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História Haunted - Assombrados - Capítulo 9


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Notas do Autor


Olá bonitinhas e bonitinhos. Espero que gostem e se divirtam com a leitura <3

Capítulo 9 - Bem-vindo de Volta


HYOGA

 

- Então você teve mais um sonho estranho? – perguntei, abrindo a garrafa de antisséptico.

Uma casquinha sólida já começava a se formar sobre a ferida na barriga dele. Isso é bom. Mas o contraste do machucado com a pele de Shun me lembrava a letra grega δ..., não que isso fosse algum mau presságio afinal, era só mais uma letra do alfabeto. Porém uma coincidência estranha, tenho que admitir.

Depois de um sono curto – curtíssimo – de menos de uma hora, Shun acordou meio pensativo. Pelo o que me disse, ele havia tido um sonho estranho. Que aliás, repetiu-se pela segunda vez.

- Sim... primeiro foi no avião e de novo agora... – disse ele.

- Espera, você teve um pesadelo no avião? – questionei, molhando um pedaço de algodão com antisséptico - Por que não me disse?

- Não foi um pesadelo, foi só um sonho esquisito. Daqueles com imagens turvas, cenários mudando..., mas nada como o que eu costumava ver antes, nem chegou perto de parecer tão real.

Comecei a passar o tufo molhado no abdome dele, com cuidado. Eu ainda não tinha recuperado meu sentido do tato.

Neste momento são quase onze e meia, o que significava que precisávamos chegar rápido ao refeitório, pois exatamente ao meio dia começava a intensa disputa de dezenas de cavaleiros sedentos por um prato de comida quente.

- Bom, mas você se importa de me contar mesmo assim? – perguntei – Não guarda pra você, pelo menos vai tirar um pouco a preocupação da cabeça, que tal?

Deixei o algodão de lado e fechei o vidro de antisséptico, peguei gaze para selar e cobrir o ferimento. Pedi para que ele falasse enquanto eu terminava o curativo. Curiosamente lembrei de Miranda, uma senhora de idade, que trabalhava como servente na mansão Kido, cujo ponto alto do dia era interpretar nossos sonhos enquanto tomávamos café da manhã. A maior parte deles era "presságio de morte". Que até faz sentido, considerando o número de vezes que ficamos perto de morrer.

Com Shun sentado à beira da cama, fui desenrolando a gaze dando voltas em sua cintura, para prevenir que o curativo soltasse ao longo do dia. Ouvi atentamente cada palavra de sua descrição sobre o sonho. Vez por outra olhava pra ele e balançava a cabeça, encorajando a seguir adiante com a história.

- Acordei numa floresta úmida... – relatou – era fim de tarde ou início da manhã não sei... o lugar tinha um aspecto familiar, apesar de eu ter certeza de que nunca estive lá antes. Mas todo mundo sente isso quando sonha, né? Lembro de uma campina que terminada a beira de um penhasco, e de vez em quando a imagem de torres e muros de pedra me vem na cabeça também... nossa, falando em voz alta parece bobeira – concluiu, rindo sem jeito.

- Nem tanto – interrompi –, dizem que sonhos são uma distorção da mente humana sobre situações vividas, então até que faz sentido – ponderei – sobrevoamos florestas, penhascos, você adormeceu vendo um pôr do sol, e teve aquele artigo que leu sobre construções antigas no celular – completei –, pode ser seu cérebro processando tudo o que viu de um jeito meio esquisito.

- ...ou de repente foi só um sonho besta – deu de ombros – quando acordei cheguei a pensar que senti algo estranho, mas acho que foi só o susto da turbulência mesmo.

- Sei... – dei um beijo na curva do seu pescoço – anote seus sonhos. Vamos escrever o que você lembra do último e, se sonhar algo mais tarde, anotamos de novo, ok? É bom ter tudo registrado.

Shun balançou a cabeça, concordando.

- Deixa eu terminar isso logo – falei apontando para a gaze –, estamos ficando em cima da hora já. Está muito apertado?

- Não, está bom. Para quem estava reclamando tanto sobre estar sem noção de força, até que você fez direitinho. Um poço de delicadeza, inclusive.

Dei de ombros.

- Pode ser. Admito que está fazendo muita diferença para que eu não surte nesse calor... mas ainda não gosto desse uso não ortodoxo para os cosmos. - retruquei, fazendo um corte na gaze separando o curativo do restante do rolo – Pronto, terminei.

Recolhi o algodão e embalagens para jogar fora, enquanto Shun ficava de pé e se movia um pouco, verificando se o curativo novo não limitava muito seus movimentos.

- Você é certinho demais, mas não seria de todo mal esfriar o quarto um pouquinho – disse piscando para mim, sugestivo. Eu devo ter olhado de cara feia, pois logo ele frisou que estava brincando – tem sorte de não estar sentindo o calor que está aqui.

Observei enquanto ele alongava os braços e pernas. Vestindo um short verde escuro, e com os cabelos presos em um rabo de cavalo, o sol que entrava pela janela reluzia nele, dando um ar angelical. Me aproximei, tocando seu ombro e beijando sua nuca, de novo... por Deus! Nunca desejei tanto ser capaz de sentir o gosto da pele dele.

- Até enfaixado feito uma múmia japonesa você é lindo, como consegue? - perguntei, baixo, em seu ouvido. Recebi uma espécie de gemido/ronronar em troca.

- Estou debilitado, não me assedie nestas condições. - disse pendendo a cabeça para o lado deixando o pescoço disponível à um novo carinho.

- Só é assédio se você negar meu toque.

- É..., bom argumento. – disse, virando-se de frente para mim.

- E qual a sua réplica?

- Não tenho nenhuma.

