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História Heavenly - Capítulo 8


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Notas do Autor


Aviso de gatilho: citação de assédio, violência e sangue.

Capítulo 8 - Track 7


  O alongamento que Yeonjun e Beomgyu começaram a fazer antes de trabalhar parecia ter dado diferença. Seus músculos ficaram menos pesados na segunda. 

  Ele e Vivi tinham ido desde depois do almoço para a faculdade. Uma pessoa tinha algo mais pesado pra falar sobre o tal professor abusivo pediu para que eles a escutassem em particular e tivessem tempo pra isso. 

  HyeSoo havia sido assediada física e moralmente pelo professor Bae. Ela não tinha coragem pra falar sobre com ninguém e não havia conseguido uma vaga para o atendimento psicológico gratuito que os estudantes de Psicologia ofereciam. Ela manteve todas as mensagens e e-mails salvos e agora estava confiando que Yeonjun e Vivi pudessem ajudá-la sem que a prejudicasse. 

  Puto era pouco para o que Yeonjun sentia. Ele ainda não sabe a cara do professor Bae, mas sentia que era até bom porque aí não perderia o controle. 

  Yeonjun e Vivi estavam no banco perto das árvores onde os gatos sempre ficavam. Raramente estava cheio na lateral daquele bloco e os gatos podiam correr de um lado pro outro sem se preocupar com humanos. 

  Yeonjun estava em pé, se movendo de um lado pro outro, olhando as coisas rabiscadas na parede e muro sem realmente ler. 

  - Tem certeza que não quer um pedaço? - Vivi perguntou. Ela sempre come uma boa varidade de doces quando fica nervosa ou estressada.

  - Não. Obrigado - Yeonjun recusou. 

  - Tem alguma coisa que possa te deixar menos puto? 

  - Eu não quero ficar menos puto. Eu quero ficar mais e mais puto, transformar isso em motivação pra conseguir ser convincente o suficiente e esse professor ser demitido, não só avisado ou afastado.

   - Já tem um plano? - Vivi perguntou. 

  - Tô pensando em só mostrarmos algumas mensagens, principalmente as de inicio de conversa porque duvido que ele só tenha feito aquilo com ela. Deixamos claro que tem coisa bem pior depois disso e o reitor sabe que eu nunca minto ou exagero - disse, movendo as mãos com ênfase. - Nisso, vamos deixar claro que não iremos expor quem nos mostrou isso, mas que temos outras pessoas que podem falar sobre o abuso de poder do professor Bae. Mesmo sem colocar as vítimas em uma posição de exposição, ainda dá pra demitir por justa causa. Mas a gente pode falar disso melhor mais tarde. 

  - Você já leu o contrato deles? - Vivi indagou.

  - Eu leio o contrato trabalhista de todo servidor público, é fácil de achar. 

  - E leu as leis também? 

  - É claro. 

  - Qualquer dúvida vou falar com você - disse, enrolando a embalagem colorida vazia e colocando na lata de refrigerante que segurava. - Ainda vamos na quarta? 

  - Acho que quarta vamos ter organizado tudo direitinho - Vivi acenou. 

  - Temos mais algumas pessoas pra conversar hoje e amanhã. Espero que a gente consiga foder com esse cara. Ele merece. 





 





 

  Eles passaram mais 2 horas escutando relatos semelhantes e fazendo perguntas. Era cansativo, cada vez que escutava mais sobre, Yeonjun só queria expulsar o cara pessoalmente. 

  Quando estava sentado na escada do bloco A no pátio comendo um sanduíche que comprou para e si e Vivi, eles cumprimentaram Jinsoul e Jungeun que passaram por perto. 

  Ele e a amiga estavam em um silêncio confortável depois de falarem tanto. 

  Yeonjun colocou sua cabeça no ombro dela após terminar de comer, tentando respirar e relaxar um pouco fechando os olhos. Ele não havia descansado o suficiente do final de semana pesado no bar, mas era por um bom motivo. 

  Se seus colegas não estivessem falando sobre como têm ficado mais exaustivo trabalhar lá, ele acharia que seu corpo e mente estavam ficando cansados pelo ritmo acelerado da sua rotina. Ele só esperava que a nova equipe que todas as equipes que estão sendo treinadas começassem a trabalhar nos finais de semana logo. Nesse último, só uma delas estava lá e mesmo assim não era o suficiente. 

  - Aquele arrastando o cara pelo cabelo é o Soobin? - Vivi perguntou, fazendo Yeonjun abrir os olhos e procurar. 

  O cara estava sendo arrastado pra fora da faculdade por um outro com a mesma altura e roupas de flores de Soobin, só que com o cabelo azul claro. 

  Soobin não havia pintado o cabelo… ou havia? 

  Yeonjun só levantou e tentou ser mais rápido do que a multidão que começava a seguir. Jinsoul e Jungeun estavam seguindo próximas de Soobin. 

  Yeonjun foi rápido o suficiente pra chegar perto e ver que de fato, era Soobin. 

  Soobin levantou a cabeça do outro cara, dando um soco que fez um barulho alto e causou a queda do que fora arrastado. 

  O mais alto se abaixou ficando mais próximo do outro no chão. 

  - Eu acho bom que você pare com as suas merdas. Dessa vez podemos ser piores do que antes então não faça com que eu e as minhas amigas sejamos obrigados a quebrar as suas pernas - Soobin disse tranquilamente. 

  Os olhos de Yeonjun se arregalaram. Soobin sempre parecia calmo, que não era esse tipo de bad boy. Mas ver a tranquilidade que ele pronunciou isso e ainda deu um chute no rosto do outro após levantar, fez as suas conclusões  ficarem um pouco confusas. Claro que ainda acha que tinha um bom motivo para isso, ainda mais que Jinsoul e Jungeun pareciam abertamente apoiando Soobin. Ele só não esperava que o mais alto brigasse fisicamente com alguém. 

  Yeonjun olhou o desconhecido tossindo sangue e só conseguia pensar que merda ele havia feito. 

