1. Spirit Fanfics >
  2. Gold Rush >
  3. Capítulo 3

História Gold Rush - Capítulo 3


Escrita por: CameliaBardon

Notas do Autor


oie! novo capítulo saindo quentinho do forno. espero que vocês gostem, tem alguns personagens novos e algumas novas pistas nessa reta da história.

Capítulo 3 - Capítulo 3


Fanfic / Fanfiction Gold Rush - Capítulo 3 - Capítulo 3

Claire esperou até que Meg entrasse e que as portas fechassem para relaxar os ombros. Apesar de zelar por sua segurança, não era onipresente. Muito menos onipotente. Claire poderia ser onipotente, mas escolhia não o ser. Não era nenhuma heroína e não pretendia o ser – heróis erravam, mas tinham a vantagem de terem uma oportunidade de redenção por serem consideradas boas pessoas pelo censo geral. E, francamente, Claire era muitas coisas. Boa, entretanto, não era um adjetivo cabível. Tinha deixado de ser boa há tempos.

Girando o volante, Claire fez o caminho até o supermercado. Com a ausência de idosas caçando promoções, a tarefa foi recheada da monotonia da rotina. Macarrão, molho, legumes, frutas, chocolate, comida congelada, absorventes e remédios em geral... Claire sentiu-se impelida a suspirar.

Meg tinha razão. Ela sentia vontade de ter uma vida social. Porém, essa vontade passava dentro de alguns instantes, quando ela recordava de que não tinha esse direito. Fora a vida que escolheu para si, não podia jogar tudo para o alto e refazer todas as suas decisões. Não podia... Não podia mudar o passado.

Passando as compras no caixa com um sorriso educado, Claire pagou-as e embalou-as com paciência. Enquanto colocava-as no banco traseiro do carro, ainda teve tempo de auxiliar uma mulher grávida a colocar as dela no carro, recebendo um sorriso radiante como agradecimento. Apesar de todo seu corpo implorar por descanso, Claire ainda tinha mais um trabalho previsto para cumprir no dia.

Claire dirigiu por seis milhas até que estacionasse nos arredores do Riverfront Park. Seus clientes insistiam para que fosse marcado encontro em locais pouco óbvios, apesar de Claire sempre deixar claro que seus tratos eram falados e que jamais sujava suas mãos. Endireitando a postura, ela atravessou o canal com passos firmes até sentar-se no banco que ficava bem no centro entre as duas metades da ponte.

Quando entravam em contato com ela, Claire se perguntava se imaginavam que ela fosse parruda, ameaçadora ou afim. Lá estava ela, trajada de preto e cinza, os olhos verde-oliva perscrutando a tudo e a todos, e ainda assim tinha a aparência inofensiva de quem estava ali apenas para alimentar os patinhos. Era mesmo uma boa ideia, Claire lamentou-se com um suspiro. Porém, antes que tivesse a oportunidade de sair em busca de ração, seu cliente chegou com ares de nervosismo.

Tratava-se de um homem entre 40 e 50 anos, carregado de melanina na pele e altura para dar e vender. Claire levantou-se por educação e por uma medida de demonstração de paz. Na mesma hora, ele relaxou os ombros e estendeu a mão.

— Você é a...?

— Sim, sou — Claire apertou a mão, indicando o banco. — Sente-se, por favor. E respire, temos tempo.

Ele assentiu com a cabeça e desmontou-se no banco. Claire atendia a todo tipo de pessoas, mas se compadecia das pessoas que tinham um problema aparente. Do tipo de problema que desgastava e corroía até mesmo as forças que moviam o coração e as pernas. O homem engoliu em seco e encarou a mulher.

— Como... Como isso funciona?

— Conte-me sua história — ela abriu um breve sorriso, cruzando as pernas. — O que sentir-se confortável. Assim que terminar, me dirá o que quer que eu faça por você e assim o farei se não entrar em conflito com meus princípios pessoais. Os quais são: não ir contra leis judiciais e não ir contra as leis da natureza. Discutiremos o pagamento após sua história, sim?

O homem parecia embasbacado, e Claire não o julgava. Não era fácil lidar com problemas. Ainda mais com problemas o qual o levavam ao limite. Seres humanos são criaturas muitíssimo curiosas, Claire ponderou.

— Eu me chamo Lamar, e minha esposa chama-se Phoenix... Como... Como aquela ave que nasce das cinzas — então ele riu fraco, um grunhido gutural de sua voz profunda. Claire sentiu-se impelida a sorrir com o comentário. — Eu... Ah, eu a amo demais... Ela é a melhor coisa que já me aconteceu na vida. Sei que não a mereço, mas... Tento fazer por merecer todos os dias.

