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História Getteway - Capítulo 3


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Notas do Autor


Não estou acostumada a escrever capítulos tão longos, mas aqui está hehe espero que gostem :)

Capítulo 3 - Sacrifício


Meus olhos se arregalam de imediato. Como ela conhece minha mãe? 

— Ela lhe conhece? — Jungkook pergunta e eu permaneço imóvel e sem dizer uma única palavra.

— Você voltou! — A garota abraça meu corpo e meus olhos observam seus cabelos ruivos.

A esta hora, todos da aldeia já estão fora de suas cabanas e olhando curiosos para nós.

— Gretel, afaste-se desta impostora! — Uma garota de cabelos castanhos e expressão ameaçadora surge por detrás de uma das cabanas, apontando um arco e flecha em minha direção.

— Charlotte! O que está fazendo? — A garotinha, de nome Gretel, põe-se imediatamente em minha frente. — Abaixe isso!

— Nem de longe essa garota é Mirana — Ela permanece com o arco apontado. — Vamos, saia da frente!

— Espere! — digo histérica e olho de relance para Jeon. — Eu não sou Mirana... e-ela é minha mãe.

Charlotte me encara com uma de suas sobrancelhas levemente arqueada e lentamente deixa de apontar a arma para mim. 

— Voltem ao que estavam fazendo! — A ouço gritar, referindo-se aos curiosos ao nosso redor, e aos poucos as pessoas foram entrando em suas cabanas.

Gretel parece desapontada, mas ainda possui um olhar curioso direcionado a mim.

— O que vossa alteza faz aqui a esta hora? — Ela se aproxima de nós e seu tom não é nem um pouco simpático. Charlotte não aparenta gostar muito de Jungkook e confesso ter medo de saber o porquê.

— Podemos passar a noite? — Jeon foge da pergunta e a garota volta sua atenção para mim, o ignorando completamente.

— Andou brincando com os porcos? — Refere-se ao meu vestido imundo e levo as mãos ao tecido um pouco envergonhada.

— Um pequeno acidente...

Ela suspira e olha momentaneamente para o céu estrelado. 

— Vamos, Charlotte! — implora Gretel. — Não podemos deixá-los dormir na floresta...

— Me sigam.

Eu e Jungkook trocamos um olhar cúmplice e seguimos Charlotte e Gretel até sua cabana.

— Aqui não chega nem aos pés do seu luxo, está livre para ir embora — ela se senta em uma cama improvisada com feno e tecidos, olhando para Jungkook.

— Sei que não gosta muito de mim, cara Charlotte — ele sorri minimamente e isso parece irritá-la. — Talvez saber que provoquei a ira de meu pai amenize um pouco seu ódio.

— Foi expulso? — Ela parece se divertir.

— Sou contra seu reinado... — Jeon desvia seu olhar para o chão. É estranho ouvir isso de um príncipe que irá herdar o trono. — Não demorou para que ele descobrisse sobre isso e tivemos uma discussão feia, então fugi. Os guardas me perseguiram até a Cachoeira Cintilante, onde a encontrei — Jeon direciona seu olhar para meu rosto —, estava pendurada, uma armadilha.

Neste momento, Charlotte tem, literalmente, um ataque de riso e só depois de alguns minutos pôde se recompor.

— Foi pega pela minha armadilha de caça? Isso é maravilhoso de se ouvir! — continua a rir e vai parando lentamente. — Bem, já sabe meu nome e... sabemos que realmente não é Mirana, apesar de se parecer incrivelmente com ela. Qual é o seu nome?

— Jane... Jane Miller — Jeon me olha e parece surpreso, não é de se admirar, já que desde a primeira vez que nos vimos nem ousou perguntar-me.

— Miller, é? — Charlotte sorri. — O que faz aqui? Pensei que pessoas de fora nunca mais poderiam vir a Getteway.

— De fora? Getteway? — Olho para ambos os dois e Jungkook umidece seus lábios com a língua.

— Ela não sabe onde está, creio que não saiba de nada também.

— Como veio parar aqui se não sabe absolutamente de nada? — Charlotte parece surpresa assim como Jungkook.

— E o que eu deveria saber? — Revezo o olhar entre os dois, nem percebi a ausência de Gretel. — Eu definitivamente não sei como estou aqui, nem sei se isso tudo é real...

— O que disse?! Em que mundo você vive, Miller? 

— No mundo real, é claro.

Ouço uma gargalhada vinda de Charlotte e Jungkook a acompanha, recebendo meu olhar nada agradável.