  As pessoas em volta falavam baixo e Yeonjun só entendeu algumas palavras. Todas eram coisas ruins. 

  Caminhando em direção as amigas, os olhos de Soobin pararam diretamente em Yeonjun. Ele pareceu hesitar um pouco antes de lhe oferecer um sorriso fofo que marcava as suas covinhas antes de desaparecer no meio das pessoas. 

  Yeonjun estava confuso com os motivos de Soobin e completamente encantado com como ele ficou tão bem com esse cabelo. 

  - Ele sabe como socar alguém - escutou a voz impressionada de Vivi. 

  O outro ainda estava no chão e 2 pessoas foram ajudar. 

  - Eu preciso perguntar por que ele fez isso - Yeonjun disse, pegando o celular pra mandar mensagem. 

  - Você acha que foi por um motivo idiota? 

  - Acho que não, mas preciso confirmar. 

  Yeonjun: ei

  Yeonjun: onde você ta? 

  Soobin: tô chegando no segundo andar no bloco H 

  Yeonjun: posso ir aí falar com você? 

  Soobin: pode

  Soobin: as meninas também tão aqui

  Yeonjun: ok, to indo 

  - Vamos? - Perguntou pra Vivi. 

  - Acho bom não me deixar de vela - disse enquanto começavam a andar. - Qualquer coisa arranjo outra coisa pra fazer. 

  - É impossível que você fique de vela - ele disse. 

  - Não exatamente. Vocês parecem flertar só pela forma que ficam se olhando. 

  - Você quer dizer a forma que eu fico olhando pra ele, né? 

  - Amigo, ele também olha pra você da mesma forma - Vivi disse, num tom meio entediado por precisar dizer uma obviedade tão grande. 

  - Ele não quer mais nada comigo além de amizade - Yeonjun rebateu. 

  - Ficar repetindo não vai fazer virar verdade. 

  Yeonjun suspirou, um pouco cansado das suas paranóias e medos. Seria possível mesmo que Soobin ainda o quisesse? Ele tem gostado muito da sua amizade com o outro e voltarem a ficar poderia estragar tudo, não poderia? 

  Às vezes ele se odeia por ter tido tantas péssimas experiências amorosas que seguiam um padrão. Provavelmente era culpa sua por sempre repeti-lo. 

  O bloco H é mais afastado e menor, normalmente só tem aulas de noite, mas sempre estava aberto mesmo que todas as salas fiquem trancadas. Não foi uma grande surpresa quando viram apenas 2 pessoas ficando no canto do primeiro andar. Sempre usam blocos vazios pra isso. 

  No segundo andar, Jinsoul estava segurando as costas da mão de Soobin na sua latinha de Coca enquanto a tomava no canudo de metal e eles escutavam Jungeun dizendo algo. 

  - Acho foda como a gente encontra pessoas daqui em todos os lugares - Jinsoul disse, respondendo alguma coisa que Yeonjun e Vivi não puderam escutar. 

  Soobin foi o primeiro a prestar atenção e Yeonjun se sentiu meio hipnotizado olhando para ele com esse cabelo novo de perto. De longe já estava incrivel, mas assim era ainda melhor. 

  Soobin ofereceu um pequeno sorriso e suas amigas finalmente olharam na direção dos que chegaram. 

  - Oi Yeonjun. Vivi, a gente super queria conversar mais com você - Jungeun disse, já levantando e pegando a sua mochila. 

  - Oi, oi - Jinsoul disse. - Vivi, vamos com a gente na cozinha? 

  - Claro - Vivi aceitou, animada. - Me manda mensagem quando for pra aula - disse pra Yeonjun, que acenou. 

  - Oi, oi. Tchau, tchau, tchau - Jungeun disse acenando e se afastando um pouco para que elas descessem. 

  Ele voltou a atenção pra Soobin que ainda estava parado no mesmo lugar com toda a sua atenção nele. 

  - Esse cabelo ficou muito foda - elogiou, indo pro lado de Soobin. 

  - Obrigado. Você veio aqui pra querer saber alguma coisa sobre o que eu fiz? - Soobin foi direto. 

  Yeonjun olhou os dedos dele. Não estavam machucados, só vermelhos. 

  - Queria entender. O que você disse pareceu que os seus amigos estariam te apoiando e ajudariam a quebrar as pernas do cara. Ele deve ter feito alguma merda bem grande - disse, deixando para analisar o rosto do outro apenas depois de terminar. 

  - Ele é um ex da Jungeun da época da escola que não quer deixar ela em paz. A gente não se dá bem porque além de ele ser um babaca, eu não sou a pessoa mais pacífica do mundo quando fazem algum mal a alguém que amo. 

  - Ah! Entendi. Faz sentido - em seguida, deu risada do seu próprio pensamento antes de dizer: - Pra quem olha de fora você é completamente o estereótipo de bad boy. 

  Soobin também deu risada. 

  - Sempre tive esse estereótipo mesmo não me identificando com ele. De qualquer forma, é só mais um estereótipo que colocam em mim. 

  Ele evitou olhar para Soobin de novo. 

  A janela pequena do andar estava aberta, então fazia um pouco de frio lá dentro também. Yeonjun colocou as mãos no bolso do casaco escuro. 

  - Você conseguiu dormir bem no sábado? - Yeonjun perguntou. 

  - Eu nunca durmo bem. E você? 

  - Por que não? 

  - Não consigo descansar. 

  Algo naquela resposta curta fez Yeonjun acreditar que tinha bem mais por trás desse problema. 

  - Você parece cansado - Soobin comentou. 

  Yeonjun jogou a cabeça um pouco para trás, encostando na parede. 

  - Aquele professor que tava exigindo muito do Taehyun é pior do que eu esperava. Tô desde depois do almoço escutando as pessoas contando as merdas que ele já fez. Pelo menos tenho coisa o suficiente pra foder com ele. 

  - E quando vai fazer isso? 

  - Provavelmente na quarta. 

  - Quer companhia? - Soobin ofereceu. 

