História Head Full Of Fantasies - Capítulo 1


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Notas do Autor


Eu escrevi isso tipo, ano passado, logo depois da segunda temporada ser lançada, e eu simplesmente esqueci que isso existia até hoje. Assim, eu ainda não vi a terceira temporada, então mantenha isso tudo em mente enquanto leia isso. Eu só acho que a Ruby merece mais amor.

Capítulo 1 - - capítulo único


i.

Em uma das primeiras lembranças de Ruby que realmente ficou com ela, Ruby tinha cerca de seis anos de idade, se encarando no espelho de uma pequena loja de roupas e usando um vestido feio e marrom que sua mãe tinha insistido nela experimentar.

Ela realmente não gostava dele.

Era desconfortável, era muito apertado e Ruby não gostava da cor, e ela queria perguntar se podia tentar outro. Ela queria algo muito rosa e com babados e ombreiras, alguma coisa que poderia fazer Ruby se sentir como uma princesa ou uma dama ou uma adolescente bonita de verdade, com uma saia mais cheia que Ruby poderia balançar e dar voltas, sentindo o tecido muito delicado e maravilhoso enquanto tocava na sua pele. Ela já até estava sonhando acordada!

“Veja o quanto você está linda,” sua mãe disse lá de trás dela, a encarando enquanto colocava suas mãos no ombro de Ruby. Os dedos dela deslizaram pela sua pele como mel, doces e calorosos e pesados. Pegajosos. “Fica tão bem em você!”

E as palavras ficaram presas na garganta de Ruby, fazendo cosquinhas na ponta de sua língua. Ela sabia que não seria educado dizer não, que não seria certo de uma dama, e, bem, ela não gostava do vestido, mas ela podia fingir que gostava por enquanto e nunca mais o usar. Claro, ela estava animada para comprar um novo – ela amava vestidos e ela amava presentes –, mas ela não queria parecer rude e irritar alguém.

Então, Ruby apenas concordou ansiosamente e sorriu.

A atenção de sua mãe se voltou para a assistente e Ruby continuou lá, olhando seu reflexo e se revirando e sonhando com babados rosas e saias bufantes, até que seu pai entrou na loja.

“Em que ponto estamos?” ele brincou alto, e depois olhou para Ruby. Ela podia ver, imediatamente, que ele também não gostava desse vestido.

“Não fica maravilhoso nela?” perguntou mamãe.

“Hm,” papai respondeu. “Talvez”

Mamãe se virou para ele com uma grande careta.

“Como assim talvez?”

“Não sei, essa cor não é muito boa, você não acha?”

“Querido,” mamãe sorriu, parecendo um pouco condescendente aos olhos de Ruby, “eu não acho que isso seja algo que homens entendam. Essa cor fica maravilhosa nela, confie em quem sabe.”

  Papai fez um barulho que poderia tanto estar de acordo quanto não estar, e então foi em direção a Ruby com uma sobrancelha levantada e se ajoelhou do lado dela.

“Só entre nós dois,” ele sussurrou, “você realmente gostou dele?”

E Ruby olhou para aquela cor marrom horrorosa e para todos os vestidos muito mais bonitos ao redor deles e seus olhos muito brilhantes no espelho. Ela olhou para o sorriso delicado de sua mãe atrás de seu pai e para o rosto sereno dele e ela se obrigou a sorrir também.

“Eu amei!”

Mamãe passou o resto do dia pulando de felicidade por ter ganhado a discussão, e papai ficou revirando os olhos, mas sorriu também e Ruby, no meio dos dois, usando um vestido que ela odiava completamente, ficou presa àquele momento, o revivendo em sua mente e revivendo o quão felizes e divertidos seus pais pareciam estar.

Ela odiava a ideia de ser rude – e ela aprendeu aquele dia que, talvez, de vez em quando, você só precisava ignorar o que sentia um pouquinho em pró de ser educada. E, se deixava as pessoas ao seu redor tão felizes quanto tinha deixado seus pais aquele dia, então Ruby não via problema nenhum em manter sua boca calada.

 

 

ii.

Quando Ruby tinha onze anos, as meninas da escola começaram a falar sobre meninos.

