História Guerra e Paz - Capítulo 35


Escrita por: ~

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Categorias Saint Seiya
Personagens Afrodite de Peixes, Albion de Cefeu, Camus de Aquário, Dégel de Aquário, Hades, Ikki de Fênix, Io de Scylla, Isaak de Kraken, June de Camaleão, Kagaho de Benu, Kardia de Escorpião, Mascára da Morte de Câncer, Miro de Escorpião, Poseidon, Saori Kido (Athena), Shaka de Virgem, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda, Shun de Virgem, Sorento de Sirene
Tags Atena, Athena, Camus, Dégel, Hades, Kárdia, Kimonohi Tsuki, Lost Canvas, Milo, Mistério, Next Dimension, Poseidon, Saga De Hades, Shun, Shun De Virgem, Submundo
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Palavras 6.838
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Luta, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 35 - Capítulo XXXIV - Lealdade, amor e devoção -


Fanfic / Fanfiction Guerra e Paz - Capítulo 35 - Capítulo XXXIV - Lealdade, amor e devoção -

Capítulo XXXIV - Lealdade, amor e devoção.

A residência pessoal de Áries era um pouco maior que a maioria das demais do santuário, além do pequeno quarto comprido de cama de pedra, uma cômoda e um diminuto armário velho, havia um quarto de banho, cujo único verdadeiro luxo das paredes de mármore frio e roído era uma pequena banheira também de pedra, afinal de contas, haviam sido os gregos os percursores dos banhos quentes.

Kiki usava uma bomba de manivela feita de bronze, estrutura tão antiga quanto o próprio santuário, para encher com um pouco de água um bule de latão sobre a pia, para se dirigir até o cômodo extra que era utilizado para guardar ferramentas e algumas armaduras, nela havia uma média mesa de trabalho feita em carvalho. Este espaço de serviço mais privado acabava tornando a primeira casa uma das maiores das terras de Athena.

Porém, o novo morador desse lugar possuía mais do que instrumentos e vestimentas de batalha que haviam perdido sua vida e brilho, sobre a mesa de forma bem organizada, era possível ver também aparelhos médicos como otoscópio, oximetro, estetoscópios e esfigmomanômetro, cilindros de vários tamanhos com líquidos de cor variada, tubos de ensaio, entre outros.

Milo esperava sobre um pequeno banco baixo de madeira, no corredor entre os três recintos, observando impaciente como Kiki ia de um lado a outro, mexendo em várias coisas diferentes. Até deixar o bule de latão sobre um bico de bunsen, e quando a água atingiu a temperatura desejada, se virou para o escorpiano com uma pequena agulha de costura em mãos, e um pano de linho branco, ligeiramente úmido com o liquido quente.

- Quando foi a última vez que você comeu? – Questionou o ariano aproximando-se.

- ... – O mais velho fez um pequeno silêncio, bufando resignado em seguida – Ontem à noite, eu acho.

- Você acha? – Franziu a expressão em desgosto, parando frente ao outro.

  - Isso é mesmo necessário? – Questionou o grego claramente desgostoso.

- O que foi? O escorpião tem medo da picada de uma agulha? – A provocação surgiu o efeito desejado, pois com outro bufo irritado, Milo recolheu as mangas e ofereceu seu antebraço esquerdo para o mais novo, que o tomou entre as mãos e furou alguns milímetros da pele, evitando os vasos sanguíneos. Depois entregou o pano, para ajudá-lo a impedir que o sangue escorresse por suas roupas.

Sem dizer mais nada, Kiki voltou à sua bancada, pegou um relógio de bolso muito antigo e colocou na mão direita do outro cavaleiro, sem qualquer explicação, como se esse ritual já tivesse sido realizado diversas vezes antes. Escorpião passou a olhar desinteressadamente para os ponteiros, enquanto seu companheiro outra vez mais voltava sua atenção aos seus aparelhos, procurando algo em uma gaveta na parte de baixo da superfície de madeira.           

- Por qual razão Ikki estará de volta depois de tanto tempo? – Teve a necessidade de falar alguma coisa, o silêncio prolongado continuava sendo algo que o incomodava enormemente, ainda mais quando se encontrava ansioso.

E mesmo que tentasse disfarçar, esses exames sempre o deixavam tenso. Já estava conformado com a ideia de que morreria em breve, talvez a qualquer momento, não seria mais capaz de abrir os olhos, já havia aceitado essa dura realidade.

Porém cada vez que alguém, que sabia de seu estado, o olhava com preocupação, tentando fazer algo mais para impedir o inevitável, começava a se sentir nervoso, não por si mesmo, mas por todas as pessoas que direta e indiretamente estavam sendo atingidas. Era como se não fosse apenas ele o doente no final das contas.

Camus podia realmente acreditar que ele não notava, mas a apreensão e a expectativa pelo pior estava presente cada vez que acompanhava uma recaída. Era algo sutil presente na postura do guerreiro sempre frio que ocultava suas emoções, mas sendo seu melhor amigo há mais de trinta anos, esses sinais eram claros como faróis.

Era isso o que realmente o afligia. Pois durante a guerra, todos esperam mortes a todo o momento, lidando com elas como uma fortaleza de aço. Agora durante a paz, qualquer perda prematura transforma-se num grande baque, um golpe sólido contra uma parede de papel.

-...E desde então, nunca mais o vimos. – Notou tardiamente que Kiki tinha respondido sua pergunta, porém só havia escutado o final de sua resposta.

-... Talvez seja algo relacionado com essa pessoa que te pediram para esperar? – Resolveu continuar o assunto mesmo assim, decidido a limpar sua mente desses pensamentos de instantes antes.

- Eu não sei, o Grande Mestre não me deu muitas informações.

- Shiryu sabe fazer mistério quando quer.

- Eu não tenho certeza se mesmo ele sabe quem é.