  - Acho que você vai tá na aula. A Vivi vai comigo. 

  - Se você quiser posso matar aula - Yeonjun virou o rosto para Soobin, com um sorriso pequeno. 

  - Não precisa. Obrigado por oferecer. Espero poder te ajudar quando precisar também. 

  Soobin acenou. Vinte e um.

  - Você acredita que tem como começar tudo de novo? - Soobin perguntou depois de alguns segundos sem assunto. 

  - Começar o que de novo? 

  - Tudo ou algumas coisas. Conseguir apagar coisas do passado. 

  - Eu acho impossível apagar o passado, mas ele pode deixar de ser importante. 

  - Como? 

  - A gente é no presente o que o passado nos moldou e o que queremos ser no futuro. O passado de agora vai mudar quando o presente também passar. Então o passado de agora pode deixar de ser tão importante. A gente não pode mudar o passado, mas podemos construir algo novo que não queiramos apagar - Yeonjun explicou. 

  - Mas e se não souber como começar a fazer um passado novo? Fazer o que afeta agora parar de fazer mal? - Soobin perguntou depois de um tempo em silêncio, associando o que Yeonjun acabou de dizer. 

  - Ninguém sabe de nada na maioria das vezes. A gente só tenta fazer as coisas como sabe. As coisas não precisam ser essa pressão toda o tempo inteiro. 

  - Mesmo quando existe o medo de sentir coisas ruins? 

  - Como assim? - Yeonjun inclinou a cabeça para o lado. 

  - Às vezes fazer as coisas do jeito que sabemos pode doer e trazer coisas ruins. Ou como sabemos que devemos encarar algumas coisas. 

  - Como o que, por exemplo? 

  - Monstros. 

  Naquele momento, Yeonjun soube que aquela conversa é sobre Soobin tentando entender algo e a letra de Can’t We Just Let The Monster Alive? é um exemplo dessa angústia. 

  - Ter um machucado muito profundo a ponto de precisar limpar, dar ponto e isso doer não significa que você deveria deixar infeccionar. A dor vai ser pior e vai ser constante. Ignorar uma coisa que tá ali ainda faz doer de alguma forma, então faz algum sentido não tratar da ferida por causa da dor se impedir de tratar também faz doer? 

  Mais alguns longos segundos de silêncio e dessa vez Yeonjun olhou para Soobin, que tinha o olhar perdido no chão, como se não estivesse ali de verdade. Yeonjun sentia a angústia crescendo rapidamente. Alguma coisa estava acontecendo com Soobin e ele queria saber se podia ajudar, mas como fazer isso sem se intrometer demais? Ele tem amigos mais antigos e pode ter ajuda de quem o conhece melhor. 

  Mesmo assim ele queria poder fazer algo. 

  - Eu acho que não - Soobin disse baixinho, quase um sussurro. 

  - Ainda bem que existem tratamentos quando essas feridas são nos nossos sentimentos - disse, esperando que isso desse uma ideia para o outro. - Aí dá pra aprender a limpar elas e ir se recuperando aos poucos. O único problema é que esse tratamento não é acessível pra todo mundo. 

  Soobin acenou, antes de fechar os olhos por pouco tempo e abrí-los novamente, focando em Yeonjun. 

  Ele fez isso de uma forma tão intensa que Yeonjun sentia que era impossível esconder qualquer sentimento ou pensamento dele e o mais importante: Soobin estava olhando-o como se quisesse o enxergar de verdade. 

  Ver ele, como sendo ele e não outra pessoa. 

  Ele gosta da sensação de ser notado por quem realmente é. 

  Mas Yeonjun também sentia que havia algo em Soobin que deveria estar enxergando agora, só que a única coisa clara para ele era que o outro estava sofrendo de uma forma quase impossível de colocar em palavras. Talvez ele estivesse sofrendo há muito tempo. 

  Yeonjun queria levantar sua mão, passar as costas dos seus dedos no rosto de Soobin, tentar sentir em si tudo o que o outro sentia e permitir que fosse sentido também pra ser compreendido. 

  Yeonjun tem seus amigos que o compreendem, é óbvio, mas ele ainda queria uma conexão intensa com Soobin. Ele mesmo não sabia exatamente como isso funcionaria ou que significa, apenas queria. 

  - Você já conseguiu criar um novo passado e esquecer algo que não queira lembrar? - Soobin perguntou naquele mesmo tom baixo. 

  - Eu acho que não. 

  - Por que? 

  - Ainda não consigo me abrir como deveria. Ainda não consigo me acostumar quando alguém novo na minha vida me vê - Yeonjun esperava que conseguisse passar tudo o que queria dizer com o seu olhar porque realmente não queria verbalizar. 

  - O que te impede? 

  - Um pouco sou eu e um pouco é tudo em volta. O que te impede de criar um passado novo? - Devolveu a pergunta. 

  Soobin deu uma risada triste, balançando a cabeça. 

  - Eu mesmo. Sou sempre eu mesmo - e desviou o olhar, olhando para a janela. 

  Do ângulo que Yeonjun estava, dava para ver um dos blocos e o céu menos acinzentado do que tem estado nos últimos dias. Hoje não parecia que choveria, mas ainda estava um tanto frio. 

  - Então isso significa que seu único inimigo é você? - Yeonjun perguntou. 

  - Talvez sempre tenha sido. 

  - E o que você quer fazer? 

  - Eu não sei. 

  - Isso já é um começo - Yeonjun foi otimista. 

  Soobin suspirou, passando a mão no seu cabelo. 

  - A gente pode falar de outra coisa? - perguntou. 

  - O que você quiser. 

  - Ok… como foi o trabalho esse final de semana? - Soobin mudou de assunto. 

  - Entraram algumas pessoas novas que estavam treinando durante a semana. Eles ainda precisam praticar um pouco, mas já consigo ver que vão se sair bem e eu vou poder ficar mais calmo na hora de trabalhar. Ou talvez tentar - Yeonjun contou. 

  - Por que precisaria tentar? 

