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História Guardiães Alpha: Portal das Almas - Capítulo 51


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Capítulo 51 - II - 08. História de Karin: Opostos e Complementares


24 de setembro; Ano 08

01:09 hrs.

 

Karin vira de um lado para o outro na cama, mas não sente sono algum. Está frustrada, nunca levara tanto tempo assim para fazer uma nova criança no orfanato se apegar a ela. Faz um mês desde a chegada daquele garoto asiático e ela nem sequer ouviu a voz dele ainda. Na verdade, ninguém conhece a voz dele. Ele vive afastando todas as crianças, muitas das vezes sendo frio e cruel, ignorando completamente ou indo embora quando alguém se aproximava.

Os outros órfãos desistiram de tentar amizade com Yuta ainda na primeira semana, mas Karin era persistente e continuara tentando se aproximar dele, sem êxito algum. Todas as suas investidas, sem faltar um dia sequer, eram só frustrações ridículas que a faziam, como nessa noite, perder o sono.

Fechando os olhos com força, Karin relembra daquela primeira vez que eles se viram. Ainda não entendia o que exatamente havia acontecido. O mundo à volta parecia ter perdido a noção do que era tempo e espaço e eles simplesmente estavam em uma conexão somente deles. Ela ficara encarando aqueles olhos negros do Yuta hipnotizada, sem saber como exatamente faria para se aproximar dele, tocar ele, abraçar ele, dizer que está tudo bem e que eles haviam, enfim, se encontrado. O motivo para ela ter esse tipo de pensamentos era uma incógnita, pois, mesmo que tenha pensado em diversas coisas, nada lhe dava uma resposta satisfatória. A resolução que mais lhe agradou foi alguma experiência de vida passada entre eles, já que pensara bastante nisso.

Depois dessa conexão, que foi quebrada pela irmã Wilsa que chamara a atenção do Yuta. Depois desse instante, que para eles foram uma eternidade, mas que na verdade não tinha passado de meros segundos, eles nunca mais nem sequer se encaram.

Karin solta o ar pela boca desistindo de tentar dormir. Olha pra cabeceira da cama e vê um relógio digital marcar uma e onze da manhã. As crianças do orfanato estão proibidas de deixar seus dormitórios após as vinte e duas horas, mas Karin nunca se importara com essa regra. Apesar de ser a certinha entre os órfãos, quando podia, sem ninguém saber, dava uma volta no orfanato pela madrugada, quando sofria de insônia.

Abrindo uma gaveta do móvel ao lado, Karin puxa uma lanterna que mantém escondida dos demais e lentamente se levanta. Retira o cobertor de cima de si e imediatamente se arrepia. É temporada de chuva e frio no país, e desde o mês passado, esse clima de chuva torrencial era comum. Mais uma vez as gotas d´água castigavam as janelas e o frio era quase insuportável.

Tocando o chão gelado com os pés descalços, Karin aperta os lábios com força, esperando a sua pele aceitar aquela temperatura. Logo depois, ela se levanta com toda a sua tranquilidade, sem fazer barulho algum, ultrapassando as demais camas onde suas irmãs dormem e sonham aconchegadas embaixo de seus cobertores. Karin sente um pouco de inveja pois também gostaria de estar dormindo, mas infelizmente como não pode ter seu desejo insaciado, ela se contenta com mais um passeio da madrugada.

Abrindo a porta lentamente, fazendo o menor som possível – pois aquelas portas de madeira do orfanato rangem demais, ou melhor, toda a estrutura do lugar é do início do século passado. Olhando de um lado ao outro e não vendo movimento algum, Karin liga a lanterna e se adianta pelo corredor.

Seus passeios costumam vagar por todos os lugares. Da cozinha até as salas, os diversos corredores, em todos os andares e sempre terminava na sala de diversão, onde há quatro computadores antigos. Cada criança possui um tempo limitado para acessar a internet se assim quiser, mas isso só é apreciado pelas mais velhas. Aqueles que ainda são novos preferem brincar ou assistir desenho animado na televisão. Ela mesma não é fissurada pela internet, não possui redes sociais e tem costume de encontrar jogos online. O máximo que ela faz, quando enfim vai acessar a internet, é procurar vídeos ou documentários sobre torneios envolvendo jogos de tabuleiro ou competições estratégicas. É sua paixão, não tem como negar.

