História Herdeiro da Águia - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags França, Napoleão, Steampunk
Visualizações 6
Palavras 5.721
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Ficção, Ficção Científica, Luta, Mistério, Romance e Novela, Steampunk, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Por favor avaliem a história, sou iniciante nessa temática e sou novo como escritor. Aceito críticas construtivas
Espero que gostem
XD

Capítulo 1 - I


Fanfic / Fanfiction Herdeiro da Águia - Capítulo 1 - I

Abro os olhos, a neve caia lentamente do céu, o chão parisiense estava branco, uma mistura de lama e neve. Alguns postes com lâmpadas elétricas iluminavam a rua, acho interessante essa invenção de Sir Franklin, eletricidade. A carruagem balançava sutilmente, se me concentrasse conseguia ouvir os mecanismos e engrenagens complexas fazendo o seu trabalho.

- Não me diga que já está dormindo Charles? – Perguntou Alexander com um sorriso malicioso no rosto.

- Estava descansando os olhos – Respondi enquanto ajeitava as minhas luvas

- Sei – Alexander começou a encarar a janela do seu lado direito e eu fiz o mesmo

Eu gosto da noite de Paris, é fria, mas ao mesmo tempo reconfortante, não sei bem explicar. O céu estava um pouco nublado, eu acho já que o máximo que eu consigo ver são as silhuetas do que seria as sombras delas. A Lua estava com um brilho fraco e distante sendo coberta algumas poucas vezes pelas nuvens transeuntes.

O frio ainda conseguia invadir o interior da carruagem que deveria ser mais quente do que o lado de fora. Peguei o meu casaco que estava na minha esquerda e o vestir, o abotoei até o pescoço, arrumei a gola e as mangas longas. Minha espada embainhada estava no canto extremo da carroça, a peguei e trouxe para mais perto do meu corpo, me sinto mais segura com ela próxima de mim.

Ao terminar de me arrumar comecei a observar o interior da carruagem. A carruagem é bem larga, pode carregar até 4 pessoas com bastante espaço, inclusive para as pernas o qual podem se manter esticadas. Era feita de madeira e aço, mas no interior o principal componente era a madeira. As poltronas eram de couro vermelho com botões dourados para manter o acolchoado preso a poltrona. Havia duas portas de aço na direita e na esquerda e duas janelas ao lado das portas. No meu lado, em cima da minha cabeça, há uma pequena portinhola também de aço por onde podia conversar com o cocheiro.

Abrir a portinhola

- Senhor Edwin! – Chamei

Uma cabeça com uma cartola de couro preto apareceu na portinhola

- Sim, Senhor Kannenberg

- Quanto tempo para chegarmos ao palácio?

Senhor Edwin já deve estar na casa dos 50 anos. O seu rosto mostra feições de um homem que já passou por muitas coisas. Feições cansadas, mas sorridentes. Possuía algumas verrugas no lugar onde dizem de pessoas que franzem e sorriem bastante. Olhos separados e verdes, um nariz achatado e longo, o seu cabelo é longo e grisalho, só podia ver alguns fios prateados saindo da cartola, seus lábios eram caídos. A barba da mesma cor dos cabelos estava feita.

Ele coçava o queixo com uma mão enquanto parecia que estava procurando alguma coisa em um dos bolsos. Na mão, o qual coçava o queixo, havia uma aliança prateada no dedo anelar. Se não me engano Senhor Edwin é pai de duas crianças, acho que são duas garotas, não consigo me recordar.

Ele puxou um pequeno relógio de bolso prateado com alguns riscos no fundo. Ele abriu o relógio com a mão que antes coçava o queixo. Ele tomou bastante cuidado como se aquilo que ele estivesse mexendo fosse feito de vidro ou algo semelhante. Encarou o relógio e franziu a testa.

- Provavelmente daqui a 40 minutos, Senhor Kannenberg

- Por que esse tempo todo?

- Por causa da neve, ela nos obriga a diminuir a velocidade, além de que os cavalos podem escorregar, eles são de metal, mas também podem escorregar.

- Entendo – Cruzei os braços – Obrigado, Senhor Edwin

- Nada, Senhor Kannenberg

Fechei a portinhola e voltei a cruzar os braços. Peguei o meu relógio de bolso e olhei as horas. 3:45. 4:25 da madrugada chegaremos em casa, ótimo, o que poderei fazer que irar ocupar minha mente por 40 minutos?

