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História Gnossienne - Imagine Doyoung - Capítulo 6


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Capítulo 6 - VI - um acidente inesperado


Alguns dias haviam se passado desde a morte de Park Jisung. A trilha foi reaberta e pouco a pouco, o fluxo diário de estudantes pelo atalho foi retomado, ainda que contra as recomendações da polícia. O caso lentamente esfriava, sem que novas provas surgissem e sem que novas vítimas aparecessem: era como se o culpado houvesse simplesmente evaporado no ar, e tudo estivesse resolvido. A sensação de segurança novamente permeava o campus, mas, dessa vez, nem todos conseguiam se iludir com essa atmosfera artificial.

Era uma noite de sexta-feira, 31 de julho; metade do verão havia ido embora, escapando por entre os dedos como areia, da maneira inevitável que somente o tempo pode conseguir. Para muitos, a ameaça havia cedido lugar ao desejo de aproveitar ao máximo o mês de férias que ainda restava, e esse era o caso de um grupo de amigos, ou ao menos, de parte dele: havia sido uma noite agitada e regada a muitas garrafas de soju para Johnny, Taeyong, Yuta, Doyoung, Jaehyun e Mark, e os garotos retornavam ao campus pela fatídica montanha, rindo e conversando alto.

— Eu falei que você precisava relaxar, Doyoungie… Não deu tudo certo? Alguém mais morreu? — Johnny disse, despreocupadamente; era difícil perceber que ele não estava sóbrio, se não fosse pelo tom arrastado de suas palavras e a excessiva melosidade do apelido.

Mesmo um tanto mais calmo pelo álcool, ele ainda não deixava essa história passar. — Ninguém mais morreu ainda… Eu não confio que um assassino desses tenha simplesmente parado. Só se passou o quê, duas semanas? Ele pode estar esperando a gente baixar a guarda para voltar a atacar.

Mas nem todos gostavam desse assunto, como Jaehyun demonstrou, em sua típica atitude leviana e descansada. — Sabe o que eu acho? Que a gente devia ter bebido mais, assim eu não tinha que ficar pensando em assassinatos a essa hora da noite, e nessa trilha, justamente.

— É verdade. Por que você não chama sua parceira detetive para sair? Vocês dois têm muito em comum já, são completamente obcecados por essa porcaria. — Taeyong comentou em um tom bastante sarcástico, para provocar o amigo. Os momentos de trégua duravam pouco entre os dois, e a eterna disputa ao estilo Tom e Jerry fazia com que sempre rissem.

Não que o assunto estivesse longe de acabar, é claro, afinal Mark gostava de colocar lenha na fogueira, e se utilizou das palavras mais complicadas e rebuscadas da Psicologia para tentar soar confiável em sua “opinião”. — Sim, afinal, hyung, vocês compartilharam um laço traumático, e isso gera um insight que…

— Ah, cala a boca… — foi tudo que Doyoung resmungou, detestando aquele assunto e se sentindo um adolescente de novo, com toda aquela conversa sem sentido, e provocando mais uma onda de gargalhadas. Era óbvio que ninguém enxergava as coisas pela mesma perspectiva que ele, e jamais vivenciariam o mesmo laço, o elo que somente duas pessoas que enfrentaram o mesmo trauma juntas podem saber.

Quem caminhava na frente, sentindo facilidade em enfrentar a árdua subida pelo seu condicionamento físico acima da média, era o único japonês do grupo; Yuta gostava da tranquilidade, do silêncio e de estar na natureza, mas dessa vez, ele parou no meio do caminho subitamente, e se virou para trás. Seu rosto pareceu imediatamente ficar sóbrio, talvez pelo medo que fazia seu coração bater como se fosse um tambor. — Vocês ouviram isso?

— Isso o quê? — alguns dos garotos perguntaram, parando também. Depois que todos cessaram o assunto, havia apenas silêncio sepulcral na floresta, o tipo de silêncio que faz os pelos do seu corpo se arrepiarem por completo. Alguns deles sacaram os celulares, para ligarem as lanternas e iluminarem ao redor da trilha, mas a densa floresta que os cercava impedia que vissem muito além de onde estavam.

