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História Heroína - Capítulo 20


Escrita por:


Notas do Autor


SE VOCÊ NÃO ACOMPANHA QUIMERA E ACHA QUE ESTÁ SONHANDO, CALMA!!!!!!!!1 É REAL EU VOLTEI

Se você viu as atualizações na outra fic, eu expliquei o caos da minha vida, finalizando TCC, mudanças, problemas, PORÉM EU VOLTEI E É PRA FICAR!!!

Vou publicar algumas atualizações em Heroína e tentar me redimir com quem ainda não desistiu de mim ♥

Não se esqueçam de ver a playlist da fic, ela é ótima!!!

Capítulo 20 - Prelúdios de uma tempestade que você não viu chegar


Me toque

Por que a gente não se mata devagar?

Me abrace

Aperte um pouco mais até não podermos respirar

O que posso dizer? Meu bem, o que posso fazer?

O monstro em mim ama o monstro em você

— Monster in me, Little Mix

 

—Capítulo XX–

Prelúdios de uma tempestade que você não viu chegar

 

2015

 

— Onee, já chega!

Hinata se virou o mínimo para poder encarar Hanabi com os olhos cansados. Não respondeu aos protestos zangados que a irmã mais nova fazia na entrada de seu quarto.

— Você vai sair desse quarto agora e ir fazer alguma coisa da vida! – esbravejou, avançando contra as roupas do avesso e das colchas da cama.

Hinata a ignorou, voltando seu rosto para a vista da sacada. Dia após dia, permanecia sentada na poltrona acolchoada, com os pés escorados no apoio de mármore. Tinha empurrado a mesinha de anotações e o telescópio para poder arrastar sua cadeira; não sabia porque não os tinha afastado mais, longe da vista. Talvez fosse covarde. Ou masoquista. De qualquer maneira, o sol aquecia sua pele, ainda que usasse seus velhos pijamas de mangas cumpridas. Com os ombros caídos, ela observava o movimento do bairro, acompanhando, com os outros, as mesmas rotinas, repetidas vezes, até que ficasse muito escuro e muito frio.

Asakusa Valley era um bairro nobre e pacato, que reunia grandes casarões clássicos, pouco modificados ao longo dos séculos. Eram de cor clara, muitos andares e jardins extensos. Da sacada de seu quarto, Hinata conseguia ver a casa dos Sabaku, e as persianas abertas do quarto de Sasori, irmão de Gaara. Pensar em Gaara a fez suspirar, e direcionar seus pensamentos para seus outros vizinhos. Há dias vinha treinando aquela habilidade de bloquear quaisquer lembranças que a remetessem a ele. Claro, não era inteiramente bem-sucedida, mas aprendera a ignorar também, como a trepadeira de lilases que formava uma escada em sua varanda, ou o caderno de constelações que começara do zero, e agora estava tão abandonado quanto qualquer outra coisa. Chegara a conclusão que tudo era questão de adaptação.

Hinata só não sabia como se adaptar à falta dele.

Ouviu passos, e, poucos segundos depois, Hanabi estava a sua frente. A Hyuuga mais velha não percebia o tempo passar, mas via as mudanças na irmã. O cabelo longo a deixava cada vez mais parecida consigo mesma, se não fossem os olhos intensos e os lábios cerrados. Estava mais alta também, com o corpo mais esguio, os ombros mais eretos e a postura mais agressiva. Ao contrário de Hinata, ela tinha uma presença naturalmente convicta.

— Já disse para me deixar em paz, Hana. – murmurou com sua voz rouquida e sem vida. Hanabi bufou, cruzando os braços como se pensasse na melhor maneira de atirá-la do segundo andar.

— Kiba está aí embaixo. – o nome não a pegou de surpresa.

— Diga que o vejo depois. – respondeu mecanicamente.

— Assim como ontem? Ou semana passada? – seu tom pingava ironia – Ou como me mandou dizer para Sakura no fim de semana, ou para Gaara? Se lembra deles? Seus amigos? – Hanabi não se importava em atacá-la tão diretamente, e Hinata admitiu que merecia. Seus ombros se curvaram para frente em uma tentativa inconsciente de proteger o que não estava exposto. Seus dedos coçaram as pernas dobradas, demonstrando alguma reação.

