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História Grisâtre - Capítulo 10


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Notas do Autor


GATILHO: abuso de drogas, depressão, suicídio (sem descrição do ato).

ora ora ora, dizem que quem é vivo sempre aparece, né não?!
Eu nem sei se alguém vai realmente se interessar em ler esse capítulo depois de tanto tempo mas enfim, eu sei que demorei (quase literalmente) um ano pra postar essa atualização mas eu acho que vocês vão entender a razão quando lerem o capítulo inteiro. Quem me segue no tuíter sabe que esse ano foi uma loucura pra minha cabecinha estragada, e também sabe que faz muito tempo que eu não consigo escrever em português, então eu sinto muito de verdade se eu tiver desaprendido a narrar de forma satisfatória. Sei lá :(
Peço para que não leiam se forem se sentir mal. De verdade. Eu posso contar o que aconteceu nesse capítulo se alguém quiser pular, porque a narrativa pode ser um pouco muito intensa. Só me chamar nas dms do twitter (que tá nas notas finais).
Ah, e as duas primeiras cenas não tem gatilhos. :)

Pra quem fica, boa leitura.

Capítulo 10 - Trop sensible


 

CHAPITRE X

Trop sensible

-

T'es trop sensible c'est vrai

(Você é sensível demais, é verdade)

et les autres voient pas qui tu es

(e os outros não vêem quem você é)

trop sensible je sais

(sensível demais, eu sei)

moi aussi ça a faillit me tuer

(eu também, e isso quase me matou)

 

 

Em Paris, 1983, a neve havia chegado mais cedo do que o habitual.

Os flocos grandes atiravam-se contra os telhados e ruas da capital francesa, fazendo com que vassouras e pás houvessem de ser utilizadas para desimpedir as vias. Soterravam os pequenos arbustos, embranqueciam sinais de trânsito e varriam as folhas — já um tanto encolhidas e esmirradas pelas baixas temperaturas de um início de inverno — de tal cidade bonita para dentro de um emaranhado úmido e gelado de gotículas cristalizadas.

E isso também queria dizer que, a cada dia que se passava, a cidade ficava mais fria.

Tudo estava mais frio.

E, enquanto pequenos mundos eram movidos nas redondezas, em meio ao petit casebre que enfeitava o subúrbio da capital Baekhyun Laporte e Sehun d'Aspremont se emaranhavam entre as gotas cristalinas de uma água quente.

Os dedos gelados se misturavam aos frágeis do menino baixo, ambos os corpos cobertos por uma cortina de fumaça que se movia conforme a música silenciosa das gotas d'água, similar a uma chuva persistente que batia contra as paredes e corpos despidos.

O box era pequeno, quase podendo ser considerado minúsculo, e os corpos se encostavam com uma delicadeza sintônica. Baekhyun se encolhia contra o plástico do box, as costas roçando na superfície gelada. Os dedos encontravam os de Sehun, os pés delicadamente formando uma ponta para que o queixo pudesse ser apoiado nos ombros largos do loiro. Em pouco tempo, os braços de Laporte o seguravam pela cintura, sentindo-o brincar com os fios longos de seu cabelo escuro e descuidado com os dedos esguios. Apesar da enxurrada constante provinda do chuveiro, conseguia sentir as gotas que pingavam dos fios loiros do namorado e pousavam delicadamente em suas costas, escorrendo por sua anatomia até que achassem um ponto final pelo ralo. Ele também tinha a boca em sua têmpora, roçando o cabelo, acariciando a pequena pintinha com os lábios enquanto os dedos brincavam com o comprimento de seus fios. Perto de seu ouvido, com a voz doce, Sehun murmurava uma canção.

Era só que Baekhyun tremia antes que houvessem entrado no ambiente abafado pela fumaça. E, mais que isso, tremia antes que pudesse ouvir a voz de Sehun em meio ao barulho do chuveiro. Em meio à água fervente e embalado pelos braços do namorado, se acalmava aos poucos, a respiração tomando um passo estável, a mente se rendendo aos beijos delicados na pele molhada em meio à voz tímida que cantarolava para que só ele pudesse ouvir.

Era até meio irônico como tal cumplicidade havia sido formada em meio ao caos.

Como uma pequena flor em meio ao deserto.

Je t'aime. — Foram as primeiras palavras proferidas pelo pequeno quando Sehun adentrara o casebre. Ele esperava o loiro logo ali, sentadinho no sofá puído da sala. O gato preto se apressara a enrolar-se pelas pernas finas do loiro que, por sua vez, se livrava das botas grandes empapadas pela neve. — J'espère que t'as fait gaffe, blond. — Se referia às redondezas perigosas que lhe deixavam preocupado com o namorado.

Afinal, Laporte vivia em um buraco, tão longe do mundo do loiro.

Havia o constante medo de que algo saísse do lugar. Algo que não pudesse ser remendado com meia dúzia de beijos doces e juras de amor.

— Mmhm... — O sussurro saíra abafado pela enchente particular provinda do chuveiro. — Merci...

Baekhyun se apoiava no loiro que, apesar de magro, sustentava-o como podia. Conseguia sentir cada um dos músculos do namorado, o peito despido de qualquer vestimenta, misturado à água quente.

Um choque térmico muito bem-vindo no momento.

— Pelo quê? — Sehun sussurrou, os dedos brincando com os fios pretos da nuca do moreno. Curvou-se um pouquinho para que pudesse alcançar as bochechas molhadas de Baekhyun, beijando a pintinha que se encontrava ali. — Você precisa parar de me agradecer, amor.

Contra a água fervente do chuveiro, a pele cinzenta de Sehun d'Aspremont ganhava alguma cor. Como gelo que lentamente se derrete, as sardinhas espalhadas pelo rosto do loiro se tornavam mais aparentes.

As bochechas se pintavam de vermelho escarlate e ele era especialmente bonito assim.

— Amor... — Sehun chamou, baixinho, no seu ouvido. Recebeu um "hm?" em resposta, junto com um aperto em sua cintura, e soube que tinha a sua atenção. — Vira? Deixa eu cuidar de você.

Não fora preciso dizer mais nada; em um segundo e um movimento firme, as costas de um garoto magrelo e moreno estavam viradas para si.

Sehun tirou o segundo para apreciar o tanto de amor que cada uma das pequenas ações do namorado exalava; sequer precisando de palavras, a confiança em um mero ato era quase palpável.

Baekhyun Laporte apoiava-se na pequena saboneteira carvada na parede do box quando sentira os dedos do namorado delicadamente massageando seu couro cabeludo. O cheiro do sabonete e shampoo de rosas inundou o ambiente, leve como uma pluma, e misturou-se ao cheiro de água fresca e ao perfume de Sehun.

Era um ambiente calmo e denso, fresco e quente, leve e cúmplice.

Era uma mistura de tudo aquilo que haviam criado juntos.

O loiro abaixou-se um pouco, alcançando a nuca molhada do moreno com o rosto e depositando ali um selar delicado. Subiu com os beijos até sua orelha, lentamente, ouvindo sua respiração falhar... Ele parecia tão fraco. Não se impressionaria se houvesse sido uma batalha a de colocar-se no sofá para esperá-lo mais cedo.

