História Heartless - Capítulo 3


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Categorias Wanna One
Personagens Daehwi, Guanlin, Jihoon, Jinyoung, Woojin
Tags Panwink
Visualizações 233
Palavras 4.024
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Magia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá ~♡ Saindo mais um capítulo dessa fic que eu tô adorando escrever! Eu ando tão investida nela que sempre que eu tenho um tempo eu escrevo um pouco, então eu já to com bastante material adiantado e isso é um milagre, especial pra alguém como eu que escrevia e postava direto as outras fics kkkkk

Enfim, hoje vou ser breve e apenas desejar uma boa leitura e agradecer pelos comentários lindos que sempre recebo ♡

ps: Postando hoje esse cap pra celebrar o aniversário de 1 ano do wanna one ♡♡♡♡

Capítulo 3 - Primeiro banho


Fanfic / Fanfiction Heartless - Capítulo 3 - Primeiro banho

Assim que abri meus olhos no dia seguinte, peguei o celular e mandei uma mensagem para o Daehwi no nosso chat em grupo. Como hoje é sábado, não era exatamente cedo, mas o Daehwi era daqueles que acordava com as galinhas, então ele já devia estar em pé.

[09:45] Guanlin: Preciso da sua ajuda.

[09:47] Daehwi: ...

[09:47] Daehwi: Medo

[09:48] Daehwi: O que você quer?

[09:48] Guanlin: Consegui convencer o meu pai a me deixar dar um banho no Hara, e então pensei que ele também precisa urgente de um corte de cabelo.

[09:49] Guanlin: E, como você é o cabeleireiro mais incrível que eu conheço...

[09:50] Daehwi: Você não está seriamente me pedindo para cortar o cabelo de uma criatura mitológica, está?

[09:51] Guanlin: Suas mãos vão estar amarradas, eu prometo que ele não vai te atacar... Eu fiquei uma hora dentro da cela dele ontem e nada me aconteceu.

Fiquei esperando pela resposta em texto, mas levei um susto quando meu celular vibrou na minha mão. Atendi a ligação, confuso.

- Você fez O QUÊ??? – Daehwi deu um grito histérico do outro lado da linha e eu tive que afastar o celular do meu ouvido – Guanlin você ficou louco? Quer morrer?

- Ele é inofensivo – respondi – É sério. Nós ficamos jogando jogo da velha e ele é bom nisso.

- Isso é a coisa mais bizarra que eu já presenciei nos meus 20 anos de idade – meu amigo suspirou do outro lado da linha – Você jura que é seguro cortar o cabelo dele?

- Eu te prometo – disse, embora eu não tivesse tanta certeza assim de que tudo ia correr perfeitamente bem. Mas, eu esperava que sim.

- Nesse caso... – Daehwi pensou por um segundo – Posso fazer um corte super moderno nele?

Falei a ele que sim, mas confesso que aquilo não me deixava muito confortável. A ideia era que as pessoas do vilarejo vissem o Hara como uma pessoa normal, se o Daehwi viesse com um corte de cabelo futurista bem louco, minhas chances iam ralo abaixo... Então na hora do corte, eu ia ter que convencê-lo de fazer a coisa mais normal possível, mesmo que isso significasse um Daehwi emburrado e bravo por eu ter dado esperanças a ele.

A vida é assim.

Depois de tomar café e pegar um leite de chocolate e um de morango, assim como um pão doce, parti para a delegacia. Meu pai já tinha saído para ir caçar o tal do pássaro raro, que eles ainda não tinham achado, e minha mãe tinha levado meu irmão menor até o parquinho. Aquilo era bom, me dava liberdade de fazer o que eu queria sem precisar explicar muita coisa a eles.

Até porque o que eu queria fazer envolvia outra pessoa e eu já ia sofrer para convencê-la.

Assim que cheguei por lá, ao invés de entrar direto na delegacia, fui até uma casa que ficava ao lado dela. Lá morava alguém que eu conhecia muito bem e que era meu amigo desde que eu era pequeno: Park Woojin. Sim, aquele mesmo que vivia assustando o meu irmãozinho. Bati na porta da casa dele e sua mãe, uma doce senhorinha, me recebeu com um abraço.

