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História Heaven and Hell - Capítulo 1



Notas do Autor


Sim, voltamos com a fic de 2014 ahahah!
Se ainda tem algm por aqui, boa leitura <3

Capítulo 1 - Born To Die


Fanfic / Fanfiction Heaven and Hell - Capítulo 1 - Born To Die

POV MIA

O último nó foi desfeito e as mais simples e delicadas fitas caíram no chão, respirei fundo soltando um suspiro forçado e necessário antes de puxar a gáspea e me deparar com o que mais temo diariamente.

A agonia vencia a dor do próprio reflexo, um grunhido se formou em meus lábios quando puxei sorrateiramente o reforço de gesso, em seguida entrelacei os dedos entre a costura reforçada e por fim puxei o delicado calçado para fora.

Meus dedos estavam arroxeados, fadigados e doloridos das horas e horas dançando.  Outro grunhido escapou quando os movimentei na tentativa falhar de fazer a sensação de dormência desaparecer.

Estendi a outra perna e repeti o excruciante ritual.

Desci a mão pelo tecido fino e branco da meia calça, passando pelo joelho, contornando a panturrilha e por fim chegar aos pés feridos num último alongamento antes de sair do estúdio.

Notei a lúnula de minhas unhas e fiz uma careta, estava tão machucada quanto as laterais avermelhadas e sensíveis ao toque, o corpo da unha trazia os melhores tons de preto e roxo e os calos estavam presentes em todo lugar, elevações e bolhas por toda a sola. Parei de olhar.

Levantei aos poucos, com as mãos apoiadas no chão, procurando alguma força, tentando achar no interior um pouco de energia, forcei meu corpo contra a barra, elevando a perna numa altura que anos atrás jamais pensei que alcançaria, a dor da coxa ou de qualquer outro músculo sendo puxado já não existia tamanha prática e insistência, sempre tentando alcançar a perfeição exigida pelo Ballet.
 

Permaneci ereta, como me ensinaram, minhas costas doíam, cada parte do meu corpo se submeteu a primeira dor diária, alonguei os braços e os puxei para trás, levantei a ponta dos pés sentindo e ignorando a dor, puxei um “Demi Plié” e logo após um salto se originou em um “Grand Plié”.

Imaginando a música rodei por todo o salão, sem o gesso, apenas com os próprios dedos formando uma ponta imaginária, meus braços saíram de um “Demi Seconde”, partindo da altura da cintura, passando pelo colo até atingir o topo da cabeça em um arco.

Fui arremessada ao chão, uma peça pregada pelo meu próprio corpo, apoiei os joelhos e as mãos na madeira e me ergui com dificuldade.

Aproveitei a vastidão do ambiente e de costas para o espelho puxei o collant com dificuldade, tentando ignorar a pressão que partia dos meus braços, a meia desceu com delicadeza  e por fim respirei após folgar a cinta e a jogar longe. Passei a camiseta pelos braços e o jeans fosco pelas pernas doloridas, depois de um bom tempo consegui passar o pesado e grosso casaco, antes de apagar as luzes e descer pronta para encarar a avenida.

Os carros passavam com tamanha velocidade contornando as ruas , não ligando para os sinais ou até mesmo para as pessoas que a contornavam, em suas mentes a única preocupação é de ocupar logo a cadeira do escritório e marcar presença em mais um dia monótono e sem cor, não que o meu fosse diferente.

Guardei os cabelos com o gorro de lã, evitando o contato dos fios loiros e ressecados com o vento.

Esmurrei o botão esperando que o sinal abrisse e completamente impaciente puxei a salvação em forma de caixa de dentro da bolsa e tomei as pequenas e coloridas pílulas...com cor...sem dor e que me ajudavam a suportar a dor nos músculos para nunca, nunca ser vencida pelo cansaço e parar de treinar.

Corri em direção ao ônibus, levantando mão para que ele parasse, forçando minhas pernas a acompanhar o ritmo do automóvel e quando por fim as portas se abriram em minha direção, encarei o rosto cansado do motorista e dos passageiros que tentavam seguir o rumo de mais um dia. Encarei minhas pernas, mal conseguindo andar de dor e por fim me joguei na cadeira do transporte público.

- Você consegue, Mia, vamos lá. – Pensei nos comprimidos para dor que acabara de engolir e enquanto o ônibus se movia, encarei minhas pernas e o letreiro da academia de balé que acabei de deixar e que se tornava longe a cada passo. Longe, tão longe quanto o meu objetivo de atingir a perfeição exposta naquele letreiro.

 

(...)

