História Gods and Monsters - Capítulo 6


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Categorias Percy Jackson & os Olimpianos
Personagens Atena, Poseidon
Tags Atena, Crime, Máfia, Percy Jackson, Poseidon, Poseitena, Tragedia, Universo Alternativo
Visualizações 52
Palavras 4.284
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ecchi, Ficção, Hentai, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Incesto, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi, queridos! Sei que demorei mais dessa vez, não era a intenção, mas só que tinha tantas ideias pra esse capítulo e não conseguia alinhar todas direito para escrever... até porque era pra acontecer mais coisa, mas vi que foi ficando compridinho, enfim, espero que compense a demora, de qualquer jeito.

Música do capítulo: The Darkness by Leonard Cohen (amo!)

Capítulo 6 - The Darkness


Fanfic / Fanfiction Gods and Monsters - Capítulo 6 - The Darkness

I’ve got no future, I know my days are few

The present is not that pleasant, just a lot of things to do

I thought the past would last me, but the darkness got there too

O homem despertara assustado com as batidas na porta. Poseidon caiu do sofá e tropeçou na mesinha de centro, praguejando e se perguntando que horas eram. O sol entrava impiedoso no apartamento e castigava seus olhos. Parado no corredor surgiu um homem alto e esguio, de cabelos cinzentos e olhos negros. Ele se vestia elegantemente, todo de preto, e possuía um semblante sério.

“Bom dia. O senhor deve ser Poseidon”, o homem lhe estendeu a mão, à qual Poseidon atendeu prontamente. “Eu me chamo Morfeu.”

Poseidon fechou os olhos, xingando em silêncio. Puta merda. Havia tido uma noite péssima e agora estava tudo atrasado. Hermes havia dito que mandaria alguém pela manhã e lá estava ele, apenas com a calça do pijama e a cara toda amassada.

“Claro, claro. Entre”, Poseidon lhe concedeu passagem. “Nos desculpe pela bagunça, tudo aconteceu muito rápido.”

Morfeu esboçou um pequeno sorriso.

“Não precisa se justificar para mim”, o homem agora exibia uma expressão mais calorosa. “Caso não se importe, mandarei minha equipe subir para preparar tudo e então estaremos prontos para partir.”

Poseidon passou a mão pelos cabelos. Enquanto estivera em Camberra, enfiado naquele apartamento, o tempo parecia não ter passado direito, mas agora a realidade voltava com força total e havia tanto no que pensar, planejar e fazer.  

“Certo. Espero que não se incomode se eu fizer um café e tomar um banho enquanto isso...”

Morfeu acenou com a cabeça e saiu pela porta, tomando o elevador novamente.

Poseidon suspirou e encontrou uma cafeteira elétrica, que colocou para funcionar imediatamente. Não sabia se deveria ir direto para o banheiro ou tentar falar com Athena. A garota ainda estava trancada no quarto de hóspedes, mas ele sabia que tinha avistado sua mala em algum outro lugar. Do modo como a conhecia, sabia que a loira já deveria estar acordada fazia tempo, mas não havia nenhum indício de sua presença e, além disso, a noite anterior abalara a ambos.

O homem deixou a mala que encontrara perto do banheiro na porta do quarto de hóspedes e deu duas batidas suaves.

“Athena, não sei se está me ouvindo, mas precisamos ir andando...”

Não houve resposta. Talvez, se se enfiasse no banho, a garota se sentisse mais à vontade para sair do quarto e engolir o café que estaria pronto em pouco tempo. O homem deu de ombros, um pouco preocupado, e decidiu tomar uma ducha rápida.

Athena havia dormido muito mal. Passou o resto da madrugada meio acordada, contando os minutos para o amanhecer. A cama parecia não ficar confortável em nenhuma posição e seu rosto estava inchado, deixando-a ainda mais irritada. Ouviu vozes na sala e imaginou que fosse alguém que Hermes mandara. Deveria estar na hora... mas a garota havia deixado sua mala, seu notebook, seu celular, todas as suas coisas no outro cômodo e não queria dar de cara logo de manhã com Poseidon e encontrar aquele verde-mar idiota.