— Aonde pensa que está? Em um sonho? Isso tudo é real, Jane. 

— Então me mostre que realmente é real! — olho para Jungkook, as vezes que o olhei hoje são incontáveis. De repente, vem à minha mente o momento em que ele tocou minha mão para mostrar-me que era real e meu corpo se arrepia inevitavelmente. — Diga-me o que preciso saber! — falo rapidamente antes que mais pensamentos involuntários e confusos me possuam.

— Passará a noite aqui — um belo sorriso surge em seus lábios —, terá tempo de sobra amanhã para eu lhe contar tudo o que sei.

Antes que eu possa dizer algo, Charlotte se levanta e anda até a porta da pequena cabana.

— Arranjarei algo para vestir que não esteja coberto de lama! — ouço suas gargalhadas enquanto se retira.

Bufo e me sento em sua cama, Jungkook me acompanha sentando ao meu lado.

— Disse que sua história era longa... durou menos de 10 minutos — digo olhando para seu rosto.

— Fiz um breve resumo do que aconteceu, além do mais, contar perto de Charlotte foi melhor. 

— Vocês se conhecem?

— Mais ou menos. Nós nunca chegamos a nos falar. Eu sou conhecido como o filho do rei e ela por ser uma caçadora voraz e uma mulher bem intimidadora, apesar de os homens não a respeitarem de modo algum.

— Vou acabar militando se dizer mais alguma coisa... — murmuro mais para mim mesma do que para ele.

— Já disse que o modo como fala é peculiar? — O vejo sorrir divertido.

— Só neste mundo, meu amigo! 

Rimos por alguns segundos e nos encaramos. A minha "irritação" por Jungkook diminuiu um pouco neste tempo, mas creio que vai me irritar bastante até não nos vermos mais.

— Por que pareceu tão surpreso quando disse meu nome? — solto, enfim, a pergunta que me deixou um pouco intrigada.

— Para falar a verdade... eu também pensei que fosse Mirana. — Nos olhamos e agora quem está surpresa sou eu. Afinal, por que todos aqui conhecem minha mãe? Ela queria que eu viesse para cá?! — Alguns caçadores a viram vagando pela floresta e imediatamente constataram que era Mirana. E durante a discussão que tive com meu pai, um dos guardas o alertou quanto a isso, eles iam te sequestrar, Jane. 

— O quê?! — Arregalo meus olhos. — Por que fariam isso?

— Jane... — Jungkook umidece seus lábios — você é igual a sua mãe?

— Como assim "igual"? — pergunto intrigada. Não parece que ele está se referindo à aparência.

Não importa... — balança a cabeça negativamente e evita me olhar.

Iria insistir, mas Charlotte entra na cabana junto de Gretel, que segura um vestido amarelo.

— Deve servir — ela me entrega o vestido que é um pouco mais longo que o meu azulado.

— Vou sair para que possa se trocar — Jungkook me olha momentaneamente e se retira.

— Estaremos do lado de fora se precisar de algo — Gretel diz de maneira simpática e acompanha Charlotte para fora.

Enquanto me visto, tento raciocinar sobre tudo o que aconteceu até agora. Desde que cheguei aqui, as coisas parecem cada vez mais confusas. Talvez eu esteja delirando e estou em um manicômio neste exato momento... porém, se tudo for real mesmo, preciso descobrir mais sobre o que minha mãe tem a ver. E um jeito de sair daqui. Talvez Jungkook saiba bastante coisa, ou até mesmo Charlotte... bom, o melhor é aguardar até amanhã para que ela possa me contar.

 

Saio de meus devaneios assim que paro para alisar o tecido amarelo em meu corpo. De fato, amarelo me cai bem tanto quanto o azul. 

Abro a porta da pequena cabana e busco pelo rosto de Jungkook, ele está sentado em um banco de madeira. Ando em sua direção e me sento ao seu lado.

— O que vai acontecer se seu pai te encontrar? — pergunto e sua reação me parece confusa.

— Na verdade, eu não parei para pensar nisso.

— Todos da aldeia já sabem que está aqui, e lhe conhecem muito bem, não demoraria para a notícia chegar até seu pai.

Jungkook parece surpreso com o que disse e acaba rindo brevemente.

— O que foi?

— Por que está preocupada quanto a isso? Deveria estar se preocupando com o fato de que ele possa te achar também.