Acenei assim que passei pela porta giratória da lanchonete e me dirigi para os fundos, caí ofegante em um dos bancos e comi mais algumas balas, sabendo que logo precisaria tomar um de meus suplementos que garantiriam minha força. Meu estômago gritava, não ousei desistir, passei o avental e completei o uniforme com uma simples rede no cabelo, me dirigi até o balcão,  segurando em suas bordas e...

- BUU!

Virei, pronta para argumentar com as mãos que pressionaram meus ombros para baixo, até encontrar seu rosto – Hey.

- Parece que viu um fantasma.

- Quase - encarei a garota alegre, com os cabelos claros batendo nos ombros e o sorriso que estampava seu rosto diariamente.

- Você parece péssima -  ela passou o avental pelo pescoço e me acompanhou enquanto organizávamos a “vitrine” dos bolos.

- Obrigada, Jane.

- É sério - ela se apoiou no balcão e ajeitou os longos brincos na orelha - Já comeu hoje ou ainda está obcecada em tomar shakes de proteína?

- Já.

- Mia! Treinando de novo?

- Claro.

- Você precisa se alimentar.

- Eu como.

- Você precisa de comida de verdade ,sabe? Carboidrato, proteína e não essa porcaria de atleta. Você nem é atleta, você dança! E para dançar precisa de comida de verdade.

- Me deix...Boa tarde - agradeci por uma mulher aparecer no balcão e encarar o cardápio - O que vai querer?

- Só um café.

- Adoçante?

- Vocês continuam trabalhando com aquele chocolate?

- Sim.

- Coloque.

- Tudo bem, cobertura extra?

- Não.

- Promoção do  “Café Mania” leve um bolinho e cobertura extra.

- Sendo assim - ela sorriu - dois bolinhos.

- Sabor?

A mulher pareceu olhar os bolos, segui o mesmo caminho, fitando os doces repletos de cobertura, engoli em seco lembrando da fome em meu estômago e de como eu não podia comer uma daquelas bombas. 

Abaixei e prendi a respiração, ignorando o cheiro doce que insistia em me atormentar e com cuidado coloquei os doces no prato focando no shake proteico que tomaria na hora do almoço.

Chocolate... Para muitos uma desculpa, para outros um alívio e tem até mesmo aqueles que só apreciam o belo doce para gastar dinheiro, já no meu caso uma tentação. A Juilliard quer bailarinas e não cacau.

(...)

Jane me acompanhava em mais uma volta para casa, as ruas em plena sexta não eram convidativas, principalmente de madrugada. A rua parecia cada vez mais longe, ia apoiando as mãos em cada objeto, tentando manter os passos firmes.

- Trabalha amanhã?

- Final de semana é meu tempo livre, esqueceu?

- Claro que não, os únicos dias que tenho paz.

- Engraçadinha.

- Vai abrir uma danceteria nova na avenida, noite de ouro amanhã, vai rolar?

- Óbvio que não.

- Por que você é tão chata? Você não sai de casa nunca, vive do trabalho e balé e treinando 20 horas por dia. Você pelo menos dorme?

- Eu quero passar, ok?

- Você é ótima, acredite, já treinou muito, não vai conseguir melhorar mais.

- Você me conforta tanto - suspirei em um tom irônico.

- Eu só quero dizer que... Você é jovem, tem que se divertir, conhecer uns caras e parar de rodopiar o dia inteiro.

- Eu me divirto muito treinando.

- Sei...

- Me deixa, ok?

- Foi um convite.

- As audições, esqueceu? Juilliard, dança, preciso passar.

- Você não me deixar esquecer, vive falando.

- É o meu sonho.

- E o meu é ser a Branca De Neve e nem por isso vivo falando dos 7 anões.

- Eu queria mesmo que você fosse, aí poderia te trancar num caixão de vidro - subi as escadas correndo como um meio de aquecer as pernas e encaixei a chave.

- Eu só acho que você precisa viver mais e tirar a cabeça da Juilliard antes de enlouquecer, ok?

- Boa noite - bati a porta e entrei antes que ela começasse o discurso sobre curtir a juventude pela décima quinta vez.

As luzes foram acesas e olhei para o tapete vazio, sem correspondência, sem Juilliard, sem teste, sem confirmação.

Corri para a cozinha e coloquei a água para esquentar, a pia estava lotada como sempre e os armários abertos, é de se surpreender que tudo esteja inteiro, ao contar pelo maravilhoso talento que Angel tem de destruir as coisas.