Enrolou na cama, mesmo sendo contra a sua natureza ativa, e se assustou quando a voz do homem chegou abafada até ela. Alguns minutos depois, abriu a porta e quase tropeçou na própria mala, surpreendendo-se com a atitude de Poseidon. Provavelmente, queria dar uma de príncipe em armadura reluzente, como se nada de mais tivesse acontecido e ela estivesse fazendo tempestade em copo d’água. Argh!

Athena ficou presa entre suas opções: subir as escadas para utilizar o banheiro privado e dar de cara com o irmão, macabramente deixado onde estava, ou esperar para utilizar o banheiro comum e dar de cara com Poseidon. O cheiro gostoso de café já impregnava o ambiente e a impulsionava a deixar o cômodo, mas também não estava em boas condições psicológicas para encontrar pessoas estranhas preparando um cadáver logo cedo.

Quando percebeu que ele havia deixado o banheiro e se dirigido à cozinha, arrastou sua mala até lá e fechou a porta. O cheiro de seu perfume a atingiu em cheio, fazendo com que Athena revirasse os olhos e se lembrasse vagamente da noite anterior, da textura de sua pele e o cheiro gostoso que sentira ao passar o nariz por seu pescoço.

Poseidon havia colocado uma camisa polo azul e uma jaqueta preta por cima, calças jeans e coturnos. Sentia-se ligeiramente melhor com o banho e já havia deixado suas coisas ajeitadas. Tratava-se apenas de tomar uma xícara de café e escovar os dentes.

Estava debruçado no balcão quando ouviu a porta do banheiro se abrir. Automaticamente, virou o rosto para olhá-la e avaliar os estragos em silêncio. A garota estava de cabelos soltos, vestia regata azul-escura com renda no decote, calças jeans rasgadas e alpargatas cinzentas. Seu semblante era indecifrável, quase como se não ligasse. Lá estava, a Athena adulta e séria, que escolhia enterrar os sentimentos e colocava tudo acima de si mesma. Poseidon odiava como sua real personalidade ficava escondida do mundo.

Ela foi até a sala e guardou o notebook, pegou o celular e passou a checá-lo. Andou até a cozinha e colocou o cabelo todo de um lado só, deixando o pescoço alvo à mostra.

O silêncio era mortal e pesado. Athena havia pegado uma xícara de café grande e não desgrudava os olhos da tela, preocupada que houvesse deixado passar algo importante. Assim que se levantou, a equipe que trabalhava no andar de cima havia descido as escadas. Quatro homens carregavam uma maca branca, o saco mortuário fechado.

“Senhorita Athena”, um homem todo de preto se aproximou. “Acredito que não saiba quem eu sou, mas visitei a senhorita e a senhora sua mãe no hospital, assim que nasceu.”

O homem, que ela acreditava ser Morfeu em pessoa, sorriu-lhe e as rugas ao lado dos olhos ficaram mais aparentes.

“É claro. Meu pai estima muito o senhor”, Athena lhe deu um sorriso pequeno e acenou com a cabeça. “É uma pena que nos reencontremos em tão horríveis condições.”

“Sim. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer a Apolo, mas ele sempre fora um menino bondoso demais para esse mundo... disse a Zeus diversas vezes que talvez não fosse boa ideia trazê-lo para o meio disso.”

Morfeu estava visivelmente perturbado. Pelo que se lembrava, o homem não possuía mulher ou filhos e havia acolhido Apolo como seu próprio herdeiro. Talvez se sentisse culpado pelo que acontecera, talvez culpasse Zeus, Athena não poderia dizer. Mas acreditava plenamente nas palavras do homem. Apolo sempre tivera um coração exageradamente puro.

A garota suspirou e lágrimas lhe vieram aos olhos.