— Não é como se estivesse preocupada com você, mal nos conhecemos — digo utilizando da minha indiferença acompanhada de um pigarro. — Bem, se ele me encontrar, sinceramente não sei o que farei. Aliás, desde que cheguei aqui não faço a mínima ideia do que fazer.

— Que bom que me encontrou, não acha? — Um sorriso cheio de si preenche seus lábios, o que me faz revirar os olhos.

— Não seja tão convencido, não estou a fim de elevar seu ego. 

— Você sempre tenta mostrar seu lado mais irritado, certo? — Ele provoca e eu dou de ombros. — Tudo bem. Acho que ainda tenho bastante tempo para amolecer seu coração.

Esse garoto é ridículo! Um completo Príncipe Encantado irritante. 

— Venham se juntar à fogueira! — Gretel se aproxima de nós sorridente, puxando-me pelo braço.

— O que é tudo isso? — pergunto sorrindo ao ver alguns homens tocando instrumentos musicais e as demais pessoas dançando alegremente.

— Fazemos toda noite! — Gretel me puxa para dançar, mas eu nego e me sento em volta da fogueira.

— Prefiro ficar aqui.

Gretel parece ficar triste por eu não tê-la acompanhado, mas dançar não é meu forte. Nem um pouco.

— Por que essa linda garotinha está triste? — Jungkook pergunta de um jeito divertido para Gretel e a puxa para dançar.

Os dois riem alto e dançam segurando as mãos um do outro. Jungkook me olha vez ou outra e isso me deixa incomodada de certo modo.

— Se junte a nós, Jane! — Gretel sorri e rodopia, fazendo seu vestidinho de tom verde rodar.

— Eu não danço... — balanço as mãos e sorrio sem graça. 

Vejo Jungkook arquear uma de suas sobrancelhas e um sorriso brota em seus lábios.

É incrível como sorri tanto...

— Não dança, é? Pois eu duvido — ele pega em minha mão e me faz levantar. Gretel pega em minha mão esquerda, enquanto Jeon segura a direita.

— Não acredito que estão me fazendo dançar com vocês dois! — Inclino a cabeça levemente para trás e solto uma gargalhada enquanto dançamos em roda.

 

— Vou acompanhar Charlotte! — A garota diz e corre em direção à outra, deixando eu e Jungkook com as mãos dadas.

— Você é tão ridículo! — Tento dizer de maneira rude, mas seu rosto faz com que meu tom de voz saia divertido e eu solto sua mão.

— Sei que gosta de mim, Jane — ele pega em minha mão e me conduz a dançar. 

— E o que te faz pensar isso? — Desisto de tentar fugir dele e apenas me entrego àquela dança engraçada e divertida.

— Seus olhos me convencem — Jungkook me puxa para perto e me olha profundamente.

Isso parece um filme, céus! O que estou fazendo o olhando de volta?

— Já disse o quanto me deixa irritada? 

— Não, mas você demonstra isso bem — ele sorri. As vezes que Jungkook sorriu para mim todo esse tempo são incontáveis e não posso negar que é um sorriso encantador.

Acabo me cansando de dançar e me sento no banco, tendo Jungkook a fazer o mesmo.

— Pensei ter dito que não dançava...

— E eu não danço... mas pareceu convidativo — digo e ele me encara com um sorriso coberto de malícia —, a d-dança! — corrijo quase imediatamente e aquele típico sorriso cheio de si aparece em seus lábios.

— Vou fingir que não sou eu — Jeon diz mais para me irritar, e sorri quando vê que conseguiu assim que reviro os olhos. — Mudando de assunto... você sabe se defender?

— O quê? — Sua pergunta foi de fato inesperada. Por que ele quer saber? — Sei chutar pênis, e meu soco dá pro gasto!

Ele ri escandalosamente e logo para, voltando para seu semblante um tanto sério.

— Falando sério, Jane... você sabe usar uma espada?

— Sinceramente, não sei usar nem uma faca.

Jungkook parece pensativo por um momento, mas logo volta sua atenção para mim.

— Quer que eu te ensine?

— O quê? Eu... não acho que preciso disso e...

— Jane, tem que saber se defender — disse me interrompendo. Acabo rindo.

— Está preocupado com a segurança de uma garota que conheceu há menos de um dia? Sério? 

— Você pode, por favor, parar de dizer que não nos conhecemos há tanto tempo? Eu sei que não tem motivo algum para confiar em mim, mas eu sei que meu pai é capaz de vir atrás de você, e precisará saber como se defender.

Fico em silêncio e tento não encará-lo. Isso é tudo muito... estranho demais, e... incrível demais.