- Como assim? Algo de Star Hill?

- Provavelmente.

Após isso a conversa se encerrou, para aborrecimento de Milo, que rapidamente tornou a ficar nervoso, encarando o andar do relógio.

- Quanto tempo? – Kiki voltou a estar na sua frente, com uma seringa em mãos, vendo o ferimento que ainda produzia sangue.

- Seis minutos. – Declarou simplesmente, passando o pano sobre líquido sem esperar resposta, para entregá-lo de volta ao ariano – Ruim o suficiente para você?

Áries não respondeu, pedindo novamente o antebraço, dessa vez esquerdo, coletando com a seringa uma amostra de sangue. Levou o objeto até um dos tubos, deixando o pano sobre a mesa, para logo voltar com uma seringa mais, dessa vez injetou na veia do escorpiano, em seguida, fechou seus olhos e concentrou seu cosmo nos pontos que escorriam sangue, forçando-os a finalmente se fecharem.

- Eu não forcei a coagulação, apenas parei o sangramento, mas os fatores que eu transfundi devem bastar.

- “Devem”

Kiki suspirou profundamente, encarando os olhos safiras do Escorpião.

- Seu corpo está criando anticorpos contra nossa intervenção, tornando-as ineficazes, mas ainda podemos aumentar a dosagem de concentrados de plasma, ou utilizarmos de drogas para reduzir os níveis dos anticorpos. – Explicou calmamente, ao tempo que o mais velho não parecia nem um pouco convencido – Milo, se você desistir, nada do que estamos fazendo fará sentido.

- O que vocês estão fazendo não faz sentido desde o princípio – Colocou irritado, apoiando o queixo sob a palma de uma das mãos.

O ariano não respondeu, analisando a expressão abatida e resignada de seu irmão de armas.

- Izo saiu a sua procura mais cedo, você acabou tomando a medicina de Afrodite de novo? – Mudou a questão.

- O remédio que você me deu não estava fazendo efeito, meus braços estavam doloridos e eu estava cansado, não tenho dormido muito bem. – Declarou simplesmente. 

- Se os edemas forem frequentes e não receberem tratamento adequado, você pode acabar perdendo os movimentos dos braços. Precisa ter cuidado.

- Influir-me-ei a antares a mim próprio antes de algo assim. – Levantou-se bruscamente. – Posso ir embora agora?

Sua intenção não era ser rude com o jovem cavaleiro que por tantas vezes havia o ajudado tanto, mas essa conversa o estava sufocando.

- Só mais uma coisa – Kiki seguiu encarando os olhos claros contrários – Você disse que seus braços estavam doloridos, provavelmente efeito de algum edema. Porém – Apontou para os membros descobertos – Mas eles parecem em bom estado, sem qualquer marca e você não pareceu ter dificuldade de movimentá-los para apoiar seu queixo, agora a pouco.

Milo piscou, apesar do cansaço que sentia, de fato, não havia mais dor em seus braços. Os movimentou para ter certeza, mas além de onde haviam sido feitas as picadas, não sentia mais nada.

- Verdade, talvez essa doença esteja afetando minha cabeça. - Encarou estranhado seus movimentos fluídos.

- Quem te acordou para vir para cá? Apenas eu, Afrodite e Camus sabemos dos frutos da Sorveira que você guarda no bolso.

- Foi Camus, Kiki, agora podemos parar com esse interrogatório? – Começava a realmente perder a paciência. E isso nunca antecedia algo bom.

- Tudo bem, mas dá próxima vez que sentir um desconforto, me procure antes de se isolar em algum lugar distante como um gato moribundo – Anunciou em tom severo, devolvendo seus aparelhos de volta à sua mesa, e começando a caminhar em direção à saída da residência privada, colocando sua mão contra o mármore e abrindo assim a passagem da parede – Se não posso te garantir que será a força.

Um sorriso finalmente se formou nos lábios do guardião da oitava casa.

-  Você parece o Mu quando age assim. Agora sim você está falando a minha língua. Isso sim seria muito mais interessante, adoraria ver você tentar – Impôs com arrogância, estralando seus dedos, com o indicador em riste, seguindo o mais novo para o salão principal da primeira casa. 

- Para alguém que já se considera morto, você ainda tem bastante espírito de luta – Sorriu, sentindo-se mais aliviado com essa mudança de atitude.

- Não sou tão aficionado ao combate quanto meu antecessor era, mas mesmo morrendo jamais recusaria um bom desafio. – Sorriu com altanaria. – De qualquer forma, obrigado por sua ajuda Kiki, nos vemos no salão do Grande Mestre, eu irei indo na frente enquanto nosso misterioso visitante não chega.

- Tudo bem, até mais tarde, e cuidado ao subir, lembre-se qu- Mas o escorpiano já começava a ir embora.

- Sim, sim, eu sei! – E correu em direção a escadaria de touro, até desaparecer de vista.

Áries suspirou longamente, tornando a pegar o livro que havia guardado no vão da bota de sua armadura. Fabulae de Higino, porém seus pensamentos estavam distantes.

- Camus, Camus...Afrodite tem razão, você está fazendo alguma coisa...- Meditou em voz alta, enquanto voltava para a página que havia marcado antes, a preocupação não o abandonando. - ...Resta saber o que...

Não pôde deixar de recordar-se de uma figura que o alertou sobre isso, vinte anos atrás.  

  - Ainda assim, eu pretendo manter minha palavra...Kardia.

-.-.-.-

- Está tudo bem, senhor  Suikyo? – Questionava uma jovem de aparentemente doze anos, usava uma armadura de prata, possuía longos e compridos cabelos castanhos claros, quase loiros. Não possuía sobrancelhas convencionais, em seu lugar havia dois pontos de cor lilás, relevando sua descendência. – Quer que eu chame o mestre Kiki?