— Ainda está muito cedo. – sua voz falhou no final. Hanabi soltou o ar pesadamente, cedendo à postura rígida.

Pouco mais de quatro meses tinham se passado, e as coisas iam de mal a pior. Tsunade não se dava mais ao trabalho de atender as ligações de Hinata, e ela tampouco tinha interesse de ir pessoalmente atrás de informações. Demorou até que aceitasse, de uma vez por todas, que, se ele quisesse que ela tivesse alguma notícia, teria dado ele mesmo. Não fazia sentido incomodar a pobre senhora – e, com essa resolução, Hinata não tinha mais motivos para sair de casa.

As férias extraordinárias vieram em bom tempo – ela passou a sequer sair do quarto. Diminuiu as refeições para lanches ocasionais, quando sua mãe insistia e deixava uma bandeja na porta trancada de seu quarto. De madrugada, quando acordava, geralmente de um pesadelo, descia sorrateiramente, comendo qualquer porcaria que entupiria as veias de seu coração em alguns anos. A questão era que Hinata não sentia fome. Ela não sentia nada.

As semanas se passavam entre dois estados de espírito – torpor e tristeza profunda. Em determinados momentos, Hinata imergia em inércia, sentada na sacada e encarando o horizonte. Não pensava em nada, não falava com ninguém. Era como um estado catatônico permanente. Abraçava as próprias pernas, tomava sol e permanecia em seu quarto, ignorando os chamados insistentes de seus pais. Então, em outros momentos, quando seu corpo reagia, ela se deixava dominar pela tristeza e pela insegurança – geralmente quando estava no banho, ou pela noite, deitada e coberta até as orelhas. A noite era sempre mais difícil. Sua mente era bombardeada de memórias, de perguntas, de suposições tolas. E ela se permitia chorar, até que lhe faltasse ar e seu travesseiro estivesse encharcado. Adormecia, soluçando, e acordava com um pesadelo.

Esse ciclo todo lhe parecia ridículo. A deixava irritada. Parte de si queria gritar e quebrar as coisas, porque se recusava a aceitar aquela situação. Ela sabia que não era para tanto — foi só um maldito término. Milhares de garotas passavam por isso e não reagiam tão exageradamente como ela. Ele foi embora para morar com os pais. No meio da noite. Sem se despedir. Depois de jurar que a amava mais que tudo. Quer dizer, Hinata tinha licença poética para chorar alguns dias, amaldiçoar toda sua geração, comer o dobro do seu peso em açúcar e maratonar comédias românticas na Netflix. Então, ela seguiria com a sua vida.

Por que aquelas sensações vinham? Por que pensava que não era suficiente? Por que era tão difícil esquecer? Por que doía tanto?

— Eu odeio te ver assim. – Hanabi murmurou, acariciando seu joelho. Foi bom – Vou falar que o Kiba pode subir. – se afastou novamente, atravessando o quarto.

— Eu não quero falar com ele.

— E eu não ligo. – cantarolou, já na porta.

Hinata suspirou. Ela não era páreo para a teimosia surpreendentemente grande da irmã. Havia dias que não conversava nem com seus próprios pais – eles estavam lidando surpreendentemente bem com a circunstância, e ela apreciava isso. Lhe davam espaço, eram compreensivos e pacientes. Hanabi também, à sua própria maneira.

O ambiente ficou silencioso por alguns segundos, até que ouviu uma batida na porta.

— Hinata? Posso entrar?

Reprimiu um novo cicio. Vamos lá, não seja uma covarde. Embora estivesse sem nenhuma motivação, desfez os laços das pernas e pôs-se de pé. Seus dedos formigaram, e sua coluna estralou, por ficar tanto tempo sentada. Arrumou a calça de algodão surrada, e passou os dedos no cabelo, oleoso e embaraçado. Não tinha como ficar melhor que aquilo, então se virou, com o rosto em uma máscara desinteressada. Tinha consciência de como deveria estar deplorável, mas, mesmo assim, Kiba a olhou como se fosse o próprio sol.

