História Hanover - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Cidade Pequena, Mistério, Suspense
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Palavras 1.893
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - .so lonely.


Fanfic / Fanfiction Hanover - Capítulo 2 - .so lonely.

 Rosie serviu um grande copo de suco de laranja e o colocou na frente de Adam, que encarava o tampo da mesa da madeira, a cabeça a mil pensamentos por hora. A comida em seu prato permanecia intacta pelos últimos cinco minutos.

- Adam – A voz de Rosie tirou o homem de seu transe. Balançou a cabeça e piscou os olhos, como se tentasse acordar. As palavras de Arabella iam e vinham em sua cabeça, a imagem de Theo angustiado, questionando a fuga dos pais, a última imagem que terá dos pais... Eram coisas demais para processar. – Você está aí, viajando há pelo menos cinco minutos, nem tocou na comida. Estou aqui tagarelando e você não me responde.

 - Desculpe – Disse, se ajeitando na cadeira. Cortou um pedaço da lasanha servida pela amiga e levou o alimento, quase frio, a boca. Fechou os olhos, sentindo cada centímetro de seu corpo distensionar com o sabor da comida. – Isso aqui tá incrível! Não sabia que você cozinhava.

 - Eu não cozinho – Respondeu a garota, andando até a lixeira da cozinha e levantando o tampo, deixando a mostra uma embalagem de lasanha congelada. Ambos riram.

 - Sorte sua que meu paladar não é exigente – Brincou, dando um gole no suco de laranja trincando de tão gelado. Rosie voltou a se sentar em frente ao amigo, observando Adam com seus grandes olhos. O homem franziu as grossas sobrancelhas.

 - Que foi?

 - Como você consegue fingir que tá tudo bem? – Perguntou, fixando seus olhos verdes folha seca nos besouros negros de Adam, que deu de ombros.

 - Eu preciso. Theo precisa de uma figura a quem se segurar, alguém que lhe mostre que está tudo bem. Como nosso pai costumava mostrar.

 - Ele ficou bem abalado com o que aconteceu hoje na livraria... Aquilo que aquela garota falou, totalmente sem noção.

 - Os boatos sempre existiram, é uma cidade pequena – Adam esfregou o rosto com as palmas das mãos e respirou fundo. – Meus pais chegaram em Hanover em 1992, minha mãe ainda estava grávida de mim, então tudo que sei são histórias que eles contaram. Eles viviam em Nova York, e ficaram cansados da vida de cidade grande e vieram para cá. Abriram a livraria, sempre ganharam o dinheiro de maneira honesta, sem motivos para ninguém desconfiar. Mas quando eles sumiram, surgiu todo tipo de boato, que eles eram traficantes, que a livraria servia para lavar dinheiro... Todo tipo de bosta falsa.

 - Me desculpe perguntar, se você não quiser responder tá tudo bem – Disse Rosie, batendo os dedos no tampo da mesa. Adam acenou a cabeça, indicando que ela poderia prosseguir – E seus avós, tios? Ninguém nunca veio saber deles?

 - Eles eram filhos únicos, e todos os meus avós já faleceram sem que Theo ou eu conhecêssemos – Respondeu, repetindo a história que havia escutado da mãe pelo menos vinte vezes. A imagem de um homem veio a sua cabeça, meio baixo, cabelos ruivos que iam até os ombros, roupas grosseiras, já de meia idade – Uma vez um cara apareceu, alguns dias depois que eles desapareceram, os corpos ainda não haviam sido encontrados. Ele disse que o nome dele era... Robert, eu acho. Disse que era um velho amigo.

 - Deve ter sido uma barra para você. Tão novo, tendo que lidar com inverdades, com Theo...

 - Bem, o que não te mata te deixa mais forte, não é?

 - Nietzsche. – Rosie sorriu, e Adam retribuiu.