  - Porque eu não paro quieto no trabalho e fico achando que posso simplesmente dar conta de metade das mesas. Haseul já me disse pra tentar me acalmar e que eu poderia atender menos pessoas de uma vez, mas acho que a minha cabeça só entra no modo mais acelerado possível. Beomgyu consegue desacelerar mais do que eu, pelo menos. 

  - Você parece ter muita energia - Soobin comentou. 

  - Na maioria das vezes sim. 

  - Eu sempre me sinto cansado. 

  - Você nunca consegue descansar mesmo? 

  - Nunca. 

  - Nunca, nunca? - Yeonjun não conseguia imaginar esse cenário. Em algum momento ele poderia descansar, não poderia? 

  - Nunca, nunca. Me sinto melhor depois de passar o domingo com a banda e criando música, mas não descanso. 

  - Você já tentou achar como conseguiria resolver esse problema? - Soobin balançou a cabeça, negando. 

  - Acho que talvez me digam que eu deveria tomar remédios pra dormir. Não quero precisar fazer isso. 

  - Talvez exista outra forma de fazer isso sem ser com remédios. 

  - Depende do caso. 

  - Se auto-diagnosticar não é uma boa opção - Yeonjun repetiu o que sempre ouviu. - Acho que é uma péssima escolha mesmo que você faça Psicologia. 

  - É bem irresponsável se auto-diagnosticar mesmo, mas não sei exatamente o que fazer. 

  - Eu posso te ajudar, se quiser - Yeonjun ofereceu. 

  Soobin lhe deu um sorriso. 

  - Não precisa. Tenho que conversar com uma pessoa antes, mas obrigado por oferecer. 

  - Sempre que precisar. Já comeu? - Mudou de assunto. 

  - Tava acabando de comer quando a gente foi interrompido pelo babaca do caralho. 

  - É um bom título. “O Babaca do Caralho” - Yeonjun disse, dando risada e sendo seguido por Soobin. 

  - Esse título combina bem com ele. Acho que vou no Poppin’ Star neste sábado de novo. 

  - Tem outro trabalho pra fazer lá? 

  - Não exatamente. A banda tem que ir conversar com o sr. Bang pra ver os últimos detalhes do show. 

   - Foda que talvez eu nem possa parar pra assistir vocês - Yeonjun lamentou.

  - É só a gente pedir pro sr. Bang te dar uma pausa. O Taehyum pediu pro Beomgyu poder também e seu chefe ficou de boa. 

  Yeonjun o olhou com esperança. 

  - Mesmo? Isso seria ótimo. Obrigado - Soobin o olhava sorrindo com um tanto de afeto.

  - Não precisa agradecer. Eu que deveria por você gostar tanto da nossa arte. 

  - Como se fosse algo muito difícil de gostar - deu risada. 

  Soobin o estava olhando daquele jeito de novo, como se lesse a sua alma e quisesse admirar cada detalhe seu. A visão de Yeonjun caiu sob os lábios dele. Ele voltou a imaginar como seria beijá-lo com esse piercing  como vem pensando desde a outra terça. Ele começou a refletir que talvez sentir tanta atração assim não fosse normal e isso só atrapalha tudo. Ele não podia sentir isso. 

  O inferno era que Soobin é, de fato, a pessoa mas atraente que conheceu. Tudo nele era o atraía demais. Como ele cantava, como se expressava quando se sentia à vontade, como gosta de escutar Yeonjun, como sempre parece estar prestando atenção em tudo silenciosamente e acenando.

  Yeonjun só queria se inclinar para frente porque afastar parecia impossível e ele tinha essa sensação de estar amarrado a Soobin, mas ao invés de se sentir preso, havia algo de satisfatório nisso. 

  Soobin fechou os olhos, abaixando a cabeça, a sacudindo de um lado pro outro. 

  - Eu preciso fazer uma coisa agora. - disse, sem voltar a olhar para Yeonjun. 

  - A gente se fala depois? - Perguntou, torcendo para que a sua voz estivesse soando normal como esperava. 

  Soobin acenou - vinte e dois -, levantando do chão e pegando a sua mochila. 

  Ele ofereceu um sorriso bonito com covinhas antes de acenar com a mão e se virar, descendo as escadas olhando para trás antes de desaparecer. 

  Yeonjun tentou se concentrar na sua respiração. Ele se sentia completamente idiota agora. Sua ideia inicial de amizade havia sido péssima e ele deveria ter arriscado. Aí não precisaria controlar tanta coisa. Às vezes ele só sentia que estava sendo a pessoa mais dramática. 

  Soltando um barulho de descontentamento no andar vazio, ele mandou mensagem pra Vivi perguntando onde ela estava e já começou a fazer uma lista mental de coisas para distraí-lo. 



 





 

  - Então você quase beijou Soobin? - Beomgyu perguntou enquanto eles estavam na mesa da cozinha comendo macarrão com molho industrializado e requeijão. 

  - Seria tão ruim assim? - SooYoung perguntou. 

  - Eu acho que sim. Não quero ser o cara que propôs alguma coisa só pra depois querer mudar como se a minha opinião fosse a única que importasse. 

  - Você não estaria fazendo isso assim, Soobin teria que aceitar - SooYoung apontou. - Não é como se você tivesse o obrigando a algo. 

  - Eu ainda seria o cara qe fica querendo mudar as coisas de forma egoísta. 

  - Esquece. Ele quer ser condenado - Beomgyu disse para SooYoung e virou para Yeonjun. - Realmente, você seria uma péssima pessoa - disse em tom de irônico. 

  - A questão é: todos nós somos egoístas até quando achamos que estamos sendo altruístas porque fazemos coisas para nos sentirmos bem e úteis - SooYoung começou a dizer. - O problema é que você não tá dando nenhuma escolha pra ele nesse cenário. Esse tá sendo o seu erro e isso não te transforma no cara mau. 

  A quietude caiu na mesa enquanto Beomgyu e Yeonjun pareciam pensar na fala de SooYoung. 

  - Eu acho que faz sentido - Beomgyu disse. 

