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História Herdeiros da Guerra - Capítulo 41


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Notas do Autor


Olá, pessoal!!!! Decidi fazer diferente dessa vez! Esse capítulo será focado apenas na Aliança! No próximo, teremos a Horda! Espero que gostem!

Capítulo 41 - Capítulo XXXIII Descobertas (Aliança)


A troca de turno dos soldados da Bastilha de Ventobravo acabara de acontecer. Era o final daquela madrugada, o sol mal começava a nascer, mas o movimento já era intenso no local. Aqueles que acabaram de chegar a seus postos, alguns ainda cheios de sono, não se espantaram em ver o rei Varian Wrynn acordado, analisando o novo mapa da imensa mesa do salão, mapa esse onde fora recentemente incluído as novas terras descobertas, apenas admiraram que o rei estivesse disposto tão cedo e admiravam sua capacidade de acordar daquela forma. Não sabia que Varian sequer havia dormido.

Desde que seu filho sumira, Varian não tivera uma única boa noite de sono. Deitava-se e remexia-se, enquanto as imagens de Anduin morto vinham à sua cabeça a todo instante. Depois que Lina partira, as coisas pioraram. Trancara-se em sua agonia, recusando qualquer oferenda de consolo e se apegou à esperança que os dois, em breve, voltariam.

Cada vez que as notícias chegavam de Pandaria, seu coração se apertava. E depois que lia os relatórios e não havia nenhuma notícia de Anduin ou Lina, seu coração tentava não cair no desespero. Sabia que a general estava empenhada na procura, pois a Almirante Rogers dissera que Lina havia ‘sumido’ em meio a Pandária, após fazer contato com os nativos. Como ouvira da própria Lina que faria aquilo, não se preocupou. Porém, já fazia um mês que ela havia partido e Varian já cogitava seriamente simplesmente tomar o portal e aparecer em terras pandarenas.

Naquela manhã estava previsto a chegada de mais notícias, então ele não conseguira dormir e estava à espera do mensageiro quando a porta de abriu. Levantou a cabeça e o que viu fez suas pernas fraquejarem.

Lina estava parada na porta, com um sorriso no rosto.

- Encontrei Anduin e ele está bem. - ela disse. - E você parece cansado, Varian.

Não vossa majestade ou rei. Varian. Era Lina ali e não a general Wood.

Varian não pensou, seu corpo apenas se moveu, vencendo a distância entre eles e a abraçou. Lina não fugiu do contato e deixou-se ser abraçada com força por Varian. Depois do abraço, ele a beijou com paixão e desespero, apertando-a contra o corpo, como se quisesse absorvê-la. Ao ouvir o gemido de dor dela, Varian percebeu que o abraço devia estar apertado e a soltou.

- Lina… - ele murmurou colocando a mão no rosto dela – Eu sabia que você ia encontrá-lo. - e olhando ao redor, franziu o cenho e estranhou – Ele foi para o quarto ou…

- Anduin está bem. - ela disse novamente – Mas se recusou a voltar.

E antes que Varian dissesse algo, ela o soltou gentilmente e pôs um pergaminho selado na mão dele.

- Ele te enviou isso. - falou ela.

Varian pegou o pergaminho, ainda tentando entender as palavras de Lina. Olhou para o pergaminho e depois para Lina e ela fez um gesto com a cabeça, para que ele lesse. Varian caminhou até a mesa do mapa, sentou-se e abriu o pergaminho. Lina sentou-se em frente a ele e esperou.

“Querido pai,

Sei que você deve estar muito chateado comigo nesse momento, pois me recusei a voltar a Ventobravo. Antes de tudo, te digo que a Lina tentou e muito. Não a culpe. Tive, inclusive, que usar meu posto, coisa que detesto, para fazê-la me ouvir e não me levar amarrado de volta para a Bastilha. Para seu alívio, ela deixou Pandora para ficar de olho em mim enquanto ela volta a Ventobravo. Tive que prometer não sair do Templo da Garça Vermelha até a volta de Lina e pretendo cumprir a promessa. Então, não se preocupe.

Meu pai, essas terras são maravilhosas. Tantas belezas e um povo pacífico e forte, que protegem sua família, amigos e terra, cuja lealdade é guiada pelo coração… Me dói ver essa terra assolada pela guerra e pretendo fazer o que estiver ao meu alcance para evitar o sofrimento desse povo que acolheu a mim, a Pandora e a Pietro, quando mais precisamos.

Por favor, peço que não tente me impedir.

Que a Luz esteja com você, meu pai.

 

Seu Filho,

Anduin”

 

Varian ficou um tempo olhando para a carta, mesmo após terminar de lê-la e Lina esperou pacientemente que ele estivesse pronto para falar. Sabia que seria difícil, depois de tanto tempo sem notícias, digerir algo como aquilo. Estava pronta para que ele descontasse sua raiva e frustração nela e até esperava que ele fizesse aquilo. Sentia-se mal por ter escondido de Varian o paradeiro de Anduin por todo tempo em que estiveram juntos, e estava pior ainda por não ter trazido o menino de volta. Por isso, assim que colocara os pés em Ventobravo, fora direto para a Bastilha, enquanto Vincent levava Pietro para ver Theo. Queria aliviar a dor de Varian o mais rápido possível e estava disposta a aceitar quaisquer punições que ele decidisse lhe dar.

Depois de algum tempo em silêncio, e sem tirar os olhos da carta, Varian pediu.

- Conte-me como tudo aconteceu.

Lina narrou para Varian o que ouvira de Anduin sobre sua jornada após a Nau Capitania naufragar. Varian ficou pálido quando ela lhe falou que o menino chegara a ser prisioneiro da Horda, mas que escapara. Depois, contou como eles se reencontraram e como o menino a implorara para que não o levasse de volta ao pai. Nesse momento, Varian a interrompeu:

- Você está com Anduin há quase três semanas? - ele achou que não entendera bem.

- Exato. - Ela respondeu, um nó se formando na garganta.

- E não me avisou. - havia um pouco de acusação em sua voz.

- Não. Anduin pediu que eu não fizesse.

Varian desviou a vista de Lina, como se não aguentasse olhar para ela.

- Varian… - ela começou, mas ele levantou a mão, pedindo que ela não falasse nada.

Um silêncio pesado se abateu sobre eles e Lina desejou que ele estivesse esbravejando e gritando com ela e não imerso naquela perturbadora quietude. Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, ele falou:

- Anduin cita seus sobrinhos na carta. Presumo que ambos estão bem.

- S-sim... - a voz dela saiu um pouco hesitante, mas ela respirou fundo e retomou o controle – Ambos foram acolhidos por pandarens e bem tratados. Pandora decidiu ir para o Templo da Garça Vermelha, para procurar um tratamento para Pietro… - ela se interrompeu – É uma longa história…

- Fale. - o tom foi mais de ordem que de pedido.

Mais uma vez, Lina retomou a narrativa e contou sua parte da viagem: a chegada a Pandaria, a luta contra a Horda, a descoberta do Sha e o embate com o Lorde dos Shado Pans, Taran Zhu. Falou da chegada em Pata’Don e a sua viagem para Sri La. Deixou propositalmente de fora seu encontro com os membros da Horda; ainda lembrava do acordo não-verbal feito com a irmã da elfa que salvara Pandora e Pietro e não pretendia desrespeitá-lo. E Varian não precisava saber daquilo, era algo que não envolvia Anduin e nem prejudicava a Aliança. Depois, ela falou do reencontro com o menino. Não contou sobre todas as emoções que sentira quando o abraçara, mas Varian as sentiu mesmo assim, e foram aqueles sentimentos que o fez baixar sua guarda e amenizou sua frustração.

Enquanto olhava Lina contar sobre o que era o Templo da Garça Vermelha e porque foram para lá, lembrou a si mesmo que ela amava Anduin tanto quanto ele e que devia ter sido difícil para ela manter o segredo. Fora indulgente, como somente pessoas que amam muito o são. E, pela primeira vez desde sua chegada, a viu de verdade. Ela dissera que ele estava cansado, mas era perceptível que o mesmo podia ser dito ao seu respeito; seus olhos estavam fundos e cheios de olheiras e Lina perdera peso. Seu cabelo, normalmente bem cuidado, estava desalinhado e sua armadura, que saíra dali brilhante e impecável, exibia arranhões e amassados. Lina lutara e vencera e seu cansaço era a prova disso.

- Lina… - ele falou quando ela terminou o relato, procurando sua mão e a apertando – Eu… - ele baixou a cabeça – Eu não sei…

- Tudo bem. - ela apressou-se em dizer – Você tem todo direito de estar irritado.

- Mas não devia. - ele argumentou – Você disse que o acharia e o fez. Você o deixou em segurança…

- Eu também disse que o traria, e não o fiz.

- A Luz sabe o quanto Anduin consegue ser teimoso, quando quer algo. - Varian balançou a cabeça – Por que ele tinha que puxar logo isso a mim?

- Eu acho um traço charmoso da personalidade de vocês. - gracejou ela, sentindo-se um pouco melhor – Claro, quando a teimosia não é direcionada a mim.

Varian deu uma risada sem graça.

- Você é a única que pensa assim. - garantiu ele.

As mãos deles ainda estavam unidas, quando Varian, depois de um breve silêncio, pediu:

- Eu preciso de um momento, Lina. Para… - ele deu uma rápida olhada no pergaminho – Para digerir isso.

- Eu entendo… E eu preciso ir em casa, rever os loucos e ver se todos estão inteiros. - ela, relutantemente, soltou a mão dele – Posso passar aqui antes de voltar a Pandaria? - quis saber.

- Você já vai voltar? - perguntou ele, surpreso.

- Sim. Não pretendo deixar Anduin muito tempo sozinho. Pretendo voltar hoje mesmo. - ela hesitou um pouco – Se não puder me receber, eu entendo e-

- Lina. - ele a interrompeu – Anduin realmente está seguro? - perguntou.

- Sim, está. - garantiu ela.

- Então fique mais alguns dias. - pediu – Sua família vai gostar disso. E eu também.

- Ficarei então. - ela sorriu.

Varian a puxou para um beijo, por cima da mesa. Foi um beijo rápido, uma despedida breve. Depois, Lina se levantou e Varian fez o mesmo. Ela apertou a mão dele mais uma vez, sorriu e soltou a mão dele, relutantemente, antes de sair. Varian desabou na cadeira assim que a porta se fechou e pegou novamente a carta de seu filho.

Tinha muito em que pensar.

 

*****************

Lina desceu as escadarias da Bastilha sentindo-se derrotada. Detestava ter falhado com Varian, mesmo que ele tivesse dito que sabia como era Anduin e a entendia. Porém, a expressão de desapontamento que viu em seu rosto a desarmou completamente. Só a Luz sabia o quanto doera.

Ao chegar no sopé da escadaria, seu coração acalmou-se ao ver que Vincent e os demais a aguardavam. Àquela altura, imaginava que todos já estivessem em casa, mas ficava feliz em ver que eles tinham decidido esperar por ela. Entre eles, Rukiah se destacava atraindo tantos olhares dentro de Ventobravo quanto os humanos atraíram em Pandaria. A pandarena havia sido convidada por Pietro para conhecer Ventobravo e ela aceitara o convite de Pietro com animação, ansiosa para conhecer uma cidade humana. E enquanto as pessoas encaravam a sacerdotisa, ela analisava os prédios, as plantas e pessoas com admiração.

- Lina! - ela exclamou animada, acenando quando a viu – Que bom que voltou!

- E inteira. - comentou Rubrarosa.

Lina deu de ombros.

- A reunião foi tão tensa quanto seu rosto dá a entender? - perguntou Vincent, preocupado.

- Poderia ter sido pior. - Admitiu Lina – Não fui demitida, nem Varian saiu correndo para Pandaria. Então posso considerar isso um sucesso.

- Podemos ir para casa então? - perguntou Pietro, ansioso.

- Poderiam ter ido sem mim. - falou Lina – Mas confesso que, vê-los aqui, me fez bem.

- Agradeça a Pietro, a ideia foi dele. - revelou Rubrarosa.

Lina deu um imenso sorriso para seu sobrinho e inclinou-se, dando-lhe um beijo estalado no rosto.

- Meu herói! - exclamou ela – O que eu faria sem você?

Pietro riu, com o rosto vermelho de vergonha.

- Vamos, então. - Chamou a general.

Pietro tomou a frente, flutuando em seu disco com agilidade, acompanhado de perto por Rukiah, que não parava de fazer perguntas ao menino sobre a cidade. Lina vinha um pouco mais atrás, com Vincent e Rubrarosa, e ficou satisfeita por nenhum dos dois ter tentado começar uma conversa ou tentado consolá-la. Só precisava de um tempo para lidar com aquilo, da mesma forma que Varian.

Quando chegaram na rua da casa dos Wood, Lina olhou com melancolia para a casa de três andares. As flores tinham aberto na trepadeira que Doroteya tinha plantado, dando um ar singelo e aconchegante ao local. Percebeu então o quanto estava cansada e o quanto queria tomar um banho em sua banheira, comer um pouco da comida de Doroteya e dormir pelo menos uns dois dias antes de voltar a Pandaria.

- Aquela é nossa casa! - avisou Pietro apontando a casa para Rukiah.

- Que linda! - exclamou a pandarena – E alta… Vocês adoram casas altas, não?

Em Pandaria, apenas os prédios mais luxuosos tinham dois andares. Lina ainda não vira nenhum que tivera três.

- Complexo de superioridade. - ironizou Rubrarosa.

Eles riram.

- Você avisou que estávamos chegando? - perguntou Vincent enquanto subiam as escadas.

Lina assentiu.

- Se chegássemos sem avisar, poderíamos matar Mel de um ataque do coração. - falou Lina tomando à dianteira e abrindo a porta – Chegamos!

Como se tivesse sido invocado pelas palavras da irmã, Mel foi o primeiro a aparecer na sala. Correu na direção de Lina, mas em vez de abraçá-la, a empurrou para o lado e pulou em Vincent, passando as pernas pela cintura dele e agarrando-o com vontade. Vincent deu uma gargalhada enquanto Mel o enchia de beijos.

- Como é bom ser recebida pelos irmãos. - ironizou Lina, mas ela tinha um sorriso no rosto. Entendia perfeitamente Mel, pois gostaria de ter feito o mesmo com Varian.

Depois, Theo chegou correndo. Ele foi direto até a tia e a abraçou com força. Sem entender o porquê, Lina sentiu uma grande vontade de chorar.

- Tia Lina! Eu tava com saudade! - ele exclamou.

- Eu também, meu amor! - Lina segurava as lágrimas enquanto abraçava o menino com força.

Theo a soltou e voltou-se para Pietro,

- Pietro! - ele viu o disco e ficou boquiaberto – Ele é mais legal do que você descreveu nas cartas!

- Não é?! - animou-se Pietro – Olha o que posso fazer! - E começou a girar no disco.

- Que legal! - concordou Theo e quando Pietro parou de girar, o menino foi até ele e trocaram abraços apertados – Eu tô tão feliz que você esteja bem, Pietro! - Theo já estava em prantos – Eu rezei tanto para isso!

- Eu também, Theo! - Pietro também chorava – É tão bom ter força nos braços para te apertar assim! - e deu um aperto forte em Theo, que este ficou sem ar.

Lina respirou fundo, ainda tentando não chorar, mas assim que Doroteya chegou na sala, carregando um pequeno pacote, embrulhado em uma manta e sorrindo para ela, a general não aguentou. Caiu em lágrimas também e foi até a amiga, que considerava como uma irmã, e a abraçou.

- Lina… - murmurou Doroteya passando a mão em suas costas – Sentimos sua falta.

- Fale por você, Doro. - falou Tommy chegando logo em seguida – Nunca tive um mês tão tranquilo nessa casa.

Apesar de dizer aquilo, ele logo puxou a irmã para um abraço apertado.

- Você é mesmo muito teimosa. - murmurou ele, apenas para Lina ouvir – Você realmente os achou.

- Você sabe que eu sempre consigo o que quero. - murmurou ela de volta, sem afrouxar o abraço.

Os irmãos ainda estavam abraçados fortemente quando Lasciva veio do quintal e precipitou-se nos braços de Rubrarosa. Doroteya foi até Pietro, o abraçou com força e o beijou no rosto, antes de mostrar o bebê a ele.

- Pietro, essa é sua prima, Liana. - disse a druidesa, afastando a manta e mostrando a menina que agitava os braços freneticamente

- Uau! - exclamou o menino feliz e surpreso – Ela é imensa! Posso pegá-la? Eu tenho força nos braços agora! - e fez um muque.

- Claro, querido. - concordou Doroteya – Deixe-me te mostrar como se faz.

Rukiah assistia, emocionada, aquele reencontro. Até então, a maior parte das coisas que vira dos estrangeiros era sua vontade irascível de atingirem seus objetivos e uma bondade forjada na luta pela sobrevivência. Ali, estavam em casa, reencontrando seus amados e, naquele momento, não eram tão diferentes dos pandarens. O amor realmente unia todas as raças.

Depois que Lina soltou-se do irmão, segurou o rosto dele por um momento, analisando seu rosto, e apertou os olhos.

- Sua barba está com muitos fios brancos. - ela constatou.

- É o resultado de ser seu irmão. - falou Tommy coçando a barba – Você ainda vai me matar do coração, sabia?

- Não matei até agora, não vou matar mais.

- Acho que sim. - e rindo, virou-se para Pietro – E eu, Pietro? Seu tio favorito não vai ganhar um abraço?

- Estou ocupado com Liana. - falou o menino seriamente, com a menina nos braços.

Todos caíram na risada.

- Eu também me trocaria por ela. - garantiu Tommy.

- Onde está Fey? - quis saber Lina olhando para os lados – Por que não está aqui para reclamar que Mel provavelmente vai matar Vincent sem folego desse beijo?

Vincent e Mel ainda estavam presos no mesmo beijo desde que todos chegaram e até Lina estava ficando sem jeito.

- Ok, vocês dois, menos, por favor. - pediu Lina.

Relutantemente, Mel interrompeu o beijo e desceu de Vincent, colocando os pés no chão novamente, mas sem largar a cintura dele.

- Fey foi deixar uma encomenda, mas deve tá voltando. - explicou Mel – Ele queria que eu fosse, mas ainda bem que eu não concordei. Eu estava sentindo que você estava chegando! - falou, apaixonadamente, para Vincent, colocando a cabeça no peito dele.

- Ah, o amor é lindo. - disse Lina, em tom de deboche. - Bem, antes que possamos comer o que quer que vocês fizeram e que eu estou sentindo o cheiro, quero apresentar alguém a vocês. - e fez um sinal para Rukiah se aproximar – Vem cá, Rukiah, eles são feios, mas não mordem. - e olhando rapidamente para Doroteya, corrigiu – A menos que você mereça, aí você pode acabar com a garganta destroçada.

Rukiah caminhou um pouco acanhada, até ela e parou do seu lado.

- Gente, essa é a Rukiah. Ela é pandarena e foi ela quem ajudou Pandora e Pietro em Pandaria. - apresentou Lina com um sorriso.

- É um prazer conhecê-los. - disse Rukiah fazendo uma reverência a todos.

- É um prazer conhecê-la, também, Rukiah. - falou Doroteya, gentilmente – Na carta de Lina, ela falou tão bem de você. Estamos felizes em tê-la conosco.