 

 O cemitério de Hanover era quase sempre um local cinza e frio, onde o vento era sempre mais forte. Se localizava no topo da cidade, um pouco afastado de tudo e todos, estando sempre vazio e podendo facilmente se passar por um local abandonado, se não fossem pelas flores coloridas e cheias de vida que raramente apareciam nos túmulos. Hoje, os túmulos de Eliza e Sam estavam especialmente ornamentados.

 Theo encarava as sepulturas, postas lado a lado, repletas de flores já secas e algumas recém postas.

 - Já fazem nove anos – Se virou, dando de cara com Danny Jackson, um homem alto e corpulento, dono de um dos bares da cidade. Danny fora grande amigo dos pais de Theo no passado, contudo, há um ano vivia enfurnado dentro do próprio bar. Apertou o ombro do garoto. – Sinto falta deles, garoto.

 - Eu também – Disse Theo, mordendo a própria língua para evitar que as lágrimas escapassem. Observou Danny com um pouco mais de atenção, há tempos não o via: seu cabelo havia crescido, assim como sua barba. Havia engordado um pouco, mas ainda assim continuava forte. –  Não me lembro tanto deles quanto eu gostaria.

 - Quando somos crianças não prestamos a atenção em tantos detalhes, não é? – Sorriu. – Sua mãe era a mulher mais brava que eu já conheci, não levava desaforo para casa, ah, não mesmo. Mas era um doce com quem ela gostava. Já seu pai, nunca conheci um cara mais engraçado.

- Isso eu me lembro – Theo sorriu, se virando para o túmulo que carregava o nome do pai. – Danny, você sempre morou em Hanover?

 - Sim, nascido e criado.

 - Você se lembra de quando eles chegaram? – Perguntou, se virando para o homem, que coçou a cabeça, forçando a memória.

 - Começo dos anos noventa, chegaram junto com... Steph. Eram um grupo um tanto quanto peculiar, se quer saber, mas logo me aproximei. Afinal de contas, viviam no meu bar.

 - Stephanie... – Theo murmurou, se lembrando das palavras de Arabella sobre a mulher. Estaria morta? Não via a mulher, casada com Danny, a pelo menos três meses. – Como ela está?

 - Bem, eu acho – Respondeu, olhando para o chão. Não recebia notícias da esposa a pelo menos duas semanas. A mesma havia partido a três meses, no meio da noite, alegando que o pai estava em estado terminal no hospital, mas Danny sabia que havia algo errado. – Foi para alguma cidade do norte a alguns meses, visitando o pai. Ele está meio doente.

 - Ah. Sinto muito.

 - Nunca conheci o velho, sendo bem sincero – Respondeu Danny, dando de ombros e fitando o céu azul por alguns segundos. Toda aquela história parecia bem estranha para ele, sentia que Stephanie mentia, afinal de contas, havia citado o pai pouquíssimas vezes desde que haviam se conhecido. Dizia estar em uma cidade, mas sempre que ligava para alguém da tal cidade, ninguém nunca havia ouvido falar de Steph. “Você precisa confiar em mim, Danny”, ela dizia, sempre que ele questionava. Não atendia as ligações dele a duas semanas. – Bem... Eu preciso ir. Você sabe onde eu estou caso precise de mim, certo?

 - Certo. – Disse Theo, estendendo a mão para o homem – Muito obrigado.

 - Sem problemas.

 

 Há poucos metros de onde os dois haviam acabado de conversar, Arabella Vogt observava toda a conversa com atenção, mesmo que não pudesse escutar nada.

 - Você está tirando fotos, não é Edgar? O que será que eles estão falando?

 - Aham – Respondeu Edgar impaciente. – Provavelmente ele está prestando condolências por que os pais do cara, você sabe... estão mortos.

 - Você vai continuar me julgando?

 - Arabella, eu só acho que você deveria deixar os mortos em paz, sabe? Respeitar o luto, e tals.

 - Se você quiser pode ir embora – Ela lhe lançou um olhar mortal – Eu não preciso de você para isso mesmo.