Olhei pela janela e comecei a assistir o caminho que fazíamos. Ruas passavam, becos eram deixados de lado, vielas atravessadas. Minha mente entrou em uma espécie de transe pelo passar do tempo.

- Charles – Alexander me tirou do transe – Por que só o vejo vestido de preto?

- Ei! Eu não me visto apenas de preto – Retruquei

Alexander cruzou os braços e apontou para mim com o dedo indicador.

Olhei para as minhas vestimentas. Eram realmente todas pretas. Botas, casaco, calças, camisa, luvas apenas os botões do casaco tinham uma cor diferente, eram dourados

- Talvez eu me vista com um pouco de preto demais

- Um pouco? – Alexander riu, bem alto alias e eu apenas me afundei ainda mais na poltrona – Mas, é uma pergunta, por que só o vejo de preto?

Peguei a minha espada e a desembainhei para que pudesse ver o meu reflexo na lâmina. A coloquei de volta na bainha e olhei para Alexander

- Épocas de guerra. Lembra do apelido que me deram?

- Sim. Espadachim Negro

- Durante a batalha Rotterdam ......

- A Batalha das Rosas – Alexander me cortou – Desculpa

- Sim. Eu fui encontrado coberto de cinzas, dai veio o meu apelido

- Desculpa por tocar no assunto, eu sei que não gosta de tocar no assunto

- Tudo bem

O ambiente ficou desconfortável de repente.

Alexander deu uma risada de leve.

- O que foi? – Perguntei curioso

- Estou lembrando quando roubamos aquelas duas garrafas de vinho do Senhor Fontaine.

Levantei a sobrancelha de surpresa

- Como ainda se lembra disso? Nós tínhamos uns 10 anos na época, acho?

- Acho que sim, mas foi divertido

- Muito – Aquela memória era tão boa, um sentimento de nostalgia surgiu em mim, me peguei até sorrindo – Faz uns 12 anos que isso aconteceu, mais ou menos

- Sim, agora estamos com 22. Quem ia imaginar? – Alexander sorria, mas dessa vez não era porque algo engraçado aconteceu ou um sorriso forçado, mas sim, uma felicidade verdadeira.

- Podemos ser adultos, mas você sabe que iremos ser mortos quando chegarmos em casa a essa hora

- Eu sei, já estou preparado para os sermões da Madame St.Elme – Alexander e eu rimos - Sabia que nós íamos acabar saindo tarde daquele baile.

- Cale a boca Alexander, você foi o que mais demorou. Dançou incontáveis vezes

- Os músicos eram muito bons, eu queria me divertir, só fico estudando em casa o dia todo – Ele aproximou o corpo para mim, levantou o dedo e começou a balançar como se estivesse preste as dizer algo de extrema importância – E você também, as poucas vezes que lhe vejo é no café da manhã o resto do tempo você está trancado no escritório. Na hora de se divertir você preferiu passar o baile todo na sacada. Que desperdício Charles, que desperdício.

Ele encostou o corpo novamente na poltrona e cruzou as pernas. Alexander tem a minha idade, só que eu sou um mês mais novo que ele. Ele tirou as luvas brancas e colocou no colo. Vestia um casaco branco com listras horizontais azuis, a calça também era branca, com botas pretas e uma camisa vermelha por debaixo que agora podia ser notada já que ele estava com o casaco aberto. O cabelo preto estava bagunçado e cobria um dos olhos castanhos, suas fisionomias são suaves, lábios e nariz finos, além de uma pele branca quase pálida pelo tempo que não sai de casa.

- Conseguiu conversar finalmente com Eugenie? – Perguntei o olhando com o canto dos olhos

Não precisava ser muito inteligente para perceber que eu toquei no ponto fraco de Alexander.

- Não me diga que não falou com ela ainda – Dessa vez fui eu que aproximei o meu corpo dele e sorrir

- Eu estava, estava, estava me planejando – Respondeu evitando me olhar

- A três meses?

Ele afundou na poltrona

- O Alexander de antes já teria falado com ela há muito tempo e ido ainda mais longe

- Ela é diferente

- Como assim diferente?

