e pegava a vassoura de casa para fingir que estava tocando Kashmir, do Led Zeppelin, enquanto meus pais saíam.

Amy dá um pulo do sofá até o chão e se ajoelha, jogando o corpo para trás e dedilhando rapidamente o vento, até que a música termina e ela abre os olhos, ofegante. As covinhas em suas bochechas aparecem e seu rosto se ilumina ao me ver.

— É essa a coisa? — digo no ouvido de Sophie.

— Eu voltei! — a menina fala, empolgada.

— É, estou vendo — me aproximo e Amy pula em meus braços, me obrigando a pegá-la no colo.

— Uou... você é alto.

— Você que é pequena — digo, no meio do seu abraço.

Coloco-a no chão e ela volta para o sofá, assistindo atentamente ao show. Puxo Sophie até a cozinha e me encosto na pia, apoiando o corpo nos cotovelos enquanto espero uma explicação. Tento me manter sério, apesar da vontade de beijá-la. Seu rosto está vermelho e os cabelos meio bagunçados, além do sorriso travesso em seus lábios.

— Eu meio que... me precipitei. E tomei uma decisão um pouco desesperada — diz, mordendo o lábio. — Depois da audiência do Mason, fui com a Melissa até o abrigo e a gente esperava que ela conseguisse a custódia integral da Amy, mas acontece que ela teve três passagens pela polícia nos últimos cinco anos, então a coisa vai demorar mais do que a gente esperava.

— Ok... que tipo de passagem?

— Uma foi porque ela tentou fugir com a Mel, mas ainda era menor de idade. E as outras duas por roubo. Nada sério, só precisava de algumas coisas para a Amy e o padrasto tinha pego todo o dinheiro que ela guardou.

— E... — digo, limpando a garganta. — Qual foi a sua decisão precipitada?

— Eu me ofereci pra ser a guardiã provisória dela durante o processo...

— Oh, Sophie, você...

— Ela ia ser mandada para um orfanato, Cass! O prazo do abrigo era de um mês e terminaria na semana que vem.

— É de uma criança que a gente está falando.

— Eu sei... mas a Melissa vai estar sempre por perto e ela é praticamente uma mãe para a Amélie.

— Onde ela está agora?

— Em um hotel enquanto procura algum emprego e um lugar pra ficar. Tentei oferecer ajuda, mas ela não quis aceitar. Disse que já estou fazendo muito pela Amy.

Respiro fundo, assentindo.

Não é esse o problema, e sim que vamos passar todo esse tempo com Amélie e depois ela vai embora. Sophie não considerou que vamos nos apegar à garota e então deixá-la ir, vai ser muito mais difícil do que parece.

— Não está bravo? — sussurra, quando a puxo contra meu corpo, enlaçando meus dedos atrás das suas costas.

— Como se eu conseguisse ficar bravo com você... — digo, beijando sua testa demoradamente.

Ela sorri e ergue o rosto, procurando pelos meus lábios. Me abaixo um pouco e a beijo como estava com vontade de fazer o dia todo, sentindo seu gosto me invadindo, espalhando arrepios por todo meu corpo. Suas mãos percorrem minhas costas por baixo da camiseta enquanto meus dedos se perdem nos cabelos de Sophie, bagunçando-os um pouco mais. Nos afastamos devagar e ainda consigo perceber o sorriso em seus lábios.

— Está com fome? — pergunta, com a testa colada na minha. Eu assinto. — Bom, porque os pais do Mason disseram que a gente podia comer lá de graça pra sempre...

— Meu Deus, Sophie, eles acabaram de te conhecer e você se aproveitando da boa vontade...

— Ela ficou muito feliz quando apareci, não estou me aproveitando! E até me deu mais comida do que o necessário, então chamei o Alexy e o Mike pra virem aqui.

— Pelo menos eu não vou ter que cozinhar o tempo todo — digo, provocando-a.

— Como você se atreve, rockstar? Eu sempre cozinho.

— Oh, você se refere aos jantares queimados que sempre terminam em pizza?

— Uma vez isso aconteceu. Uma. Vez. — rola os olhos, antes de continuar em uma voz sussurrada: —  Porque, se eu me lembro bem, você me fez esquecer do fogo enquanto a gente transava aqui mesmo, nessa pia.

Somos interrompidos pela campainha e Sophie sai correndo para abrir a porta. Mike e Alexy aparecem e dão um abraço nela antes de entrar. Os dois ficam surpresos quando vêem Amélie no sofá - agora assistindo a algum desenho na televisão. Mas Alexy parece ainda pior, porque arregala os olhos e fica congelado, olhando para Sophie como se quisesse uma explicação. Mike apenas sorri e se aproxima de onde ela está sentada, com um olhar curioso.

— Oi — ele diz.

— Você tem uma cara esquisita...

Deixo escapar uma risada alta ao ver o rosto inconformado dele, que está acostumado com elogios e coisas desse tipo, mas definitivamente não devia estar esperando por um "esquisito". Aperto os lábios quando ele me fuzila com o olhar.