“Diante das circunstâncias...”, recomeçou Morfeu. “Bom, não sei o que Zeus pretende fazer em despedida, mas devo deixá-los informados sobre as condições atuais do corpo. A rigidez já começou a diminuir e também a aparecer secreções... o cheiro está mais forte. Vamos tentar mantê-lo refrigerado durante a viagem e o corpo deverá passar pelo legista quando chegarmos, mas não sei se será possível conservá-lo mais do que isso. De qualquer jeito, não cabe a mim decidir.”

Poseidon estava sério, mil possibilidades passando por sua mente. Que horas chegariam? Hermes já havia contado a Zeus e os outros? Em que pé estaria aquela casa quando voltassem? Eram tantas coisas a se pensar e um voo de mais de dez horas não ajudaria a acalmá-lo.

Athena tentava tratar todo o assunto com o maior profissionalismo possível, mas não conseguia não deixar transparecer sua dor e sua tristeza. Um baque assim para seu pai... ela não sabia o que poderia resultar daquilo tudo. Não tinha contato com Apolo fazia tempo e, a cada hora que passava, sua sensação de culpa aumentava. Deveria ter se preocupado mais, ter vindo mais cedo... se ao menos o pai tivesse externado suas angústias à ela alguns dias antes!

Morfeu e sua equipe entraram no elevador. Poseidon e Athena ainda ficaram parados por alguns minutos na porta do apartamento, numa tentativa falha de despedida. Athena conversaria com Morfeu e seu pai, para que fosse decidido o que fazer com todos os bens de Apolo e, principalmente, tudo o que havia de incriminatório. Provavelmente mandariam alguém limpar o local quando a poeira baixasse.

Athena suspirou. Muito acontecera em tão pouco tempo naquele lugar e algumas feridas demorariam a ser fechadas. Os dois entraram no elevador em seguida, cada qual imerso nos próprios pensamentos.

Não estavam preparados para o que aconteceu quando as portas deslizaram. Estavam tão abalados e distraídos que suas mentes demoraram a entender o que ocorria. Diversos flashes de luz piscaram e um burburinho incessante invadiu seus ouvidos.

“Lá se foi a discrição”, disse Poseidon, segurando Athena pelo braço num gesto protetor. Morfeu estava lá e parecia exaltado, tentando ajudá-los através da multidão.

“Não sei o que aconteceu. Éramos para passarmos despercebidos, mas claramente houve um vazamento de informações”, Morfeu os puxava com rapidez e empurrava algumas pessoas. “A imprensa não era para estar aqui! Nada disso foi acordado.”

Poseidon e Athena haviam ficado tão ocupados com seus próprios problemas, pensando na família, no que fariam em seguida, que se esqueceram totalmente do quão conhecido Apolo era. O garoto prodígio estampava as propagandas da área de saúde, publicava trabalhos regularmente, estava sempre na mídia ao lado de outros milionários, que participavam de eventos ao seu lado. A notícia de sua morte por overdose seria uma bomba naquela cidade.

Um dos repórteres, um cara que parecia mal ter completado vinte anos, conseguiu passar pelos seguranças, insuficientes por sinal, e começou a disparar perguntas para Athena, invadindo seu espaço pessoal. Como se já não bastasse a situação delicada pela qual passava, ainda teria de lidar com aquele ser desnecessário.

Poseidon ficou sobressaltado enquanto via o garoto passar de todos os limites, sem se importar. O homem o puxou de perto de Athena e o empurrou para trás.

“Qual o seu problema?”, Poseidon gritou.

A loira sempre fora boa em ludibriar as manchetes e virá-las a favor da família, sempre soube lidar com esse tipo de gentinha sanguessuga que tentava obter sucesso destruindo a vida das pessoas. Mas era seu irmão. Athena sentia sua mente se rebelar contra o corpo imóvel, paralisado pelo choque. Ver Poseidon tentar defendê-la a revoltou, mesmo sabendo em seu íntimo que deveria agradecê-lo.

Quando despertou de seu transe, os dois haviam entrado em uma discussão e o mais velho estava perdendo a cabeça, pronto para jogar o repórter através da parede de vidro, quando Athena deu um passo à frente e atingiu seu nariz com a parte interna da mão, logo depois o chutando no estômago para longe. Suas anotações se espalharam e todos a encararam estupefatos. A garota podia sentir a adrenalina correndo pelo seu corpo, fazendo-a ansiar por mais.