- Eu não sei, apenas meio que sinto, não sei explicar

Rir

- Está apaixonado que coisa mais fofa – Me abracei e disse com uma voz melosa

- Cale a boca

Comecei a rir ainda mais alto. De repente ele vira o rosto para mim e dá um sorriso de uma ponta a outra

- Charlotte – Disse bem rápido

Minha risada para

- O que tem ela? – Respondo cauteloso

- Ela tem uma grande queda por você

- E? – Continuo na cautela

- Eeee que ela é bonita, não é? E inteligente – Os olhos de Alexander brilham de entusiasmo, de que, jamais saberei – Ela não tem peitos grandes, mas são medianos

- Verdade...... Porque diabos você se lembrou logo dos peitos dela?

- Então porque não a chama para sair? – Ele ignorou completamente a minha pergunta - Ela ficou contigo na sacada maior parte do baile.

- Não acho que eu sou o suficiente para ela

- E daí?

- Ela é da nobreza, não qualquer nobreza, uma d'Aboville, casar com um homem como eu não seria bom para a reputação da família dela

- Só lembrando que você é um herói entre os franceses, acho que o que você mais tem é prestigio, então o que seria realmente?

Os olhos de Alexander estalavam de curiosidade, estavam me deixando desconfortável, muito desconfortável.

- Você tem medo de pedir a mão dela

- Mas o que!? – Pulei da poltrona – De onde tirou isso, está enlouquecendo?

- É isso – Ele bateu a palma das mãos e as colocou na boca – O Espadachim Negro não consegue pedir a mão de uma mulher

- Não faz sentido – Repliquei

- Ahhh faz sentido. Você é um dos homens mais famosos da França e, talvez, do mundo, qualquer família vai querer que você entre para a dinastia deles. Não reparou a quantidade de mulheres que fica lhe observando esperando que a notem? Além de que você é aceitável no quesito beleza.

- Idiota

- Posso ser idiota, mas sou um idiota com razão

- Vai se f.....

A carruagem para bruscamente. Tive que me segurar para não trombar em Alexander e ele teve que fazer o mesmo. Nos entreolhamos. Pego a minha espada. Abro a porta da carruagem, coloquei um dos meus pés na rua e olhei para onde o Sr. Edwin está

- Senhor Edwin, o que esta aco.... – Congelei

Ao olhar com mais clareza percebi uma figura segurando um punhal rente a garganta de Sr. Edwin. A sua cartola estava no chão permitindo que visse os cabelos grisalhos por completo. Os seus olhos estavam lacrimejando enquanto ele apertava com força o relógio de bolso. Os dois estavam em pé no lugar do cocheiro. A rua estava deserta, havia apenas alguns prédios de comerciantes que não iam abrir tão cedo, ou seja, não há nada que possa salvar Sr. Edwin, apenas eu.

A figura estava encapuzada apenas conseguia olhar os seus olhos vermelhos me encarando. Suas vestimentas estavam rasgadas e se resumia a um sobretudo com capuz marrom. O punhal estava tão rente ao pescoço de Sr. Edwin que conseguia ver um pouco de sangue pingar da lâmina. O braço esquerdo da criatura segurava o peito de Sr. Edwin enquanto o a mão direita segurava o punhal. Ambas as mãos estavam cobertas pelo sobretudo e luvas de couro, eu acho. Preciso pensar em algo, se eu demorar demais Sr. Edwin pode ser morto.

- Charles, o que está acontecendo?

Alexander surge atrás de mim, a criatura percebe a presença de Alexander e os olhos dele brilham em um tom mais avermelhado. Ele aperta com mais força o Sr. Edwin, eu ouvir um estalo, muito provável que foi um dos ossos de Sr. Edwin, mas ele corta a garganta de uma ponta a outra. Eu vejo uma fonte de sangue subir, os olhos dele perdem o brilho de vida e o monstro solta o, agora, cadáver de Sr. Edwin. Ouço o som do relógio de bolso bater no chão, mas não tenho tempo para reagir as emoções, pois o monstro joga o punha dele na nossa direção.

O punhal vem na minha direção, não, não é em mim e sim, no Alexander. Saco a espada com a mão direita e a minha lâmina se encontra com a lâmina do punhal que cai no chão. Com a mão esquerda eu saco o meu revólver e aponto na direção de onde estaria o monstro. Mas, ele sumiu!

Merda!

Corro em direção a Sr. Edwin, pego apenas o relógio encharcado de sangue e coloco no bolso, não tenho tempo de prestar uma oração ou desculpas. Olhos os cavalos mecânicos e percebo uma faca encravada no maquinário, então a carruagem está inutilizada. Precisamos sair desse lugar, campo aberto não é uma vantagem quando não se sabe onde está o oponente.

