História HEAL - (COPHINE) - Capítulo 1


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Categorias Orphan Black
Personagens Alison Hendrix, Cosima Niehaus, Dra. Delphine Cormier, Elizabeth "Beth" Childs, Krystal Goderitch, Personagens Originais, Siobhan Sadler "Sra. S"
Tags Cophine, Cosima, Delphine, Lesbicas, Orphan Black
Visualizações 1.518
Palavras 3.760
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Hentai, LGBT, Mistério, Orange, Romance e Novela, Suspense, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oii ❤
Ótima leitura.

Capítulo 1 - O Primeiro Olhar.


Fanfic / Fanfiction HEAL - (COPHINE) - Capítulo 1 - O Primeiro Olhar.

A voz da professora Delphine Cormier ecoou pela sala de aula até a atraente jovem de olhos claros sentada no fundo, imersa em seus pensamentos, de cabeça baixa, escrevendo furiosamente num caderno.


– Srta. Niehaus?


Dez pares de olhos se viraram para seu rosto pálido, de cílios longos, e para seus dedos brancos que seguravam a caneta com força. Em seguida, os mesmos dez pares de olhos voltaram a professora, totalmente imóvel e de cara feia. Sua severidade contrastava com a simetria de seus traços, com os olhos grandes e expressivos e os lábios finos. Ela tinha uma beleza rústica, mas, naquele momento, amargamente séria, o que comprometia o efeito agradável de sua aparência. A jovem ouviu alguém pigarrear discretamente à sua esquerda. Olhou, surpresa, para a mulher de cabelos louros e olhos azuis sentada ao seu lado. Ela sorriu e lançou um olhar para a professora na frente da sala. Cosima acompanhou seu olhar lentamente, deparando com um par de olhos âmbar penetrantes e zangados. Engoliu em seco.


– Estou esperando que responda à minha pergunta, Srta. Niehaus. Se estiver disposta a se juntar a nós. – Sua voz era glacial, como os olhos.


Os demais alunos da pós-graduação se remexeram em suas cadeiras e trocaram olhares furtivos. Suas expressões diziam: "Que bicho mordeu a professora hoje?" Mas eles ficaram calados. A jovem abriu a boca por um instante, mas tornou a fechá-la, fitando aqueles olhos cor de infinito que a encaravam sem piscar, seus próprios olhos arregalados como os de um coelho assustado.


– Inglês é sua língua materna? – zombou ela.
Uma mulher de cabelos castanhos sentada à direita de Cormier tentou abafar uma risada, transformando-a numa tosse nada convincente. Todos os olhos recaíram de novo sobre a coelhinha assustada. Sua pele adquiriu um tom vermelho vivo e ela abaixou a cabeça, finalmente escapando daquele olhar impetuoso de sua professora.


– Já que a Srta. Niehaus parece estar concentrada em uma aula paralela numa língua estrangeira, alguém poderia fazer a gentileza de responder à minha pergunta?


A beldade à sua direita parecia ansiosa para fazer isso. Ela se virou para encará-la e, radiante, respondeu à pergunta nos mínimos detalhes, exibindo-se ao gesticular enquanto citava Dante no original em italiano. Quando terminou, lançou um sorriso ácido para o fundo da sala. Depois ergueu os olhos para a professora e suspirou. Só faltou se jogar no chão e roçar nas pernas da mesma para mostrar que ela seria seu bichinho de estimação para sempre. (Não que ela fosse gostar disso.) A professora franziu a testa de modo quase imperceptível, para ninguém em especial, e se virou para escrever no quadro. A coelhinha assustada pestanejou para conter as lágrimas e voltou a escrever. Graças a Deus, não chorou. Poucos minutos depois, enquanto Cormier  continuava sua lenga-lenga sobre o conflito entre os Guelfos e os Gibelinos, um pedaço de papel dobrado surgiu em cima do dicionário de italiano da coelhinha assustada. A princípio, ela não notou, mas a mulher bonita ao seu lado pigarreou baixinho, chamando novamente sua atenção. Ela abriu um sorriso mais largo, quase impaciente, e baixou os olhos para o papel. Ela o viu e piscou. Observando com cautela as costas da professora, que circulava diversas palavras em italiano, levou o papel até o colo, onde o desdobrou discretamente.