- Estou muito feliz em conhecer vocês. - garantiu a pandarena – Pandora e Pietro falaram tanto da família deles que é como se eu os conhecesse um pouco!

- Eu fiz um café da manhã reforçado para todos! - anunciou a druidesa – Espero que estejam com fome!

- Estou ansiosa para provar sua comida! - confessou Rukiah – Todos falam tão bem dela!

- Espero que ela corresponda aos relatos. - desejou Doroteya – Venham.

A mesa estava posta no quintal e todos se reuniram em torno da mesa, como sempre fazia naqueles dois anos que moravam juntos na casa. Enquanto Pietro atacava a comida e contava animado sobre sua viagem, Rukiah olhava interessada para Liana.

- Como são pequenos, os filhotes humanos. - ela comentou – Será a falta de pelo?

- Nós chamamos os filhotes humanos de ‘bebês’. - explicou Lina pegando Liana no braço – E por que tanta manta, Doro? A menina deve tá cozinhando dentro desse pacote.

- Ela é friorenta. - explicou Doroteya – Chora bastante se não está bem agasalhada.

- Quero ver ela inteira. - disse Lina antes de pôr a menina em cima da mesa e praticamente desembrulhá-la – Olha só, Liana linda de tia. - disse com voz de bebê – Você tá o dobro do tamanho da última vez que a tia te viu.

- Ela era menor? - Rukiah surpreendeu-se olhando a menina – Nossa…

Depois de alguns instantes, Liana começou a mexer os bracinhos e perninhas e a chorar. Lina rapidamente a ‘embrulhou’ novamente, e a menina parou.

- Viu, eu disse. - falou Doroteya rindo – Ela sente muito frio.

- Nem quero ver quando chegar no inverno… - comentou Lina.

Pouco tempo depois, Fey chegou e foi logo gritando entusiasmado com a chegada da família. Mel gritou também, sendo acompanhando por Pietro, que foi prontamente abraçado por Fey. Liana acompanhou a família nos gritos, mas no caso dela era fome. Depois de abraçar Pietro por tanto tempo que o menino ficou sem fôlego, Fey agarrou Lina e a encheu de beijinhos.

- A casa fica tão silenciosa sem você! - ele exclamou chorando.

- É só desembrulhar Liana e você terá uma melodia constante no melhor estilo ‘Lina irritada’. - gracejou Lina.

- Pela Luz, não. - disse Fey soltando-a – Tudo tem um limite.

- Pelo menos eu ganhei beijo de um alfaiate. - falou Lina bem alto olhando significativamente para Mel.

- Ah, ciumenta! - brincou Mel se levantando e indo dar beijos em Lina também – Pela Luz, olha só esse seu cabelo! Tá horrível! Precisamos te dar um trato antes de você ir ver o rei!

Uma sombra perpassou o rosto de Lina, enquanto ela pensava se ele quereria vê-la depois.

- Claro. - concordou ela, forçando um sorriso – O que vocês quiserem.

Os irmãos começaram a fazer planos, pegando no cabelo de Lina e analisando a pele dela, enquanto a general tentava se mostrar animada, mas Doroteya pode perceber que havia algo errado.

Com todos em casa, o café da manhã ficou mais barulhento e divertido. Rukiah provou de tudo e amou a comida de Doroteya, perguntando, empolgada, quais eram os ingredientes de tudo que provava. Depois de um tempo de animação, Doroteya entregou Liana para Tommy, se levantou discretamente e colocou a mão no ombro de Lina, fazendo um gesto quase imperceptível com a cabeça para ela. Lina assentiu e Doroteya foi para a cozinha. Alguns instantes depois, Lina levantou-se e foi até onde Doroteya estava. A druidesa colocava uma chaleira no fogo e sorriu para Lina assim que ela entrou na cozinha.

- Você não vai ficar muito tempo, não é? - foi a primeira coisa que Doroteya perguntou.

- Não. - admitiu Lina – Dois dias, três no máximo. Pandora está sozinha com Anduin e eu… - ela respirou fundo – Eu estou me sentindo uma derrotada, Doro.

- Por que? - surpreendeu-se a druidesa – Você fez exatamente o que disse que ia fazer. Achou as crianças e as deixou em segurança!

- Não totalmente. - Lina encostou-se na parede, olhando para o teto – Anduin se recusa a voltar. E mesmo Pietro só veio ver o Theo. Ele vai estudar para ser sacerdote. E Pandora…. Pandora não vai deixar o irmão sozinho. Nada será como antes…

Lina sentiu quando Doroteya colocou a mão em seu ombro e a encarou. A druidesa sorria.

- As crianças crescem e tem suas próprias vontades. - disse Doroteya gentilmente – Agora que Pietro está melhor, ele vai querer seguir a vida. Pandora fará o mesmo. Em alguns anos, será Theo. Depois, Liana. - ela sorriu – E assistiremos a isso, entristecendo às vezes, mas feliz por eles.

- Vamos ficar duas velhas chatas, você quer dizer. - retrucou a general.

- A outra opção é morrer jovem. - lembrou Doroteya – Eu prefiro ser a velha chata.

- Você nunca será a velha chata. - admitiu Lina dando um pequeno sorriso – Será a velhinha doce que todos ajudam a atravessar a rua. Eu serei a velha que colocarei as crianças pra correr da minha calçada e que fura as bolas que caem no quintal.

- Você já fura as bolas que caem no quintal.

- Elas assustaram meus ajudantes! - defendeu-se Lina – Ah, que seja! Queria que Arshe morasse aqui novamente, para ser a velhinha legal que conta histórias para as crianças.

- Quem sabe a guerra não acaba e ela possa voltar para Ventobravo com Kayliel? - desejou Doroteya.

Lina não acreditava que sua geração veria o fim da guerra, mas, mesmo assim, disse:

- Quem sabe, não é?

A chaleira começou a apitar e Doroteya foi tirá-la do fogão.

- Era só isso que você queria falar? - perguntou Lina se aproximando de Doroteya – Não há mais nada para me contar? Sobre o cachorro doido?

- Não sobre ele, mas sobre a rainha Mia. - revelou Doroteya colocando ervas em um bule com ervas e tapando-o – Ela me mandou flores pelo nascimento de Liana e um pedido para me ver assim que eu estivesse melhor. Mandei um recado agradecendo pelas flores e dizendo que, assim que estivesse pronta, a convidaria para um chá guilneano. Tenho certeza que Fey e Mel não se importariam em eu usar as porcelanas deles. - Doroteya olhou com a testa franzida para Lina – Fiz errado?

- Claro que não. - garantiu Lina – Eu imaginava que ela se aproximaria de você dessa forma. Sutil, delicada, mas dizendo que ainda está aguardando. Como você se sente sobre isso? - quis saber.

- Na verdade, estou bem ansiosa para recebê-la – confessou, para a surpresa de Lina – Liam falava tanto da mãe e eu sempre desejei conhecê-la. Não por ela ser rainha, mas por ser mãe de Liam. Mas tenho medo.

- De ela tentar tomar Theo. - completou a general.

Doroteya a surpreendeu mais uma vez, negando com a cabeça.

- Sei que vai parecer ridículo… Mas tenho medo de ela não gostar de mim. - falou Doroteya sem jeito.

- Tem razão. É ridículo. - decretou Lina.

Em vez de se sentir ofendida, Doroteya riu.

- Imaginei que você diria algo assim. Mas é que… Eu me dou tão bem com sua mãe… Ela é tão amorosa com Theo… Fico desejando que a rainha Mia seja como dona Mariana.

- Espere aí! - interrompeu Lina levantando as mãos – Ninguém nunca será igual à minha mãe! - e falou baixando as mãos – Graças a Luz por isso…

Doroteya riu ainda mais.

- Acho que você entendeu meu ponto. - ponderou a druidesa.

- Sim entendi. E o chá vai esfriar. - avisou apontando para o bule.

Doroteya foi até a janela da cozinha e chamou por Theo, para que ele levasse mais chá para Rukiah. O menino veio correndo, deu um rápido abraço em Lina, pegou o bule e saiu andando devagar, com medo de derrubar água quente em si mesmo. Depois que Theo saiu, Doroteya continuou:

- Agora que você voltou, sinto que é a hora de falar com a rainha Mia. Encarar os fatos e ver no que vai dar.

- Obrigada por me esperar voltar. Quero estar por perto quando a reunião acontecer. Assim, qualquer coisa, você grita e eu vou salvar a rainha Mia de sua ira e evitar que Greymane tente lhe enforcar depois.

Doroteya deu outra risada.

- Lina, como senti sua falta aqui! - exclamou, com lágrimas nos olhos – Quando voltar a Pandaria, lembre-se de voltar para casa toda semana, sim? É difícil sem você aqui.

- Acho que você é a única pessoa que pensa assim. - comentou Lina, também com os olhos marejados – E, confesso, sinto sua falta loucamente. Rubrarosa é legal, mas ela não rasga gargantas! Tipo, ela tem aquela boca enorme de worgenin, mas prefere matar com a espada! Desperdício de dentes!

- Concordo. - disse Doroteya balançando a cabeça e sorrindo – E o Vin?

- Me faz rezar todo dia de manhã quando levantamos e antes de dormir. Parece minha mãe. - reclamou – Mas é quem tem me salvado, pois sabe cozinhar. Se depender de Rubrarosa, morro de fome. - Lina suspirou – E sabe, eu fico pensando o tempo todo: que grupo maravilhoso seria se Doro e Arshe estivessem aqui! O Vin ia na frente, com aquele escudo imenso dele, você nos curava e eu, Rubrarosa e Arshe cuidávamos do resto!

- Quem sabe quando Liana estiver maior, não é? - desejou Doroteya – Mas já falamos demais de mim. E você? Como foi com Varian?

- Horrível. - admitiu – Mas espero que possamos conversar novamente antes de eu voltar para Pandaria.

Doroteya pensou em insistir, pedir que ela se abrisse mais sobre como se sentia, mas sentiu que precisava dar espaço para Lina, deixá-la decidir a melhor hora para falar.

- Vamos voltar para o quintal. - chamou a druidesa – Depois, peço para Tommy preparar um banho quente para você.

- E eu espero dormir até amanhã. - desejou Lina – Na minha linda e maravilhosa cama.

- Troquei os lençóis hoje, pois imaginei que você faria isso mesmo. - comentou Doroteya sorrindo.

- Doro, você é um anjo! - Lina deu duas tapinhas no alto de sua cabeça. – E quando quiser chamar a rainha Mia, apenas me avise. Tiramos Theo de casa e eu fico de guarda na porta para evitar o cachorro louco.

- Pode ser amanhã? - perguntou Doroteya ansiosa.

- Claro. À tarde? Para um chá?

Doroteya assentiu.

- Ótimo. Escreva o bilhete que eu mesma levo. Aproveito que vou a bastilha e falo com Lady Cláudia. Depois que dormir o máximo que puder, claro.- Lina se espreguiçou – Espero que o cachorro doido não me encha o saco. - e então, lembrou de perguntar – E Tommy? O que acha de seu encontro com a rainha Mia?

- Disse que eu não falasse para sua mãe, porque ela ficaria com ciúmes. - revelou a druidesa.

- Com certeza! E era capaz de se mudar para cá apenas para garantir que Theo a consideraria a melhor avó!

- Não seria ruim. - comentou Doroteya enquanto caminhavam de volta ao quintal – Dona Mariana passou dez dias aqui me ajudando com Liana e foi ótimo!

- Aposto que meus irmãos têm uma opinião diferente…. - comentou.

- Bem… Sim… - admitiu Doroteya – Ela brigava com eles o tempo todo!

- Como imaginei….

Assim que voltaram para o quintal, a primeira coisa que ouviram foi Rukiah, virando-se para Lina e perguntando:

- Seu nome é realmente Quengacilina?

- Quem foi o filho duma puta que disse isso?! - gritou a general enfurecida.

- Ei! - exclamou Mel – Respeite a mamãe!

- Você…. - Lina estreitou os olhos e correu na direção do irmão.

- Vin, me proteja! - gritou Mel pulando para o colo do namorado.

- Ele não vai te proteger! - Lina gritou e praticamente pulou em cima do irmão.

Doroteya olhou a cena, de Vincent tentando impedir Lina de esganar Mel e sorriu, aliviada. Apesar do tempo e da distância, nem tudo mudara. E aquilo era reconfortante.

 

*************

Era apenas meio-dia, mas Lady Cláudia já estava exausta. Preferia mil vezes as responsabilidades que tinha em uma expedição ultramarina do que o trabalho de cuidar da Bastilha de Ventobravo. Estar fora de casa, e um lugar estranho e com perigos à volta fazia só soldados ficarem mais atentos e mais obedientes aos comandos; em casa, sem nenhuma ameaça explicita deixava os comandados preguiçosos, lentos além de resistentes; era mais fácil conseguir que seus filhos de dois anos a obedecessem que alguns militares de patentes mais altas. Pelo menos, nos militares, podia bater.

Depois de uma manhã para lá de estressante, se dera o luxoi de ir almoçar na sua taverna favorita, perto da bastilha. Se voltasse para casa, corria o risco de ficar por lá o resto da tarde e, quando voltasse a noite, era capaz de terem colocado fogo na bastilha em sua ausência. Deixaria para ir embora quando fosse noite, assim encerraria tudo, chegaria em casa, tomaria um belo banho de banheira com Horatio massageando seus pés, se estressaria com suas crias, e depois podia dormir, quando os gêmeos apagassem.

Estava de cabeça baixa, massageando as têmporas, quando ouviu uma voa que não ouvia há algum tempo, perguntar:

- Dia difícil?

Lina estava do lado de sua mesa e sorria para Cláudia, que sentiu um imenso alívio.

- Pela Luz, me diga que você veio retomar o seu posto na bastilha!

- Infelizmente não. - falou, para a tristeza de Cláudia – Vim apenas fazer algumas coisas antes de voltar a Pandaria.

- Então, pelo menos, almoce comigo e ouça minhas reclamações. - convidou Cláudia apontando a cadeira a sua frente.

- Você sabe que eu não nego comida, não é? - riu Lina sentando-se a sua frente.

Apesar da aparência cansada, Cláudia achou que Lina estava melhor do que visualizara naquela manhã quando ela chegou. Provavelmente tinha tomado um demorado banho e seus irmãos visivelmente cuidaram de seu cabelo e unhas.

- Não esperava-a por aqui tão cedo. - comentou Cláudia – Sei que chegou hoje cedo e conversou com o rei. E que o príncipe não veio.

A expressão de Lina deixara claro que aquele assunto a incomodava.

- Esqueça. – apresou-se em dizer a general-brigadeiro – Não vamos falar disso.

- Não é um assunto fácil. - admitiu Lina – E confesso que não me sinto à vontade para falar. Digamos apenas que Anduin me convenceu que ele deveria ficar em Pandaria e o rei não ficou feliz com isso. - ela deu de ombros – Não há muito o que eu fazer com relação a isso.

- Sabe o que você devia fazer? Descansar. - alertou Cláudia – Vejo que Fey e Mel já deram um trato no seu visual, mas as olheiras ainda estão aí.

- Ah, eles me puseram em uma banheira, me esfregaram até trocar minha pele, cortaram as pontas do meu cabelo e Fey fez minhas unhas enquanto Mel estava se agarrando com Vin. - Lina olhou as unhas, rindo – E eu pedindo pra ir dormir, mas não deixaram. Decidi então aproveitar que ninguém se calava naquela casa e vim fazer algo para Doroteya. Depois, vou comprar um monte de algodão, entupir os ouvidos e dormir até amanhã.

- Queria poder fazer isso. - Cláudia se encostou na cadeira e olhou para cima – Como eu queria uma folga! - e olhando para Lina, perguntou, inquisitiva – Como você dava conta disso?

- Ameaçando todos de morte. - falou com simplicidade – Tente, da próxima vez.

- Argh! - Cláudia resmungou – Acho que nem assim. Prefiro mil vezes está pelo mundo! Vou deixar Pandaria com você, mas na próxima, com os meninos maiores, vou seguir pelo mundo!

- Se é o que deseja, terá meu apoio. Ou eu posso dar umas prensas nos que estão lhe dando trabalho e ameaçá-los eu mesma.

- Oh, por favor! - implorou Cláudia rindo e Lina a acompanhou.

O almoço foi trazido e elas comeram enquanto atualizavam uma a outra do que estava acontecendo, tanto em Ventobravo quanto em Pandaria. Cláudia deu dicas a Lina de como proceder em um lugar estrangeiro e Lina a ajudou com estratégias para manter a bastilha funcional e a cabeça dos soldados em seus pescoços. A refeição acabou demorando mais do que Cláudia queria, mas estava agradecida de ter conversado com Lina. Desejava que a amiga resolvesse logo seus problemas com Varian.

- A propósito, tenho uma novi9dade. - falou Cláudia quando estavam saindo da taverna – Eu e Horatio oficializamos o casamento.

Lina a encarou, confusa.

- Como assim? - perguntou, sem entender. Para ela, oc asamento deles era mais que oficial.

- Depois que o príncipe Anduin permitiu pessoas sem títulos nobres ascendessem no exército, entramos com uma requisição para oficialização do nosso casamento, pois a lei que ele editou não colocava limitações aos postos, então poderiam ser postos civis também. - ela riu – Meu pai achou essa brecha para permitir que Horatio herdasse o título dele e os meninos também. Eu não me importava com isso, mas era importante para o velho. Na verdade, eu soube que, depois do meu, outros casamentos aconteceram. - Cláudia sorriu para Lina – E isso pode ser vir para você também?

- Eu já tenho meu posto. - lembrou Lina.

- Estou falando sobre você e o rei.

Lina sentiu o rosto ficar quente diante da insinuação de Cláudia.

- Não. Isso jamais aconteceria. - decretou ela.

- Por que não? - quis saber Cláudia – Todos já sabem de vocês.

Claro que sabiam, pensou Lina. Foram pegos beijando-se na biblioteca, na maior burrice que fizeram desde que começaram o relacionamento. E, no dia seguinte, se abraçaram intimamente ao se despedir. Lina tinha certeza que os boatos correram soltos e percebeu que já nem se importava mais. Na verdade, pensando agora, talvez tivesse sido paranoica demais. Mas nãos e arrependia. Todavia, uma coisa era ser amante do rei. Estava confortável naquele papel. Agora, esposa. Não. Não. Definitivamente não. Amava Varian, aclaro. Se ele fosse um homem normal, já estaria se imaginando casada e, pela Luz, arriscaria até uma criança. Mas ele era rei. E ela não queria ser rainha. Porém, não foi isso que disse a Cláudia.

- Depois de nossa conversa hoje, não sei nem se continuaremos juntos. - era difícil admitir aquilo, mas era algo que ela não podia descartar, mesmo que não acreditasse que aquilo aconteceria.

- Besteira. Ele apenas precisa de um tempo. E sei que você vai dar.

Estavam chegando as escadarias da bastilha e Lina parou de repente. Pensou no que Cláudia dissera e percebeu que não queria correr o risco de aparecer lá e Varian achar que ele estava pressionando-a.

- Cláudia, me faz um favor? - pediu.

- Claro.

Lina estendeu uma carta para Cláudia.

- Entregue isso a rainha Mia, por favor?

Cláudia pegou a carta.

- Pode deixar, entregarei agora mesmo. - garantiu – Precisará de resposta?

- Não. Já sabemos qual será. Obrigada.