Só que dessa vez ela quer ir lá ligar um computador e passar alguns minutos apreciando o que puder encontrar. Na verdade, ainda está pensando em sua cama quentinha e gostaria realmente de poder dormir. Então seu plano dessa vez é somente ir na cozinha beber um copo de água, usar o banheiro e retornar ao dormitório feminino.

Após se hidratar e se aliviar, Karin já retornava ao seu quarto quando vê um movimento com o canto dos olhos vindo da sala principal. Ela para, olhando naquela direção, procurando a fonte daquilo que chamou sua atenção. Não parecia haver ninguém, nem mesmo alguma tia cuidadora do orfanato que havia a pego em flagrante quebrando uma regra do recinto.

Encucada com o que viu, Karin desiste de retornar à sua cama e se encaminha para a sala, sua lanterna ligada, focando em todos os lados em busca da fonte de movimento minutos antes.

Não parecia haver ninguém ali. A sala estava completamente vazia. Suspirando, pensando que poderia estar vendo coisas, estava para se virar quando sente alguém a segurar por trás e uma mão tapar sua boca, impossibilitando-a de gritar.

A adrenalina toma conta de sua mente e um medo aterrorizante tenta lhe dominar. Com os olhos arregalados, tenta entender a situação, ao mesmo tempo que pensa numa maneira de se livrar daquele agarro, mas fora pegada completamente de surpresa que não raciocinava direito.

— Relaxa, eu não vou te fazer nenhum mal. — Uma voz masculina soa no ouvido direito dela, sussurrando calmamente. — Eu só não queria que você gritasse e acordasse todo o lugar. Você promete que se eu te soltar, você não vai gritar?

Karin balança a cabeça aceitando aqueles termos. Após ouvir a voz dele, ela se tranquilizara e reparara que a mão em sua boca era pequena demais para ser de algum invasor. Só podia ser uma outra criança e como não reconhecera a voz, ligou imediatamente ao novato que adora manter-se recluso.

Enfim ela pode o ouvir falando, e tentava ao máximo não sorrir de felicidade por isso.

— Lembre-se, se você gritar e acordar as irmãs, nós dois seremos punidos. — Ele avisa, afrouxando seu aperto até enfim a libertá-la.

Karin logo se vira e joga a lanterna no garoto, que leva as mãos ao rosto, escondendo os olhos daquele brilho intenso repentino.

— O que você pensa que está fazendo me assustando dessa maneira? — Ela indaga um pouco furiosa, pois apesar de ter ficado feliz em finalmente vê-lo se abrindo para ela, permitindo sua aproximação, isso não abafa o susto e temor que ela sentira.

— Desculpe, eu só não queria que você gritasse. — Ele se desculpa, com um sorriso bobo no rosto, que imediatamente afrouxou o coração de Karin.

— Tudo bem, sem problemas. — Ela fala, segurando um dos braços incomodada. Esteve o mês inteiro tentando conversar com aquele garoto e agora que enfim conseguira, eles se encontravam sozinhos e isso a deixou encabulada.

— Está sem sono também? — Yuta indaga, demonstrando estar mais a vontade, indo até um dos sofás e se sentando fogosamente. — Vai ficar em pé aí?

Karin não evitou um riso de descrença. Yuta revelava ser uma criança reclusa e tímida, mas agora que enfim decidiu falar, se mostra alguém totalmente diferente. Confiante, determinado e, para sua irritação, cheio de ego. Ele possuía aquele olhar como se fosse superior e isso ela não deixaria tão barato assim.

Karin, colocando um sorriso cínico no rosto, se aproxima e senta ao lado, confortável, cruzando as pernas em uma pose de durona. Ela não se deixava intimidar tão facilmente.