"Delphine é uma babaca."


Ninguém teria notado, porque a mulher ao seu lado era a única que estava olhando para ela. Mas, assim que leu essas palavras, o rosto dela corou de uma maneira diferente, duas nuvens cor-de-rosa surgindo na curva de sua face, e ela sorriu. Não o suficiente para mostrar os dentes nem covinhas ou uma outra marca de expressão, mas ainda assim um sorriso. Ela ergueu os olhos grandes para encará-la, tímida. Um sorriso rasgado e simpático se espalhou pelo rosto dela.


– O que há de tão engraçado, Srta. Niehaus?
Seus olhos avelã se dilataram de pavor. O sorriso de sua nova amiga desapareceu rapidamente ao se virar para encarar a professora. Ela já sabia que seria melhor não olhar para aqueles olhos âmbar e frios. Em vez disso, baixou a cabeça, mordeu o lábio inferior e começou a arrastá-lo de um lado para o outro.


– A culpa é minha, professora. Apenas perguntei em que página estávamos – intercedeu a mulher simpática em favor dela.


– Essa não é uma pergunta apropriada para uma doutoranda, Srta. Davydov. Mas, se quer saber, acabamos de começar o primeiro canto. Creio que consiga encontrá-lo sem a ajuda da Srta. Niehaus. Ah, e... Srta. Niehaus?
O rabo de cavalo da coelhinha assustada tremeu de forma quase imperceptível quando ela levantou a cabeça.


– Vá até a minha sala depois da aula.


[...]


No fim da aula, Cosima Niehaus enfiou rapidamente o pedaço de papel dobrado no dicionário de italiano, na página do verbete asino.


– Desculpe pelo que aconteceu. Eu sou Shay Davydov.


A mulher simpática estendeu a mão pequena por sobre a mesa. Cosima a apertou de leve e ela ficou admirada ao ver como a mão dela era pequena em comparação à sua.


– Olá, Shay, eu sou Cosima. Cosima Niehaus.


– Prazer, Cosima. Lamento que a professora tenha sido tão idiota. Não sei o que deu nela. – Shay chamou Delphine pelo título com uma dose considerável de sarcasmo. Ela ficou um pouco vermelha e virou o rosto para seus livros. – Você é nova aqui? – insistiu a loura, entortando um pouco a cabeça como se tentasse capturar o olhar dela.


– Acabei de chegar. Da University of San Francisco – Shay assentiu como se isso significasse alguma coisa para ela.


– Veio fazer mestrado?


– Vim. – Ela gesticulou para a frente da sala de aula agora vazia. – Pode não parecer, mas pretendo me especializar em Dante.– Shay assobiou.


– Então está aqui por causa de Delphine? – Ela assentiu e Shay percebeu que as veias no pescoço de Cosima começaram a pulsar, à medidaque seu coração acelerava. Como não conseguiu encontrar explicação para essa reação, resolveu ignorá-la. Mas se lembraria dela mais tarde. – Não é nada fácil trabalhar com Delphine, por isso ela não tem muitos orientandos. Só eu e Elizabeth  Childs, ou Beth como todos chamam, que você já deve ter conhecido.


– Beth? – Ela a encarou com uma expressão intrigada.


– A garota lá da frente. É a outra doutoranda dela, mas seu objetivo é ser a futura Sra. Cormier. Ela acabou de entrar para o curso e já começou a fazer biscoitos para a professora, aparecer na sala dela e mandar torpedos. É inacreditável. – Cosima tornou a assentir, mas não disse nada. – Beth parece desconhecer as regras rigorosas da Universidade de Toronto que proíbem o relacionamento entre professores e alunos. – Shay revirou os olhos e foi recompensada com um sorriso muito bonito. Pensou que precisava fazer Cosima Niehaus sorrir com mais frequência. Mas, por enquanto, isso teria que ser adiado.


– É melhor você ir. Ela queria falar com você depois da aula. Está esperando.– Cosima jogou suas coisas às pressas na mochila surrada que usava desde os tempos.


– Hum... não sei onde fica a sala dela.