— Tudo bem...

— Espere, o que disse? — Jungkook parece surpreso, acho que esperava que eu recusasse.

— Eu disse que tudo bem, pode me ensinar a lutar com facas maiores — o vejo rir, parece feliz por eu ter aceitado.

— Certo! Amanhã à tarde, bem antes do pôr do sol, iremos duelar.

— Espero que não me deixe vencer... gosto de lutas justas.

— Até parece... 

Dou um tapa de leve em seu ombro e rimos até Charlotte se aproximar de nós.

Queridos hóspedes — diz de maneira irônica —, já está tarde e amanhã acordaremos bem cedo. 

— Eu queria dançar mais um pouco... — Gretel diz depois de rodopiar no lugar.

— Poderá fazer isso amanhã — Charlotte sorri, mas é um sorriso triste, que Gretel parece não notar.

— Charlotte... — a chamo, pensando em perguntar se algo está lhe incomodando.

— Precisa de algo, Jane?

— Não... nada — desisto, afinal não é da minha conta. Ela parece ser uma pessoa que se irrita fácil, melhor não me intrometer.

— Vamos dormir — Charlotte dá de ombros e nós nos levantamos.

 

— O que iria dizer para Charlotte? — Jungkook pergunta assim que Charlotte e Gretel se afastam.

— Bem... — hesito por poucos e segundos. — Notou que ela está meio... triste? Ou... incomodada, talvez?

— Eu estava prestando atenção em outra coisa... — diz quase em um sussurro.

— Você é mesmo bem distraído — dou de ombros. — Achei melhor não perguntar, ela tem cara de quem me mataria se tentasse me intrometer. Ela apontou um arco e flecha para nós assim que chegamos!

Jungkook ri, um pouco baixo, enquanto balança a cabeça negativamente.

Assim que me deito em uma das camas improvisadas dentro da cabana de Charlotte, um arrepio percorre por todo o meu corpo. Eu com certeza terei pesadelos. 

Me remexo na cama. Definitivamente não quero incomodá-los com meus gritos escandalosos. 

— Jane... — ouço Jungkook sussurrar. — Está tudo bem?

— Sim... Estou bem. Melhor dormir, antes que Charlotte nos veja cochichando — digo e me viro de costas para ele.

Mesmo depois de lutar contra o sono, acabo adormecendo.

 

• • •        

 

Acordo quase que num pulo e olho para os lados, vendo que apenas eu estava na cabana.

Eu tive... uma boa noite de sono? 

Sorrio inevitavelmente. Como não tive aquele pesadelo que sempre vem me atormentar? Ao mesmo tempo que isso é bom, também é... assustador. Parece que não tenho pesadelos em Getteway. Esse lugar é estranho, melhor procurar Charlotte para tirar minhas dúvidas e descobrir o que "tenho que saber".

Me levanto e antes mesmo de sair da cabana, Charlotte entra segurando seu arco.

— Acho que temos uma conversa pendente, ou eu estou errada?

A acompanho para fora e a sigo enquanto anda em direção a floresta.

— Aonde estamos indo?

— Preciso caçar. Enquanto isso podemos conversar.

Concordo e, antes que pudéssemos deixar a aldeia, procuro pelo rosto de Jungkook. 

— Aonde está Jeon?

— Eu não sei, não o vejo desde cedo — ela dá de ombros e a preocupação me domina. Seu pai pode muito bem tê-lo encontrado ou ele até pode ter decidido ir embora. — Não se preocupe.

— Como?

— Não se preocupe com Jeon. Ele com certeza está bem, e se não estiver, saberemos mais cedo ou mais tarde.

— Se seu intuito foi me deixar aliviada, falhou miseravelmente.

Nós duas rimos e eu tento afastar os pensamentos cheios de preocupação sobre o que pode ter acontecido. Enquanto isso, entramos na mata e andamos cuidadosamente para não espantar animal algum.

— Charlotte, ontem à noite eu notei que estava um pouco triste e eu pensei em lhe perguntar se houve algo de errado, mas recuei porque...

— Estava com medo de eu lhe acertar uma flecha por estar se intrometendo? — Charlotte parece ter lido meus pensamentos e nisso eu apenas balanço a cabeça. — Ainda bem que não perguntou, estaríamos realizando seu funeral agora. 

Paro de andar sem nem mesmo perceber e ela me olha séria, gargalhando logo em seguida.

— Estou apenas brincando! Não achou que eu estava falando sério, achou?

— Um pouco, sim... — digo constrangida.

