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História G.U.Y. - Sob as luzes da cidade - Capítulo 31


Escrita por:


Notas do Autor


Sim, eu cheguei e vou bombardear vocês de informações, reviravoltas e MUITO ÓDIO NO CORAÇÃO! Espero que estejam todos bem, amo muito vocês e sempre sou grata a todo o apoio que me dão. Obrigada mesmo! Boa leitura

Capítulo 31 - Ecos do Passado


Fanfic / Fanfiction G.U.Y. - Sob as luzes da cidade - Capítulo 31 - Ecos do Passado

Estou num momento da minha vida que não faz sentido algum. Vocês não podem entender, de maneira alguma isso pode ser real. Nós usamos a expressão “tudo de cabeça pra baixo”, mas, amigo, nem quando viramos nossa bolsa sobre a mesa para arrumar a bagunça dentro dela é tão desastroso quanto essa merda que está acontecendo.

Não tem palavra, sensação, dizer “estou vivendo um inferno”, pode ser um mês de férias na casa da sogra que você odeia. Isso vai passar, é um mês só, depois voltará para sua casa, sua vida, a rotina comum. Todos seus “momentos ruins”, vão passageiros.

Agora… isso.

É a insanidade em forma física, tão palpável, está na minha frente toda vez que olho para meu reflexo no espelho. E digo, vai além… Está além da capacidade de qualquer um entender essa merda de vida, esses segredos, cai na areia movediça e minha imbecilidade me fez afundar mais rápido.

A culpa é toda da minha mãe, ela me transformou na verdadeira definição de marionete, suas torturas me tornaram instável, manipulável e manipulativa, mentirosa, cruel, e tentei esconder isso. E sabem porque estou dizendo isso?

Porque agora as palavras dela fazem o completo sentido para mim. Todos eles mentiram para mim, eu sou a marionete. Ayla, Amália, Derek, Ian, Trevor… Minha lista de pessoas é longa, mas, poderia jurar, colocar minha mão no fogo apenas por duas delas, mas depois de hoje… Um desses eu mesma jogaria dentro da fogueira.

Ninguém a capaz de me amar, ninguém liga para o que sinto ou deixo de sentir, todos vão fazer exatamente o que querem comigo, porque esse é o meu propósito. Ser o que eles querem, assim como minha mãe me criou.

Por favor, escutem o que eu tenho a dizer. Não sei se a culpa é minha, se foi uma obra de divina para me castigar de algo terrível que fiz na vida passada, por eu nunca ter sido religiosa o suficiente. Mas, isso não é certo, esse jogo, essas pessoas com todo esse poder sobre nós, acabando com cada pedacinho único como um cirurgião plástico, te montando a imagem deles, bloquinhos de lego. Eu não sei mais o que é real, mentira, apenas sei seguir meus instintos e muitas das vezes, não são gentis.

Estão pensando: “Mas, Natasha, nada disso faz sentido.”. Exato! Esse é ponto. Dá para ter uma noção do meu estado a partir do momento que estou FALANDO SOZINHA, achando que alguém vai me responder, nem sei que horas são, dia da semana, se é um sonho, se morri presa no porão da minha mãe e isso é tudo uma alucinação.

A questão é… Para entender meus atos, tem que entender que eu mesma não tenho noção deles.

Por Deus, eu continuo falando sozinha.

[13:47]

– Isso não é nada inteligente e a culpa é dos dois. – apontou para Caleb. – E com certeza, grande parcela disso é sua.

– Eu não fiz nada. – ele deu de ombros não se importando com o discurso da mulher. – Se me lembro bem, tentei foi separá-los, quanto menos dor de cabeça para mim era melhor, mas, a “espírito jovem”, dele. – inclinou a cabeça para Derek. – Não pode se controlar.

– Você é própria dor de cabeça, então fique calado. – retrucou Derek. – O fato é que ela soube lidar muito bem com a pressão e cá entre nós, ela parecia exatamente com você, Amália.

– Isso tenho que concordar. – Caleb ergueu outra vez o ombro.

– E no cu, ambos não querem tomar, não?

– Eu dispenso. – Derek cruzou os braços.

– Outra hora talvez. – Caleb disse olhando para o relógio no pulso.

Amália revirou os olhos, depois encarou o lado de fora da janela e a forte tempestade que continuaria durante toda a semana.

– Eu entendi tudo o que me disseram e acredito que tenham uma chance depois do que ela fez, mas… Vocês mesmos chegaram a um acordo, Natasha é instável. Não é lógico expô-la a isso, o que pode acontecer? A porcentagem de dar certo e acontecer merda é a mesma.

Virou-se novamente para eles.

– Se escutou bem, dissemos que ela se adapta e é isso que esperamos, pelo menos, eu espero.

– Está confiante demais Caleb. – alertou Amália.

– É que… ele tem uma parte de razão. Natasha demonstra muita rapidez no pensamento, adaptação de situações sobre pressão, mesmo que esteja acuada ou até mesmo com medo, pode falar e agir como se nada estivesse acontecendo. Mas, há um preço…

– E qual é? – a mulher franziu o cenho.

– Ela não se lembra. – respondeu Caleb. – Natasha pode muito bem matar alguém e não se lembrar depois, pois, o cérebro dela está em estado de alerta, então, o que precisar fazer, vai fazer… Não importa como.

– Jesus cristo, eu não sei o que me assusta mais, o que ela pode fazer ou a calma que você me conta isso.

Amália respirou fundo colocando as mãos no quadril.

– Não sei o que esperam de mim… Querem que concorde com tudo isso? Natasha mentiu dizendo que o pai morreu… E para que?

– Estamos te informando Amália, mas do que ninguém é você que deve saber das coisas. É um jogo… Informar sobre a morte do Hugo deixou Crowley desconcertado e todos nós queremos saber o porque…

– E sobre sua situação também… – comentou o outro. – Ainda há algo que ele não contou e por isso Natasha está tão agitada e determinada a conseguir essa informação que não vai parar, é melhor darmos o apoio, um caminho seguro o invés de fazer tudo as escondidas e se machucar.

A mulher balançou a cabeça, umedeceu os lábios e caminhou de volta para cama, parecia muito perturbada e ambos perceberam.

– No que está pensando Amália? – perguntou Derek.

– Eu não quero falar, para que não pareça loucura.

– Sobre? – Caleb lançou um breve olhar ao amigo.

– Tudo. – apoiou as mãos no colchão. – Desde o começo do ano, os ataques, as informações, os casos no tribunal, essas situações que estamos vivendo, não são normais, porque, parece um forte dejavu. – finalmente os encarou. – Estamos presos num ciclo, não sei se percebem, mas já passamos por isso, momentos similares.

– Uma retrospectiva do passado.

Caleb disse parando para pensar, ela apenas acenou.

– Nós nos colocamos um contra o outro, eu quero ir embora, vocês quase se matando o tempo todo. Há nuances que só consegui perceber exatamente por conta da Natasha, do quanto ela se envolveu, como chegou a certas conclusões. Sei do que é capaz, de todas as potencialidades, pois eu mesma já a usei para isso.

Ela encarou as mãos e entrelaçou os dedos.

– Estou com péssimo pressentimento e não envolve só o fato de Natasha ir na direção do perigo e o que vou pedir pra vocês agora, pode ser loucura, mas, preciso que me ajudem.

– O que seria? – Derek se aproximou.

– Me levem até o cemitério… E é melhor chamarem os outros, não é nada fácil cavar um buraco sozinhos.

Ambos se encararam um pouco incrédulos, Amália se levantou seguindo em direção a porta e saiu sem dizer mais nada. Eles trocaram outro olhar silencioso, tinham o mesmo pensamento, e sabiam que naquele momento, não teriam como negar aquele pedido, se existe algo no cemitério que possa ajudá-los, era melhor irem depressa.