Volto para dentro da carruagem, Alexander estava assustado olhando para mim, olho a condição das balas no tambor e engatilho de volta a posição original. Pelo visto a criatura tem como objetivo matar Alexander. Alexander me encarava esperando alguma reação da minha parte já que sou seu guarda-costas.

- Alexander!

Ele olha para mim como se tivesse recobrado a noção da situação em que está envolvido. Estendo o revólver para ele

- Você aprendeu a atirar, certo?

- Sim, mas faz tempo que não prático

- Tanto faz, apenas pegue. 5 balas, o recuo é bem grande então prepare-se para o coice quando disparar.

Ele pega o revólver com cuidado, mas rapidamente se acostuma com a arma. Eu aceno com a cabeça para ele e ele repete o gesto.

- Precisamos sair daqui, somos alvos fáceis – Ele pontua

Olho ao meu redor. Pequenas lojas e alguns becos na esquerda muito distante para corrermos, altas chances de recebermos um tiro ou algo parecido. Na direita há duas lojas pequeninas uma delas vende flores e a outra pães e outros tipos de guloseimas, mas entre elas tem uma rua muito mal iluminada. Talvez ela nos ajude a fugir.... ou seja um plano terrivelmente idiota.

- Eu sei, se corrermos até a mansão, talvez cheguemos inteiros. Podemos ir cortando pelos becos e vielas – Aponto para uma pequena rua na nossa direita

- Certo

- Então vamos no três

Levanto o dedo indicador da mão esquerda. Espero que não levemos um tiro

- Um

Aperto o punho da espada, levanto o dedo médio

- Dois

Olho para Alexander e o vejo puxando o martelo do revólver. A luz dos postes ilumina o cano do instrumento criando uma luz fosca e metálica

- Três

Pulamos da carruagem e disparamos em direção a rua. Ouço um barulho de engrenagens e cordas, meus olhos percorrem as paredes da rua, olho para cima e vejo duas daquelas coisas voando em nossa direção com espadas na mão. Ambas vestidas iguais. Um deles passa por cima de nós e cai na nossa frente, ele levanta como se nada tivesse acontecido. Mas que merda é essa????

Algo me diz que eu devo evitar combate com essa coisa. Vejo uma rua cortando a esquerda, precisamos ir por ali.

Chuto o barril que estava do nosso lado, a coisa apenas pisa e quebra o barril ao meio, mas pelo menos nos dá a chance de correr para a rua do nosso lado. Pego Alexander pela gola e o arrasto para a direção que quero e continuamos a correr. Enquanto passávamos pela rua vejo um pedaço de madeira preso na parede de uma casa segurando uma plataforma de madeira cheia de barris.

A coisa olha para nós enquanto a outra pousa do seu voo ao seu lado. Ambas começam a dar os primeiros passos para correr.

- Alexander! – Aponto para o pedaço de madeira – Atira!

Alexander vira para o local que apontei, aponta o cano da arma, mira e atira. Ouço o som do disparo e o brilho do tiro, logo depois ouço a madeira se partindo e os barris caindo e se quebrando ao contato com o solo. Alguns barris caíram em cima dos seres, vi com o canto dos olhos ambos caírem no chão. Ótimo, funcionou

- Será que matamos essas coisas!? – Gritou Alexander

- Não, apenas continua correndo

E como eu disse nós continuamos correndo, corríamos sem olhar para trás, eu ainda sentia os olhares deles atrás de nós. Passávamos ruas e becos em alta velocidade, a única coisa que conseguia ouvir era o som dos nossos passos durante a corrida e o vento frio zunindo no meu ouvido

Chegamos em uma praça. A praça era larga com vários postes e árvores coberta de neve, o chão de pedra e alguns bancos de madeira agora brancos. A praça ficava no meio de uma encruzilhada. No meio da praça há a escultura de Napoleão montado em um cavalo que empinava. Ele segurava com a mão esquerda a espada apontando-a para o alto e segurando com a outra mão a correia. A estátua estava sobre uma pilastra de mármore com grades de ferro preto ao redor.

Ao redor da praça tinha vários estabelecimentos com formas e tamanhos diferentes. Uns maiores e outros menores, uns largos e outros finos, algo bem heterogêneo. Todos estavam fechados e a noite parecia que jamais iria acabar.