- Vai para casa dormir até amanhã? - brincou Cláudia guardando a carta dentro da armadura.

- Ah, com certeza! Acho que vou arriscar até colocar alguma coisa no rosto, daquelas bem gosmentas que meus irmãos gostam. - ela riu – Acho que estou precisando.

- Boa sorte, então. E espero que você vá nos visitar antes de voltar para Pandaria.

- Irei, com certeza. Vamos combinar o dia.

E com um breve aceno, se despediram, Lina sabendo que poderia descansar sem preocupações por aquele dia. Afinal, duvidava que a rainha Mia não estivesse à porta da sua casa na tarde do dia seguinte.

*************

Mia Greymane respirou fundo, controlando o leve tremor de suas mãos. Em frente a porta da casa da general Wood, a rainha se preparava para conhecer a mulher que seu filho amara e que era mãe de seu neto. Um encontro com dez anos de atraso.

Greymane não ficara nenhum pouco satisfeito com sua decisão de ver Doroteya, principalmente sozinha. Ela negou a presença do marido, da filha e de qualquer outra pessoa. Precisava ver Doroteya sozinha. O máximo que permitira foi ser escoltada até a casa da general Wood por alguns soldados de Guilneas, mas os dispensou assim que chegaram. Em suas mãos, uma caixa de biscoitos de gengibre, uma iguaria tradicional de Guilneas, que levava para oferecer à sua anfitriã. Era um costume guilneano que a rainha fazia questão de perpetuar: sempre levar biscoitos ao ser convidado para uma visita. Esperava que Doroteya gostasse.

“Vamos lá Mia, chegou o momento.”, disse para si mesma antes de tocar o sino na entrada da casa.

Ouviu passos se aproximando e seu coração acelerou mais. Segurou a caixa com os biscoitos com mais força, para conter a ansiedade. Esperava que sua roupa estivesse de acordo com a ocasião. Dispensara os trajes opulentos e vestia apenas um vestido marfim com detalhes lilases e sapatilhas, seus cabelos grisalhos presos em um coque. Quando a porta se abriu, viu que era Lina quem estava do outro lado. Surpreendeu-se com a aparência da general. Estava acostumada a ver Lina toda aparamentada, em sua armadura e com a expressão sisuda. Ali, em casa, apesar de não sorrir, sua expressão parecia mais leve. Ela usava roupas civis e seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo.

- Majestade, seja bem-vinda. - ela disse educadamente dando um passo para o lado e convidando-a entrar com um gesto.

- Obrigada, general. - agradeceu a rainha, entrando – Você tem uma bela casa. - elogiou com sinceridade.

- Graças aos meus irmãos, eles têm bom gosto. - admitiu Lina fechando a porta – Doroteya está no terraço, a sua espera. Me acompanhe, por favor.

Mia acompanhou Lina até a escada, mas em vez de subirem por elas, Lina fez um gesto para ela entrar num pequeno elevador. Depois de uma subida rápida, chegaram a uma porta e, quando a atravessaram, estavam em um lindo terraço, iluminado à luz da tarde, onde um pergolado pendia cheio de flores. Uma típica mesa de chá guilneana estava posta. A toalha da mesa era simples, branca com pequenas flores bordadas nas pontas. Sobre ela, duas xícaras delicadas de porcelanas repousavam em seus pires ornamentados. O bule expelia fumaça e perfume de hortelã no ar, harmonizando perfeitamente com as iguarias que repousavam em bandejas de tamanhos diferentes, disposta como uma pirâmide, sendo uma maior na base, contendo pequenos sanduíches, a do meio de tamanho médio, com alguns bolinhos e a menor a de cima, com biscoitinhos de chocolate. As bandejas eram unidas por uma haste de metal prateada, que dava um chame elegante ao conjunto. Uma jovem mulher as aguardava com um bebê em um cesto ao seu lado. Mia tomou um choque. Aquela era Doroteya? Ela não era nada como imaginava.

Durante aquele mês em que aguardava para encontrá-la, Mia buscara na memória alguma imagem de Doroteya andando ao lado de Lina. Porém, sempre que a vira, ela estava na forma de worgenin, então não tinha ideia de como ela era em sua forma humana, na forma em que Liam a conhecera. E agora que a via… Bem, não era o que esperava. Depois de tudo que ouvira de seu marido e de Tess, imaginava Doroteya como uma mulher fatal, sensual, esbanjando luxúria. Todavia, Doroteya era… fofa. Pelo menos foi à primeira coisa que pensara ao vê-la usando um vestido bege simples, com um corpete verde, os volumosos cabelos presos em um rabo de cavalo, sem maquiagem, nem joias, uma beleza natural e modesta.

Assim que viu a rainha, Doroteya levantou-se e fez uma reverência. Mia percebeu que ela era uma mulher baixa.

- É um prazer recebê-la, majestade. - disse visivelmente nervosa.

- É um prazer finalmente conhecê-la, Doroteya. - falou Mia, com uma pontada de nervosismo também – Trouxe um pequeno mimo. - e estendeu a caixa de biscoitos.

- Muito obrigada, majestade. - agradeceu Doroteya pegando a caixa – Sente-se, por favor. - e apontou para uma cadeira.

Lina viu a troca de gentileza entre as mulheres e pensou no que teria acontecido se aquele encontro tivesse acontecido antes do nascimento de Theo. Ou, quando Theo tivesse a mesma idade de Liana, que estava ao lado da mãe. Não seria um encontro melancólico, como aquele provavelmente seria, mas teria a mesma intensidade.

- Bem, eu e Liana vamos deixá-las a sós. - Lina foi até o cesto e tirou a menina de lá – Eu e a Lili vamos nos divertir juntas, não é? - a general falou com voz de bebê com a sobrinha – Titia tem um montão de relatório pra ler e Lili vai ajudar, não é? - e colocando a menina no colo, acenou com a cabeça para a rainha Mia e saiu.

Seria realmente uma tarde surpreendente, pensou Mia. Primeiro Doroteya não era nada como imaginava, e agora via a general Wood falando com um bebê de forma fofa e a carregando com a experiência de quem já acalentou muitas crianças. Não era um aspecto que esperava ver de Lina. Talvez por isso Varian estivesse apaixonado por ela. A general tinha muitas camadas e a maioria das pessoas só via a exterior.

Ao serem deixadas sozinhas Doroteya e Mia sentiram-se um pouco deslocadas, sem saber como começar a falar. Doroteya, então, pegou o bule com o chá quente e serviu a rainha e depois a ela própria. O cheiro maravilhoso de hortelã subiu novamente e Mia sorriu.

- É o seu favorito, certo, majestade? - perguntou Doroteya humildemente.

- Sim, é. Obrigada. - ela levou a xícara aos lábios e seu sorriso aumentou – Um toque de limão e mel. Como sabia?

- Liam me falou. - comentou timidamente.

O coração de Mia apertou-se um pouco e ela pousou a xícara.

- Está delicioso. - elogiou.

- A hortelã é cultivada aqui mesmo. - Doroteya apontou para a pequena horta – Gosto de ter ervas frescas para o chá e para cozinhar. Costume de quando eu morava na floresta.

- Cultivar a própria erva é o passo para um chá perfeito. Minha avó dizia isso. - Mia sorriu – Eu tinha uma estufa em Guilneas com todas as ervas que eu gostava. E flores. E alguns legumes. Sinto falta dela.

- Liam dizia que seus nabos eram os melhores. - falou Doroteya sorrindo – Ele chegou a levar alguns para mim. Eu sentia um pouco de inveja, não conseguia fazer meus nabos crescerem tanto.

- Então era ele quem roubava meus nabos?! - a rainha estava incrédula, um pouco chateada e ao mesmo tempo não parava de sorrir – Eu nunca entendia porque eles sumiam!

- Desculpe. - apressou-se em dizer Doroteya, nervosa – Eu não sabia que ele pegava sem sua autorização.

Contudo, a rainha deu uma risada.

- Tudo bem, fico feliz que você tenha provado dos meus nabos. Eu tinha muito orgulho deles.

- Com bons motivos. Eles eram deliciosos.

As duas mulheres sorriram uma para a outra, ainda sem muito jeito e Mia apontou para a caixa que havia trazido.

- Prove os biscoitos. São ótimos. Acho que eu estava adivinhando, pois eles ficam excelentes com chá de hortelã.

- Claro!

Doroteya abriu a caixa, tirou um dos biscoitos e deu uma mordida. Seus olhos e arregalaram por um momento e ela passou a mastigar devagar, como se estivesse surpresa demais para prosseguir. Antes que a rainha perguntasse qual era o problema, a própria Doroteya falou, com a voz pesarosa:

- Tem gosto de Guilneas… - murmurou com os olhos marejados.

Mia entendia muito bem o sentimento. Aquele biscoito era tradicional de seu país, uma receita dominada apenas por quem morara lá e servida nos festejos da cidade.

- É uma conterrânea nossa que faz. - explicou a rainha – Quando eu a descobri fiquei muito feliz. É como ter um pedacinho de casa de volta.

Doroteya assentiu com uma lágrima rolando na face.

- Desculpe… - ela rapidamente limpou a lágrima – Ainda estou com o humor louco por causa da gravidez. - e pegando a caixa de biscoitos, ofereceu à rainha – Por favor, me acompanhe.

Comeram os biscoitos em silêncio, Doroteya sorrindo de poder provar aquela iguaria com sabor de sua terra natal e decidiu guardar alguns para que Theo comece também. Será que ele se lembraria?

- Doroteya. - chamou a rainha Mia e Doroteya a encarou – Fale-me um pouco sobre você.

Doroteya estava esperando que ela perguntasse de Theo e não dela própria.

- O que vossa majestade quer saber? - indagou.

- Tudo.

Havia muito para contar, Doroteya estava ciente disso. Começou contando sobre seu abandono na floresta, o momento em que sua mãe a achara, da criação livre que tivera, seu treinamento desde cedo no druidismo até a morte de sua mãe e por fim, como vivera até conhecer Liam.

- Eu ajudei Genn a elaborar a lei que punia rigorosamente quem abandonasse crianças nas florestas. - falou a rainha depois da revelação de Doroteya – Sei que costumava ser uma prática muito comum.

- Minha mãe falava que eu não era a primeira criança que ela encontrara… Apenas fui à única que ela encontrou com vida… - Doroteya encolheu-se um pouco ao falar – Havia um… Minha mãe fez um pequeno cemitério para eles… - ela parou de falar, deixando as palavras pairarem no ar.

- Sinto muito por isso… - falou a rainha com sinceridade – Sua mãe não tinha nenhuma pista de seus pais biológicos?

Doroteya fez que não com sua cabeça.

- Liam até tentou descobrir algo… Ele brincava dizendo que eu podia ser a filha bastarda de algum nobre. - Doroteya deu uma risada – Mas era apenas um sonho dele. Eu realmente nunca me importei com minha origem. Eu já sabia quem era minha mãe de verdade, nada mais importava.

Mia conseguia imaginar perfeitamente uma Doroteya criança, no meio da floresta, sozinha, vivendo um dia de cada vez, sem grandes ambições. Provavelmente fora aquele desapego, aquele desprendimento de tudo que fizera Liam se apaixonar. A vida de Doroteya era completamente oposta à de seu filho.

- E como vocês se conheceram? - quis saber a rainha, incentivando-a a falar.

A druidesa falou sobre seu relacionamento com ele e também sobre seus sentimentos. Quis deixar claro para a rainha quem, em nenhum momento, o amara por ele ser um príncipe, mas apenas por ser Liam. Quando chegou o momento de falar sobre o rei Greymane e como ele a mandara embora, Doroteya hesitou.

- Foi quando meu marido interferiu. - constatou a rainha, sem alterar sua expressão.

Doroteya sabia que tinha que ser sincera com ela, então respirou fundo antes de falar.

- Majestade, seu… o rei Greymane disse coisas que realmente me magoaram muito. Porém, eu não sinto nenhuma mágoa dele. Entendo que ele pensava que estava defendendo o filho. E eu… - ela deu uma risadinha nervosa – Eu não era exatamente o que se podia chamar de bom partido, não é?

Mia analisou Doroteya por um momento. Não havia nada na druidesa que gritasse que ela fosse uma má pessoa e que não poderia ser conduzida para se tornar uma consorte para Liam. Na verdade, havia uma elegância rústica, modesta, mas delicada em Doroteya e em seus modos que a deixava fascinada. Se ela tivesse sido ensinada e treinada nos modos da corte, daria uma anfitriã excelente. Provavelmente a corte a veria como uma aquisição exótica para a realeza, mas achariam fascinante estar em sua presença, tal como a própria Mia sentia-se naquele momento. Todavia, aquele futuro fora negado a ambas mulheres.

- Eu gostaria de ter sido consultada, na época. – falou Mia, sem esconder o ressentimento – Não há nenhum impedimento legal em Guilneas… – a rainha baixou a cabeça por um momento, antes de corrigir – Não havia nenhum impedimento legal para o casamento de vocês… Seria um escândalo, verdade. Porém, escândalo nenhum seria pior que ver meu filho infeliz… - Mia levantou os olhos para Doroteya e eles estavam um pouco marejados – Por que ele escondeu de mim?! Ele achava que eu iria… Que eu faria exatamente o quê?

Doroteya recuou um pouco, sentindo-se intimidada pela dor da rainha, que logo percebeu que fora interpretada erroneamente.

- Não querida, não estou te culpando ou te atacando… - Mia respirou fundo, procurando se acalmar – Estou apenas pensando que tipo de mãe eu fui para meu filho esconder algo tão importante assim de mim…

Doroteya se colocou no lugar de Mia por um momento. Pensou no que sentiria se Theo guardasse um segredo daquela magnitude dela. Lembrou então de como se sentira quando seu filho se viu forçado a ir até a bastilha, chamar por Lina enquanto estava em casa em trabalho de parto. Ele fora, mesmo sabendo que era o melhor a ser feito, mesmo que isso significasse deixá-la chateada. Ele fizera porque a amava. Seu coração ficara desesperado quando soubera, mas entendera depois.

- Às vezes os filhos fazem algo pensando que estão fazendo o melhor para proteger suas mães… - disse Doroteya.

- Eu não queria ser protegida! - exclamou Mia lutando contra as lágrimas – Eu queria participar da vida de meu filho! De meu neto! Da sua também! Por que só pude descobrir isso depois da morte dele?! Apenas para saber tudo que me foi negado?!

Doroteya sentia muito por Mia. Saber algo tão importante depois de tanto tempo… Como se não bastasse à dor de ter seu filho amado retirado dela… Somente em pensar perder seu menino já tirava seu ar, então a dor que a mulher à sua frente sentia era maior que qualquer uma que ela, Doroteya, sentira em toda sua vida. Pensando nisso, inclinou-se e pegou gentilmente na mão de Mia. A rainha a encarou, um pouco surpresa.

- Liam te amava. - garantiu Doroteya – Te amava muito. Por isso ele não contou nada. Ele não queria te decepcionar. Ele sabia que vossa majestade tinha grandes planos para o casamento dele e ele queria te proporcionar isso… Quando ele entendeu que isso não aconteceria, decidiu que ia arriscar. Nosso plano era revelar tudo quando a guerra civil acabasse. Infelizmente…

- Ela nunca acabou até os Renegados atacarem. - completou a rainha, apertando levemente a mão de Doroteya – E teve a maldição…

- Sim… Sempre aparecia algo que nos fazia adiar a decisão… - Doroteya apertou os lábios – Eu tenho minha culpa também. Eu nunca insisti, nunca o pressionei… - e encarando a rainha, admitiu – Eu não me sentia atraída pela vida da realeza. Se fosse me dada à opção, eu teria preferido que Liam ficasse conosco e se tornasse um homem comum.

- E talvez, no fundo essa fosse a vontade dele… - Mia sorriu tristemente segurando a mão de Doroteya delicadamente – Liam nunca gostou das obrigações da corte, apesar de nunca fugir dos compromissos… Eu dizia que… - Mia então voltou a ter lágrimas nos olhos – Pela Luz, eu dizia que ele apenas precisava de uma rainha que gostasse da badalação e o deixasse livre… Foi por conta disso? Foi por isso que ele…? - ela tapou a boca com a outra mão.

- Majestade, não se culpe, por favor! - pediu a druidesa - Liam não ia querer isso. Como eu disse, foram muitas coisas… Por favor, não chore…

Doroteya fez aquele pedido, mas as lágrimas também rolavam de sua face. As duas ficaram com as mãos unidas, enquanto choravam enlutadas por situações das quais não tinham nenhum controle. Depois de algum tempo, a rainha Mia se recompôs, puxando discretamente um lenço de sua bolsa de mão e enxugando os olhos. Doroteya soltou a mão dela e se recostou na cadeira. O chá estava um pouco frio, mas Doroteya usou seus poderes para aquecer a chaleira novamente. Serviu mais chá a Mia e a si mesma e tomaram um pouco, em silêncio, se recuperando das emoções.

- O que meu marido fez depois? - definitivamente a rainha estava disposta a saber tudo naquela tarde – Depois que soube de sua existência? Por favor, não me esconda nada.

E Doroteya não escondeu; contou toda a história. Mia percebeu que era exatamente a mesma história que seu marido falara, mas que fora contada, na ocasião, de forma que soasse conveniente para justificar a raiva do rei à Doroteya. Todavia, a druidesa lhe contava uma história mais clara, mais condizente com a personalidade de Liam, uma versão que fazia muito mais sentido do que a que ouvira. Apesar da tristeza, Mia ficou aliviada: o Liam da história de Doroteya era seu Liam, era o filho que conhecera, que educara. Por isso entendeu que a história da jovem mulher à sua frente era verdadeira, pois era nela que reconhecia seu amado filho. Percebeu então que a pessoa que ela realmente não estava conhecendo era seu marido.

Greymane distorcera tanto a história para culpar Doroteya que distorcera a imagem de Liam também. Talvez, ela pensou com um peso no coração, ele tivesse distorcido a realidade de sua vida também. Criara, para Mia, uma realidade alternativa, um castelo de bonecas para ela se entreter, enquanto mantinha tantas coisas importantes alheias ao seu conhecimento. E agora, aquela ignorância a que fora submetida cobrara um alto preço: dez anos da vida de um neto que não conhecia e uma nora tão gentil que poderia ter tido.

Como teria sido a vida delas se aquele encontro tivesse acontecido na época certa? Teriam elas gostado uma da outra? Mia teria ensinado Doroteya a ser uma rainha? O que Doroteya teria ensinado a Mia? Teriam cultivado a estufa juntas, enquanto Theo brincava entre suas pernas? Teriam chás como aquele, apenas as duas, para descansar seus ouvidos das conversas da corte? Talvez aquilo tenha acontecido, em algumas das muitas linhas temporais que a Revoada de Bronze protegia.

A verdade que agora se revelava aos olhos de Mia era simples. Doroteya amara Liam, sofrera por ele, aceitara a vida em segundo plano para não o prejudicar e resistira até mesmo a uma maldição para sobreviver e criar seu filho. Não guardava rancor de Greymane, nem o odiava; tinha medo e respeito, mas não ódio. Mia estava impressionada.