[14:20]

Natasha acabava de chegar em frente a igreja que tinha os grandes portões de ferro fechado, após abrir o guarda-chuva acenou para aquele motorista que foi designado a levá-la e o viu partir. Não atravessou a rua de primeira, na verdade, ficou parada, aflita, discutindo com a própria cabeça e as vozes altas. Estava com medo, mas, ao mesmo tempo, ansiosa para entrar, tocou o pingente e depois de um forte suspiro o anel em seu dedo, uniu toda a coragem finalmente indo para o outro lado.

Ao aproximar-se, analisou aquele jardim da frente, não havia ninguém, tocou sutilmente sobre a uma das barras de ferro, o som do trinco indicou que fora aberta, dessa vez ergueu o olhar para o lado direito enxergando a câmera de segurança bem ao canto, escondida. Assim atentou-se a mais delas e haviam algumas.

A porta de madeira se abriu e para a surpresa dela, Crowley estava ali. O frio subiu pela espinha, se fizesse algo errado, falasse demais, ele a reconheceria facilmente, precisava manter a calma, já ficou frente a frente com aquele homem, o primeiro deslize colocaria tudo a perder.

– Senhor Klaus? – o tom surpreso foi tão genuíno que até mesmo se limitou a dar um passo a frente.

O homem acenou, deu um breve sorriso e um passo para o lado, lhe dando passagem,

– Boa tarde, senhorita Losev, entendo sua confusão, mas lhe garanto, ninguém aqui vai feri-la. – estendeu o braço. – Por favor… não fique nessa tempestade, última coisa que queremos é que fique doente.

Ela sentiu os pelos arrepiarem, olhou para trás, a rua sendo castigada pela forte chuva, sabendo que ainda tinha um tempo para desistir, mas, respirou fundo subindo o pequeno lance de degraus.

– Por que? – ela perguntou ao passar, deixando o guarda-chuva de lado. – O senhor? Envolvido nisso…

Crowley a observou por alguns instantes e voltou a dar um sorriso, mas era um sorriso de certo modo acolhedor, ele deu alguns passos para frente, mancava um pouco.

– Você é uma jovem admirável. – comentou ele sendo seguido. – Tem educação e ética mesmo diante a uma situação como essa. – passou ao lado de alguns bancos parando ao centro da igreja. – Mesmo depois do que houve com seu pai… E sentimos muito por isso.

Natasha desviou o olhar, analisou alguns dos andaimes montados no interior, restauravam as pinturas, ela sabia bem quem faria aquele trabalho. Haviam anjos, não, arcanjos desenhados nas paredes da esquerda e da direita, os três últimos mais a frente onde estava o altar.

– Arcanjos. – respondeu o homem. – Mas, tenho certeza que já lhe disseram.

Ela caminhou um pouco mais para frente, seus olhos não deixavam nada passar, ao lado direito havia os banheiros, uma sala com porta de ferro, a direita, a grande porta de madeira levaria para outra área externa da igreja. Se virou ao ouvir mais passos ecoando, reconheceu, Andrew a esquerda e logo depois Zaki a direita e esse, a menina não fez questão de esconder o desgosto ao vê-lo.

– Sei. – a fala saiu com rispidez. – E eu não gosto de você, “arcanjo Rafael”. – disse diretamente ao outro.

– A bandeja que me deu deixou claro isso. – soou brincalhão.

– E faria de novo. – Natasha não conseguiu controlar o ódio. – Ninguém tenta entrar na minha cabeça e sai ileso.

– E está certa. – adiantou-se Crowley colocando as mãos para trás. – Foi uma maneira errônea e antiética abordá-la dessa maneira, aplicou a punição, não a julgamos por isso.

– É disso que se trata? Ser julgado? – o encarou.

– Sou eu que julgo minha querida.

Não reconheceu aquela voz, passando ao lado dos andaimes, a mulher de cabelos curtos, um tom loiro com um pouco mais de branco, caminhou a frente. Estava tão elegante, camisa social, saia lápis, salto alto, se a riqueza tinha uma face, era aquela mulher. Só depois de ver o rosto, a menina pode ter uma vaga lembrança.

Cármen Dantas.

– Você criança, é o que chamamos de “intermédio”. Agira de uma maneira dependendo do que está passando, ficara ao lado daquele que parece protegê-la, não é má ou cúmplice, apenas… perdida. Seu ato de agredir Rafael é totalmente compreensível, ser “protegida” pelos Ceifeiros, também, eles foram os primeiros que teve contato, viu apenas um lado.

A mulher ajeitou o cabelo, olhou para os lados e entrelaçou os dedos em frente ao corpo.

– Eles são assassinos, erramos em criá-los e tentamos corrigir isso. O mundo precisa de um equilíbrio e com certeza, eles não fazem parte dele. Diante a situação, é normal estar confusa e tentar protegê-los, até onde sabe, a culpa de tudo é nossa… E não deles.

– Todos vocês são assassinos. – corrigiu a menina. – Não há heróis ou vilões nessa história… Ricos, manipulativos, cruéis, aqueles que não passavam pelo seu julgamento, ou não seguem suas regras, morre. Deixam homens e mulheres ainda piores andarem livres, contanto que… obedeçam.

– Bem-vinda a corte celestial, querida. – sorriu. – Nós mantemos o mundo do jeito que ele é.

– Podre. – retrucou ela que ouviu a mulher rir.

– É realmente criada por Amália, ah, essa mulher é incrível, pena que não quis trabalhar para mim.

Natasha fechou os olhos, respirou fundo cerrou o punho controlando todo seu ódio que a consumia a cada palavra daquela mulher. Precisava manter a calma.

– Nós sabemos o que passou senhorita. – disse Andrew chamando sua atenção. – Desde que chegou até agora. Acredite em nós, sentimos muito pela morte de seu pai e a situação de sua tia.

– Não, não sentem, não sabem nada sobre mim. – o encarou. – Tudo que querem é manipular e tirar o máximo de coisas que sei e já aviso, não sei nada, porque ninguém me conta.

– Então nós contaremos, quer a verdade, está olhando para ela. Só precisa escolher o lado certo.

– Cala a boca. – Natasha deu um passo a frente. – Você é a última pessoa que eu devo ouvir. Mandou o próprio filho me observar, agindo como se tudo fosse natural.

Todos a encararam, a menina era realmente feroz e nenhum pouco idiota, sua raiva pode ser sentida de longe.

– Levou meu pai nisso… o fez amigo dele… vocês o machucaram, podia fazer o que quiser comigo, mas, não com ele. – as lágrimas escorreram sem que ela querer. – Tiraram tudo de mim, as duas coisas que mais amei na vida, vocês são monstros assim como os Ceifeiros.

– O verdadeiro monstro é Derek Lynch e sabe quem mais? Sua mãe. – aquilo a atingiu como um tiro. Cármen era cruel. – Nós sabemos de tudo, Natasha. O que ela fez com a pobre criança, a maldade, a tortura, a mulher que te deu a vida, também a levou ao inferno. E Derek, te usa e vai te deixar assim que não ser mais útil, não percebe que é apenas uma bonequinha nas mãos de todos?

– Raguel… – Crowley se virou e acenou para que parasse.

Mas ela não se importou.

– Escondeu-se a sombra do homem mais controlador, acha que nós somos manipulativos? Ah querida, não faz a mínima ideia de como ele realmente é… as mentiras dele são tão perfeitas, tudo aquilo que vê e acha que conhece, não passa de uma grande farsa. A culpa de tudo, a dor, sofrimento e loucura que sua amada tia Melissa sentiu, foi dele.

– Como ousa?! – quase gritou aos prantos. – Tire o nome dela da sua maldita boca, sua desgraçada!

– Porque? Porque acha que nós a matamos? Os fracos desistem, como ela desistiu, se matando.

– Vocês a mataram, a torturam por meses, acuaram até ao ponto de ficar insana, não acreditando em mais nada, porque o mundo é essa grande merda.