  - Realmente faz, mas isso só piora a minha situação de tentar não fazer nada e pensar que tô fazendo o melhor - Yeonjun reclamou. 

  - A resposta tá bem na sua cara e eu me recuso a te ajudar a ignorar - SooYoung disse, por fim. 

  Ele sabia que se precisava de alguém para mentir pra ele, seus amigos não eram bem as pessoas mais recomendáveis pra isso. 

  - Qual é aquele chá que você toma pra dormir melhor quando tá sem conseguir descansar direito? - Yeonjun perguntou pra SooYoung. 

  - Eu faço uma mistura de hortelã, erva doce, camomila e erva-doce-nacional. Tento colocar a mesma quantidade deles, mas vende tudo num saquinho. Só é mais econômico comprar o quilo. 

  - Eu tomo quando fico meio estressado. Não sei se é porque é quentinho e relaxa, mas é gostosinho - Beomgyu comentou. - Tá tendo problema pra descansar? 

  - Não é pra mim. É pro Soobin. Ele disse que nunca descansa. 

  - Diz pra ele colocar a medida de 2 saquinhos em uma caneca de chá. Vai apagar ele por 9 horas - SooYoung instruiu. 

  - Você sugere que ele fique dopado de chá? - Yeonjun perguntou com humor. 

  - Não vai ficar dopado, só vai relaxar a cabeça. 

  - Preciso testar tomar antes das apresentações - Beomgyu comentou. - Ou depois. Pode melhorar meus espasmos. 

  Por causa do seu transtorno de ansiedade, Beomgyu sempre sente espasmos musculares quando passa por alguma situação que desencadeia as suas crises de ansiedade ou o deixa em um nível de estresse alto. Com a terapia, ele tem melhorado e as crises repentinas se tornaram praticamente extintas. Ele ainda estava observando se esse era um dos periodos em que ficava sem tê-las. Antes de começar o tratamento, ele sequer conseguia identificar por ter convivido a sua vida toda com isso, então sempre pareceu comum para si. 

  - Cuidado pra não tomar muito e ficar com sono - SooYoung avisou. 

  - A sua terapeuta falou alguma coisa sobre remédios controlados? - Yeonjun quis saber. 

  - Ela disse que eu poderia ser encaminhado pra um psiquiatra se eu quisesse fazer tratamento assim. Eu ainda prefiro usar, no máximo esses chás. A terapeuta disse que não tem problema. Eu sei que pode me ajudar mais, mas não sei como meu organismo vai se sair e se eu for tomar alguma coisa, prefiro esperar. Também tem uma diferença do meu caso com o de pessoas que tem ansiedade de uma forma mais intensa, então ainda posso ter essa opção - explicou. 

  - Tem uma garota no meu curso que tinha muito problema de parar pra memorizar texto - SooYoung começou a contar. - Na verdade ela tinha outras coisas tipo não conseguir ficar parada, ou só comer sem fazer mais nada. Ela comentou que todo mundo considerava ela inquieta, mas descobriu que tem um tipo de ansiedade. Ela disse que não teve crises nem nada. Pelo menos não identificou nenhuma. 

  - Isso envolve tanta coisa e tanta gente fala como se fosse simples - Yeonjun comentou. - Tanta gente dizendo que tem um transtorno que não tem enquanto algumas pessoas acabam não notando que precisam de tratamento, além do tratamento ser elitizado. 

  - A sociedade é tão fodida de tantos jeito e parece que nem tem perspectiva de melhora - SooYoung comentou. - Mas mesmo assim é importante tentar ajudar quem podemos. 

  - Se todo mundo que tem acesso a mais informação pudesse espalhar mais, já seria um bom começo - Beomgyu pronunciou. - Eu entendo que é bom a gente ter entretenimento que não nos faz pensar muito de vez em quando, mas tem como conciliar isso de uma forma menos errada. 

  - Por isso tento escrever peças de forma mais fluida que falam de coisas importantes - SooYoung disse. 

  - Tá escrevendo mais? - Yeonjun quis saber. 

  Ele normalmente não gostava de ler roteiros, mas amava ler os que sua amiga escrevia. 

  - Tô, mas ainda é um rascunho. Mostro pra vocês depois. 

  Por terem tido pouco tempo pra relaxar, eles resolveram não ler textos hoje e só verem algum programa de variedade junto com Bonitinho enquanto comiam o bolo de laranja que Beomgyu e SooYoung arriscaram fazer antes de irem pra aula. Yeonjun não gostava de pensar que algum dia não moraria mais com seus amigos. Ele conseguiu se adaptar melhor a rotina com eles do que com os seus pais, mesmo tendo vivido a maior parte da sua vida assim. Em alguns momentos, ele se pergunta se tempo realmente é a coisa mais importante da vida ou se só servia para marcar coisas. 

  Bonitinho ficou correndo de um lado pro outro brincando com os bichinhos de varinha. Eles planejaram comparar um pouco de catnip depois porque o veterinário disse que fazia bem para os bichinhos. Amanhã ainda tinha que fazer um pouco de carne para o gato comer. Sempre separava um dia da semana pra dar essa comida feita por eles para o gato. 

  Indo dormir completamente exausto, Yeonjun sonhou com jaquetas de flores e cheiro de íris. 



 



 

    - Tenho um chá pra te recomendar que pode te fazer dormir melhor - Yeonjun disse, no dia seguinte enquanto Soobin estava anotando o texto da aula de hoje esperando o professor Hwang começar a aula. Vivi tinha ido comprar um café na cantina. 

  - Eu não gosto de maconha - Soobin disse distraidamente.

  - Não é esse chá. É chá de verdade. 

  - Ah! Então tudo bem. Pode me mandar por mensagem? Aí lembro de comprar mais tarde - Yeonjun acenou, já pegando o celular pra digitar a mensagem.

  - Depois me diz se funcionou - Soobin acenou. Vinte e três.

  Vivi voltou, oferecendo um pouco do café para eles e só Yeonjun aceitou. 