Baekhyun lidava com muita coisa e tudo que Sehun queria era poder ajudar.

Pegou o sabonete, esfregando-o entre os dedos e encarando os pequenos pedaços de espuma que eram formados ali antes de colocar-se a massagear as costas do moreno.

Ao sentir a delicadeza presente em seu toque, Baekhyun estremeceu.

— Eu te amo... — O burguês sussurrou e jurou ter ouvido um pequeno soluço. — Amor... Não chora...

Tão leve quanto os toques dos dedos cinzentos em suas costas, o rosto de Baekhyun tombou em direção ao plástico do box. Os dedos de Sehun se estreitaram pelo corpo do moreno, impedindo que ele caísse.

— Baek... — Sussurrou, mais uma vez, virando-o com delicadeza em seus braços. Embrulhou-o com firmeza, beijando algumas lágrimas salgadas que se misturavam ao fervente da água. Os olhos se encontraram por um segundo e Sehun conseguiu enxergar cada resquício de amor e dor que misturavam ali, nas orbes que despejavam sentimentos em forma de lágrimas desajeitadas e manchadas por dor.

Seu coração apertou.

Em seguida, o menino dos cabelos loiros fechou-o em um abraço quente, deixando com que o rosto se escondesse na curvatura de seu pescoço e ouvindo-o chorar. Isso sempre acontecia: Baekhyun andava excepcionalmente sensível ao carinho, machucado pelo mundo a ponto de que cada sinal de delicadeza o fizesse estremecer. As lágrimas se juntavam à água quente, atingindo o peito nu e pálido e tomando seu caminho tortuoso até o chão.

Do lado de fora do casebre, um trovão podia ser ouvido.

O loiro engoliu em seco, os próprios olhos ardendo, e apertou-o em seus braços. Com cuidado, beijou os fios pretos que jaziam molhados ao alcance de seus lábios, e começou uma outra canção que se misturara com o choro tortuoso da água provinda do chuveiro. Sem que mesmo pudesse vê-lo diretamente, com o baixinho aninhado em seus braços, sabia que as bochechas de Baekhyun Laporte estavam vermelhas como cerejas.

E, entre as gotas de água que lhe respingavam o peito e percorriam seu corpo, em algum lugar dentro de seus braços, ouviu-o murmurar entre um soluço.

— Você é a única coisa boa da minha vida, Sehun.

 

 

Como um flashback de sua primeira vez, um raio luminoso solitário enfeitava o colchão puído de Baekhyun Laporte quando os garotos adentraram o quarto.

Os pés molhados atingiam o chão seco, deixando pegadas úmidas por onde passavam.

Sem roupas no corpo, o loiro fora rápido em puxar o moreno para um canto, aonde o embrulhara em uma toalha. Os dedos finos passaram por todo o corpo do namorado com delicadeza, passando o material felpudo pelo tronco desnudo, as pernas magrelas e os cabelos delicadamente longos, bagunçando os fios de modo travesso até que estivessem enxutos. Então, enxugara os braços delicados, os lábios acariciando de modo carinhoso as cicatrizes que marcavam a pele, os olhos encontrando aqueles que lhe contavam um milhão de segredos.

Baekhyun não dizia nada mas, presos aos alheios, seus olhos castanhos detinham calor.

Ele havia parado de chorar mas suas bochechas conservavam o tom vermelho veranil que nada combinava com a tempestade que havia acabado de cessar lá fora. Era seguro de se dizer, no entanto, que o clima parisiense parecia ouvir os sentimentos do moreno. Olhando pela janela de vidro, era possível enxergar cada uma das árvores que haviam chacoalhado durante as últimas horas em meio ao bairro suburbano, atingidas pela água incessante que richicoteava pelos telhados puídos, martelando pelas calçadas e vazando pelas três goteiras que moravam no teto.

Paris, mais que certamente, não tinha infraestrutura para enchentes.

Muito menos no décimo oitavo distrito.

O lampião havia sido arrastado para o quarto, ocupando o canto oposto ao do pequeno armário e iluminando as paredes com sua chama oscilante. Era o fim da manhã e, naquele dia, Sehun d'Aspremont havia se esgueirado das garras de seus pais antes que o primeiro raio de sol iluminasse as ruas estreitas de Paris. Ainda era escuro quando o garoto entrara no metrô cinza e úmido e validara seu ticket na catraca, encarando as paredes meio mórbidas do lugar que era, um tanto literalmente, como um buraco propício à aglomerações. No entanto, por ser tão cedo em um domingo, poucas cabeças poderiam ser vistas — em sua maioria, velhos ranzinzas com grandes casacos que carregavam uma quantidade meio ridícula de jornais em seus dedos enrugados.

Mesmo em meio ao subsolo, fazia frio.

Mas, como sempre, Sehun não se importava.

Havia um senhor tocando violino no vagão do metrô. Sehun havia se jogado em uma das cadeiras — as pernas abertas e cabelos claros levemente úmidos e bagunçados pelo vento que revirava as ruas lá fora —, e os olhos cinzas rondavam cada um dos banquinhos vazios dentro do compartimento fechado. O garoto alto não sabia como um ambiente podia ser abafado e frio simultaneamente, mas não se importava; a esse ponto, havia se acostumado. Também já havia decorado o tempo necessário até a Porte de Clignancourt, o ponto do metrô que dava para um dos arrondissements mais perigosos de Paris, perto do beco que desembocava na casa do namorado. Os olhos mantiveram-se fechados durante a viagem, os dedos enfiando a carteira no fundo da bolsa. Era sempre difícil conter uma crise nervosa ao adentrar o bairro de Baekhyun — aquelas redondezas eram extremamente perigosas e o garoto loiro não sabia passar despercebido, mas tentava o seu melhor.

O som da Nona Sinfonia de Beethoven ainda soava em seus ouvidos quando o vagão se estatelara ao freio, as janelas empoeiradas mostrando o logo vermelho e azul do ponto de metrô. Sehun sacara a nota de 20 francos que havia arrancado da carteira antes que o pedaço de couro fosse parar no fundo da bolsa e a colocara delicadamente no chapéu preto que se estendia ao chão, chacoalhando junto com o vagão que viajava pelo subsolo da Cidade das Luzes. Pudera sentir a confusão do idoso ao receber uma quantia tão generosa de um garoto que ia para o subúrbio em transporte público.

Sentira os olhos meio claros que lhe encaravam com curiosidade e gratidão, analisando suas roupas. Então, o idoso fez uma reverência.

"Merci", foi sua única palavra, à qual o loiro respondeu com um sorriso de canto e um aceno de cabeça.

Deu as costas ao homem quando a sirene apitou, denunciando a fechada dos vagões para que o trem pudesse retomar o movimento. Os pés cobertos pela bota cara se dirigiram à porta e os fios foram ao vento com a movimentação atrás. Os dedos arregaçaram o zíper de um dos bolsos, tirando de lá a carteira de cigarros que não tinha orgulho de ter roubado. E um isqueiro.