Os Inuzuka era bons vizinhos, e moravam no bairro há tanto tempo quanto os Hyuuga. Eram amigos cordiais, convidando para churrascos nos fins de semana, e o senhor Inuzuka e Hiashi pescavam na temporada. Hinata e Kiba estudaram juntos, e, antes dela mudar para a sala A, eles eram parceiros em várias matérias. Ela era bastante tímida quando criança, e, por isso, interagia mais com as meninas, como Sakura e Ino; manteve uma relação civilizada com Kiba em respeito aos seus pais e os pais dele, a quem tinha bastante apreço. Eram farmacêuticos famosos e bem-sucedidos; tentavam compensar a ausência com mimos, e, sendo filho único, Hinata sentia um pouco de pena de Kiba.

Admitia que a puberdade lhe fizera bem. A pele amorenada ganhou tons de melanina brilhante, e os ombros tornaram-se largos. Era de altura mediada, com o rosto desenhado e os caninos proeminentes. O cabelo estava ralo, em um corte militar, deixando seu pescoço a vista. Ele vestia roupas casuais que lhe caíam bem, e, em sua mão, um buquê pequeno com rosas vermelhas. Hinata surpreendeu-se, quase envergonhada da bagunça e do seu estado.

— Oi, Kiba. – cumprimentou, saindo do sol. Ele entrou, aproximando-se dela e entregando as flores – Muito gentil da sua parte, não precisava. – murmurou, pegando o buquê. Não percebeu que espetou o dedo em um dos espinhos, escondidos entre as pétalas vibrantes e cheirosas.

— Achei que pudesse te animar. – sua voz de veludo soou sincera e preocupada. Hinata quase sorriu.

Kiba era um bom amigo. Prestativo desde criança, era sempre uma companhia agradável, sobretudo quando se tratava de Hinata. Depois que soube do incidente, a visitou incessantemente, dia após dia, na tentativa frustrada de diverti-la. Mesmo que a Hyuuga fosse rude, ou indiferente, ele continuava voltando. Não escondia seus claros interesses amorosos, e, ainda que soubesse que, provavelmente, seria frustrado, ele não se importava. Hinata admirava aquilo – a sensação de ser querida, ser desejada, fazia bem para ela.

— Obrigada. – murmurou, sentando-se na beirada da cama que não estava bagunçada. Sua posição aberta foi um convite para que Kiba se sentasse também, e foi o que ele fez – Não precisava fazer nada disso.

— Não faço porque preciso, faço porque eu quero. – ele era firme e decidido. Hinata o fitou pela cortina de cabelo que escorregou por seus ombros. Os primeiros traços de cor cruzaram seu rosto quando seus olhos se encontraram; ele a olhava sem medo, com um brilho diferente. De repente, ela não sabia porque tinha ficado tão impressionada. Antes de Naruto, nunca tinha sido olhada daquela maneira.

Naruto. Pensar nele ainda dilacerava seu coração. A simples menção do nome a fazia querer chorar. Ela tinha entregue todo seu coração, e o garoto partira com ele. Estava despedaçada, desiludida, confusa, com medo, culpada.

— Fico feliz que tenha aceitado me ver. – seus dedos encontraram a mão de Hinata sobre seu colo, e ela sobressaltou. Onde Naruto costumava tocar, era quente e confortável; a mão de Kiba era macia e morna, natural – Sei que ainda está receosa, e que não vai confiar em mim tão cedo. Mas eu te prometo, ao contrário dele, não vou abandonar você. Nunca. – aquelas palavras trouxeram lágrimas para os cantos dos olhos de Hinata.

Usar Kiba como substituto, um tapa-buracos, era baixo. Desprezível. Por outro lado, ele estava ali, sentado de bom grado no meio de pilhas de roupas mal-cheirosas, segurando as mãos de uma garota que não tomava um banho decente há dias, prometendo o que ela queria desesperadamente ouvir. Em seu coração, amava Naruto; dolorosa, intensa e profundamente. Contudo, também sofria, porque ele tinha ido embora, tinha fugido dela. Ela se conformaria com um telefonema, céus, ela se conformaria com uma mensagem. Mas não teve nada.

Poderia se permitir confiar em alguém outra vez?