- Ali! – Alexander apontou

Uma pequena doceria do outro lado da praça com luzes emanando e iluminando o local. Não pensamos duas vezes e corremos até lá. Atravessamos a praça e nada dos nossos perseguidores. Não sei se fico aliviado ou apreensivo. A cada passo que dávamos sentia o calor que saia do local.

A doceria era pequena. Paredes pintadas de verde e teto de madeira. O local era dividido em dois, o exterior e o interior era dividido por uma porta grande de madeira. As bordas do exterior do local possuíam grades e uma pequena escada de concreto no meio que separava o inicio da fundação da rua. Nesse local havia várias cadeiras e mesas de madeira envernizadas. A fundação também de madeira. O exterior do estabelecimento era coberto que era suportado por pilastras que saiam das grades.

Subimos os degraus e batemos na porta. Alexander olhou para mim

- Guarde a espada – Sussurrou enquanto colocava o revólver por dentro da calça o ocultando com o casaco.

Coloquei a espada de volta a bainha e a cobrir com o meu casaco.

Ninguém apareceu na porta até agora. Bati na porta rezando para que alguma alma aparecesse e abrisse a porta.

Ninguém respondeu...

Bati na porta novamente.

Nada...

Alexander bateu na porta com mais força.

 - Não tem ninguém aqui, vão embora! – Alguém muito mal-humorado gritou

Bati novamente na porta com mais pressa

- Eu já disse, vão embora! – A voz gritou e eu notei que era masculina

- Por que você está gritando Pierre? – Uma voz feminina apareceu – Vá ver quem está batendo na porta.

Eu e Alexander nos entre olhamos.

Uns segundos depois a voz gritou masculina gritou novamente.

- São dois mendigos que vieram pedir comida!

Mendigos? Por que mendigos?

Olhei para mim e Alexander.

Nossas roupas estavam uma completa imundice. O casaco de Alexander estava com lama e sua calça branca tinha um rasgo na coxa, além da lama que deixou uma parte dela amarelada. Eu não estava nas melhores condições. Meu casaco estava sujo também e estava com um rasgo grande onde fica o antebraço. O rosto de Alexander estava sujo e visivelmente abatido pelo cansaço. O cabelo estava mais bagunçado do que antes.

- Ei! – Gritei – Nos ajude por favor! – Esmurrei a porta com mais força

Uns segundos se passaram e nenhuma resposta veio. Merda!

A porta se abriu revelando uma mulher já na casa dos 40. Seus cabelos castanhos estavam presos por um pano de cozinha azul. Vestia um longo vestido marrom com um pano sujo de, acho, farinha de trigo amarrado na cintura e usava sapatos pretos de couro. Seu rosto mostrava uma mistura de pena e curiosidade. Os olhos grandes de âmbar pesquisavam-nos, a pele era branca com as bochechas rosadas, lábios pequenos e rosados combinavam com o nariz.

- Pierre, são apenas dois garotos – Gritou – Por favor entrem – Ela estendeu a mão nos convidando a entrar

O interior era espaçoso. Várias mesas e cadeiras se espalhavam pelo local, era quente, o chão era composto por lajotas de azulejo, o teto côncavo de madeira e paredes pintadas de azul e verde davam um ar bem confortável ao local. No canto do salão tinha um balcão bem grande e alguns bancos na frente, atrás do balcão prateleiras carregadas de bebidas alcoólicas dos mais diversos tipos desde vinhos baratos até alguns whiskies importados da Escócia. Várias janelas se espalhavam pelas paredes, quando estiver de dia aqui deve ser lindo, por causa da iluminação natural.

Em um dos bancos estava sentado um homem com, provavelmente, uns 50 anos. Cabelos brancos curtos e liso, rosto redondo, nariz torto, olhos verdes, barba malfeita, suas expressões mostravam que ele não estava nem um pouco feliz. Tinha uma estatura mediana e uma barriga relativamente grande. Vestia uma camisa branca, uma calça azul escuro com suspensórios e sapatos pretos.

- Por que os deixou entrar? Nem sabemos quem são eles! - O homem Pierre esbravejou – Sabia que não devíamos ter deixado Castela. Estava tudo indo bem lá, mas tinha que ter um merda de um Filipe – Sussurrou

Me joguei no chão, encostei minha cabeça na parede, o peso da corrida começou a afetar as minhas pernas já que o sangue esfriou um pouco. Alexander caminhou até a moça que havia nos atendido e perguntou a ela alguma coisa que, logo depois, ela apontou para um cômodo sem porta ao fundo do salão. Alexander correu para lá.