 Edgar revirou os olhos e guardou a câmera. Ah, as coisas que fazia por amor: desde os dez anos de idade seguia a amiga para onde quer que ela fosse, em uma tentativa falha de fazer com que ela percebesse que ele não queria apenas ser seu amigo. O que havia começado como uma paixonite boba de criança havia evoluído para algo muito maior, e além do mais, Arabella era sua única companhia.

 A garota seguiu Danny com os olhos, observando enquanto este subia na velha Harley Davidson e acelerava. Agarrou a mão de Edgar, se levantando rapidamente.

 - Vamos seguir o velho! – Sussurrou animada, correndo para fora do cemitério com Edgar em seu encalço.

 

 O bar Roxanne era o melhor dos três bares existentes de Hanover, além da decoração que permanecia intacta desde os anos oitenta, contava também com música ao vivo na maioria dos dias, a melhor e a mais gelada cerveja da cidade e era um point de encontro dentre os motoqueiros e rebeldes sem causa da cidade e região. Nada que uma ida ao Roxanne não possa melhorar!, era o que estava entalhado na grande placa de madeira na entrada do local. Contudo aquele lugar não fazia com que Danny se sentisse melhor, apenas remetia a mais e mais lembranças. Cada pedaço daquele bar remetia a Stephanie e a seu filho Miles, de forma que cada vez que entrava no bar o buraco em seu coração aumentava um pouco de tamanho.

 Ligou o som ao entrar, e o som da guitarra de Jimi Hendrix começou a preencher cada centímetro do local. Abriu a garrafa mais gelada de Guinness que encontrou, e se jogou no velho sofá de couro. Levou a garrafa a boca, e deixou que o delicioso gosto amargo da cerveja o preenchesse. O homem fechou os olhos enquanto o líquido congelava sua garganta.

 O ruído da porta se abrindo não fez com que Danny abrisse os olhos. Apenas respirou fundo e deu mais um gole na cerveja.

 - Estamos fechados – Anunciou.

 - Temos algumas perguntas a fazer, Danny Jackson – Uma voz feminina respondeu. Danny ergueu a cabeça e olhou para a porta, levantando a sobrancelha ao ver uma garota de dezesseis anos parada na porta, com um garoto ao seu lado.

 - Sobre?

 - Os Powell. – Respondeu Arabella, firmemente.

 - Os Powell estão mortos há nove anos – Disse Danny, despreocupado. – E você deve ter essa idade mais ou menos, ou seja, não pode entrar aqui. Fora do meu bar, você e o metaleiro aí.

 - Meu nome é Arabella Vogt – Disse, dando alguns passos até o sofá. – Sou jornalista investigativa. Acho que os Powell têm algo a ver com o desaparecimento de sua esposa, Stephanie.

 - Nem fudendo – Danny riu. – Stephanie está viajando, garota. E você é jornalista de que jornal, especificamente? Do Alexander Hamilton Highschool?

 - Tipo isso... – Respondeu, olhando para o chão e depois balançando a cabeça. – Não importa. O que você sabia sobre os Powell? Sabemos que viveu em Hanover toda a sua vida...

 - Eu já disse que o bar está fechado e já disse que você não pode estar aqui – Disse, se levantando. – Por favor, se retirem. Estou pedindo com educação.

 - Cara, são só umas perguntas – Edgar finalmente abriu a boca, e Danny revirou os olhos.

 - Fora.

 Arabella não moveu um músculo. Edgar revirou os olhos e pegou no pulso da amiga, que bufou, saindo marchando do bar. O garoto acenou para o homem e correu para alcançar a garota. Danny voltou a se sentar, dando mais um gole na sua cerveja e fechando os olhos, quando a porta voltou a se abrir.

 - Que inferno, já falei que estamos... – Parou no momento em que bateu os olhos na porta. Ali, com o sol batendo nos longos cabelos castanhos, malas em mão e um sorriso de orelha a orelha, não podia acreditar que ela finalmente estava de volta.

 - Oi, Danny – Uma Stephanie sorridente disse, no momento que o homem corria até ela e lhe entregava o melhor beijo que já havia recebido.



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