Poseidon a olhou de olhos arregalados, logo deixando transparecer um sorriso cúmplice. Enquanto a guiava pela cintura até a saída do edifício, encostou os lábios em sua orelha e sussurrou:

“Minha garota.”

Os pelos de sua nuca se arrepiaram ao sentir o hálito quente contra sua pele. Aquele era um de seus pontos mais sensíveis e Poseidon já havia demonstrado conhecê-lo bem demais naqueles dias.

O motorista de Morfeu os levou até o aeroporto em um Lincoln Continental 64, todo preto e reluzente. Ah, como Athena adorava aquele carro! O resto da equipe e o corpo de Apolo vieram atrás em uma van discreta. Todos pegariam uma saída lateral e privada do aeroporto até o jatinho particular de Morfeu, que os levaria com mais rapidez a Los Angeles. O homem havia molhado algumas mãos e cobrado alguns favores para que todos fizessem vista grossa quanto ao cadáver e à burocracia que demandava.

A viagem foi extremamente silenciosa. Todos estavam pensativos, exaustos física e mentalmente, ponderando sobre o futuro próximo.

Quando a aeronave pousou, o céu estava escuro e o local, silencioso. Deveria ser perto da meia noite e a maioria dos passageiros na ala de espera cochilavam. Athena deu um sorriso sincero quando avistou Hermes, que a abraçou demoradamente.

“Nem consigo imaginar como deve ter sido...”, disse ele, olhando-a com ternura. Ela passou a mão pelo rosto do irmão em um gesto carinhoso e protetor.

“Não se preocupe comigo. Como está o pai?”

A expressão de Hermes se fechou. Sua testa se enrugou em preocupação e ele balançou a cabeça.

“Eu não sei, Athena. Ele está fechado... mais do que o normal. Todo mundo está inquieto”, o garoto suspirou. “Na verdade, esperamos que ele fale com você.”

A garota assentiu em silêncio, enquanto Hermes cumprimentava Poseidon e Morfeu. Alguns homens que ela reconheceu como sendo empregados de Zeus se aproximaram e passaram a conversar baixo com a equipe de Morfeu. Seu irmão comunicou que Zeus havia dado ordens expressas para que o corpo fosse levado imediatamente até um médico amigo da família, que trataria de tudo. Enquanto isso, Athena iria com eles para a casa do pai. Não gostava muito da ideia de passar mais tempo perto de Poseidon ou de ficar longe de seu espaço pessoal, mas seria melhor a família se manter reunida.

“Todo e qualquer assunto que vocês gostariam de discutir com Zeus deverá ser tratado amanhã”, Hermes encontrou os olhos de Athena pelo espelho retrovisor. “Minha mãe o obrigou a tentar descansar e proibiu qualquer alma de se aproximar do quarto.”

Athena sorriu. Estava certa ao pensar que Hera cuidaria de seu pai, mesmo ele se opondo à sua mania protetora.

“Ah, e talvez gostem de saber que voltamos à mansão da família”, disse Hermes, logo voltando a prestar atenção ao trânsito e sorrindo.

A garota arqueou as sobrancelhas, surpresa, mas todos continuaram em silêncio. Não gostava mesmo que Zeus ficasse enfiado naquela casa caindo aos pedaços... Athena sabia que o pai a mantinha como esconderijo e entendia isso, mas havia algo mais. A casa, situada em uma parte afastada e que não chamava muito a atenção, havia sido onde ele e Métis se encontravam quando jovens. Depois de se casarem por impulso em uma viagem à Las Vegas, mantiveram o relacionamento em segredo por mais um tempo e Athena se lembrava de ter corrido por aquela casa muitas vezes antes de se mudarem definitivamente para a casa dos avós.