Olhei para o relógio, que marcava 23:12, Angel já deveria estar em casa, mas há tempos que não me preocupo com ela, pelo que a vida mostra, minha querida irmã sabe se cuidar muito bem.

Corri pelo tapete pegando as jaquetas pesadas e carregadas de cigarros que ela deixava pelo chão e as garrafas de cerveja que consumia enquanto meus olhos estavam fechados, voltei para a cozinha e despejei todo o chá fumegante dentro da xícara.

Joguei a bolsa no chão e enchi a banheira com a mais torturante e quente água, entrei na mesma deixando a queimação e o desconforto invadir cada entrada do meu corpo e relaxar meus músculos para que aguentassem treinar amanhã. Encarei meus pés dormentes e dei um gole no chá, fechei os olhos lembrando de anos atrás, de quando mamãe escovava meus cabelos e prometeu que me levaria até a Juilliard e torceria até o fim e que se eu não passasse (algo impossível para ela) todos os jurados eram babacas.

Para uma adolescente de 15 anos, palavras assim são o paraíso, mas agora aos 21 estou imaginando o rosto severo de cada jurado quando eu por fim pisar o palco sagrado, pronta para um teste, a opinião deles, a destruição que suas palavras irão causar.

Afundei a cabeça na água quente e mais uma vez imaginei o rumo que decidi seguir. Preciso treinar, treinar, treinar. 

 

(..........)

 

POV ANGEL 

O som do motor a roncar ecoava por todas as ruas em que eu passava, em um estrondo pra lá de dramático e chamativo, a verdade, que qualquer um pode ver caso preste atenção, é que motoqueiros gostam da atenção, de serem olhados quando passam com suas motos potentes rasgando o vento em velocidades perigosas por centros de cidades com leis que dizem que 50km é o correto. Não posso dizer que eu escapo desse estereótipo, não se tem uma Harley que grita em contralto se não se quer atenção, não se veste toda de couro e usa uma jaqueta dos Hell’s Angels se não se quer atenção. Não que tudo que eu faça seja com intuito narcisista, há muito além de gostar de ser olhado, no ato de andar de moto, sendo o principal ativo do vício a adrenalina. 

Quando entrei para meu primeiro moto clube eu percebi de cara o que se tratava, correndo nas veias deles (além de heroína, dependendo da pessoa, claro), emanando de seus corpos impacientes para subirem em suas motos, em seus olhos vidrados no brilho do metal, tudo era pela adrenalina, para alimentar a incessante vontade de tê-la envenenando cada centímetro de seu corpo. Na época até pesquisei um pouco sobre hormônios e como agem, passei algum tempo na biblioteca ao lado do estúdio de balé de Mia, tentando passar o tempo enquanto a espero terminar suas aulas e destruir seus pés. Ao longo dos anos eu aprendi várias técnicas para passar o tempo, principalmente durante a semana quando os Hell’s Angels não são muito movimentados, é normalmente quando trabalham e fazem coisas que as pessoas não sabem, que acham banais demais para motoqueiros em forma de gangue. 

Existe esse período de tempo de uma hora, entre o horário que eu saio do trabalho e o horário que a aula de Mia acaba, é um período tão curto que não se dá para fazer muitas coisas, tendo que aceitar as fontes de entretenimento providenciadas pelo centro de São Francisco, não na parte mais legal, não, é na parte mais lateral, quase saindo do centro, onde se tem a mesma cafeteria e os mesmo restaurantes e a mesma biblioteca. Não dá tempo de sair,de fazer qualquer coisa mais interessante que ler um livro sobre química. Mas é o que eu faço, o que está ao meu alcance.

Nessa jornada de livros diversos da biblioteca municipal, acabei descobrindo que:

A adrenalina é um hormônio liberado pelas glândulas que ficam sobre os rins (glândulas suprarrenais). A presença no organismo se dá através de um sinal liberado em resposta ao grande estresse físico ou mental, situações de forte emoção como, por exemplo: descida em montanha russa, salto de paraquedas, esportes radicais em geral e bem, andar numa moto potente a mais de cem por hora em lugares que você sabe que é proibido ou fazer rachas, fazer rachas em rodovias também é algo que faz a adrenalina dominar você a ponto de tudo ficar dormente e o instinto animal dentro de você engolir qualquer coisa que venha do racional.

Era simplesmente libertador ser dona de minha própria moto e poder fugir de tudo e todos ao subir nela.

O vento batia forte em meu rosto, algo que provavelmente deixaria Mia e louca, visto que ela insiste para que eu use capacete, o que sim, é a maneira correta, mas também tira toda a sensação libertadora de ter o vento bagunçando seus cabelos, se chocando contra sua face, tirando tudo de ruim com um sopro. E bem, ela não está vendo,certo? O que há de mal em fazer uma coisinha escondido.