Doyoung aproveitou o momento e procurou por seu próprio celular, que nem sabia em que bolso estava, a essa altura. Era bastante tarde, próximo de duas da manhã, e ele não tinha reparado até o momento o quão sozinhos todos eles estavam: não havia viva alma na montanha, a cidade estava quieta ao longe, assim como a estrada que circundava a região; todos dormiam na tranquilidade de suas casas, exceto por eles. Esse pensamento o deixou inquieto.

Olhando as notificações do celular, eliminou as menos importantes, enquanto as filtrava: a maioria delas se tratava de conversas em grupo, as quais raramente se importava em ler, mas uma delas lhe chamou a atenção, porque vinha de Jiyoon. “Por favor, me avise quando estiver no dormitório. Estamos todos sem energia há horas, e parece que não consigo falar com ninguém”, era o que dizia o texto, acompanhado de um emoji com uma carinha triste, que imediatamente o fez sorrir. Era engraçado como ela usava emojis, porque não tinha exatamente esse hábito, era sério demais para isso.

Enquanto isso, Johnny e Yuta discutiam se havia mesmo um barulho, até que, perdendo a paciência, o mais velho de todos pediu que fizessem silêncio, bem a tempo para que pudessem ouvir um barulho que parecia não pertencer à cena: era um grito. Parecia vagamente humano e abafado, talvez a voz de uma mulher, se tivessem que chutar, mas não havia como ter certeza, porque estava longe; apenas haviam começado a subir a montanha, afinal. Mas não parecia coisa boa, de maneira alguma, porque o silêncio que se instaurou depois foi suficiente para deixar todos desconfortáveis, como se estivessem enfiando agulhas em sua pele.

— Ok, o que foi isso? — Taeyong indagou, em um sussurro aterrorizado.

— Provavelmente um animal qualquer. — Yuta tentou racionalizar a situação, mas não confiando completamente nessa explicação. Que tipo de animal fazia esse som, tão intrinsecamente humano? Mesmo assim, era melhor acreditar nisso do que na outra hipótese… — Vamos, é melhor irmos logo.

— O campus está sem energia, é melhor irmos logo… — o historiador concordou. Ninguém queria passar mais tempo do que necessário ali, então fizeram o óbvio e começaram a subir a trilha em um ritmo semelhante a uma corrida, quase, subitamente todos sóbrios.

Chegaram enfim à clareira da bifurcação. O poste solitário que ali habitava estava apagado, como haviam previsto, e foi preciso usarem uma única lanterna de um celular (mais discreto que todos ao mesmo tempo) para desviarem das mesas de piquenique. Não havia ninguém ali, ao contrário do que esperavam, mas também para o alívio do grupo. Significava que estavam seguros, ou assim imaginavam.

Johnny, um tanto desastrado, esbarrou em uma das mesas e prendeu sua calça em um pedaço de madeira solta, rasgando o jeans. Doyoung e Mark se voltaram para ajudá-lo, iluminando a perna do americano com a lanterna do mais novo, e descobriram uma mancha peculiar no jeans, avermelhada. — Acho que você se machucou… — o canadense disse, distraidamente.

Mas não era verdade, afinal, a madeira mal chegara a prender o tecido, quanto mais atingir a pele… Foi então que, ao iluminarem mais de perto, notaram que o sangue que estava ali não vinha de Johnny, e na verdade, era uma pequena poça, absorvida pela madeira quase que por completo, mas ainda sim úmida. Ele simplesmente aconteceu de esbarrar ali. O vívido carmesim e a umidade indicavam que ela não era tão antiga assim, o que foi suficiente para causar arrepios quando os três se entreolharam.

O americano finalmente se soltou, rasgando um pedaço do tecido, e Mark apagou a lanterna. Em silêncio, seguiram os outros e caminharam todos até a segurança dos dormitórios, imersos na negrura da noite iluminada pela fraca luz da lua, parcialmente encoberta. Nenhum dos três se atreveu a falar do sangue, e nenhum dos seis pensou novamente no grito que ouviram. Era um pacto silencioso que fizeram, uma promessa pela sanidade de todos: era melhor fingir que nada estava acontecendo; era apenas um animal noturno fazendo barulho, e o sangue de algum bêbado desastrado que esbarrou na tábua solta e se machucou.

Infelizmente, o destino tinha outros planos para destruir a complacência e quietude daquela noite de verão.


Notas Finais


Tem treta vindo aí? Óbvio, mas logo a gente descobre :v


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