E com isso ele atacou minha boca no que deveria ser um beijo molhado. Era uma sensação engraçada, na verdade. Eu sentia o gosto da sua boca, o cheiro natural da pele, shampoo do cabelo... com os olhos semiabertos eu via de relance seu braço esquerdo enlaçando meu pescoço, mas era como se tudo que acontecia fosse uma construção sem vigas... algo faltava. Eu sabia o que deveria sentir, afinal quantas vezes já nos tocamos, não é? Porém o toque dele deixava um vácuo ali. Uma lacuna nos sentidos. Eu nem mesmo sabia dizer qual dos meus lábios ele sugava.

Abri mais os olhos e fiquei olhando seu rosto se mexer devagar, de um lado para outro enquanto me beijava. Reparei no cumprimento dos seus cílios. Coloquei as mãos em sua cintura, sem saber ao certo se estava tocando-o ou se estava, como um tonto, segurando o ar. Minha pulsação estava acelerada, mas eu estava ereto? Não sei. Não dava nem para sentir o toque do meu membro duro pressionando a cueca. Apesar de que, normalmente, bastava ele encostar em mim para uma corrente elétrica me percorrer o corpo e encontrar abrigo no meio das minhas pernas, enrijecendo tudo. Mas agora eu não sabia. Fiquei tentando a apartar o beijo para conferir com os olhos, só para tirar a dúvida.

E se eu…, digo... falhasse?!

Ok. Não vou me vender dizendo que nunca perdi uma ereção, ou que “sou machão demais pra isso”, até porque seria ridículo, pode acontecer com todo mundo e, de fato, acontece com todo mundo alguma vez na vida. Mas desejar tanto uma pessoa, e não conseguir manter a ereção com ela ainda é uma situação bem chata.

Mantive o beijo, enviei ordens a minha boca para movimentar-se como de costume, mas era uma via de mão única já que os nervos não davam nenhum feedback. Julgando pelo rosto sereno de Shun, ele parece estar aproveitando o momento, então acho que estou fazendo tudo certo. Geralmente quando algo está errado ou desconfortável ele franze um pouco a testa… chega a ser engraçado como ele é expressivo. Nunca consegue disfarçar nada, seja desconforto, irritação ou felicidade.

Meu olhar foi de encontro a janela onde notei que haviam alguns vasinhos de planta ainda intactos, mesmo depois de todo esse tempo. Nosso pequeno quintal tinha uma oliveira grande, o que pode ter ajudado as plantinhas da janela a não derreterem sob o sol, mas elas estavam tão verdinhas, tão..., bem cuidadas.

Afrodite.

Será que aquele palhaço estava vindo aqui regar as plantas de Shun? Sei bem o que ele quer regar... essa vinda ao Santuário também pode ser minha chance de pôr limites nesse cara, definitivamente.

E com um suspiro, reuni forças e apartei suavemente nosso beijo:

- Vamos terminar de nos vestir? Se bem conheço nossos amigos, a notícia de que chegamos ao Santuário já se espalhou, então entre abraços e cumprimentos já vai ser difícil ter tempo para sentar e comer em paz... quem dirá fazer uma boa digestão antes de encarar o Coliseu.

O Coliseu... Shina já fizeram questão de esfregar na nossa cara nossa “péssima” forma física – o que eu discordo, se for julgar pela quantidade de olhares que eu e Shun ainda atraímos em terras japonesas –, que, em outras palavras, significava que ela iria arrancar nosso couro durante o treinamento de combate.

- Certo... – disse ele, com os olhos baixos como um gatinho a quem foi negado um pedaço de atum.

- Hey – chamei, tocando seu rosto – eu amo você. Prometo que mais tarde eu te recompenso devidamente, ok? – falei, beijando-o uma última vez.

- Espero que sim – respondeu ele –, ah, não me deixa esquecer de passar no Ikki antes. Eu disse que encontraríamos ele para almoçar juntos.

[...]

- Então quer dizer que se eu te cutucar você não sente? - perguntou Jabú, tocando com a ponta do indicador repetidamente no meu braço direito.

- Sim Jabú, quer dizer isso mesmo - respondi impaciente, afastando seus dedos com um tapa.

- E um beliscão?! - perguntou, se preparando para averiguar.

Olhei para ele com uma expressão tão irritada quanto eu desejava demonstrar.

- Calma aí, nossa cara, pra que tanto estresse.

- Não sei do que está falando Jabú. Estou apenas almoçando - retruquei, mal-humorado, dando uma garfada em minha comida - ou tentando.

Duvido que a capacidade cognitiva de Jabú permitiu que ele entendesse minha indireta.

- E como está indo vida de vocês no Japão? – perguntou Geki, enquanto comia um pêssego.

- No geral: tranquila. Nossos trabalhos que são a parte mais estressante... tem épocas que o Hyoga faz muitas horas extras e eu, apesar de nem sempre atender na emergência da clínica, fico de plantão também..., mas Chubu é uma cidade boa, no geral.

- Nunca pensei viraria médico, Shun... sempre imaginei a medicina como uma coisa que requer sangue frio. Não te vejo assim – comentou Ichi de Hidra.

- ...concordo – disse Nachi de Lobo –, mas se bem me lembro o Shun fazia os curativos quando a gente ralava a cara no chão, antigamente.

- Verdade – disse Geki, virando-se para Shun antes de completar – você sempre foi muito empático.

Shun de fato é muito empático... quando era apenas um pediatra residente ele diversas vezes pensou em desistir, justamente por absorver demais as dores dos outros. Isso pode ser bom, mas em excesso impedia ele de manter o foco.