Crowley entrou na frente da Natasha a impedindo de avançar mais, mas recebeu aquele olhar cheio de fúria.

– A culpa é sua também… principalmente sua. – quase trincava os dentes de tamanho ódio. – Seu filho as torturou, abusou, nada nele pode ser salvo, deixou bem claro ao ir atrás das minhas tias. Não admitiu perder para elas ou não admitiu perder para o diabo que chamam de Derek Lynch?

O homem tocou sobre seus ombros, ergueu as sobrancelhas.

– Lilith disse que tem sede de vingança e acha que ela pode te dar isso. – tentou tocar em seu rosto, mas a menina recuou. – Eu tenho total consciência das atitudes do meu filho, por isso mesmo o deixei a prisão, não se pode deixar a família mesmo o por pior que ela seja.

– Não fale como se importasse comigo ou com que aconteceu. Ordenou que as perseguissem.

– Sim, ordenei. – acenou e se virou para Cármen. – E sabemos o quão importante Melissa era pra você.

– Não… não sabem.

– Sim, sabemos. – ele insistiu. – O que Raguel disse, apesar de muitas coisas desnecessárias. – se virou brevemente. – É verdade, conhecemos você, toda a tortura que passou e as dificuldades que teve. E também, podemos dizer onde sua mãe esta.

– Eu não quero… nada de vocês. – fechou os olhos limpando o rosto das lágrimas que não paravam de sair. – Muito menos dela.

– Veio até aqui porque quis ou porque não teve opção? – perguntou Cármen, tranquila. – O que Lilith te disse? Ou Derek.

– Eu nunca tive opção, não quando envolve vocês… todos. – respirou fundo. – Eu não sei quem é Lilith, nunca a vi, nunca deixaram que a visse e estou impressionada com sua tamanha obsessão com Derek.

– E ainda confia em alguém que não vê? – perguntou Zaki.

– Se confia naquilo que vê? – o encarou. – É disso que se trata, não dá pra confiar em nada, tudo é a base do interesse. Pelo amor de deus… me digam logo o que querem ou me deixem ir embora e isolar do resto do mundo.

Passou a mão nos cabelos lhes dando as costas.

– Estou cansada. – não era mentira. – Eu não aguento mais…

– Eu tenho um trato a cumprir com Lilith. – disse Crowley. – Ela manteve a palavra de trazê-la até aqui e para que isso se concretize, o desejo dela de que nós não voltemos a persegui-los, está disposta a nos ouvir?

– Porque está cumprindo sua palavra? Se tudo que querem é matá-los?

– Nós só queremos uma pessoa. – disse Cármen cruzando o braço. – O algoz.

– Vocês são estranhos…

– Ninguém vai seguir Roman. – Andrew explicou. – As pessoas não confiam nele, excelente no que faz, mas péssimo em relacionamentos. Podíamos aniquilar todos eles, mas, por exemplo, Osíris… Apenas voltou por uma dívida com Derek, caso contrário, estaria com a família. Não acha injusto um homem morrer por uma briga que nem é dele?

– Meu pai morrer foi bem injusto, cruel e mórbido. Ele não fez nada a ninguém… e morreu…. No fogo. – chorou e levantou um pouco a blusa mostrando o ferimento. – Arrastada, torturada, quase vendida como uma mercadoria… Se eu soubesse da morte ele nesse mesmo dia… não me veriam aqui.

– Uriel fez isso… Ele nos traiu, estamos atrás dele, sabe que vai morrer se pegarmos e é por esse motivo, oferecemos essa trégua. Nenhum de nós, queria essa tragédia, trazer você e sua família para perto era a intenção, sem pressão ou ferimentos.

– Porque?

– Nós podemos mostrar. – Crowley deu um passo para se aproximar. – Assim como confia em Lilith… Derek… Pode dessa vez, nos ouvir e confiar em nós?

Cármen se aproximou parando ao lado do homem.

– Temos a verdade e somente a verdade. Está disposta a ouvi-la?

Natasha não sabia o que mais poderia vir, ali parada em frente a eles, não havia mais opção de negar, fugir, está desconcertada. Cada parte de seu corpo pulsava com intensidade, sua adrenalina, raiva, medo, misturavam-se a deixando amortecida, ela apenas olhou para eles e deu um breve aceno.

Se viraram indicando o caminho, indo em direção ao estacionamento.

A chuva é tão intensa que mal podia se ver a rua. Como se o tempo soubesse o que estava por vir, dias nublados, tempestuosos, o frio atravessa o tecido das roupas. Cruzando a cidade, chegando naquele cemitério, cujo um senhor se impressionou ao ver o grupo de pessoas aparecer de baixo de tamanho temporal. Teve uma breve conversa com o homem loiro, Osíris, que lhe mostrou o distintivo, alguns argumentos bem formados e um pouco de pressão fizeram o senhor apenas concordar com a cabeça lhes entregando algumas ferramentas.

Após outra caminhada, Amália segurava o guarda-chuva encarando aquela lápide.

– Tem certeza?

Perguntou Derek uma última vez antes de receber um aceno positivo da mulher. Ele e os outros ignoraram a tempestade, pegaram as pás e com certa dificuldade pela terra encharcada começaram a cavar.

As lembranças daqueles dias afloravam, como se fossem de dias atrás, a dor no peito, a intensa vontade de cair de joelhos e nunca mais parar de chorar pela perda da pessoa que mais amou na vida. Cada segundo, cada monte de terra jogada de lado aumentava a dúvida, uma expectativa e principalmente a culpa nas costas deles. O motivo de sofrerem esse peso pode ser diferente, mas, eles ainda o carregam, em silêncio, e isso os deixou mais próximos, mesmo que tentem negar.

De algum jeito, estavam ali outra vez, não exatamente onde tudo começou, mas, no qual eles tornaram-se o que são hoje.

Cavavam mais fundo nas memórias adormecidas, nas feridas mal cicatrizadas, naquela estrada tempestuosa atrás de uma verdade que talvez, fosse melhor não encontrar.

Longos minutos passavam tão lentamente quase como estivesse parado. O carro parou em frente a uma casa, os olhos esverdeados analisavam tudo, uma mistura de fascínio e medo do que viria a seguir. Assim como Amália que dera alguns passos a frente, vendo a profundidade da cova sendo aberta mostrando a breve silhueta do caixão coberto pela fina camada de lama.

Eles saíram do carro, Crowley abriu o guarda-chuva, estendeu a mão oferecendo educadamente ajuda a menina que aceitou, guiando em direção a entrada, mas não passou por ela, apenas abriu a porta indicando que a partir dali, teria que ir sozinha.

Passando as cordas na lateral do caixão, Derek e os outros começaram a puxá-lo para fora, um trabalho sincronizado e bem pesado. O deixaram ao lado, levaram alguns instantes para respirar, aliviar a tensão dos músculos, encararam a tampa lacrada, assim como a mulher que se aproximou parando logo a frente. Ergueu o olhar para eles dando um breve aceno, podiam abri-lo.

Natasha sentia-se tensa, o estômago doía de nervoso, mas não hesitou em entrar. Ali estava quente, pode ver a lareira logo a frente na sala, do lado direito há uma bela estante de livros que pega grande parte da parede, a esquerda, a janela coberta pela cortina e um piano que lhe chamou atenção, trouxe uma sensação familiar. Mas, não foi o piano em si, mas o porta-retratos que estava em cima dele que prendia seus olhos.

Aproximou-se admirando primeiramente o instrumento, passou a mão sobre as teclas brancas, estavam bem cuidadas. Logo ergueu o olhar, não foi um susto, mas, aquela fotografia abalou-a de tal maneira que não pode evitar pegar o objeto ficando confusa. A mão trêmula passou sobre o vidro, numa carícia singela. Estavam os quatro, ela, o pai e as tias, sujos de tinta, rostos espremidos lado a lado felizes e sorridentes, lembrava-se daquele dia quente de verão.