— Não estou pedindo para ser seu namorado. – ele a tirou de seu silêncio, como se lesse seus pensamentos – Só quero te tirar desse quarto, te mostrar o mundo incrível que tem lá fora. Vamos tomar um sorvete, passear. Tudo que eu desejo é te ver feliz. – parecia quase agonizado.

Hinata estava sem palavras. A garganta fechada pela emoção, as mãos trêmulas, segurando o belo buquê. Há semanas que não saía de casa. Ela tinha sido ríspida, dispensado-o por dias, mas ali estava ele, disposto a ser um amigo, um ombro para chorar. Talvez Hanabi estivesse certa. Talvez ela precisasse dar uma chance, se permitir curar.

Assentiu devagar, quase rindo do sorriso descomunalmente grande que o Inuzuka abriu. Tinha um aspecto animalesco, por conta dos caninos, quase como um cachorro. Hinata gostou daquilo. Engolindo em seco, pediu alguns minutos para tomar um banho, e ele concordou, de prontidão. Levantou-se, caminhando até o banheiro de acesso. Bloqueou as lembranças e despiu o pijama, jogando-o no cesto. Ligou a ducha quente, deixando que a água levasse todo o peso de seus ombros, e pedindo para um Deus qualquer que a ajudasse a ter forças.

Voltou para o quarto com um roupão. Kiba continuava sentado, solícito, sorrindo largamente para ela. Hinata sentiu-se corar, correndo para o closet. Abriu as portas de correr, fitando as peças que tanto gostava – e que há muito não usava. Percorreu os dedos pelos vestidos floridos e coloridos, de mangas e alças finas. Piscou diversas vezes, afastando o mau estar que vinha junto das memórias. Eram tantas — por que ele tinha que estar em cada uma delas? –. Decidida, puxou uma das camisetas que menos gostava. Tinha sido um presente de uma tia distante de gostos peculiares, e era escura, com desenhos em vermelho tinto. A vestiu, e ficou um tanto larga. Puxou um shorts jeans, de bolsos rasgados, e seu oxford gasto.

Quando saiu, Kiba a fitava com intensidade. Era despudoroso, e desconfortável, mas, ao mesmo tempo, intrigante.

— Cores escuras ficam ótimas em você. – comentou.

— Você acha? – perguntou, surpresa. Lembrou-se de todas as vezes que Naruto a elogiou com os vestidos esvoaçantes. Comparar era inevitável, e doloroso.

— Com certeza. Essa camiseta ficou linda. Deveria usar mais roupas assim, em vez dos vestidos. – ele pareceu tão sincero, que ela assentiu. Talvez pudesse ver uma ou duas roupas diferentes da próxima vez que fosse ao shopping.

Saíram do quarto em silêncio. A claridade do corredor fez seus olhos estranharam, e ela desceu as escadas com passos leves. Passou pela cozinha, onde seus pais conversavam. Quando parou, eles a olharam pasmos. Foram dela para Kiba algumas vezes, e trocaram um olhar carregado de significado. Hinata ficou um pouco incomodada – como tantas outras coisas, a maneira que eles se comunicavam silenciosamente era uma das coisas que dividia com Naruto, que invejava em seu relacionamento.

— Espero que não se importem se eu sair um pouco com o Kiba. – falou, a voz baixa e falha. Hiromi entreabriu os lábios, sendo a primeira a negar com a cabeça.

— Claro, não nos incomodamos nem um pouco, filha. – parecia se recuperar do choque – Bom te ver aqui de novo, Kiba. – cumprimentou o garoto, que sorria brilhantemente.

— É um prazer, senhora Hyuuga. – retribuiu, educado. Hinata foi até a porta antes que mudasse de ideia, saindo para o jardim e inspirando fundo.

Caminharam lado a lado, em uma distância longa o suficiente para mostrar que eram amigos casuais, e curta o suficiente para permitir que Kiba roçasse seus dedos quando gesticulava. A rua inclinada dava acesso à parte do centro de Konoha, e Hinata ainda se lembrava, tão claramente, de quando fez aquele trajeto com Naruto pela última vez. Seu semblante se converteu em uma máscara desolada, e Kiba percebeu.