Sentindo minhas costas implorando por uma pausa, finalmente cedi, as dando com carinho uma pausa merecida após uma longa fugida, tendo que aturar a curvatura necessária para andar de moto, principalmente em alta velocidade.

Desci da moto, alongando meu corpo do jeito que aprendi com Mia fazendo seus alongamentos diários e senti minhas costas estalarem. Tentei em vão acalmar meus cabelos castanhos escuros, quase negros como um corvo, despenteados e embaraçados pela viagem, mas não havia nada além de um pente e muito creme que resolvesse a situação, como não tinha nenhum dos dois em mãos, aceitei a situação catastrófica que meu cabelo se encontrava. Dei um beijo em minha mão e a levei até a Harley, finalmente adentrando a lanchonete.

Não me era estranho os olhares, para as famílias conservadoras eu era assustadora, com minha jaqueta dos Hells Angels e a roupa totalmente de couro, o batom vermelho fazia as velhinhas frequentadoras da igreja local segurarem suas pérolas ao soltar um suspiro alto de desaprovação, para os jovens e adolescentes eu era como fitar a maçã do jardim de éden. Eu não atingia todos os demográficos de agrado, mas isso era a última coisa que eu me importava.

Me sentei em um dos bancos altos da bancada, tendo um pouco de dificuldade para encostar meus pés no chão, optando por desistir e balançá-los com uma criança.

-Um milk-shake de baunilha com cobertura de chocolate para viagem por favor – falei para a atendente, uma mulher de meia idade, talvez um pouco mais, que se virou e logo se foi.

Mamãe sempre insistia para que eu diminuísse o açúcar, o que só me fazia querer mais e mais, era um alívio para todas as minhas mudanças de humor, um alívio instantâneo, tão rápido que eu mal me recordava o motivo do meu mau humor logo em seguida. Quando se toma doses diárias de serotonina quando ainda se é criança você quer qualquer coisa que te dê mais. Lembro que li algo do tipo em livros de alimentação na biblioteca, minha fonte de conhecimentos, era algo como “Quando uma pessoa consome açúcar, assim como qualquer alimento, ele ativa os receptores gustativos da língua. Logo, os sinais são enviados para o cérebro, ativando as vias da recompensa e causando a liberação de uma onda de hormônios de bem-estar, como a dopamina.”

Porra como eu amo dopamina.

Dopamina em forma de milk-shake então? Sem efeitos colaterais? Tirando a diabetes claro. Era perfeito.

Pouco tempo depois o milk-shake me foi entregue e podia sentir minha boca salivar por um gole. Pulei do balcão, impulsiva, como sempre, dando um beijo na bochecha da mulher, deixando minha famosa marca de batom vermelha, antes de pegar minha bebida e ir embora.

Dei mais algumas voltas pela cidade antes de perceber o horário e me assustar, já era tarde e não havia visto Mia o dia inteiro. Acelerei o máximo, cortando o vento a caminho de casa.

O barulho das motos era alto e provavelmente enlouquecia qualquer um ao seu redor, menos a mim, aquilo era musica para meus ouvidos, poderia adormecer em um sono eterno com aquele som, mas tenho certeza que incomodei uma boa parcela de pessoas com a barulheira.

Acabei notando que havia me esquecido do encontro dos Hells no bar do Louis, acabando com a minha ideia de ir para casa e dormir pesado.

Paramos em um bar, como usual. Minha jaqueta de couro aquecia meu gélido corpo em uma noite tão fria e melancólica, não estava afim de sair ou beber hoje, só queria ir para casa, tocar minha guitarra, comer doce e dormir para sempre, mas as “obrigações” de uma Hells Angels nunca acaba.

 

O cheiro de cigarro fazia meu nariz coçar e minha boca ansiar por só uma tragada, mas repeli tal pensamento, não queria magoar minha irmã mais do que o necessário, tentaria fumar de dia, não de noite. Talvez um dia parar. Mas como sempre, a vontade, o desejo, seja carnal ou espiritual vence qualquer força de vontade que tento exercer. Então com passos largos e delicados, com o barulho constante e firme de meu salto batendo na calçada, me aproximei com desdém (nada além do usual) e peguei o cigarro do moreno a minha frente.

-Não ia parar? – ele disse pegando o cigarro de volta e suspirei sonhando com o gosto da nicotina em meus lábios, a única coisa melhor e mais rápida que milk-shake ou rivotril.