O som dos passos logo atrás fizeram seu corpo arrepiar, apertou a moldura com demasiada força, reuniu um pouco da coragem que se esvaiu de repente e virou-se lentamente.

Os quatro homens seguravam de cada lado da tampa de madeira, a retiraram dando passos para trás, Amália se aproximou em silêncio, encarando aquele interior, sentiu uma leve fisgada na palma da mão direita ao pressionar demais o suporte do guarda-chuva, Derek e Caleb pararam ao seu lado, o silêncio era perturbador.

– Como soube? – perguntou Derek que não conseguia desviar o olhar do caixão.

– Alguém que pensa, age como você, cinco passos a frente daquele que está sempre na frente. Que te conhece melhor do que ninguém. Situações similares, medos revividos…

“O passado nunca está morto, ainda nem se tornou passado.”. – recitou Caleb e a mulher acenou.

– Apenas uma pessoa nos conhece tão profundamente ao ponto de… – a lágrima escorreu pela face exausta. – Colocar-nos um contra os outros.

Ela não pode mais sustentar o guarda-chuva, abaixou o braço, cansada.

Minha irmã.

Há oito anos, estavam no mesmo lugar, devastados com tamanha perda, onde tudo mudou, enterrado a sete palmos. E mais uma vez, a situação tomava outro rumo, um no qual, eles não poderiam imaginar. Um caixão vazio, vários demônios livres.

O trovão ecoo do lado de fora, a lenha queimando na lareira também estalou de repente, a menina paralisada, encarando aquela mulher que apenas uma coisa havia mudado, a cor de seus cabelos que agora eram loiros.

Ela mordeu o lábio, encarou a mão e depois a menina novamente.

– Oi… – aquela voz melodiosa que nunca esqueceria. – Sei que… são muitas perguntas e provavelmente está confusa e com muita raiva. Mas, espero que possa me ouvir.


Disse com receio, havia felicidade em seus olhos, queria sorrir e abraçar aquela garotinha que não é mais uma criança, mas, conhecia aquele silêncio, a expressão assustada e a mágoa. Respirou fundo.

– Grite comigo… Brigue, xingue pode até mesmo me agredir, mas, por favor… não faça esse silêncio. – pediu ela com lágrimas nos olhos. – Não quero que me perdoe, pois o que eu fiz é imperdoável… Te abandonei, abandonei todos vocês… Por favor, Natasha… fale comigo.

O que ela podia dizer? Natasha estava em choque, não conseguia se pensar, falar, muito menos se mover. Quantos anos ela não sonhou com aquele momento? Essa cena onde Melissa entrava na sala segurando presentes ou somente um saco de pão com seu sorriso caloroso.

Agora, estava ali, a sua frente, só que por dentro, a menina não conseguia distinguir se aquilo era real, pois muitas vezes já alucinou e esse momento pode ser uma dessas loucuras. Será que realmente estava viva? Morreu assim que chegou naquela mansão depois do tiro e agora, vive num mundo particular?

Natasha não conseguia distinguir, a mente era o verdadeiro caos. Balançou a cabeça, chorando, já não via nada, dera alguns passos tortos para trás, sentiu tontura e uma forte vontade de vomitar.

– Nath?

Melissa correu em sua direção, tentou tocá-la, mas foi empurrada, não houve agressividade, pareceu mais um susto, o porta-retratos caiu no tapete, Natasha dera mais passos batendo contra a pequena mesa atrás de si, perdeu o equilíbrio e as força nas pernas caindo de costas.

Aquilo era um pesadelo ou um sonho? Não faz a menor ideia, só queria acordar pois sentia-se insana. Seus olhos assustados procuravam por alguém que não estava ali, a voz soava na memória, tentava agarrar-se naquilo para encontrar o caminho a realidade, entretanto apenas, parecia piorar. As imagens que afloravam eram do passado, o sofrimento com Ayla, momentos de tensão e dor, as lembranças de Melissa e Amália, outra dor surgia, indo cada vez mais fundo naquela escuridão, todas as cenas perturbadoras que viveu naqueles meses, a consumiam.

Fechou os olhos com força, tapando os ouvindo, o choro a consumia, soluçava ao ponto de perder o ar.

Estou louca… – disse para si mesma, a voz saiu rouca e baixa demais.

Ao longe pode ouvir notas suaves, melodiosas, não reconheceu rapidamente, mas aquilo a fez abrir os olhos e a frente, havia uma caixinha de música, a bailarina girava graciosamente. O suspiro que soltou fora tão pesado. Já ouviu aquela melodia antes, ergueu o olhar encontrando o de Melissa que sentou-se a uma curta distância, observava em silêncio.

– Eu sei o que é sentir-se louca, ver o mundo do jeito que é e saber que nunca vai conseguir se encaixar nele, por mais que tente. – comentou. – Foi demais para mim, ficar cercada de tantas atrocidades e eu nunca quis fazer parte delas.

Ela desviou o olhar respirando fundo, maneou a cabeça negativamente.

– Não dormi um dia sem pensar no mal que fiz a todos vocês, a dor, o peso… Sempre foram o que mais amei na vida, você… principalmente. – Melissa chorou. – Tamanha dor e desespero da minha pequena, sem conseguir te abraçar. Vê-la agora, mergulhada em tamanha depressão e tristeza, só mostra que falhei em tentar protegê-la…

Mel abaixou a cabeça e limpou as lágrimas, sentia-se péssima. O toque sutil a fez erguer brevemente o olhar, surpreendeu-se com abraço, o rosto da menina afundou-se em seu colo, deitando sobre suas pernas. A mulher cobriu a boca segurando o choro, deu um sorriso melancólico, fitando-a, acariciou seus cabelos, o rosto e viu aquela corrente dourada.

Limpou as lágrimas dela, afagou com todo o carinho que gostaria de ter lhe dado por todos esses anos, deixou que se acalmasse durante aqueles minutos. Fez apenas um aceno com a mão aos arcanjos para que fossem embora, não precisava deles ali, apenas piorariam a situação. E algum tempo depois, Natasha continuava naquele silêncio, sem compreender o que acontecia a sua volta, com calma Melissa guiou-a para um dos quartos, levou um pouco de água e a deixou, precisava de tempo, respirar e assimilar os fatos.

Natasha não estava apenas assimilando a situação, procurava uma maneira de controlar a mente, concentrar-se, agarrar-se aquilo o que era real. Encaixava as ideias, respirava fundo, clareando as ideias, a mistura de sonho e pesadelo, andar sobre a corda bamba, deveria ir para frente ou voltar para trás?

Ela tocou no celular que estava no bolso interno da blusa, confiavam tanto nela que nem ao menos o confiscaram, pegou a aparelho, a mão tremia tanto que mal conseguiu desbloquear a tela. Levantou aos tropeços, abriu a porta lentamente, olhando de um lado para o outro, tendo certeza que não havia ninguém. Voltou passando a mão no cabelo e encarou aqueles números, mas no final, não pode ligar para ninguém.

Está tão desesperada, voltou para a cama sentando, mexia a perna freneticamente, encarando o carpete. E com toda sinceridade, não soube quanto tempo ficou daquela maneira, não ouviu nada além da tempestade, mergulhou naquela desordem tão profundamente que apenas saiu quando um barulho, mais alto que seus pensamentos a desconcentrou.

Se virou para a janela vendo que já escureceu, a voz aumentou no andar de baixo, misturada com outras.

– Amália?

Levantou-se com pressa correndo até a escada, pulou alguns degraus segurou no corrimão vendo Zaki ficar entre as duas irmãs.

– Por favor, senhora Smith, soube que não pode fazer tanto esforço, se quer…

– O esforço que vou fazer será te espancar até precisarem fazer exame de sangue para identificarem seu corpo. – disse ela para Zaki, estava frente a frente ao homem que dera um passo para trás. – Eu vim por livre espontânea vontade, falei com vocês, vermes, agora, SAI DA MINHA FRENTE!