- Às vezes Theo me perguntava como seria morar em Guilneas, em um castelo. - revelou Doroteya timidamente – Quando eu falava dos prédios e das fábricas, ele torcia o nariz e dizia que nunca ia querer viver em uma cidade. - ela riu – Mesmo hoje ele não gosta, apesar de estar habituado… Sempre falamos em nos mudar para a fazenda dos Wood… Mas ela já tem tanta gente morando lá… E estamos adaptados aqui. Talvez no futuro, quando Lina comprar a fazenda dela, possamos morar no campo novamente. - e sorriu esperançosa.

Mia estava se esforçando para não perguntar de Theo. Uma das imposições que ela se impusera ao ir ali era não trazer Theo para a conversa: queria conhecer Doroteya. E, até então, estava conseguindo.

- Se você morava sozinha quando Theo nasceu… - falou a rainha tentando manter a conversa na druidesa – Quem chamou à parteira quando você estava em trabalho de parto?

Doroteya ficou sem jeito, antes de admitir:

- Ninguém. Eu o tive sozinha. - e diante da expressão horrorizada da rainha, ela completou – Mas deu certo, eu já havia feito alguns partos. De alguns bichinhos da floresta.

Aquilo definitivamente não ajudara.

- Eu não acredito que meu filho não ficou ao lado da mãe de seu filho enquanto ela paria! - revoltou-se Mia – Se ele estivesse vivo, eu o matava!

- Ele nunca soube. - admitiu Doroteya – Ele não soube que eu o tive sozinha… Foi a única mentira que eu contei para ele enquanto estávamos juntos. Eu não suportaria vê-lo sofrer por isso. Disse que uma mulher da vila me ajudara. - a druidesa suspirou – Ainda assim, ele se sentiu muito culpado por isso, eu te garanto. Mas, tenho que admitir, Theo veio antes do previsto. Umas duas semanas antes. Ele era bem grande, então acabou que não aguentou ficar nessa barriguinha apertada. - ela riu apontando para a barriga.

Doroteya impressionava ainda mais Mia, que não queria nem imaginar como seria ter um filho sozinha, no meio da floresta. O que aquela moça passara seria digno de uma ópera guilneana das mais dramáticas.

- Bem, eu confesso que te imaginava um pouco mais alta, realmente. - admitiu Mia – E fico imaginando como você teve aquela menina tão grande! Liana, certo?

Doroteya assentiu.

- Eluna não coloca um bebê que o ventre da mãe não comporte. - era um antigo bordão druídico que Doroteya recitou – Apesar de eu achar que ela errou um pouquinho nos cálculos com os meus. - a rainha deu uma risada e Doroteya continuou – Pelo menos eles não tinham chifres.

Agora as duas deram gargalhadas.

- Fico feliz que você tenha reconstruído sua vida. - falou Mia com sinceridade – Sei que meu filho teria apoiado isso. Ele nunca foi do tipo possessivo. Sempre disposto a dar o máximo de si e nada cobrar em troca.

“Dar até mesmo a vida…”, pensou Mia, mas não colocou aquilo em palavras.

- Nós, druidas, acreditamos que, quando alguém morre, essa pessoa ainda está viva, na natureza e ao lado de Eluna. - falou Doroteya colocando a mão no coração – Um conceito semelhante à Luz. Então, eu acredito que Liam intercedeu por nós e colocou Lina em nossa vida. - e diante do olhar surpreso de Mia, ela riu – Eu sei que a senhora esperava que eu falasse do Tommy certo? Bem, eu não teria conhecido ele sem a Lina. E foi ela quem trouxe Theo para Ventobravo, quem nos protegeu, quem possibilitou que tudo acontecesse. Foi um presente de Liam pra nós, tenho certeza.

- Acredito nisso. - garantiu Mia – Que Liam nos protege.

- Talvez ele tenha feito Theo ir naquele dia na Bastilha para que vossa majestade pudesse conhecê-lo. Talvez fosse a hora certa… Ainda que eu estivesse em casa parindo.

Mia queria muito perguntar a Doroteya sobre a relação entre Tommy e Theo, mas seria ir contra o que se propusera. Decidiu então, por outro caminho.

- Como é estar casada de novo? - perguntou tomando um pouco de chá.

- Ah… - Doroteya ficou extremamente encabulada de falar sobre Tommy para sua ex-sogra - É diferente, porque toda a situação é diferente. - disse sem jeito – E Tommy é diferente de Liam… Veja bem, os dois são homens bons, dedicados, honestos…. - apresou-se em dizer, com medo de Mia pensar que ela achava que Tommy era melhor que Liam – Mas são diferentes. E eu e o Tommy compartilhamos a mesma dor… Não, a mesma não… Mas uma dor em comum.

- Como assim? - perguntou a rainha.

- Tommy também é viúvo… - revelou – E não apenas isso… Ele perdeu os filhos também…

E diante de uma Mia espantada e entristecida, Doroteya contou a história de Tommy, de como ele ficou sozinho por dois anos e caçando os algozes de sua família, mas acabou por ser ela e Lina que acharam os homens e os vingara.

Continuando a sua história e sem que a rainha precisasse perguntar, Doroteya começou a contar como Tommy e Theo ficaram próximos, o menino que perdera o pai e o homem que perdera os filhos, como os dois se ajudaram a superar seu sofrimento e como desenvolveram um laço único.

- Se o Theo não gostasse tanto do Tommy… Não sei se teríamos nos envolvido. Eu jamais ficaria com um homem que não aceitasse meu filho, que não o tratasse como eu acho que ele deve ser tratado. - Doroteya falou seriamente – Mas Tommy fez isso e muito mais… E agora, com Liana, acho que o coração dele está em paz, finalmente. - e então abriu um imenso sorriso – O nome dela foi escolhido pelo Theo. Liana.

- Foi mesmo? - a rainha estava deliciada com aquele detalhe.

- Sim. Theo quis fazer uma dupla homenagem. Ao pai e à esposa falecida de Tommy. Liam e Ana. Liana. - falou Doroteya com orgulho.

Um nó se formou na garganta de Mia. Seu neto era de uma sensibilidade incrível.

- U-uma bela homenagem… - gaguejou a rainha tomando mais um gole de chá.

Doroteya a observou por um momento, antes de falar:

- A senhora pode perguntar sobre o Theo o quanto quiser. - garantiu a druidesa – Eu não me importo.

Mia pousou a xícara, surpresa. Então Doroteya tinha percebido? Ou estava apenas sendo educada?

- Vim aqui para lhe conhecer, Doroteya. - falou a rainha, resoluta - Saber de sua vida.

- E o Theo é uma das mais importantes partes dela. - Doroteya sorriu – E eu amo falar do meu filho. Tenho muito orgulho dele. Por favor, pergunte o que quiser.

Mia hesitou um pouco, mas o sorriso encorajador de Doroteya a fez prosseguir. Começou a perguntar sobre seu querido neto, coisas bobas aos ouvidos de outros, mas que para ela eram importantes. Quando foi o primeiro sorriso? Aos dois meses e meio. A primeira palavra? Popó (galinha). Quando começou a andar? Oito meses. Mia ficou animada com as semelhanças entre o desenvolvimento de Theo e de Liam, mesmo em ambientes tão diferentes. E como o foco da conversa foi para Theo, esta se tornou mais fluida e menos tensa, e as mulheres se puseram a comer e beber chá em maior quantidade, conversando animadamente, dando risadas, enquanto trocavam as experiências dos filhos. Doroteya pode conhecer Liam melhor e Mia achou muito do filho no neto.

Estavam no meio de uma história envolvendo os momentos mais engraçados dos filhos, rindo, quando Lina chegou, trazendo Liana, que chorava. A general não ficou surpresa ao ver o entrosamento das mulheres e sorriu, pensando no quanto aquilo ia irritar o cachorro doido.

- Alguém está com muita fome. - anunciou ela com o bebê chorão nos braços.

- Ah, minha menininha! - Doroteya estendeu os braços e pegou a filha – Majestade, se não se importa… - falou apontando para a filha.

- Claro que não! - falou a rainha abanando a cabeça – Fique à vontade.

Doroteya ofereceu o seio à filha, que o abocanhou com gosto.

- Lina, você deu banho nela e mudou a roupa. - reparou Doroteya olhando a filha – Não precisava…

- Ah, precisava sim. - garantiu a general – Você concordaria comigo se visse o estrago que ela fez nos relatórios. - e deu uma risada.

- Estrago? - estranhou a rainha, antes de entender – Oh!

- Desculpe. - pediu apressadamente Doroteya.

Lina apenas riu.

- Liana não fez nada que eu não tivesse vontade de fazer em cima daqueles relatórios, principalmente dos de Crowe. Só não tenho mais idade para isso. - e riu novamente.

- Por que não se senta e toma chá conosco, general Wood? - perguntou a rainha, apontando para uma cadeira vazia.

- Ah, não quero atrapalhar. - disse ela levantando as mãos.

- Se a rainha Mia não se importa, eu tampouco. - garantiu Doroteya.

- Ah, general, seria ótimo ouvi-la falar de Theo. - falou Mia – Eu soube que você o ensinou a montar!

Então a conversa estava indo bem, como imaginara. Talvez fosse bom socializar um pouco com a rainha e garantir que Greymane mordesse o próprio rabo com raiva, mais uma vz.

- Certo, vou pegar uma xícara para mim. Quer que eu traga mais água quente, Dorô? - perguntou.

- Sim, por favor.

Apesar de gostar mais de café, Lina não se importava de tomar um pouco de chá e assim o fez. Ficou surpresa com a desenvoltura da rainha ao bombardeá-la de perguntas sobre Theo, as quais ela respondeu com alegria. Amava o menino e fez questão de deixar aquilo explícito. Liana participou da conversa como ouvinte e emitindo um ocasional arroto depois da comida. E quando a tarde foi chegando ao fim, Mia percebeu que estava na hora de se despedir.

- Agradeço imensamente o convite, Doroteya. - disse a rainha Mia, antes de se levantar – Mas acredito que está em minha hora.

- Eu vou acompanhá-la até a bastilha, majestade. - falou Lina levantando-se junto com ela.

- Não é necessário, general. - falou a rainha – Acredito que é uma caminhada tranquila.

- Ainda assim, é minha obrigação garantir a segurança dos líderes da Aliança e seus familiares. - e sem esperar resposta da rainha, disse – Vou pegar o arco e te encontro na porta. - e saiu.

Doroteya se levantou, com Liana adormecida nos braços.

- Apenas aceite, majestade. - Avisou Doroteya sorrindo – Lina não vai desistir.

- Mia. Chame-me apenas de Mia. - pediu ela.

Doroteya sentiu o rosto esquentando, um pouco envergonhada, com a intimidade inesperada.

- Certo… Mia… - Doroteya hesitou um pouco e então falou – Conversarei com o Theo sobre a senhora. Se ele concordar em te ver…

Mia fez um gesto com a mão, pedindo para que ela não se preocupasse.

- Você precisou de um tempo para esse encontro, acredito que o Theo precise também. Não vamos apressar as coisas. Faremos as coisas no tempo certo.

Doroteya assentiu e conduziu a rainha para o elevador e depois para a porta. Lina já esperava na entrada e esperou que as duas mulheres se despedissem.

- Foi um prazer conhecê-la, Doroteya. - disse Mia com sinceridade – E você também, Liana. - falou para o bebê, que sugava um dos punhos alegremente.

- Foi um prazer para nós também, majes… Mia. - e sorriu – Precisamos repetir o encontro mais vezes.

- Claro que sim. Quando eu estiver de volta a Ventobravo. Voltarei para Darnassus em alguns dias, meu povo precisa de mim. - e sorrindo, acenou – Até breve.

Doroteya acenou de volta e viu Mia e Lina sumirem porta afora. Respirou fundo, antes de aconchegar Liana em seus braços. Tudo tinha saído bem, afinal.

Enquanto Lina e Mia caminhavam de volta para a bastilha, a rainha encarou a general por um momento, antes de falar:

- Obrigada, general Wood.

- Não precisa agradecer majestade. É meu dever escoltá-la em segurança.

- Não estou me referindo a isso. Refiro-me ao cuidado que você teve com meu neto e com a mãe dele. Poucas pessoas fariam o que você fez. Agora entendo porque as pessoas a admiram tanto.

E entendia mesmo. Até então, Mia apenas ouvia falar do fascínio que Lina exercia nos soldados e criados e pensava que era apenas por causa dos boatos entre ela e o rei. Mas nunca fora. O próprio Varian fora atraído pelo caráter e personalidade da general, que mesmo sendo rígida e dura, tinha um bom coração, tratava as pessoas com justiça e abriu a porta para uma desconhecida e seu filho, além de acolher dois sobrinhos que eram rejeitados pelos pais.

- Só fiz o que achei que era o certo a fazer, majestade. - respondeu Lina, indiferente – Não fiz esperando ser admirada por isso.

- O que torna o ato mais altruísta.

Lina apenas deu de ombros.

Quando chegaram à frente da Bastilha, Lina acenou com a cabeça para a rainha e desejou:

- Tenha uma boa noite, majestade.

- Você também general. - e acenou com a cabeça.

Lina acenou também e retirou-se, pegando o caminho em direção à praia, onde estava Tommy, os meninos e Rukiah, curtindo uma tarde divertida bem longe da tensão da reunião da tarde. Enquanto caminhava, Lina pensava que não demoraria muito para que Doroteya quisesse que Theo conhecesse a avó e que o menino ficaria empolgado com aquilo. E se Mia realmente se tornara uma aliada de Doroteya, como Lina supunha, não havia mais com o que se preocupar. Greymane finalmente pagaria pelo que fizera a druidesa sofrer.

Enquanto isso, Mia subia os degraus da bastilha, determinada a ter uma conversa com o seu marido sobre aquela situação. E seria uma conversa definitiva.

 

**********

- Você prometeu que ficaria aqui! - exclamou Pandora se levantando e batendo com as duas mãos na mesa.

- Eu prometi que ficaria aqui e só sairia em uma emergência. - retrucou Anduin calmamente – E isso é uma emergência.

- A emergência que a tia falou era se o templo estivesse pegando fogo ou cercado pela Horda! Ir em busca de um artefato pandarênico no Monte Kun-Lai não é uma emergência!

Os monges pandarens continuaram a comer seu café da manhã calmamente enquanto a discussão se desenrolava entre os dois jovens humanos. Havia poucas horas desde que Lina e os demais haviam saído do templo, em direção à Vila Pata’don para pegar o portal para Ventobravo, e a previsão era que ficassem apenas um dia fora. Pandora ficara para trás, a pedido da tia, a fim de manter Anduin em segurança. Contudo, os dois receberam um recado pouco tempo depois da partida do grupo, vindo de Ventobravo, que Lina prorrogaria sua estadia e reforçou que os dois permanecessem em segurança. Só que o príncipe tinha outros planos.

- Veja bem, Pandora. - começou ele entrelaçando os dedos – Esse artefato é de extremo poder e seria interessante darmos uma olhada nele, antes que essas notícias cheguem à Horda.

- Achei que você estivesse interessado em selar a paz com a Horda e não em achar armas contra ela. - Retrucou a jovem.

- Eu não quero achar uma arma para usar contra a Horda. - disse o rapaz, um pouco ofendido – Eu quero garantir que ninguém use esse poder para deflagrar uma guerra em Pandaria!

- Tarde demais. Ela já começou. E você sabe. - E cruzou os braços.

Pandora tinha consciência que não estava falando com o jovem príncipe com a reverência que deveria, mas foda-se, ela estava em uma terra estrangeira, sem ninguém por perto e precisava manter aquele cabeça de vento vivo até a vaca de sua tia voltar. Mas como mantê-lo em segurança se ele tinha aquelas ideias absurdas?!

Anduin encarou a jovem enfurecida e pensou que seria mais fácil convencê-la a comer pregos que a deixá-lo sair do templo. Todavia, Anduin não pensava em desistir; na verdade, seria bom se pudesse contar com a companhia de Pandora naquela empreitada. Ela tinha mais experiência que ele, era treinada e tinha uma montaria voadora. Além do mais, com ela ao seu lado, a viagem não seria solitária.

- Não seria algo demorado. - Continuou ele em sua voz calma – Lina nem precisaria saber! Te garanto!

- Alteza! - exclamou Pandora fingindo espanto – Quem ouve assim pensa que vossa alteza pretende mentir para a general Wood!

- Não é mentira. - Anduin disse com as bochechas ficando muito vermelhas – Seria apenas uma omissão.

Pandora ergueu as sobrancelhas.

- É mesmo? E se ela perguntar se sairmos daqui o que vossa alteza dirá?

Em vez de responder, Anduin deu de ombros.

- Tudo bem Pandora. Desisto… - ele levantou as mãos – Se você tem tanto medo da Lina assim…

Um rubor imenso atingiu as bochechas de Pandora.

- Eu não tenho medo dela! - esbravejou a jovem.

- Não? - perguntou ele curioso.

- Nenhum pouco! - garantiu.

- Então não vai se opor a ir comigo nessa curta viagem, não é? - perguntou animado.

“Principezinho filho da puta!”, Pandora xingou mentalmente. E mesmo que nada tenho falado, sua expressão mostrou a Anduin que ele acertara na mosca, ao fazer aquela jogada. E enquanto Pandora ruminava a raiva, o jovem príncipe já fora falando seus planos.

- Se partimos em uma hora, chegaremos à fronteira de Kun-Lai à noite. Já falei com o senhor Koro, ele me emprestaria à serpente dele. Descansaríamos e exploraríamos amanhã e voltaríamos no dia seguinte, bem a tempo da volta da Lina. - E sorriu para ela, animado.

Pandora teve vontade de quebrar os dentes dele, mas segurou à vontade. Se o príncipe ia fazer merda, que fizesse. Ela ia junto apenas para poder dizer à vaca de sua tia que tentara impedi-lo, mas como ele insistiu, achou melhor do que se ele fugisse dela. E não era medo, não, não era. Só queria poupar seus ouvidos de gritos desnecessários. E também não queria ser responsável por Ventobravo ficar sem herdeiro.

- Ok, ok. - disse vencida – Vou ajeitar minhas coisas…

Menos de uma hora depois, eles estavam nas serpentes, voando na direção do Monte Kun-Lai. Koro Andarilho da Névoa lhes ensinara um caminho que seria mais seguro e menos demorado, voando alto o suficiente para evitar ataques e baixo o suficiente para evitar as grandes correntes de vento do Vale dos Quatro Ventos. Iriam reto até o vale, chegando lá desviariam pela Floresta de Jade e de lá, desceriam nas fronteiras do Monte Kun-Lai. Isso se não precisassem fazer nenhuma parada e voassem o dia todo. O que, claro, não foi possível.

Por volta do meio do dia, Pandora se encontrava nervosa, pois viu o príncipe levar sua montaria até uma pequena vila no Vale dos Quatro Ventos. Quando perguntou o motivo, ele disse:

- Você não está sentindo esse cheiro maravilhoso? - perguntou ele animado – Devemos comer algo e as montarias descansarem um pouco.

Pandora pensou em contestar, mas seu estômago roncou. Deixou a briga para depois e comeram enquanto a jovem percebia que haviam descido em um local muito perto do que ela e Pietro desceram quando passaram ali a primeira vez. Lembrou-se de Chen Malte do Trovão e sua Sobrinha Li Li e se perguntou onde eles estariam.

Depois de comerem, seguiram viagem até o cair da noite e diferente das previsões do príncipe, eles não estavam nenhum pouco perto da fronteira de Kun-Lai, e por causa disso tiveram que pernoitar nas proximidades da Floresta de Jade.