Claire observou-o retirar um maço de cigarros, retirar um com a ponta dos dedos e um isqueiro. Pacientemente, esperou até que ele acendesse e tragasse – os gestos eram nervosos e compulsivos. Para ajudá-lo a desenvolver a narrativa, indagou:

— Por que o senhor acha isso? Que não a merece?

— Ah, minha filha... Eu já fiz tanta ruindade na vida. Nos anos 90 eu era contrabandista. Até hoje não superei o vício... Eu estou aqui só com nicotina por respeito a você, mas em casa é uma coisa horrível. Eu escondo tudo da Phoenix... Mas tá começando a ficar difícil, me entende? Eu tenho medo de voltar a ficar violento, de... De fazer coisas que eu me arrependa. Ela sabe do que eu já passei. Claro que sabe, conheci a mulher logo nesse tempo. Mas ainda assim...

— O senhor tem medo de ter uma recaída e perder a única coisa boa da sua vida — ela completou com um olhar de compreensão. Com mais uma tragada, Lamar assentiu com a cabeça. — E o senhor quer que eu faça o quê, exatamente?

— Eu quero que... Deixe-me completamente sóbrio. Incluindo essa porcaria aqui. Não quero que a Nixxie se enfeze comigo e nem nada do tipo.

Claire assentiu com a cabeça.

— Não quer que ela te deixe — ela corrigiu, com suavidade.

— Não. Não quero. E não faço ideia de por onde começar... Eu... Quanto isso vai custar?

Ela deu de ombros, voltando-se para olhar para o homem. Com um olhar atento, Claire perscrutou cada linha de expressão de Lamar, lendo sua alma através de seus olhos. O contato físico foi desconfortável ao ponto dele desviar o olhar, porém Claire interpretou o gesto de maneira positiva.

— O que pretender pagar. O que sugiro é... — adiantando-se para frente, ela sussurrou o valor do trato perto do ouvido dele. Com suavidade, Claire se afastou e voltou a olhá-lo. — Pode pagar por isso, senhor?

Ele ergueu as sobrancelhas, indignado.

— Mas isso é um absurdo!

— Olhe, o senhor veio me procurar. Certo? Além disso, o senhor quer uma resposta imediata. O tanto de dinheiro que o senhor gastaria com tratamentos de saúde e de tratamentos posteriores daria o dobro disso. O convênio do senhor cobre o dobro do que estou oferecendo?

Lamar vacilou, apenas para negar com a cabeça depois.

— E não concorda que, se procurar tratamentos num hospital, sua esposa não terá ciência disso? Nesse tipo de tratamentos, podem estar inclusas internações em clínicas. Sabe como isso funciona? Colhem assinaturas de seus parentes mais próximos, autorizando as medicações e tratamentos. É isso que quer? Que sua esposa saiba que o senhor não abandonou as drogas mesmo tendo se passado quase 30 anos desde que a conheceu?

Apesar da pele escura, Claire viu que o homem teve a decência de corar. Murmurando qualquer coisa que passou despercebida por ela, Lamar respirou fundo e estreitou os olhos.

— Você tem tudo na ponta da língua, não é, garotinha? Como quiser, mas eu vou ter que parcelar.

— Não vai ter por que. Eu não existo, e o senhor não vai precisar desembolsar nada. Só preciso que confirme que estamos entendidos.

Dito isso, Claire ofereceu sua mão. Com firmeza, Lamar apertou-a, ainda que um pouco desconfiado. Afinal, a parte do pagamento ainda lhe era uma incógnita. Por esse motivo, Claire apressou-se em atalhar:

— Eu prometo que você vai encontrar a quantia que eu lhe disse no seu bolso interno da blusa. E eu prometo que você estará sóbrio até o final do dia.

Lamar estremeceu. Tudo parecia extremamente místico e duvidoso; porém, como todo humano desesperado, logo após ela falar o homem começou a tatear os bolsos em desespero. Era muito dinheiro. Claire compreendia. Quando sentiu o volume das notas, ele arregalou os olhos.

— Deus do céu... Isso só pode ser bruxaria — Lamar sussurrou, retirando um bolo de notas do bolso. — Como você...?

— Um mágico nunca revela seus truques, senhor — Claire sorriu divertida. — Tenho certeza que suas fontes confirmaram de que faço meu trabalho.

Lamar assentiu com a cabeça, ainda assombrado demais para poder reagir de qualquer outro modo que não fosse ficar embasbacado com as ações dela. Conforme retirava as notas do bolso e as deixava na mão da garota, a uma altura ela o interrompeu.

