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História Hansha - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Espectador



Não se importava. Já havia perdido a empatia por aquela rotina tão ensaiada e por aquele relacionamento tão superficial e não menos conturbado que era o relacionamento de seus pais. Não se importava com o que acontecia entre eles. Na verdade não se importava com toda aquela mentira que havia entre eles. 

Mais uma vez, como sempre, estava ali sentado no sofá comportadamente, como sua mãe gostava. Ela dizia que ali era um lugar importante, dizia que a sala era um lugar de reunião, de reunião em família, de reunião com amigos, e até mesmo de negócios. Devia sempre se manter comportado naquele ambiente. Naquele ambiente e em basicamente toda a casa, exceto em seu quarto e no escritório de seu pai.

Estava ali, com a mesma frieza costumeira. Apenas como espectador de mais uma das discussões fúteis deles. Daquela vez, sua mãe reclamava da falta de companheirismo de seu pai, reclamava que ele só se importava com o trabalho e nada mais. Ele trabalhava em um laboratório de pesquisas e passava boa parte do tempo fora. Quando chegava, tudo o que queria era se trancar em seu escritório e assistir algum filme enquanto tomava seu bom e velho Whisky. 

Hiromi: Você me prometeu! Prometeu que ia me acompanhar no jantar com as minhas amigas hoje a noite!

Takeo: Já disse... Estou cansado.

Hiromi, sua mãe, era uma mulher jovem, que possuía uma beleza invejável, cabelos castanhos bem escuros e compridos cujas pontas se transformavam em cachos sutis que lhe caiam pelas costas. Tinha olhos escuros, escuros como a noite. Era bastante rigorosa, muito enérgica e extremamente vaidosa. Embora cobrasse constantemente mais comprometimento do marido, às vezes não se importava tanto com o fato de não conseguir, já estava costumada a fazer tudo sozinha. Mas, ainda cobrava, cobrava porque no fundo gostava dele.

Takeo, seu pai, às vezes parecia um pouco apático, às vezes parecia até um pouco frio, mas na maioria das vezes era apenas indiferente às reclamações e discursos de Hiromi. Tinha cabelos escuros como o petróleo e olhos bastante analíticos, era jovem também, porém aparentava um certo cansaço, típico de quem trabalha muito. Não era tão rígido quanto sua mãe, na verdade era bem mais liberal do que ela.

Hiromi: Então, vou ser a ÚNICA que vai sem marido é isso?!

Takeo: Aposto um par de sapatos novos que não... Você não vai ser a única que vai sem o marido, acho até que nenhum deles vão... Isso é coisa de vocês, mulheres, não da gente. Não somos obrigados a ir...

Respondeu ele, com as mãos nos bolsos enquanto encarava Hiromi, com um olhar bastante entediado.

Hiromi: Ghrrr... Que raiva. Eu não sei porque eu ainda insisto...

Takeo: Você devia comprar um vestido novo... Suas amigas do trabalho provavelmente vão exibir alguma marca de grife hoje, você trabalha com moda, deveria se importar mais com isso...

Disse Takeo se aproximando de Hiromi e estendendo seu cartão. 

Takeo: Pode ficar com esse, é novo e tem um limite bem maior do que o seu. Considere como um presente.

Hiromi logo abriu um sorriso, bastante malicioso por sinal. Puxou o cartão da mão dele e em seguida o beijou, um beijo rápido, porém, com uma certa volúpia. 

Hiromi: Você sabe que eu me importo. E muito. Além disso, pode ter certeza que farei um bom uso.

Respondeu ela colocando o cartão dourado no meio do decote, Takeo por sua vez, assim que ela virou-se para se retirar, deu-lhe um tapa um tanto obsceno, fazendo o estalo de sua mão ecoar pela sala. Sim, ainda estava ali, sentado comportadamente, embora tivesse a estranha impressão de que era apenas mais um objeto naquele cenário, ou talvez não era nada, talvez simplesmente não existisse naquele momento.

Tudo era tão superficial entre eles. Absolutamente não se importava. Não sentia nada em relação ao que sabia sobre cada um deles. Não se importava com o que eles chamavam de "união" ou relacionamento ou ainda casamento ou ainda sendo mais específico; família.

Vez ou outra, seu pai lhe chamava até o escritório. Aquela noite, assim que sua mãe saiu, ele lhe chamou. Entrou naquele ambiente que já cheirava à Whisky e sentou-se no sofá de couro bege que havia ali. Naquele recinto não havia tanta formalidade como nos outros lugares da casa, não havia porque seu pai não se importava com isso. Ele ainda estava sentado em frente à sua mesa de trabalho, com um copo ao lado, vários papéis espalhados pela mesa. Hora analisava os papéis, hora digitava rapidamente no teclado observando atentamente a tela do monitor e hora dava uma olhadela rápida no filme que estava passando na enorme tela da tevê.

Ficou em silêncio, apenas esperando ele começar a falar. As poucas conversas que tinha com seu pai eram radicalmente diferentes das poucas que tinha com sua mãe. Eram duas visões completamente diferentes e em nenhuma delas se encaixava. 