- Eu... – disse Shun, envergonhado – eu acho que ser cavaleiro nos dá uma sensação de onipotência muito perigosa. Até hoje é difícil para mim lidar com alguns pacientes... ainda mais se tratando de crianças. – enquanto falava sua voz ganhava mais confiança – É complicado. Mas eu tenho para mim que a falta de “frieza” é meu ponto forte, porque se eu consigo me colocar no lugar de um paciente, de uma criança, eu sei que vou conseguir usar isso para tratar ela da melhor forma possível.

- Bom, e com isso fica respondida a pergunta. – falei, tentando desviar um pouco as atenções – E reforço que para mim também é muito difícil lidar com as leis japonesas se querem saber.

Repentinamente, uma aura quente como lava se fez presente. A energia poderosa como a de mil guerreiros gregos se misturava a uma voz inconfundível, que pronunciava palavras como se tudo não passasse de um mantra erótico de deboche e sarcasmo.

- Ah por favor Hyoga, você sempre foi pavio curto e nunca gostou de perder. Não tem perfil melhor para um advogado. – disse Milo, tocando meu ombro e finalizando com uma gargalhada, natural, como se estivesse ali desde o início da conversa.

- Bom te ver também Milo – comentei.

De fato, até que era bom vê-lo.

- Ah, levanta e me dá um abraço filhote, faz anos que não te vejo – retrucou com os braços estendidos, como quem esperava que eu pulasse nele para um abraço de urso.

- Não é para tanto, e aliás estou almoçando.

- Nem tenta Milo, hoje o Hyoga está de mal humor – Jabú voltou a se pronunciar.

- E quando ele não está?! – questionou o escorpiano.

E com uma inconveniência genuína, o cavaleiro de ouro se enfiou no banco abrindo espaço entre Shun e eu, puxando nossos ombros contra seu peito, abraçando e beijando o topo de nossas cabeças.

A demonstração mais fofa e insuportável de carinho que ele podia oferecer.

- Como vão meus meninos? – perguntou.

- Ótimos e você? – adiantou-se Shun.

- Estaria melhor se não fosse... – comecei a falar, porém fui cortado pelo dourado.

- ... Enjoado da mesmice desse lugar, sabe Shun? Um total de 0 expedições sendo feitas, há meses. E se contar as que fui chamado, acho que já dá mais de um ano que não saio do Santuário. Sou um espírito livre, sabe? Não gosto de ficar na mesmice por muito tempo e... – continuou.

Revirei os olhos.

Desde o rompimento do relacionamento de Milo, com meu mestre Camus, o escorpiano insuportavelmente fazia questão de deixar claro o quanto prezava por sua liberdade. Meu palpite é que ele acredita que repetir isso em voz alta, vai fazer essa ser sua realidade.

- ... sou um cara de novas aventuras – continuou -, novos desafios e...

- Tudo “novo” – cortou Jabú –, menos as ladainhas né Milo?

Risadas preencheram a mesa, deixando o cavaleiro de escorpião perplexo, como se não entendesse como alguém poderia tirar uma com sua cara.        Forcei um sorriso para não parecer ainda mais antipático..., mas não achei graça no comentário do Jabú, tampouco.

Boa parte da minha vida passei convivendo com Camus, na Sibéria. Fora os camponeses que eu encontrava, nas raras idas à cidadezinha mais próxima, minha única interação com o resto do mundo vinha de um rapaz grego – hiperativo e tagarela – que regularmente nos visitava e preenchia o ambiente com suas histórias absurdas. Minha mente inocente e infantil, não me permitiu entender o grau de intimidade dos dois de imediato.

Certa noite, os flagrei aos beijos no “sofá” – que na verdade era só uma estrutura de madeira revestida com camadas grossas de pele de animais – da nossa cabana, eu cheguei até a pensar que talvez Milo estivesse atacando meu mestre... no sentindo de machucar, digo. Mas quando os dois apartaram o beijo, lembro de ver, nitidamente, Camus sorrir para Milo. Um sorriso de verdade. Mostrando os dentes brancos como a neve, que o aquariano raramente ostentava. E aquela foi a primeira vez na vida em que vi meu mestre com uma feição tão calorosa, alegre. A visão me encantou ao mesmo tempo que me causou certo ciúme infantil.

Corri de volta para o meu quarto com o coração batendo forte.

Por que meu mestre não sorri, daquele jeito, para mim? ” pensava.

Movido pela curiosidade, isenta de qualquer tipo de voyeurismo, peguei meu edredom e retornei ao fim do corredor me encolhendo num canto escuro, a fim de observar e tentar desvendar o mistério por trás da alegria de Camus. E com o cobertor enrolado em meu corpo, me deixando ainda mais camuflado à penumbra daquele cantinho, analisei atento os dois conversarem noite a dentro, trocando beijos e carinhos vez por outra, na tentativa de entender o que aquele rapaz grego fazia que deixava meu mestre tão feliz. Ele treina arduamente como eu? Por acaso seria capaz de usar os próprios punhos, para destruir rochas de gelo maiores, do que as que eu consigo? Ou será que ele é uma pessoa mais disciplinada, merecendo assim mais atenção?

Pensei nessas questões até que todos os conflitos internos, tão inéditos para minha mente e meu coração, foram perdendo importância à medida que o mundo ao redor escurecia. Uma fraqueza aconchegante passou a me confortar, até que finalmente decidi ceder e fechar os olhos, caindo no sono.

No dia seguinte acordei com a claridade entrando pela janela do meu quarto. Com um bocejo, seguido de um leve esfregão nos olhos, sentei na cama e estiquei os braços para cima para tentar afastar a preguiça, e me preparar para mais um dia, até que um cheiro gostoso e doce de canela e chocolate fez meu estômago roncar.

- Bom dia Hyoga.

Ouvir a voz grave de Camus trouxe uma avalanche de memórias da noite passada... Como eu havia chegado no meu quarto? Com toda certeza alguém tinha me carregado até ali. Senti as bochechas esquentarem de vergonha, e o coração bater forte com medo de levar uma bronca. Levantei o rosto para encará-lo e lá estava de novo: o sorriso de Camus. Dessa vez direcionado a mim.

