História Heartbroken vol. 1 - Capítulo 2


Escrita por: e Luncky

Postado
Categorias Histórias Originais
Tags Aventura, Hotel, Romance
Visualizações 32
Palavras 1.814
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Sobrenatural
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Track no.2: Disturbia


Fanfic / Fanfiction Heartbroken vol. 1 - Capítulo 2 - Track no.2: Disturbia

Por muitos anos eu vivi com a minha avó em seu circo. Lembro das tendas, de nossos companheiros talentosos que faziam apresentações mágicas e dos belos festivais com fogos de artifício e shows ao ar livre. Costumava cair no sono em seu colo, enquanto ela lia a mão dos clientes e escrevia carta de falecidos entes para quem quisesse atravessar o véu entre a vida e a morte pelas saudades. Ah, querida avó, se a senhora estivesse aqui, teria a pós-morte mais agradável que pudera imaginar. Hoje eu não acordo mais com a buzina de palhaços ou com o cheiro de pipoca, mas o que faz mais falta é perceber que caíra no sono com você, com seu carinho. Eu sonhei com a senhora, e por isso acordei com lágrimas secas e ao lado da vela apagada. "Obrigada por iluminar a minha noite", pensei. 

Apertei levemente a minha mão esquerda, e apalpei meu ombro. Ainda dói. O sangue tinha parado, mas apenas o sono da noite anterior me desconcentrou da dor profunda que eu sentia. Foram dois tiros certeiros, nada mais.

Minha avó Karen me ensinou tudo o que eu sei, do baralho ao exorcismo, todas as práticas esotéricas, pagãs, e também as cristãs e sagradas. Pouco depois que ela se aposentou, nossos companheiros circenses me entregaram todo o seu material da tenda, que foi um presente generoso dela. Eles passaram a me criar, mas precisava estudar, então não pude herdar as atividades da tenda também. Foi aí que se juntaram para pagar a mensalidade da minha escola atual, onde entrei quando tinha 6 aninhos. 

Katrina foi a minha primeira amiga, e para sempre a mais importante. Chamada constantemente de "homenzinho" por ser mais atlética e cheia de si, sempre rasgando, de uma maneira ou outra, seus uniformes de tamanhos maiores do que realmente precisava e pedindo para que eu costurasse de volta, num carinhoso ciclo que tem mais de 10 anos. Suzune nos acompanhava a nosso convite; criança tímida, pomposa. Jin nos conheceu apenas no ano passado, é repetente. Só parece estranhamente satisfeito com isso, por ter conhecido outras pessoas deslocadas e desajeitadas como nós, poder proteger como irmãzinhas perdidas do mundo afora. Os quatro contra a humanidade, tinha minha querida avó me instruindo, por cartas e nas férias, quando podíamos nos ver novamente no circo. 

Quando começou a dar errado? 

Já fazem seis meses. A correspondência parara de chegar, parecia que a Lua chorava, e então eu me pus a chorar quando finalmente veio; uma carta do circo, notificando-me da morte de quem me criou por tantos anos. Embora não tenha avisado meus amigos antecipadamente sobre o motivo, passei a semana seguinte inteira no campo circense, consolada pelos companheiros que trabalhavam lá e juntos construímos um humilde mausoléu rodeado por rosas e velas. Dormia em sua tenda enquanto não se desfaziam dela, mesmo que não tivesse mais um propósito, a não ser que...

Estava decidido; usaria todo o meu conhecimento, todas as práticas que aprendi para me comunicar com minha avó, por uma última vez. "Falar com os mortos é uma ousadia sem tamanho. Depende da habilidade do mediador se o véu irá ou não se fechar em seguida, e misturar a vida com a morte é o pior dos fardos nas costas", ela sempre me disse. Pensei muito antes de chegar à esta conclusão, pensei mesmo, por isso estudei sem parar, dos livros aos conselhos de cartomantes vizinhas, de Sóis a Luas. Puxa, tinham tantas coisas que eu queria que ela soubesse; Kat finalmente conseguira virar capitã do time de basquete, conhecemos o Jin, Suzune se tornara candidata à presidência do Conselho Estudantil. Por mais que fosse perigoso e incerto, até mesmo imprudente, eu estava disposta a aguentar o que viesse se significasse que poderia vê-la de novo. 