- Não é necessário Hayata, eu estou bem – Tranquilizou o cavaleiro de prata mais velho, sentado contra um dos pilares do primeiro Partenon, sendo atenciosamente vigiado por duas jovens.

- Tem certeza? – Uma outra de aparência mais velha questionou, possuía longos cabelos castanhos que iam até seus joelhos, olhos mel vivos, de uma tonalidade quase avermelhada, trazia consigo uma expressão pacífica, mesmo trajando a armadura de Pégaso. – O senhor deve ter se esforçado demais na viagem.  Talvez deva passar na fonte de Athena.

- Eu posso levá-lo lá se precisar – Ofereceu-se Hayata.

- Não se preocupem  – Mostrou que conseguia levantar-se sem dificuldade – Estão vendo? Suite tem razão, deve ser apenas fruto do cansaço, ainda assim, não se preocupem, eu ia mesmo me dirigir até a Fonte para ver meu irmãozinho, lá tomarei um devido descanso.

- Muito bem então, tenho certeza que o pequeno Suisho ficará muito feliz em revê-lo – Anunciou a mais velha com um sorriso caloroso – Aproposito senhor Suikyo.... Você, e os mestres Dohko e Shion pretendem permanecer no santuário essa semana?

- Por causa das celebrações de Aquário? – Questionou o cavaleiro, como resposta Suite confirmou com um sorriso. - Nossos planos eram chegar no final deste mês, não tenho clara a razão pela qual Mestre Dohko insistiu em que chegássemos mais cedo, talvez tenhamos alguma ideia depois dessa reunião inesperada dos cavaleiros de ouro. Porém eu acredito que sim. Devemos, provavelmente, permanecer até a nomeação de Albafica.

- Isso é muito bom, tenho certeza que vocês gostarão das festividades.

- Esse ano, como aprendiz de Aquário, Suite que vai abrir o evento – Informou Hayata, embora sua expressão seguisse séria. – Por isso todos têm certeza de que será um sucesso, ela sempre foi muito talentosa.       

A amazona de Pégaso pareceu constranger-se, sorrindo docemente.

- Você apenas está sendo gentil Hayata.

- Eu não sou do tipo que diz as coisas para ser gentil, Suite – Alertou a lemuriana em tom demandante para sua companheira – Muito embora sempre te achei muito simpática e amável para ser uma aquariana.

- Meu mestre costuma dizer que se eu continuar sendo assim eu jamais serei a Amazona de Aquário, mas sinceramente, isso não me importa muito – Disse com tranquilidade, imperturbável. – Mesmo sendo impassível no campo de batalha, não devo ter o que é necessário para ter um coração de gelo.

Suikyo apenas suspirou longamente, ao tempo que Áries franzia a expressão irritada.

- Hyoga se mantém sútil como sempre – Comentou simplesmente Taça.

- Você não poderia ter um mestre pior – Impôs a mais nova, contudo, ponderou por alguns instantes, para logo acrescentar – Com exceção de Rômulo ou Shaka, talvez.

- Mestre Hyoga não é tão ruim assim depois que você se acostuma – Explicou com um sorriso suave – Tenho certeza que o Senhor Camus também costumava ser um mentor muito severo. De qualquer forma senhor Suikyo – Tornou ao cavaleiro -Começaremos a organizar tudo uma vez que tenhamos cumprido uma tarefa designada pelo Grande Mestre, só depois do início do crepúsculo, mas as celebrações se iniciarão à meia-noite, ao nascer do dia 21. No principal coliseu de treinamento. 

- Que tipo de abertura será? – Questionou curioso.

Para tanto, Suite deu uma piscadela, sorrindo misteriosamente enquanto colocava o dedo indicador sobre os lábios.

- Isso é um segredo, o espetáculo só começa depois que são abertas as cortinas, até lá é preciso aguardar o inicio do primeiro ato.

Suikyo apenas franziu as sobrancelhas, a filha adotiva de Seiya de Pégaso às vezes podia ser uma mulher verdadeiramente misteriosa, sábia e astuta, não à toa Athena a havia consagrado como uma de suas damas de companhia, apesar das reticencias de Hyoga.

- Muito bem então, estarei lá – Fez uma sutil reverência – Tenham uma boa tarde, e boa sorte com as preparações, devo ir até meu querido irmão agora.

- Traga-o também, um pouco de ar fresco o fará muito feliz – Disse calorosa Pégaso, ao que o guerreiro de prata apenas confirmou com a cabeça, começando a se afastar. –Tenha uma boa tarde também.

Hayata nada disse, apenas observando o outro se afastar.

- Eu não acho que seja apenas cansaço – Revelou assim que a figura masculina desapareceu – Ele viaja o mundo com mestre Shion e Mestre Dohko há anos, em busca de possíveis novos cavaleiros. É impossível uma simples viagem cansá-lo.

- Muitos homens tem a necessidade de se mostrar fortes o tempo todo Hayata – Disse sabiamente a mais velha, também olhando para a direção que Suikyo havia desaparecido – Por orgulho, medo, honra, os motivos são variados. Não cabe a nós tentar arrancar essa máscara deles, por vezes, é tudo que possuem. O que os mantém de pé. – Seu sorriso se tornou quase nostálgico, enquanto colocava a mão sobre o coração – Devemos respeitar essas muralhas, ao mesmo tempo em que nos tornamos capazes de ver através delas. Como uma coruja que vê através da noite, por todas as direções. E assim, dar-lhes forças quando decidam nos mostrar suas fraquezas.

- Em resumo, a maioria dos homens são idiotas. – Impôs a adolescente com frieza.

Suite riu sutilmente, cobrindo os lábios com a mão.

- É, talvez você tenha razão. –E seu sorriso morreu devagar, enquanto também sentia um estranho aperto no peito, como se sua alma tivesse se tornado inquieta de repente.