  - Como estão se sentindo sobre amanhã? - Soobin perguntou sobre a reunião que teriam com o reitor Jang. 

  - Tô doida pra ver o professor Bae se fodendo - Vivi comentou.

  - Melhor ainda saber que causamos isso - Yeonjun concordou. 

  - É realmente bom que alguém nessa faculdade esteja preocupado com essas coisas - Soobin opinou. 

  - A gente já pensou em fazer um grupo com mais pessoas que queiram ajudar nisso, mas do jeito que as coisas são é capaz de dar muito errado e alguma coisa vazar. 

  - Tem sempre esse risco - Soobin concordou. - Eu sei que estudo muito e não tenho muito tempo, mas posso ajudar se precisarem de algo.

  Yeonjun sorriu, olhando para ele. 

  - Obrigado por oferecer - disse e Vivi forçou fazer um barulho alto enquanto tomava o café. Yeonjun virou pra amiga e a encontrou rindo com uma expressão meio debochada. 

  - O café tá tãããão bom - mais cedo eles haviam tido um pequeno debate por mensagem. 

  Vivi disse que Yeonjun e Soobin não paravam de flertar enquanto ele dizia que não era flerte de forma alguma. Então ela afirmou que iria interromper sempre que eles estivessem nesse clima pra que o amigo visse o quanto é frequente. Segundo ela, Yeonjun tinha um jeito de olhar completamente diferente quando observava Soobin. 

 Ele olhou para Vivi tentando fazer cara feia, mas só fez a amiga rir mais. 

  A aula começou, fazendo que o foco mudasse. Yeonjun amava as aulas de Filosofia e já considerava que fosse uma das matérias mais importantes. 

  Soobin ficou conversando com o professor como nos outros dias no intervalo. 

  Indo pra cozinha com Vivi, eles ficaram olhando as mensagens dos grupos que começaram a ser formados pra trabalho. Yeonjun não odiava trabalhos em grupos, mas era sempre cansativo ir atrás de cada pessoa para que tivessem o mínimo de noção e ajudassem. 

  - Às vezes você não fica se auto-julgando por não envolver nenhum coletivo nisso? - Vivi perguntou enquanto eles estavam na cozinha vazia. 

  - Eu até me julgaria se não soubesse como os coletivos vivem agindo nesses casos. Mesmo que muita gente de lá tenha mudado ou saído, eles ainda não tem um bom diálogo com o reitor - ele disse, sentando na mesa e esperando a amiga usar o microondas. 

  - Nem você tem. A diferença é que você sabe fazer jogo de interesses como se fosse do meio - apertou os botões para esquentar o sanduíche. 

  - Não é muito difícil. É só seguir a lógica - Vivi o olhou com uma cara irônica. 

  - Amigo, nem todo mundo enxerga lógica da mesma forma. 

  - Eu sei - Yeonjun respirou fundo como se isso fosse tirar todo peso das suas costas. - Queria que fosse mais fácil fazer as coisas coletivamente, fazer mais gente entender algumas coisas. 

  O aparelho apitou e Vivi foi para o outro lugar vago da mesa de plástico. 

  - De certa forma a gente ta fazendo coletivamente. Só temos esses relatos porque essas pessoas tiveram coragem de nos dizer mesmo sem colocarem seus nomes na denúncia. Não foi a gente que fez tudo sozinhos. 

  Yeonjun acenou. Não deixava de ser. 

  Eles ficaram quietos. Querendo ou não, sabiam que não estavam no humor mais alegre ou com mais vontade de conversar. A seriedade e importância do que fariam estava pesando e eles respeitavam isso. 

  Yeonjun às vezes queria que os coletivos funcionassem como deveriam. A teoria sempre era perfeita e tinha tudo pra dar certo, mas na prática, nem todos que estavam ali se importam com a causa a ponto de colocarem ela acima dos seus interesses e desejos pessoais. Ele sentia irritação porque esse egoísmo interferia na vida de outras pessoas, poderia fazer com que alguém sofresse algum tipo de abuso ou trauma por muito tempo. 

  Se tivesse mais tempo, ele tentaria organizar as coisas envolvendo mais pessoas para ajudarem as outras, mas sabe que as chances de tudo cair nas suas costas e acabar estressado pra caralho eram enormes e ainda não sabia como fazer de um jeito que fosse completamente saudável para si. 

  Yeonjun e Vivi ficaram quietos no caminho de volta e andaram de mãos dadas, se dando apoio. Hoje ainda teriam que falar com mais pessoas e escutar relatos do que o professor Bae já fez. 

  Na sala, Soobin pareceu notar que quietude eram o que eles precisavam.

  De noite, eles mataram aula e foram para a república de Vivi revisarem as denúncias que foram digitadas e fazerem o mesmo com as que coletaram hoje. Amanhã, tudo deveria estar claro para ser exposto da melhor forma. 



 





 

  Soobin: já chegou na faculdade? 

  Yeonjun: tô esperando a vivi

  Yeonjun: daqui a pouco a gente vai na sala do reitor 

  Soobin: como você tá se sentindo? 

  Yeonjun: eu não sei explicar direito

  Yeonjun: eu sinto como se tivesse uma responsabilidade enorme nas minhas costas 

  Yeonjun: que não posso estragar isso porque envolve a vida de outras pessoas

  Yeonjun: é quase como se eu tivesse pego todos os sentimentos ruins daquelas pessoas e entendesse o sofrimento delas

  Yeonjun: mas eu sei que não é isso de verdade

  Yeonjun: essas pessoas ainda tão sofrendo e vão continuar

  Yeonjun: e é tanto ao ponto de sentirem medo de contar tudo pra gente 

  Yeonjun: e eu não dormi muito bem também 

  Yeonjun: vou tomar o chá da SooYoung quando for pra casa 

  Soobin: me avisa quando acabar de conversar com o reitor? 