Gritou enfurecida.

– Pode ir Rafael… – pediu Melissa com aquele tom calmo, mas não tão suave, sabe o que está por vir. – Está tudo bem…

– Ah está? – a ironia chegava a ser até mesmo ameaçadora.

– Já conversamos senhora Amália, por favor, comporte-se… – o homem lhe deu um aceno e depois seguiu para a porta.

Cuidado com que fala ou mando fazerem frango a passarinho de você. – Amália sussurrou para o homem que passou ao lado, deu sorriso de canto e voltou a encarar a irmã.

Após ouvirem a porta fechar, Melissa respirou fundo, estava nervosa, não importa o quanto tempo passou, bater de frente com a irmã mais velha nunca foi seu ponto forte. Aquele olhar típico de tirar a verdade até do maior mentiroso, intimidadora, confiante, destemida, aquela era a advogada do diabo. O primeiro passo que Amália deu a fez recuar.

– Por favor, me escute primeiro. – apressou-se Mel.

– Pela primeira vez em oito anos, Melissa, eu não quero ouvir a sua voz. – confessou. – Oito anos, lamentando minhas decisões, meus erros, as desculpas que não dei, todos seus alardes… Eu me enterrei junto…

– Amália… por favor.

– Por favor? Têm essa coragem? Quer que eu haja como a boa samaritana que escuta ambos os lados e chegue a decisão? – ergueu os ombros. – Até faria… se não estivesse a porra de oito anos MORTA!

– Amália… – Nath deu um passo a frente, mas logo parou ao ver aquele dedo indicador em sua direção.

– Você fica ai. – encarou Melissa novamente. – Tem noção do que nós passamos?

A viu negar.

– Exato, sabe como ela e eu ficamos? Quase abandonei Natasha porque era impossível olhá-la e não lembrar de você. Nada do que me disser, vai me fazer perdoá-la, isso foi mais que mentira, foi traição.

– Derek destruiu minha vida, a nossa vida! – foi sincera. – Ele e Caleb nos manipularam desde o primeiro dia que nos conheceram, tudo o que fazíamos eram prol a eles, mais poder, mais mortes, manipulações incansáveis. Sofremos as consequências, coisas pesadas, cabeças dentro de caixas, ameaças, perseguições… E não pense que foram gentis ou “protetores”, procurando quem fazia essa coação. – negou. – Deixaram elas acontecerem, nós eramos o alvo… as iscas.

– E descontou em todos nós? Sua vingança? Quão diferente deles você se tornou tentando colocar a gente um contra o outro? – ergueu as sobrancelhas. – Não queria se tornar um deles, mas a quantidade de sangue que está nas suas mãos agora, Melissa, pode ser comparada a todos os atos deles.

– Ficou cega, surda, muda… Caleb colocou uma rédea na égua premiada dele e a única coisa que soube fazer foi te usar, a boneca inflável dele. – Melissa abaixou o nível bem rápido. – Me deixou de lado, do medo real que eu sentia perto deles, o que nós vivemos foi terrível! Apavorante, nem se importou no fundo do poço que eu estava.

– Sempre estive ao seu lado, posso não ter ouvido, isso é verdade, foi uma falha minha, mas… Nunca a deixei. Cheguei a parar minha vida para te ajudar… mas você simplesmente se afastou, eram muros tão altos e grossos, nada, nem mesmo eu passava. – ficou cara a cara. – Acha que me ofende ao mencionar Caleb? – riu debochada e negou. – Ofensa é chamar você de irmã, alguém que te trai, sem motivos, prezava tanto a vida e agora tem várias nas mãos, inclusive, o pai dela.

Apontou para Natasha cobriu o rosto com a mão, aquilo saia do controle cada vez mais. Amália tirou a jaqueta e logo em seguida a camisa, mostrando as cicatrizes, queimaduras, os curativos, abriu os abraços.

– O prédio explodiu, pegou fogo, comigo e Hugo ainda dentro. Eu vi o desespero, pessoas gritando, a estrutura caindo, a minha carne sendo queimada… Se Caleb não tivesse chegado a tempo, também estaria morta. – mas uma vez lançou o olhar para Natasha. – O homem que tanto odeia, esse ser desprezível, foi quem passou dia e noite procurando por Natasha. Agora, ela estaria em algum navio sendo traficada ou até morta pelo tiro que levou, mas Derek não descansou até que a trouxesse de volta. Coisa que seus arcanjos, não conseguiram e sabe porque?

Amália vestiu a camisa novamente, ajeitando os cabelos.

– Porque foi um deles o culpado de tudo. Uriel armou a explosão e a entregou aos mexicanos. Pode me dizer o quão diferentes são dos Ceifeiros?

– Você… está grávida?

Após um suspiro pesado, acenou.

– É… dele?

– De quem mais seria? Do Derek que não. – adiantou-se e desviou o olhar. – Natasha, tudo bem?

– Defina “bem”. – comentou ela. – E-eu não consigo pensar é… muita coisa e…

– Vamos embora. – Amália se aproximou tocando sobre seu ombro. – Não merece passar por mais pressão, principalmente por isso… – recebeu aquele olhar perdido e acariciou seu rosto. – Quer ir embora?

A pergunta foi sussurrada e a resposta um sutil aceno com lágrimas escorrendo pelo rosto.

– Eu não tenho culpa das ações deles. – adiantou-se Melissa. – Eles me salvaram quando tentei me matar, abriram meus olhos, garantiram que ninguém mais tocaria na minha família, sabia do preço, precisa ir embora, disse apenas o que queria saber. Queriam Derek e eu o entregaria, por vocês.

Amália deu um riso baixo se virando.

– Tem toda a culpa assim como eu tenho, se transformou nisso. Você carrega tanto peso quanto qualquer um de nós, não pode mentir para mim e sabe disso.

A olhou de baixo para cima.

– Pensou como ele por tanto tempo que não percebe, tornou-se o que mais odeia. – a viu negar e riu de novo. – Sei que era você na empresa, via e ouvia, plantava a discórdia em silêncio… As vezes, eu via uma pessoa parecida, achava que estava enlouquecendo, mas, não…

– No metrô era você? – perguntou a menina recebendo um aceno positivo. – Céus…

– Você ainda vai protegê-los, não importa o que eu diga ou às verdades que apresente, sempre esteve ao lado deles.

– Que verdades, Melissa? – quase alterou-se novamente. – Nós sabemos o que são, o que fazem, o que mais quer? Que cheguem e digam, “sim, usamos vocês.”? Sua vingança, sua ideia, não tem sustento, se virou contra eles, contra nós… por ciúmes e rejeição.

– Foi uma tortura que você não passou.

– Eu passei por tudo, ao seu lado, sofri, a diferença é que enfrento fogo com fogo… Você se escondeu e deixou que entrassem na sua mente. Arcanjos e Ceifeiros, são a mesma coisa, assassinos cheios de influência e crueldade, só um deles, eram nossos amigos.

– Nunca foram Amália, é isso que não entende. Entramos no meio de uma guerra que não era nossa, fomos seus escudos por anos, recursos, se morrêssemos, encontrariam outros.

– Nada do que diz faz sentido, nós poderíamos ir embora, assim como esses idiotas te “esconderam”, Derek e Caleb tem o mesmo poder… Mas, seu desejo não era fugir e sim me ferir…

– Nunca foi…

– Não é uma vingança apenas contra eles e sim a mim, acha que a trai e abandonei… Eramos tão unidas, a dupla perfeita e quando chegaram, “te deixei”. – a interrompeu e balançou a cabeça. – Descontou em tudo. Porque não confessa de uma vez?

– Por que não é verdade.

– Quem está cega agora? Eu chorei por você, dias, semanas, meses, anos… A falta que sentia, a dor… Melissa, não tem noção de quantas vezes desejei voltar no tempo, era isso que queria? Que sentisse esse peso e remorso, conseguiu, meu sofrimento foi prolongado e cruel.