Provavelmente, fruto do passar das horas e a aproximação de sua apresentação. Com essa desculpa em mente, voltou ao seu objetivo anterior, junto a sua companheira.     

  -.-.-

Camus retornou a biblioteca para encontrar Soleil sentado na cadeira de uma das mesas, com June de pé ao seu lado, observando-o preocupado, a encomenda que estava esperando esquecida em outra mesa.

- O que houve?- Questionou, aproximando-se, estranhando a cena.

A ex amazona fez menção de falar, mas foi prontamente interrompida pelo mensageiro.

- Não foi nada pai, eu estou bem, apenas dei um mal jeito na perna. – Disse levantando-se rapidamente – Mas já estou bem.

O aquariano nada disse, lançando um olhar para a caixa, onde as quatro pontas estavam amassadas, evidenciando que a mesma havia caído no chão, apesar do aviso de “frágil” em todas as laterais.

- Desculpe-me eu acabei derrubando-a quando pisei torto – Justificou-se de cabeça baixa.

- Tenha mais cuidado da próxima vez -  Disse simplesmente em seu tom frio, pegando o grande pacote entre as mãos.

- Milo está bem? – Questionou o menor, ainda mantendo sua postura.

- Sim. Ele passará aqui mais tarde – Começou a caminhar em direção ao final da biblioteca, sem olhar para trás. – Estarei no escritório. Bata na porta se quiser entrar. E avisem se forem sair.

E sem mais, abriu a porta de carvalho fechando-a às suas costas.

-Por que você não disse a ele o que realmente aconteceu? – Questionou June tensa, deixando de olhar para a passagem fechada e voltando sua atenção ao menor.

- Eu não quero preocupá-lo desnecessariamente, e não foi nada, foi só uma sensação ruim, não era uma dor de verdade.

- Acha que talvez tenha haver com o cosmo de agora pouco? Você teve essa reação segundos antes da emanação.

- Teve alguma explosão de cosmo? - Soleil voltou a erguer a cabeça, olhando a amazona curioso.

Ela respondeu o olhar com uma expressão confusa, para então recordar-se que o mais novo era um simples civil.

- Sim... Não foi dentro do santuário, e me parece vagamente familiar, acho que o senti durante a batalha das doze casas.

- Você esteve nessa batalha? - Impressionou-se o jovem.

- Não, na verdade não -Ela suspirou triste - Eu apenas tentei impedir um amigo de participar, mas acabei falhando e ele partiu mesmo assim.

- Shun, na época, de Andrômeda, não é? - Ela apenas confirmou com a cabeça - Não existem muitos registros sobre ele, mas o Grande Mestre uma vez me contou uma história sobre como lutaram juntos contra alguns cavaleiros negros. - Ele desviou o olhar, sem virar para nada específico. - Eu ainda era uma criança, foi uma das primeiras histórias que me contaram sobre os cavaleiros. Depois Milo me contou centenas delas de quando ele e meu pai eram aprendizes e outras quantas de suas missões juntos. Mas de certa forma eu diria que a dos cavaleiros negros sempre foi minha favorita.  Pedi para ouvir tantas vezes que até já acabei sonhando com isso.

- Você falando assim, só me faz perceber a quanto tempo tudo isso aconteceu – A jovem sorriu com melancolia – Mas você tem certeza que está bem?

- Sim, não se preocupe. – Caminhou em volta da mesa. – Posso continuar te mostrando a biblioteca, se desejar, peço perdão pela interrupção – E novamente fez outra das suas reverências exageradas, que June estava começando a se acostumar.

-.-.-

Camus entrou numa sala estreita, com uma pequena mesa de ébano ao fundo, livros empilhados por toda a parte, cada um com uma capa mais antiga que a outra, rolos e mais rolos de anotações, cadernos completamente preenchidos, uma cadeira de encosto alto e uma diminuta luminária.

Levou a caixa até a mesa, empurrando alguns livros para conseguir mais espaço. Abriu sem dificuldade o lacre e analisou o conteúdo. Havia outra caixa reforçada por dentro, com serragens e veludo para amortecer o impacto, era claro que o conteúdo ali era valioso. Abriu uma gaveta lateral, de lá tirou um par de luvas e finalmente se dispôs a manusear o conteúdo.

 Dentro, haviam códices que facilmente passavam os milênios, capas em latim antigo, grego, e outros idiomas aparentemente indecifráveis. Retirou o primeiro e o analisou atentamente.

Um livro sobre deuses e maldições antigas, cujo autor preferiu não se identificar. Colocou à um lado, mexendo em alguns Volumen de Heráclito e Homero, e uma carta feita a mão ao fundo.

“Ao senhor Sintès,

Em retribuição à sua generosa doação, cederei essas raridades em segredo. É de máxima urgência que estejam de volta ao museu antes do fim do mês.

São obras delicadas, portanto, seu manuseio deve sê-lo também, todavia, tenho plena certeza que saberá tratá-los como se deve.

Ps. Como parte do combinado, essa transação nunca aconteceu.

Att,

A.”

Da mesma gaveta da luva, retirou um isqueiro, acendendo-o e botando fogo nessa carta. As chamas rapidamente tomaram conta do papel, desintegrando-o. Qualquer fragmento ainda quente congelava-se automaticamente antes de tocar a mesa negra, e quando as bordas próximas aos seus dedos também começavam a se consumir, Camus com o mínimo de cosmo, fez o mesmo com elas, sendo os únicos resquícios daquela carta minúsculos pedaços congelados. Os reuniu com a mão e jogou num pequeno lixo perdido entre livros.

Debruçou-se novamente sobre suas novas aquisições, acendeu a luminária e se pós a devorar suas letras, o grego antigo utilizado nelas não parecia ser nem de longe uma dificuldade.

-.-.-

- Por que você ainda não está no salão do Grande Mestre?

