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História Herdeiros das Cinzas - Capítulo 17


Escrita por: TaranteliLary

Notas do Autor


Depois de meses, finalmente to voltando a ativa. Mil perdõesssssssss, foram meses difíceis. Aproveitam o capituloooo

Capítulo 17 - Capítulo 16.


 Faith estava tensa.
 Já passava da meia noite e sequer havia conseguido dormir. A profecia ainda ressoava em sua mente As palavras de Borte lhe atormentavam.
Não porque estava apaixonada por Lugh, deuses, com certeza não estava apaixonada por ele.
No entanto, ele era um homem bonito. Lindo para caralho, na verdade. Mas, valia a pena se agarrar e tirar a tensão de si caso aquele feérico ruivo raivoso estivesse certo?
Talvez.
Pelos deuses, estava mesmo cogitando aquilo?
É, estava sim. Afinal, que mal teria um pouco de beijos e toques?
Faith não estava se importando muito se ele era um babaca frio ou não, ja estivera com caras piores.
Mal se lembrava à quanto tempo estava naquele dilema, encarando o teto e sempre voltando às mesmas perguntas e as mesmas respostas.
Por fim, ela suspirou e se sentou na cama, que era tão macia quanto as de seu castelo.
De que material era feita? Provavelmente algum tipo refinado de espuma, claramente algo que somente a luxúria feérica poderia trazer.
A princesa se levantou e se decidiu por ler algum livro que trouxera da biblioteca, talvez algum romance fantástico.
Mas, duas batidas suaves na porta lhe chamaram a atenção.
Faith estava apenas com um vestido de ceda perolado, na altura dos joelhos.
O tecido lhe caia perfeitamente, evidenciando as curvas bem desenhadas, os seios fartos tanto quanto sua bunda. Não seria muito culto atender alguém com aquelas roupas, mas, se ficasse atrás da porta, ninguém veria mais do que ela realmente mostraria.
Ela não era uma santa, mas também jamais ultrapassara um certo limite.
Faith suspirou e caminhou até a porta, os dedos delicados tocando o metal frio pregado a madeira.
Ela girou a chave e puxou a porta com suavidade.
Ela com toda certeza não esperava de fato que ele fosse até ela.
— Lugh?
O feérico sorriu.
— Oi. Está ocupada?  — A voz dele estava bem mais acolhedora.
Era estranho que, sem mais nem menos, ele tenha resolvido a tratar bem.
— O que você quer?  — Perguntou ela, apenas parte de seu dorso aparecia, o restante a porta escondia bem.
— Conversar. Pedir desculpas por tê-la tratado mal.  —  seu rosto estava sereno, parecia haver sinceridade ali.
A princesa o encarou por poucos segundos, que mais pareceram uma eternidade, pensando se o desculparia ou não, se o chamaria para entrar, ou não.
No fim, ela fechou a porta.
Era uma idiota por perdoar tão facil.
Assim que vestiu um tipo de roupão, dessa vez de cetim e se envolveu com o tecido, ela abriu a porta.
Lugh ainda estava ali.
— Pensei que tivesse ido embora.
— Achei melhor esperar e ver se eu levaria mesmo um fora.
  Faith franziu as sobrancelhas.
— Não tinha vindo até aqui para se desculpar? — ela se recostou no batente da porta.
Lugh pareceu levemente desconcertado, sua mão direita esfregando a nuca enquanto seu olhar desviava para o chão.
— Sim. Isso também. Imagino que o Borte já tenha comentado, e que você já saiba.
Mais uma vez, Faith o encarou.
— Você é muito cara de pau. Entra. — ela abriu completamente a porta, dando a ele espaço para passar.
— Te deram um belo quarto. — comentou ele, adentrando o local e olhando ao redor.
— Ban e Nesryn são gentis, e receptivos.
— Com certeza são. — Lugh se voltou para ela, um sorriso de canto enfeitando os lábios bem desenhados e levemente carnudos. Desde que chegara, sempre se surpreendia com o quão exoticamente lindos os feéricos podiam ser. Chegava a ser injusto tamanha beleza. — Está linda assim, sabia?
Seu rosto esquentou, e nesse momento a princesa sabia que provavelmente estava corada.
Ela não sabia lidar com elogios.
— Obrigada. Senta ai. — ela apontou para a cama dela, o móvel mais próximo dos dois.
— Sabe, queria conhecer você melhor. — ele fez uma pequena pausa e se sentou na beira da cama. — uma princesa, humana, com tanta força de vontade de proteger o povo é algo raro de se ver.
— Não quando se é ensinada a fazer isso. — um sorriso suave curvou os lábios de Faith e ela se sentou. — Meus pais sempre me ensinaram a me preocupar e amar meu povo, desde sempre eu fui treinada para os defender.
— É admirável. Nós somos treinados desde pequenos para proteger Elyra e até mesmo a própria Avalon, embora a ilha tenha o costume de não precisar de defesa.
— É confuso que uma ilha tenha consciência própria.
Ela franziu o nariz.