— Esse tanto fica comigo. O resto fica com o senhor.

— Por quê? — seu protesto foi um balbucio.

— Para o senhor refazer a vida, longe dos seus vícios — Claire deu de ombros. — Imagino que, durante a vida, esse tenha sido o valor aproximado que gastou com suas... Drogas e afins. Então, estou devolvendo-o essa parte de sua vida. Faz algum sentido?

Lamar alternou olhar para ela e as notas. Era muito dinheiro, Claire o compreendia. De graça, ainda?

— Deus a abençoe, minha menina — com as mãos trêmulas, Lamar agitou as mãos de Claire com um sorriso emocionado. Era um tanto desconcertante ver um homem daquele tamanho tão tocado, porém era m sinal de que seu amor era verdadeiro. Não havia como determinar a sinceridade de corações, porém Claire já tinha seu pagamento e a vida dos outros não era de sua conta. Fazia bem mais o tipo de Meg o tratamento pós-ajuda. — Eu... Nem sei como agradecer.

— Viva uma vida melhor. É o melhor que pode fazer. Leve a sua mulher para sair hoje, que tal?

Ele assentiu, levantando desajeitadamente do banco. Ao acenar com a cabeça, Claire retribuiu o cumprimento com um aceno de mão. Motivada pela exaustão de seu corpo, Claire retornou para o carro para dirigir de volta para casa. Resolvendo abandonar a rotina de guardar as comprar ao chegar, Claire rendeu-se ao sofá da sala. Tinha de acordar às 15h, mas seu despertador faria o trabalho de lembrá-la deste detalhe mais tarde.

•·················•·················•

Meg sentou-se no meio do anfiteatro. O movimento, apesar de informal, fora primorosamente calculado. Se optasse por sentar-se nos fundos, seria tachada como inconsequente ou desinteressada. Para ambos os casos, a resposta era negativa. Já o contrário, se se acomodasse na frente, seria a estudiosa e certinha – o que não era exatamente uma mentira, porém ninguém precisava tirar essa conclusão logo de cara. Meg agiu com naturalidade, sorrindo de maneira simpática para um estudante que cruzou o olhar com ela. Aparentando não ser uma pessoa matinal, ele virou o rosto para o próprio material com antipatia. Meg deu de ombros.

Não havia nada que a empolgasse mais do que estudar. Desde os treze anos Meg resolvera o que queria fazer pela vida: Medicina. A ideia de ajudar pessoas e curá-las com a escolha certa de tratamentos, ser útil, era o que mais lhe encantava. Não pretendia ficar com o salário integralmente – já tinha dinheiro de sobra –, mas usá-lo para doar para quem não podia pagar por despesas médicas. Era seu modo de mudar o mundo. Quando contara o plano à mãe, ela apenas sorrira como se isso fosse impossível. Porém, quando Claire chegou a sua vida – aos quinze anos –, ela não só achara a ideia magnífica como se prontificou a ajudá-la em tudo que lhe estivesse ao alcance.

Meg suspirou, recolhendo o material da bolsa com desânimo. A primeira aula do dia seria Fisiologia Humana e, por mais que Meg amasse o curso, lhe exigia forças para dizer que amava Fisiologia Humana. Talvez fosse um golpe de mestre iniciar com as piores aulas para depois presentear os alunos com as matérias preferidas...

— Ei, você é nova por aqui? — uma voz pouco familiar lhe subiu aos ouvidos, fazendo com que ela levantasse os olhos para encarar a nova figura. Tratava-se de alguém que Meg nunca havia visto, mas que a aparência fizesse com que ela desejasse o contrário. O homem – e que homem – tinha cabelos bem pretos e encaracolados que estavam precisando de um corte, sobrancelhas bem cheias e com uma leve falha do lado direito. E os olhos... Ah, céus, pareciam-se com as águas de um mar límpido. O barco de Meg estava prestes a afundar. Mais uma fala dele e então Meg pularia sem questionar. — Oi? Desculpe, assustei você?

— Hein? — vergonhosamente, o tom de voz de Meg subiu alguns decibéis. Se o homem se incomodou com isso, não demonstrou através da postura. — Eu! Não!

— Não é nova aqui ou... Eu não assustei você?

Meg gargalhou um tanto para dentro, pega desprevenida. Agora era certeza que a primeira impressão que teriam dela para aquele ano seria “riso frouxo”. Nada mal, ela refletiu.

— Para ambos! Não me assustei, eu só estava com o foco em outra coisa. E não sou nova aqui, eu só pintei o cabelo de outra cor... Deve ter me visto por aqui com o cabelo rosa.

Um lampejo de compreensão passou pelos olhos azuis. Daí foi a vez dele gargalhar para dentro.