- “Oooh, obrigado Máscara da Morte por me esperar, você sim é um companheiro de verdade” – Imitou ridiculamente a voz do grego, enquanto observava-o, apoiado num dos pilares, subir os últimos degraus que levavam a Câncer.

Milo apenas ergueu as sobrancelhas irônico.

- Aham, claro, nem bêbado eu diria algo assim.

- Você nem sequer é capaz de ficar bêbado com esse seu metabolismo de aracnídeo - Rebateu Câncer cruzando os braços enquanto outro parava ao seu lado. Ao contrário de escorpião, já trajava sua armadura. - Que existência infeliz, eu tenho que te dizer.

Assim começaram a se encaminhar até Leão, em passos rápidos, quase correndo, mantendo um ritmo constante, atravessando a silenciosa quarta casa.

- Existem mais coisas na vida do que encher a cara. - Retou importância. – E Kiki está aguardando a chegada de alguém, que deve acompanhar até o salão do mestre.

- Parece que eu estou falando com um santo, e não com um homem de verdade - Resmungou o italiano, cruzando os braços atrás da cabeça. – Então nosso carneirinho será o último a subir. Agora, respondendo sua pergunta, eu não havia subido ainda porque estava no meio de uma meditação profunda, da mesma forma que nosso querido Buda. Não senti nenhuma urgência nesse chamado repentino, tanto é que você nem se dignou a subir ainda, então resolvi terminar antes de ir.

- De todas as coisas que aconteceram desde que ressuscitamos. Você e Shaka se tornarem amigos, e você começar com essa história de meditação, sem dúvidas, foram às coisas mais estranhas e absurdas que já aconteceram por aqui. – Colocou o escorpiano com descrença, franzindo as sobrancelhas.

- Bobagem, o dia do casamento do Grande Mestre foi muito mais estranho – Contestou com um sorriso buliçoso – Talvez o mais estranho da história desse santuário.

- Talvez tenha razão – Acabou por concordar sorrindo com graça – Depois daquele dia tenho certeza que o velho Shion nunca mais se aproximou de um copo de bebida.

- Além disso, eu estou quase chegando aos cinquenta. Meditar faz parte do meu amadurecimento como ser humano.

Milo parou por alguns segundos observando as costas do outro com uma expressão de choque. Máscara apenas continuou caminhando como se nada tivesse acontecido.

- Você vai ficar para trás se continuar aí. – Avisou sem virar-se.

O grego apenas balançou a cabeça, como se tentando voltar à realidade, acelerando os passos e tornando a alcançar o mais velho. Quando voltou a estar do seu lado, sua expressão tornou-se mais séria, enquanto começavam a adentrar a quinta casa, cujo guardião já não se encontrava.

- Mudando de assunto, você sentiu o cosmo de fênix agora a pouco?

- Então esse cosmo raivoso era desse cara? – Questionou com desinteresse o italiano, retirando do vão de sua ombreira um maço de cigarros – Ele era o irmão daquele sucessor do Shaka que morreu há vinte anos, não é? Shine, Sheen ou alguma coisa parecida. Não cheguei a conhecer o sujeito, mas as histórias sobre ele são bem interessantes, porém pensei que ele estivesse morto também.

- Shun, o nome dele era Shun - Corrigiu, impaciente - Sinceramente eu também pensei, quer dizer, Athena e o Grande Mestre resolveram dá-lo como morto, para que não fosse acusado de deserção, mas depois de não recebermos nenhum sinal de vida dele em vinte anos, pensei que realmente fosse verdade. E eu não acredito que você vai fumar aqui! Caso ainda não tenha percebido, isso é um santuário! – Acrescentou vendo o que o italiano estava prestes a fazer.

- E daí? – Questionou abrindo seu maço e de lá tirando o último cigarro e um pequeno isqueiro, com o qual acendeu seu fumo, tragando profundamente enquanto saíam para a escadaria que os levaria até Libra. – Eu já fiz coisas muito piores na quarta casa.

 O grego o observou completamente contrariado, ruborizando ligeiramente. Máscara o encarou franzindo as sobrancelhas por um instante, até que a compreensão o atingiu, fazendo-o gargalhar ruidosamente.

- Por ZEUS! Eu estava falando das cabeças decepadas, Milo! – Começou a tossir, tendo se engasgado com seu fumo – Sem a menor chance! Aquela cama de pedra é extremamente desconfortável para isso, a lugares muito mais apropriados. – Sorriu com malícia.

  - E o que aconteceu com o sua história de “Estou chegando aos cinquenta” e do “amadurecimento como ser humano.” – Perguntou irritado com o pouco caso do mais velho.

Isso só fez o canceriano rir ainda mais.

- Eu não acredito que você caiu nessa conversa! Minha nossa aracnídeo, eu achei que você fosse mais inteligente do que isso!

Aquilo irritou profundamente Escorpião, isso era ainda mais claro com a energia que irradiava de seu dedo indicador direito.

Como resposta, porém, Máscara da Morte apenas soltou uma baforada de seu fumo na cara do companheiro, sorrindo misteriosamente enquanto este usava sua mão para afastar a fumaça.

- Você não deveria acreditar em tudo que dizem Milo. Especialmente quando se trata de mim. – Deu uma piscadela, tornando a rir quando terminaram de cruzar a casa de Libra, chegando às escadas de escorpião. – Agora tente relaxar um pouco, sim? Você está tão tenso quanto Aiolos quando tem que enfrentar sua esposa. Você geralmente é mais calmo do que isso, até parece que viu um fantasma na casa de Áries. Aconteceu alguma coisa?

O grego não respondeu, até chegarem a sua respectiva casa. Invocou sua armadura parada ao centro do salão, que o vestiu prontamente. Engoliu a frustração por aqueles que sofriam por ele, a raiva por sua doença, e a impaciência fervorosa que o consumia, como um veneno que passava por suas veias, finalmente voltando-se para câncer, com seu melhor sorriso arrogante.

