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História .heroes - Capítulo 2


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Notas do Autor


e aí

Capítulo 2 - .la valse d'amélie


O relógio marcava o passar do tempo e o tic tac me irritava de uma maneira sem nada igual. Batia o pé contra o solo e nada fazia o tempo passar mais rápido. Eu estava entediado, é verdade. Fazia três dias que a Rafaela tinha ido até à minha loja e infelizmente ela não retornou. Mas é claro, por que ela retornaria? Uma loja cheia de pó, com discos antigos e com a minha cara de pessoa preguiçosa, era óbvio que ela não voltaria. Não sei onde eu estava com a cabeça quando eu imaginei que ela tinha gostado de mim, mesmo que fosse só um pouquinho.
      - A madame hoje está um pouco sem paciência. - falou Mary ao meu lado alisando a barriga, o que me dava arrepios.
      - Desculpa. É que eu estive pensando em algumas coisas e viajei.
      - Está tudo bem com você, Manu?
Não respondi, apenas sorri. Olhava novamente e voltava a encarar aquela pesada porta de madeira, onde Mary e eu havíamos recebido a notícia de que ela estava grávida. Sim, sou eu que a acompanho na maioria das consultas, já que Bastian sempre está viajando com seu time de futebol formado por meninos do ensino fundamental. Estávamos no consultório médico e eu teria que ignorar a médica ginecologista que dava em cima de mim sem nenhum tipo de censura. Eu, como uma pessoa tímida, não suporto flertes e nem quando as pessoas ficam me paquerando, já que eu não sei como agir e as minhas bochechas me entregam facilmente.
Ah, pronto, só foi pensar no diabo que ele aparece. Lá vem ela, de passo curto, cabelo loiro comprido preso num rabo de cavalo, com cegonhas em rosas desenhadas num jaleco e um perfume doce. Ela era baixinha, com sorriso franco e não me atraía em nada, mas como médica, eu não tinha qualquer problema. Seu nome era Nina Weiss, era jovem, deveria ter mais ou menos 27 ou 29 anos, tinha acabado de se formar.
Entramos em seu consultório daquela clínica obstétrica. A sala tinha cheirinho de lavanda, com vários ursinhos de pelúcia e uma barbie médica num quadrinho pendurado na parede.
      - Como estamos, Mary? Seu namorado está viajando de novo? - perguntou Nina sorridente como sempre.
E minha mente voltou a divagar no meu encontro com Rafaela, no quanto ela era linda, nas suas lágrimas solitárias, em seu belo sorriso e no seu perfume que era único, assim como ela. Eu passei a segui-la no Instagram, curti todas as suas fotos e até passei a entrar em contato com algumas páginas de fã clube para saber onde ela estava, se continuava em Munique ou se tinha voltado para os Estados Unidos.
      - Manuel? - chamava o meu nome e pela cara de Nina parecia ter me chamado mais de uma vez.
      - Sim?
      - Eu disse que você é um amigo incrível para acompanhar a Mary nas consultas. Imagina se fosse seu próprio filho. Seria lindo.
Pronto, eu falei. Até que não demorou muito para ela começar a me cantar com essa sem vergonhice toda. Santo Deus, me ajude para sair dessa.
      - Bom, dra. Nina, acho que não seria tão legal se fosse meu próprio filho. - falei enquanto dava de ombros. - Você deveria perguntar para Mary sobre isso.
    - Eu prefiro o Bastian. - Mary dizia enquanto deitava na maca, preparando-se para o exame de ultrassonografia. - Manuel e eu já namoramos, não foi legal.
      - Perdi a mulher mais incrível que eu já conheci para o meu melhor amigo. Viu, dra Nina? Eu sou um péssimo namorado.
      - Eu duvido. - ela respondeu olhando-me nos olhos, seriamente.
Mary apenas gargalhava com a falta de vergonha de Nina e eu só queria abrir um buraco na Terra para me esconder. Bem, vamos para o que interessava: eu chorei. Chorei, só que um choro bem chorado de quem se emociona como uma criança. Sempre gostei de ouvir o coração daquele bebezinho e eu sentia muita pena por Bastian não estar presente. Era o ciclo da vida, era lindo pensar que meus melhores amigos estavam prestes a ter um bebê que seria amado todos os dias, amparado em cada choro e seria quem eu depositaria todas as minhas fé para um mundo melhor.
      - Vocês já escolheram um nome?
      - Amélie.
A dra Nina disse que estava tudo bem com a Amélie e receitou alguns suplementos vitamínicos para Mary. Como sempre, ela fez questão de me entregar o cartão de visitas onde estavam seus números de telefone e o endereço de suas redes sociais e eu, como sempre, fiz questão de jogar no lixo assim que cruzávamos a porta de saída.
      - Juro para você que da próxima vez você irá sozinha, pelo amor de Deus.
      - Você não vai abandonar a sua melhor amiga, não é? - falou ela dando uma piscadinha. 
Droga, ela sabia que eu sou muito bonzinho e estava se aproveitando da minha boa vontade. Esse é o lado ruim da intimidade: as pessoas te conhecem e você se torna previsível.
      - O que você vai fazer agora, Mary? A gente podia comprar umas roupinhas e quem sabe...