- Precisamos falar sobre ontem à noite, certo? Mas antes beba... – estendeu a caneca, perfumada e quente, para mim –, o Milo fez para você, aliás, é sobre ele mesmo que quero conversar.

O ombro de Milo se chocou contra o meu, me tirando do passeio pelo passado. O escorpiano mandou um dedo do meio para Jabú – e não me atrevo a repetir aqui o palavrão que saiu da boca do cavaleiro de ouro.

- Pessoal – Shun interrompeu – vamos manter a linha por favor, a última coisa que preciso é levar uma dura por causa de vocês logo nas minhas primeiras horas aqui.

- Você está na companhia de um dourado, Shun. Eu sou a autoridade aqui e nada de mal vai te acontecer, relaxa – rebateu Milo, cheio de si.

- Milo, por falar em dourado, onde está meu mestre? – perguntei, pensando que a esta altura, Camus já deveria ter aparecido para me cumprimentar.

Silêncio.

Silêncio constrangedor.

Olhei em volta e demorei alguns segundos para me dar conta da merda que eu havia falado.

Milo e Camus estavam juntos desde que me entendo por gente – literalmente –, simplesmente ninguém pode me culpar por, às vezes, esquecer de que eles não são mais um casal. Há alguns meses Camus nos visitou no Japão e viera sozinho... eu honestamente perdi as contas do número de ocasiões em que perguntei, sugeri ou citei o nome de Milo, nas conversas. Fazer o que.

- Ele não costuma almoçar no refeitório. Normalmente fica na casa de Aquário mesmo. Sabe como ele é totalmente antissocial.

Olhei para Milo que, pela primeira vez no dia, falou uma frase sem jogar o cabelo, ou incluir um ou dois deboches no tom de voz.

- Milo eu... – tentei inicial um pedido de desculpas.

- Relaxa filhote. Eu já superei – disse em tom baixo –, aliás quem vive de passado é museu, não é? – forçou animação na voz – Tudo bem que este santuário em si é mais antigo que qualquer museu, mas vocês entenderam.

Sorri. Lá estava ele de volta.

Passei meu braço ao redor de seus ombros e o puxei para um abraço apertado. Parecia um bom momento para isso. Inusitadamente ele sussurra em meu ouvido, de maneira tão discreta que nem parecia ser coisa dele.

- Obrigado.

Como ainda nos restava pouco mais de uma hora até o treinamento, nossos amigos de bronze e Milo resolveram nos levar até o Coliseu pelo caminho mais longo: subindo o cume que passa ao pé das Doze Casas, contornando as oficinas e descendo pela parte sul do Santuário, onde soube que uma espécie de bunker foi construído para abrigo de emergência.

- O bunker é grande, dá pra enfiar umas 560 pessoas – disse Jabú, enquanto caminhávamos – é um pouco escuro lá dentro, energia elétrica ainda é bem difícil de trazer, mas tem camas, banheiros e comida... é bem legal.

Seguimos pelo cume, por um caminho ladrilhado de cascalho que seguia em subida, na direção do segundo nível do Santuário: uma planície que se estendia na base do monte Zodíaco.

- Rodório tem um pouco mais de 300 cidadãos, acredito eu, – completou Milo – então ainda conseguiríamos abrigar os aspirantes e pessoas comuns que vivem no Santuário, confortavelmente.

- Nossa... o investimento foi forte – comentei.

- É como dizem... – disse Geki – depois de roubado você passa a usar cadeados nas portas.

Percebi que ele se referia a invasão dos espectros, há anos atrás.

- ...e ali ficam as forjas! – disse Milo, sorrindo de orelha a orelha.

- Forjas? Temos forjas?! – perguntou Shun, surpreso.

- Sim! Foi ideia minha – falou, orgulhoso – agora temos um lugar para fazer os reparos nos equipamentos de treino, até dá para fabricar armas de combate para as simulações.

- Nossa, como ninguém tinha pensado nisso antes? – questionou Shun.

Logo a frente aparecia os degraus que levam a casa de Áries. Me perguntei se Mu estaria em seu templo... seria bom revê-lo.

Notei que esta parte do Santuário também estava mais verde. Videiras cresciam enroscando nas colunas de mármore, ajudando a cortar o brilho intenso que a pedra branca refletia do sol. Roseiras robustas esbanjavam botões abertos ao pé dessas estruturas. O perfume delas era forte ali e a julgar pelo quanto meu cabelo caía na frente do rosto deve até ser mais fresco, também.

- Nossa estão sentindo que o tempo refrescou... – comentou Ichi.

- Sim! Definitivamente foi a melhor ideia que tive, - continuou Milo, ignorando Ichi – vocês vão adorar conhecer, com certeza é o...

Milo bruscamente interrompe sua fala, chamando nossa atenção pelo repentino silêncio. O escorpiano olhava em direção a escadaria de Áries, onde no topo duas silhuetas douradas nos encaravam. O rosto do escorpiano se fecha e eu quase pude ouvir seu maxilar trincar, em irritação.

- Está tudo bem? – perguntei.

- Parece que seu papai chegou – respondeu secamente – e veio acompanhado.

Não entendi bem o que ele quis dizer até um floco de neve flutuar delicadamente à minha frente, de repente tudo passou a fazer sentido. Olhei para Shun, em busca de aprovação, antes de disparar, como uma criança, à passos apressados (me recuso a dizer que estava correndo), subindo em direção à Áries, para cumprimentar meu mestre.

A medida que me aproximava vi seus dentes refletirem o brilho do sol, mais do que qualquer coluna de mármore poderia. Sua postura era firme, frívola, como um bloco de gelo, mas eu podia visualizar o olhar caloroso.