Como Sehun queria que parassem de tratá-lo como se fosse uma espécie de nobre.

O caminho para o sobrado de Baekhyun fora um tanto calmo. Os olhos cinzentos do loiro vasculhavam os cantos da rua, acostumando-se com a luz predominantemente natural de fora do metrô. Olhava para as barracas ao fundo, onde costumava ser um mercado popular durante a tarde. A essa hora, o lugar parecia um tanto mórbido.

Como era cedo, havia poucas pessoas na rua, o que não queria dizer que o 18e havia se tornado menos perigoso. Ao menos não estava tão mais escuro, o céu lentamente tomando um tom claro de cinza que brincava com o roxo e vermelho do frio presentes na atmosfera. Os lampiões de rua ainda estavam ligados, o que dava ao ambiente uma coloração engraçada de amarelo que brigava com o cinza do asfalto. E das ruas. Das paredes. Das casas.

Das bitucas de cigarro no chão.

Mesmo sua pele deveria estar amarelada, banhada pela quentura da luz que não exercia objetivamente força alguma contra o frio onipresente.

Daquela parte da cidade, não havia alguma Torre a ser vista. Só pobreza.

Em seu caminho, Sehun agarrava sua bolsa. Se sentia culpado por ter medo de um ambiente tão popular, mas não tinha muita opção — conhecer as redondezas não atenuava o que sabia ter acontecido ali, várias vezes. Conseguia entreouvir burburinhos ininteligíveis, vindos de todos os cantos, e não sabia se era a sua cabeça ou as paredes dali realmente falavam. Talvez fosse o vento que chacoalhava seus cabelos, tornando-os quase tão bagunçados quanto os dedos do namorado costumavam fazer.

Os dedos pálidos posicionaram o cigarro à boca. A braguilha do isqueiro fora pressionada.

Os lábios se fecharam.

Apertou os passos, cruzando os becos mais escuros sem olhar para os lados. Pessoas estavam começando, lentamente, a sair de suas casas e não foram dez minutos até que o loiro avistasse o que procurava. A casa estava ali, velha e desgastada como sempre. Não sabia o por quê, mas o medo constante que ela desaparecesse, junto com o namorado, parecia morar em algum canto no interior de seu ser.

O cigarro foi chutado ao chão, já predominantemente queimado, e os lábios permitiram que a fumaça rodopiasse pelo ambiente sórdido, achando seu caminho até os telhados das casas e desaparecendo. Então, Sehun d'Aspremont bateu os pedaços de gelo emperrados em sua bota na sacada, os dedos embrenhando-se nos próprios cabelos, e guardou o isqueiro em sua bolsa em um movimento rápido.

Sem mais esperar, bateu na porta.

Baekhyun deveria estar com frio...

Quando adentrou a pequena sala, nada parecia fora do habitual. Todo o ambiente era meio gelado e o garoto baixo estava muito mais magro do que de costume. Ele estava lhe esperando, exatamente como pensou que estaria, mesmo que Sehun houvesse explicitamente dito que não precisava acordar cedo porque não tinha certeza de quando conseguiria chegar. Os olhos se encontraram em um milésimo e houve aquele segundo esquisito em que nenhum dos dois sabia o que fazer. Era como se precisassem de um tempo para checar que o outro era real.

Não foram cinco segundos até que o mais baixo corresse a seu encontro, fechando-o em um abraço carinhoso, sem palavras trocadas. O queixo fora escondido nos ombros largos do loiro, os dedos apertando o pano do casaco preto que cobria o corpo magrelo. Abraçá-lo assim, tão forte e firme, era uma forma de mostrar vulnerabilidade. Sehun tirou um segundo para pensar, com um pouco de admiração e saudade, em tudo que eles passaram.

O Baekhyun Laporte de um ano atrás jamais se deixaria ser protegido por Sehun.

O corpo, que costumava ser convencionalmente torneado, agora mostrava cada um dos ossos de modo exagerado. Sehun conseguia sentir as fendas direitinho naquele abraço apertado, mas não comentou. Era difícil admitir para si mesmo que não podia, efetivamente, ajudar.

E era ainda mais difícil assistir a pessoa que mais amava definhando, logo ali, no alcance de seus olhos e dedos.

A relação dos dois garotos tomava uma rota conturbada, porém quase que estável. Era bem mais seguro do que aquele para-lá-e-pra-cá no qual eles se viam em suas primeiras interações. Não haviam mais incertezas e nem deboche.

Havia Sehun, que amava Baekhyun.

E havia Baekhyun, que amava Sehun.

E... havia todo o resto, que não os permitiria ir além. Mas isso era convenientemente ignorado, como sempre.

Não que fosse prudente, claro. Mas era tudo que eles tinham.

Após arrastar a toalha de algodão pelo corpo do namorado, secando-o cautelosamente, os garotos se jogaram ao colchão que precedia a janela. Em lençóis convencionalmente puídos, as pernas se entrelaçaram em uma brincadeira inocente. Não havia palavras a ser ditas; Baekhyun ainda tinha as bochechas perigosamente vermelhas e os olhos inchados. Os dedos, no entanto, brincavam com os cabelos gelados do namorado — era seu modo silencioso de agradecê-lo por absolutamente tudo.

Tudo que jamais conseguiria dizer em voz alta.

Agradecê-lo por estar ali. Pelo banho juntos, já que sabia que o moreno andava deprimido demais para sair da cama. Pelo café da manhã bonitinho que ele havia trazido dentro da bolsa de mão cinzenta que tanto brincava com sua estética pálida. Por cada pequeno gesto de carinho que ele lhe mostrava, mesmo que soubesse que o namorado era bagunçado demais para respondê-los de um jeito tão explícito e organizado quanto ele sempre fazia. Por ser compreensivo e amá-lo de um modo que ninguém jamais havia feito. Jamais faria...

Por todos os beijos e apoio que ele sempre lhe dava.

Ah... como Baekhyun Laporte queria não ser um fardo.

O sol estava nascendo em meio a um amontoado cinzento de nuvens quando o garoto baixo levantou-se do colchão, não querendo realmente deixar o pequeno forte de calor que havia criado com o loiro, mas tendo algo bem específico em mente. Se arrastou até o armário, abrindo-o de mansinho e percorrendo pequeno cubículo escuro com os olhos castanhos. Agachou-se de leve, flexionando os joelhos, e revirou um pouco as coisas até que achasse uma caixa.

Dali, tirou um bilhete.

E Sehun soube que todo o coração do moreno fora derrubado ali.

Em uma folha de papel.

 

« Bilhete numéro 102;

Para o dono do meu coração. »

 

 

Avec ta petite gueule d'ange

(Com a sua pequena boca de anjo)

Tu nous fais voir des masques colorés

(Você nos faz ver máscaras coloridas)

Tous ces gens qui te croient innocent

(Todas essas pessoas que te acham inocente)

Mais toi tu voyages dans l'obscurité

(Mas você viaja na obscuridade)

 

 

O loiro apoiou-se na grade da varanda, os fios loiros sendo bagunçados pelo vento do início de tarde.