– Vire a esquerda ao sair daqui, depois dobre à esquerda outra vez. A sala dela fica no final do corredor. Boa sorte. Se não nos encontrarmos antes, nos vemos na próxima aula.


Ela sorriu, agradecida, e saiu da sala. Assim que dobrou à esquerda pela segunda vez, viu que a porta da sala da professora estava entreaberta. Ficou ali parada, nervosa, pensando se deveria bater primeiro ou enfiar a cabeça pela fresta. Após alguns instantes de indecisão, decidiu bater. Ela endireitou os ombros, respirou fundo, prendeu o ar e estendeu a mão. Foi então que a ouviu.


– Desculpe se não liguei de volta. Eu estava em aula! – disparou uma voz irritada, já bastante familiar. Houve um breve silêncio antes que ela prosseguisse: – Porque é a primeira aula do ano, seu imbecil, e porque, da última vez em que nos falamos, ela me disse que estava bem!


Cosima recuou na mesma hora. Parecia que ela estava ao telefone, gritando com alguém. Não queria que Cormier gritasse com ela, então decidiu fugir e enfrentar as consequências mais tarde. Mas então a professora deu um soluço de cortar o coração. E disso ela não pôde fugir.


– É claro que eu queria estar aí! Eu a amava. É claro que queria estar aí. – Um segundo soluço soou detrás da porta. – Não sei a que horas vou chegar. Diga que estou indo. Vou direto para o aeroporto e pegarei o primeiro avião, mas não sei que tipo de vôo eu vou conseguir tão em cima da hora. – Ela fez uma pausa. – Eu sei. Diga a eles que sinto muito. Muito mesmo... – A voz dela foi sumindo até se tornar um choro suave e trêmulo, e Cosima a escutou pôr o telefone no gancho.


Sem pensar no que fazia, ela espiou com cuidado pela fresta da porta. A mulher de trinta e poucos anos estava chorando, com a cabeça apoiada em suas mãos de dedos longos, os cotovelos em cima da mesa. Ouviu a angústia e a tristeza brotarem de seu peito. E sentiu pena. Queria ir até ela, oferecer consolo, abraçá-la, acariciar seus cabelos e lhe dizer que sentia muito. Imaginou por alguns instantes como seria limpar as lágrimas daqueles olhos expressivos, cor de âmbar, e vê-los olhar para ela com carinho. Imaginou-se beijando o rosto dela, bem de leve, só para deixar clara sua compaixão. Mas vê-la chorar como se seu coração estivesse partido a petrificou por um momento e ela não fez nada disso. Quando finalmente se deu conta de onde estava, apressou-se a desaparecer de volta atrás da porta, pegou às cegas um pedaço de papel de dentro da mochila e escreveu:


"Sinto muito. Cosima Niehaus"


Então, sem saber bem o que fazer, fechou silenciosamente a porta da sala, prendendo o bilhete contra o batente. A timidez de Cosima não era sua principal característica. Sua melhor qualidade, aquela que a definia, era sua compaixão – que não havia sido herdada de seus pais. O pai era um homem decente, mas severo e inflexível. A mãe, que já tinha morrido, não havia sido compassiva em nenhum sentido, nem mesmo com sua única filha. Ethan Niehaus era um homem de poucas palavras, mas bem conhecido e querido por quase todos. Era conselheiro na Universidade of San Francisco e chefe dos bombeiros do Distrito Congressional da Califórnia. A brigada de incêndio era toda composta por voluntários, então ele e os demais bombeiros estavam sempre de sobreaviso. Ele cumpria seu dever com orgulho e dedicação, o que significava que quase nunca parava em casa, mesmo quando não estava atendendo a alguma emergência. Na noite da primeira aula de Cosima na pós-
graduação, ele telefonou para a filha do posto de bombeiros, feliz por ela finalmente ter decidido atender o celular.


– Como estão as coisas por aí, Princesa? – Sua voz não denotava nenhuma emoção, mas ainda assim era reconfortante e a aqueceu como um cobertor. Cosima suspirou.


– Tudo bem. O primeiro dia foi... interessante, mas legal.


– Os canadenses estão tratando você direito?