Sabendo que muitas vilas poderiam ter membros da Horda, ou pior da Aliança, Anduin sugeriu acampar e Pandora concordou. A jovem conseguiu achar uma pequena caverna, acendeu uma fogueira e cobriu a entrada o máximo que pode. Anduin conversava alegremente com ela, contando a respeito dos seus planos, enquanto a ajudava a organizar o acampamento. Em contrapartida, Pandora tinha a vontade de partir o príncipe em dois, por tirá-la do conforto do templo. Contudo, admitiu para si mesma que até que era bom explorar um pouco Pandaria. Claro, jamais admitiria aquilo para Anduin.

- Como você acha que seu pai recebeu a notícia que você não ia voltar? - perguntou ela a certa altura da noite.

O jovem príncipe ficou um pouco entristecido ao pensar naquilo, mas respondeu:

- Não muito bem. E imagino que ele e a Lina tenham discutido… - ele suspirou – Eu não queria ser responsável por isso, mas há tanto a se fazer por aqui!

Pandora entendia um pouco daquela vontade de Anduin, pois ela mesma estava curiosa para saber o que tinha naquele tal Monte Kun-Lai. E, por causa disso, insistiu para o príncipe dormir, para que eles reversassem a vigia e pudessem seguir viagem assim que o sol nascesse.

Quando o dia começou a clarear, eles partiram e chegaram a Kun-Lai no meio do dia. Não pararam até achar o vilarejo que fora indicado para eles, que ficava bem no meio do território. Ao chegarem lá, a noite já estava caindo e estavam exaustos. Os dois sabiam que já haviam estourado o cronograma e se conformaram em silêncio que Lina descobriria sobre aquela aventura.

Como em outros lugares, eles foram muito bem recebidos e ficaram surpresos quando só pandarens lhes disseram que já haviam estrangeiros por ali, explorando e lutando.

- Vocês não são os primeiros e nem serão os últimos. - disse o Ancião Tsulan, um dos pandarens que habitavam o Repouso do Oeste – Lhes daremos abrigo e diremos o que precisam saber sobre esse local.

A refeição que fizeram foi um pouco mais modesta do que as que tiveram tanto na Floresta de Jade, quanto nos outros locais que foram recebidos por pandarens. Devia ser por que causa da aridez da região. Hope estava exausta, assim como a serpente das nuvens que trouxera Anduin, e pouco depois de ambas serem colocadas dentro de um estábulo improvisado, elas começaram a dormir enroladas uma na outra. Assim como sua serpente, Pandora também estava exausta, e já que estava na merda mesmo, o jeito era aproveitar e descansar máximo que puder.

- Se há outros da Aliança por aqui, há também da Horda. - ela disse para Anduin, enquanto comiam em frente à fogueira – Se vamos explorar, faremos isso do meu jeito. - impôs sem medo - Precisamos ser cuidadosos e levaremos o tempo necessário até acharmos alguma pista do que você veio procurar.

Anduin assentiu. Ele sabia que o tempo deles já estourara e não queria nem pensar em quando teriam que encarar Lina. Melhor voltar para o Templo pelo menos quando tivessem algo para mostrar.

- E vamos dormir logo. - a jovem se levantou e se espreguiçou – Ficar o dia todo em cima de uma serpente não é uma coisa boa para o corpo.

- Tem razão. - Ele se levantou e espreguiçou-se também – Boa noite, Pandora.

- Boa noite, Anduin.

Cada um foi para uma tenda e quando Pandora tirou as botas e deitou, esperava que o dia seguinte fosse proveitoso, conseguissem o que o príncipe quisesse e, em contrapartida, conseguissem enrolar Lina para não os arrastar de volta a Ventobravo quando voltassem.

No dia seguinte, Anduin tinha sumido.

- Como assim não sabe para onde ele foi?! - gritava Pandora com um pobre pandaren, que se encolhia – E por que ele não me chamou?!

- O príncipe disse que você estava muito cansada e achou melhor deixá-la descansar. Ele disse que seria rápido, que voltava logo…

Sim, ele ia voltar logo, porque Pandora ia em busca dele e trazê-lo arrastado pelos cabelos reais, de volta ao acampamento. Ah, se ia.

Em vez de tomar café da manhã, ela pegou o arco, ajeitou sua armadura de malha, amarrou o cabelo com seu laço favorito e foi em busca do príncipe fugitivo. Assim que chegou a área externa, procurou pelo local pelos rastros de Anduin e o achou rapidamente. Para alguém que vive fugindo dos outros, Anduin precisava aprender a cobrir suas pegadas. Colocou o arco nas costas e seguiu as marcas deixadas pelo garoto. Tinha certeza que iria encontrá-lo logo.

Não encontrou.

Em algum momento, os rastros de Anduin sumiram de repente, deixando-a confusa. Decidida a levar o rapaz de volta para o Repouso do Oeste, continuou a procura.

O Monte Kun-Lai era um lugar seco, apesar do frio cortante. Criada na floresta, onde chovia com regularidade e a umidade era constante, Pandora estava tendo bastante dificuldade em andar na velocidade que desejava, principalmente por causa do terreno acidentado. Depois de um tempo, precisara parar e conter um sangramento nasal inesperado. Xingou Anduin mentalmente. Mal podia esperar para achar o rapaz e voltar ao Repouso do Vento Oeste, onde tiraria um cochilo depois de beber uma caneca de cerveja pandarênica. Atrasaria a busca do artefato que o príncipe queria, mas a culpa era dele por sumir daquele jeito e, depois de andar tanto, tudo que queria era descansar. O tal artefato poderia esperar.

Bufou irritada. Não entendia porque Anduin decidira sair daquele jeito. Por acaso não confiava nela? Então por que a chamara? Por que simplesmente não sumira desde o Templo de Chi-Ji? Pelo menos pouparia Pandora de estar naquele local.

Sentou-se em uma pedra, com as pernas doendo do sobe e desce do terreno montanhoso. Queria ter vindo em Hope, mas sua serpente das nuvens precisava de descanso. Cacete, ela precisava de descanso! Tomou um gole de água de seu cantil, sentindo o líquido acalmar seus lábios e gargantas secos. Mesmo com vontade de tomar tudo, se forçou a parar, pois o caminho até o Repouso era longo, não fazia ideia de quando ia encontrar Anduin e não queria ficar sem água. Fechou o cantil e se levantou pronta para continuar a caçada, quando ouviu o barulho de dezenas de passos ressoando e anunciando que uma comitiva grande estava passando. Por puro reflexo, Pandora se escondeu por trás de uma pedra e depois viu que foi a melhor coisa que fizera.

O grupo que se aproximava era da Horda.

O coração da jovem disparou. Uma comitiva da Horda e o príncipe da Aliança desaparecido. As coisas não podiam ficar piores. Ah, podiam sim, pois ela era a uma única humana ali naquele momento. Porém, eles passavam na estrada bem abaixo dela e, se estivesse certa, aquela pedra era uma cobertura segura, desde que não se mexesse muito. Todavia, a preocupação dela foi maior que a cautela. Precisava averiguar se eles haviam capturado Anduin. Por isso, Pandora ergueu a cabeça para dar uma olhada no grupo que passava.

Para sua surpresa, a maior parte da comitiva era comporta por elfos sangrentos. E eles não estavam armados. Pareciam que eram estudiosos, pois traziam equipamentos e pergaminhos enquanto conversavam entre si sobre algo enquanto apontavam para as ruínas ao longe. Servindo como escolta a estes elfos, havia orcs e taurens, que eram os responsáveis pelo barulho. Os elfos não pareciam fazer nenhum barulho ao andar. Logo, surgiu elfos arqueiros, que estavam na retaguarda do grupo, liderados por um alto e belo espécime de sua raça. Demorou alguns segundos para Pandora o reconhecer, mas quando o fez, o chão fugiu totalmente de seus pés.

Halduron.

Sentindo as pernas ficarem moles e sem conseguir sustentar seu corpo, Pandora deslizou pela rocha até cair sentada, sem acreditar no que via. Halduron? O mesmo Halduron que vira semanas antes, desacordado, na Floresta de Jade? Será que ele estava ali como refém da Horda? Tewdric não havia cumprido o prometido de deixá-lo em segurança? Só que… ele não parecia um refém. Ele andava a frente dos outros, como se… Como se comandasse algo.

Não. Impossível.

Era o clima do Monte Kun-Lai que estava fazendo-a delirar.

Tomou mais um gole de água para se acalmar, mas isso não aconteceu. Num impulso, decidiu seguir o grupo e provar, para si mesma, que seus olhos estavam enganados. Àquela altura, Anduin havia sumido de seus pensamentos.

Precisava tirar a prova.

Num misto de raiva e incredulidade, ela pôs-se a seguir o grupo da Horda, usando as pedras do Monte Kun-Lai para manter-se oculta. Uma voz dentro de sua cabeça, que parecia muito a de sua tia, a mandava voltar e parar com aquela burrice, mas Pandora simplesmente ignorava sua consciência. Sentia-se impelida por uma frustração que não soube explicar. Estava tão cega por aquele sentimento, que ignorou seu senso de preservação e ficava cada vez mais próximo do grupo inimigo.

Halduron não era um refém, aquilo logo ficou nítido. Ele usava o tabardo de Luaprata e conversava com os demais membros da Horda com uma intimidade que só aliados teriam. Estava tão transtornada que chegou a pensar se ele não tinha algum irmão gêmeo desertor e era o gêmeo mal quem estava ali. Era muita loucura, mas a outra hipótese era que ela tinha se enganado e que o elfo em quem pensou durante anos, que procurou proteger enquanto ele estava doente, o elfo que ela beijou, aquele tempo todo era seu inimigo.

Em determinado momento, o grupo parou. Ela viu o Halduron dar ordens e o grupo voltar a andar enquanto ele ficava para trás. Abaixou-se por um momento, controlando sua respiração entrecortada. E foi com consternação que o viu subir a escarpa até a pedra onde ela estava. Abaixou-se mais uma vez e segurou seu arco com força. Se ele tentasse qualquer coisa, o atacaria sem pensar duas vezes.

- Pode sair. - ouviu a voz suave dele dizer – Não lhe farei mal.

Uma confusão de sentimentos se apossou dela. Estava com raiva, com medo, frustrada e, principalmente, decepcionada. Decepcionada, consigo mesma e com Halduron. Era loucura, mas era assim que se sentia. Tentou se pegar à raiva. A raiva era segura e era um sentimento que podia sentir em relação a um membro da Horda. Agarrou seu arco com força e saltou de onde estava com a corda em riste, uma flecha apontada direto para o coração de Halduron.

Todavia, a flecha oscilou entre seus dedos trêmulos, enquanto ela olhava para o rosto com o qual sonhara e que vira desacordado e pálido apenas algumas semanas antes. Os olhos, antes de um azul cálido, estavam esverdeados, como os de Kassyeh. Lembrou do pedido que fizera para Tewdric e sentiu-se uma imbecil. O orc sabia diferente dela, que o elfo era membro da Horda. O qual idiota ele achara que ela era naquela ocasião?

Halduron olhava para aquela jovem humana fixamente. Algo dentro dele se remexeu, assim que pôs os olhos nela e não sabia o que era. Quando ele percebeu que havia um membro da Aliança os seguindo, uma mulher, ele decidiu resolver tudo sozinho, pois poderia simplesmente mandá-la embora, sem que fosse ferida. Só que, vendo aquela jovem mulher, ele ficou fascinado. Já vira muitas humanas belas em sua longa vida, mas aquela poderia ser colocada entre as mais belas, sem dúvida. Ela era alta, tinha os cabelos castanhos lisos, cujos fios caiam de um rabo de cavalo amarrado com uma fita e emolduravam seu rosto redondo. Os olhos eram verdes e cintilantes. E as bochechas delas… Eram tão bonitas que ele se imaginou mordendo-as. Ficou surpreso consigo mesmo por ter aqueles pensamentos. Mas o que mais o incomodava era a sensação que ela não era inteiramente desconhecida.

- Você não devia estar tão longe de seus companheiros. - falou ele suavemente – Acredito que o Repouso do Oeste não está longe… Volte para lá antes que meus aliados a vejam.

- E-eu não acredito que você nos enganou… - sibilou ela, os olhos marejando, o que aumentou sua frustração – Deve ter sido tão divertido, não é? Enganar duas crianças da Aliança…

Estreitando os olhos, Halduron se perguntou do que a jovem falava.

- Desculpe-me… - ele disse franzindo o cenho – Acredito que está me confundindo com outra pessoa.

Pandora entendeu que ele não se lembrava dela. A flecha oscilou ainda mais e as mãos dela tremeram. Ele… Ele não se lembrava dela. Pandora ficou anos pesando nele. Voltara em Dalaran para encontrá-lo… E claro que não encontrou. Ele não morava lá. Ele morava em Luaprata. Tudo fazia tanto sentido agora… Sentiu-se burra, idiota e ingênua. Uma criança boba que pensava que as nuvens eram de algodão-doce…

- Claro que o grande Halduron não se lembraria de mim. - ela falou talvez mais para si própria – Por que se lembrar da estúpida criança humana e seu irmão deficiente? - sua voz tremia, como suas mãos – Você nos ajudou para poder debochar de nós para seus amigos da Horda e depois nos apagar de sua lembrança?

Demorou alguns instantes para que as coisas começassem a fazer sentido para ele. Irmão deficiente? Criança humana… Sua mente imediatamente voou para Dalaran, no passado, a única criança humana com limitações que já vira. Pietro era seu nome. E quando ele percebeu quem era a sua frente, seus olhos piscaram várias vezes, incrédulos. Aquela mulher exuberante… Era Pandora? Quanto tempo se passara da última vez que a vira? Pouco mais de dois anos? Os humanos realmente amadureciam tão rápido assim?

- Pandora? - perguntou incrédulo.

Pandora abriu a boca, surpresa de ver seu nome sair dos lábios dele. Surpresa e feliz. Ele lembrava então? Suprimiu rapidamente a alegria, forçando seus lábios a fecharem a mão a segurar o arco com mais força.

- Você… - ela vociferou por entre os dentes recuperando parcialmente o controle – Você nos enganou… Você era da Horda o tempo todo!

Halduron suspirou. Sim, na época Pandora supôs que ele era do Pacto de Prata porque ele era o último dos elfos sangrentos a ter os olhos da mesma cor dos Altos Elfos, situação essa que mudou pouco tempo depois. Não devia ter mentido à época, sabia disso. Só que, naquele tempo, acreditava que era uma mentira inocente, que jamais reencontraria aqueles dois. Mas ali estava a menina… Que não era mais uma menina. E ela o ameaçava. Só que ele tinha certeza que ela não atiraria a flecha. Por isso, deu um passo para frente. Pandora retesou o arco com ainda mais força e apontou a flecha para o peito dele. O elfo ficou surpreso com o gesto dela. Estava esperando que ela recuasse e não que a ameaça ficasse mais evidente. Ele então levantou as mãos, mostrando que não estava armado. Porém, Pandora não recuou.

- Como está seu irmão? - perguntou com gentileza – Pietro?

- Não fale o nome dele! - gritou com raiva – Você não tem o direito de sequer mencioná-lo! Você brincou com ele, o ajudou… E estava mentindo o tempo todo!

Halduron suspirou.

- Você não devia gritar… A comitiva pode voltar para verificar porque ainda não voltei e isso não seria bom para você…

- Eu não me importo! - gritou ela ainda mais alto – Eu não tenho medo de-

Mas ela não terminou a frase. Halduron avançou rapidamente, seus reflexos falando mais alto que a raiva de Pandora e ele segurou seu arco, girou o braço dela, que perdeu a força e a fez largar a arma. Com a agilidade que apenas os elfos tinham, a dominou, jogando-a contra a pedra onde ela se escondera antes, prendendo seus braços com uma mão e com a outra tapou sua boca. Tudo isso com uma rapidez impressionante, resultado dos séculos a mais de treinamento que a jovem humana. Pandora sequer teve tempo de pensar numa reação. Quando deu por si, estava desarmada e a mercê do elfo sangrento. Os olhos, azuis quando se conheceram, agora cintilavam em verdes e pareciam arder em seu rosto perfeito.

- General-patrulheiro? - ela ouviu alguém falar por trás da pedra – Está tudo bem?

General-patrulheiro? Ele era a porra de um general-patrulheiro? pensou ainda mais enraivecida. Uma das mais altas patentes dentro de uma sociedade? Espere… E quem estava falando? De onde surgira esse outro elfo? Teria vindo procurar Halduron? Era por isso que ele pedira silêncio? Era por isso que a mantinha contra a pedra? Para que não fosse vista e capturada? Não... Seria ingenuidade pensar aquilo. Seria a mesma ingenuidade de quando supusera ser ele um aliado.

- Sim, está. - falou Halduron calmamente, como se não tivesse mantendo-a presa com seu corpo – É apenas uma fera que apareceu. Posso dar conta dela sozinho. Podem ir na frente.

- Tem certeza, senhor? - o elfo não parecia estar muito certo que era “apenas uma fera”.

- Está questionando minhas ordens, soldado? - ele disse com os olhos em chamas e Pandora estremeceu.

O outro elfo pareceu estremecer tal quando a jovem humana, mesmo que não tivesse visto o olhar de Halduron.

- N-não senhor. - disse o outro com a voz trêmula – Estou indo, senhor.

E Pandora ouviu passos se afastando.

Halduron então suspirou.

- Eu nunca menti para vocês. - disse encarando-a com intensidade – Eu nunca disse que era do Pacto de Prata, não é mesmo? - ele deu de ombros – Quando você tomou isso por fato, preferi não contradizer. Imaginava que essa seria sua reação. Estava certo, não é?

Pandora franziu o cenho, estreitando os olhos.

- Vou tirar a mão de sua boca, certo? - avisou ele – Não grite. Os orcs não serão tão gentis quanto eu.

Halduron tirou a mão da boca dela, mas continuou segurando seus braços. Esperava que ela gritasse, que cuspisse nele, ou algo assim, e estava pronto para reagir a isso. Mas não foi o que Pandora fez. Ela jogou a cabeça para trás e deu uma cabeçada nele. Pego de surpresa, Halduron cambaleou para trás, soltando-a. Pandora então se atirou sobre seu arco e o pegou. Quando voltou-se para ele, Halduron já havia se recuperado do ataque e, para surpresa de Pandora, ele ria.

O próprio Halduron estava surpreso consigo mesmo. Não conseguira conter a risada, pois estava diante de uma grande ironia. Quantas vezes ele não discutira com diversos elfos sobre a habilidade dos humanos serem surpreendentes? Lembrava de uma vez especifica, quando Sylvana Correventos ainda era uma elfa e ainda o comandava. Na época, ela estava muito próxima de um humano. Próxima demais, segundo as más-línguas. Halduron nunca se importara com aquilo, mas estava presente quando Lor’themar reclamara da importância dada por ela a um simples humano, e ao qual ela respondera simplesmente dizendo que, se os elfos tentassem conhecer os humanos, saberiam quão intensos e imprevisíveis eles eram. Na época, Halduron desdenhara de tal opinião. Humanos não importavam. Agora, se via pego numa situação que era forçado a concordar com sua antiga comandante.

- Vocês, humanos, são realmente muito imprevisíveis e intensos! - falou ajeitando o cabelo num gesto que Pandora adorou, mas que nunca admitiria – É compreensivo porque tantos elfos caem aos pés de sua raça…

O fato de ele tratar seu ataque de forma tão casual a fez ficar ainda com mais raiva.