A moça caminhou em minha direção, se ajoelhou enquanto ajeitava a saia. Ela parou na minha frente e me olhou por uns segundos, acho que ela estava esperando que eu dissesse alguma coisa.

- Então, pode me dizer o que aconteceu com os rapazes? – Perguntou quebrando o silêncio.

Eu não sei se deveria contar para ela, posso acabar colocando-a e a família em perigo. Levanto a cabeça e olho pela janela. Tinha três daquelas coisas observando, dois portavam punhais e o outro um rifle nas costas. Os dois que estavam com punhais na mão andaram de ré até serem cobertos pela escuridão, ficou apenas o com o rifle, ele começou a andar de um lado para o outro. Na quinta volta ele andou para longe do local onde estávamos, sendo encoberto pela noite.

Voltei a cabeça para a moça. Dessa vez ela estava em pé

- Então, o que viu na rua?

- Eu e meu amigo estávamos fugindo

- Oh! – Me olhou com surpresa – Fugindo do que exatamente?

- Uns baderneiros

- E você os trás para cá!? – Pierre levantou da cadeira e andou pisando furiosamente em minha direção enquanto balançava o dedo – Você é um idiota?

- Calma Pierre. Eles estavam desesperados – A moça olhou para Pierre

- Não me peça calma Juliette quando há um problema acontecendo

Eu estava pensando em falar alguma coisa para diminuir os ânimos daqueles dois, mas não precisei fazer isso porque um rapaz apareceu. Franzino com uns 16 anos, ruivo com cabelo longo com umas sardas no rosto angulado, nariz reto e olhos verdes esguios com a boca pequena. Vestia um pijama completo listrado branco e azul, além de estar com os pés descalços.

- O que está acontecendo? – Disse enquanto bocejava e coçava um dos olhos

- Apollon, você deveria estar dormindo – Pierre disse com uma voz mansa nem parecia que era o Pierre que eu encontrei gritando

- Com vocês gritando não dá – Apollon olhou para mim – Temos um convidado?

- Não exatamente – Juliette caminhou na direção de Apollon e deu-lhe um abraço – Vá dormir querido

Alexander saiu do cômodo onde ele estava. Ele olhou direto para mim

- Ninguém na mansão respondeu a ligação

- Merda! – Olhei para baixo, não vinha mais nenhum outro plano na cabeça

- Onde fica essa mansão? – Olhei para Apollon

- É muito perigoso Apollon, já estar tarde e esses baderneiros idiotas podem estar rodando nossa casa – Pierre assustado disse com a voz trêmula.

- Não pai, eu consigo, conheço Paris como a palma da minha mão – Ele olhou para Alexander – Onde é?

- Saint-Maur, ao leste

- Eu consigo chegar lá rápido, já fiz várias entregas naquela região – Ele se soltou do abraço da mãe, eu suponho, e correu para uma parte do estabelecimento – Esperem um minuto, preciso dos meus sapatos.

Levantei e caminhei rapidamente em direção a Alexander

- Alexander, eu não acho uma boa ideia mandar o garoto – Sussurrei

- Eu sei, mas se você for eles podem invadir e eu não conseguirei proteger a eles e se eu for, eu poderei morrer ou eles poderão invadir da mesma forma – Ele segurou o meu ombro – Precisamos dele.

O rapaz voltou.

- Pela porta dos fundos – Ele andou até onde fica a porta dos fundos

O seguimos. Alexander ficou no lado direito da porta, sacou o revólver e puxou o martelo, fiquei no lado esquerdo com a espada desembainhada.

- No três – Apollon olhou para nós

- 1...2...3! – Dissemos juntos

Abrir a porta com força e Apollon saiu disparado, nem olhou para trás, apenas correu. Alexander com a ponta da arma cobriu a sua saída.

Fechamos e trancamos a porta novamente. Encostei-me na porta e fechei os olhos, coloquei a ponta da espada para baixo. Depois de uns segundos com os olhos fechados os abrir e encontrei os pais de Apollon olhando para mim.

Ambos olhavam apreensivos, estavam de mãos dadas, procurando conforto um com o outro.

- Vocês estão armados? – Perguntou Juliette cautelosa enquanto encarava a espada

- Sim – Respondi – Mas é apenas para me proteger, não se preocupem

- Como Charles disse, não vamos machucar vocês – Alexander colocou a pistola de volta a cintura lentamente para evitar que eles tomem um susto, eu fiz o mesmo.