A mansão da família ficava em um bairro silencioso e não muito movimentado. Era uma construção imponente na cor creme e com detalhes de mármore, que remontava à Grécia Antiga. O pé direito era alto, havia várias colunas e escadas. Era rodeada por um jardim imenso, do qual Ártemis adorava cuidar e por onde passeava com seus vários animais de estimação.

O hall de entrada era enorme, bem iluminado e aconchegante. Athena simplesmente amava o contraste dos móveis brancos, das esculturas e dos lustres dourados. Lembrava-se de que, quando era pequena, acreditava ser uma princesa em seu castelo. Várias lembranças e uma onda de felicidade a invadiram, fazendo-a se esquecer da presença dos demais.

“Uau”, Poseidon suspirou, maravilhado. “Faz tantos anos que não venho aqui...”

A garota o encarou. Às vezes se esquecia que fora onde seu pai, seu tio Hades e Poseidon cresceram junto dos pais, Cronos e Reia.

O homem riu para si mesmo e a encarou de volta. Seus olhos verde-mar estavam claramente emocionados. Athena permitiu-se sorrir também.

“Bom, Athena e Poseidon, seus quartos estão como deixaram da última vez que estiveram aqui... e senhor Morfeu, deixe-me acompanhá-lo até um quarto de hóspedes que já deixamos pronto.”

Hermes e o homem mais velho subiram as escadas à direita e desapareceram. Athena sabia que também deveria ir para sua suíte e tomar um bom banho antes de cair na cama, mas a emoção de estar ali a impelia a sair pela casa, contemplando cada cantinho. Acreditava que Poseidon sentia o mesmo, senão até mais. Por alguns minutos havia se esquecido dos acontecimentos da noite anterior e de seus sentimentos confusos.

Poseidon deixou a mala e começou a caminhar lentamente pelo recinto, as mãos mexendo nos cabelos, a boca entreaberta. Ele deu uma volta completa e olhou para Athena novamente.

“Você vem?”

A garota estava com os braços cruzados, ainda perdida em pensamentos.

“Hum, acho que não... eu preciso tomar um banho. Algo me diz que amanhã será um longo dia.”

O homem colocou as mãos no bolso na calça e encolheu os ombros. Sentia-se culpado por estar tão animado diante da casa de sua infância enquanto a família passava por uma situação tão delicada. Ele assentiu e lhe desejou boa noite enquanto a garota começava a subir as escadas.

A manhã chegou silenciosa e pesada. O sol que sempre assolava as ruas de Los Angeles parecia não entender que aquele não era um dia para praia e sorrisos.

Athena acordou com algumas batidas na porta do quarto e uma voz feminina e abafada. Ao se sentar na cama, deu de cara com a irmã mais nova.

Ártemis tentava sustentar um pequeno sorriso, mas Athena podia ver seus olhos vermelhos e sem vida, as mãos nervosas, o cabelo meio desarrumado.

“O pai está convocando todos para o café...”, murmurou ela.

Athena franziu a testa e suspirou. Sabia que não podia fazer muito pela irmã, mas não podia simplesmente ignorar o seu estado. Apolo era seu irmão gêmeo e lhe fora tirado muito cedo e mandado para longe, mas eles possuíam uma conexão que Athena nunca entenderia. Por mais que Ártemis tivesse nascido primeiro, Apolo insistia em tratá-la como uma irmã mais nova feita de porcelana e adorava protegê-la de tudo e de todos.

A loira abriu os braços, indicando para que Ártemis se aproximasse. Aquilo foi a gota d’água. A mais nova correu para a cama e se afundou no colo de Athena, o corpo convulsionando com os soluços quase que imediatamente.

“Ah, querida...”

“Athena, como pode? Não é justo!”, a garota gritou. “Não faz sentido!”

As irmãs se abraçavam fortemente. Athena sabia que Ártemis não era ingênua. Seu coração era tão bom quanto o de Apolo, mas ela havia encontrado sua válvula de escape, enquanto o irmão havia se afundado cada vez mais. Era um preço a se pagar por pertencer àquela família.

“Eu sei, eu sei... mas agora temos de ser fortes, ok? Pelo papai”, Athena acariciava suas costas. “Não está sendo fácil para ninguém, meu amor.”

