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História Good Gone Girl - Capítulo 2


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Notas do Autor


Hei

passando aqui para deixar mais um cap.. Irei responder os comentários do primeiro em breve, pois estou aproveitando o momento em que, aparentemente, o site não está sobrecarregado para atualizar. É isso. Espero que apreciem o que escrevi neste. Amém.

Capítulo 2 - Lies, all lies


 

Eram exaustivas as noites naquela casa por causa das discussões que duravam horas e horas entre seus tios: Jeremiah e Emma Morris.

Tiffany estava trancada no quarto (que há semanas dividiu com sua prima Kristine) quando ouviu um barulho absurdamente alto vindo da cozinha. Jeremiah não era realmente seu tio, era o marido abusivo da irmã de sua falecida mãe, e pai de Kris. Ele sempre se irritava com os dotes culinários da esposa – na verdade, da falta deles – e nada do que ela fizesse parecia bom o suficiente.

No início, Tiffany se irritou quando presenciou a primeira discussão entre os dois (ele havia quebrado boa parte dos pratos e copos naquele dia), mas rapidamente o arrependimento veio quando tentou ajudar sua tia Emma a limpar a cozinha e a mulher colocou toda a culpa daquela confusão nela. Era super injusto. Foi ali o instante em que percebeu os motivos para Kristine ter ido embora com o namorado sem se despedir dos pais e sem deixar nenhum rastro. Aquele casal se mereciam.

 

— Eu te disse, Emma. — Gritou o homem negro e gordo caminhando pelo corredor. — Eu passo o dia inteiro naquela porcaria de oficina, acabando com as minhas costas ajeitando os carros daqueles filhos da puta ricos para chegar em casa e ter que comer essa merda? Que pegasse o dinheiro dessa tua sobrinha pra comprar alguma coisa decente pro jantar!

 

Tiffany ouviu a mulher chorar mais alto. Ela não sentia mais compaixão por Emma desde três dias após o governo a enfiar naquela casa porque todos os seus outros parentes ou estavam mortos, ou moravam cruzando o oceano. Tiffany morria de medo de Jeremiah por uma vez ter tentado agarrá-la na cozinha e pelos olhares nojentos que ele lhe lançava sempre que esbarravam em algum cômodo.

Era certo que não ficaria mais naquele inferno por mais uma hora sequer. A morena de cabelos longos buscou sua mochila, enfiou lá todos os seus documentos e algumas mudas de roupas. Estava decidida a deixar a cidade de Atlanta, no Missouri. Ainda mais por perceber que não demoraria muito para que algum acidente  acontecesse e Emma e Jeremiah recebessem toda a sua herança. Essa era a verdade, os dois só tinham aceitado mantê-la sob seu teto porque poderiam administrar o dinheiro de Tiffany até que ela atingisse a maioridade quando o governo os convocassem – com a presença da sobrinha – para que assinassem a papelada de tutela.

Assim como tinha visto sua prima fazer há dois meses, colocou um casaco e a mochila nas costas, abriu a janela e pulou em cima dos arbustos escorados na parede. Estava escuro e serenava forte o suficiente para ensopar suas roupas enquanto corria para a rodoviária. Tiffany só tinha dinheiro para uma passagem de ida.

Ao chegar na estação rodoviária, correu para a bilheteria comprar uma passagem para qualquer lugar bem longe de Atlanta. Teve sorte quando a moça da cabine a informou que o último ônibus da noite partiria em dez minutos com destino à cidade de Nashville, no Tennessee. Não tinha outra alternativa, era por lá mesmo que Tiffany tentaria a sorte até poder movimentar seu dinheiro no banco.

 

Com a compra daquela passagem, restavam-lhe no bolso menos que cinco dólares. Ficou andando de um lado para o outro até lembrar que precisaria se desfazer de seu aparelho celular para que não a localizassem. Rapidamente o tirou da mochila e o atirou no chão, olhou para os lados conferindo se havia chamado a atenção de algum segurança, felizmente, nenhum mantinha o posto ali por perto. Triturou, praticamente, o celular e colocou dentro da lixeira de metal.

Dois minutos depois o ônibus para Nashville parou e, aliviada, Tiffany subiu. Ainda recebeu um olhar desconfiado do motorista, porém deu de ombros e sentou na poltrona 23. Kristine sempre a aconselhava a sentar em veículos coletivos nesse lugar porque a masculinidade frágil existia e nenhum homem metido a machão (potencial assediador) se prestaria ao papel de se acomodar sob o número 24 – o famoso número do veado -. Tiffany sentia muita falta da prima e esperava um dia reencontrá-la.

 

Tiffany relaxou em pouco mais de meia hora, tempo o suficiente para a adrenalina que preenchia seu corpo diminuir consideravelmente. As luzes do ônibus foram apagadas, não tinham muitos passageiros, apenas uma senhora de idade com seu neto que aparentava ter cinco anos, um homem dormindo de boca aberta na terceira poltrona e uma mulher bem jovem a sua direita. A morena suspirou, sentindo o ar-condicionado marcar presença junto com suas roupas molhadas fazendo com que a sua sensação térmica se comparasse ao Alasca. Seriam quase cinco horas no percurso até descer no estado do Tennessee.