— Não sou tão... — faz uma careta — como pareço ser. Sou amigável, acredite.

— É como costumam dizer: as aparências enganam — ela sorri, mas é um sorriso meio triste igual ao que eu havia visto antes. — Já que não vai me matar... pode me dizer o que está havendo?

— Sabe, Jane... notou que todos parecem agitados hoje?

— Um pouco, por quê? 

— A verdade é que estamos todos com medo — Charlotte faz uma pausa e suspira. Eu não insisto para que continue, pois sei que o fará. — Amanhã é o dia do sacrifício.

— Sacrifício? — digo curiosa e com medo da resposta.

— É... — ela se abaixa, me mandando fazer o mesmo com um aceno, e aponta sua flecha para um cervo. — É o dia em que eles pegam pessoas consideradas bruxas, aberrações, e as queimam vivas em público.

Que horror! — digo horrorizada imaginando a cena.

— Tenho medo que levem Gretel — acerta o alvo.

Meu coração parece errar uma batida. Gretel? Por quê? Ela aparenta ser uma garotinha tão adorável, não parece ser uma bruxa ou algo do tipo.

— Por que levariam Gretel?

— A mãe dela era uma bruxa. Mesmo que Gretel não tenha conhecimento de feitiçarias e não saiba fazer nenhuma, tem sangue bruxo. Eles a matarão... e eu não posso fazer nada para impedir.

Estou boquiaberta. Charlotte se senta ao lado do corpo sem vida do cervo e se limita a chorar.

— Ela é como uma irmã para mim, Jane. Gretel não fez nada de errado!

— Vamos escondê-la! — digo sem nem mesmo raciocinar. — Não podemos deixar que a matem, é só uma criança.

— Não, não podemos. Se nos descobrirem estaremos mortas também. Ninguém ousa desafiar o rei.

— Nós...

— Pare! Eu a amo, mas também amo o restante da aldeia. Não podemos interferir ou matarão todos. Literalmente

Charlotte enxuga as próprias lágrimas e eu me sento ao seu lado.

— Jane — seu tom parece ser de quem pretende mudar de assunto desesperadamente —, estou bastante curiosa para saber como conseguiu chegar aqui.

— Bem... minha mãe me deu um livro, ela disse que o encontrou dentro de algumas caixas.

— Que desculpa mais mal elaborada para: abra o livro, é um portal para Getteway.

Suspiro e ela move as mãos indicando que eu deveria continuar.

— Eu fui para meu quarto e quando folheei o livro ele simplesmente fez aparecer um clarão de luz. Assim que abri minha porta e pisei para sair, eu fui caindo, e quando abri os olhos pude ver o céu, as nuvens e as árvores embaixo de mim. Até finalmente cair na Lagoa que brilha.

— Está falando da Cachoeira Cintilante?

— Esse lugar mesmo.

— Isso explica o vestido imundo — ela gargalha.

— Uma coisa que não entendi foi que o livro sumiu... então não consegui voltar. Até porque também caí do céu.

— Você está dentro do livro. Sua mãe colocou um portal nele, entre os dois mundos.

— Mas como posso retornar?!

— Há outro.

— Onde?! — Me levanto no mesmo momento, coberta de animação e alívio.

— Se eu fosse você não ficaria tão animada assim.

— E por quê?

— Antes que sua mãe pudesse partir, ela entregou o outro livro para a mãe de Gretel, seu dever era protegê-lo. Porém, os Jeon invadiram Getteway e tomaram o reinado. Sacrificaram todas as feiticeiras, bruxas... e ninguém sabe o lugar específico do castelo em que o livro está escondido.

Então há outro livro... o que significa que há uma forma de sair daqui. Contudo, terei que invadir o castelo e pegar o livro, só assim poderei voltar. Precisaria da ajuda de Jungkook para isso, mas não sei se ele arriscaria tanto.

Solto um suspiro e a vejo levantar.

— Melhor irmos antes que o sol se ponha.

 

Ajudo Charlotte a carregar o cervo e levá-lo até a aldeia. Assim que o deixamos, entro na cabana à procura de Jungkook

— Aonde estava mais cedo? — pergunto assim que o vejo sentado com sua espada no colo.

— Fui caminhar. Você parecia estar em um sono profundo, não quis te acordar.

— Não sei se te acho fofo ou estúpido — digo e Jeon dá um sorriso. 

— Talvez os dois — ele retira outra espada por detrás de si. — Consegui essa para você. O sol ainda não se pôs...