— Sabe Yuta, eu estou aqui nesse orfanato por quase toda a minha vida. — Ela começara a contar, intrigando o garoto que a encarava curioso. — Eu conquistei a amizade de toda e qualquer criança que está aqui, ou já esteve, sem contar que tenho plena e completa confiança das irmãs que tomam conta de nós. Eu sou carinhosa, amável, ajudo a todos quando necessitam e sou a principal responsável por acalmar os nervos das demais crianças quando elas entram em brigas ou começam a fazer birra.

— Tá, mas o que tem isso? — Ele indaga confuso, ainda se perguntando onde diabos ela queria chegar com aquela declaração.

— Bem, por outro lado, meu caro menino cheio de ego, você é novo, se desfez com frieza e arrogância toda investida das crianças em se aproximar de você e, sendo pior ainda, já desobedeceu diversas regras desse lugar, e tudo isso em apenas um mês. Então, para que possa entender melhor, se por acaso você continuar com essa mania de querer se achar superior a mim e ficar me irritando com esse sorriso de escárnio, eu não terei problemas em gritar para acordar a todos. Mesmo que venhamos a ser castigados, eu posso dizer que você me chamara aqui de madrugada e eu, como uma garota inocente que só quero ver o bem dos meus irmãos, quebrei a regra das vinte e duas horas para tentar novamente uma aproximação amigável com você, e digo que na verdade era um plano seu para me fazer mal. Em quem você acha que elas vão acreditar? Em mim, ou em qualquer coisa que você vá dizer?

Era inevitável. Yuta começara a rir descontrolado, surpreso pela ousadia da menina loira ao seu lado. Ela não demonstrara medo, nem inveja, ou rancor. Ela foi de encontro a seu mecanismo de defesa e o desfez sem grandes problemas. Ele tinha de ser sincero, nunca esperara que alguém conseguiria ganhar sua confiança tão rápido... não depois que tudo aquilo aconteceu em sua vida.

— Do que está rindo, imbecil? — Karin cruza os braços, ainda mais irritada com aquela reação do garoto. Como ele poderia ser tão prepotente dessa maneira?

— Desculpe. — Ele enfim diz, se recompondo e virando na direção da loira. — Você é diferente dos demais que moram aqui.

— O que você quer dizer com isso? — Karin quis saber.

— Os adultos daqui não se importam muito conosco, a não ser para que sigamos as ruas regras estúpidas e dar uma boa imagem do local, mas não pode negar que poucas delas fazem algum caso de criar laços com as crianças.

— Sim, nisso você tem razão. — Karin afirma. Apesar de gostar do lar em que mora e de todos que ali residem, ela sempre escondeu o desgosto por não serem tratados tão bem quanto merecem pelas irmãs cuidadoras.

— E os outros órfãos, — Yuta complementa. — bem, eles desistiram fácil demais. Quando eu os ignorei, eles simplesmente deram as costas e nem quiseram mais saber de mim. Por outro lado, você continuou, por todos os dias nessas semanas em que vim pra cá, a se aproximar de mim, a criar laços, a me fazer sair da bolha de reclusão em que me enfiei.

— Eu não costumo desistir tão fácil.

— É exatamente por isso que eu disse que você é diferente. Tem uma força de vontade muito mais forte do que os demais daqui. E sabe, tenho de admitir, comecei a gostar de você e gostaria de realmente me aproximar de você.

Karin sorri. Ela queria ouvir aquilo desde que o viu pela primeira vez. Ele foi o seu trabalho mais difícil, mais duradouro e muitas vezes ela mesma chegava a pensar em desistir. Mas persistiu e enfim conseguiu êxito.

Todo e qualquer pensamento sobre vitória conquistada se desfez quando Karin ouve as próximas palavras de Yuta.

— Quando eu encontrar a criança que está aqui, eu vou tirá-la daqui e seguiremos em busca dos demais.

— O que você está falando?

Yuta a encara incrédulo consigo mesmo. Ele não deveria ter dito aquilo em voz alta, mas agora que não tinha mais volta, ele suspira. Não faria muita diferença mesmo se ela soubesse ou não.