Primeiro, ela não conseguia entender. Meninos eram tão bobos. Eles estavam sempre correndo e gritando e se sujando, nada como os cavalheiros educados e belos dos contos de fada que Ruby tanto amava. Billy Andrews, que elas todas, a não ser, é claro, as irmãs dele, diziam ser o mais bonito, tinha feito Ruby chorar ao menos umas três vezes – ela era uma pessoa muito emotiva – e qual era o apelo de alguém tão não gentil?

As vozes dos meninos estavam começando a engrossar, e seus músculos a ficarem mais aparentes e os pomos de adão mais notáveis e as maças do rosto a perderem as gordurinhas de bebê, e Ruby tentou procurar por algo de atraente nessas mudanças, mas era simplesmente tão chato. Ela gostava de seus pais e de suas bonecas e vestidos e da cor rosa, e meninos simplesmente não faziam parte desse grupo de coisas que a interessavam.

“Vamos lá, Ruby,” Jane Andrews tinha a pressionado, um sorriso doce em seus lábios enquanto dava uma batidinha no ombro de Ruby com seu próprio ombro, “tem que ter algum menino. Você sabe que pode confiar na gente, não sabe?”

Ruby queria ir brincar de pega-pega, mas Jane realmente parecia querer uma resposta e Ruby não queria a deixar triste, de verdade mesmo, então Ruby apoiou seu queixo na janela, observando o grupo jogando futebol lá fora. Eles faziam tanto barulho, ela se encolheu um pouco. Aí ela viu – Gilbert Blythe, rindo da cara de Billy, é claro, mas liderando o time dele num tom de voz muito mais calmo do que todo o resto. Seu cabelo, preto, caia em cima dos olhos dele de um jeito bagunçado só o suficiente para parecer atraente, mas não como se ele fosse sujo ou alguma coisa do tipo. No dia anterior, ele tinha deixado Ruby o fazer uma coroa de margaridas e ele tinha a usado a aula inteira, mesmo quando Billy disse que era coisa de menininha.

Ruby pressionou seus lábios.

“Eu acho que Gilbert Blythe é bem bonito,” ela finalmente decidiu, já criando um monte de histórias em sua mente. As palavras eram doces como chocolate em sua língua e ela já conseguia imaginar toda a personalidade dele, e o quanto ela era perfeita para a de Ruby. “O menino mais bonito de toda Avonlea.”

“Eu também acho,” disse Jane do lado dela, sonhadoramente. Então, ela piscou devagar. “Mas se você gosta dele mesmo, então eu acho que ele é seu. Não é meninas?”

Ruby se apaixonou pelas coisas mais estranhas em Gilbert – não pelo rosto dele, mas o modo como ele brilhava quando o menino sorria, e não pela voz dele, mas pela sua entonação, e o modo como ela era tão mais delicada do que a de Billy ou o Sr. Phillips. Ela se apaixonou pelo jeito como Gilbert tirava o cabelo da frente de seu rosto, tão estúpido quanto isso fosse e pelo modo como ele passava as páginas de seu caderno e cantarolava, baixo e sob sua respiração, cantigas de ninar que a mãe de Ruby costumava cantar para ela também, sobre como eles queriam sentir o sol em seus ossos.

Ruby se apaixonou, principalmente, pela ideia de Gilbert Blythe e ela estava feliz só com isso.

Então Anne Shirley apareceu.

 

 

iii.

Desde que ela se lembrava, Ruby nunca tinha achado ninguém além de Gilbert atraente. Ela sabia que ele era o menino mais bonito da Ilha, e ela amava olhar para o rosto dele, é claro, mas, no final do dia, era sua personalidade e suas ações que realmente a atraiam, o faziam ainda mais bonito aos seus olhos.

Quando Anne Shirley apareceu, Ruby a achou tão tanto faz quanto todo o resto. Ela era uma órfã muito magrela e muito ruiva, mas, se Diana dizia que ela era legal, então Ruby não via nenhum problema em lanchar com ela. Josie não gostava dela, mas, sinceramente, Ruby não tinha certeza se Josie gostava de ninguém.

Gilbert gostava de Anne.

Era tão óbvio, e elas todas achavam que Ruby não conseguia ver a tensão entre os dois, mas Ruby não era cega e ela não era um gênio, mas ela não era uma completa idiota. Ela só – ela tinha chorado, porque ela era Ruby e ela sempre chorava, mas então Anne tinha dito que não gostava dele e quase certamente era uma mentira, mas era o suficiente, por enquanto, então Ruby não perguntou para ninguém, Deus, vocês realmente me acham tão estúpida assim?