Era meio dia e a porta de vidro estava aberta, o vento diurno as sacolejando e fazendo um barulho meio sinistro. O Sol, no entanto, estava ali. Meio fraco, relutante, brigando com as nuvens que inundavam o céu e circundavam a Torre majestosa que podia ser vista diretamente do quarto de um dos garotos mais ricos de toda Paris.

Ainda assim, estava ali.

O loiro havia se despedido do namorado quase duas horas atrás, se sentindo meio culpado por estar saindo tão cedo. Não era sua escolha a de fazê-lo, no entanto, então sequer houvera objeção — um beijo longo só havia sido roubado de seus lábios pelo moreno como uma mensagem de despedida. Sehun já sentia saudades e culpava os malditos pais por não poder ficar com o moreno sem o constante medo. Quase se lembrara de uma instância em que, em meio a uma conversa com Junmyeon, a seguinte frase escapara de seus lábios.

— Ele é meu namorado e eu devia poder ficar com ele sem ter medo de morrer, Junm.

Brincou com o cachorro que se enrolava em suas pernas atrás de atenção, os dedos embrenhando-se nos pêlos branquinhos e tentando se acalmar. O bilhete ainda era guardado no bolso da calça de grife que cobria suas pernas. A vontade era de abri-lo de uma vez, mas Baekhyun lhe havia pedido algumas horas de espera.

"Quando a lua aparecer no céu", o moreno havia dito, um segundo antes de lhe roubar um outro beijo. Os dedos magrelos haviam, então, se fixado na cintura do loiro e lhe puxado pra' perto, e Sehun sabia que ele estava na pontinha dos pés porque os olhos castanhos amendoados lhe encaravam de frente. Então, o moreno o havia encaminhado para a porta, as mãos que pareciam moldadas aos contornos do corpo alheio não lhe medindo atenção quando Laporte lhe prendera contra a parede ao lado do pedaço de madeira que dava para a rua e roubara um outro beijo. Era um beijo profundo e calmo, quente e frio, gentil e, ao mesmo tempo, cheio de cautela. As bocas se conheciam como ninguém e, mesmo assim, era como uma nova aventura a de ter as línguas se chocando pela milésima vez.

Quando se separaram, os pés do menino baixo nao deixaram sua ponta. Pelo contrário — os braços fracos se enrolaram no pescoço do namorado e ele ficou ali, por alguns longos minutos, se apoiando nele. Sehun o abraçara pela cintura, sentindo o modo com o qual o corpo do garoto baixo se adequava à nova posição. Jurava tê-lo sentido estremecer. Poderia ser bobo, mas também era como se o garoto houvesse finalmente aceitado o fato de que o loiro também protegia.

E isso fazia Sehun querer beijá-lo até que ambas as bocas estivessem inchadas.

Olhando nos seus olhos, então, o loiro achou saudade. Logo depois dos lábios se separarem, ele tinha a boca vermelha e os cabelos pretos recentemente bagunçados pelos próprios dedos.

E também achou ali um sentimento esquisito que não conseguiu decifrar.

Logo após, o moreno o fechou em um abraço quente que era um tanto quanto esperado, mas não deixava de ser bem-vindo. Mais uma amostra grátis de uma confiança extremamente valiosa.

E gentil.

Sehun era tão orgulhoso dele...

O loiro suspirou, os cotovelos já dormentes de se apoiar na grade. Os olhos vasculharam os quatro cantos da cidade que se estendia, majestosa, diante de seus olhos. A Torre era iluminada pela luz do sol de inverno que já se punha, lentamente convertendo o céu para um azul frio que não colaborava com os tons já cinzentos dos prédios parisienses, banhados pelo antipático clima invernal. Os fios de neve haviam sido banhados por pequenos flocos, bagunçados pelo vento, desvirtuados pelo clima. E, então, a Lua podia ser vista.

O céu eternamente dessaturado era coberto por uma camada de Anil quando os olhos cinzentos encontraram o astro que brilhava, junto com a Torre, em uma imensidão invernal. As pequenas estrelas também pareciam brigar com a luz que piscava no monumento, como em uma corrida de quem iluminava mais passivamente uma cidade incolor.

E os dedos foram parar no bolso, catando no mesmo momento o maço de papéis e os desdobrando com alguma pressa.

O loiro se dirigiu ao quarto, jogando-se em sua cama e deixando que os sapatos voassem para o outro canto do cômodo. Os pés cobertos por meinhas cinzentas se esfregaram um no outro em ansiedade ao passo que o garoto agarrava os óculos de leitura da mesa de cabeceira, quase derrubando o radinho amadeirado que havia ali.

Agora, as lentes de meia lua pendiam em seu nariz. Tomava coragem para abrir o pedaço de papel, reparando que era não só uma, mas várias folhas inteiras como da última vez, todas em frente e verso, e isso o deixou empolgado. Tivera de se segurar para nao abrir o bilhete no mesmo momento em que o moreno lhe estendera o papel com as mãos magrelas, mas, antes mesmo que pudesse ceder ao impulso, havia sido parado por um segundo beijo.

Não que Sehun fosse reclamar.

E, depois de lhe roubar todos os pensamentos, Baekhyun houvera aberto a boca.

Je t'aime, blond. — Sussurrou, e o fantasma de um sorriso de canto roubou sua expressão ao perceber que o loiro estava meio atordoado pelo beijo. Meio segundo depois, sua expressão meio triste se fazia presente novamente e ele acariciou a bochecha do namorado como se pedisse desculpas por não conseguir sorrir. Então, roubou-lhe um outro selinho, os dedos ajeitando uma mecha rebelde de cabelos loiros que caía aos olhos do burguês. — Lê em casa. Quando a lua aparecer no céu.

Os olhos cinzentos se esgueiraram à varanda, constatando que o astro luminoso realmente se encontrava ali. Ainda por cima, era uma Lua cheia.

Sehun suspirou, não aguentando mais esperar, e abriu a primeira folha.

 

« Bilhete numéro 102;

Para o dono do meu coração; à luz da lua.

 

Te escrever é uma das melhores coisas que eu já decidi fazer. Uma das poucas às quais não me arrependo, sabe. Desde aquele dia em que eu te mandei aquele bilhete estúpido te chamando de gracinha e te chamando pra' minha casa.

Eu nunca esperei que você fosse acabar vindo, no final. E olha aonde estamos agora... sabe? É muito louco pra mim pensar que alguém como você iria querer ficar com uma pessoa como eu. Acontece que, como você tá' cansado de saber, eu não sei me expressar então me apoio em pedaços de papel para te dizer como eu me sinto.

Como eu sou perdidamente, loucamente, avassaladoramente apaixonado por você.

Você sabe que é o meu primeiro amor mas talvez não entenda a importância que isso tem pra mim. Então, por mais difícil que isso seja pra minha cabeça de merda, eu vou tentar te explicar aqui.

Eu tinha cinco anos quando meu pai começou a me bater e sete quando ele saiu de casa. Às vezes, mesmo assim, ele voltava da rua pra' bater em mim e em minha mãe pela mera vontade de me ver chorar. Eu nunca tive muita opção ou muito pavio pra queimar, você sabe disso, mas com sete anos eu fui obrigado a me dar de graça de saco de pancadas pro' velho pr'aquele filho da puta não cometer um crime.