— Bem que cachos rosa não passam despercebidos! Você tem toda razão. Mas essa cor ficou maneira também. É cinza ou azul gelo?

— Olha, na caixa da tinta dizia “azul porcelana”, mas acho que estamos falando a mesma língua — ela riu, oferecendo a mão para que ele a apertasse. — Meg. Para você não ter que me chamar pela cor do cabelo.

Ele riu e sentou-se ao seu lado na cadeira. Com uma mão firme, retribuiu o aperto de mão. Muito civilizado, Meg decidiu. Não era uma característica ruim, portanto Meg expressou sua melhor cara blasé com a série de movimentos. Não estrague tudo, é um amigo em potencial.

— Nicholas. Mas meus amigos me chamam de Nick. Quer dizer, eles chamariam se existissem.

— Ah, pobrezinho. Só conseguiu pensar na novata para se aproximar?

— Me pegou — ele ergueu as mãos em defensiva. — Agora piorou, porque não somos novatos. Estou em desvantagem com esse erro.

— Imagine! Eu também já deveria ter te visto por aqui, mas estou perdida. Teoricamente, estamos empatados nos vexames.

— Sinto muito, mas não estou nem um pouco ansioso para desempatar!

Ambos gargalharam, porém o momento de descontração foi logo substituído pela entrada do docente no anfiteatro. Os alunos restantes encolheram-se nas cadeiras do anfiteatro, num misto de respeito e sono. Entretanto, foi com bom-humor que o professor cumprimentou-os ao ligar o projetor multimídia.

— Nossa! Se soubesse que vocês estariam nesse humor em pleno primeiro dias de aula, eu teria selecionado essa turma bem antes!

Então, Meg e Nicholas entreolharam-se como se compartilhassem de uma grande piada interna.

Meg esqueceu-se de todo e qualquer desânimo que estivera sentindo na hora anterior. Tinha finalmente conseguido que alguém se aproximasse sem ser por interesse. Seu coração aqueceu-se de instantâneo. E como evitar? O clima em setembro podia ser ameno, porém Meg sentia as bochechas tão quentes de animação que até mesmo optou por retirar o cachecol de algodão ao redor do pescoço.

 

— E aí, topa um almoço fora? Podemos tirar o atraso das conversas dos semestres anteriores!

Foi a primeira coisa que Nicholas questionou após três aulas impiedosas. Tanto para o tédio quanto para a concentração repentina. Em pouco mais de três horas, a cabeça de Meg girava e seu corpo lhe implorava por energias.

— Eu almoço aqui... Vou ter que recusar, mas agradeço de coração o convite.

— Você almoça aqui todo dia? — ele ergueu uma sobrancelha, a vitrine da incredulidade.

— Uhum. Tem comida boa... Além disso, é mais prático. Demora mais ir e voltar de qualquer lugar.

— Mas hoje é o primeiro dia! Não tem nada que se preocupar em adiantar nem nada do tipo...

Meg trocou o peso dos pés, desconfortável. Não podia se explicar que ficar dentro da universidade significava estar segura. Fosse como fosse, Nicholas apenas observou-a de soslaio. Em silêncio, Meg torceu para que sua opinião não se alterasse magicamente com suas medidas de cautela ou que, secretamente, ele descobrisse as tramas que ela mesma desconhecia. Por sorte, ele apenas concordou com um sorriso ladino.

— Tá certo, então. Fica pra próxima. Bom, a gente se vê depois?

Meg assentiu com a cabeça, mais tranquila.

— Até as próximas aulas... Foi um prazer te conhecer!

Nicholas, por sua vez, realizou um meneio com a cabeça de maneira extremamente confiante, enfiou as mãos nos bolsos da calça e partiu campus afora. Mesmo entre tantas pessoas, era fácil distingui-lo pela altura e postura. Engolindo em seco, Meg suprimiu junto um suspiro.

Não tinha estragado nada... Até o momento. Já era mais do que conseguiu fazer em um ano... Ou melhor, em uma vida. Claire ficaria tão orgulhosa!

Quando estava prestes a girar nos calcanhares para retornar ao refeitório, Meg sentiu uma presença espiando-a. Como se estivesse lendo seus pensamentos, o indivíduo abaixou-se até sua altura e murmurou:

— Se eu fosse você, não confiaria nele.

E Meg não pode evitar o arrepio que transpassou por todo o seu corpo.

Diferentemente de Nicholas, era um arrepio ruim.


Notas Finais


essa moça da capa de hoje é a Claire. nossa dama gótica e misteriosa tem algumas cartinhas na manga, hein? até o próximo!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...