Enquanto seu pai parecia apressado na digitação de algo, intercalando o teclado do computador com as goladas de Whisky, naquela televisão grande e de imagem impecável, passava um filme um tanto violento. Após as cenas de tiroteio intenso e sangue, que parecia a qualquer momento respingar pra fora da tela, agora passava uma cena bastante explicita, com muitos gemidos e nudez escancarada. 

Bem, não era algo que um garoto de onze anos de idade devesse assistir, no entanto seu pai não se importava. Quando fez dez anos, ele lhe chamou para conversarem sobre garotas, um tempo depois prestes a completar seus onze ele lhe chamou novamente no escritório, então, começou a falar das coisas que fazia no trabalho, dos possíveis riscos que corria por causa da sua profissão, começou a falar sobre experiências que deram errado, sobre criminosos que usavam como cobaia... Ele lhe contava coisas as quais levava horas e horas para tentar assimilar sem que sentisse raiva, medo ou tristeza. Obviamente que não deixava transparecer nada disso, muito pelo contrário, diante dele era impassível, não demonstrava qualquer aversão ou espanto em relação às coisas que ouvia. Não se comportava como uma criança medrosa e ingênua.

Se tinha algo de que se orgulhava, esse algo era o sangue frio e o senso ardiloso e bastante maquiavélico que possuía, os quais tinha suas dúvidas se eram herdados ou se os havia desenvolvido. Já que sua mãe era um tanto dissimulada, bem como seu pai era por vezes insensível. O fato era que uma cena como aquela escancarada na tela, não era mais algo que lhe causava espanto ou desconforto, fosse pelas cabeças estouradas no tiro ou fosse pela orgia com mulheres nuas. Na verdade, aquilo tudo mais lhe parecia um tremendo circo dos horrores, o qual simplesmente fazia pouco caso por achar lastimável. 

Takeo: Sabe por quê esse é um dos meus filmes preferidos Higure?

Indagou ele, juntando os papéis esparramados na mesa, dentro de uma pasta.

Higure: ?

Takeo: Porque essa casa de acompanhantes que aparece aí me lembra bastante a que eu fui pela primeira vez para perder a virgindade. Fiquei com quatro vadias em uma noite. 

Higure: ...

Takeo: Quando você fizer dezesseis anos faço questão de bancar sua noitada na melhor casa de acompanhantes da cidade. Vou mandar fechar a casa pra você comer quantas putas quiser até o dia amanhecer.

Higure, assim como seu pai, tinha cabelos pretos como petróleo, eles lhe batiam mais ou menos na altura do queixo, eram meio ondulados e irregulares. Fazia questão de deixá-los para o alto e completamente despenteados. Hiromi dizia que seus cabelos pareciam as ondas do mar em dia de fúria, eram uma bagunça mas eram belos. Tinha olhos escuros e profundos como uma noite sem estrelas. Às vezes pareciam indecifráveis, às vezes pareciam apenas altivos, mas na maioria das vezes eram olhos que não demonstravam sentimento algum. E era bem assim que seus olhos encaravam o sujeito que estava na sua frente falando aquele monte de baboseiras impróprias. Sem esboçar sentimento algum.

Takeo: Mas, acredito que um garoto como você não precise de tanto pra ter sua primeira vez, já que puxou a beleza de sua mãe. Certeza  que já devem ter várias garotas na sua cola... Na sua idade sei que as coisas começam a ficar complicadas e logo vai acontecer... Então, seja esperto, pegue quantas quiser, mas, não se apegue e muito menos engravide uma delas... Evite dores de cabeça.

Higure: Com licença. Tenho aula amanhã.

Disse ele seco. Se levantando do sofá e saindo dali.

Bem, haviam sim várias garotas na escola querendo algo. Era o garoto mais desejado da sala e um dos mais desejados da escola. Sempre recebia bilhetinhos com o tão batido conteúdo: "Minha amiga quer te conhecer". Sempre lhe procuravam para formar grupo, era sempre o primeiro a ser escolhido, sempre recebia caixas e caixas de chocolate no dia de São Valentim, era sempre cotado para fazer parte dos times, tinha tudo para ser um cara popular, mas achava tudo aquilo muito chato. Achava chato usar aquele uniforme imbecil do colégio, achava chato aqueles professores falando um monte de coisas que se quer iria usar algum dia na vida, achava maçante passar nove horas naquele lugar, na verdade achava totalmente dispensável o conhecimento que lhe diziam que iria adquirir ali. Se era pra aprender algo, então preferia aprender por conta própria, bem longe dali. Bem longe daquele lugar que achava patético. Por isso, sua rotina consistia em: ir dois dias na semana apenas para garantir a frequência mínima e os dias restantes, vagar pelas ruas da cidade de carro, com o motorista que seus pais haviam contratado.

Sem sombra de dúvidas, as melhores horas eram aquelas em que estava fora de casa e fora do colégio. Os dias de ronda eram os melhores.

E aquele novo dia que se iniciava, por sinal bastante chuvoso, era um desses, um dia de rondar pela cidade...








 



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