– Ah, sim. São todos muito simpáticos. – Ethan pigarreou e Cosima prendeu a respiração. Ela sabia, por anos de experiência, que o pai estava prestes a lhe dizer algo sério. Perguntou-se o que seria.


– Querida, Siobhan Cormier faleceu hoje. – Cosima se empertigou na cama de solteiro, o olhar perdido. – Ouviu o que eu disse?


– Ouvi, sim.


– O câncer voltou. Eles acharam que ela estava curada. Mas a doença voltou e, quando descobriram, já estava nos ossos e no fígado. Aldous e os filhos estão muito abalados – Cosima mordeu o lábio e conteve um soluço – Eu sabia que seria duro para você. Sei que considerava Siobhan uma segunda mãe, e era muito amiga da Krystal na escola. Tem falado com ela?


– Hum, não. Não tenho. Por que ela não me contou?


– Não sei bem quando descobriram que Siobhan estava doente de novo. Passei na casa deles hoje mais cedo e Delphine nem estava lá. Isso criou um problemão. Não sei o que ela vai ter que enfrentar quando chegar. Existe muito rancor naquela família. – Ethan praguejou em voz baixa.


– Você vai enviar flores?


– Acho que sim. Não sou muito bom com essas coisas, mas posso pedir ajuda a Adele. – Adele Dawkins era a namorada de Ethan. Cosima revirou os olhos ao ouvir seu nome, mas guardou a reação negativa para si.


– Por favor, veja se ela pode mandar algo em meu nome. Siobhan adorava gardênias. Adele também pode assinar o cartão por mim.


– Deixe comigo. Precisa de alguma coisa?


– Não, estou bem.


– Precisa de dinheiro?


– Não, pai. A bolsa é suficiente para eu me manter se controlar os gastos. – Ethan fez uma pausa e, antes mesmo que ele voltasse a abrir a boca, Cosima já sabia o que o pai iria dizer.


– Sinto muito por Harvard. Quem sabe no ano que vem? – Cosima endireitou os ombros e forçou um sorriso, por mais que seu pai não pudesse vê-lo.


– Quem sabe? Depois conversamos melhor.


– Tchau, princesa.


Na manhã seguinte, Cosima caminhou um pouco mais devagar até a universidade, ouvindo seu iPod. Em sua cabeça, escrevia e reescrevia um e-mail de pêsames e desculpas para Krystal. A brisa de setembro era quente em Toronto e ela gostava disso. Gostava de estar perto do lago, do clima ensolarado, da cordialidade, das ruas limpas, sem lixo. Gostava do fato de estar em Toronto e não em São Francisco. Esperava apenas que pudesse continuar assim. Ainda estava pensando no e-mail para Krystal quando entrou na sala do Departamento de Estudos Italianos para conferir seu escaninho. Alguém cutucou seu ombro. Ela se virou, tirando os fones de ouvido.


– Shay... oi.


Shay sorria para ela, olhando para baixo. Cosima era baixinha, ainda mais quando estava de tênis. O sorriso de Shay sumiu ao perguntar, com uma expressão preocupada: – Como foi seu encontro com Delphine?
Ela mordeu o lábio, um tique nervoso do qual não conseguia se livrar, principalmente por não ter consciência dele.


– Hum... não encontrei com ela. – Shay fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás. Soltou um pequeno grunhido.


– Isso... não é nada bom.


– A porta da sala estava fechada. Acho que ela estava ao telefone... não sei direito. Deixei um bilhete.


Shay notou o nervosismo dela e a maneira como suas sobrancelhas delicadamente arqueadas se franziram. Sentiu pena de Cosima e amaldiçoou mentalmente a professora por ser tão grossa. Ela parecia se magoar com facilidade e Delphine não percebia como sua atitude afetava os alunos. Então Shay decidiu ajudá-la.


– Se ela estava ao telefone, não gostaria de ser interrompida mesmo. Vamos torcer para que tenha sido isso. Se não, eu diria que você está em maus lençóis. – Ela se empertigou, revelando toda sua altura e abrindo os braços de modo casual. – Se houver alguma consequência, me avise e verei o que posso fazer. Se ela gritar comigo, eu aguento. Mas não quero que grite com você. – Porque, pelo visto, você morreria de pavor, Coelhinha Assustada.