Relutei, diminuindo o passo, quando uma cabeleira turquesa acompanhada de lábios rosados ao seu lado. Tão simpático quanto sempre.

- Camus – cumprimentei, ignorando completamente o pisciano.

- Hyoga – a voz grave era reconfortante, abracei-o e inspirei o cheiro paterno que exalava dele. De repente os sentimentos de angústia e preocupação dos últimos dias me atingiram como uma torrente, me obrigando a apertar o abraço... uma necessidade gigantesca de ser amparado me acometeu. Quando foi que eu havia ficado tão frágil? –... eu sei petit, foram dias difíceis imagino.

Assenti em concordância. Minha testa ainda repousada na ombreira da armadura dele.

- Mon petit – chamou-me –, prometo que conversaremos quanto tempo precisar, mais tarde, mas antes de mais nada estou aqui para trazer notícias.

Levantei para encará-lo e vi seu rosto ficar um tanto mais duro, apesar do olhar ainda ser amistoso. Suas pupilas se moveram notando algo atrás de mim, de relance percebi que Shun subia as escadas, com Milo.

- Dieu... – suspirou meu mestre, referindo-se ao escorpiano, provavelmente.

Afrodite pôs a mão no ombro de Camus. Um gesto de conforto, que me deixou um tanto incomodado, desde quando ele achava que tinha intimidade?!

- Milo non é importante agora – disse, para si mesmo – Hyoga, apenas escute, sim? Eu e Dite viemos aqui a mando da Sra. Atena, que quer ver você e Shun imediatamente.

- Só isso? – estranhei, não era lá grandes motivos para alarde.

- Não me interrompa, sim? – seus olhos alternavam entre mim, e os dois que subiam a escada abaixo de nós – Há poucos dias, Atena e Saga foram a Star Hill assim que tiveram ciência de que vocês voltavam ao Santuário, e desde então os cavaleiros de Ouro estão sentindo uma oscilação no cosmo da Deusa... algo a está preocupando. Em contrapartida, Shaka, há pouco, passou por Aquário descendo do salão do Mestre. E Virgem não estava com uma cara das melhores.

As vozes de Milo e Shun ficavam mais próximas.

- Acha que Shun pode estar em perigo? – perguntei, desconfiado.

- Isso eu non sei – disse o Francês – mas recorda-se de quando vocês dois partiram, há quase dez anos? A promessa que você fez à Saori... digo, Atena?

Balancei a cabeça, sinalizando que sim, começando a entender onde Camus queria chegar.

Shun foi o único receptáculo que sobreviveu, após ser possuído por Hades, que se tem registro... não há certezas sobre a existência, ou não, de consequências a longo prazo. Dessa forma, teoricamente, Shun não deveria ser autorizado a sair do Santuário sem acompanhamento. Como seu parceiro, assumi a responsabilidade de monitora-lo, tendo a obrigação de comunicar o Mestre, a qualquer sinal de anormalidade.

- Hyoga – chamou Afrodite –, hoje mais cedo Shun comentou comigo que seus pesadelos voltaram há semanas... e depois de ver como Shaka saiu aborrecido do templo de Atena, eu e Camus nos perguntamos do porquê de vocês terem voltado só agora, se a situação já se mostrava anormal há tempos..., pois bem, meu palpite é que a situação não é favorável a você, normativamente falando.

Eu devo ter encarado o pisciano com a cara mais feia do século, pois o mesmo completou com pressa:

- ... não que eu concorde que deva ser assim! Mas se eu fosse você, detestaria que outra pessoa fosse designada, no meu lugar, para proteger alguém que eu amo, por isso estou te avisando.

Desarmei um pouco minhas defesas contra Afrodite. O raciocínio faz sentido e, realmente, eu omiti a situação por algum tempo... tudo bem que Shun sempre insistiu que se sentia bem, mas meu papel como “tutor” tem regras claras.

- Sei que você detestaria ficar aqui parado – falou Camus – enquanto outra pessoa corre por aí para salvar a vida de quem você deveria estar protegendo... eu sei que eu detestaria. – disse, olhando rapidamente na direção de Afrodite. Em resposta, o pisciano fica vermelho

Ergui uma sobrancelha para os dois. Seria possível que eles...

- Por que diabos você não corre assim quando me vê? – perguntou Milo, bem atrás de nós – Boa tarde Camus... e Afrodite – disse.

- Bonjur Milo – responderam em uníssono.

Camus se vira em direção a Shun e ameniza sua feição preocupada.

- Shun, querido, como vai você? – perguntou, segurando a mão dele, em um gesto carinhoso.

A conversa que se sucedeu começou a parecer distante. A fala de Camus e, sobretudo, de Afrodite martelavam na minha cabeça... não por receio, mas por certeza de que eu teria contas a prestar.

- Eu dizia ao Hyoga – disse Camus, chamando minha atenção – que a Srta. Atena deseja vê-los, antes do treinamento.

Olhei para o aquariano, que pronunciava as palavras com calma, totalmente oposto à urgência com a qual falava comigo há alguns minutos. Uma troca rápida de olhares e eu entendi que a informação que recebi era... privilegiada, digamos assim. Dessa forma, resolvi entrar no teatro, e apenas balancei a cabeça concordando.

- Ah tudo bem – respondeu Shun, inocente – Podemos aproveitar a cumprimentar os colegas que estiverem em suas casas. Ah Hyoga – virei para encará-lo –, podemos aproveitar a subida e pedir ao Shaka que devolva seu tato, se achar que já está tudo bem.

- Sim, claro – falei, simplesmente.

- Bom, nesse caso eu já vou – disse Milo – vejo vocês no Coliseu. Aliás têm minha permissão para passar por Escorpião.