Isso seria rude, de qualquer maneira.

Por um tempão, Ruby não se importou tanto assim com Anne. Então o incêndio aconteceu, em sua casa, e Ruby estava aterrorizada e chorando e seu lar estava queimando enquanto ela não podia fazer nada a não ser olhar. Anne fez alguma coisa. Anne entrou lá e arriscou a vida dela pela casa de Ruby.

E, assim como algo havia crescido no peito de Ruby quando ela tinha doze anos de idade e ouvindo Gilbert Blythe ser mais educado do que todos os outros meninos, algo cresceu dentro dela naquele momento.

Houve um momento agonizante em que ela realizou o que estava acontecendo e ela congelou, milhões e milhões de sirenes começando a tocar em seu cérebro, porque, desculpa, mas o quê?

Anne era uma menina. Ruby era uma menina. Não havia nenhuma razão no mundo para ela estar sentindo algo por Anne. Mas ela estava.

E isso era aterrorizante.

Isso era aterrorizante e confuso e um dos piores sentimentos que ela já tinha sentido. Tinha parecido certo, quando ela tinha gostado de Gilbert. Agora só parecia com um pecado.

Sua casa queimou por isso, uma voz na cabeça de Ruby a disse, enquanto ela chorava e chorava na cama de Anne, porque é claro que era lá que ela ia ter que dormir. Sua casa queimou por causa desses pensamentos horríveis. Deus teve de te castigar.

Então Ruby sugeriu que elas levassem algo para os trabalhadores em sua casa comer – ela sabia que Gilbert estava lá e, de repente, toda a mente de Ruby estava se grudando na imagem dele, desesperada para se distanciar das tentações de Satã. Ela não iria mais pensar em nada sobre Anne daquele jeito, obrigada mesmo. Ela era uma boa menina cristã.

Quando elas chegaram no lugar, Billy riu.

“Olhe quem vem lá,” ele zombou, “é a aberração e a nova irmã gêmea dela.”

Ruby corou, olhando para baixo e sentindo a familiar queimação do lado de trás de seus olhos. Ruby não achava que já tinha passado um dia de sua vida sem sentir lágrimas querendo sair ao menos uma vez. Seu coração era muito grande, a mãe dela costumava dizer, e seu cérebro muito pequeno. Ah, que problema dessa nova geração!

Estava tão ocupada tentando as segurar que acabou tropeçando e dando de cara no chão. Na frente de Gilbert e Billy e Anne. Mais vergonhoso impossível. Ela podia ouvir a risada de Billy.

“Ruby!” exclamou Anne, a ajudando a se levantar. “Você está bem?”

Ela estava chorando, agora, como a bebê chorona que ela era. Ruby não se envergonhava de suas lágrimas quando estava em casa ou entre suas amigas, mas aquele público em especial fazia seu rosto queimar.

“Garotas são realmente tão inúteis,” continuou Billy. “Acho que você deveria ter só ficado na cozinha, hã?”

“O que há de errado com você?” Anne tinha gritado, mas Ruby estava olhando para frente muito intensamente, tentando não piscar enquanto ela se lembrava de um vestido marrom muito feio e do sorriso de seus pais e de que uma dama sempre deveria manter sua boca fechada, porque, no final, era isso que iria fazer as pessoas felizes.

Ruby mordeu o lado de dentro da bochecha dela até ela sentir o sangue e, mesmo depois disso, ela continuou.

“Volta para casa e asse biscoitos!”

“Elas já assaram,” cortou Gilbert, parecendo pronto para ir fazer Billy calar a boca ele mesmo. Ele estava olhando para Ruby, mas, naquele momento, ela nem se importou, porque a boca dela estava cheia de sangue e ela estava tremendo e ela só queria falar alguma coisa para Billy.

Calada. Como uma dama. Os deixe felizes.

“Vamos, por que vocês não vão embora e deixam o trabalho para os homens?”

“Por que,” gritou Anne, dando vários passos para frente, “você não me dá seu martelo e eu acabo com o seu trabalho eu mesma, já que você está muito ocupado sendo um valentão para o terminar?”

Gilbert e Anne eram tão parecidos, se não fosse pelo temperamento mais curto de Anne, e Ruby estava com a boca cheia de sangue e o coração acelerado e ela estava completamente perdida.