 — É magia, não pense muito sobre Avalon, nem mesmo nós, que estamos aqui há séculos sabemos como caralhos ela tem sua própria vontade.
Uma risada suave escapou dos lábios de Lugh.
Pelo visto ele não era tão frio e babaca quanto parecia.
— É, acho que é melhor mesmo.
Lugh pegou um livro que estava jogado em cima da cama dela.
— As brumas de Noht? — ele alternou o olhar entre o livro e a princesa.
— Sim, peguei emprestado na biblioteca. É bem interessante. — ela sorriu.
— É um dos melhores clássicos que temos, esse é só o primeiro volume.
— Sério?
Os olhos da princesa brilharam, assim como os de Lugh, que ganham uma suave nuance de laranja.
Faith já havia o visto várias vezes durante seus treinos e passeios pelo Castelo de Diamante, havia reparado nos olhos de quase todos os guardas, principalmente de Lugh, que era o que mais lhe chamava a atenção.
Ele era magnético, havia uma aura misteriosa ao redor dele que o fazia ser automaticamente e injustamente atraente.
Mas os olhos dele sempre foram o mais puro ônix.
Terem ganhado um tom laranja, mesmo que levemente, era estranho.
— Sim. Já li todos os volumes, você vai gostar dessa história, a protagonista é bem parecida com você.
— Vou levar como elogio. — ela sorriu de canto, apesar de estar desconfiada.
Avalon era o Berço da Magia, a terra e o lar dos feéricos. Estava entre seres mágicos que possuem poder suficiente para acabar com vilas, cidades e até mesmo reinos inteiros se quisessem.
Não deveria ser tão imprudente de confiar em todos da raça.
Mas, resolveu manter a postura.
— Você parece pensativa. — Lugh enrugou as sobrancelhas, juntando-as.
— E estou. — Faith desviou o olhar, sua espada estava do outro lado do quarto. — Por que resolveu vir?
— Um macho não pode ter arrependimentos? — Ele sorri.
— Claro que sim, mas achei que me odiasse, assim como Borte. — quando citou o nome do ruivo, ergueu seu olhar para ele. — ele detesta minha espécie.
— Não se preocupe com ele, é só amargurado. Ele não concorda com como sua espécie age.
— Ele já deixou isso bem claro.
— Por que não me conta mais sobre você? — ele estava sorridente demais.
A cada minuto só ficava mais estranho.
— O que quer saber? Não tenho nenhuma super história para contar. — ela sorriu suavemente.
—  Confesso que fiquei curioso sobre você nos últimos dias. Algumas paredes desse castelo tem ouvidos, sua explosão de poder e a do príncipe se tornaram assunto nos corredores bem rápido. Apesar de que sequer seria preciso, sentimos a explosão de vocês em nossos ossos, e nos perguntamos como dois humanos têm tanto poder.
— Sorte?
— Não, não seria isso. Eu chamaria de benção. Senti o calor do seu fogo mesmo do outro lado do castelo, e eu soube que a quantia invocada foi bem pequena.
— Foi a primeira vez que libertei meu poder, eu sequer sabia que o tinha. — verdade, ela não sabia, e contar algo assim para alguém que poderia ser uma ameaça era insensato. Mas, ela precisava da confiança dele.
  — Você é tão poderosa, — um sorriso caloroso curvou seus lábios. —  e tão linda. — a voz se tornou quase gutural enquanto ele se aproximou dela e lhe acariciou o rosto com a mão.