- Quanto tempo eu não via o meu Linlin! – ela falou e apertou minha bochecha como se eu tivesse 5 anos – Como estão os estudos?

Com o canto do olho, vi que o Woojin estava parado no meio da cozinha, olhando a cena e rindo enquanto bebia uma garrafa de leite do bico.

- Está tudo ótimo – respondi – Na verdade, vim até aqui porque precisava da permissão da senhora para algo muito importante.

A mulher olhou para mim surpresa e eu tive que reunir toda a cara de pau do mundo para falar o que eu queria.

A ideia era trazer o Hara para tomar um banho no banheiro da casa dela. Ok, eu sei que isso é loucura, mas eu não podia carregar aquele garoto até a minha casa, já que era meio longe, certamente outras pessoas veriam e bom, não ia ser uma boa ideia. Também não havia um chuveiro na delegacia, ou seja, eu precisava banhá-lo no local mais próximo possível.

Tanto a mãe do Woojin quanto o próprio ficaram apavorados com aquela sugestão. A mulher até mesmo me confessou que o Woojin passava o dia inteiro choramingando de medo pelo fato de o Hara estar na delegacia do lado da casa dele. Sim, logo ele, que ficava assustando o meu irmãozinho...

Mas, usei minha lábia para convencer a mulher. Contei minha hora passada com ele na cela e sobre como ele era inofensivo. Além disso, prometi que ele ficaria com as mãos amarradas o tempo todo e que eu me responsabilizaria por tudo. Quando eles finalmente aceitaram – sendo que o Woojin foi praticamente obrigado pela mãe a aceitar – eu fui até a delegacia buscar o garoto.

Parecia que, por enquanto, tudo estava dando certo. Se eu conseguisse mesmo dar um banho nele e seu cabelo fosse cortado, era provável que as pessoas perdessem um pouco o medo dele. Eu só esperava que ele me deixasse fazer isso.

- Olá – falei e sentei diante da cela como nos outros dias.

O garoto, que estava na sua posição costumeira, olhou para mim e, diferente dos outros dias, correu em minha direção logo de cara. Eu dei um sorrisinho ao perceber que ele já confiava em mim a tal ponto – ou então ele apenas queria a comida que eu trouxe, isso eu não tinha como saber.

- Hoje eu te trouxe um pão doce – disse e entreguei a ele – É meu favorito.

O garoto pegou o pão com as duas mãos e deu uma cheirada no açúcar que o cobria por cima. Depois, devagar, deu uma mordida. Seus olhos se arregalaram ao sentir o sabor e então, assim como das outras vezes, ele começou a devorá-lo antes mesmo que eu pudesse piscar.

Uau, ele tinha mesmo um apetite e tanto.

- Eu também trouxe um leite de outro sabor – falei e mostrei o de chocolate – Prove, vamos ver se você gosta desse também.

Assim como ontem, ele pegou a embalagem da minha mão e cravou o canudo rapidamente, já que tinha aprendido como fazer. Ele tomou um gole do leite de chocolate e me olhou de forma estranha.

- É de chocolate – expliquei – Não é o mesmo de ontem.

Ele fez uma expressão meio contrariada e eu acho que ele não gostou muito do de chocolate não. Porém, obviamente, bebeu até o fim. Quando acabou, seus olhos se fixaram no leite que estava na minha mão, o de morango. Ele estendeu a mão diante de mim e me olhou com olhos de cachorro sem dono.

Mas que diabos... Ele estava fazendo charme pra que eu desse o outro leite a ele? Mas, não é possível, como ele saberia fazer isso? Será que era um talento nato dele?

Dei uma risadinha e então entreguei o que ele tanto queria, seu leite favorito. Ele o pegou rapidamente da minha mão, colocou o canudo e então bebeu, parecendo realizado. Ele acabou tão rápido que eu nem mesmo sabia como o corpo dele aguentava comer tão depressa.

- Ok, agora que você já tomou seu café da manhã... – respirei fundo e então disse a ele o que faríamos – Você vai tomar um banho.

Assim que falei de banho, ele me olhou confuso, como se não entendesse o que eu estava dizendo. Era de se imaginar, já que não parecia que ele se banhava de forma alguma há anos. Chamei um dos policiais para abrir a cela e rapidamente entrei com uma corda na mão, para amarrar as mãos dele.