Enfim, com dez eu comecei a trabalhar. Eu nunca tive a oportunidade de viver uma paixão de infância ou um prazer tranquilo, apesar de ter aprendido a ler sozinho e encontrado algumas delas nos livros que viravam aos poucos minha única salvação. Literalmente, sabe, ou eu ficaria doido. Eu era só uma criança.

Eu pegava livros da biblioteca municipal e trazia eles numa sacola de compras pra' casa pro' meu pai não achar. Eu não tinha como pagar multa se ele arregaçasse as minhas coisas, sabe, então eu escondia eles embaixo do forro do sofá.

Por sorte ele é burro e nunca achou.

Também aos dez, um garoto bateu na minha porta. Ele era alto e forte e parecia ter uns dezesseis. Eu lembro que ele parecia com um dos personagens de um livro que eu tinha lido, então não meti a porta na cara dele de primeira — na verdade, eu fiquei intrigado. Ele me pegou chorando e com um olho roxo e braço quebrado e ofereceu ajuda. Foi a primeira pessoa em minha vida inteira, fora a minha mãe, a me tratar com algo além de asco, Sehun. Ele tinha um cigarro na boca e tatuagens nos braços.

E me ofereceu ajuda.

Eu não sabia, mas ter saído com esse garoto seria parte da grande merda que minha vida se tornaria nos próximos anos. Mas, também, o único e exclusivo motivo de eu ser a pessoa que eu sou hoje. Não que eu seja uma boa pessoa... bem longe disso, mas enfim. Ele me ofereceu ajuda e me apresentou a alguns caras. Eles eram todos meio errados, meio cheios de problema, e eu me identifiquei com eles em um nível espiritual. Foi meio bizarro. Eu nunca tinha planejado entrar em um movimento social, mas lá estava eu. Acabou que caçar fascistas filhos da puta nas ruas era mais necessário do que qualquer um teria a coragem de admitir. Era proteger o nosso território. Os caras me ensinaram tudo que eu sei hoje, sabe? Coisas muito mais importantes do que aquela escola infernal jamais me ensinaria. Coisas como saber me defender. E o fato de que essa cidade do caralho quer gente como eu morto.

Descobri que ser da periferia é resistência.

Quand j'avais onze ans, eu comecei a me drogar. Acontece que saber demais também acaba te deixando louco. As coisas com a minha família não melhoravam e eu não sabia o que fazer. Não tinha nenhuma opção boa. Eu não queria acabar como mais uma criança morta em um bairro suburbano, mas, ao mesmo tempo, eu comecei a me odiar.

Foi mais ou menos nessa época que minha mãe me matriculou na escola. A coitada nunca soube o que fazer comigo, o único filho, e às vezes eu queria que ela tivesse um outro pra ter pelo menos um pouco de orgulho. Ela é uma ótima mãe, sempre tentou o seu melhor, porém nunca teve opções. Acho que ela viu uma escola boa como a oportunidade de eu achar um sentido na vida, sabe, me ajudar. Foi por isso que ela teve todo o trabalho de brigar com a lei e me mandar pra uma das escolas mais conceituadas da cidade.

Mas foi bem o contrário porque foi naquela mesma época que os meus colegas de sala resolveram me bater.

Eu nem sonhava em ter materiais de primeira mão e já na primeira semana tinha os meus próprios sendo rasgados. Eu cansei de ter que remendar aquela maldita sacola de pano que era a única que eu tinha pra carregar meus livros. Eventualmente tive que juntar o dinheiro pra uma nova, sabe, e eu lembro de ter comprado aquela merda na força do ódio.

Taquei fogo na antiga como um jeito de me vingar e foi a sensação mais esquisita do universo.

Eu nunca fui uma criança feliz, como você pode imaginar, mas foi mais ou menos nessa época que eu perdi a esperança de vez. Eu passei de um guri miserável pra' um pré adolescente drogado, fruto de um abuso sexual, com cortes nos pulsos. Eu nunca quis a empatia de ninguém mas, na real, acabou que eu não tinha nem a minha. E eu nunca achei que as coisas poderiam realmente piorar, mas, como sempre, eu tava' errado.

Enfim, eu comecei a procurar refúgio com os caras com quem eu andava. Era tudo que eu tinha; com eles pelo menos eu podia ser eu mesmo e era o máximo que eu conseguiria de conforto perto de alguém. Eram quase amigos, sabe? A gente até conversava às vezes, sentados na calçada com uns cigarros na mão. A gente saía sempre que dava, bebia, fumava, entrava em baladas com identidade falsa e tudo que você pode imaginar.

Foi com eles também que eu descobri que sentia atração por caras.

Enfim, eu criei uma barreira firme ao redor de mim. Me relacionei sexualmente com um milhão de pessoas pela distração. Era bom o suficiente pra mim, porque sentimentos são complicados e eu não podia lidar com nenhuma outra fonte de complicação na minha vida. No entanto, não me recordo de ter ficado completamente nu para ninguém além de você. Eu tinha pra' mim que todo mundo ia querer me decepcionar, ou pior, me dar esperanças e me humilhar depois. Era o que sempre acontecia, cedo ou tarde, então eu simplesmente decidi que não poderia me dar ao luxo de me iludir mais. Além disso, os meus cortes sempre foram uma parte grande da minha insegurança e eu não queria que ninguém visse o quanto era fraco. Eu não queria que as pessoas descobrissem a minha fraqueza então fiz de tudo pra' esconder o quanto eu tava' na merda. Se ninguém soubesse, ninguém me humilharia e eu passaria por mais um malandro imbecil que não sabe como se portar. Eventualmente eu sinto que me tornei realmente essa pessoa, mesmo que só por fora, e não é algo que eu tenha orgulho mas provavelmente me poupou muito stress.

O problema é que, nessa lógica, eu nunca me permitiria sentir. E, querendo ou não, foi o que acabou acontecendo.

Foi por isso que eu te odiei de início. Foi um inferno. Você era mais um rico mimado petulante do caralho que só me traria desgosto. Eu lembro de ter te encarado várias vezes no colégio e a mera menção do seu nome fazia o meu sangue ferver. "Sehun isso, Sehun aquilo. O garoto prodígio". Acontece que você era a única pessoa daquele pedaço de inferno que nunca tinha me encarado com nojo e o fato de que alguém poderia realmente sentir algo diferente por mim — e aqui eu não tô nem falando de romance, mas de qualquer coisa boa — me fazia entrar em desespero.

Eu não sabia em que buraco enfiar todos os meus sentimentos por você. Eu sequer sabia como lidar com o fato que eles existiam. Pra' ser bem sincero, ainda não sei, porque se soubesse eu seria a porra de um cara decente e te diria as coisas na cara ao invés de me esconder atrás de um pedaço de papel. Acontece que até hoje eu não sei lidar com a adrenalina que estar com você me dá. É fisicamente difícil pra' mim estar perto de você, poder te tocar e acabar não te beijando até te ver ofegante. Em parte porque você é lindo com os lábios vermelhos e aquela cara embriagada pelo meu cheiro. Você é lindo de qualquer jeito, mesmo, mas quando eu te marco desse jeito... uau. Acho que eu não consigo nem achar palavras pra descrever o quanto te ver assim me tira do sério; mexe comigo.