Parando para pensar um pouco, sua situação seria hardcore dali para frente. Teria que aprender a sobreviver nas ruas até conseguir um emprego decente ou qualquer bico que quebrasse o galho pagando uma quantia suficiente para que tivesse ao menos uma refeição durante a semana. Resolveu deixar isso para lá por um momento, e acabou dormindo.

 

— Esta é a última parada, moça. — Chacoalhou o seu ombro o motorista. — Você precisa descer agora.

 

A contragosto Tiffany precisou acordar, levantou, colocou a mochila nas costas e desceu do conforto daquele ônibus para as incertezas das ruas frias de Nashville.

Parecia que estava chovendo em todo os Estados Unidos da América. Embora fininha, as gotas de água batiam congelantes e sem piedade no rosto dela. Tiffany estava tremendo e tinha os lábios arroxeados, queria um banho quente e roupas secas o mais rápido possível. No entanto, mal sabia se voltaria a ter todo esse luxo. Naquele momento, a sua real necessidade era encontrar um abrigo para passar o resto da noite.

 

Começou a caminhar pelas ruas ainda escuras e molhadas da cidade, passou por várias avenidas sem que ninguém notasse sua presença. O tempo ali também não estava bom, por conta disso e das altas horas da madrugada, Tiffany era apenas mais uma sem teto invisível. Ninguém se importava com o fato de uma adolescente de dezessete anos estar perambulando sozinha por aí. Quando viva, a mãe de Tiffany dizia que a vivência nas cidades deixavam as pessoas empáticas. E deixavam mesmo.

 

Depois de quarenta e cinco minutos batendo perna sem rumo, ela encontrou um mercadinho que anunciava ficar aberto durante 24 horas. Ela tinha gastado muito com a passagem de ônibus, não restava muito em seu bolso, mas se desse sorte poderia comprar alguma coisa ali para comer.

Correu até lá e empurrou as portas de vidro, entrou e era como se tivesse atravessado as portas para o nirvana. O único atendente de caixa levantou a cabeça, a observando desconfiado, e Tiffany sorriu se embrenhando nos corredores. Foi direto para a ala dos biscoitos, e rapidamente encontrou uma marca bem baratinha que ela faria durar por horas.

Estava conferindo as moedas antes de ir ao caixa, quando a porta do mercadinho abriu novamente e uma menina num estado não muito diferente do seu entrou e passou apressadamente ao seu lado. As roupas escuras dela também estavam molhadas e o capuz de seu moletom impedia a visão completa de seu rosto. O rapaz do caixa a encarava atentamente, e percebendo a apreensão dele Tiffany pediu mentalmente para Deus que aquela pessoa não fosse uma assaltante.

A morena andou sem demonstrar o que realmente sentia: medo. E acabou retesando os músculos quando a menina se prostrou ao seu lado. O coração de Tiffany acelerou e só voltou aos batimentos normais quando aquela fulana colocou algumas bebidas alcoólicas sobre o balcão e pagou pela compra. Deixando o estabelecimento da mesma forma que entrou.

Tiffany pagou pelo pacote de bolachas salgadas e também saiu do mercadinho. Estava realmente cansada de tanto andar, somente por isso, sentou à beira da calçada e começou a comer. Obviamente, as bolachas fizeram maravilhas para seu estômago faminto, mas também colaborou para que a sede aparecesse e se instalasse de forma desesperadora. Provavelmente teria que voltar ao mercadinho para implorar humilhantemente por um copo de água.

Já estava suspirando e lambendo os lábios quando aquela menina encapuzada apareceu e parou diante dela. Estendendo-lhe uma garrafinha de água mineral. A princípio, Tiffany não reagiu. Duvidava muito das reais intenções por trás daquele gesto, no entanto, precisou ceder segundos depois ao ver o sinal positivo para que pegasse e tomasse a água.

Assim ela o fez. Ao sentir o líquido gelado descer pela garganta, Tiffany sentiu como se navalhas fossem retiradas dali e foi meio que inevitável para ela esconder o suspiro de alívio que sentia.

 

— Você realmente estava com sede, hein. — A menina comentou num tom indiferente. Tiffany ainda não conseguia ver perfeitamente o rosto dela sob a sombra daquele capuz.

 

— Obrigada. — Murmurou em meio a outro gole. — Eu já estava pensando num discurso para voltar lá no mercadinho e implorar por um copo de água da torneira. — Admitiu encolhendo os ombros. — Eu vou dar um jeito de te pagar depois, tá bom?

 

— Eu não preciso que me pague por comprar uma garrafa de água. — Respondeu. — Eu te vi contando umas moedas no corredor do mercadinho para comprar uma bolacha salgada. Imaginei que sentiria sede e não teria como pagar um suco ou água.