- Eu estou muito bem Máscara, já que perguntou, mas me diga, o que um italiano como você entenderia da grande arte de persuadir os demais com o uso das palavras? Pelo que me consta Roma tinha como vocação simplesmente copiar o que os grandes gregos haviam desenvolvido por si mesmos – E num movimento absolutamente rápido, com seu dedo indicador cortou o cigarro ao meio, para então seguir seu caminho em direção a nona casa.

- Figlio di una cagna – Resmungou, jogando propositalmente a bituca no chão da oitava casa, para então seguir seu dono até o salão do Grande Mestre.                    

-.-.-

A tarde corria devagar, enquanto os onze cavaleiros de Athena aguardavam a chegada do ariano e de sua misteriosa visita, todos de pé, trajando suas respectivas armaduras.

Todos ignorantes dos tremores de terras e maremotos que castigavam as propriedades de uma mansão próxima. Contudo, por toda a Grécia a noite pareceu chegar mais cedo, como se o sol tivesse medo de enfrentar a fúria do que pisava sobre a superfície terrena, utilizando-se de corpos mortais.

As pessoas normais seguiram suas vidas imersas em suas próprias desinformações, assumindo que a mudança repentina no clima se devia apenas a uma tempestade chegando.

De fato, era uma tempestade, porém, também era a própria noite que se aproximava com suas garras, devorando a luz de Apolo, que sabiamente recuou, deixando sua carruagem se ocultar por entre as nuvens que se elevavam com grandeza.

Tudo era acompanhado por um chocado cavaleiro de gêmeos, antes de ser abordado por alguém que o observava desde que ele e seu irmão chegaram àquele local.

A figura aproximava-se lentamente, escondida sobre uma capa de chuva, embora a poucas horas, o dia fosse completamente quente e ensolarado.

Kanon, escutava atentamente, apesar dos protestos da multidão parada na ladeira que levava a residência dos Solo, ignorando todos os gritos e exclamações contrários a riqueza daquela tradicional família grega, Gêmeos ampliava sua audição concentrando-se apenas nesse sentido, em detrimento dos demais, conseguindo assim entender o que os policiais, que impediam o avanço dos civis, conversavam entre si.

-Você tem certeza disso? – Questionava um deles, um senhor de bigode farto e aparência séria.

- Sim, Ione entrou em contato agora a pouco e disse que estão quase controlando a situação dentro da mansão, parece que os invasores fizeram alguns reféns, isso atrasou a operação. – Respondia um mais jovem, e cabelos curtos e expressão fixa.

- Isso é razão para ela demorar tanto para entrar em contato?! – Seguiu inquerindo, aquele que parecia ter maior patente.

- Questionei isso também senhor, aparentemente houve um corte na transmissão.

- Como um corte!? Essa invasão já se arrastou demais! Há pelo menos meia dúzia de repórteres de vários países cobrindo essa bagunça, se a transmissão foi cortada, por que nenhum dos homens retornou para nos avisar da situação dentro do perímetro?!

- Parece que dos cinco que entraram com a Sargento, dois foram abatidos durante um vazamento de gás, que foi o responsável pelas explosões de agora a pouco, Ione conseguiu fazer os primeiros socorros, enquanto os outros três cercaram os invasores.

- A equipe médica já foi informada? – Contudo, não foi necessário responder essa pergunta. Pelo menos seis pessoas carregando duas macas, com roupas brancas e colete a prova de balas, se adiantaram até o perímetro isolado.

- Senhor – Um homem idoso se adiantou frente ao grupo – Temos duas ambulâncias aqui de prontidão, cinco dos meus homens irão comigo, para que possamos atender aos policiais e aos reféns, caso estejam feridos também.

O capitão, confirmou com a cabeça, latindo ordens para que alguns de seus homens também entrassem na mansão para auxiliar os médicos.

 Kanon observava apreensivo, vendo como doze homens subiam a ladeira em direção à morada, entre eles o jovem que havia se reportado ao seu superior.

- Isso tem que acabar o quanto antes, os Solos são grandes contribuintes – Seguia dizendo o capitão – Permitir que eles estejam sob tantos holofotes irá nos custar caro. Eu não sei por quanto tempo conseguirei impedir que os helicópteros sobrevoem o local, a repercussão de tudo isso está fugindo do nosso controle.  

A figura em capa de chuva parou ao lado de Kanon, ao tempo que os reforços desapareciam de vista na colina.

Policiais, médicos e enfermeiros corriam pelo caminho que começava a se estreitar, quanto mais avançavam, mais os paralelepípedos pareciam umedecer-se, como se uma grande tempestade tivesse caído apenas naquela região, até chegar a um ponto que água, estranhamente salgada, corria pelo chão quase formando um rio.

Contudo, essa situação não impediu o avanço, na verdade, as expressões dos humanos seguiam congeladas, como se fossem estátuas. Ao invés da correnteza diminuir seus passos ou causar-lhes algum estranhamento, aos poucos seus corpos pareciam se tornar mais moles, com movimentos cada vez menos humanos. Enquanto a água corria com mais intensidade, os mortais começaram a se desfazer como se derretessem. Suas peles escorrendo por seus corpos, levando consigo seus olhos, narizes, cabelos, como bonecos de massinhas expostos ao calor.

Ainda assim, não havia sangue escorrendo dessas aberrações, muito menos gritos de dor ou agonia.

Pareciam ser simplesmente, figuras de barro desfazendo-se na água, como se nunca tivessem existido.

- Kanon, me impressiona que tenha coragem de vir até aqui depois de tudo o que aconteceu. – De volta ao início da colina, a figura finalmente abordou Gêmeos, que se voltou para ela, assumindo postura de defesa. Para então sua expressão assumir surpresa. - Além disso, pelo que me consta, você deveria estar morto.