 

 

iv.

Até mesmo depois de Gilbert já ter ido embora fazia meses, Ruby se segurou a imagem dele como ela desesperadamente se segurava a seu rosário todos as noites, quando se ajoelhava no chão do lado de sua cama e rezava antes de dormir.

“Você só pensa sobre garotos, Ruby,” foi o que Anne tinha a dito uma vez e Ruby tinha apertado as mangas de seu vestido, os lábios franzidos.

“E o que há de errado nisso?”

Era o natural, ela pensou. Fazia muito mais sentido do que ficar pensando em Anne Shirley e, se em quatorze anos de sua vida as únicas duas pessoas que já tinham feito o coração de Ruby acelerar eram Anne e Gilbert, então que ela deveria escolher Gilbert, o que era de verdade e certo, era óbvio.

Ela era amiga de Anne. Só isso.

Elas e Diana tinham seu grupo de escrita, e Ruby escrevia histórias sobre vários meninos do qual ela se imaginava se apaixonando um dia, mas que sempre acabavam sendo uma mistura de Anne e Gilbert. Isso era ok, porém, porque nem Anne nem Diana percebiam a primeira parte, e Ruby não tinha tanto talento assim, então ela estava feliz só ouvindo enquanto Diana e Anne escreviam coisas realmente bonitas.

As três passavam todo seu tempo livre na floresta, e elas passavam as pontas de seus dedos pelas cascas de árvores e tocavam as pétalas das flores, e apenas viviam em harmonia com a natureza, porque era tão mais fácil do que tentar viver em harmonia com outros humanos. Elas sentiam o sol em sua pele, iluminando sua alma. Elas riam e se divertiam e, naqueles momentos, Ruby se sentia verdadeiramente viva.

Apenas amigas fazendo coisas de amigas.

Eventualmente, Gilbert voltou, porque ele sempre voltava não importa o quão longe ele tivesse ido, e isso só foi tão, tão pior, porque era tão óbvio para todo mundo a não ser os dois o quanto Gilbert e Anne estavam apaixonados, e Ruby estava presa ali no meio com seus sentimentos e um coração partido duas vezes e nenhuma capacidade de mudar sua mente estúpida.

Porque, não importava o quanto ela tentasse pensar só em Gilbert, ele não era o único nome em seu peito e ele nunca seria.

Porque, sim, Ruby estava apaixonada pelo sorriso muito grande de Gilbert e seus cachos pretos e sua risada que atraia olhares de toda a sala.

Ela estava apaixonada pelo cheiro dele, como o sal do mar e mangas e algo mais, algo só dele, e ela estava apaixonada por como ele sempre era muito justo, como ele sempre tratava as meninas do mesmo jeito que tratava os amigos dele, e como ele tinha explorado uma parte do mundo, perdido um pai e explorado um pouco mais e, ainda assim, voltado para Avonlea com os mesmos olhos tristes, mas, ainda assim, acima de tudo, calorosos.

E, porque, apesar disso, Ruby também estava apaixonada pelo brilho no rosto de Anne e pela sua animação inabalável e por como ela ficava animada quando lia e fazia vozes diferentes para cada personagem.

Ela estava apaixonada por como Anne cheirava a pão fresco e vestidos recém lavados, e ela estava apaixonada por como Anne conseguia usar palavras tão intricadamente, criar frases com tanta maestria e facilidade, novos mundos e personagens e histórias ganhando vida em papel. Apaixonada Gilbert, mas por Anne também, que tinha corrido dentro de sua casa em chamas sem nem pensar duas vezes e que tinha lhe oferecido um vestido no caso dos de Ruby terem queimado, mesmo que ela mesma só tivesse dois vestidos em todo seu armário. Ruby não era a melhor em matemática, mas até ela sabia que isso era uma grande porcentagem de seu guarda-roupa! E Anne nem tinha pensado duas vezes…

Ruby não conseguia tirar os olhos nem de Anne e nem de Gilbert, mas eles nem percebiam, muito ocupados olhando um para o outro.

Ela decidiu que era ok, porém. Eles eram perfeitos um para o outro e – de vez em quando, você só precisava ignorar seus sentimentos um pouquinho, para deixar as pessoas com quem você se importa felizes.

Era o que damas faziam.



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