- Eu vou beber algo – Pierre levou a esposa com ele

- Espere!

Alexander colocou a mão no meu ombro e fez um gesto negativo com a cabeça para dizer que é melhor deixá-los. Confirmo. Ele andou até o cômodo de onde ele tinha saído antes e eu andei até o salão. Puxei uma cadeira e me sentei de frente para a janela que dava para a praça.

Nada. Apenas a silhueta da estátua de Napoleão e o seu cavalo.

Os nossos perseguidores parecem que desistiram. Não é possível que tenham desistido tão fácil, simplesmente não entra na minha cabeça. Alexander aparece atrás de mim segurando um telefone. Ele coloca o telefone em cima da mesa.

Esse invento de Meucci até hoje não faz sentido para mim. Alexander começa a discar girando o prato, número por número. A cada puxão ouvia um estalar e o som do prato voltando a posição original. Ao terminar de discar o último número ele colocou o telefone no ouvido e próximo a boca.

Esperamos.

Esperamos.

Esperamos.

- Ahhhh! Ninguém atende essa merda – Ele bate o telefone na mesa – Que merda!

Ele bate os punhos na mesa e encara o telefone.

- Eles até agora não apareceram – Digo

- Ainda bem – Alexander continua encarando o telefone

Fico observando o salão. É um local bem espaçoso e noto que é uma doceria, mas tem bebidas, como assim? Eu levanto e caminho até o balcão. Debaixo do balcão há apenas caixas empilhadas uma sobre a outra e do lado. Levanto a cabeça e observo as bebidas nas prateleiras. Realmente, tem todas as bebidas que possa imaginar. Vinhos italianos, cervejas alemãs, whiskies escoceses, vodcas russas, tequilas mexicanas e champanhes franceses, além de outras bebidas que eu não faço a mínima ideia de onde é e o que é.

Salto o balcão. Observo as bebidas com mais atenção, tem uma com um nome estranho, cachaça. Pego a garrafa e viro para ver o local de origem, Império Sul-Americano, veio de longe. A garrafa e o liquido nela eram escuros e um pouco turvos.

- Deixe as garrafas Charles, não é o momento mais propicio – Alexander grita, agora sentado com a mão na cabeça

Coloco a cachaça de volta no lugar e salto o balcão, caminho de volta a minha cadeira e sento.

- Quantas balas?

- Quatro – Alexander responde olhando para cima

Pego minha bolsinha de munição e tiro uma bala de lá.

- Aqui – Estendo para ele – É melhor ter todas as balas no tambor

Ele olha para mim com uma cara de estranheza, mas pega a bala. Saca o revólver e abre o tambor onde coloca a última bala. Coloca o tambor no lugar, mas dessa vez põe a arma na mesa.

Os pais de Apollon aparecem, eles caminham silenciosamente e se sentam em uma mesa do nosso lado. Juliette pega a minha mão e a aperta

- Vocês prometem que o meu filho voltará vivo? – Juliette apertou ainda mais a minha mão

Aquele pedido não era um simples pedido, ali estava toda a esperança de uma mãe para ver o seu filho voltar são e salvo, o que eu espero que aconteça. Pierre olha para mim com o mesmo olhar da mãe.

- Eu prometo

- Eu prometo – Alexander disse logo depois de mim

Um sorriso de alívio momentâneo surge nos lábios de Juliette. Eu não poderia ter dito outra coisa, as vezes uma mentira ajuda mais que uma verdade. Ela solta a minha mão e as juntas no seu colo.

- Vamos fazer uma vigília – Digo – Eu vou primeiro, descanse Alexander

- Idiota, eu vou primeiro, você passou a manhã e a noite inteira acordado – Alexander pega o revólver e arrasta a cadeira para perto da janela – Agora durma

Eu fiquei um pouco surpreso, mas o obedeço e deito na cadeira, coloco a espada na bainha, fecho os olhos, acho que vou demorar para dormir. Pensamentos começaram a passar pela minha cabeça, pensamentos dos mais diversos, dividas, a guerra, Madame St. Elme, Alexander até mesmo a Charlotte apareceu na minha mente. Comecei a me lembrar de um dia na minha infância, algo bem raro já que não lembro de muita coisa.