Em outra, porque eu te amo. Mesmo.

Mas, enfim, você tinha aparecido na minha vida — do nada, mesmo — e me mostrado que tudo que eu pensava de ti estava certo. A parte que eu realmente pensava, sabe? Não a parte que eu me convencia a pensar pra' não acabar me machucando depois. E isso foi um problema, mas não porque eu não gostava de você, bem o contrário: foi um problema porque isso derrubou toda aquela parede grossa que eu havia construído ao redor dos meus sentimentos. Eu tive que assistir ela caindo ali, tijolo por tijolo, e a sensação que eu tinha era que eu estava ficando nu.

Eu entrei em desespero quando eu percebi que queria te mostrar o meu corpo. Eu nunca tinha sentido algo do tipo antes. Aconteceu naquele dia em que você me pediu pra' te dar um outro beijo de cigarro porque você tava' com saudades, logo no início do nosso relacionamento — antes da gente, de fato, ter um relacionamento, apesar de que lá no fundo a gente já sabia aonde isso ia dar. Eu lembro de ter te encarado naquele momento pronto pra te beijar até estar tão tonto no seu perfume que eu ia falar que eu confiava em você, mas acabei só me segurando e pegando os cigarros pra fazer a sua vontade. Me veio a vontade de abrir a minha boca e te dizer algo, e eu acho que até o fiz, mas não sabia exatamente o quê e isso me deixou confuso. Você é e sempre foi uma luz, Sehun. Você é a pessoa mais doce e quente que eu já conheci, mesmo que isso não faça o menor sentido pro meu corpo arregaçado por esse frio infernal.

Eu acho que já perdi meus sentidos, no final.

Não sei se isso faz sentido, mas você me queima. É tipo aquele gelo que você coloca tanto a mão que começa a parecer quente.

No dia que eu subi toda aquela maldita parede de tijolos até a sua varanda, achei que você não abriria a porta pra' mim. Era uma ideia estúpida e muito arriscada e eu sabia disso, mas nunca fui um cara de pensar muito antes de fazer as coisas, e eu só queria muito te ver naquela véspera de Natal. Não estava nos meus planos dormir contigo nos meus braços, nem te despir na verdade, mas foi naquele dia que eu senti a vontade de te mostrar o meu corpo pela segunda vez. E foi quando eu te puxei pra chuva e te encarei de pertinho, todo molhado, depois de te beijar até perder o fôlego, que eu finalmente encontrei as palavras que eu queria te dizer aquele dia mas não conseguia.

Je voulais te dire que je t'aime.

Eu juro que as palavras quase vazaram da minha boca sem eu nem programar e provavelmente teriam, se eu não tivesse sido pego de surpresa por elas de um jeito que nem eu entendi. Eu fiquei assustado mas, de algum modo, a visão de ti todo molhado com a boca vermelha no meio da chuva me fez querer pular daquela varanda de amor por você. Ver o jeito em que você era insanamente mais bonito que toda aquela vista estúpida da sua varanda me tirou o ar de um jeito inexplicável. De novo, eu nunca tinha sentido algo parecido, nunca nos meus dezoito anos dessa vida de merda. Eu acho que, naquele dia, a única coisa que me acalmou foi perceber que você era tão novo àquilo quanto eu; que eu não estava sozinho.

O jeito que você tirou as roupas pra mim fez eu me sentir tão próximo de ti que eu fiquei muito atordoado. Eu já tinha visto muita gente mas ninguém jamais havia me feito sentir daquele jeito. Você olhava pra' mim como quem se importava, e Sehun, ninguém nunca tinha me olhado desse jeito. Eu queria te dizer que me importava também, que isso era importante pra' mim também, mas a verdade é que eu tive medo. Sehun, se não fosse minha falta de tato com as palavras, eu teria te dito muita coisa aquela noite.

Eu te amei muito naquela véspera de Natal e dei meu tudo pra te mostrar isso.

Na verdade, eu te amei a cada segundo da minha existência logo que descobri que era aquilo que eu sentia. Era algo meio espontâneo, já que eu não tava' pronto pra admitir pra' mim mesmo as três palavras, mas eu o fiz.

E eu não consigo me convencer de que sou a coisa certa pra você, mas, desde que isso que nós temos virou algo sério, eu prometi a mim mesmo que iria acreditar em você e não ligar pros meus sentimentos. E a razão pra isso é que eu falo muita coisa pra' mim mesmo constantemente, e raramente essas coisas são boas.

Você foi o primeiro a ver algo bom em mim, Sehun. E eu ainda não sei como.

Foi por isso que te ver machucado acabou comigo. Quer dizer, não só por isso porque eu te amo e só o pensamento de te ver mal já me faz querer socar alguém, mas porque eu sei que se eu não estivesse na sua vida nada disso teria acontecido. Ninguém teria corrido atrás de você se não soubessem que você me faz bem. É como se... o fato de que algo finalmente se encaixou na minha vida fosse um problema, significasse te por em risco.

Te manchar.

E, entre ficar contigo e te ver manchado por marcas que não as dos meus beijos, eu prefiro que você fique simplesmente bem.

Com o tempo, eu aprendi a nunca esperar nada de bom pra mim. Algo dentro de mim diz que isso jamais deveria ter mudado. Acontece que tudo mudou com você, tudo mudou no momento em que você me mostrou amor. É como se algo muito pesado tenha se estilhaçado, sabe? Alguma verdade. Tudo à minha volta, desde que me entendo por gente, tinha me convencido que eu era o problema. Eu ainda acredito nisso um tanto quanto fielmente e é por esse motivo que eu não consigo te contar nenhuma dessas coisas pessoalmente, sabe? Eu não quero que você fique preocupado comigo. Eu não sei como lidar com a sua preocupação porque eu não queria, nunca quis, colocar peso nas suas costas. E eu não sei exatamente como, mas eu causei tudo isso. Eu cavei o buraco em que eu me meti.

Eventualmente descobri que o mundo não teria, jamais, dó de mim.

E eu só queria poder evitar ter te trazido no mesmo caminho.

Eu sinto muito... »

 

Com um mero bilhete, Baekhyun Laporte havia chacoalhado todos os sentimentos de um garoto gelado como quem brinca com o bico de pena, prestes a criar uma obra de arte inescrupulosamente bela. Com um mero bilhete, as palavras do moreno haviam feito com que Sehun se levantasse da cama de modo abrupto, como quem tem a pulga atrás da orelha, e começasse a chorar de amor e dor em uma sensação de desespero que nunca havia sentido antes. Com apenas um bilhete, os óculos de leitura foram jogados na cama, os sapatos colocados de volta aos pés de modo apressado, e o loiro nem se olhara no espelho para checar se os fios de neve estavam no lugar quando as pernas correram escada abaixo.