- Por que não me entregou? - perguntou retesando o arco e apontando novamente a flecha para seu coração – Eu sou sua inimiga!

- Apenas em sua cabeça, cara Pandora. - ele mostrou a palma das mãos, como se quisesse deixar claro que não era uma ameaça para ela – Eu não sou partidário do ódio de nossas espécies, como tantos outros companheiros meus. E, como você deve se lembrar trato bem os humanos.

Foi impossível para Pandora não pensar em Tewdric e em Kassyeh. Agora, fazia sentido os três estarem juntos. Três pessoas que tratavam bem humanos. Três membros da Horda que salvaram ela e Pietro em momentos distintos. A Luz podia ser irônica mesmo, pensou lembrando-se das lições de Vincent. Por um momento, ela pensou em baixar a guarda e aceitar aquele fato, mas ainda estava com raiva demais para fazer isso.

- Por que tanta raiva? - quis saber Halduron um pouco confuso – Por que não a reconheci? Perdoe-me por isso, mas você… Você mudou muito… Acho que mereço o benefício da dúvida. Afinal, faz um bom tempo…

A raiva borbulhou ainda mais, porque ele tinha razão. Passaram uma tarde juntos, anos atrás, e até então ela nem sabia se ele lembrava seu nome. Por que então estava tão frustrada?

- Você devia ir embora. - continuou Halduron cauteloso – A Horda está bem presente nessa região e não é seguro para você.

- Cale-se! - gritou ela novamente – Por que eu acreditaria em você?!

- Por que, se eu quisesse você já estaria desarmada novamente. - respondeu com simplicidade.

Pandora riu.

- Você não me pegará desprevenida de novo.

Foi à vez de Halduron rir. Ele então se atirou sobre o arco dela, deixando a ponta da flecha a milímetros de seu peito. E com um simples encontrão, derrubou Pandora no chão, segurando agora seus dois braços com as mãos e mantendo-a presa sob seu corpo. O cabelo dela soltou-se e o laço que o prendia sumiu no vento. Halduron teve o cuidado de deixar a cabeça fora do alcance da dela.

- Você precisa treinar mais, menina. - ele disse seriamente.

- Não me chame de menina! - gritou ela revoltada.

Halduron lembrou-se de quando Pandora reclamou ser tratada como criança no passado, um tratamento que, obviamente, ela não esperava agora. Não esperava, mas merecia.

- Como seu irmão te chamava? - ele perguntou, provocando um pouco – Pãozinho? É isso?

O rosto dela ficou vermelho e ela gritou novamente:

- Me solte! - e se debateu embaixo dele.

Halduron pressionou ainda mais o corpo contra o dela.

- Cale-se! - ordenou com uma força que a fez parar de gritar – Eu já disse os orcs não serão bonzinhos como eu! A não ser que você queira ser capturada! É isso que você quer?

Pandora o encarou numa mistura de raiva e medo.

- Não me trate como criança! - sibilou ela.

- Então pare de agir como uma. - retrucou ele com seriedade – Você está em um local ermo, sem aliados à vista, à mercê de um macho que pode te desarmar, te capturar e levar para bem longe do irmão que precisa tanto de você. É isso que quer? Nunca mais ver Pietro?

As palavras dele a atingiram em cheio, e logo ela parou de se remexer e de gritar.

- Vá embora. - ordenou ele – Corra. Se outros te verem, serei obrigado a te capturar.

Pandora se imaginou sendo algemada e levada para longe, onde não poderia ver seu irmão. Concordou com a cabeça e, assim que Halduron a soltou pegou seu arco e saiu correndo morro abaixo, na direção contrária de onde estava a comitiva da Horda. Halduron a viu uma última vez, cabelos ao vento, se distanciar rapidamente como uma corça jovem foge de um cervo velho que a rodeava.

Cruzou os braços e balançou a cabeça em negativa, apesar de ter um sorriso em sua face. Estava surpreso com o inesperado reencontro e mais surpreso ainda com as emoções que ele lhe despertara. Pandora se tornara uma bela mulher. Bela e impetuosa. Uma mistura perigosa, principalmente para quem admirava mulheres como aquelas. Pensou no que Tewdric diria se ele lhe falasse aquilo.

“Devo estar me sentindo muito solitário mesmo, para pensar tais coisas.” disse repreendendo-se. Virou-se para sair e percebeu que havia um laço entre as pedras, o laço que prendia o cabelo de Pandora. Num impulso, abaixou-se, pegou o laço e guardou no bolso.

Quando voltou para junto da comitiva, o elfo que o procurara antes, perguntou:

- Conseguiu domar a fera, General-Patrulheiro?

- Não… Ela fugiu... - e então ele olhou para onde Pandora sumira mais cedo – Mas tenho a impressão que a verei de novo.

E estava ansioso por isso.

 

********************

Greymane passara a tarde agitado, pensando em qual seria o resultado da visita de Mia a Doroteya.

Quando, no dia anterior, sua esposa recebera das mãos de Lady Cláudia uma mensagem de Doroteya, ele ficara espantado e enraivecido; acreditava que a druidesa fizera um movimento para tentar colocar sua esposa contra ele. Todavia, Mia explicou que mandara flores e um bilhete para Doroteya em virtude do nascimento da filha desta e que, em retribuição, Doroteya a convidara para um chá, convite esse que ela aceitaria de bom grado.

- Não posso permitir que você vá! - vociferara ele, pego de surpresa com a situação.

- Ah, não? - perguntara Mia delicadamente – E como você pretende me deter, Genn?

Mia sabia como desarmá-lo e foi o que fizera como aquela simples frase. Sabendo que não poderia impedir sua esposa de ir em busca da versão de Doroteya, procurou argumentar que ela tomasse cuidado com as coisas que ouviria e fez uma série de recomendações. Ao final de sua fala, Mia perguntou, delicadamente:

- Do que você tem medo, Genn?

- Medo? - estranhou ele – Eu não tenho nenhum medo dessa moça!

- Então se acalme que tudo dará certo. - falou Mia.

Só que ele tinha um medo. Não ia admitir para Mia e nem para si mesmo, mas lá dentro de sua mente, Greymane temia ter errado. Temia ter imposto dor ao seu filho e ao seu neto por puro capricho e que sua amada esposa descobrisse e deixasse de amá-lo. E aquele medo estava trancado, abafado e jamais se libertaria, se dependesse dele.

Foi com apreensão que viu sua esposa sair, animada e nervosa, dispensando guardas e companhia, para encontrar Doroteya. Quando a tarde chegou ao fim, sua apreensão aumentou, pois sabia que sua esposa não tardaria e ele não sabia o que aguardar.

Certamente não aguardava uma Mia sorridente e disposta.

- Viu o pôr do sol, Genn? - foi o que ela lhe perguntara assim que chegou aos aposentos que dividiam na bastilha – Simplesmente lindo!

- Não querida, estava com Varian, em reunião. - na verdade, mesmo que estivesse livre, dificilmente prestaria em atenção a qualquer coisa.

- Uma pena. - e sorrindo para ele, perguntou – Que tal jantarmos fora hoje? Naquela taverna que amamos? Faz tanto tempo que não temos uma noite só para nós!

Greymane estava confuso com a animação de Mia. O que exatamente acontecera em sua conversa com Doroteya? Todavia, estava feliz em ver que sua esposa não chegara brigando, acusando-o de nada, além de tudo, querendo a companhia dele. Sorriu, sabendo que apenas precisava aproveitar.

- Claro que sim. Na hora que você quiser. - respondeu ele.

- Vou tomar um banho e me trocar. - avisou ela.

Algum tempo depois, os dois saiam sob o céu limpo e estrelado de Ventobravo, de braços dados, como fizeram tantas vezes no decorrer daquelas décadas de casamento. A taverna favorita dos dois ficava próxima à bastilha e, eles não sabiam, mas fora a mesma onde Cláudia e Lina almoçaram juntas naquele dia. O dono, um anão muito animado, sempre ficava feliz quando recebia os reis em seu estabelecimento e logo arrumava uma forma de lhes dar a melhor mesa. Quando sentaram-se, receberam vinho e um delicioso queijo para abrir o apetite, enquanto seu pedido era preparado.

A conversa foi leve na maior parte do tempo, e Greymane amava observar Mia falar sobre as coisas, admirando sua oratória e sua inteligência. Considerava-se sortudo por ter aquela mulher maravilhosa como esposa e sentia muito por aqueles que não tinham tanta sorte. Não imaginava como teria aguentado a perda de seu filho e seu reino sem ela ao seu lado.

- Precisamos de mais noites assim. - falou ele a certa altura da noite – Noites tranquilas, como as que tínhamos em Guilneas.

- Ah, você lembra daquele restaurante pequenino, que ficava no bairro dos operários? Sempre nos disfarçamos para ir lá, mas todos sabiam que éramos nós. - ela riu lembrando – Ah, sinto falta das batatas que eles faziam…

- Sim, eram muitas boas. Você sabe se eles… Se eles conseguiram escapar? - perguntou ele cauteloso.

O sorriso de Mia apagou-se.

- Infelizmente eles pereceram. Uma pena.

Houve um momento de silêncio, até que Mia respirou fundo e pegou na mão dele.

- Sem tristeza hoje. - e sorriu para ele.

Greymane sorriu de volta.

- Tudo que você quiser.

Foi o jantar mais tranquilo que eles tiveram em muito tempo. Ficaram conversando sobre suas lembranças, as memórias que construíram juntos ao longo das décadas, memórias essas que nem sempre eram boas, mas que eles estavam juntos. Apesar de nada falar sobre Doroteya, Greymane percebeu algo enquanto conversavam: quando era mais jovem, ele compartilhava mais coisas com Mia. A medida em que envelhecera, ficara mais intransigente, mais desconfiado e mais protetor. Queria poder avisar ao seu eu do passado que não esquecesse porque se apaixonara por Mia e porque permanecia ao lado dela; ela não apenas era a pessoa mais inteligente e perspicaz que ele conhecia, como também a pessoa em quem mais confiava.

Em que momento ele se achara autossuficiente demais para esquecer da maravilhosa esposa que tinha?

Depois da refeição, voltaram para a bastilha devagar, admirando a lua e a paisagem. Se fosse em Guilneas, mesmo no verão sopraria um vento frio e Mia se aconchegaria a ele. Em Ventobravo, as noites eram frescas e o vento agradável. Às vezes, sentia falta até da umidade excessiva.

- Genn… - Mia chamou a certa altura.

- Sim?

- Você acha que Doroteya merece todo o ódio que você tem dela?

Ele estacou. Não estava surpreso de o assunto surgir a aquela altura da noite, mas a pergunta o desnorteara. A primeira coisa que veio à sua cabeça para responder foi um sonoro ‘sim’, mas não o fez. Continuou calado, olhando para baixo, procurando dentro de si uma resposta sincera e verdadeira, pois Mia não merecia menos que isso.

Uma imagem veio à sua mente. Doroteya, dez anos mais jovem, à sua frente, trêmula e tão pequena… Tão pequena que ele demorara a creditar que aquela era a mulher de quem Liam falara. Por um instante, um mísero instante, ele pensou em ouvi-la. Pensou em considerar a ideia. Mas ele era um rei orgulhoso e ela uma jovenzinha ingênua. Se tivesse ouvido dado ouvido àquele pressentimento, tudo teria sido diferente.

- Eu… Eu não a odeio. - admitiu – Eu odeio toda a situação que a existência dela criou.

- Mas ela não criou sozinha. - lembrou-lhe a rainha – Liam teve culpa. E você. E eu.

Greymane a encarou, indignado.

- Mia, você não teve culpa nenhuma! -falou convicto – Admito... Admito meu papel e o de Liam, mas o seu…

Ela balançou a cabeça, em negativa.

- Sim, eu tive. - admitiu, com triste. - Sua culpa, Genn, foi o seu orgulho. O de Liam, sua hesitação. A culpa de Doroteya foi à inocência. E a minha, foi à ignorância. - ela o encarou, com firmeza - Eu poderia ter ido em busca de respostas, mas me contentei com o que foi oferecido. Essa foi minha culpa.

- Mia… - ele tentou falar, mas ela colocou o dedo em seus lábios.

- Genn… Apenas me responda uma coisa… Você… - ela hesitou um pouco – Você ainda me ama? Como no começo?

Ele pegou gentilmente a mão que o calava e a beijou delicadamente.

- Muito mais. - garantiu segurando sua mão – Meu amor por você só aumentou.

Mia sorriu os olhos marejados.

- Então eu vou te fazer um pedido. Em nome desse amor. - Greymane já sabia o que viria a seguir, mas continuou calado – Deixe Doroteya e Theo em paz. Deixe-os vir até nós… E, quando o virem, que seja da forma como eles preferirem. Tudo isso já foi longe demais. - ela respirou fundo – Eu jamais dormiria em paz se eu soubesse que fiz outra mãe sofrer o que sofri. Principalmente uma mãe como Doroteya. - ela apertou a mão dele com força – Independente dos seus sentimentos, Liam a amou. Ela é a mãe do nosso neto. Ela merece que a tratemos com dignidade. Pode fazer isso por mim?

Por um momento, Greymane achou que seria difícil fazer aquela promessa. Olhou bem para sua esposa e se perguntou o que era mais importante. A resposta veio fácil.

- Por você, eu faria qualquer coisa. - disse, com sinceridade.

Mia sorriu e ele sentiu o coração aquecer-se.

- Não será fácil, meu amor. - ele completou.

- Mas sei que você o fará. - garantiu ela segurando o rosto dele entre suas mãos.

Trocaram um beijo cálido, mas apaixonado, sob a noite enluarada de Ventobravo, e Greymane sabia que aquela seria a batalha mais difícil que travaria: a batalha contra seus próprios sentimentos.

********************

A pretensão de Anduin era apenas dar uma olhada nos arredores do Repouso do Oeste e voltar antes que Pandora acordasse. A sua companheira de viagem estava nitidamente cansada e estressada e ele queria que ela dormisse bastante para que os dois pudessem explorar juntos. Todavia, acabou se deixando levar pela novidade do local e, quando voltou para o acampamento, Pandora tinha acordado e ido em busca dele.

Seu estômago apertou e Anduin teve um mau ressentimento. Pandora era, de longe, muito mais agressiva que Lina e tinha muito menos paciência. Quis ir encontrar com ela, para que, pelo menos, pudesse diminuir sua raiva, mas um dos pandarens o alertou:

- Vimos estandartes vermelhos daqueles… Como chama?

- Horda? - perguntou o rapaz sentindo o pânico aumentar.

- Sim, esse é o nome. - assentiu o pandaren.

A culpa desabou sobre Anduin, que sabia que jamais se perdoaria se algo acontecesse com Pandora. Por várias vezes ele quase saiu do acampamento, mas recuou. Se saísse, poderia desencontrar-se com ela. Tinha que esperar e ter fé.

As horas se arrastaram até que ele a viu. O alívio foi tão grande que ele correu em seu encontro. Estava prestes a pedir desculpas e explicar onde estava, quando viu o brilho feroz nos olhos dela. Nem teve tempo de raciocinar; o punho fechado de Pandora foi direto em seu estômago, e ele sentiu sua vista escurecer, enquanto caia de joelhos.

- Filho de uma puta! - gritou Pandora – Eu devia quebrar suas duas pernas por isso!

Enquanto lutava para respirar, Anduin sentiu que ela o pegou pelo braço e o levantou, à força, sacudindo-o em seguida.

- A Horda! - ela gritava os cabelos despenteados grudando no rosto suado – A Horda estava aqui e podia ter te pego seu retardado! Você ia morrer desgraçado!

Ele tentava recobrar o folego para poder dizer algo, mas não conseguia. Foi então jogado no chão sem nenhuma cerimônia, levantando muita poeira ao cair, tossindo compulsivamente por isso. Pandora o deixou lá, largado na entrada do acampamento e entrou, pisando duro. Anduin respirou uma, duas, três vezes, até parar de tossir e a dor abrandar. Levantou-se com dificuldade e foi em busca de Pandora.

Encontrou ela sentada em um tronco no chão, as pernas estiradas, o arco entre elas, a cabeça baixa e o cabelo escuro caindo sobre seu rosto, cobrindo-o. Apesar da forma violenta que fora tratado, Anduin não estava com raiva de Pandora; estava preocupado. Afinal, sabia que ele era o errado da história.

- Pandora? - ele chamou um pouco relutante.

- Vá embora… - disse ela fracamente.

- Olha, eu sinto muito, muito mesmo. - falou com sinceridade – Ia ser só uma volta rápida, eu não ia explorar sem você.

- Me deixe sozinha… - ela falou novamente, sua voz agora com um tom choroso.

Aquilo preocupou Anduin e, então, ele lembrou que a Horda esteve por ali. Teria Pandora topado com eles?

- Aconteceu algo? Foi a Horda? - perguntou ansioso.

O arco dela voou na direção dele tão rápido que quase o atingiu. No último instante, o rapaz se abaixou e o arco acabou atingindo acerca do acampamento, rachando ao meio. O rapaz olhou para a arma quebrada e caída ao longe, amedrontado, e depois voltou sua visão para Pandora. A jovem levantara sua cabeça e ele podia ver que, além do suor, lágrimas molhavam sua face. Depois do arroubo de fúria, ela encolheu as pernas, pôs as mãos no rosto e chorou copiosamente.

Garotas chorando não era a especialidade de Anduin, mas ele sabia que precisava fazer algo. O pior era imaginar que ele ocasionou aquelas lágrimas. Sentou-se ao lado dela, no tronco caído, cauteloso, temendo outro ataque, mas Pandora apenas continuou chorando. O que deveria dizer ou fazer?

- E-eu… Sinto muito… - murmurou – Eu não queria te preocupar…

- Não é por isso que eu estou chorando! - retrucou ela rispidamente.

- Não? - Anduin não ia admitir, mas aquilo o deixou aliviado. - Então… Quer conversar a respeito?

Pandora fez que não.

- Eu posso ajudar em algo? - insistiu ele, querendo compensar sua falha.

Para sua surpresa, Pandora colocou o rosto em seu ombro. Ele ficou totalmente sem jeito, achando que ela queria ser consolada, mas então percebeu que ela mexeu no rosto duas vezes e afastou-se dele. Pandora apenas usara sua roupa como lenço para limpar o nariz.

- Preciso de uma caneca de cerveja e de um cochilo. - ela disse, com a voz rouca, mas controlada – Conversamos depois.

E afastou-se, ainda fungando.

Para sua sorte, Anduin tinha uma muda de roupa, e procurou trocar-se assim que ficou sozinho. Além de ter servido como lenço para Pandora, sua roupa também estava suja da areia de quando ela lhe jogara no chão e percebeu que havia um pouco de sangue, pois ele cortou-se ao sair. Usou seus poderes de cura e ficou sem nenhuma dor ou ferimento e, já trocado, foi em busca de algo para comer.

Pandora estava sentada numa mesa de madeira, com um imenso caneco de cerveja e bebia despreocupadamente. Outra pessoa deveria estar em pânico por ter batido em um príncipe; Pandora aparentemente não dava à mínima. O que Anduin não sabia, era que Pandora estava com o coração tão despedaçado, que sequer se importara que havia batido em um príncipe. Na verdade, se ele tivesse mandado enforcá-la naquele momento, provavelmente ela ficaria feliz, pois aí não precisaria lidar com seus sentimentos.