 

Tiffany se sentiu tocada, principalmente depois de notar que a indiferença na voz daquela criatura estava se esvaindo. Embora, isso não tenha a feito desmanchar a postura tensa em que se encontrava e mal tinha percebido como havia se enrijecido. Aquilo não poderia terminar bem, poderia? Na melhor das hipóteses, Tiffany cria que ela a arrastaria para um beco escuro e sabia-se lá que fim teria. E na melhor das hipóteses, descobriria que ela tinha fugido de casa, comprado uma passagem somente de ida do estado de Missouri para o Tennessee, e daria um jeito de levá-la novamente para as garras imundas de Jeremiah onde teria ainda um fim mais trágico.

 

— E você não quer nada em troca? — Murmurou demonstrando um fio da voz trêmula.

 

— Na verdade, eu quero, sim. — Tiffany arregalou os olhos, levantando prontamente prestes a correr. — Quero saber o seu nome.

Ela sabia perfeitamente que não deveria contar seu verdadeiro nome para uma completa estranha. Contudo, corria o risco de que caso não dissesse, seu medo de ser violentada e morta – mesmo que por uma menina daquela estatura – transpareceria e isso daria aval para que continuasse com qualquer que fossem seus planos. — Então, precisa de mais tempo para inventar um nome falso? Neste caso, vou me apresentar primeiro, tudo bem? Meu nome é Taeyeon. E se você quiser, posso te chamar de Jane Doe (fulana) enquanto pensa num nome melhor, que tal?

 

— Prazer, Taeyeon. — Tiffany riu. Jane Doe era o chamamento mais ridículo que um ser humano poderia receber em qualquer situação que fosse.

 

— Está aprovado? Então, senhorita Jane Doe, quantos anos você tem?

 

— Dezoito. — Respondeu sem pestanejar. Jamais revelaria ser menor de idade naquele momento. Ela não era burra a esse ponto.

 

— Hum. E você não acha que está muito tarde para uma menina de dezoito anos estar perambulando por aí sozinha pelas ruas desertas de Nashville? — Taeyeon a questionou, daquela vez mantendo um tom divertido.

 

— Estou acostumada. — Mentiu. — Aliás, o que você está fazendo perambulando sozinha pelas ruas desertas de Nashville? Qual a sua idade, hein?

 

— Eu tenho vinte e dois anos, Jane Doe. E eu não estou perambulando pelas ruas da cidade, sabe? Eu moro aqui perto e precisei fazer umas comprinhas. — Taeyeon riu da expressão acuada e desconfiada da morena. — Problemas com os pais?

 

Tiffany fez o melhor para manter sua cara de paisagem. Com certeza, não precisava responder aquela pergunta. Era muito pessoal para uma desconhecida tomar nota. Taeyeon suspirou.

 

— ...

 

— Escuta, Jane. Eu sou a rainha dos problemas com os pais e com a sociedade em geral. Se esse for o seu problema, eu realmente posso te ajudar. Mas, se esse não for o caso, infelizmente terei que chamar a polícia. Você acha mesmo que alguém acreditaria que você está acostumada a andar sozinha pelas ruas desta cidade altas horas de uma noite fria e pouco chuvosa? Para ser sincera aqui, eu odiaria te deixar aqui para descobrir na manhã seguinte que o seu corpo foi encontrado sem vida dentro de uma lixeira.

 

— Você está falando sério? — Tiffany deu uns passos para trás. — E como eu vou saber se não será você quem vai me assassinar e atirar meu corpo dentro de uma lixeira?

 

— Toma. — Taeyeon retirou do bolso do moletom um celular e estendeu em direção a ela. — Eu não estou brincando, Jane. Ligue para os seus pais virem te buscar, porque eu não sou louca de te deixar aqui sozinha. Estou a pouco tempo morando por este bairro e te asseguro que você não duraria uma noite.

 

— Ai tudo bem. Eu tenho problemas em casa, tá satisfeita? — Tiffany rolou os olhos. — Não posso voltar para lá mais. Por favor, não chame a polícia.

 

Taeyeon colocou o celular no bolso.

 

— Foi expulsa de casa?

 

— Na verdade, eu fugi. — A morena cruzou os braços e desviou o olhar para o chão. — Olha só, eu não quero falar mais sobre isso. Não agora. E espero que você tenha noção que não irei voltar para casa por nada neste mundo. Se for preciso escolher isso ou ter meu corpo morto apodrecendo na lixeira, então eu escolho a segunda opção.

 

— Sabe, Jane. Eu tenho um quarto vago no meu apartamento. — Anunciou Taeyeon num tom calmo. — Se por um acaso você quiser, ele é todo seu por esta noite. O que você me diz? Fique ciente de que não pretendo te deixar sozinha aqui.

 

— Você está de brincadeira com a minha cara, não está?! Por favor, pa...

 

— É isso ou voltar para a sua casa. Você escolhe. — Taeyeon a interrompeu. — Só repetindo que não irei te deixar dormir na rua. E então?

 

Tiffany ficou de queixo caído. Aquela estranha achava mesmo que ela a seguiria e que passaria a noite em seu apartamento que ficava sabe-se lá onde? O que aconteceria se ela aceitasse? E se aquela tampinha de vinte e dois anos fosse uma maníaca sexual? Ela não podia acreditar naquela situação. Não podia acreditar mesmo.

 

 

 

 



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