  Yeonjun: aviso, mas provavelmente vou tá péssimo pra conversar ou qualquer coisa do tipo 

  Soobin: não tem problema 

  Soobin: te admiro muito por se importar com as pessoas

  Soobin: é importante que às vezes alguém ajude essas pessoas e espero que na próxima abertura de vagas eles consigam ser ajudados no projeto do meu curso

  Yeonjun: obrigado

  Yeonjun: você é incrível 

  Yeonjun: tenho que ir agora

  Soobin: vai dar tudo certo 

  Yeonjun: espero

 

 Por não ser a primeira vez que Yeonjun ia falar com o reitor Jang, ele não estava tão nervoso assim, mas ele sabia que Vivi se sentiria um pouco perdida mesmo explicando tudo para ela. Das outras vezes, ela não tinha comparecido e também não tinha se envolvido tanto no diálogo com essas pessoas que estavam sofrendo algum tipo de abuso na faculdade.

  Dessa vez, ela tinha escolhido participar e estava ao lado de Yeonjun caminhando até o bloco A, no segundo andar onde ficava a sala do reitor Jang. Yeonjun tinha enviado e-mail e seu horário já estava reservado, então só foi direto para lá. A auxiliar não estava na sua mesa. Ele foi até a porta, batendo. 

  - Podem entrar - a voz abafada soou do outro lado da porta. 

  Yeonjun entrou, segurando a porta para que Vivi também passasse. 

  O reitor Jang se levantou, inclinando o corpo para frente como cumprimento que foi correspondido por Yeonjun e Vivi, logo em seguida apontando para as cadeiras do outro lado da mesa. 

  A sala dele não era grande e tinham algumas prateleiras com documentos importantes da faculdade. A decoração era praticamente nula e isso fazia Yeonjun lembrar da biblioteca. 

  - Imagino que não queria enrolar muito, visto que nunca fez isso nas nossas outras conversas - o reitor Jang disse, olhando para Yeonjun que apenas colocou a pasta com as folhas impressas dos relatos. Eram mais de 20. 

  - Um dos professores de História que entrou aqui há pouco tempo tem acumulado alguns comportamentos abusivos com seus alunos. Nessa pasta tem todos os relatos em anônimo que eu confio que não serão passados pro professor Bae. O senhor sabe das chances de ele saber exatamente quais foram os alunos e ir atrás deles. Prejudicar as testemunhas que escolheram ficar anônimas é uma das coisas que pode fazer essa história acabar em um lugar que o senhor não quer, devo lembrar - Yeonjun tentava soar o mais calmo possível, ele ainda estava muito irritado com tudo o que soube. - O que tem aí é o suficiente pra uma rescisão de contrato e demissão por justa causa. 

  O reitor Jang se manteve com a expressão fria, que não dava para ter certeza do que ele estava pensando, mas Yeonjun sabia que ele estava puto por precisar fazer o que um estudante quer. 

  - Essas vítimas não prestarão queixa? - Reitor Jang perguntou. 

  - Você sabe que isso não muda em nada as leis de como a universidade deve agir sobre isso. Se há tantas denúncias, mesmo que anônimas, ele ainda pode ser afastado e ter o contrato rescindido. A outra opção o senhor já sabe qual é. Soube que nos últimos meses tem conseguido mais espaço político e oportunidades de aliança dentro de alguns partidos que quer se filiar. Te atrapalharia muito se a população soubesse que deixou tantos alunos sofrerem abuso e não fez absolutamente nada sobre isso. Alguns partidos podem ter controle sobre o que é publicado sobre os seus candidatos, mas sites de notícias sul-coreanos não são os únicos do mundo e muito menos são a única forma de espalhar informação, devo lembrar. 

  O reitor Jang ficou encarando Yeonjun por alguns segundos. Yeonjun sabia exatamente o que ele estava fazendo: procurando alguma brecha ou sinal que Yeonjun não tinha tanta certeza assim ou estava blefando. Ou também tentando amedrontar, tentar se impor como superior de alguma forma, mas todas as vezes essa tentativa acabava sendo falha. 

  Ele virou o seu olhar para Vivi. Yeonjun continuou encarando o homem na sua frente porque se demonstrasse preocupação com a postura de Vivi, isso pareceria uma fraqueza. Yeonjun também sabe que Vivi não vai abaixar a cabeça pro reitor mesmo nunca tendo passado por essa situação, então não era algo que o preocupava. 

  Reitor Jang pegou a pasta azul que estava em sua mesa. 

  - Posso ver o que faço - ele disse. 

  - O senhor tem 2 semanas - Vivi disse e Yeonjun queria ajoelhar e fazer reverência só pela forma que a sua amiga pronunciou a ordem. - Espero também que nenhum aluno seja prejudicado durante e depois dessas 2 semanas - e o Jang demorou mais alguns segundos para responder. 

  - Farei o possível. 

  Vivi inclinou a cabeça para o lado antes de perguntar:

  - Apenas o possível? Não parece muito esforço. 

  Oh, ele estava ficando puto. Yeonjun conseguiu notar o movimento quase milimétrico da sobrancelha do reitor. 

  - Em 2 semanas o professor não estará mais aqui e nenhum aluno será prejudicado - Vivi sorriu. 

  - O senhor é um ótimo reitor. Fico feliz que o tenhamos aqui. 

  Yeonjun se levantou, sendo seguido por Vivi e o reitor, se inclinando para se despedir. 

  - Agradecemos pela atenção, reitor Jang. Desejamos muito sucesso à sua carreira política. 

  Eles saíram em silêncio até voltarem a sentir o vento gelado do pátio e olharem um para o outro. 

  - Uma cerveja? - Perguntaram ao mesmo tempo, sorrindo um para o outro antes de falarem juntos de novo: - Uma cerveja! 

 


 

• 





 

  Soobin: me avisa quando sair da sala do reitor 

  Yeonjun: já saí e tô bebendo litrão com a Vivi

  Yeonjun: a gente foi no mercado aqui perto e compramos 

  Yeonjun: quando sair da aula pode ficar aqui com a gente se quiser

  Soobin: onde vocês tão?