 Os olhos ônix eram hipnotizantes e tão convidativos que ela se deixou levar.
O polegar direito de Lugh contornou o formato de sua boca, causando nela um arrepio suave.
O feérico fechou os olhos e aproximou o rosto do dela.
Faith fez o mesmo, aquela sensação, aquela vontade de querer extravasar, tirar a tensão que estava sentindo veio ainda mais forte do que quando estavas sozinha.
Era como uma onda de desejo caindo sobre ela, seu corpo parecia mole, totalmente à deriva da sensação, querer beijá-lo estava se tornando um impulso quase impossível de controlar.
Uma brisa leve invadiu o quarto, trazendo consigo o cheiro de dama-da-noite, a flor adocicada que só floresce durante a escuridão.
No entanto, ela sentiu falta da outra mão de Lugh e abriu os olhos para conferir.
Faith arregalou os olhos e, por muita sorte, pegou a adaga embaixo de seu travesseiro rápido o suficiente para bloquear o golpe.
Lugh sorria cruelmente enquanto a mão agarrava com força os cabelos da princesa, forçando sua cabeça contra as adagas.
— Filho da puta! — ela murmurou enquanto fazia força para se livrar dele. — Eu vou acabar com você!
Ele riu e a segurou com mais força.
— Vai, mesmo? — Lugh tremeluziu, os cabelos escuros sendo substituídos por cachos ruivos, os olhos ônix ficando alaranjados.
Olhos âmbar.
E então, Borte estava ali.
— Transmutação e sedução, gostou? — dessa vez ele apenas a manteve presa, fazendo com que Faith não fraquejasse a própria adaga. — posso induzir desejo a alguém mesmo se este já existe ou não, no seu caso, como você tinha um claro desejo pelo meu amigo, resolvi usar a meu favor.
Faith o encarou, a raiva crepitando em seu interior, acendendo aquela magia que corria em suas veias.
Borte estava jogando lenha na fogueira.
— Nós, todos no castelo sentimos a magia que você e aquele moleque liberaram, mas ninguém percebeu o que eu percebi. — ele aproximou o rosto do dela. — Você é uma ameaça, e isso me faz questionar as vontades dessa ilha.
Faith não retrucou, deixou que ele falasse.
— E sabe o que eu fui treinado para fazer com ameaças? — o feérico forçou a adaga contra a dela novamente. Mas estava tão concentrado em deixá-la com medo que sequer notou a pele dela esquentando. — eu mato. E matar uma simples humana será a coisa mais fácil que já fiz.
— O rei vai te punir por isso. — Faith disse entre dentes. Sua magia cutucava a pele com força, um monstro pronto para sair da jaula. Ela podia sentir o fogo se revoltando, se moldando e se juntando, pronto para explodir.
— Não se eu disser  que você me atacou primeiro, no corredor.
— Eles saberão que é mentira.
Mais uma vez ele riu.
— Não seja idiota. Em quem você acha que vão acreditar?
— Você fala demais!
A adaga de Borte derreteu em um piscar de olhos, cobrindo a mão do feérico com metal derretido.
Ele gritou de dor e imediatamente se afastou da princesa, cambaleando para trás enquanto segurava a mão, agora ferida.
Ela não esperou que ele se recuperasse e correu até o outro lado do quarto e pegou Caliburn.
Mas só teve tempo de tirar a espada da bainha antes de ser derrubada no chão, usando a lâmina como bloqueio contra Borte, que agora segurava outra adaga. Pelo visto ele viera preparado.
— Vermezinho insolente! — ele murmurou e forçou a espada para baixo.
No entanto, ele não a conhecia, não conhecia suas  habilidades.
Com um certo esforço, Faith conseguiu empurrá-lo para trás. Mas não fora rápida o bastante para abrir a porta e sair dali, pois a mão boa de Borte, agora sem a adaga, que caíra no chão, jogou a princesa contra a parede, do outro lado do quanto.