- Assim que terminarmos encontramos você – falei, sem muita convicção de que conseguiria encontra-lo tão cedo.

Milo se despede de nós com um aceno, antes de descer as escadas novamente. Em contrapartida, Shun, Camus e Afrodite conversavam enquanto avançamos em direção à casa de Áries. Eu, sem muito ânimo para conversas, comecei a pensar em qual seria a melhor forma de me justificar frente à Atena e ao Mestre.

De repente 12 casas pareceram pouco tempo para elaborar alguma coisa.

[...]

Como você imagina que é, comparecer diante de uma divindade? Te darei alguns segundos para pensar... consegue? Ótimo. Agora pegue o que imaginou e jogue no lixo.

Ainda nos últimos degraus entre Peixes e o Templo de Atena, eu já podia ouvir uma mistura estranha de gritos. Reconheci a voz de Seiya no meio do caos, berrando ordens sobre melhorar ergonomia, ao mesmo tempo que era cortado por baques metálicos e gritos femininos. Olhei para Shun, que deu de ombros, tão confuso quanto eu.

A grande estátua da Atena Parthenos olhava pelo Santuário em seu altar. Abaixo dela Seiya se movia de um lado a lado em sua cadeira de rodas, com a expressão tão rabugenta quanto possível, gritando com uma menina ruiva que o ignorava, focando apenas no combate corpo a corpo com ninguém mais, ninguém menos que Saori Kido.

Um som estridentemente alto ecoou pelo pátio quando a joelheira metálica de Saori se chocou contra os braceletes da menina, que defendeu o chute desferido pela deusa.

Seiya apertava a ponte do nariz, antes que percebesse nossa presença. O sagitariano abriu um grande sorriso antes de acenar com os braços, exageradamente.

- Ora, ora, ora! – disse o Pégaso – Achei que eu não fosse vê-los nunca mais!

A atenção de Saori voltou-se a nós, e seu rosto suavizou, contudo foi a deixa que a menina ruiva precisava para pegá-la com a guarda baixa, derrubando e imobilizando a deusa.

- Rá! – trinfou a menina – Finalmente te peguei, Senhora.

- Agora estamos em dez a um – disse Saori, antes de ambas gargalharem juntas, levantando-se do chão – Shun, Hyoga! – exclamou, vindo em nossa direção.

Camus e Afrodite ajoelharam-se, em reverência. Resolvi fazer o mesmo, puxando Shun comigo. Não achava que Saori fosse se importar de ficarmos de pé, mas dada minha situação preferi manter todas as formalidades que pudesse. Confesso que esperava que ela fosse dizer algo como: “pessoal não precisa disso”, porém sua voz mudou para um tom altivo e maduro, antes de dizer:

- Afrodite, Camus, podem levantar. Por favor reportem.

- Trouxemos os cavaleiros de bronze, das constelações de Andrômeda e Cisne, como ordenou, Senhora – disse Camus, já de pé.

Eu e Shun nos mantivemos abaixados. Achei melhor esperar que a deusa nos chamasse, antes de levantar.

- Não houve resistências, tampouco questionamentos fora do comum, Atena – completou Afrodite.

- Eu não esperava diferente – respondeu Atena –, agradeço por trazerem os dois, estão dispensados.

Os dois assentiram, antes de retornarem o caminho de volta à suas casas. Novamente vi um minúsculo cristal de gelo flutuar, antes de derreter no chão à minha frente. Sorri, sabendo que aquela era a forma de Camus dizer: “tudo vai ficar bem, petit”.

- Pessoal – chamou-nos a deusa – podem levantar. Desculpe pela formalidade, mas é necessário – explicou. Seu tom de voz voltando a soar como de uma velha amiga.

- Você não precisa se explicar – disse Shun –, fico feliz em te ver – completou abraçando-a.

- Digo o mesmo – falei – e desde quando o pangaré alado virou o novo coach de deusas olimpianas? – subi o tom de voz, para ter que certeza de que Seiya escutaria.

Seiya se aproximava, acompanhado da jovem ruiva que parecia um tanto relutante de chegar perto. O que é até engraçado, considerando como lutava ferozmente há pouco.

- A sua piada foi de excelente gosto Hyoga, saiba disso! – Seiya parou sua cadeira ao nosso lado – E antes de mais nada, quero que conheçam Shoko Saito, minha pupila.

- Muito prazer Shoko, me chamo Shun Amamiya – disse, estendendo a mão para a jovem –, sou o cavaleiro de bronze de Andrômeda.

- E eu Hyoga Ivanich, cavaleiro de bronze de Cisne – repeti o gesto.

- Eu sei! É um prazer, finalmente, conhece-los! Ouvi muito falar nos lendários cavaleiros de bronze.

Lendários? Levantei uma sobrancelha sem entender o que ela quis dizer.

- Admito que sou uma fã, – continuou Shoko – mestre Seiya sempre fala de vocês, a cada nova técnica que me ensina ele conta sobre como “Shiryu usou esse golpe para derrotar Crisaor na guerra contra Poseidon” ou “Queime seu cosmo tanto quanto Shun o fez, para salvar a vida do Hyoga em Libra” ou...

- Shoko! Por que não tira uns minutos de descanso ein?! Haha – cortou Seiya, nervosamente – Têm a minha bênção para descansar em Sagitário, já que avançamos o horário de almoço com a sequência de hoje, vamos lá garota, vamos!

- Mas mestre eu queria...

- Não, não, você precisa descansar senão seus músculos não vão ter tempo de crescer, vai! – disse, guiando a menina em direção as escadas que levavam a Peixes.

Incrédulo, observei os dois se afastarem. Shun e Saori, começaram a rir abertamente.

- Parece que vocês têm uma fã – disse a Srta. –, ou dois.