Com um mero bilhete, o loiro correra de volta ao metrô, um cigarro plantado de volta aos lábios em desespero, sem sequer pensar nos prós e contras de suas ações.

Sehun tinha um sentimento desconfortável sobre a situação e nunca quisera mais estar errado.

 

« Eu posso parecer anormalmente calmo nesse bilhete, em contraste com a enxurrada de informações que eu joguei aqui, mas eu queria deixar bem claro que eu não estou. Eu só, sei lá, tenho sentido essa frequente vontade de conversar com você, te dizer o que eu sinto, te contar a minha vida... porque, um: eu acho que você merece saber; dois: eu confio em você e te amo mais do que tudo; três: eu quero te dar um pedaço de mim para guardar pra' sempre, mesmo quando, cê sabe... e quatro: eu acho que eu achei uma saída e eu não quero que você se preocupe quando eu não estiver mais aqui, porque eu finalmente não tô' me sentindo tão mal assim com relação a isso e eu queria compartilhar isso com você.

Eu sequer sabia o que era amor antes de te conhecer, Sehun. E eu sou eternamente grato por tudo, absolutamente tudo, que você me ensinou a sentir. Todos os beijos e abraços e o sentimento distinto que é ter os seus dedos entrelaçados aos meus, as nossas pernas entrelaçadas, um lençol nos cobrindo. Você me dá vontade de sorrir, o que é algo que eu nunca aprendi a fazer, e isso por si só é mais do que eu jamais teria esperado acontecer comigo, de todas as pessoas. Você fez tudo valer a pena, sabe? Mas agora não é a hora, eu não sou a pessoa e tudo o que eu quero é que você fique bem.

Me desculpa, viu? Tudo que eu tive contigo sempre foi o que me impulsionou a dizer que estar vivo vale à pena, mas eu não consigo viver comigo mesmo lembrando que sou o motivo pelo qual você tem medo de morrer. No final, eu tive que ser a pessoa a perceber que você, nem ninguém, pode me salvar — não é algo arbitrário, por mais que eu queria que fosse. Não coloca essa responsabilidade em você, loiro. Nunca.

Isso sou eu, comigo mesmo, e mais ninguém. E iria acontecer de qualquer modo. Provavelmente, bem mais cedo se você não tivesse aparecido na minha vida e me mostrado que, cada vez mais, tentar valia a pena. Acontece que algumas coisas sobre as pessoas nunca mudam, e isso só é por azar o meu fato imutável. E tá' tudo bem, sabe? Eu aprendi a ver isso com a vontade de sorrir, mesmo que eu vá sentir sua falta. O sentimento de que você vai ficar bem, mesmo que futuramente, me conforta. Eu sei que eu ando te falando eu te amo demais, mesmo em voz alta, mas é só que eu preciso te dizer isso por todas as vezes que eu não vou poder futuramente.

Agora... será que eu posso te fazer um pedido? Eu te pedi pra' ler esse bilhete quando a luz da lua banhar essa cidade infernal porque eu queria que esse momento fosse pelo menos um pouco bonito, por mais irônico que isso possa parecer vindo de alguém que literalmente acabou de te confessar não ter nenhuma esperança na vida. Mas eu espero que você saiba que eu tenho esperança pra sua vida, Sehun, eu realmente tenho, okay? Apesar de tudo. Eu assumo que seja, tipo, sete horas da noite quando você estiver acabando de ler isso... Fecha os olhos, okay? E dorme. Fica seguro, abraça o seu cachorro, sente o meu beijo nos seus cabelos macios. Por favor, não sai de casa mais pra' vir aqui. Lembra quando eu te disse, na última carta que te dei, pra você se proteger? É exatamente disso que eu tô falando agora. É perigoso e não vale a pena... então me ouve, sim? Por favor.

Não esquece que eu te amo. É sério, por favor não esquece. E não esquece de cada uma das vezes em que você salvou minha vida.

 

A parte quente do seu frio, pra sempre,

— B. Laporte. »

 

 

Tu sens la souffrance comme une bombe

(Você sente o sofrimento como uma bomba)

Le tic-tac, en sourdine

(O tic-tac silencioso)

Les puissants qui nous mènent à la tombe

(Os poderosos que nos conduzem à tumba)

Et se moquent de notre sort en prime

(E zombam do nosso destino premiado)

 

Com uma das mãos, acariciava o gato que se aninhara em seu colo; com a outra, apoiava o cachimbo. Frio. Cortante. Nem reclamaria do frio, aceitando-o como um castigo. Merecia ser castigado. Também sabia o frio era ambíguo; o frio era Sehun e, por mais que amasse o garoto, ele sempre machucaria.

O loiro não estava mais por perto e, mesmo assim, cada um dos centímetros de sua casa cheiravam a Sehun. Àquele maldito cheiro viciante que havia se tornado seu único porto seguro.

Sehun.

O garoto gelado sempre cumpria promessas.

Mas, dessa vez, Laporte implorava para que ele as ignorasse.

Os pulsos ardiam. E o moreno passara as últimas horas se drogando até que o corpo não desgrudasse do chão. O salário, dispensado entre algumas novas substâncias nocivas, já não era o suficiente para que o garoto pudesse comprar o básico para sobreviver e, por mais que Sehun sempre lhe trouxesse ajuda por conhecer a situação, era complicado.

Pela primeira vez, havia se endividado. E não se perdoaria por isso.

À esse ponto, as lágrimas eram como aquelas gotículas de água que pingam de uma torneira sem que se perceba. As bochechas estavam sempre molhadas, irritadas pelo frio, ardidas pela sensação eterna de ebriedade, doloridas pela vontade reprimida de soluçar. Por metade dos dias, elas se amassavam ao chão gelado após que esfolasse os pulmões com um novo trago.

A única certeza que tinha era que não ia dar certo. Nada ia dar certo.

Tinha que dar um jeito nisso logo, senão Sehun jamais poderia viver uma vida decente. Era algo que decidira enquanto escrevia naquele maço de papel que havia entregado ao namorado de manhã. Não havia uma possibilidade de vida decente em meio a essa bagunça que haviam arranjado. Em meio àquele inferno para qual havia arrastado Sehun.

Estava sendo egoísta. Mas, mesmo assim, não havia outra opção.

Afinal, sempre havia sido um égoïste d'merde.

Só queria que todo mundo fosse feliz. No fim, essa era sua única vontade. Sehun, sua mãe, Kyungsoo, até mesmo os gatos que não conseguia cuidar com o carinho que queria.

Épice, Coquin...

Repentinamente, a memória de uma noite distante lhe invadira como em um filme. Repentinamente, o cheiro do Chanel Numéro Cinq invadiu seu olfato. Repentinamente, eram ele e Sehun ali, em um parquinho infantil, os cabelos balançando à brisa veranense e sorrisos discretos nos lábios. Em um segundo, Sehun o olhava nos olhos e o chamava de malandro, em alusão ao gato, as íris cinzentas reluzindo a luz da lua, um brilho etéreo brincando na pele pálida. Em mais um, era ele a segurá-lo pela cintura, os dedos parcialmente cobertos pelo casaco caro do menino mais novo agarrando-o pela blusa social branca, puxando-o para mais perto — na pontinha dos pés —, experimentando de seus lábios bonitos pela segunda vez, tornando-os vermelhos pela segunda vez. Exceto que dessa vez sua visão era turva, as luzes das lâmpadas noturnas o assustavam, a cabeça trancafiada num eterno breu, os olhos cerrados de medo, a mente berrando. E, ao invés do resquício esvairado de pancadas que se esvaíam com facilidade, havia ali dor.