 — Uma pena que seja tão bonita, eu poderia ter me divertido primeiro com você. Mas não gosto de começar algo e não acabar, e muito menos comer uma virgem.
Ele caminhava lentamente até ela, saboreando o momento, crente de que venceria.
— Parece que não consegue usar seu fogo, não? Bom, pelo menos não completamente, afinal até agora só conseguiu derreter minha adaga.
O que ele não parecia perceber, era que Faith tinha um plano em mente.
— Vai se foder. — Ela se levantou do chão e disparou contra ele, usando a mesma rapidez que usava nos treinos e usou contra Hayden na primeira vez que se viram.
O feérico arregalou os olhos, surpreso em como ela se movia.
Ele desviou por pouco de um golpe no pescoço e aproveitou para desferir um soco na barriga de Faith, acertando em cheio o estômago.
A princesa se curvou e repousou uma das mãos por sobre a barriga e não esperou para desferir um golpe lateral contra Borte, que novamente desviou, chegando perto da porta e a trancando.
— Você é bem mais resistente do que eu pensava.
— Você vai morrer. — ela esbravejou, sentindo ainda mais sua magia querendo se libertar. Estava difícil.
Borte pegou a adaga no chão e a girou em punho.
— Está falando sobre si, princesa.
Então ele atacou novamente e a dança da morte começou.
Lâmina contra lâmina, golpe atrás de golpe.
Sangue pingando no chão, começando a formar poças enquanto a luta continua.
Faith é jogada com força no chão.
Pelo visto, Borte também tinha a força elevada. A princesa sentia os hematomas em todos os lugares que ele acertou.
Ela começou a recuar, sangue escorrendo da boca, do canto das sobrancelhas e dos cortes espalhados pela bochecha.
A respiração estava ofegante, tanto a dela quanto a do feérico. No entanto, era indiscutível a superioridade do imortal no quesito experiência. Cada golpe era muito bem pensado, calculado com frieza e precisão.
Ela não poderia ter esperado menos de um guerreiro feérico, afinal, mesmo  que Borte fosse apenas o cara que olha o portão do palácio, ele era a primeira barreira contra um ataque à construção, era mais que lógico que ele fosse muito bom no que fazia.
Ver-se naquele estado, toda dolorida, machucada e exausta a fazia reforçar o fato de que era apenas um grão de areia naquele mundo, um bebê recém nascido visitando um reino.
Ela se sentia fraca, e com raiva.
Muita raiva, por estar apanhando daquela forma.
De que servira seus anos de preparo, do que servira as os treinamentos com Gavriel e Hayden se ela não conseguia vencer um guarda?
E foi aí que se lembrou de seus pais. De como devem ter se preparado para conflitos e lutas e batalhas difíceis, para no fim serem assassinados em suas próprias camas.
Lembrou-se de seu tio, Joseph, e de como ele se esforçava a cada dia para continuar forte.
Ela não fora ensinada a fraquejar, a curvar-se de dor diante do inimigo.
Fora ensinada a se erguer, a não deixar que sua coroa caisse.
Era mais que uma princesa com um imenso poder, era cidadã, lutadora, guerreira, amiga.
Nem fodendo deixaria que aquele filho da puta a matasse
.Faith era inteligente o bastante para saber que não ganharia dele em um combate direto.
Ele podia ate se metamorfosear e seduzir alguém, mas não tinha nenhuma proteção, de fato, contra ela.
Achar que poderia vencê-lo somente com o combate corporal foi tolice, um erro que poderia lhe custar a vida. Ainda bem que se preparara para este erro, para o fato de estar errada.
Recostando-se na parede aos fundos do quarto, próxima a cama,  ela deixou que ele se divertisse com a vitória que achava ser dele.
  — Tola. — disse ele, segurando a ferida do braço esquerdo, estancando o corte que estava demorando cicatrizar, levando em conta a regeneração rápida que os feéricos possuem. — achou mesmo que fosse capaz?
O peito de Faith parecia que iria explodir.
— Achou mesmo que aguentaria cinco minutos contra mim?
— Eu não fiquei sem o movimento do meu braço. — ela retrucou, ainda recostada à parede.
— Cortar o meu tendão não vai te fazer sobreviver. — ele a olhou de cima a baixo. — você sequer aguenta erguer sua espada. — ele ri, mas reclamava de dor com murmúrios.
Ele tinha razão, Faith não possuía mais força para um duelo.
Rápido como um predador, ele a segurou pelo pescoço e a ergueu do chão. O ar já impedido de passar por sua garganta, de invadir seu pulmão.
Ela não esperou mais, não segurou aquele aperto no peito como fizera a batalha inteira.
O som de passos apressados começou a se aproximar do quarto.
Borte apertou-lhe o pescoço, arrancando lágrimas de seus olhos, apenas para no segundo seguinte ela explodir.
Fogo invadiu todo o quarto, queimando tudo menos a sua portadora, tão quente e intenso e violento quando as chamas lançadas por um dragão.
O feérico a soltou na mesma hora e tentou correr, mas percebeu que não tinha como fugir daquelas chamas, seus gritos encheram o castelo, seus joelhos bateram com força no chão enquanto ele se debatia, tentando desesperadamente se manter vivo, se manter longe do fogo que o consumia sem piedade. Mas, em vão.
O corpo caiu no chão, já sem vida, o cheiro de carne queimada fez o estômago de Faith se revirar, mas não parou aquele incêndio até que Borte se tornasse cinzas.
A magia estava tão intensa, aquele fogo estava tão selvagem que até mesmo as pedras começaram a derreter.
E então, quando o imortal deixara de viver, quando sua existência foi reduzida a cinzas, junto com tudo naquele quarto, foi que o fogo finalmente se apagou.
Faith caiu de joelhos e vomitou sangue, mantendo o antebraço apoiado no chão para se erguer novamente e se recostar na parede.
Estava esgotada.
Tão, tão esgotada.
Com um suspiro de alivio e um sorriso de canto, ela encarou as cinzas a sua frente, tentando ignorar a mistura de odores — carne, madeira, tecido, metal.
— Otário.
Ela disse para as cinzas, tão baixo que mal se ouviu.
No minuto seguinte, a porta se escancarou.
Ban, Nesryn, Asterin e Gavriel entraram com tudo no quarto, as expressões de surpresa estampadas em seus rostos, em seus olhares. A princesa não conseguiu perceber muito mais graças a visão que agora ameaçava a deixar.
Ban correu até Faith, pegando o corpo ferido e inconsciente da princesa de Camelot.
 