Porém, quando me viu dentro da cela, ele apontou para a pedra que estava no chão, a que usamos para jogar ontem. Dei um sorrisinho ao perceber que ele achou que eu tinha entrado ali para jogarmos, mas tive que negar rapidamente.

- Não senhor, banho primeiro – brinquei e então olhei para as mãos dele – Posso amarrar suas mãos? Prometo que não vou te machucar...

Ele olhou para mim e depois para as cordas e se afastou, parecendo assustado. Eu me agachei diante dele e tentei ser o mais honesto possível.

- Se pudesse, eu te levaria livremente, mas eu não posso – desabafei – Eu quero te ajudar e eu sei que isso vai te ajudar, você confia em mim?

Os policiais que estavam do lado de fora da cela ficaram observando qual seria a reação do garoto. Eu percebi que desde ontem, quando me viram jogar, eles ficaram realmente interessados no quanto ele parecia humano. E hoje, novamente, era uma chance para que ele se provasse diante deles.

O garoto hesitou por um tempo, confuso entre confiar em mim ou não. Mas então, sem nenhuma pressão ou obrigação, colocou os braços na frente do corpo e deixou que eu amarrasse a corda em seus pulsos.

- Bom garoto – falei quando terminei e dei um sorrisinho – Obrigado.

Ele ficou me olhando ainda um tanto confuso sobre onde exatamente eu iria leva-lo e o que eu ia fazer, quando abri a porta da cela e pedi para ele levantar e caminhar comigo. Os policiais ficaram em alerta e andaram rapidamente atrás de nós, mas não tinha motivo nenhum para preocupação.

Não, eu sabia que ele iria se comportar.

Carreguei o Hara para fora da delegacia e vi seus olhos se incomodarem com a luz do sol, já que ele estava há bastante tempo dentro da cela. Caminhei o mais depressa possível para não ser visto e bati na porta da casa do Woojin, assim como tinha feito antes.

A mãe dele me recebeu novamente, mas agora parecendo bem mais apreensiva. O Hara olhava para os lados, como alguém que estava vendo uma cidade pela primeira vez. A mulher olhou para ele com os olhos arregalados e tampou o nariz assim que sentiu seu cheiro.

Woojin não estava em lugar nenhum, aliás, provavelmente estava escondido debaixo da cama...

Ela nos conduziu até o banheiro bastante nervosa, sem tirar os olhos do garoto, que apenas me seguia de cabeça baixa. Eu até achava engraçado que as pessoas tivessem medo, já que ele sempre parecia acuado e inofensivo. Bem, não quando ele apontou aquele estilingue na nossa direção, mas isso é outra história.

Entrei com ele no banheiro e fechei a porta atrás de nós. Um dos policiais ficou do lado de fora da porta do banheiro e outro do lado de fora da porta da casa, para garantir a nossa segurança. Porém, ali dentro daquela peça minúscula, estava apenas ele e eu. E eu precisava muito que tudo corresse bem.

- Venha aqui – falei um pouco nervoso e o conduzi até debaixo do chuveiro.

Ele me olhou confuso e eu achei que não era uma boa ideia abrir o chuveiro em cima da cabeça dele, já que aquilo provavelmente iria aterrorizá-lo. Então decidi pegar a mangueirinha e começar lentamente.

Liguei a água e ele deu um pulo para trás, mesmo pelo pequeno fio de água que saia dela. Eu sorri e tentei confortá-lo.

- Não dói, prometo – disse enquanto colocava minha própria mão na água, para testar a temperatura – Não está nem fria e nem quente, acho que é a temperatura perfeita.

Coloquei a água da mangueirinha lentamente nas mãos dele e esperei por sua reação. Ele arregalou os olhos, como sempre fazia quando se deparava com algo novo, mas não reclamou. Eu respirei fundo e então continuei.

Molhei os braços dele e esfreguei devagar com uma esponja que havia trazido comigo. Só de esfregar um pouco, já saia um caldo preto de seus braços e eu levei um susto ao perceber que a cor da pele dele era clara, em um tom amarelado, não muito diferente do meu.