– Amália, por favor… tem que me escutar.

– Infelizmente, estou escutando… E tem razão, escolhi um lado e não é o seu.

Afastou-se pegando a jaqueta, olhou para Natasha que estava perdida nos próprios pensamentos.

– Você vem, Nath?

Por alguns segundos a menina sustentou seus olhares, depois se virou para Melissa que chorava em silêncio. Natasha respirou fundo, maneou a cabeça cansada e seguiu em direção a Amália que ajeitava a roupa.

– Natasha… – Mel a chamou. – Por favor… volte, e-eu não quero perdê-la.

A menina não respondeu, apenas a olhou ligeiramente, antes de dar as costas e acompanhar Amália que pegou o guarda-chuva abrindo a porta logo em seguida. Melissa chorou jogando-se no sofá, cobriu o rosto. Soube desde o iniciou, não seria fácil revelar a verdade a elas… Porém, frente a frente, mostrou-se impossível, o tempo passou, demorou demais e sua volta não fora tão bem-vinda como um dia imaginou. Talvez, se todos eles estivessem mortos antes de se mostrar, Amália e Natasha estariam livres das amarras e mentiras.

O ódio de Melissa por aqueles dois é tão grande, nem tentava esconder. A culpa é e sempre será deles.

Elas saíram na escuridão da noite, de baixo aquela chuva, caminharam lado a lado no silêncio. Não deixaram de reparar nas pessoas que andavam por ali, era obvio, são as “hostes celestiais”, os homens dos arcanjos, protegem a casa e Melissa. E isso é exatamente a mesma coisa que os Ceifeiros fariam e estão fazendo, mantendo-as escondidas e seguras.

Qual é realmente a diferença entre eles?

É uma vida insustentável, sempre haverá inimigos, tensão, ameaças. Ninguém nunca estará seguro.

Tomaram uma certa distância até Amália pegar o celular fazendo sua ligação, não demorou muito tempo, talvez, cinco a seis minutos até o carro escuro chegar, com aquele mesmo motorista que levou Natasha para a igreja. Entraram seguindo para casa e assim como a caminhada, tudo fora apenas silêncio. Ambas não se encontravam bem, perdidas, magoadas, confusas, Amália tinha a visão um pouco mais nítida, seus pensamentos são mais claros e suas decisões fáceis de serem tomadas. Entretanto não anula o fato de ser doloroso.

Ao chegaram foram recebidas pela enfermeira e o médico, os outros não estavam, Amália não queria ser examinada, nem conversar, mas foi obrigada ou tinha certeza que aprenderiam dentro do quarto por nove meses. Natasha isolou-se do lado de fora, sentada no banco encarando o quintal dos fundos, os cachorros logo correram ao seu encontro, Billy como de costume deitando em sua perna e Brutus em seus pés. Ela sentia-se no limbo, apenas existia.

Natasha ficou naquele banco sentindo o vento frio e úmido por uns dez minutos ou mais até a voz de Govan tirá-la dos pensamentos.

– E ai mocinha… – apontou. – Posso sentar?

Recebeu um aceno positivo e sentou, pigarrou ajeitando a roupa.

– Soube do ocorrido. – balançou os ombros. – É foda… Quer que eu pare de falar? – a encarou.

Natasha devolveu o olhar e negou, gostava dele. Govan deu um sorriso curto e tossiu.

– É difícil, sofrer por alguém por tantos anos e descobrir que é uma traíra. – ergueu a mão. – Com todo respeito aos seus sentimentos. É só um comentário… topamos com muitos parecidos, mas sempre quiseram nos matar, no seu caso é diferente.

– O que faria? – o homem a encarou novamente. – No meu lugar, no que pensaria?

– Ah mocinha… – Govan suspirou e balançou os ombros. – Eu garantiria que a pessoa continuasse morta. Nada justifica uma mentira, uma traição, se era meu amigo, minha família… Porque me abandonar? Mas, isso, sou eu, não posso dizer para fazer a mesma coisa.

– Eu não consigo pensar… – confessou. – Não consigo sentir ódio, não dela… mas ao mesmo tempo, me sinto traída.

– Diria que está dividida. – ambos se encararam novamente. – Por um lado, deixa todo seu amor transparecer, a saudade, pode perdoá-la, mas o outro, tem mais pessoas envolvidas que estão em perigo por causa dela. Quer amá-la mas ou menos tempo deseja odiá-la por ferir outros.

– Não sei… – coçou os olhos de maneira cansada. – Juro pra você, eu não sei mais nada… Sinto que estou a ponto de sofrer um colapso.

– Porque não desiste e vai embora? É uma opção tão ruim assim?

– E tem como ir? Até agora, tudo o que vi, foram vocês voltando de suas vidas para essa guerra. Nunca terá paz… não enquanto nenhum dos lados vencer.

– É. – concordou ele. – De certa maneira, você tem razão. – ele ajeitou-se no banco, entrelaçando os dedos apoiando as mãos sobre a barriga. – Nós, se posso falar pelos ceifeiros, temos esse senso de “justiça”, nossa lealdade uns com os outros. Então quando Derek nos contatou, não foi uma convocação ou obrigação, viemos porque faz parte de nós, lutar, sermos unidos. Dessa maneira… torta. – riu baixo. – Nos odiamos e nos amamos, vamos morrer um pelos outros, já tivemos traições e perdas demais.

Se virou para ela.

– A pergunta que deve fazer a si mesma, Natasha é… Quem nesse momento é sua verdadeira família? Está disposta a largar tudo por eles? Percebe que nós protegemos uns aos outros? Porque não temos mais nada, somos assassinos, nenhum de nós bate bem dos pinos, e por esse motivo, criamos esse circo de horrores.

– Largou sua família? – ele acenou. – Alguém vive?

– Minha esposa, bem, agora é casada com outro, mas, tudo bem. Ela está feliz, muito mais do que comigo. – Govan olhou para palma da mão que estava áspera. – Pérola era nossa única filha e ela desistiu de tudo para ficar comigo, por mais distância que eu tomasse… Largou a mãe por mim e não pude protegê-la. Infelizmente, essa é a nossa vida, morremos e matamos facilmente.

– Onde está Caleb? – perguntou apoiando as mãos no banco.

– Ele e Derek estão resolvendo alguma coisa com aquele russo bebê chorão, devem chegar mais tarde. – coçou o rosto de maneira descontraída.

– Pode me levar até o hospital?

– Vai fazer alguma coisa errada? – ela deu um sorriso curto, o encarou e negou. – Então… – bateu nas próprias pernas. – Vamos nessa.

Se levantou ajeitando a roupa seguindo para dentro, a menina apenas balançou a cabeça e chamou os cães. Como não havia ninguém além dos médicos de plantão e Amália provavelmente teve que tomar remédios, deve ter adormecido mais rápido, precisa pensar em na saúde dela e do bebê. Saíram sem avisar ninguém, no silêncio, a chuva estava incansável, pelas notícias da madrugada houve pontos de alagamento.

Govan a deixou em frente ao hospital, os cães ficaram com ele que saiu depois para ficar fumando do lado de fora. Encarava a chuva, parado próximo a parede acompanhado daqueles animais que tinham o comportamento melhor do que da criança gritando na sala espera. Quem apareceu alguns minutos depois foi Casimiro, o cumprimentou dando um aceno e parou ao lado.

– Ela te mandou sair? – perguntou Govan.

– Não, mas achei melhor deixá-la a vontade com o pai. – olhava para os cachorros. – Essa garota está completamente perturbada.

– Claro, não é todo dia que sua tia sai do túmulo dançando Thriller. – moveu as mãos com o cigarro entre os dedos como se dançasse. – A mente dela está beirando o precipício, acredito que está olhando pro abismo.