Depois que extravasou sua raiva e frustração no príncipe, Pandora teve calma o suficiente para pensar porque exatamente estava tão furiosa e decepcionada. Era porque Halduron mentira, dissera para si mesma, e ela odiava mentiras. Reviveu, então, inúmeras vezes aquela tarde tão especial em Dalaran, tentando lembrar em qual momento ele tinha dito que era do Pacto de Prata. Queria saber em qual momento exatamente ele a enganara, fazendo-a construir um castelo de sonhos em cima daquela mentira. E por mais que tentasse lembrar, Pandora sabia que nada acharia, pois ele, em momento algum, colocara aquilo em palavras; ela apenas supusera que ele era do Pacto de Prata, porque jamais imaginaria que um membro da Horda salvasse dois jovens da Aliança e os tratasse tão bem. Pandora percebeu que seu preconceito a impedira de ver Halduron de qualquer outra forma que não fosse seu aliado e ele a permitira continuar com a ilusão. E agora, mais de dois anos depois, a ilusão se desfizera, deixando-a em pedaços.

“Por que ele importa, afinal?!”, se perguntou pela milésima vez.

Porque Pietro gostara dele. E ela também. Simples assim.

“Só por isso?”, a dúvida persistia.

Era o suficiente pra ela.

“Mas, no final de tudo, ele te protegeu mais uma vez… Não foi?”, questionou mais uma vez a vozinha em sua cabeça.

Só que ela acreditava que ele só fizera aquilo por causa de Pietro. Como não sabia que o menino estava melhor, acreditava que sua irmã precisava ficar livre e viva para cuidar dele. Não fora uma preocupação com ela, mas com Pietro. Fazia sentido, mas doía muito.

“Ainda assim, ele se lembrou de você.”, lhe insistia aquela voz “Ele te reconheceu!”.

Ele não lembrou porque guardou o rosto dela. Ele lembrou porque ela mencionara Pietro e tinha certeza que não havia muitos meninos com irmãs super protetoras por aí. Fora associação, apenas.

Se sabia de tudo isso, porque ficara feliz de ouvi-lo dizer seu nome? E porque ficara tão triste e revoltada ao saber que ele era da Horda? A confusão de Pandora só aumentava cada vez mais e ela decidiu afogar aqueles sentimentos com uma boa caneca de cerveja, quando viu o príncipe se aproximando, cautelosamente. Pandora percebeu que ele trocara de roupa e não estava machucado. Também não aprecia chateado, mas envergonhado. E devia ficar envergonhado mesmo! Ela quase se fudera por conta dele! E foda-se se ele era um príncipe, ele merecia era apanhar mais! Sorte dele que ela batera pouco e preferira chorar depois.

Quando Anduin sentou em frente a ela, timidamente, a jovem puxou um prato de assado de iaque e pôs na frente dele.

- Obrigado. - disse Anduin pegando os talheres e atacando a comida.

- Quer cerveja? - perguntou ela.

- Não tenho idade para isso. - respondeu ele.

- Grande coisa. Na sua idade eu já bebia. - disse ela.

- As vantagens de crescer numa vinícola, acredito eu. - disse Anduin, tentando ser divertido.

Pandora deu um leve sorriso, mas não disse mais nada. Ela parecia melhor, para o alívio do jovem.

- Sinto muito por te deixar preocupada. - disse Anduin, envergonhado – Não foi minha intenção.

Pandora o encarou por um momento, pensando no que ele dissera. Se ela não tivesse saído em busca de Anduin, se não tivesse encontrado a comitiva da Horda, continuaria sonhando com Halduron como do Pacto de Prata. Teria mantido sua ilusão. Ela não sabia se achava aquilo bom ou ruim.

- Esqueça isso. – cortou Pandora – Não quero mais falar nesse assunto.

- Tudo bem – concordou o rapaz.

Continuaram comendo em silêncio por um tempo, até que ela falou:

- Amanhã de manhã saímos cedo para explorar o local que você falou. Depois, voltamos o mais rápido possível para Krasarang. Tem Horda demais aqui.

Anduin ficou feliz que Pandora não desistira da exploração.

- Tudo bem. Você está no comando. - disse ele levantado as mãos.

- Acho bom mesmo. - Ela franziu o cenho – Afinal, estou tentando te manter vivo. Você devia ser mais interessado nisso que eu.

- É eu sei… - ele riu sem jeito.

O rapaz queria perguntar se Pandora estava melhor, perguntar qual era o motivo do choro, mas preferiu não mexer na ferida. Ela estava nitidamente precisando de espaço para pensar no que quer que estivesse incomodando-a e ele não queria apanhar de novo. Por isso, ficaram comendo em silêncio, aproveitando a camaradagem tímida, e Anduin lembrou-se de Arshe. Claro, Pandora e sua irmã não eram nadas parecidas, a não era no fato de se preocuparem com ele. E Anduin teve a impressão que Pandora estavam se tornando amigos, não porque ele era príncipe, mas porque a jovem o respeitava e gostava dele, desde que desenvolvera uma amizade com Pietro. Aquilo o deixava feliz.

- Pietro deve estar bem feliz há essa hora, não é? - perguntou ele sorrindo – Já que está em casa…

Pandora deu um sorriso enorme.

- Com certeza. Nem deve estar lembrando que eu existo. - brincou, mas com um pouco de tristeza na voz.

- Ele nunca vai esquecer da irmã que possibilitou que ele tivesse uma nova chance. - Anduin tinham um tom de admiração na voz – Qualquer pessoa gostaria de ter alguém como você como irmã, Pandora. - Ele sorriu – Eu tenho a Arshe, mesmo que nem sempre estejamos juntos... Ela passou uma boa parte da vida estudando em Dalaran, e agora mora em Shatrath… Queria eu uma irmã que estivesse comigo sempre. Acho que a vida na Bastilha não seria tão solitária…

Pandora ficou totalmente sem jeito, diante das palavras do príncipe.

- Ah, você podia ter tido o azar de ter um irmão como os outros que tenho. Pense que eu não sou a única irmã de Pietro, sou a única que me importo com ele. Você podia ter alguém que não ligasse pra você e ainda tentasse roubar seu trono!

Anduin deu de ombros.

- Acho que eu entregaria o trono sem problema nenhum. Não é uma responsabilidade das melhores…

- Se seu irmão ou irmã estivesse tentando tirar seu trono, ele ou ela não seria dos melhores irmãos, então acho que você não quereria uma pessoa ruim no trono. - lembrou Pandora.

- Acho que nunca vamos saber. - Anduin falou tristemente.

- Você não sabe. Vai que a tia e seu pai tenham um bebê. Já pensou?

Anduin não tinha pensado naquilo, mas agora fazia muito sentido. Sim, seu pai e Lina poderiam ter um bebê e ele teria um irmãozinho ou irmãzinha! Ele poderia não ter alguém como Pandora, mas podia ser como Pandora! Ser um bom irmão e ter uma companhia para o resto da vida!

Pandora viu o brilho aparecer no rosto de Anduin e sorriu, pensando que sua tia agora ia ter um grande problema para lidar com a vontade do príncipe em ter um irmão. Pegou então um copo, colocou cerveja e empurrou para Anduin, dizendo:

- Beba! Vamos brindar a essa ideia!!!

Anduin hesitou.

- Eu não sei…

- Vamos lá, um copo não fará mal… - E vendo que ele continuava indeciso, incentivou – Apenas prove!

O jovem ainda não estava muito certo, mas, mesmo assim, pegou o copo e levou aos lábios, provou um pouco, fez uma leve careta e baixou o copo.

- Não gostou? - perguntou Pandora.

- É amargo. - Ele reclamou.

- É, seu paladar ainda é muito infantil. - Provocou Pandora dando um grande gole em sua caneca.

Anduin ficou rubro de vergonha e retrucou:

- Infantil não. Em transição.

- Sei... - Ela ria.

Anduin então pegou o copo e tomou mais um gole. Tentou não fazer careta, mas falhou miseravelmente. Pandora caiu na risada.

- Da próxima vez, você prova vinho. - disse ela tirando o copo de perto dele – Tem um lá em vovô que acho você vai gostar.

- Espero… - murmurou ele.

Pandora levantou-se brevemente e pegou uma chaleira. Trocou sua caneca de cerveja por uma xícara e serviu chá para ela e Anduin.

- Aqui, para nos acalmarmos. - Ela sorriu – E, depois de comer, vamos descansar, porque amanhã tem exploração.

Contente pela animação dela, Anduin assentiu. Mal podia esperar para o que encontrariam em sua exploração.

 

****************

Theo gostava de receber atenção, mas não gostava de ser o centro das atenções. Todavia, naquela noite, não havia ninguém na casa dos Wood que não estava falando sobre o menino. Sentado ao lado da cesta de Liana, segurando levemente uma de suas mãozinhas, ele ouvia a conversa acalorada sobre a visita de sua avó-rainha e da resolução de sua mãe em permitir que Theo a conhecesse.

- Doro, pense bem sobre isso. - dizia Tommy, preocupado – Sei que a rainha pode ter boas intenções, mas quem garante que o marido dela terá?

- Não acredito que o rei Greymane terá forças para lutar contra sua esposa. - disse Doroteya com simplicidade.

- E quem garante que a rainha Mia não tenha más intenções? - insistiu o homem – E se ela apenas se aproximou de você para ganhar sua confiança e tomar Theo de nós?

Aquyela preocupação trouxe um sorriso ao roto de Theo. Sabia que Tommy o considerava como filho, mas ouvir os sentimentos na voz dele como ouvia agora fazia tudo ser real e ele sorriu, ainda que timidamente.

- Tommy, eu acredito na rainha porque sinto que posso acreditar. Da mesma forma que sempre acreditei em Lina. E em vocês.

- Ei! - protestou Lina – Nós somos especiais, Doro, você sabe disso. - havia um tom divertido na fala de Lina, mas Doroteya continuou séria.

- Eu entendo a preocupação de todos vocês, mas acredito que a rainha Mia estava sendo realmente sincera.

- Tem certeza? - Mel estava sentado ao lado de Vincent e torcia as mãos, nervoso – Eu não quero que ninguém tire o Theozinho da gente.

- Se isso acontecesse, o que seria de nós? - perguntou Fey – E da mamãe e do papai? Eles amam o Theo. Nós amamos o Theo!

Rubrarosa estava de pé, ouvindo toda a conversa encostada na parede, em sua forma humana. Ela estava calada até então, mas deu um passo a frente e todos a olharam. Era difícil não olhar para a cavaleira da morte quando esta estava em um ambiente.

- Eu não confio nos Greymane. - disse, com sua voz distorcida – Não confiava antes, não confio agora. Se dependesse de mim, nem mesmo você, Doroteya, tinha conversado com a rainha.

- Rosa… - murmurou Doroteya – Ela é avó de Theo…

- Grande coisa! - exclamou Rubrarosa jogando as mãos para cima – O que eles tem em comum, além de um traço de sangue? Esse homem aí – e apontou para Tommy – foi mais pai para Theo nesses dois anos que Liam na vida inteira! Theo não precisa daquela família! Ele tem uma aqui! Ou não tem? - e encarou para Lina e seus irmãos.

- Claro que sim. - respondeu Lina – Ninguém está questionando isso, Rubrarosa.

Apesar de surpresa com a fala de Rubrarosa, Lina estava feliz por ser vista daquela forma por ela, ainda que discordasse da cavaleira da morte em partes. Sim, sangue não era tudo. Sim, Tommy era mais pai de Theo que Liam. Todavia, a rainha Mia e o próprio Theo tinham o direito de se conhecerem melhor.

Como dizer aquilo sem que a ira dos outros recaísse sobre ela?

A solução veio de onde Lina menos esperava. Depois de ouvir toda a história de Theo e saber do que se tratava aquela discussão, Rukiah tinha sua própria opinião sobre a situação. E quando o silêncio se abateu na sala depois da fala de Rubrarosa, a pandarena levantou a mão, timidamente, pedindo para falar.

- Sei que não sou da família e não posso opinar. - começou ela – Mas acho que vocês estão esquecendo-se de ouvir a pessoa mais interessada. O que o Theo acha disso?

Todos os olhares se voltaram para Theo e o menino ficou nervoso. Theo queria dizer, mas tinha medo de magoar as pessoas. Por isso continuou calado, segurando a mão de Liana, querendo sumir.

- Diga o que você quer Theo. - encorajou Pietro, tocando seu ombro – Todo mundo tem que saber como você se sente.

Theo olhou para Pietro, ainda hesitante e o outro acenou afirmativamente com a cabeça. O menino então olhou para sua família. Sentiu um aperto no estômago, mas falou, firme:

- Eu quero conhecer a rainha Mia. - e depois acrescentou rapidamente – Não é que eu não considere vocês minha família! Vocês são a minha família! Vó Mariana também é minha avó! - o menino estava nervoso ao dizer aquilo, como se temesse ser desrespeitoso com todos.

- Nós sabemos Theo. - falou Lina gentilmente – Ninguém aqui pensa diferente de você.

Todos os outros concordaram e o menino sorriu.

- Eu sei que vocês estão preocupados. - agora ele olhava diretamente para Rubrarosa – Mas eu quero… Quero conhecer a mãe do meu pai.

Houve um momento de silêncio e depois Doroteya se levantou, com um sorriso satisfeito.

- Acho que ninguém vai se opor agora, certo? - perguntou, e como ninguém respondeu, ela foi até o filho e pôs as mãos em seus ombros – Querido, quando você estiver pronto, é só falar que levamos você até lá.

- Ah, eu já tô pronto! – disse ele animado – Posso ir conhecê-la agora mesmo!

Houve um protesto geral de todos e o menino corrigiu-se:

- Amanhã?

Nem Doroteya esperava aquela disposição de Theo, por isso, perguntou hesitante:

- Tem certeza, meu amor?

Theo afirmou vigorosamente com a cabeça.

- Eu acho uma ótima ideia. - foi falando Lina – Se chegarmos sem avisar, eles não vão ter tempo de preparar nada para tentar sequestrar Theo ou algo assim.

- Mas Lina, - argumentou Doroteya – é falta de educação fazer uma visita sem ser convidado.

- Essa situação é diferente. - lembrou a general – Além do mais, eles vão ficar tão felizes, que nem vão se importar. Se tivermos sorte, o cachorro doido enfarta e nos poupa da convivência dele com o Theo.

- Seria um sonho… - murmurou Rubrarosa.

Apesar de acontecer mais rápido do que esperava, Doroteya estava aliviada que aquele capítulo de sua vida e de seu filho seria encerrado e outro se iniciaria. Tinha esperança que, com a proximidade de Theo e Mia, quaisquer intento de Greymane de tomar o menino para si fosse frustrado. Além do mais, estava farta de viver com medo. Era hora de ter paz.

- Bem, acho que farei biscoitos para você levar amanhã. - falou a druidesa para o filho – Um agrado para sua avó.

- Ah, eu mesmo posso fazer? - perguntou o menino, empolgado.

- Claro! Tommy pode te ajudar com o forno. - falou Doroteya olhando para o marido.

- Vamos lá campeão? - Tommy perguntou se aproximando do menino e assanhando seus cabelos – Vamos fazer esses biscoitos para sua avó!

- Vai ter que fazer pra vovó Mari também. - alertou Pietro – Ou ela vai ficar com ciúme.

- Vou me tornar especialista de biscoitos! - animou-se o menino indo pra cozinha.

Depois que Theo se retirou com Pietro, Tommy e Rukiah para a cozinha, Lina sentou-se, sentindo os olhares reprovadores de Rubrarosa.

- Você não devia ter apoiado isso. - falou a cavaleiro da morte – Vocês não deviam ter apoiado isso. - disse agora olhando para Doroteya também.

- Rosa, talvez fosse à hora de acontecer. - falou Lasciva, ponderada – Não podíamos esconder Theo para sempre. Assim foi melhor.

Rubrarosa não estava convencida.

- E o que você vai fazer se Greymane não deixar Theo sair da bastilha? - perguntou ela olhando para Lina.

- Greymane não tem tanto poder assim aqui em Ventobravo. - falou a general – Varian não permitiria que algo assim acontecesse. E isso aqui – Lina bateu com o dedo na insígnia de general que estava espetada em sua roupa – Me dá poderes para intervir nesse caso.

- E se ele levar Theo para Teldrassil sem seu consentimento e o esconder lá? - insistiu Rubrarosa – A Árvore seria um perfeito lugar para ele manter o menino longe de vocês. Os elfos noturnos não se envolveriam e tem gente de Guilneas o suficiente para ajudá-lo.

Lina cruzou os braços e encarou a cavaleira da morte.

- Eu acharia o Theo em Teldrassil nem que tivesse que tocar fogo naquela árvore!

Lasciva e Doroteya olharam para Lina, horrorizadas.

- Calma, foi força de expressão. - apressou-se em dizer Lina – Ninguém, em sã consciência, queimaria a árvore do mundo.

As druidesas suspiraram aliviadas.

- Vai dar tudo certo, Rosa. - falou Lasciva, segurando na mão dela – Você vai ver.

- Espero que sim. - murmurou a cavaleira da morte.

No dia seguinte, logo cedo, Theo estava pronto para ir a Bastilha. Vestido elegantemente por seus tios alfaiates, segurava uma caixa com biscoitos de chocolate, feito por ele mesmo e se despedia dos preocupados mãe e padrasto. E tios. E tias. O único que estava tranquilo, além do próprio Theo, era Pietro. E Rukiah, que estava achando tudo muito interessante. Ela teria muitas histórias para contar quando voltasse para Sri La.

- Tenha bons modos, Theo. - orientava Doroteya – E comporte-se.

- Se não se sentir bem, procure sua tia e volte pra casa. - aconselhou Tommy.

- E não acredite em nada do que Greymane falar. - rosnou Rubrarosa.

Theo afirmou com a cabeça, animadamente.

- Vamos. - chamou Lina.

Os dois subiram no grifo de Lina e seguiram o caminho, deixando muita preocupação para trás.

Ao chegarem à Bastilha, Lina levou Theo até a sua sala, antes de ir em busca dos reis de Guilneas. Precisava deixar algumas ordens antes de levar o menino até o terraço onde Varian e seus convidados tomavam café da manhã durante o verão.

- Está nervoso? - perguntou ao menino.

Theo negou com a cabeça.

- Estou empolgado. - admitiu o menino – Passei a vida toda ouvindo falar deles… E vou finalmente conhecê-los… A senhora acha que meu pai ia aprovar?

- Provavelmente ele estaria tão preocupado quanto Tommy e sua mãe… Mas, sim, tenho certeza que ele aprovaria. - e deixando as ordens arrumadas em cima da mesa, perguntou – Pronto?

- Sim! - exclamou animado.

Lina sabia de cor todos os horários de Varian, desde muito antes de se envolver com ele. Sabia que, como acordava cedo, o rei fazia uma refeição frugal na companhia dos convidados nos mesmos horários. Se o tempo estivesse bom, comia no terraço próximo à biblioteca. Se o tempo estivesse ruim, no salão de refeições. E aquele dia era um dia de verão ensolarado, claro e agradável. Por sua experiência, sabia que mais tarde estaria bem quente, então era bom aproveitar o momento. Depois, deixaria Theo em casa e voltaria para organizar sua nova partida a Pandaria.