- Ok, vou fingir que nada aconteceu aqui, por enquanto – retruquei. Admito que fiquei abobalhado em saber a admiração que Seiya nutria por nós – e... Saori?! – perguntei, apontando para os trajes de batalha que a deusa vestia.

- O que foi? Não é divino o suficiente para você? – perguntou, irônica – Seiya assumiu meu treinamento de combate depois que... bem, depois que ele se sentiu seguro, dada a condição de cadeirante. Aiolos costumava me treinar, mas não sei se vocês têm ciência... ele também resolveu se juntar aos cavaleiros abnegados.

Cavaleiros abnegados. Um nome bonito para “suicidas”. O osso do meu maxilar estalou tão alto que eu quase senti dor. Era ridículo pensar que tinha gente escolhendo a morte sem necessidade alguma, mesmo recebendo uma oportunidade em ter uma nova vida. Percebi que eu apertava os punhos com força, quando o toque quente das mãos de Atena chegou até um deles.

- Hyoga – chamou a deusa – cabe a cada um decidir o que fazer com sua vida. Quero que se lembre disso – seu olhar era firme e penetrante, tive a impressão de que ela queria dizer mais do que estava dizendo.

- Tudo bem.

- Pois bem - continuou –, temos questões mais urgentes a conversar – disse, nos conduzindo até a frente do templo onde não teve cerimonia em sentar em um dos degraus da entrada – creio eu que imaginem o porquê de eu ter chamado vocês aqui.

Eu e Shun seguimos seu exemplo e sentamos no chão.

- Saori – decidi tomar a iniciativa em me explicar –, eu sei que deveria ter entrado em contato antes, mas...

Shun levantou uma sobrancelha para mim, confuso.

- Hyoga – cortou Atena –, você rompeu uma norma. Isso é fato. Discutiremos isso formalmente depois, porque no momento tenho uma prioridade mais urgente. A situação pode ser um pouco pior do que um espectro vivo.

Parei de falar e deixei que ela prosseguisse.

- Quando vocês ainda estavam no Japão, eu estive em contato com Shaka e, conforme a situação se desdobrava, achei prudente ir a Star Hill consultar as estrelas.

Uma gota de suor escorreu pela minha testa.

- ... quero que saibam que o universo tende a se manter em equilíbrio. Para toda força que existe no Cosmos, há outra igual e antagônica que faz contraponto e mantém o equilíbrio de poder. Hades era o deus responsável por manter certas forças sombrias sob controle, ou seja, sua morte significou um desequilíbrio em forças ocultas. Como consequência, temos energias desconhecidas vagando por aí, sem um Deus que as controle.

Saori pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha, antes de continuar.

- Magia não é uma fonte inesgotável de poderr, bem como deuses não são onipotentes. E ter um recurso de energia vagando por aí, sem um mestre, pode ser perigoso, caso este poder seja usado por ganancia. Por isso os deuses decidiram que trazer os cavaleiros de volta à vida... não foi de bom grado, foi apenas o uso que encontraram para equilibrar o universo. Pelo menos achei que era suficiente para equilibrá-lo.

Olhei na direção de Shun, que estava tão apreensivo quanto eu, antes de perguntar.

- Saori, ainda não entendo o que isso tem a ver com Shun.

A deusa me encarou. O olhar era enigmático, mas cheio de significados que eu não conseguia decifrar.

- Shun foi o ser humano mais puro de sua geração, Hyoga. A pureza é antagônica ás trevas, e por isso Hades o escolheu, anos atrás. Logo, ele para sempre vai ser um elo direto entre nosso mundo e as forças que o deus dos mortos um dia controlou, compreende? Estou dizendo tudo isso, pois o meu receio é que reviver os cavaleiros mortos em batalhas não tenha sido suficiente para equilibrar esse jogo de poder... se for o caso, Shun poderia estar sendo usado como ferramenta para que alguém consiga acessar essas energias dispersas, em benefício próprio.

Elo direto?! Ferramenta? Não gostei do que ouvi. Hades, o deus do submundo, está morto, não deveria existir elo nenhum.

- Srta. Saori, com todo respeito eu... – comecei a falar, mas fui cortado pela deusa.

- Quando Shaka me reportou sobre a conexão que o espectro tentou estabelecer com Shun, eu tive mais certeza das minhas suspeitas. O Cosmos, de fato, está com a harmonia comprometida... precisamos encontrar o responsável, antes que ele consiga um jeito de se fortalecer com isso.

Minha cabeça latejava à medida que ouvia a loucura astrológica de Saori. O que me irrita nessa história é que, em nenhum momento, fala-se sobre a saúde de Shun. Entendo que a segurança da Terra está comprometida, mas a segurança dele também está.

- O único, “porém”, Atena – disse Shun, calmamente – é que eu não vou servir a nenhum propósito que não seja manter a paz no mundo. Te dou minha palavra.

- Admiro a determinação Shun. Estou certa de que você cumprirá sua palavra. E quero assegurar que estamos procurando uma forma de...

Algo chamou a atenção da deusa, dentro do Templo, fazendo com que ela se virasse para encarar a porta fechada, poucos instantes antes da estrutura se mover, dando passagem a Saga com o elmo de Mestre nos braços.

- Grande Mestre – cumprimentou Saori.

- Sra. Atena – disse Saga – vim apenas comunicar que encontrei o que você me pediu.

O semblante de Saori assumiu aquele tom enigmático, de novo.

- Ótimo. Meninos, vamos continuar nossa conversa dentro do templo, por favor – disse, ficando de pé, batendo com as mãos ao lado do corpo, para limpar a poeira em seguida. Conforme caminhávamos, Saori prosseguiu –, como eu dizia Shun, estamos traçando uma estratégia que pode nos ajudar a localizar o inimigo. Uma coisa que sabemos sobre “elos” é que eles fazem uma ponte. Logo, é uma via de mão dupla.