Cosima pareceu querer dizer algo, mas ficou calada. Ela abriu um leve sorriso e concordou com a cabeça, como se agradecesse. Então foi até os escaninhos e esvaziou o seu. A maior parte das correspondências não tinha importância. Algumas notificações do departamento, incluindo o aviso de uma palestra pública a ser ministrada pela professora Cormier, intitulada “Luxúria no Inferno de Dante: O pecado mortal contra o ego”. Cosima releu o título várias vezes antes de conseguir absorvê-lo. Mas depois começou a cantarolar suavemente para si mesma. Estava cantarolando quando notou um segundo aviso, mencionando que a palestra da professora Delphine tinha sido cancelada e seria remarcada. Ainda cantarolava ao ver o terceiro aviso, informando que todas as aulas, compromissos e reuniões da professora Cormier estavam cancelados até segunda ordem. Por fim, sem parar de cantarolar, enfiou a mão no fundo do escaninho e retirou um pequeno pedaço de papel. Ela o desdobrou e leu: "Sinto muito. Cosima Niehaus". Continuou cantarolando enquanto tentava entender o que significava encontrar seu próprio bilhete no escaninho um dia depois de deixá-lo preso à porta da professora Delphine. Finalmente ficou em silêncio e seu coração parou de bater quando virou o papel e leu as palavras: "Delphine é uma babaca." Ouve uma época em que, diante de um acontecimento tão embaraçoso como esse, Cosima teria caído no chão e se enroscado em posição fetal, e possivelmente ficaria assim para sempre. Mas, aos 23 anos, já era mais dura do que isso. Então, em vez de ficar parada diante dos escaninhos, refletindo sobre como sua carreira acadêmica tinha sido curta, ela fez o que tinha que fazer na universidade e voltou para casa. Afastando da mente todo e qualquer pensamento sobre sua carreira, Cosima fez quatro coisas. Primeiro, pegou algum dinheiro da reserva de emergência convenientemente guardada num pote plástico debaixo da sua cama. Segundo, foi até a loja de bebidas mais próxima e comprou uma garrafa bem grande de tequila bem barata. Terceiro, voltou para casa e escreveu um longo e-mail de desculpas e pêsames para Krystal. Fez questão de se esquecer de mencionar onde estava morando e o que estava fazendo e enviou a mensagem pela sua conta do Gmail, em vez de usar o e-mail da universidade. Quarto, foi às compras. Como não tinha dinheiro para gastar, essa atividade foi apenas uma homenagem piegas e de certa forma melancólica a Krystal e Siobhan, que adoravam coisas caras. Cosima já não podia ir às compras quando foi morar em São Francisco e conheceu Krystal no penúltimo ano do ensino médio. E agora tirava leite de pedra para viver apenas com sua bolsa de estudos, sem poder trabalhar para complementar a renda. Como americana com visto de estudante, suas possibilidades de conseguir um emprego eram muito limitadas. Enquanto passeava lentamente pelas belas vitrines da Bloor Street, ela pensou em sua mãe de consideração e em sua velha amiga. Parou em frente à loja Prada, lembrando-se da única vez em que Krystal a levara para comprar sapatos de grife. Cosima ainda tinha aqueles Prada pretos de salto agulha, guardados numa caixa no fundo do armário. Ela só os usara uma vez, na noite em que descobriu que havia sido traída, e, por mais que quisesse tê-los destruído como destruíra o vestido, não foi capaz. Tinha sido um presente de boas-vindas de Krystal, que não fazia ideia do que esperava por Cosima ao voltar para casa. Depois ficou parada pelo que pareceu uma eternidade diante da vitrine da Chanel, chorando e pensando em Siobhan. Em como ela sempre a recebia com um sorriso e um abraço quando Cosima a visitava. Em como, quando a mãe de Cosima morreu em circunstâncias trágicas, Siobhan lhe disse que a amava e que adoraria ser sua mãe, se ela permitisse. Em como Siobhan tinha sido uma mãe melhor do que Susan, para vergonha de Susan e constrangimento de Cosima. E, quando já havia chorado todas as suas lágrimas e as lojas começaram a fechar, voltou lentamente para o seu apartamento e começou a se torturar por ter sido uma péssima filha de consideração, uma amiga terrível e uma idiota insensível, incapaz de ao menos conferir se um papel estava em branco antes de deixar um bilhete para alguém que tinha acabado de perder a mãe. O que devia ter passado pela cabeça dela ao encontrar aquele bilhete? Encorajada por duas ou três doses de tequila, Cosima se permitiu fazer algumas perguntas simples. E o que ela deve pensar de mim agora? Cogitou arrumar as malas e pegar um avião de volta para a Califórnia, só para não ter que enfrentá-la. Estava envergonhada por não ter percebido que era de Siobhan que a professora Delphine estava falando ao telefone naquele dia terrível. Mas nem imaginava que o câncer dela tinha voltado, quanto mais que ela houvesse morrido. Além do mais, Cosima estava muito preocupada por ter começado com o pé esquerdo com a professora. A hostilidade dela foi chocante. Porém mais chocante ainda foi ver seu rosto aos prantos. Naquele momento, só conseguiu pensar em consolá-la – e esse pensamento foi suficiente para distraí-la, impedindo-a de refletir sobre a causa da sua dor. Não bastava que o coração dela tivesse acabado de ser dilacerado pela notícia da morte de sua mãe, sem que ela houvesse tido a oportunidade de se despedir ou dizer que a amava. Não bastava que alguém, provavelmente seu irmão Scott, a tivesse arrasado por ela não ter voltado para casa. Não, depois de ter sido devastada pela dor e chorado como um bebê, ela ainda teve a experiência encantadora de abrir a porta de sua sala para sair correndo até o aeroporto e deparar com o bilhete de pêsames dela. E com o que Shay tinha escrito no verso. Que beleza.  Cosima ficou surpresa que a professora não a tivesse expulsado do curso na mesma hora. Talvez ela se lembre de mim. Mais uma dose de tequila lhe permitiu ter esse último pensamento e, depois dele, mais nada, porque ela apagou no chão. Duas semanas depois, Cosima sentia-se um pouco melhor ao conferir seu escaninho na universidade. Sim, era como se ela estivesse aguardando no corredor da morte sem esperança de suspensão da pena. Mas ela não largou tudo e voltou para casa. Era verdade que Cosima corava como uma colegial e era absurdamente tímida. Mas também era teimosa. Ela era tenaz. E queria muito estudar Dante. Se isso significasse tirar da cartola uma cúmplice não identificada para escapar da pena de morte, ela estava disposta a fazê-la. Só não tinha contado isso para Shay. Ainda.