Era um dia frio, voltava de algum lugar, entrei em uma cabana, encontrei uma mulher com os meus olhos me pegando no colo e me botando sentado em uma cadeira, minha mãe. Na minha frente tinha uma sopa, não lembro qual era o sabor, apenas lembro que eu comi e estava muito boa.

- Charles!

Abro os olhos rapidamente e começo a escanear ao meu redor. Minha respiração ficou pesada. Alexander estava com a mão no meu ombro, estava com os olhos arregalados.

- Ouvi alguma coisa lá fora

- Onde está Pierre e Juliette?

- Mandei-os se esconderem atrás do balcão – Alexander aponta para o balcão

Eu levanto da cadeira e saco a espada, ando lentamente em direção a porta, Alexander me acompanha com o revólver em punho. Ouço algo tentando girar a maçaneta, aponto para Alexander ir para a esquerda e eu pela direita da porta. Encostamos nos cantos da porta, a maçaneta gira violentamente e a porta treme.

Alexander e eu acenamos com a cabeça. Coloco a espada na frente do meu corpo, Alexander puxa o martelo e aponta para a porta. A porta se abre violentamente, eu golpeio e ouço o som de metal se encontrando, Alexander dispara, mas o invasor usa a bengala para guiar a minha espada em direção a bala para desvia-la. Ele gira a sua bengala e acerta a cara de Alexander que solta o revólver, tento golpear mais uma vez horizontalmente, mas ele foi mais rápido que eu e acerta a minha mão com a bengala e usa a ponta para acertar o meu peito, o ar falta na hora.

O invasor chuta Alexander no estomago, que cai, e me acerta um soco no rosto, caio no chão atordoado.

- Vocês dois são completos retardados e idiotas – Uma voz feminina surge nessa frase.

Eu conheço essa voz. Olho com mais atenção, a surpresa e felicidade me tomam. Madame St. Elme estava bem na minha frente. Olhos vermelhos amendoados, rosto pálido e fino igual ao nariz e os lábios com um batom vermelho. Ela usava um chapéu de aba longa vermelho com uma rosa presa, o chapéu estava ocultando seus longos cabelos ruivos. Seu casaco e calças eram vermelhos com detalhes em preto e sua bota de salto alto de couro negro. Ela segurava a bengala com as duas mãos.

- Esse rapaz apareceu na mansão tarde da noite dizendo que os dois idiotas estavam sendo perseguidos – Ela aponta para Apollon que estava no canto acenando vergonhosamente.

Os soldados da Madame entram no local com rifles empunho e rapidamente tomam posição. É fácil de distinguir os soldados da Madame de outros. Seus soldados vestem sobretudos vermelhos com botões brancos que combinam com a calça e botas de cano longo preto.

Pierre e Juliette saem de trás do balcão e corre em direção a Apollon que corre em direção a eles e se abraçam. Juliette começa a chorar. Madame faz um sinal para que um soldado leve a família para um lugar seguro e sinaliza para que o outro pegue os nossos equipamentos.

Madame se vira para nós, seus olhos mostravam pura reprovação, aquele olhar sempre faz com que sinta calafrios e hoje não foi diferente. Ela rapidamente muda o olhar para o seu olhar materno e sorrir para nós, ela se ajoelha e nos abraça.

- Ainda bem que vocês estão vivos, eu não sei como eu lidaria se um de vocês morressem – Ela olha para nós com um sorriso largo e lágrima nos olhos – Vamos, vocês têm muita coisa para me contar.

Ela se levanta e nós levantamos junto.

- Olha para o estado dos dois – Ela pega a manga do meu casaco e o casaco de Alexander – Parecem dois mendigos

Ela solta e anda em direção a saída, nós a seguimos bem atrás.

Saímos do salão e fomos em direção a rua. A rua estava vazia, apenas havia os soldados da Madame fazendo um corredor em direção as carruagens. Há quatro carruagens, a maior pertence é exclusiva para a Madame. A neve tinha cessado. Ao chegarmos nas carruagens um soldado abre a porta enquanto o outro ajuda a Madame a subir, depois foi Alexander e por último, eu.

Me jogo na poltrona da carruagem, o soldado fecha a porta atrás de mim, sinto o peso do mundo nas minhas costas. Esperamos alguns minutos até que todos embarquem e possamos sair. Ouço o som das máquinas sendo ligadas e partimos de volta para casa.


Notas Finais


Por favor avaliem a história, sou iniciante nessa temática e sou novo como escritor. Aceito críticas construtivas
Espero que gostem
XD


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...