      - Não, não, não. Eu faço questão de te ver fora de casa por pelo menos uma vez na semana. Manuel, há quanto tempo você não vai a um bar, uma balada, sei lá?
      - Você sabe que eu não gosto disso.
      - Eu perguntei? - ela disse friamente. - Faço questão de voltar sozinha para casa, eu estou bem e eu vou dormir na tranquilidade de uma casa sem homens. Apenas Amélie e eu.
      - Mas...
      - Sem essa história de "mas". Toma aqui. - ela puxou da bolsa a carteira e me entregou uma nota de 50 euros. - Eu pago.
      - Você enlouqueceu?
      - Manuel Peter Neuer, você é solteiro, não tem filhos, tem que se divertir.
Eu não queria aceitar que no fundo ela estava certa. Não estou em nenhum tipo de relacionamentos, não tenho filhos, nem sequer tenho cachorro. Há meses eu não vou à algum lugar com bebidas e pessoas novas, não que eu gostasse muito disso, eu ia muito bem de netflix & chill, entretanto, Mary tinha razão. E era melhor ela me empurrar para um bar com cerveja boa e gelada do que para aquela médica doida. Ok, tudo bem, cervejarias em Munique é o que não falta. Não seria difícil encontrar uma boa.
Escolhi uma onde Mary e eu costumávamos ir quando ainda estávamos juntos, não que eu fique pensando sempre nisso, mas é que lá tem a melhor Weissbier da cidade e a porção de frita vem sequinha. É, realmente, eu fiz a escolha certa. Bem, talvez nem tanto, já que o garçom me reconheceu e começou a fazer perguntar sobre "a garota que eu trazia aqui quase todos os dias".
      - Ela tá noiva do meu melhor amigo agora e eles vão ter um filho.
      - Eu sinto muito.
      - Não, não. Tá tudo bem entre a gente. Na verdade, eu prefiro que seja assim. Eu estou felizes por eles.
Assim, eu acho que o garçom não acreditou muito em mim, mas eu não quero nem saber, eu disse a verdade e ponto. O que ele deveria fazer era trazer a minha cerveja o mais gelada possível e rapidamente.
Apesar da distração, das mensagens da minha mãe no WhatsApp, eu ficava vendo os FCs da Rafaela para saber se ela ainda estava em Munique e para a minha felicidade, ela estava. Aparentemente ela estava em gravações para o filme sobre Ludwig II no grandioso castelo de Neuschwanstein. A última vez que o FC postou uma foto foi há dezoito horas onde ela foi clicada usando um daqueles vestidos de época num tom rosa, cheio de babados e com o cabelo enrolado num belíssimo penteado. A cada dia Rafaela me surpreendia mais.
      - Manuel?
      - O-oi.
Era Rafaela. Ela sorria para mim enquanto se aproximava da minha mesa e logo depois perguntava se podia sentar. Hoje ela estava mais "gente como a gente", vestindo uma calça jeans e um suéter fofinho e quente de lã com gola de lã num tom salmão, mas a boina francesa preta continuava na cabeça. Ela era linda e seu sorriso era cativan
      - Você por aqui! - falei com empolgação. 
      - Hoje é o meu dia de folga. Posso curtir a cidade mais à vontade. 
      - Está gostando de Munique?
      - Ah sim, eu adoro Munique. Já tinha vindo para cá outras vezes, gosto dos museus, dos castelos, dos prédios, da Marienplatz.
      - Seja muito bem vinda... novamente.
      - Você mora por aqui?
      - Sim, eu moro no Alstadt, então eu sempre estou perto de tudo. Moro com os meus amigos.
      - Você tem amigos! Nossa, que legal.
      - Tenho. Tenho dois.
Estranhei o rumo que aquela conversa ia tomando porque para Rafaela ter amigos era como achar um poço de petróleo no quintal de casa. Talvez ela fosse uma pessoa solitário, estilo Eleanor Rigby dos Beatles, ou talvez a vida dela fosse tão corrida que ela jamais encontrava tempo para se encontrar com as pessoas que ela gostava.
      - E vocês são amigos há muito tempo? - ela perguntou enquanto o garçom entregava os nossos pedidos.
      - O meu amigo Bastian eu conheço desde os tempos da faculdade, já a Mary eu conheci no meu antigo trabalho, no escritório. Eles estão noivos e vão ter a bebê Amélie em alguns meses. Eu vou ser o padrinho.
      - E a madrinha?
      - Ainda não temos quem indicar. - falei com vergonha.
      - Entendi. Mas que graça, eu adoro o filme da Amélie Poulain.
      - Eu também gosto muito.
Compartilhamos um estranho silêncio, como se naquele momento Rafaela e eu encontrávamos na mesma situação: sofrendo pelo presente, questionando sobre que sentidos escolhemos nas nossas vidas. Ela olhava para o prato e parecia ter se perdido em seus pensamentos. Era o mesmo olhar de quando ela havia chorado na loja de discos. 
      - A sua vida parece ser muito boa, Manuel.
      - Você acha mesmo? - perguntei sem entender muito bem o que ela estava falando.
      - Sabe, você mora em Munique, tem grandes amigos, vai ser padrinho de uma criança linda, é dono de uma loja de discos e deve ter paz de espírito. Eu adoraria ter uma vida assim.
      - Isso aqui é algum tipo de pegadinha? - fiz a pergunta olhando para os lados procurando pelas câmeras.
      - Você leva uma boa vida, Manuel. Eu gostaria ter a mesma sorte.


Notas Finais


manuel ouve barões da pisadinha é verdade esse bilhete


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