– Cosima Niehaus? Pode vir aqui um instante? – disse a Sra. Virginia, a adorável e idosa assistente administrativa. Obediente, Cos foi até a mesa dela. – Você teve algum problema com a professora Cormier?


– Eu, hum... não sei. – Ela ficou vermelha e começou a morder a parte de dentro das bochechas.


– Recebi dois e-mails urgentes esta manhã me pedindo que marcasse uma reunião com você assim que ela voltasse. Os professores nunca fazem isso. Preferem marcar seus próprios compromissos. Mas, por algum motivo, ela insistiu que eu agendasse essa reunião e registrasse o encontro em sua ficha. – Cosima assentiu e pegou sua agenda na mochila, esforçando-se ao máximo para não imaginar o que ela teria dito a seu respeito nos e-mails. A Sra. Coady olhou para ela, esperando alguma reação. – Amanhã está bem? – Cosima ficou surpresa.


– Amanhã?


– A professora chega hoje à noite e quer encontrá-la amanhã, às quatro da tarde, na sala dela. É possível? Preciso responder ao e-mail com uma confirmação. – Cosima tornou a assentir e anotou a hora da reunião em sua agenda, como se isso fosse preciso. – Ela não falou sobre o que era, mas disse que era sério. Fico me perguntando o que isso quer dizer... – Falou a Sra. Coady, distraída.



LEIAM AS NOTAS FINAIS... LAAAA EMBAIXO. ❤😘


Notas Finais


#Detalhes

Livro: O Inferno de Gabriel
Autor: Sylvain Reynard
Data da publicação: 6 fev 2013
Editora: Editora Arqueiro
Idioma: Português

Espero que gostem da adaptação. ❤😘


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