— É uma cara normal.

— Não... — Amy inclina o rosto para o lado. — Seu nariz é engraçado.

— Sério? E o seu? Espera, deixa eu ver mais de perto — Mike se ajoelha na frente do sofá e faz aquele truque velho de roubar o nariz. Ela arregala os olhos e imediatamente leva as duas mãos para o rosto. — Hum... parece normal pra mim.

— Devolve! — diz, puxando o pulso dele.

— Tudo bem, tudo bem. Só se você me disser seu nome.

— Amélie.

— É um nome lindo, Amélie — o moreno dá um sorriso e toca o nariz dela. — Pronto, acho que isso é seu.

— Obrigada — Amy passa dos dedos pelo nariz e fica vesga, tentando enxergar.

— Sou Mike, esse é o Alexy.

Ela olha para Alexy e sorri, mas ele continua ali, parado, até Sophie dar uma cotovelada em suas costelas, obrigando-o a se aproximar.

— É uma criança, não uma bomba, Alex — ela diz.

— Hãã... oi — ele estende a mão para Amy, que ignora e se levanta para abraçá-lo. Ou melhor, abraçar suas pernas.

— Adorei seu cabelo. Uma vez o meu ficou rosa, mas saiu muito rápido porque não era tinta de verdade. Azul é bonito também... — ela diz, dando de ombros.

— Obrigado.

Eu achava que não levava jeito com crianças, mas Alexy me deu um pouco mais de esperança.


 

Terminamos de comer o exagero de coisas que Sophie trouxe e Mike vai com Amélie até o sofá da sala, deixando-a deslumbrada com truques de mágica que ele faz com moedas. Alexy, por outro lado, continua com a gente na mesa, como se Amy tivesse alguma doença contagiosa caso ele chegasse muito perto.

— Seja você mesmo, não precisa se esforçar tanto — Sophie diz, encorajando-o.

— É que eu não sei o que falar com elas... meus assuntos envolvem sexo, roupas e mais sexo — se explica, dando um gole em seu vinho. — Não consigo ser a porra da Mary Poppins como o Mike ali...

Rio, balançando a cabeça. Aproveito que Sophie está distraída e pego sua taça para um gole, mas ela se vira com uma cara furiosa e dá um tapa dolorido na minha mão.

— Só um gole, baby... não vou morrer por isso.

— Não — diz, pegando a taça de volta e tomando todo o conteúdo.

Rolo os olhos, me levantando - Amy passa correndo por mim e vai até a cozinha com Sophie e Alexy, falando sem parar. Ele parece estar tentando, porque começa a conversar com ela também.

— Vocês estão mesmo juntos? — pergunto a Mike, me sentando do seu lado.

— Acho que sim.

— Por acaso vocês já transaram? Apostei com a Sophie de que seria a sua bunda.

Ele finge uma expressão chocada e balança a cabeça negativamente.

— O que te dá o direito de apostar na minha bunda como se fosse um objeto qualquer... — ladeio um sorriso, arqueando as sobrancelhas. — Sim, nós já transamos, Castiel. E vou te deixar com essa dúvida por um tempo.

— Ah, qual é…

Mike ri e pega um cigarro no bolso interno da sua jaqueta, segurando nos lábios. Como se fosse uma entidade, Sophie surge do nada e tira da boca dele, encarando-o com raiva, dizendo bem baixo:

— Essa casa é uma zona livre de cigarros, bebidas e sexo. Respeita as regras, Ward.

— Com licença, vou fazer sexo, fumar e beber em algum outro lugar, me esqueci que estávamos em um convento — diz, se levantando.

— O que é sexo? — Amy pergunta, de pé em uma das cadeiras na cozinha. Mike arregala os olhos, provavelmente se lembrando da presença dela agora e Sophie dá um tapa em sua nuca.

— Essa é nossa deixa — Alexy diz, se levantando e puxando o outro pela mão. Os dois saem pela porta, nos deixando sozinhos com Amélie nos encarando com seus olhos gigantes e curiosos.

— Onde você ouviu isso? — Sophie diz, com a voz estridente que aparece sempre que está nervosa. — Ele disse reflexo...

— Foi mesmo?

— Claro... ouvi muito bem. Reflexo. — digo, com convicção.

— Oh... tudo bem — ela dá de ombros e pula da cadeira. — Estou com sono.

Sophie a leva para a cama enquanto coloco os pratos na lava-louças.

Quando volta, me conta como foi no tribunal hoje e, apesar de estar brava, vejo que ela ama o que faz. Seus olhos se iluminam de uma maneira única quando fala de algo que gosta, como se pudessem enxergar um mundo inteiro de uma forma que ninguém mais consegue. Às vezes - como agora - nem escuto o que ela está dizendo, apenas me perco em seus olhos.

— Você me ouviu?

— Claro, baby...




 

"Oh, your eyes, they sing a song to me

And I'd really really like to move to it

And I will open my heart

And I will, only for you."

Only for You - THE HEARTLESS BASTARDS



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