- Uau garoto, você realmente precisava de um banho – brinquei enquanto mostrava a ele sua pele clara, que surpreendeu até a ele mesmo.

Quando ele já estava suficientemente adaptado com a água, liguei o chuveiro. Achei que ele iria se assustar, mas na verdade ficou maravilhado. Eu estava tentando lavá-lo, mas tudo o que ele queria fazer era ficar olhando por onde a água saía.

Parecia até mesmo um cachorrinho.

Tirei o trapo que cobria a parte de cima do corpo dele e vi que havia alguns cortes em seu abdômen. Não tinha muito o que fazer, eu precisava esfregar ali para limpar a região, mas sabia que ia doer.

- Vai doer – falei, olhando para ele, que ainda estava alucinado com o chuveiro – Você confia em mim?

Ele olhou de volta para mim, seus cabelos molhados grudados no rosto, e assentiu com a cabeça.

E então eu o esfreguei o mais rápido que pude, para acabar logo com aquele sofrimento. Ele franziu o rosto e fez uma expressão de dor, mas em momento algum me afastou ou pareceu ficar bravo comigo. Olha, se o tal do monstro não tinha nem me atacado quando eu esfreguei sabão na ferida dele, vocês acham mesmo que ele iria fazer isso em outro momento?

Uma calda preta escorria do corpo dele e descia pelo ralo, enquanto ele cada vez ficava mais limpo e também mais irreconhecível. Quando terminei de esfregar seu peito, os braços e também as costas, achando que o cabelo dele era mesmo um incômodo enorme e que o Daehwi precisava cortar aquilo urgentemente, virei ele de frente para mim e comecei a gentilmente limpar seu rosto. Enquanto passava a esponja com cuidado e repetia mil vezes para ele não abrir os olhos – embora ele quisesse espiar toda hora – comecei a finalmente perceber suas feições reais.

Ele tinha olhos muito bonitos, como se tivessem sido desenhados em seu rosto, seus lábios eram grossos e eu morreria para ter um nariz bonito como o dele. Era difícil notar todas aquelas coisas quando ele estava coberto daquela sujeira esverdeada e preta, mas agora que eu podia vê-lo claramente, eu tinha certeza de que ele não era um monstro.

Como alguém seria um com um rosto desses? Se havia uma maldição que fizesse com que alguém nascesse bonito daquele jeito, eu também queria.

Ele olhou para mim quando eu finalmente terminei de limpar o seu rosto e eu olhei de volta para ele, sem saber ao certo o que fazer ou dizer. E, daquele ponto em diante, eu comecei a me sentir estranho.

- A parte debaixo do seu corpo ainda precisa ser limpa – falei, um pouco envergonhado.

Ele assentiu com a cabeça e foi logo puxando o trapo que usava preso na cintura, mas eu consegui detê-lo antes que ele ficasse completamente pelado na minha frente. Olha, tudo bem. Primeiro que ele não sabia sobre aquele tipo de coisa, ele viveu a vida inteira em uma floresta, então é provável que ficar sem roupas na frente de alguém não significasse muita coisa. Segundo que homens fazem isso, eu costumava tomar banho junto com o Daehwi, o Jinyoung e o Woojin quando éramos mais novos e nunca teve malícia nenhuma nisso. Então por que diabos agora eu estava tão nervoso em vê-lo sem roupa?

- Você faz isso – falei nervoso e coloquei a esponja na mão dele – Você vai se lavar, assim como eu fiz com você. Acha que consegue?

O garoto assentiu com a cabeça e eu suspirei, ficando mais calmo. Dei as costas a ele, fechei a cortina do chuveiro e comecei a disfarçar, enquanto ele se lavava. Peguei o celular na minha mochila e vi que havia uma mensagem do Daehwi.

[11:11] Daehwi: Jinyoung e eu já estamos aqui te esperando.

[11:12] Guanlin: Aqui? Na casa do Woojin?

Porém, antes que eu pudesse ler a resposta dele, o Hara mexeu na cortina e colocou a cabeça para fora, para olhar para mim. Fiquei nervoso novamente ao ver o quão bonito era o rosto dele e engoli em seco, antes de me aproximar.

- Terminou? – perguntei.