Caminharam pela Bastilha, demorando um pouco mais ao andar, pois todos queriam saber quem era aquele menino tão bonito e elegante. Lina ficou orgulhosa ao apresentar Theo como seu sobrinho e também em surpreender dizendo que o menino ainda nem fizera dez anos e já era bem alto. Theo ficou encabulado com a atenção, mas feliz em ver o quão orgulhosa sua tia estava dele. Depois de serem parados muitas vezes, finalmente chegaram ao terraço. Lina voltou-se para Theo e pediu:

- Espere aqui.

O menino assentiu e esperou.

Lina adentrou no terraço, onde Varian estava sentado com Greymane e sua esposa Mia. A princesa Tess já tinha voltado para Teldrassil e isso deixou Lina aliviada; não conhecia Tess o suficiente para dizer o que esperar dela. O café da manhã ainda não tinha sido servido e Varian tentava conversar com Greymane, que respondia com monossílabos, enquanto a rainha Mia permanecia calada, olhando para o vazio a sua frente. O clima entre os dois estava nitidamente tenso e Lina imaginou que fora devido à visita da rainha a Doroteya no dia anterior. Aproximou-se e esperou que Varian a visse.

Quando Varian viu a figura de Lina parada, no terraço, com a expressão séria, seu primeiro pensamento foi que algo acontecera a Anduin. Desde a chegada dela de Pandaria, os dois ainda não havia se visto, a general respeitando o pedido de Varian para pensar no que acontecera. Só que Varian estava sentindo muito a falta dela e agora, vendo-a ali parada, sentia-se um bobo por te imposto aquela distância. Só esperava que não fosse uma tragédia que os unisse.

O rei pediu licença aos seus convidados e se levantou. Greymane e Mia viraram a cabeça e viram Lina parada. A rainha deu um breve sorriso e acenou com a cabeça para a general, que correspondeu. Greymane permaneceu impassível. Quando Varian se aproximou, ela bateu continência e Varian odiou; queria uma braço dela e não formalidades.

- Aconteceu algo? - ele foi perguntando – Anduin mandou notícias?

- Não, não. Não é nada relacionado à Anduin. - tranquilizou-o - Desculpe por te procurar quando… Quando combinamos de eu te dar espaço… - Varian sentiu-se péssimo quando ela lhe disse isso, mas não a interrompeu - Há alguém lá fora querendo ver os reis.

- Doroteya? - perguntou ele, pois já sabia do encontro do dia anterior.

- Theo. - respondeu.

De onde estavam, nem Greymane podiam ouvir a conversa, então não suspeitaram que a surpresa no rosto de Varian tinha a ver com os dois.

- Tem certeza do que vai fazer Lina? - perguntou ele.

- Foi decisão do próprio Theo. - revelou tranquilamente - Apenas o trouxe. Achei melhor esse horário, pois a Bastilha está tranquila.

Ele assentiu.

- Então, não vamos deixá-lo esperando. - Varian sorriu - Diga a Theo que ele está convidado para tomar café da manhã conosco. Vou comunicar a Genn e a Mia.

Lina assentiu, fez uma reverência e saiu. Varian voltou para mesa e sorria para os amigos.

- Teremos um convidado para o café da manhã. - anunciou ele.

- Oh! - exclamou Mia preocupada – Eu não estou vestida apropriadamente para uma reunião diplomática. Devo me retirar?

- Não, Mia. O convidado, na verdade, é de vocês. E ele não vai se importar com sua roupa. - e vendo Lina entrando, sorriu e apontou com a cabeça – Ah, ai vem ele.

Theo entrou ao lado de Lina e sorriu timidamente para as pessoas na mesa. Para Lina, valeu a pena ter levado Theo apenas para ver a cara de espanto de Greymane diante do menino. Ao contrário, a rainha Mia estava com um sorriso imenso, apesar de um pouco pálida. Nenhum dos dois falou nada, surpresos demais, e coube a Lina apresentar:

- Theo, estes são o rei Genn Greymane e a rainha Mia Greymane de Guilneas. - e olhando para os reis, disse – Majestades, esse é Theodore Finnigan Wood, filho de Doroteya e Liam e enteado do meu irmão, Tommy. Meu sobrinho de coração. Ele veio conhecê-los.

- É um prazer. - Theo fez uma reverência educada – Eu trouxe biscoitos. - e estendeu a caixa.

A rainha Mia levantou-se e caminhou até o menino, enquanto Greymane permanecia sentado, em choque. A mulher sorriu para o menino e pegou a caixa.

- É um prazer conhecê-lo, Theodore. Posso chamá-lo de Theo? - perguntou gentilmente.

- Sim, majestade.

- Por favor, me chame apenas de Mia. - pediu ela.

- Não posso, majestade. - avisou o menino – Minha mãe disse para eu ser educado e ter compostura. Não posso chamar uma rainha pelo nome. - e franziu o cenho.

- Então, que tal ‘senhora’? - sugeriu ela encantada.

Theo abriu um sorriso imenso.

- Sim, senhora. Senhora está bom.

Lina estava surpresa com a compostura da rainha. Além de segurar bem suas emoções, não estava pressionando Theo. Apesar de saber que o menino não a repeliria se desse um abraço ou pedisse que a chamasse de ‘vovó’, Mia conteve-se, respeitando a estranheza que o menino sentia. Mia sabia que, apesar de parecer muito com seu filho, Theo não era Liam; para o menino, ela era uma avó distante que, durante muito tempo, temeu tomá-lo da mãe. As coisas deveriam ser feitas delicadamente.

Enquanto Mia e Theo iniciavam uma aproximação, Greymane permanecia em silêncio.

- Theo, por que não se senta? - sugeriu Varian mostrando a cadeira – Coma conosco.

- Já comi, majestade. - falou Theo – Mas, muito obrigado pelo convite.

- Se já comeu, você pode tomar apenas um chá. - insistiu o rei.

- Pode ser café? - perguntou o menino animado.

Lina não segurou a risada, nem Varian.

- Claro, pode ser um café. - e olhando para Lina, convidou – Nos acompanha general?

Lina se segurou para não olhar para Greymane.

- Claro, majestade.

Theo acabou sentando em frente de sua avó, e sorria para ela com animação. Greymane, ao lado da esposa, estava sentado em frente à Lina e evitava olhar para a general, mantendo sua atenção no menino. Varian pediu para que fizessem um café para Lina e Theo, enquanto a rainha Mia iniciava uma conversa com seu neto.

- Estou muito surpresa e feliz com sua visita, Theo. - começou Mia – E mais ainda com o presente. Muito obrigada. - disse ela olhando para a caixa de biscoitos.

- Minha mãe me disse que é tradição de Guilneas levar biscoitos em visitas. - falou o menino, empolgado – Mas eu não sei fazer aqueles bem gostosos que a senhora levou ontem. Então fiz os meus favoritos, de baunilha com gotas de chocolate!

- Foi você quem fez? - surpreendeu-se ela abrindo a caixa.

- Sim, senhora! - respondeu, empolgado – Eu estou aprendendo a cozinhar. Por enquanto só sei fazer biscoito, bolo e omelete. Mas quero aprender a cozinhar igual ao tio Vin e a mamãe. Eles são excelentes cozinheiros. - e ele olhou de relance para Lina – Tia Lina também cozinha bem, mas ela não gosta de cozinhar.

- Não gosto mesmo. - ela admitiu.

- E você gosta? - perguntou a rainha.

Theo fez que sim.

- Está na hora de provar, não é mesmo? - Mia pegou um dos biscoitos e levou à boca. Deu uma mordida e sorriu – Está muito bom, Theo. - disse após engolir o bocado - Você é um bom cozinheiro. Aqui, prove Genn. Você também, Varian.

Cada um dos homens pegou um biscoito e provaram. Varian deu um sorriso para o menino e elogiou:

- Está muito bom, Theo.

Greymane demorou um pouco mais para falar:

- Está sim. - e sua voz estava rouca.

Os servos trouxeram a comida e o café para Theo e Lina. Os dois agradeceram e o beberam puro mesmo.

- Você gosta de café puro? - surpreendeu-se a rainha – Poucas crianças têm o paladar tão aguçado.

- Eu não gostava no começo, mas me acostumei. Tia Lina e Tommy estavam sempre bebendo tanto que quis também. O vô Sebastian disse que vou ter um paladar bom pra vinho, quando crescer.

Greymane ficou visivelmente incomodado pela referência a um certo ‘vô’, já que ele sabia que Doroteya era órfã.

- Esse senhor Sebastian é seu pai, certo, general? - perguntou a rainha a Lina.

- Sim, majestade.

- Senhora Mia, sabia que eles pensaram que eu era neto deles? Porque eles tinham tantos netos que não conheciam todos! - contou o menino, animado.

- Foi mesmo? - empolgou-se a rainha – Conte-me como foi.

O menino começou a contar empolgado sobre o dia que conhecer aos pais de Lina e a rainha Mia ouvia tudo com nítido interesse. Lina observava ora Mia, ora Greymane. Estava surpresa com o comportamento do rei de Guilneas; esperava que ele já tivesse falado algo, chamado atenção do menino de alguma forma, mas ele continuava calado, apenas observando. O que quer que tenha acontecido entre ele e a esposa, após a visita desta a Doroteya, estava contendo-o. Até quando? Era algo que a general aguardaria para saber.

Alheios aos pensamentos de Lina, Mia e Theo continuavam uma animada conversa, deixando óbvio que avó e neto se conectavam de forma natural e fácil.

- Eu soube que você está de férias da escola. - comentou a rainha a certa altura.

- Sim! - animou-se Theo – Um mês todinho de férias! O que é bom, ficar a manhã toda numa sala fechada é meio angustiante. - o menino franziu o cenho – Ainda bem que, quando eu voltar, terei mais aulas ao ar livre, já que o treinamento não é dentro do prédio!

- Treinamento? - estranhou Mia.

- É! Para paladino! Serei um paladino! - disse Theo com orgulho.

Greymane estava bebendo chá no momento que Theo falou aquilo e engasgou um pouco. O menino, contudo, não percebeu.

- Isso é maravilhoso, Theo! - exclamou a rainha – Um guerreiro da Luz! Quando você decidiu?

- Ah, quando eu percebi que queria ser forte para defender minha família, mas que queria curar também. Sendo paladino posso fazer os dois!

Um brilho de orgulho e emoção apareceu no rosto de Mia e Lina achou que ela finalmente fosse chorar. Todavia, a rainha tomou um gole de chá, se recompondo. Lina estava cada vez mais admirada da força de vontade da mulher. Enquanto isso, Greymane permanecia ouvindo, quase acanhado.

- Paladinos não eram comuns em Guilneas. - falou a rainha, sorrindo – Em compensação, temos muitos druidas.

Theo afirmou empolgado com a cabeça.

- Minha mãe me disse! Minha vó também era druida. Minha vó Theodora. Mãe da minha mãe. Meu nome é em homenagem a ela.

- Sua mãe me contou ontem. - revelou a rainha – É uma bela homenagem.

- Eu queria ter conhecido a vó Theodora. Mamãe fala muito dela. Mas, pelo menos, eu pude conhecer a senhora. Papai falava muito da senhora. - e olhando para Greymane, completou – Do senhor também, majestade.

Finalmente avô e neto trocaram olhares, e o menino sorriu para Greymane. O rei acabou sorrindo um pouco, a postura ligeiramente mais relaxada.

- Então… Você se lembra de seu pai? - perguntou Mia, a voz ligeiramente trêmula. Falar do filho com o neto era mais difícil do que ela imaginava – E de Guilneas?

O menino assentiu.

- Não tudo, algumas coisas tão bem embaçadas agora. Mamãe disse que é normal, porque faz tempo que a gente saiu de lá e eu era pequeno.… - o menino deu uma pausa, buscando as memórias em sua mente – Mas lembro do papai. Ele comia pão com garfo e faca, como à senhora. - ele olhou interessado enquanto a rainha cortava uma torrada com só talheres – Nunca entendi. Pão não é melhor comido com a mão? Ele dizia que eu tinha que aprender garfo e faca pra quando tivesse no palácio.

- E você queria ir morar no palácio? - perguntou Mia.

- Não. - respondeu com sinceridade – Eu queria que papai morasse com a gente. Mas ele dizia que não era possível. Que um dia eu ia entender.

- E você entende? - a rainha já imaginava a resposta, mas perguntou mesmo assim.

- Não. Assim, castelos são legais… - ele deu uma olhada em volta, nos muros da bastilha que os rodeavam – Mas a floresta é melhor. Tio Vin fala que quando eu for paladino eu poderia ir até onde as pessoas moram mais dentro de áreas selvagens para ajudá-las e seria muito legal. Só que queria fazer uma coisa primeiro.

- E o que seria? - quis saber a rainha interessada.

- Reconquistar Guilneas. - falou com simplicidade – Quero nossa casa de volta.

O barulho da cadeira de Greymane afastando-se chamou a atenção de todos, que o olharam. O homem se levantara, colocara as duas mãos na mesa, a cabeça baixa.

- Com licença. - ele disse antes de se retirar.

Theo viu o avô sumir na porta lateral que dava para o interior da bastilha, entristecendo-o com isso.

- Foi algo que eu disse? - perguntou a avó.

- Não querido… - respondeu Mia – Ele apenas não está em um bom dia. - e sorrindo para não preocupar o neto, pediu – Continue, por favor. Tem mais planos para quando crescer?

- Além de ser paladino, reconquistar Guilneas e morar na floresta? - perguntou o menino.

- Sim. Além disso.

Theo pensou um pouco.

- Ensinar Liana um monte de coisas. E visitar Pandaria! Pietro disse que lá é lindo!

A conversa continuou por toda a refeição e depois dela. Varian, com muitas tarefas para cumprir, pediu licença e se retirou. Mia perguntou para Theo se o menino conhecia os jardins da bastilha e, diante da resposta negativa, o convidou para conhecer. Theo olhou para Lina, em busca de permissão e ficou feliz quando a general assentiu. Os dois se levantaram e Mia conduziu Theo para os locais que queria mostrar. Lina, claro, acompanhou o passeio, alguns passos atrás, para não interromper a conversa, mas próxima o suficiente para mostrar que Theo não estava sozinho.

Contudo, Lina percebeu que nem era necessário. Sem Greymane por perto, não havia perigos. Afinal, era nítido que Mia queria fazer as coisas pelo caminho correto, sem estremecer os laços que Theo já tinha. Ela queria se adicionar à vida dele e não subtraí-lo de sua própria vida.

Mesmo que soubesse e sentisse que estava sendo vigiada em cada passo, a rainha Mia não estava preocupada com a presença de Lina. Preocupava-se, na verdade, com seu marido e sua reação inesperada à fala de Theo, mas achava que um dos motivos principais para ele ter saído tão abruptamente foi à compreensão de uma realidade que ela própria já encarara, mas que ainda era difícil de aceitar.

Theo não era Liam. Ele parecia muito com o filho, sim. Se ficasse calado, seria como ter o filho de volta à mesa. Mas Theo tinha uma personalidade totalmente diferente de Liam. Não que seu filho não tivesse sido gentil. Longe disso. Todavia, Liam, como uma criança criada para suceder um trono, era mais contido, menos sonhador, e definitivamente menos falador. E Mia percebeu, mesmo com o pouco contato que tivera com Doroteya, que a personalidade do menino vinha dela, apesar dos trejeitos dele serem muito similares aos de Lina. Theo andava empertigado, como um pequeno soldado. O jeito que ele pegara a xícara e cheirara um pouco o café antes de beber fora exatamente igual ao de Lina. Ele também franzia a testa como ela. Uma ligação de coração, muito além do sangue.

Saber que o neto queria reconquistar Guilneas fora uma surpresa agridoce. Por um lado, ficou feliz que ele ainda considerasse Guilneas seu lar e o queria de volta; por outro, aquilo significava participar de uma guerra, uma guerra que ele poderia perder. Onde poderia morrer. Sua inocência infantil ainda não o abandonara, então Theo não imaginava que podia simplesmente perder e deixar de existir. Como seu pai.

Depois de um tour pelos jardins, Mia acreditava que era hora de liberar o menino. Estava muito feliz, mais do que poderia expressar, mas a relação deveria ser construída um passo de cada vez. E o primeiro, o mais difícil, já fora galgado.

- O passeio está ótimo Theo. Mas me diga, sua mãe disse quanto tempo você podia ficar? - perguntou Mia.

- Não, mas disse que eu não a incomodasse muito.

- Ah, você jamais me incomodaria. Mas imagino que há coisa para você fazer em casa…

- Bem, tem o Pietro, que logo volta pra Pandaria… E tem Liana. Eu quem boto ela pra tirar um cochilo depois do almoço!

- É mesmo? - encantou-se Mia – Você bota sua irmã pra dormir?

- Sim! Tem um jeitinho que ela dorme logo, eu ponho ela assim com a cabecinha no meu ombro.. - e mostrou a pose para a vó – Assim. - e lembrando de algo, comentou – Eu tenho uma tia por parte de pai não é? A Tess?

- Isso. - afirmou Mia – Ela está em Darnassus, talvez venha em algumas semanas.

- Meu pai a botava para dormir também? - quis saber empolgado.

Mia sorriu tristemente.

- Não… Eu achava o Liam muito pequeno para pegar a Tess. A diferença de idade deles era bem menor que a sua e de Liana…

- Que pena… A senhora acha que ela vai querer me conhecer? A tia Tess? - perguntou empolgado.

- Tenho certeza que sim.

Ele abriu um imenso sorriso.

- Tia Lina. - ele falou olhando para trás – Já podemos ir.

Lina assentiu.

- Eu os acompanho até a entrada da bastilha. - ofereceu-se Mia.

Quando chegaram lá, antes de irem embora, Theo surpreendeu mais uma vez a rainha, abraçando-a com força.

- Adorei conhecer a senhora, vovó. - e olhando-a, perguntou preocupado – Posso te chamar de vovó? E eu podia te abraçar? - ele a soltou, preocupado.

Daquela vez, Mia não conteve a emoção. Com lágrimas nos olhos, abriu os braços e falou, com a voz embargada:

- Claro que pode meu neto.

Theo deu um imenso sorriso e a abraçou novamente. Demoraram-se no abraço um bom tempo. Lina deixou-os a vontade, para terem seu próprio tempo. Depois, ambos se soltaram, com os olhos úmidos.

- Posso visitá-la de novo, vovó? - quis saber ele.

- Quando quiser querido. Eu aviso a sua tia quando eu for para Darnassus. Ela te traz aqui um dia antes. - e olhou para Lina, que assentiu.

- Da próxima vez, posso trazer um bolo? - quis saber ele – Ou só podem ser biscoitos?

Mia deu uma risada.

- Traga o bolo, querido. E venha a tarde, para vermos o pôr do sol do terraço. É uma bela visão.

O menino assentiu vigorosamente, antes de dar mais um abraço nela e falar, uma última vez.

- Tchau, vovó!

- Tchau, Theo.

E Theo a soltou, pegou na mão de Lina e caminharam até onde estava o grifo. Quando subiu na montaria, Theo deu uma olhada e Mia ainda estava lá. Acenou para ela e a rainha acenou de volta. Ela viu seu neto subir no céu azul, sorrindo para ela e seu coração aqueceu-se, tranquilo, uma tranquilidade que não conhecia há anos.

Sentia que, finalmente, estava em paz.


Notas Finais


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