Conheceria esse rosto em qualquer lugar, muito embora parecesse que todos esses anos não o haviam envelhecido absolutamente nada. Cabelos lilás, levemente encaracolados até o ombro, olhos de um róseo intenso, carregando entre as mãos sua infalível flauta.

- Sorento de Sirene – Nomeou o geminiano, engolindo em seco.

- Fico honrado que ainda se recorde de mim, traidor – Anunciou em seu tom sério, sem olhá-lo diretamente, sua visão perdida na mansão no topo da colina – O que o trás aqui? Sentir que seu velho senhor estava em perigo o fez repensar sobre sua lealdade?

- Eu sou devoto a Athena agora – Anunciou em tom firme – Apenas a ela devo minha lealdade.

- Claro, por ela deu as costas a todos nós, vinte um anos atrás, não é mesmo? – Finalmente voltou sua vista ao cavaleiro, encarando-o com altanaria – Eu me questiono como você pôde dormir tranquilo todos esses anos, sabendo que condenou seus antigos companheiros à morte certa.

- Você tem certa razão em dizer que minhas noites de sono nem sempre são tranquilas – Desviou o olhar contrariado, porém sem aliviar sua postura – Porém, me consola saber que no final, o bom senso me retornou e eu ajudei Athena a impedir que Poseidon continuasse com sua chacina contra a raça humana.

- Então me diga, o que o trás aqui agora, vivo. – Taxou com força a última palavra.

- Há vinte anos e um mês o senhor do submundo que sucedeu Hades nos concedeu uma nova vida.- A resposta saltou de sua boca antes que pudesse impedi-la. Piscando confuso depois, devido a sua própria franqueza.

- Entendo – Disse simplesmente Sorento, fechando seus olhos pensativo. – Vejo que algo similar aconteceu conosco.

- Isso significa...?! – Colocou em choque, sentindo seu peito falhar uma batida, por alguma razão.

- Sim. Io, Bian, Krishna, Isaak e Kasa, estão todos vivos. – Voltou a abrir seus olhos, encarando novamente Gêmeos – E egora também temos o verdadeiro Dragão Marinho.

Kanon apertou os punhos com força.

- Se vocês estão todos vivos, como deixaram algo assim acontecer? – Indicou a grande propriedade. - O que você faz aqui do lado de fora?!

Sorento voltou a olhar para a mansão.

- O que nos ataca agora, não é humano, como pode imaginar. É um inimigo formidável, e em breve, voltará sua atenção à Athena e até mesmo ao Submundo. – Isso chamou ainda mais a atenção do geminiano.

- Athena e o Submundo?! – Impressionou-se. – Quem é esse novo inimigo?! Para querer atacar três divindades assim.

- Eu não tenho qualquer obrigação de te dar explicações, traidor. – Anunciou em tom cortante – Apesar de ter muitas razões para não confiar em ti e te matar. Já temos um inimigo grande para nos preocuparmos agora. – Encarou novamente os olhos do cavaleiro – Enviamos uma de nós ao Santuário. Ela explicará quem é esse inimigo, além de propor algo inédito em nossa história.

- E o que seria isso? - Questionou, apreensivo, preocupado com sua deusa sob essa nova revelação.  

- Vá até Athena e veja por si mesmo. Nossa luta aqui, por hora, não é da sua conta.  – Começou a caminhar em direção à mansão.

- Espere Sorento! – O mesmo parou, contudo, sem virar-se – Você disse que o que acontece na mansão agora não é da minha conta, porém, eu pude sentir a energia de um dos nossos sendo emitida de dentro da mansão. Alguém que estava desaparecido a vinte anos.

 - Ikki de fênix, estou certo? – Respondeu o austríaco – Sim, de fato ele está aqui. Ele buscava vingança pela morte de seu irmão. Nossos interesses apenas coincidiram, e sua força não é um reforço a se recusar em tempos como os que estamos agora. Isso é tudo.  – Virou-se ligeiramente para o outro – Retorne ao seio de sua própria deusa, a qual detém sua lealdade, amor e devoção.  Eu devo ir até meu próprio senhor. Por enquanto, nossos caminhos se separam novamente Kanon.

E sem aguardar resposta, adiantou-se até os policiais, usando-se de sua incrível velocidade para atravessar sua barreira sem ser identificado, sendo seguido pelo geminiano até sumir de vista também.

- Maldição! –Exclamou contrariado Gêmeos, dando as costas para a mansão – Eu preciso voltar para o Santuário!

E sem segundos pensamentos, adiantou-se a passo rápido em direção às terras de Athena.

-.-.-

Camus terminava de ler seu terceiro Volumen, deixando-o de lado, tirando as luvas e as colocando num canto. Um longo suspiro frustrado escapando de seus lábios. Retirou seus óculos, dobrando suas alças, o colocou sobre a mesa ao lado do outro objeto, massageou suas têmporas, evidentemente cansado. 

Tão exausto estava, tanto física como psicologicamente, que não pôde notar com antecedência prudente  um movimento suspeito vindo de uma das pilhas de livros.

Antes que tivesse tempo de reagir, a capa de um Códex começou a cobrar vida. Da superfície cinza, a figura de uma cobra estampada começou a ondular, até lentamente sair da superfície plana para esgueirar-se sobre a mesa. Tudo que Aquário teve tempo de fazer foi afastar os documentos tão preciosos, como consequência, porém, teve seus pulsos firmes e dolorosamente presos.

Em resposta, emanou seu cosmo suavemente, sendo facilmente capaz de congelar o animal de cor verde vivo.

“Por que continua sendo tão teimoso Aquário?” – Uma voz Ofídia emanou etérea por todo o pequeno cômodo, enquanto sentia a pressão sobre seu pulso aumentar, ferindo sua carne. As serpentes logo foram capazes de se desprenderem do gelo graças a um estranho cosmo, aumentando a força de seu agarre – “Não lute, sei que não gostaria de prejudicar seus queridos livros. Eu só venho conversar.”   