Insuportável, esmagadora, persistente.

Havia a dificuldade de respirar, havia pulmões pedindo socorro, havia cada uma de suas células implorando para que houvesse uma saída pra esse sofrimento invisível que não parecia lhe deixar escolha.

E... o que mais? "O que mais, Baekhyun Laporte?", sua mente ria de sua desgraça.

Porque a resposta era clara.

Não havia Sehun.

Fechou os olhos com força. Uma lágrima dolorosa escorreu do direito, atingindo o chão com um baque audível.

Sehun. Sehun? O que aconteceria com Sehun? Ele esperava, do fundo de seu coração, que o loiro fizesse como pedido e fosse dormir. Entre o colapso de emoções, havia a dor que se mesclava à certeza de que o garoto de pele pálida e olhos cinzentos jamais seria feliz com ele. Ele não era a pessoa. Simplesmente não poderia ser. Afinal, tudo que rodeava Baekhyun Laporte estava fadado à desgraça.

Suspirou, as orbes se abrindo e focando um ponto específico no teto. Os olhos lacrimejaram, mas não permitiu que as lágrimas fossem soltas. A cabeça doía, latejava e girava como se aquilo fosse algum inferno particular — tão real quanto a escuridão eterna em seus pensamentos. Havia, no entanto, certa calmaria em finalmente ter se decidido. Calmaria essa que estava diretamente atrelada à certeza de que essa era a única solução possível. Quando, pela primeira vez em horas, flexionou ambas as pernas para que pudesse levantar, todo o seu corpo doeu. E Baekhyun sabia o que fazer, os dedos se remexendo logo antes de suas mãos se quebrassem em punhos e um suspiro desistente vazasse dos lábios secos pela fumaça.

Pensou em Sehun. Sehun conseguindo seu primeiro emprego. Sehun conhecendo uma pessoa que pudesse fazê-lo o homem mais feliz do mundo. Sehun tendo uma vida feliz.

Derrubou uma lágrima. Era isso... Sehun ficaria bem. Ele havia de ficar bem. Ele não se colocaria mais em risco, acharia um amor saudável, dedicaria seus sorrisos — e vida — a uma outra pessoa, seria feliz. Era grato por tudo, tudo, tudo... e doía. Sentiria falta dos seus minutos de felicidade. Da sensação distinta que era ter um amor verdadeiro. Que era ter Sehun. No entanto... Baekhyun jamais seria colocado na mesma equação de uma possível felicidade, sabia, porém Sehun sim. 

E era tudo o que importava. 

Catou a seringa que havia arranjado algumas poucas semanas atrás, logo depois da realização de que fumar não era o suficiente para que tudo ficasse bem. Em meio ao ato, roçou os dedos em uma lâmina. Empapada pelo próprio sangue.

Iria parar de ser covarde.

 

 

Naquela sexta-feira cinzenta, o clima era quase tão caótico quanto seus pensamentos.

O loiro gemeu em agonia quando o vento estapeou-lhe o rosto, forte, cortando seu ar em meio ao choro e fazendo-o soluçar. As lágrimas se misturavam com a tempestade que, impiedosa, castigava o corpo frágil que cedia, aos poucos, à exaustão.

O clima parecia lhe ouvir.

"É uma situação de risco." Fora o que havia ouvido em uma das outras mil e quarenta vezes em que havia digitado aquele mesmo maldito número naquele mesmo maldito orelhão de rua. Naquele mesmo maldito dia. "Estamos fazendo o que podemos."

Sehun suspirou em um ruído tortuoso que delatava desistência, engolindo as palavras com dificuldade. Então, voltou com o telefone aos ouvidos, focando no outro lado da ligação.

A mente não parecia querer colaborar.

Mas não era como se houvesse alguma outra opção.

"Certo. Eu já chego." Respondeu de imediato, meio nauseado, as mãos enfiando-se nos bolsos. Por algum motivo irritante, pela primeira vez, o frio começava a lhe machucar as bochechas. Na realidade, tudo doía. Catou a carteira de cigarros em um movimento só, enfiando um na boca e rodando a braguilha do isqueiro. Tragou a porra da nicotina com vontade, sentindo-se torpe em um momento. As lágrimas não paravam de descer, o gosto do cigarro misturando-se com o salgado e o ferroso do sangue em sua língua. Havia mordido a boca forte demais em meio à última crise de choro. O estômago se revirava em agonia.

A linha caiu.

E Sehun, escorado no gigante orelhão cinzento que brincava de manchar as ruas de Paris com suas conversas secretas, enfiou a mão na própria cara em um tapa que certamente deixaria as bochechas salpicadas de sardinhas vermelhas — era como se quisesse forçar-se a acordar de um sonho ruim. Logo em seguida, limpou com a barra da camisa os óculos de leitura que pendiam na ponte de seu nariz, embaçando-se pelo vendaval molhado, em um movimento meio grosseiro que quase fez com que os mesmos se espatifassem. Não tinha mais forças para lutar, os dedos apertando o telefone com força ao passo que os dentes trincavam e os soluços tortuosamente tomavam conta. Em um segundo, perdeu a força nas pernas.

E, então, caiu de joelhos. Desejou morrer.

E chorou.

Enquanto catava os cacos de sua alma para que pudesse voltar ao hospital, o laudo deploravelmente amassado entre os dedos.

 

NOM, prénom: LAPORTE, Damien

Causa da internação: Overdose.

 

 

J'aimerais te dire que ce monde livide finira par se réveiller

(Eu amaria lhe dizer que este mundo pálido acabará acordando,)

Mais j'ai bien peur que ça ne tienne qu'à un fil

(Mas eu tenho medo que isso não seja mais que uma esperança)

Mais rassures-toi, toi tu seras sauvé

(Mas eu lhe asseguro, você será salvo)

 


Notas Finais


GLOSSÁRIO:

Petit - pequeno
Merci - obrigado
J'espère que t'as fait gaffe, blond - espero que tenha tomado cuidado, loiro
Quand j'avais onze ans - quando eu tinha onze anos
Je voulais te dire que je t'aime - eu queria dizer que te amo
Égoïste d'merde - egoísta de merda
Coquin - malandro
NOM, prénom - sobrenome, nome

-

entao é essa a hora que eu saio correndo...? slkjslfjsf mas sem brincadeira agora... eu ficaria extremamente feliz com comentários :) esse capítulo encerra o primeiro arco da história, e não se preocupem, ela terá um fim. não posso prometer a vocês que vai ser em breve, mas eu vou finalizá-la, eventualmente. Obrigado por ler :)

qualquer coisa, vocês sabem aonde me achar:

twitter: https://twitter.com/merdernest
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