  Yeonjun: perto da onde os gatos ficam

  Soobin: daqui a pouco apareço aí

  Yeonjun: vou ficar esperando

 

  - Quando ele chegar vou arranjar outra coisa pra fazer e sair - Vivi disse depois de olhar rapidamente o celular de Yeonjun. 

  - Por que? - Ele perguntou sem entender. Tomou mais gole da cerveja no seu copo plástico. 

  - Pra se vocês não conseguirem se aguentar não quero tá perto pra atrapalhar. 

  - Não aguentar o que? 

  Vivi olhou para o amigo com a sua maior cara de debochada. 

  - Não sei. Vontade de peidar. Até parece que você não sabe. 

  - Para de falar como se fosse alguma coisa que ele quisesse também. 

  - Preciso te lembrar do primeiro dia de aula de Filosofia? 

  - Não precisa, mas esse argumento agora é inválido. 

  - Se ele não tivesse no mesmo ciclo de amizade que você, vocês continuariam ficando, não é? 

  - Não sei. Não posso afirmar isso por ele, mas por mim sim - Yeonjun disse. 

  - Às vezes você pensa que queria que isso fosse diferente? - Yeonjun balançou a cabeça. 

  - Não. Ficar pensando como queria que as coisas fossem não é uma boa maneira de lidar com a realidade, só que não é possível pensar que eu deveria ter arriscado. 

  - Isso significa que você não deseja mudar algo? Qualquer coisa? - Vivi quis saber. 

  - Acho que é impossível não desejar coisas, mas pautar a vida em arrependimentos ou perder mais tempo desejando o que não tem e deixar de focar o que tem é perda de tempo pra mim. Isso não significa que não sonho. São coisas diferentes. 

  - Então isso não significa que você deixe de querer dar uns beijinhos no Soobin? - Vivi perguntou o olhando atentamente e com um sorrisinho. 

  - É. Você já sabe que quero ficar com ele de novo e vou continuar querendo. Quase impossível que eu não queira isso. E qual é a sua opinião sobre desejar mudar coisas? 

  - Meu sonho é que um dia você note o quanto tá sendo idiota por não arriscar. E a minha opinião é que não tem problema se arrepender de ter feito coisas desde que isso não te paralise. 

  - Eu só não quero afastar ele. 

  Vivi suspirou. 

 - Acho que eu fui bem idiota de não confiar no Beomgyu quando ele dizia que cerveja gelada é perfeita até no frio - ela disse. 

  - Beomgyu é um gênio.

 - Ele e o Taehyun são tudo juntos. Dois gênios. 

  Yeonjun deu risada, bebendo o último gole da cerveja. 

  - Sim. Parecem um casal de velhos sábios - ele concordou. 

  - Você acha que tem como ajudarmos pessoas de outras faculdades? - Vivi perguntou depois de alguns segundos de silêncio. 

  - Agora? Acho meio difícil, mas depende do que podemos conseguir no futuro. Talvez como professores tentando dialogar mais com nossos alunos ou como militantes do assunto. Só é difícil porque se a gente tentar saber das merdas de outras faculdades não vamos conseguir focar na nossa graduação - disse, divagando um pouco pelas possibilidades. - Se não focarmos na nossa graduação e no nosso polo vamos adiar mais o plano de sermos professores que façam alguma diferença. 

  - Você acha que a gente é muito daqueles jovens que querem muito lutar contra o sistema e quando ficam mais velhos desistem? 

  - Acho que não. Todo mundo diz que esse é o “caminho natural”, mas a minha mãe tá até hoje tentando e conseguindo fazer a diferença como professora - Yeonjun lembrou. - Talvez só repitam tanto isso pra gente acreditar e desistir. 

  Vivi suspirou jogando a cabeça pra trás. 

  - Às vezes é tão cansativo viver em sociedade. 

  - “Às vezes”? - Yeonjun perguntou. - Sempre, né? 

  Vivi deu risada, sendo seguida por ele. 

  - É muito fodido ficar exausta e ainda assim não se ver fazendo outra coisa? - Ela indagou. 

  - Depende. Se você não tirar o descanso que precisa então é fodido. Tá tudo bem ficar cansada. Isso é normal. Não é só porque é algo que você considera essencial que é impossível de se sentir cansada. 

  - Acho que preciso aprender a descansar mais. 

  - Você vai aprender e depois vai ter outras coisas novas que também vai poder aprender. 

  - Qual foi o rolê que você comentou da sua mãe dizer? “Não saber significa tá vivo”? - Vivi tentou se lembrar exatamente. 

  - “Não é vergonhoso não saber. Enquanto você assume não saber e quer aprender ainda falta muita vida pra viver. Quando você desiste de aprender qualquer coisa é porque não existe mais paixão, e sem paixão a gente morre aos poucos.”

 - Acho que vou escrever isso em algum lugar depois. Sou péssima lembrando qualquer coisa direito - Yeonjun deu risada. 

  Sua amiga terminou a sua cerveja, deixando os copos juntos no canto. 

  - Você não precisa sair quando o Soobin chegar pra não estragar sei lá que clima - sentiu a necessidade de dizer. 

  - Eu sei. Tava só te zoando. Duvido que você faça alguma coisa. Você sempre se sabota nessas coisas e a minha presença não muda muita coisa. 

  Yeonjun acenou. Não tinha muito o que debater ou discutir. 

   

  Soobin: ainda tá no mesmo lugar? 

  Soobin: vou sair um pouco da sala agora 

  Yeonjun: sim, mas a cerveja acabou

  Soobin: não tem problema

  Soobin: já tô indo 

  

  Yeonjun notou que mesmo sendo algo pequeno, ainda era uma enorme diferença. Já faziam umas semanas que tem conversado com Soobin e ele mal saia da aula pra tomar um ar ou qualquer coisa do tipo. Ele não sabia se era algo que Soobin estaria disposto a fazer mais, mas ainda notou esse pequeno detalhe. 

  - Ele tá vindo? - Vivi perguntou. - Seu olho já até mudou. 

  - Como assim? Eu nem afirmei nada. 

  - E precisa?

 



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