 

 Hayden andava estressado e confuso, sua mente sempre voltava para aquele momento onde perdeu tudo o que tinha. Família, amigos, felicidade. Ele sentia tanta falta de sua vida em Oryoth, até das chatices e fofocas da corte que eram sempre constantes.

 O teto do quarto parecia se aproximar cada vez mais, pronto para esmagá-lo como se fosse massa. Ele balançou a cabeça em negativa e decidiu que apesar daquele vazio em seu peito o dizer para deixar que o teto o engolisse, não era uma boa hora para se perder em sua própria mente. Calçou os sapatos, vestiu a jaqueta de couro forrada com lã de ovelha e saiu de seu quarto. Uma das coisas que ele estava começando a gostar era do fato de seu quarto não ser distante do da princesa, o que lhe garantia vê-la vez ou outra sem aquela expressão de que queria o matar.
No fundo ele sentia uma atração inegável por aquela garota, tão inegável e forte que o irritava desde o primeiro momento que a viu, como se ela fosse um imã atraindo-o e aqueles olhos fossem ainda piores que a beleza dela e a personalidade. Ela era arrogante, esquentada e sem travas na língua, aquilo o encantava tanto que ele chegava a se odiar. Mas ele também enxergava gentileza e altruísmo nela, podia ver claro como o dia o quanto ela amava seu povo e não apenas ele, mas todas as pessoas, afinal estava ali para salvar o país.
Quando disse a ela que poderiam fingir ser amigos, que poderiam dar uma trégua nas provocações era verdade. Eles andavam treinando juntos, mas mal trocavam duas palavras. Talvez era hora de realmente a conhecer melhor.
Ele se lembrou do dia que a ajudou quando ela teve o pesadelo, de como pareceu frágil e assustada, perdendo totalmente a pose de durona. Aquilo o fez rir sozinho enquanto fechava a porta de seu quarto. Hayden nunca se sentiu assim, atraído de uma maneira tão natural e, caramba, não era carnal.
Bom, claro que ele já havia se imaginado calando a boca dela com beijos que lhes arrancariam o fôlego e a prensando na parede no processo, suas mãos vasculhando aquele corpo curvilíneo que o deixava sempre babando no fim do dia. Porém, não era como com as outras mulheres, ele não queria se afastar depois do sexo e nunca mais aparecer, ele queria continuar o contato, se aproximar mais e a fazer rir. Porra, ele a vira sorrir pouquissimas vezes e se derreteu em absolutamente todas elas, aqueles labios curvados em alegria faziam seu peito tremer. Os olhos dela esbanjavam inocência, falta de experiência, e aquilo só o fazia gostar ainda mais dela. Nesse momento não tinha como negar, ele gostava de Faith.
E pelo visto gostava mais do que imaginava, pois quando viu Lugh entrar no quarto da princesa algo em seu peito apertou e sufocou-o. Ciúmes, pois ela deixou aquele cara mal humorado de centenas de anos entrar, mas não o deixaria entrar se não estivesse precisando de ajuda. Talvez nem se precisasse de ajuda.
  Hayden acelerou o passo e sequer se dignou a tentar espiar, mesmo que sua curiosidade e seu ciúme estivessem quase vencendo seu senso. Não tinha direito de sentir aquilo, de ficar zangado ao vê-la com outro homem, macho, tanto faz como eles se nomeavam, o fato era que estava irritado e com inveja. E aquilo o deixava furioso, precisava descontar aquilo em algo.
Quando passou pelo hall de entrada e o caminho dos arcos do castelo ele começou a correr, aquilo o acalmaria. O principe se sentia como um adolescente, não que fosse um adulto feito, mas ainda sim se sentia como um garotinho bobo sendo rejeitado. Ele sequer tentara.
Deuses, devia parar de pensar naquilo, para de pensar nela. Haviam coisas mais importantes para se pensar no momento e paixão com certeza não era uma delas. Suspirando ele diminuiu o ritmo e se viu já afastado o bastante de Elyra,  próximo a entrada de Avalon pela árvore sagrada.
Talvez devesse ir atrás de Nox, afinal o príncipe já estava ali há dias, seu amigo provavelmente já estava mais que preocupado. Hayden apoiou a mão no cabo de sua espada e começou a caminhar rumo ao portal da ilha, porém um homem o atravessou todo ensanguentado e com uma mulher nos braços.
Hayden não hesitou em se aproximar com uma expressão preocupada.