Ele assentiu com a cabeça e eu tive que verificar. Eu não sou um tarado, ok? Se eu fosse, eu mesmo teria lavado ele naquele local. Eu só precisava ver se ele tinha mesmo se lavado direitinho, não dava para ficar sujo justamente lá, né?

Dei uma olhada e assenti com a cabeça, aprovando a limpeza. Estava tudo bem limpinho mesmo, para alguém que nunca tinha se banhado. Entreguei uma toalha na mão dele e expliquei como ele esfregaria o próprio corpo.

Quando finalmente terminou de se esfregar, entreguei uma roupa limpa para ele – que era minha – e o ajudei a se vestir. Aquela provavelmente era a primeira vez que ele vestia uma bermuda e uma camiseta, pois ficou bastante confuso com a sensação de tê-las no corpo. Não vou nem comentar da cueca.

Antes de sair com ele lá de dentro, coloquei um band-aid em alguns de seus cortes e concluí com um sorriso. Ele olhou para mim, surpreso como sempre, mas como se fosse uma pessoa completamente diferente diante de mim.

- Ah meu deus! – Daehwi gritou quando o viu sair do banheiro.

Dei uma olhadinha e vi que não apenas o Daehwi já estava lá, como o Jinyoung e uma cadeira daquelas de salão de beleza onde você lava o cabelo. Sim, quem devia gritar “ah meu deus” naquele momento era eu.

- Onde você arrumou isso? – perguntei pasmo.

- Meu bem, quando você me pede pra fazer uma coisa, eu faço o serviço completo, entendeu? – Daehwi bateu o cabelo curto dele e deu uma piscadinha pra mim.

- Ele me fez carregar isso nas costas – Jinyoung resmungou.

- E eu também – Woojin completou, embora ele estivesse lá adiante na sala, meio escondido, com medo do garoto.

- Olha esse rosto... – Daehwi disse de forma histérica e se aproximou devagar do Hara – Como isso é possível? Se apenas um banho pudesse me deixar assim...

- Como um monstro pode ter um rosto tão bonito? – a mãe do Woojin perguntou, confusa.

- Talvez ele seja um demônio – Jinyoung respondeu – Eles costumam ser bonitos.

O garoto olhou para mim, confuso, e eu me senti esquisito de novo.

Espero que ele não seja um demônio...

- Senta aqui, garoto – Daehwi falou e apontou para uma cadeira diante de um espelho.

Eu nem estava surpreso com o fato de que o Daehwi e o Jinyoung não pareciam mais estar com medo dele agora que ele estava limpo, e o Woojin e a mãe dele já haviam se aproximado mais de nós.

Até mesmo os policiais tinham relaxado as armas.

O milagre de um banho.

Daehwi agradeceu o fato de o cabelo do Hara já ter molhado no banho, porque facilitaria para cortar. Ele pegou a tesoura e, assim como o esperado, o garoto olhou para ele assustado.

- Não vai doer – falei, parado ao lado dele – Você confia em mim?

Ele assentiu com a cabeça e eu achei que aquela ia ser tipo a nossa frase.

“Você confia em mim?”

Confesso que ficava meio bobo sempre que ele assentia quando ouvia isso. Era tão bom que ele confiasse em mim assim tão fácil.

Daehwi respirou fundo e então pegou a tesoura e, sem fazer cerimônia, cortou um enorme pedaço do cabelo dele. Quando aquela cabeleira embaraçada caiu no chão, o garoto deu um salto da cadeira e ficou todo agitado, provavelmente estranhando a falta do peso do cabelo que vinha carregando há muito tempo.

- Muito melhor, né? – Daehwi sorriu – Não se preocupe, vou fazer um corte moderno maravilhoso em você, bonitinho.

- Quanto a isso... – interrompi, sem jeito – Você pode, por favor, fazer um corte normal? Ele já chama a atenção por natureza, então quanto mais normal ele parecer...

Daehwi fez bico e bateu o pé, como se eu tivesse tirado um doce da boca dele ou sei lá. Achei que ele ia ficar choramingando um tempão, mas o Woojin disse que ele podia fazer o tal do corte moderno nele, então ele se acalmou.

- Tá bom, vamos fazer um corte normal e tedioso nesse bonitinho – ele falou por fim e começou a cortar.