Ártemis a olhou, o rosto molhado e os olhos suplicantes.

“Promete que não vai mais para longe? Athena, você é a única irmã que tenho, a única que consegue me entender nessa casa...”

A loira suspirou e colocou os cabelos castanho-claros da irmã atrás das orelhas.

“Você sabe que se o pai me mandar a algum outro lugar... não posso negar, Ártemis. Ele não está em condições de sair daqui. E acredito que não confie em ninguém mais o suficiente.”

A mais nova abaixou o olhar. Havia se sentado direito e mexia as mãos em seu colo.

“Eu sei... é só que... tenho medo de você não voltar”, ela a olhou, tristonha.

A porta se abriu de repente, para revelar um Dionísio de boca aberta, a frase interrompida quando viu a situação.

“Desculpem. Não sabia que Ártemis já tinha vindo aqui... O pai está perguntando por você, Athena, e ele não está muito feliz.”

Ártemis suspirou e se levantou, limpando o rosto.

“Nós já estamos indo... Pode dizer a ele que a culpa foi minha, eu fiz Athena se atrasar.”

“Está tudo bem, Ártemis. Dionísio, apenas diga que estamos descendo, ok?”

A loira se levantou rapidamente e foi ao banheiro, tentar ficar um pouco apresentável. Colocou seu kimono de cetim dourado por cima do pijama e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo. Não adiantou muito, ainda estava com cara de quem não havia descansado nada.

A família estava reunida à mesa. Zeus sentava na ponta, tamborilando os dedos na madeira e com cara de poucos amigos. Morfeu se encontrava no lado oposto. Hera conversava baixinho com Poseidon, provavelmente sobre os últimos acontecimentos. Hermes e Dionísio estavam em silencio, um pouco inquietos. Anfitrite, como sempre, batia os saltos no chão em impaciência, chamando a atenção para si. Ares não estava em lugar algum. Nenhuma novidade até aí.

“Athena”, Zeus a avistou e se levantou rapidamente, sério. Ele abraçou a filha fortemente.

Ártemis já estava sentada em seu lugar de costume. Athena sorriu brevemente para o pai e se sentou ao seu lado, de frente para Hera, que lhe lançou um olhar terno e, ao mesmo tempo, triste. Athena mal podia mensurar a dor que a madrasta devia estar sentindo por perder alguém que ela mesma gerara dentro de si. Aquele não era o curso normal das coisas. Uma mãe nunca deveria viver o suficiente para assistir à morte de um filho. Athena estendeu o braço por cima da mesa e apertou sua mão suavemente.

“Acredito que não seja preciso enrolar muito sobre o assunto, já que todos estão cientes do trágico ocorrido”, Zeus engoliu em seco e fechou os olhos brevemente. “Eu e Morfeu tivemos uma longa conversa hoje mais cedo. Ao que tudo indica, Apolo foi tratado com prioridade e respeito, e agradeço muito por isso, e não há como nem porquê adiarmos mais sua despedida formal. Mais tarde, eu irei vê-lo e tratar dos últimos arranjos.”

Todos os presentes o encaravam com atenção, morbidamente silenciosos.

“Sei que esse não é um assunto para se discutir no café da manhã, mas espero que não se importem. Faremos uma recepção para a família e os mais chegados às 16 horas, aqui mesmo”, ele suspirou. “E isso é tudo.”

“Hum, pai...”, começou Hermes. “Ares não aparece em casa desde a noite retrasada... não devíamos tentar avisá-lo?”

“Ares não quer ser encontrado. Já tentamos seu celular várias vezes. Talvez seja melhor mesmo que não esteja aqui”, disse Dionísio, um pouco agressivo.

“Ele é irmão de Apolo tanto quanto você”, repreendeu Hera.

“Ares irá aparecer na hora que quiser aparecer. Até lá, não há nada que possamos fazer”, Zeus disse lenta e penetrantemente, encerrando a discussão.