 A voz vibrante e hipnotizante seguia ecoando, Camus apertou os punhos com força, ao ponto de causar sangue, apenas para garantir que se matéria consciente.

- Eu não tenho nada a te dizer – Contestou entre dentes, enquanto se sentia num impasse. Se elevasse mais sua energia, conseguiria facilmente se livrar do que o prendia, mas com isso corria o risco daquela amazona, capaz de sentir o cosmo, adentrar a sala com Soleil e arruinar tudo.

Precisava de mais tempo. Uma ideia então lhe ocorreu. Por hora manteria a conversa.

“Pois eu tenho algumas coisas a dizer-te, Erisictão” – A voz colocou demandante.

- Não me chame por esse nome – Impôs Camus, seu tom frio intensificado, roçando o desprezo, enquanto inclinava sua cabeça para baixo.

“E como deveria te chamar então?” – Ironizou sutilmente, quase com inocência, um deixe de melancolia – “Dégel? Mystoria? Quem sabe Krest, no final das contas, vocês provêm da mesma alma.”         

  - Eu me chamo Camus – Anunciou com veemência, rasgando uma parte da gola de sua camisa com os dentes. 

“Então haja como tal” – Falou novamente o ofídio – “Eu não te devolvi as memórias de suas vidas passadas para repetir os mesmo erros, Eri.”

- Eu não falharei dessa vez. – Declarou com severidade. Com parte do ombro descoberto, conseguiu puxar com a boca o colar que usava, e com os dentes abriu grosseiramente seu feixe, inclinando-se com tudo para frente, com o objeto em seus lábios, sem se importar de bater a testa contra a madeira, uma vez que conseguisse que o conteúdo do medalhão encostasse-se na serpente.

   O ato foi um logro e o resultado imediato, com um guincho horrível de dor, o animal começou a se encolher como se estivesse sendo queimado, e de fato estava, chamas negras surgiam de dentro do colar, devorando a cobra sem qualquer piedade, embora nenhum sinal de queimadura atingisse o rosto de Camus. A voz não tornou a se manifestar.

Soltou as mãos doloridas dos restos de pele da serpente, que logo desapareceram como se nunca tivessem existido. Levantou-se rapidamente, como se temesse um novo ataque.

Mas nada aconteceu.

Tornou a sentar-se, jogando-se de qualquer jeito na cadeira, apoiando o rosto entre as mãos, abandonando sua postura sempre séria e indiferente frente a enorme frustração que o tomava, face oculto entre os dedos.

- Eu não posso falhar dessa vez...

-.-.-.-

Faltava pouco mais de uma hora para o crepúsculo se manifestar, quando Kiki terminou seu livro, erguendo o rosto e fechando-o assim que sentiu duas energias se anunciando.

- Suite, Hayata – Cumprimentou Kiki.

- Boa noite Senhor Kiki.

- Mestre Kiki, escoltamos a pessoa aguardada pelo Grande Mestre conforme ordenado – Declarou a jovem ariana, com firmeza.

Ambas deram um passo para o lado, revelando a figura de uma bela mulher, que fez Kiki abrir seus olhos em choque.
Cabelos longos e loiros, volumosos que caíam com graça por suas costas. Levava um vestido vermelho longo, cauda de peixe, um batom da mesma cor, e encarava curiosa com seus intensos e vívidos olhos azuis o cavaleiro de Áries.

- Kiki? – Ela disse, a voz melodiosa como a de uma sereia – O mesmo Kiki que conheci no templo submarino? Estou impressionada, você se tornou um grande homem. 

As duas amazonas olharam curiosas e intrigadas da visitante, para Áries. O lemuriano limpou a garganta, guardando sutilmente seu livro no vão de sua bota enquanto tentava recobrar a compostura.

- Eu realmente não esperava tornar a vê-la – Declarou em tom cortês – Para ser sincero, me perdoe se estou sendo grosseiro, porém eu pensei que você tivesse morrido há vinte anos, Thetis de Sereia.

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Notas Finais


O que vocês acham que significa o título desse cap? Qual será a doença de Milo? Como Kiki conhece Kardia? O que Suite planeja para a abertura, e quem seriam ela e Hayata =O Oc's é que nãos são! Como é possível que Sorento esteja novamente inteiro? Em que Camus terá se metido?! E finalmente, como se dará essa reunião entre Thetis e os cavaleiros de Athena?
Esse capítulo sim trouxe muitas dúvidas! =OOO

CAÇADORES DE PISTAS.

II - No último capítulo pudemos notar que livros podem ser pistas importantes. Além disso, parece que temos muitos leitores entre cavaleiros e espectros. No capítulo XXII, Peter Quill está lendo "Vigiar e Punir", uma obra francesa dedicada à análise da vigilância e da punição e seus avanços ao longo da história, como também consequências. O livro começa destrinchando o suplicio em praça pública (execução de um condenado), que era tratado como um espetáculo, e então o avanço das punições ao longo dos séculos, além de especular melhores formas de lidar com os presos. Sem dúvida, uma leitura digna de um Juiz do Submundo. Essa era uma pista da identidade de nosso querido Radamanthys.

III - Hábitos alimentares suspeitos também podem nos dar indícios =O nesse mesmo capítulo temos Victor comendo "um bolo de chocolate, umas rosquinhas de chocolate e tomava chocolate quente" é realmente muito amor por chocolate!
Curiosamente, no dia dos namorados, o Valentine's day, é um costume presentear chocolates. Será que por isso Valentine acabou se viciando no doce?

E vocês? Tinham pego essas pistas que apontavam para a verdadeira identidade de Peter e Victor?

Nos lemos!


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