— Eu não sou um humano comum Karin, e há outra criança além de mim que mora nesse orfanato que também não é.

Erguendo sua mão direita, Yuta cria um vórtex negro à frente, fazendo-a aumentar de tamanho. Karin arregala os olhos vendo aquilo acontecer, sua mente encontrando dificuldades para processar. Yuta, por sua vez, pegara uma almofada do sofá e jogara para trás. Acompanhando com os olhos o objeto arremessado por ele, ficara impressionada quando viu que havia outra vórtex idêntica atrás. A almofada atravessou a do fundo e surgiu na da frente, voltando para Yuta, que simplesmente a segura e coloca de lado.

Ele desfaz o seu poder e encara determinado a loira ao seu lado, que ainda se mostra aturdida com o que houve.

— Como você conseguiu fazer isso? — Karin indaga.

— São poderes que possuo, cada Alpha possui habilidades especiais físicas em comum, e magias específicos para cada, e há outra criança além de mim aqui nesse orfanato.

Então, de repente, Karin começa a rir, e a risada vira uma gargalhada desenfreada. Ela se encontrava vermelha por fazer esforço demais, pois se deixasse acordaria todo o lugar. Yuta ficou chocado, observando a menina ao seu lado, que do nada se viu no meio de algum filme de comédia escrachada.

Yuta não fez nada, somente ficou esperando a loira se acalmar e explicar o que diabos havia acontecido com ela.

Após uns bons minutos em que Karin tentava se controlar, mas logo voltava a gargalhar, até enfim conseguir se segurar. Ela até chorara e limpava as lágrimas quando falou algo.

— Desculpe Yuta, eu juro que não faço ideia do motivo que me fez rir dessa forma. — Karin encontra-se mais tranquila, respirando fundo. — Você me causa essa reação.

O asiático continua a encarando, até suspirar e relaxar melhor.

— Eu acho que você que é a sem noção aqui. — Diz simplesmente.

— Você não precisa mais procurar essa criança, pois você acabou de encontrá-la. — Quando Yuta a encara sem entender, ela sorri. — Bom, eu já levantei a geladeira da cozinha com uma única mão, isso conta como algo em especial?

Era como se ele tivesse levado um soco na face. Yuta abre a boca em um “O” perfeito, mas logo retoma a realidade. Com um impulso, ele se aproxima de Karin e segura o alto do pijama dela, baixando até a área dos seios ficar descobertos. Karin ficara tão chocada com aquele ato do menino que nem sequer teve reação. Só após alguns instantes paralisada, com Yuta a observando fixamente, que ela ergueu as pernas e o empurra de cima dela e para fora do sofá. Yuta cai estatelado no chão, sentindo uma fisgada de dor na cintura.

— O que diabos você está fazendo? — Ele pergunta, levantando-se e levando as mãos nas costas, fazendo uma careta devido a dor.

— O que estou fazendo? — Karin dispara irritada, mas ainda mantendo a voz baixa para não os entregar aos demais que estão dormindo. — O que merda você está fazendo, garoto?

Yuta enfim a nota com a feição irada, os braços envoltos da região dos seios, o corpo tremendo. Só então ele percebe o que fez por impulso, então ele próprio fica encabulado e balança a cabeça de um lado a outro.

— Desculpe, não era minha intenção... — Yuta começa a dizer, mas depois se pergunta o que exatamente pode fazer para diminuir um pouco da fúria da loira, então toma uma decisão. — Eu só queria provar que você é como eu.

Dito isso, Yuta abaixa a própria camisa para revelar sua marca no peito.

O efeito foi imediato.

Karin se levanta abruptamente e se aproxima de Yuta, os olhos esbugalhados, a curiosidade e admiração estampados em sua feição.

— É como minha marca de unicórnio, mas essa é... — Ela fala, apontando para o peito de Yuta.

— Só que o meu é um grifo. — Yuta complementa, respirando fundo agradecido por ela ter se envolvido com aquilo e ter perdido toda aquela raiva pelo seu ato ridículo.