Foi numa linda noite: 22h em ponto. Os malabaristas mais velhos e algumas acrobatas me chamaram para jantar no trailer deles depois de um show, e eu disse que iria mais tarde, porque tinha algumas tarefas acumuladas para fazer. Tentei realizar uma chamada intensa usando uma vela e uma concentração absurda, tentei escrever cartas, tentei usar uma lanterna, que poderia piscar uma ou duas vezes em simples respostas de "sim" ou "não". Realmente, quase 2 horas de puro fracasso e alguns espíritos melancólicos e carrancudos. Acho que não descansaram direito, mas não consegui pegar seus nomes com clareza para construir amuletos abençoados para seus túmulos. Todo espírito merece descansar. 

As luzes pelas tendas afora começaram a se apagar. Queria pedir perdão, por ousar ir longe demais, mas não havia mais um leque de escolhas à minha frente. A ligação precisava ficar mais forte. 

Abri uma caixa de pertences da avó Karen; encontrei roupas, chapéus - lindos chapéus, peguei alguns emprestados, com todo o respeito pelo bom gosto -, acúmulos, coleções de relógios e botões, perfumes e, principalmente, um lindo retrato dela com o meu avô, quando ainda era militar. Estavam na casa dos 30. Sim, sim, perfeito! Coloquei o retrato e alguns outros objetos dentro de um círculo de cinco velas, tudo em cima da escrivaninha. Me sentei diante do projeto de altar depois de buscar algumas duas rosas do mausoléu. Fiz isso pedindo perdão, muitas vezes, tantas vezes, enquanto tomava cuidado para não ser pega pelos artistas que saíam de suas apresentações. 

Faltava o instrumento mais perigoso que minha avó me dera, quando tinha terminado minha iniciação como médium, e só dera pois as suas habilidades como tal pularam a geração de minha falecida mãe e foram passadas para mim. Era o tabuleiro, o Ouija. O apoiei com cuidado no meu colo. 

Esperei, pacientemente, longos minutos, até finalmente atingir uma concentração perfeita entre o véu da vida e da morte. Alguém chegara. 

- Boa noite - eu disse, sorrindo, esperançosa. - Você pode, por favor, dar-me o privilégio de saber o seu nome? 

O indicador se mexia lentamente. "Estranho, nas sessões que compareci eles falavam mais depressa. Deve ser uma conexão frágil, como um telefone com pouco sinal". 

K. 

"Karen".

K. A.

Carregada de emoção. 

K. A. N. Z. E. N.

 

 

 

Resolvi me levantar. O Hotel faz o tempo parecer uma piada. Alguma noção da realidade eu ainda precisava ter, sem dúvidas. Abri a porta para o corredor expressando coragem para encará-lo. Bati na porta de Kanzen, que não respondeu. Resolvi continuar andando, ao som do silêncio, embora a solidão estivesse me angustiando aos poucos. O gramofone teria sido tão útil. Dobrando à esquina, no final do corredor escuro, reconheci o cenário. 

Mas aquela é a minha porta. 

Continuei andando, de jeito mais desajeitado, tropeçando em medo e desespero, movida atrás de uma verdade que me aterrorizava. Parecia que a maldição que recaiu sobre nós dois mal estava começando. Passei em frente aos nossos quartos; mesmas portas, mesmo papel de parede rústico, mesma tapeçaria vermelha, mesmo piso. Deixei meu colar de couro contra maus espíritos no chão, à frente de meu quarto e dei mais uma volta. Continuava ali, mesmo cenário, mesmo colar. Me enfezei e o peguei de volta. Passei a correr. 

- Maldito seja, maldito... 