Trocamos um sorriso e caminhamos até a floresta.

— Os homens do seu pai não podem facilmente nos capturar aqui? — pergunto assim que chegamos à Cachoeira Cintilante.

— É só nos escondermos na caverna novamente! — Um sorriso malicioso e seus olhos encarando o caminho que corremos para fugir dos cavaleiros.

— Apenas me ensine como usar isto! — Balanço a espada que me deu no ar.

 

• • •      

 

— Acho que estou pegando o jeito! — digo animada depois de tanto cair e ter a maldita espada arrancada de minha mão pelos golpes dados por Jungkook.

— Aprendeu rápido, Jane. Estou gostando de ver! 

Nossas espadas se chocam fazendo o barulho ecoar por todo o local e nós dois rimos durante o duelo. Vou andando para trás e subindo em algumas pedras. Por estar cada vez mais perto da cachoeira, as pedras estão lisas, o que me faz escorregar e cair direto na lagoa.

O sol está quase por se pôr, então a água se encontra mais fria a essa hora. Imagens dos sonhos que tive vêm à minha mente, me deixando desesperada. Não consigo nadar, já que caí em uma parte mais funda. O medo está prestes a me corroer, até que sinto mãos puxarem meus cabelos, me levando para a superfície.

— Jane, fala comigo! Você está bem? — Jungkook pergunta enquanto me segura firmemente.

Frio... está frio, muito frio! 

Jungkook me ajuda a sair da água e nos sentamos no chão, de frente para a bela cachoeira.

— Por que não conseguiu nadar? 

— Estava com medo... — suspiro enquanto observo a água começar a brilhar em um lindo azul.

— Medo de quê? Da água?

— Do frio... Desde que eu era criança tive sonhos em que eu era congelada, talvez seja um trauma. Sempre que fico em contato com coisas extremamente geladas fico em pânico e não consigo fazer nada — Jeon me ouve com toda a atenção. — Hoje eu acordei e percebi que não tive o pesadelo. Deveria ter me sentido bem, mas foi meio assustador. Esse lugar não parece real.

Jungkook desvia o olhar do meu e parece pensativo.

— O que foi? 

— Chegou aqui pelo livro, não é? 

— Sim... todo mundo sabe do portal, certo?

— Jane, preciso que ouça e me responda com certeza — ele fala preocupado e eu apenas concordo. — Mais alguém entrou no livro?

— O quê? Não, só havia eu no quarto...

Ele fecha seus olhos por alguns segundos e suspira aliviado.

— Por quê? — pergunto preocupada. — Mais alguma coisa que eu deveria saber? Afinal, quanto mistérios há em Getteway?

— Não me entenda mal, mas prefiro não falar sobre isso — penso em insistir, mas balanço a cabeça.

 

Resolvemos voltar para a aldeia assim que escureceu e pensei em perguntar-lhe sobre o livro escondido no castelo, mas decidi que era melhor não dizer nada.

Dançamos em volta da fogueira assim como ontem, e pareceu mais uma despedida do que uma festa divertida.

 

Agora estou me deitando pensativa sobre tudo o que houve e tudo o que ouvi. É muita informação para engolir tudo de uma só vez, está sendo demais para mim. Talvez seria mais fácil se minha mãe tivesse me contado sobre tudo antes de me dar o maldito livro.

Mesmo pensamentos involuntários e desnecessários estando corroendo minha mente, adormeço sem nem mesmo perceber.

 

• • •       

 

 

Acordo no meio da noite com gritos do lado de fora da cabana. Olho para os lados e vejo que Charlotte, Gretel e Jungkook não estão aqui.

Me levanto devagar e trato de espiar pela fresta, tendo meus olhos arregalados.

— Por favor, eu lhe peço! Não a levem — Charlotte implora para um dos guardas enquanto o outro obriga Gretel a entrar na carruagem. 

— Sinto muito senhora, ordens do rei. 

— Por favor... — ela chora dolorosamente e quando tenta puxar Gretel, um dos homens lhe dá um tapa. 

No mesmo momento penso em sair, mas eles me levariam também e um possível plano seria arruinado.

Vejo os homens deixarem Charlotte no chão e conduzirem a carruagem para longe.

 

Iriam sacrificar Gretel.

 


Notas Finais


Bom, esse capítulo era pra ter saído na Quinta, mas a madame aqui estava atolada de coisas para fazer. Então saiu hoje mesmo... espero que tenham gostado :)

Críticas, xigamentos (com moderação) e surtos são muito bem-vindos :)


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