Nesse instante, ele sente a presença de alguém nas sombras os observando e então se concentra. Imediatamente reconhece de quem se trata e sorri.

— Karin, acho que tudo será melhor se a sua guardiã conte tudo que você precisa saber. — Yuta fala e aponta para a entrada da sala.

Karin fica observando alguém sair de um canto escuro e se aproximar lentamente. Devido à pouca luz do ambiente, ela demora um instante para reconhece-la.

— Tia Saga! — Karin exclama.

Saga se aproxima sorridente.

— Acho que está na hora de você saber de toda a verdade.

Por cerca de duas horas, os três ficaram conversando, sentados no sofá. Quem mais falava era Saga, revelando tudo que Yuta já sabia, mas que Karin precisava entender. Falara sobre a origem dos Alphas – que não humanos comuns, mas sim um trabalho feito por Deus – para que possam treinar suas habilidades e, quando uma guerra eminente vier a acontecer, eles possam ser a esperança da humanidade.

Saga também revela que nunca treinou Karin em combate pois não é sua especialidade. Ela fora criada como um anjo guia, responsável por guiar as almas perdidas ou dá-lhes o caminho correto quando chegassem ao Plano Divino. Então, por não ter dons de anjo guerreiro, ela ficara tranquila quando descobriu que sua Alpha tem uma noção de estratégia e bolar planos que surpreende a todos, assim como impressionou a ela, então veio a ajudando a fortalecer esse dom que a garota possui.

Por fim, ela pediu encarecidamente que Yuta, que fora treinado em artes marciais distintas desde os três para os quatro anos, pudesse ajudar Karin a se fortalecer, prometendo que, quando ele conseguisse romper mais um selo e Karin perdesse o seu primeiro, ela mesma os levaria para encontrar os demais Alphas.

E com essa promessa, os treinos de Karin com Yuta se dera início. Saga sempre dava um jeito para eles irem até um terreno baldio que fica a dois quarteirões do orfanato. Duas vezes por semana, sempre ao entardecer.

No começo, como era de se esperar, Yuta levava vantagem e vencia todos os combates. Sua vantagem se expandira de uma forma que parecia nunca ser alcançado. Até que ele aprendeu na própria pele o que Saga quis dizer com Karin ser uma mestra estrategista. Com o passar do tempo, Karin entendera o modo de luta do Yuta e começara e revelar modos de derrota-lo e neutraliza-lo. A partir desse ponto, Karin começou a reduzir drasticamente a diferença entre eles até que se encontram empatados com cento e cinquenta vitórias para cada um. Yuta pode ser melhor em combate e uso de feitiço de ataque, mas Karin tem mais vantagem em combate estratégico e defesa.

Um completava o outro.

Yuta, o combatente de fronte, poderoso a ponto de romper qualquer barreira, enquanto Karin é a defesa, a mente dos dois, aquela que orquestra a vitória.

E assim, passaram-se mais de um ano

 

 

20 de dezembro; Ano 09

16:48 hrs.

 

— Yuta, acho que combinaria perfeitamente com você. — Karin brinca, apontando para dentro de uma vitrine de loja, onde há um casaco rosa com o desenho da Pantera-cor-de-rosa.

A amizade entre eles evoluiu até um ponto em que só existia eles mesmos no mundo quando estavam juntos. Não entenda errado, Karin continuava a “mãezona” dos demais órfãos, cuidava e acalentava todas as crianças como sempre fez, mas isso acabara por reduzir um tanto devido ao tempo que começara a passar ao lado de Yuta.

A primeira vez que todos do orfanato perceberam a aproximação deles fora um choque.

Yuta tomava seu café da manhã sozinho, como sempre. Nenhuma criança queria mais se aproximar dele. Então Karin adentra a cozinha, pega sua parte e se aproxima de Yuta. Ninguém dera atenção, mas logo arregalavam os olhos e boca quando ela dera bom dia a ele, e Yuta responder com um sorriso estampado nos lábios.