O garoto olhou para mim, apreensivo, e eu me agachei ao lado dele e peguei em sua mão para dar apoio. Enquanto Daehwi cortava o cabelo dele com a maestria que tinha, ele se olhava no espelho com os olhos arregalados, como se não estivesse reconhecendo quem estava ali diante dele. Igual quando os cachorros se olham no espelho e não sabem o que estão olhando, sabe?

Desculpa, eu vou parar de compará-lo com cachorros, mas ele realmente parecia um as vezes. Muito mais um cachorrinho doméstico do que um animal selvagem, aliás.

Quando Daehwi terminou o corte, ele me pediu para levar o garoto até a outra cadeira, para lavar o cabelo dele. Como ele não estava fazendo nada de errado, Daehwi até mesmo tinha ganhado a confiança de lavar o cabelo dele, como se eles já fossem velhos amigos.

- Vê só? Agora vai ficar muito fácil pra você lavar – ele falou – Posso te ensinar quais cremes usar pra deixar seu cabelo bem macio.

Jinyoung olhou para mim e revirou os olhos, provavelmente acostumado a ouvir o Daehwi falar sobre cremes para o cabelo, e eu apenas ri.

Todo o processo de cortar e lavar o cabelo correu tranquilamente, assim como o banho, e eu não podia estar mais orgulhoso da minha ideia, dele, e de como tudo estava dando certo. O único momento real em que ele se assustou a ponto de querer fugir foi quando o Daehwi ligou o secador de cabelo, mas eu jurei a ele que aquilo não doía e peguei novamente em sua mão para confortá-lo.

- Ta-da – Daehwi desligou o secador e ajeitou o cabelo dele com a mão – Um príncipe.

O garoto se olhou no espelho e arregalou os olhos como sempre, mas eu estava ainda mais surpreso do que ele. Não conseguia acreditar que aquele diante de mim era o mesmo garoto sujo que havíamos encontrado no mato.

Não podia ser.

Ele era bonito como uma estrela de televisão ou algo assim.

- Achamos uma joia que só precisava ser um pouquinho lapidada – Daehwi disse – Esse é um rosto que eu mataria para ter.

- Eu também – Jinyoung respondeu.

- E eu – Woojin completou.

- Até mesmo eu – a mãe dele seguiu a ordem.

Eu dei um sorrisinho orgulhoso e, novamente, me senti esquisito. Não era um esquisito ruim, pelo contrário. Era um esquisito bom.

- Você acha que o povoado vai aceitar ele agora? – Daehwi perguntou.

- Não sei, ainda não sabemos se a lenda é verdadeira ou não – respondi, já que ainda estava pensando sobre isso.

- Mas, você viu o corpo dele no banho, certo? – Jinyoung perguntou – Se ele não tivesse um coração, o peito seria para dentro, não?

Arqueei a sobrancelha, confuso. O peito dele era normal.

- Você percebeu se ele tinha batidas? – Woojin continuou.

Balancei a cabeça negativamente. O peito dele era normal como o de qualquer um, mas batidas... Não lembrava de ter sentido, mas também nem me lembrei de tentar sentir.

Porém, naquele momento, o garoto havia se encolhido na cadeira e estava com as duas mãos no peito, parecendo assustado.

Ele sabe... Ele sabe sobre o que nós estamos falando...

Ele estava se protegendo por não ter um coração?

- Ei criança – a mãe do Woojin quebrou o clima estranho que havia se formado na sala – Está com fome? Eu preparei uma sopa maravilhosa.

Assim que ela disse aquilo, foi como se tivesse falado a palavra mágica do Hara, pois ele subitamente se levantou da cadeira e acompanhou a mulher até a cozinha, como se estivesse hipnotizado. A senhora sorriu satisfeita e então colocou a mesa para que todos nós nos sentássemos para almoçar com ela.

Naquele momento, sentado ali com os outros, o garoto parecia tão normal e tão humano que eu nem sequer podia pensar que ele não era como nós. Porém, não podia ignorar a forma como ele havia protegido o próprio peito e do quão assustador o seu olhar estava naquele momento.

Talvez ele seja, no fim das contas, como a lenda diz.

Um garoto sem coração.

E isso era algo que eu não poderia mudar nele.



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