– Já disseram qual o próximo passo? – recebeu um aceno negativo. – É, agora precisamos esperar, mas parece que essa “trégua”, está acontecendo.

– Veremos quanto tempo. – recebeu o olhar de Casimiro. – É amigão, enquanto a menina não escolher um lado, estamos seguros. A mulher a quer e algo me diz que no momento que cruzar a porta dela, seremos alvos novamente.

– Natasha disse alguma coisa sobre a conversa?

– Não e não vai dizer nada, teremos que esperar por Caleb.

Casimiro riu baixo e cruzou os braços.

– Nunca vi alguém confiar tanto nele, sabemos bem o passado e como os contratantes odiavam chamá-lo.

– Pode culpar Eluf por isso, sabe bem o quanto ele o odeia. – coçou o nariz. – E se não fosse confiável, não seria parceiro de Derek.

– Ah, não sei. Caleb foi contratado para matá-lo lembra? Perdeu… E logo virou-se contra o contratante.

– Perdeu? – o encarou. – Acha mesmo?

– O que quer dizer?

– Quero dizer que nós conhecemos bem quem o treinou. Eluf tinha um pupilo, era o melhor… mas não foi ele que sobreviveu e sim Caleb. Acha mesmo com a tamanha força de vontade e sangue nos olhos daquele homem, perderia? Ou se adaptaria?

– Preferiu perder… para estudar Derek?

– Caleb e Derek são a mais alta patente dos Ceifeiros e nós dois sabemos disso. Ninguém nunca mais vai “criar”, assassinos como eles, se tem uma palavra para defini-los, é perfeição.

– Onde está querendo chegar?

Casimiro até entendia o que o amigo dizia, mas, não fazia sentido algum. As ideias apesar de claras, não se encaixam no contexto, estava mudando constantemente o foco e o deixando confuso do rumo da conversa.

– As pessoas temem Derek, com razão, mas, esquecem da existência de Caleb e é ai que mora o perigo. – puxou o celular vendo a nova mensagem. – Mais perigoso que o carisma do Algoz de conseguir a empatia das pessoas é ter alguém que faça os outros virem até você. Roman, é o predador, o caçador que atrai a presa, o ambiente está sobre seu domínio e uma vez que se é pego na armadilha… Você já era.

– Govan, tomou seu remédio hoje?

O homem riu alto tossindo logo em seguida, lançou aquele olhar perturbado pro colega balançando a cabeça.

– Faz uma semana que não vejo a cor da caixa. – zombou. – Mas, acredite em mim Popoki, no tempo certo, vai entender o que estou dizendo.

– Eu nunca vou te entender seu velho maluco!

Lhe deu um empurrão e balançou a cabeça.

Dentro do quarto, Natasha estava sentada ao lado da cama, o olhar perdido em um ponto qualquer, apesar do silêncio, os pensamentos gritavam, a cabeça latejava de tanto que pensava.

Mocinha…

Ela piscou algumas vezes e encarou o pai que estava sonolento, o homem deu um sorriso breve.

Vá para casa, sua família vai ficar preocupada. – Hugo fechou os olhos soltando um suspiro calmo. – O velho aqui está bem.

Não tenho ninguém me esperando em casa. – disse ela aproximando-se um pouco mais até deitar a cabeça sobre os braços o observando. – Ficar aqui me da… paz. Gosto de te fazer companhia.

As lágrimas tomaram rapidamente seu rosto, ouviu a baixar risada dele, a mão dele tocou sutilmente o topo de sua cabeça.

Seus pais devem ter orgulho de uma menina tão amorosa e responsável como você. – se virou a encarando novamente. – Eu teria.

Natasha chorou, mas deu um sorriso.

Eu cuido do senhor… como meu pai cuidava de mim, eu o amava muito. – Hugo limpou suas lágrimas. – Perdão por chorar…

– Eu que peço desculpa, não sabia que tinha perdido os pais. Agradeço querida, não me sinto tão perdido quando está aqui… Até parece que nos conhecemos.


Ele riu a fazendo rir também, pegou em sua mão, acariciando.

O senhor…cuidou de mim, só não se lembra, estou retribuindo todo seu carinho.

Hugo sorriu a encarando, todas as vezes que a olhava aquela menina, seu coração se enchia de alegria era incapaz de explicar o motivo, mas gostava muito dela. E só poderia ser verdade, deve conhecê-la, caso contrário, não seria tão receptivo. Estava confuso, perdido, não fazia ideia de como chegou ali, mas, ela lhe dava a sensação boa.

Estou com uma música na cabeça. – comentou ele encarando o teto. – Mas, não faço a menor ideia de quem é…

Batia a mão no colchão e começou a cantarolar. Natasha limpou as lágrimas sorrindo.

Abba… – respondeu ajeitando-se na cadeira, respirou fundo e cantou brevemente.

“Você parece tão distante

Apesar de estar perto

Você me fez sentir viva

Mas temo que algo morreu”

Ele sorriu, continuava a bater as mãos sobre o colchão, conhecia mesmo aquela música e a voz da menina é tão suave, familiar, conseguiu apenas lembrar-se daquele refrão.

“Mas quando você está próximo a mim, querido

Você não pode me ouvir?

S.O.S”

“Amor que você me deu

Nada mais… pode me salvar

S.O.S”

“Quando você se for

Como eu posso então tentar seguir em frente?

Quando você se vai

Mesmo que eu tente, como posso continuar?”

Dando uma risada baixa, Hugo bateu breves palmas.

Que voz linda, poderia ser cantora. Agora, quero ouvir mais músicas, Abba… acho que já ouvi antes.

Ela se levantou para ajeitar o cobertor sobre o pai, acariciou a mão dele mais uma vez.

É uma das bandas que você mais gosta. – revelou. – Agora, precisa voltar a descansar, tera um dia cheio de exames.

Vou descansar apenas se me prometer que também ira para casa dormir…

Natasha estava controlando o choro, só pode lhe dar um abraço.

Prometo. – tocou em seu rosto. – Boa noite.

Boa noite e obrigado querida. – ele fez o mesmo gesto de acariciar sua bochecha. – Pode… me dar outro abraço?

Ela sorriu triste e acenou, lhe dando outro mais forte. Estava doendo tanto, o coração quebrado, as memórias passando repetidamente, Natasha não queria soltá-lo, ele é o verdadeiro amor da sua vida. Não pode fazer mais nada pelo pai, sabe que vai magoá-lo, as pessoas o machucaram e decidiu que nunca mais vai colocá-lo em perigo por suas burrices, mentiras e falta de controle.

Ao sair do quarto, os olhos estavam cheios de lágrimas, a visão turva, mente e coração pesados, o desespero dentro dela a consumia, a tristeza, a raiva. Caminhou pelo corredor, passou pelo refeitório e seguiu para a parte externa, não havia ninguém ali por conta da chuva, mas ela simplesmente ignorou ficando ali parada encarando o céu noturno. Finalmente perdeu as forças, caiu de joelhos, chorando compulsivamente, apertava aquele pingente e socou o chão com raiva.

Foi como se enfim, tornar-se um espelho estilhaçado, nada além de poeira cristalina, alguns míseros pedaços afiados, sem reflexo. A voz distante soou familiar, o toque sutil sobre suas costas a puxando para perto, ela o abraçou tão intensamente, apoiou a cabeça sobre seu ombro.

– Por favor… – soluçou. – Tira isso de mim, faz essa dor passar Caleb. – apertou o tecido da roupa encharcada. – Eu te imploro, não aguento mais.

Ele tocou em seu rosto, analisou-a.

– A dor só começou Natasha. – foi sincero. – Tentar parar de sentir é muito pior do que já senti-la. Vejo em seus olhos, não pode odiá-la e está tentando não é?

A menina acenou chorosa, fechou os olhos e abaixou a cabeça.