Até mesmo as irmãs que cuidavam dos órfãos ficaram surpresas, pois nem mesmo elas haviam conseguido uma aproximação do garoto.

Karin, como sempre fazia, conseguira o carinho de mais um.

Ela era impossível de se controlar.

Com o passar dos meses, Yuta fora pegando amizade com os outros, meio que forçado por Karin. Ele tem essa mania, ou melhor, como Karin acredita que seja, ele parece ter um certo receio, para não chamar de medo, de fazer amizade. Com certeza algo aconteceu na vida dele antes de chegar ao orfanato.

Tentara algumas vezes perguntar sobre o passado dele, mas, ou ele ficava irritado e se afastava, ou fechava a cara e ela só conseguia sua atenção novamente se falasse de outro assunto.

— Se você comprar pra mim, eu prometo usar. — Yuta brinca, passando um braço pelos ombros de Karin.

— Deixe de ser idiota, sabe que não tenho dinheiro, nós somos órfãos, esqueceu? — Karin repreende, mas não evita um tom divertido em sua voz.

— Tecnicamente você não é órfã, a sua guardiã ainda está com você. Só estão no orfanato pois assim você teria outras crianças para brincar e a Saga poderia estar em um lugar onde pudesse usar devoção a Deus sem problemas. — Yuta explica.

— É, eu sei.

Ambos ficam em silêncio, avaliando o interior da loja. O clima frio e o tempo nublado revelava que não estava longe de nevar. Karin se aconchegou melhor nos braços de Yuta, aproveitando o raro momento em que eles podiam sair para passear.

Yuta estava para dizer algo quando seu instinto é ativado. Na esquina ali perto um carro atravessa o sinal vermelho em alta velocidade, pois estava sendo perseguido pela polícia. Um outro veículo que andava corretamente, precisara de última hora se desviar do transgressor. Infelizmente, o motorista perdera o controle do automóvel e entrara na contramão, chocando-se violentamente com um caminho de carga.

O veículo menor então capota várias vezes, indo exatamente na direção de onde Yuta e Karin estavam. No impulso, ele se choca para o lado, puxando Karin consigo. O carro passara a centímetros deles e adentrou a loja. Entretanto, antes disso acontecer, Yuta assiste aterrorizado o corpo de uma criança ser arremessado violentamente para fora do carro e ser arremessada para o meio da rua, onde caiu sem movimento algum, o corpo numa posição impossível para um corpo humano estar.

Yuta imediatamente se levanta e corre até a garota. Ela ainda respirava, mas com muita dificuldade. Os ossos dos seus quatro membros estavam quebrados, além de hemorragia externa por todos os orifícios do corpo, praticamente. Não havia mais nada a fazer, aquela menininha infelizmente morreria.

Quando estava prestes a se levantar, Yuta se assusta com uma quantidade absurda de poder vindo de suas costas. Ao se virar, nota Karin se aproximar lentamente, os olhos em completo brilho. Ela liberada uma rajada de energia poderosa demais, o que fez ele entender.

Ela havia rompido seu primeiro selo.

Ver aquele acidente terrível diante de seus olhos fora o suficiente para faze-la entrar em choque e ter um golpe emocional o suficiente.

Yuta se preparava para dar um jeito de faze-la dormir, quando Karin se ajoelha ao lado da menininha e ergue sua mão esquerda sobre ela. Uma rajada de energia branca cobre o corpo da menina e Yuta assiste maravilhado o corpo daquela criança se reconstituir em uma velocidade absurda. Karin estava salvando a vida dela, consertando todo e qualquer problema que havia se instaurado naquele corpo infantil.

Yuta nem sequer se preocupou com o fato de que sua amiga estava sendo vista e filmada pelos curiosos, e isso poderia não terminar muito bem.

Para ele, naquele momento, o que mais importava era que Karin era o oposto completo dele.

Ele era as sombras, o detentor do dom negro e com uma magia negativa.

Ela, por outro lado, possui o dom da luz, o poder de curar e salvar a vida das pessoas.



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