Esmurrei a porta do quarto de Kanzen. Sem resposta, de novo. Como não estava trancada, entrei com firmeza, não parecia ter outra saída. Porém, assim que o fiz, meu corpo foi jogado para o chão, como se a porta estivesse no teto do cômodo. Como se tudo tivesse girado, a 180 graus. Minha cabeça rodava, mas por mais que minha visão estivesse turva, aquele não era o quarto de Kanzen. Era uma cozinha, inteiramente bagunçada, de cheiros misturados e apodrecidos, além de estar bem escura. Sem qualquer aura de Mordfield.  

Me levantei com calma. Caí protegendo minha mão e ombro feridos; em troca machucara minhas costas. Olhei para cima; a porta estava aberta, mas eu só conseguia enxergar um vácuo assustador em vez do corredor de onde vim. Maldita seja ansiedade, inconveniente como sempre. Segui meu caminho, passando pelas bancadas sujas, com panelas empilhadas, entupidas de ossos. O chão não era muito diferente. Abri a porta lentamente, com um receio fora do comum. Qualquer coisa dentro do que está acontecendo atualmente, na verdade, gera um receio fora do comum. Seria então automaticamente comum?

"Tudo tão escuro", pensava, andando por corredores diferentes dos de Mordfield. Não havia a tapeçaria avermelhada, ou os candelabros cheios de pompa. Parecia tudo mais antigo, desgastado. A própria aura era de cores mais frias; janelas cobertas por cortinas de cor púrpura, papéis de parede rasgados, piso quebradiço, que rangia a todo momento. O próprio cheiro era diferente. Passei por diversas portas trancadas, ou presas por móveis empilhados do lado oposto. As lâmpadas que funcionavam só manifestavam a luz piscando-a descontroladamente. 

Por fim, encontrei uma escadaria, gigantesca, em espiral para cima. Aparentemente, eu estava no andar mais baixo. Provavelmente uma versão mais antiga que se tornou porão? E, de qualquer forma, começava a minha jornada - cheia de tontura e falta de ar - para o andar superior que encontrasse primeiro, mas o tempo foi tanto que mais parecia um caminho direto para o andar mais avançado. Quando cheguei, logo me apoiei na parede, ofegante. Para minha surpresa, não estava mais sozinha; era um saguão. Na bancada, tinha um recepcionista histérico, separando papéis, reservando papéis e bagunçando tudo de novo. O pobre desastrado era um esqueleto, não podia conter suas tremedeiras, mas resmungava como ninguém. Ao lado dele, estava uma pessoa coberta por um manto negro, que segurava um macabro boneco ventríloquo excessivamente elegante e falador. 

- Sr. Mason, o sr. não organizou a ficha dos cavalheiros do quarto 286, organizou? - Ele falava rápido, com uma voz aguda, cômica. - Estamos prestes a receber mais diversos hóspedes, não quero perder a confiança em sua competência. 

- Cala a boca, cala a droga da boca... - ele murmurava. 

- Você deve odiá-los, eu entendo - fez-se um silêncio de súbito. O boneco me percebeu, virando lentamente sua cabeça em minha direção. - Ora, mas quem é a senhorita? Com esse rostinho de porcelana, fica difícil acreditar que chegou a um fundo do poço como esse. O que andou aprontando antes de morrer? - Ele gargalhava. Lembrou-me a Linlin. - Mason, trate de separar mais uma ficha para um dormitório. Temos trabalho a fazer! 

A risada constante do boneco ecoava na minha cabeça. Jamais imaginara, em minha frágil vida de médium, que o mundo dos mortos poderia ser tão profundo, uma imensidão cheia de pavor, incerta e fria. Ainda que estivesse nervosa, sorri de fininho, para a cara da Morte. Não é uma maldição infeliz que vai se sobrepor aos ensinamentos de Karen Scarlington. Não mesmo. 

Mesmo assim, meu coração doía, como doía. Estavam todos desaparecidos, e agora Kanzen também está. Nada mais me vem à cabeça além da necessidade de encontrá-lo novamente. A maldição nos escolheu e deveríamos superá-la juntos, não é? 

Preciso sentir seus braços de novo, Kanzen. 

- Agradeço imensamente. 

 

 

 

 

 



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