-E vou

-Assim como ia parar ontem? Ou semana passada, ou mês passado... – o moreno posicionou o cigarro Marlboro entre meus lábios carnudos e dei um sorriso sínico de canto enquanto ele pegava o isqueiro.

-Pararei quando a ânsia de vomitar com seu cheiro vença o perfume que quero tanto em meu corpo e o gosto em meus lábios – o fogo queimou a ponta e dei uma tragada.

-Não cansa nunca de “poetizar” o que não deveria ser “poetizado”, Angel? – ele riu e dei de ombros.

-Isso é subjetivo– ignorei-o novamente, não sei como ele ainda fala comigo – Não seja tão ingênuo Paul

 

-Não sou, disso você sabe – e claro, um sorriso sacana.

Revirei os olhos e estiquei a língua para fora, apontando para a mesma e fazendo cara de nojo, tirando o cigarro de minha boca por um breve segundo só para fazer tal ação. Me virei de forma um tanto brusca e repentina, andando em direção ao alto e forte homem que conversava com seus outros companheiros.

- Paizão– falei em um sorriso charmoso, brincalhão, para o líder, era um bom amigo – algo programado para hoje?

-Angel minha anja – ri de seu comum comentário sem graça, na qual eu havia me apegado – acho que não

-Vou para casa então – eu podia sentir o olhar dos outros membros me julgando ou devorando como sempre, o que era muito, muito irritante. Não é fácil ser uma das únicas mulheres em um moto clube cheio de homens.

-Ver sua irmã?

-Claro

-Mande lembranças

-Mandarei – sorri de leve e ajeitei minha jaqueta, sabendo que nunca o faria, por que Mia me mataria por sequer citar os Angels. Admito, eu gostava de passar a mão e sentir o bordado “Hells Angels” atrás, me sentia importante, parte de algo maior, e não só mais um tijolo no muro, como dizia o Pink Floyd. Sentia que fazia a diferença ou ao menos sentiria por alguns minutos que estava em uma posição de poder, como se eu fosse um homem branco, sem medo de nada, sem consequências, mas a maioria deles ainda insistia em me lembrar que tinha uma vagina entre as pernas e para eles, não passaria disso. Não é fácil ser a única garota naquele grupo de predominante machos, que insistiam em tentar ser o alfa. Homens e a porra da testosterona e masculinidade frágil, insuportável, certo?

A vida continuava um tanto chata, mesmo eu amando o calor da besta em meu corpo, percorrendo as ruas em alta velocidade. Irresponsável, inquieta, insaciável.

Me faltava propósito na vida, Mia sempre me dizia isso, mas é díficil achar propósito, ela não entende o que é ter que procurar, pois sabe e sempre soube o que queria ser e o que teria que fazer para alcançar seu sonho. Eu sempre fui a ovelha negra. Perdida.

Eu sentia que o sol logo iria amanhecer, o relógio me dizia a mesma coisa. Logo estava em casa, louca pela minha cama.

 Abri a porta de nossa casa lentamente, tentando não acordar Mia, minha irmã, que estaria provavelmente apagada no sofá. E estava certa, dormindo com uma delicadeza impecável que só os anos de bailaria lhe deram e o fato de ter sido fabricada como um anjo e eu, o demônio. Quem dera eu tivesse tanta graciosidade preenchendo meu corpo, tanto talento para estudar e aprimorar, mas aqui estou eu, vagando sem rumo.

Deixei que a jaqueta escorregasse de meus braços até tocar o chão, tirei a calça justa que deixou a lateral de meu corpo avermelhada, ficando só com a blusa e uma calcinha preta, mal olhei para a casa levemente arrumada por Mia. Vi que estava encolhida, então lhe cobri com um cobertor e depositei-lhe um beijo no centro da testa, delicado e sincero, eu só queria seu bem, as vezes penso se seria melhor se eu simplesmente desaparece um dia, mas esses pensamentos são arrancados de minha cabeça cada vez que sinto um olhar carinhoso ou recebo um abraço sincero da garota. Merda, por que eu tinha que ser a única a sobrar da família? Por que tinha que ser a mais fraca? Sempre cedendo por pura carência que insisto em esconder, por que...por que... por que...

Queria comer algo, mas comida que é bom nunca tem aqui em casa, Mia não come comida de verdade só aquelas porras de shake com gosto de mato e minha gasolina é Jack Daniel’s então, pra que comida?

Abasteci-me com o forte Jack e logo adormeci ao lado de Mia, pensando onde iria vagar no dia seguinte.

 



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