 — Ei! O que aconteceu?
— Fomos atacados. Me diga onde é a enfermaria, agora! — o homem de cabelos loiros tinha desespero no olhar, a jovem em seus braços estava pálida como um cadáver. Provavelmente perdeu muito sangue.
— Levo vocês até lá, não é longe.
Eles seguiram caminho andando o mais depressa possível, a garota sequer parecia respirar.
Quando finalmente chegaram à enfermaria o príncipe reparou no brasão na roupa do rapaz, que provavelmente tinha sua idade e reconheceu de onde vinha. Camelot, e pelo material que o brasão era feito ele era de um alto cargo, possivelmente um capitão, o que significava que era muito bom no que fazia. Para terminar naquele estado provavelmente deviam ter sido atacados por algo não humano.
Antes mesmo que Hayden pudesse perguntar o loiro simplesmente desmaiou depois de deixar a garota em uma maca, onde os feéricos agora trabalhavam agilmente para a salvar. Para salvar ambos, pois agora o príncipe pôde perceber que aquele homem também estava ferido.
Seria melhor os deixar descansando, amanhã perguntaria a Faith se os conhecia. Provavelmente sim.
Ir até seu quarto agora não era uma boa ideia, não queria ser um estraga prazeres mais do que já era.
Enquanto saia da enfermaria pôde ver de soslaio algo laranja, por curiosidade dirigiu o olhar na direção daquele ponto luminoso e viu fogo, muito fogo, e pelo ângulo estava saindo do quarto da princesa.
De imediato ele começou a correr, atravessou os salões e esbarrou em pessoas durante todo o percurso, sequer parou para respirar ou pensar em qualquer outra coisa além de que Faith estava em perigo.
Hayden entrou no quarto da princesa sem hesitar, a passos apressados e trôpegos e se deparou com o rei, a rainha, Asterin e Gavriel. Mas naquele momento ele mal os enxergava, apenas via Faith encostava na parede, cheia de cortes e inconsciente. O mundo parecia lento, mas ele fora rápido o bastante para passar por todos eles enquanto sua própria voz dizia o nome dela várias vezes em sussurros e a pegava em seus braços.
O príncipe não disse nada para aqueles ali presentes, apenas saiu daquele quarto a passos longos enquanto sentia os batimentos dela falharem vez ou outra. Estava fraca, provavelmente ela mesma incendiou o quarto.
Havia um nome lhe rondando a cabeça; Lugh. Onde quer que aquele filho da puta estivesse, Hayden o acharia e o mataria de forma muito lenta e dolorosa.



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