– Está entre nós e Melissa… É isso que está te corroendo por dentro, infelizmente, não posso te induzir há uma escolha, ela tem que vir diretamente de você ou se arrependerá.

– Mas eu… não quero fazer essa escolha… Não consigo, não sei… – segurou em suas mãos. – Me sinto sozinha, perdida, enganada… traída, mas não posso odiá-la, só queria amá-la, mas como posso? Se ela machucou vocês? Meu pai…

Caleb ajudou-a levantar, guiando-a para dentro do refeitório antes que ficasse doente por conta do frio e a chuva. Apesar de ter o sobretudo molhado, o tirou para cobri-la, era mais quente que a blusa que usava, sentou na cadeira usou alguns guardanapos para limpar o rosto dela.

– Precisa se acalmar agora… Eles cumpriram o prometido, não estão mais nos caçando, por causa de Uriel estão mantendo os esforços em achá-lo.

– Se ouvisse o que ouvi… – murmurou, atordoada. – Minha cabeça não aguenta mais tanta mentira e manipulação Caleb. Estão nisso por causa da Melissa, tudo isso, foi graças as informações dela… Sabem tudo sobre mim, disseram que tem contato com a minha mãe e pra que?! Cármen… é o pior deles, disse algo sobre eu ser um “intermédio”.

– E ela tem razão, querem usá-la como uma mensageira, foi o que fez indo até lá, levaram diretamente a Melissa, pois sabiam dessa conexão, indo para o lado dela, estariam livres para se livrar de todos nós.

– Enfatizaram várias vezes que querem Derek, cheguei a entender que deixariam os outros vivos, mencionaram a família de Osíris.

Ela olhou para os lados e colocou a mão sobre o estômago que doía.

– Claro que querem… É o algoz, o homem matou um deles, mas não deve acreditar que deixarão um de nós vivos. Seria um belo conto de fadas…

– Todos mentiram para mim… – comentou distraída. – Sou levada de um lado para o outro, no final de tudo, sou o peão. – passou a mãos nos fios que grudavam no rosto. – O que é real?

– Natasha…

Caleb prestou mais atenção, estava pálida, prestes a ter outro ataque de pânico, daquela maneira é impossível raciocinar, vivia dentro do próprio inferno, se flagelando. Tocou em seu rosto, o virando para si, a respiração dela descompassada, não conseguia focar.

– A corte celestial, foi o que disseram… julgam tudo e todos, decidem quem vive, morre… – finalmente o encarou. – Se souberem que os ajudo, se descobrirem que menti sobre meu pai, não vão apenas atrás de mim…

– Está criando paranoias Natasha, precisa me ouvir.

Ela ouvia, só não conseguia entender, passava muito mal, segurou nos punhos dele, a mão tremia e estava gélida.

– Não ligam para você, Caleb. – confessou. – Usaram palavras rebuscadas apenas para dizer que não é nada, se quisessem te matar já teriam feito. “Excelente no que faz, mas ninguém nunca o seguiria, não há confiança.” – repetiu as palavras.

– Precisa respirar, está passando mal. – ele ignorou a fala dela por alguns momentos, precisava acalmá-la ou teria um enfarto. – Presta atenção em mim primeiro, vamos… respire.

Por mais que tentasse puxava o ar pela boca que já estava seca, o gosto amargo subia pela garganta, a cabeça rodava, o ouvido zumbia, ele a virou de lado, no exato momento que vomitaria. Cariciou suas costas, segurou algumas mechas do cabelo, aquilo era puro nervoso e estresse, ouviu a voz dos colegas ao fundo, apenas fez um aceno breve com a mão, chamariam o médico.

Com mais alguns guardanapos voltou a limpar seu rosto, ela chorou e segurou sua mão. Caleb aproximou-se, acariciou sua cabeça num gesto até carinhoso, ajeitou-a de maneira mais confortável na cadeira, olhando aquelas pupilas dilatadas.

– Acha que aquela mulher que encontrou hoje, é a mesma de oito anos atrás? – perguntou ele sem receber uma resposta. – Acredita no amor que ela sente, é verdadeiro? Quem você amou, Natasha, está morta… Assim como aquela criança que você foi um dia.

Segurou seu rosto com ambas as mãos.

– Quer voltar a ser aquela criança? – ela apenas negou. – Feche os olhos, respire fundo e devagar.

Obedeceu. Tudo o que ela queria desde o começo daquele dia era ter Caleb por perto. Isso mesmo. A voz dele está sempre presente, mas, seu descontrole, traumas que estartam o pânico a impossibilitam de ouvir, já a presença é diferente. Lhe da mais que conforto, é como se fosse sua própria “sanidade”.

“Meus demônios sussurram em meu ouvido.”

Caleb aproximou-se mais e sussurrou.

Dê um passo para dentro desse caos. Olhe ao redor, isso o que vê não é nem a metade. Sei que está caminhando entre o pânico e a loucura pois eu já estive na mesma estrada.

As lágrimas solitárias desciam pelo rosto exausta da menina.

Fui destruído, assim como você, me odiavam, me usaram, tratado como o esterco… Mas, veja só quem está a sua frente, aquele que todos julgam não ser ninguém. Não quero que gostem de mim, não quero confiem em mim, meus inimigos precisam me temer exatamente por ser imprevisível.

Ele passou a mão nos cabelos molhados dela.

Abrace sua loucura, deixe-os conhecerem todos os seus monstros, não esconda mais o que você quer ser… Diga, o que está vendo?

Lentamente abriu os olhos o encarando, ele acenou sutil e tocou sobre sua bochecha.

Posso transformar todos seus medos e monstros em vagas memórias… Ecos do seu passado que a impulsionarão. Qual sua vingança? Sangue? Poder? Medo?

– E-eu… – fez uma breve pausa. – Quero puni-los.

– Quem?

– Todos aqueles que já me fizeram mal, aqueles que saem pelas ruas tranquilamente porque sabem que nunca serão pegos. Essa é a minha vingança.

– Veremos. – tirou o fio grudado na bochecha dela, assim ergueu seu rosto pelo queixo. – Eu escutei todos os seus planos e ideias, está na sua vez de escutar.

Disse ele escutando os passos se aproximarem, Govan e Casimira voltaram com o médico acompanhado de uma das enfermeiras. Apesar disso, não tirou o foco dela.

Confia em mim?

Natasha afirmou sem demora e recebeu um abraço. Após algum tempo, o médico fez um breve exame, obrigou-a tomar um calmante o que precisava urgentemente ou surtaria de vez, logo, Caleb ordenou que a levassem de volta para casa.

As horas se passaram, o relógio na sala bateu exatamente quatro da manhã, Melissa desceu as escadas no escuro, estava com dor de cabeça latejante, chegou a cozinha pegando um copo d’água e uma aspirina. Apoiou sobre a pia soltando um forte suspiro, a chuva batia contra a janela, aquela tempestade nunca teria fim, assustou-se com o barulho vindo da sala, rapidamente, abriu uma das gavetas tirando a arma.

Caminhou aflita, mas determinada, a mão livre passou pela parede procurando o interruptor, porém, as luzes não se acenderam, foi o abajur próximo ao piano que se acendeu, revelando o homem próximo ao instrumento. Ela ergueu a arma em sua direção e puxou o gatilho, entretanto, nada aconteceu, a arma estava vazia.

Calmamente colocando a mão dentro do paletó puxou o pente da arma mostrando-o para ela e o deixou na mesa de canto, Caleb sentou-se na poltrona ao lado.

– Seu maldito…

– Parece que oito anos lhe ensinaram a segurar uma arma.

Melissa gelou, a coluna se arrepiou por inteira e lentamente virou para trás.

Sentado no sofá estava Derek, naquela pose inabalável, o olhar fixo e inexpressivo, mas o tom de sua voz não era suave, nem amigável.

– Não era um reencontro? Aqui estamos, só não posso dizer que é um prazer revela.

 


Notas Finais


Obrigada mais uma vez <3


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