Athena voltou ao quarto depois do longo café em família, para tomar um banho e desfazer as malas. Cansada de ficar sempre presa em algum lugar nos últimos dias, a garota pegou um livro e foi até o jardim, na parte de trás na casa, em um banco de madeira debaixo da árvore, de onde podia contemplar o amplo campo e a piscina convidativa.

Não sabia quanto tempo havia ficado ali, tentando se concentrar para ler, sempre sendo atraída para outra coisa, quando sentiu alguém se aproximar.

“Como você está?”

Aquela voz a deixou paralisada. Athena fechou os olhos com calma. Eles estavam em uma maldita mansão, com uns vários cômodos aleatórios, um jardim enorme, mas não, ele tinha de ficar na sua cola.

“Tentando não pensar muito na realidade”, respondeu ela, suspirando e se virando para encará-lo. Era estranho vê-lo de bermuda e camiseta, descalço, ali na sua casa, com a maior naturalidade.

Mas, pensando bem, ela já o havia visto totalmente nu e de posições que não valem a pena serem comentadas, então nada deveria lhe parecer estranho àquela altura.

Poseidon se sentou ao seu lado e esticou as pernas.

“Acho que todos estamos meio assim.”

Ele estava visivelmente perturbado e encarava o horizonte. Athena não se lembrava de tê-lo visto tão sincero e sem se esconder por trás das piadas.

“O que aconteceu?”, perguntou ela, um pouco preocupada. O homem deu de ombros e balançou a cabeça, o semblante demonstrando irritação.

“Anfitrite consegue ser bem impossível quando quer”, disse ele, simplesmente. Athena riu sem humor.

“Ninguém entende direito a relação de vocês”, a garota franziu o cenho e ele a encarou, curioso. “Digo, ela está sempre de mal humor e trata toda a família mal... mas ainda assim está grávida e aqui em casa.”

Poseidon demorou um tempo até falar novamente. Athena começou a achar que tinha ido longe demais, que deveria ter ficado quieta e fingido que não havia percebido nada, assim como todos faziam.

“Gostaria de poder dizer algo, mas, se quer saber, também não entendo...”, começou ele, voltando os olhos para o horizonte. “Me casei por insistência do meu pai. Para falar a verdade, nem sei como ela engravidou”, Poseidon a olhou rapidamente. “Eu quero filhos, claro, mas... nunca imaginei desse jeito, não com ela.”

A garota engoliu em seco, virando seu corpo totalmente de frente para o homem.

“Vocês não... quer dizer, você não...”

“A amo?”, ele a olhou tristemente. “Não, Athena. Eu não a amo. Em algum ponto do nosso relacionamento, cheguei a sentir algo por ela, mas nunca amor. E agora... não resta mais nada.”

Aquela conversa havia tomado um rumo totalmente diferente do que a garota esperava. Estava tudo ficando pessoal e íntimo demais.

Seus olhos pareciam ímãs, que não conseguiam se desgrudar. A intensidade do contato visual podia ser sentida de longe. Athena engoliu em seco mais uma vez enquanto aproximava seu rosto. Poseidon apoiou o braço no banco, como se a abraçasse. Ele a encarava profundamente, temeroso de fazer qualquer coisa que a assustasse para longe. Ela sentiu o calor de sua pele novamente quando estava com o nariz quase encostado no seu. A respiração de Poseidon estava presa no peito e a garganta, seca.

“Athena! Alguém está aqui para te ver e você nem imagina quem é!”, a voz de Dionísio chegou animada até eles, afastando-os rapidamente. O garoto parou de repente, mais uma vez sentindo como se tivesse interrompido algo.

“Já estou indo!”, gritou Athena de volta, o coração pulando de alegria ao pensar que veria sua prima novamente. Olhou para Poseidon, que apertou os lábios e voltou a olhar para frente, sentindo-se um pouco decepcionado, mas sabendo que havia perdido sua chance.

A garota voou para dentro da casa, esquecendo-se do livro, mas não do homem.


Notas Finais


Acho que o Dionísio é o irmão sobre o qual mais curto escrever hahaha


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