Nem mesmo os vitrais transparentes deixavam o salão do Mestre menos opressor e de aparência escura. Seguimos Saori e Saga pela lateral, até uma antessala que dava espaço a um novo ambiente repleto de prateleiras altas, onde descansavam livros de todos os tamanhos.

Saga parou diante de uma mesa de pedra, repleta de livros velhos. Alguns escritos em grego, outros em latim... todos rabiscados à mão, com páginas velhas, em contraste a um pequeno caderno com caligrafia moderna, que constava alguns números de páginas e referências.

- Por mais que seja uma situação incômoda – continuou Saori –, acredito que se seus pesadelos puderam servir de porta de entrada para o inimigo, eles também podem fazer o caminho inverso. Ficaria fácil encontrar o inimigo dessa maneira, não acham?

Olhei para Shun, automaticamente lembrando do que ele mesmo dissera há alguns dias sobre sua corrente ser capaz de alcançar inimigos há anos luz de distância. Ele assentiu para mim, como se tivesse lembrado da mesma coisa... eu não tinha pensado nessa possibilidade como uma opção real de contra-ataque, até porque a Onda Relâmpago da Corrente de Andrômeda precisa de uma energia que ela possa seguir até sua fonte de origem. E até agora temos um grande nada, para seguir.

- Acho. – afirmou Shun – E acredito que sei entendi onde querem chegar...

- Na batalha das doze casas – pronunciou-se Saga –, você conseguiu desferir um ataque com sua corrente, que partiu da casa de Gêmeos e me alcançou, mesmo que estivesse aqui neste salão. É com esse poder que estamos contanto.

Saori fez sinal em concordância.

- Mas, se me permitem – entrei no assunto –, a Onda Relâmpago tem uma limitação...

- Sim – continuou Shun –, é fato que eu consigo atacar inimigos através do espaço-tempo..., mas isso só é possível quando existe um rastro de energia que a corrente possa acompanhar. Quando usei desta técnica com você, Saga, ela foi efetiva pois eu segui o rastro de poder que conectava você à ilusão que criou em Gêmeos.

- E isso nos traz ao motivo de eu estar fazendo esta pesquisa – o Mestre apontou para os livros e anotações à mesa – há relatos de Guerras Santas onde membros de nosso exército foram raptados... em contrapartida, houveram missões de resgate desenvolvidas a partir de convergência entre técnicas de diferentes cavaleiros de Ouro. Enfim, estive estudando como isso foi feito, para que possamos adaptar tais técnicas a nosso favor.

- Em outras palavras – completou Saori –, a limitação da Corrente poderia ser superada com a ajuda de outros cavaleiros que possam abrir, e expandir, a abertura que o inimigo criou, de forma a usar você de ímã para atrair o adversário.

- ...ao invés de seguir um rastro de poder deixado para trás, nós o vamos criar o nosso próprio – ponderou Shun, por alguns instantes – Isso pode dar certo – concluiu, com um brilho excitado nos olhos.

Eu ainda não estava 100% convencido. Com o passar dos anos, aprendi a duvidar de qualquer solução milagrosa e perfeita que surge à minha frente.

- Vocês estão considerando – disse eu, para Atena e Saga – que estamos lidando com forças destrutivas aqui, certo? A Exclamação de Atena é um exemplo de convergência, e todos nós sabemos o quanto é perigosa... fazer algo assim de propósito não me agrada.

- Mas também sabemos que – retrucou Saori – que o poder dos cavaleiros não serve apenas para destruição. Uma prova disso é o Tesouro do Céu, que conseguiu de trazer alívio frente a uma enfermidade, Hyoga.

Encarei a deusa. Seu olhar agora era desafiador, como se mal pudesse esperar para que eu lhe devolvesse uma contra argumentação para que rebatesse de volta. Pelo visto Atena era mesmo a deusa da estratégia.

- Hyoga – disse Shun –, está tudo bem. Eu quero fazer isso. Como eu disse antes, não vou deixar ninguém mexer com a minha cabeça e sair impune desse jeito. Quem fez isso vai ser trazido até nós e julgado por seus crimes.

Minha testa se franziu, antes que eu relaxasse novamente. Esta história de ímã, abrir portas e convidar o inimigo para um chá não me deixa seguro, mas pela primeira vez percebi o que Camus tentava me fazer entender. Essa não é a minha escolha. E por mais que meu impulso seja dizer “não” e bater o pé de que não iremos usar Shun de isca, eu não tinha poder de decisão ali.

Encarei a deusa, sentindo seu olhar me penetrar. Pela visão periférica, senti Saga me encarando da mesma forma, o que acendeu novamente o alerta em minha mente. Há pouco, Saori disse que discutiríamos as regras que quebrei depois, pois no momento haviam outras prioridades..., mas e se toda essa situação fosse um teste para saber quais são as minhas prioridades? Se eu tivesse que escolher entre salvar o planeta e salvar Shun, quem eu escolheria?

- Se é assim, o que estamos esperando? – provoquei, decidido a seguir adiante.


Notas Finais


Vou começar dizendo que estou muito ansioso com a fanfic daqui por diante, justamente pelas coisas começarem a ficar mais... agitadas? sangrentas? tiro porrada é bomba? Algo por aí...
Está sendo a primeira vez que escrevo cenas de ação e tal, e como estou ansioso pra postar quero que puxem minha orelha se sentirem que os capítulos não estão do agrado de vocês, ok? Afinal não faz sentido postar, se não vai ser bom pra todo mundo.
Grandes abraços, e espero ter ajudado a passar o tempo nesse período pandêmico louco. Fiquem seguros <3


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