— Ei. – chamou gentilmente, segurando-a pela mão. Hinata quis puxar, mas não o fez – Se precisar, pode falar comigo. – ela deu de ombros, dando a entender que pensaria na proposta – Estou falando sério. – insistiu – Ele é um idiota, para deixar uma garota tão incrível como você sozinha. – comentou, e Hinata tentou rir, mais parecendo como um soluço choroso.

Kiba sabia todas as coisas certas para dizer. Ele era engraçado e espontâneo. Foram até a sorveteria, e Hinata desejou que Sakura estivesse trabalhando, para vê-la ali. Sentaram em uma das mesas de fora, no sol, e riram e contaram piadas. Foi leve, e a garota agradeceu por aquilo. Kiba era realmente um bom amigo. Ela tinha outros bons amigos – não sabia dizer porque aceitou sair com o garoto. Talvez tenha sido a insistência. A franqueza. Todos os outros tomavam cuidado de não dizer o nome de Naruto, mas Kiba não. Kiba falava, e xingava, e dizia que ficaria do seu lado. Ele era diferente, e ela gostava disso. Estava quebrada, e precisava de alguém que pudesse ajudá-la a consertar seus pedaços.

(um mês)

Hinata não estava se curando. Não era simples assim. Mas estar com Kiba era fácil; indolor. Ele era engraçado e prestativo. E insistente. Não se importava com algumas frases atravessadas ou olhares incomodados; ele continuava voltando, como um cachorrinho fiel – sentia-se mal por fazer analogias tão cruéis, mas era verdade –.

Ela ainda não queria sair de casa, e ainda não queria reviver todas as lembranças que guardava tão dolorosamente consigo. Todavia, já não se importava mais de fazer as refeições em família, passar um tempo com Hanabi vendo televisão ou voltar a estudar seus livros de astronomia. Seus pais, perceptíveis à mudança, não reclamavam. Mantinham o mesmo sorriso contido, mesmo quando Kiba estava com eles – o que era, basicamente, o tempo todo. Ele literalmente passava o dia em sua casa. Uma vez que preferia não sair dos domínios confortáveis e seguros de sua zona de conforto, o garoto vinha, trazendo presentes e programas para eles. Assistiam filmes, liam livros, conversavam sobre coisas banais. Ele lhe mostrava músicas que não conhecia, e ela percebia como seu gosto era simplório – Kiba nunca lhe disse isso explicitamente, mas ela entendia nas entrelinhas –. Ele almoçava com a família e ia embora de noite.

Antes de perceber, Hinata passava todo o tempo com Kiba. E, quando estava com ele, podia esquecer, mesmo que momentaneamente. Esquecia-se de como era tocá-lo, como era seu cheiro, como era seu sorriso. Como doía estar sem ele. Namoraram por um ano, começaram a sair pouco antes disso, e Hinata o amou intensamente, com todo seu coração e alma. Ninguém tinha lhe ensinado como esquecer um amor assim, não existia um manual de instruções para lidar com a saudade. E Kiba estava ali, disposto a servir como um substituto, disposto a suportar a companhia de uma garota que claramente preferia outro.

Seu coração inflava de gratidão, e sentia como se devesse algo a ele. Por isso, aceitava a maioria das coisas que ele propunha. Naquela tarde, estavam deitados sobre o carpete – limpo – do chão de seu quarto. Criar coragem para organizá-lo tinha sido um passo definitivo em sua escalada para longe da mediocridade. Lavou suas roupas, trocou os lençóis de cama, reorganizou a disposição das escrivaninhas, e, principalmente, se livrou de cada pequeno detalhe que lembrasse Naruto – como as obras de arte que ele tinha lhe dado, e que ficavam penduradas sobre sua cama, ou do lado oposto, para que visse antes de dormir. Não teve firmeza para jogá-las, mas as guardou muito bem guardadas em uma caixa na garagem. O cômodo estava limpo, esperando por uma redecoração. Assim como ela esperava estar.

Com os corpos estirados para lados opostos, Hinata tinha as pernas cruzadas e as mãos sobre a barriga, encarando um ponto fixo acima do batente. Kiba tinha o tronco virado para ela, de maneira que pudesse ver seu rosto enquanto falava. Usavam roupas de verão, e a sacada aberta trazia uma brisa considerável, que bagunçava o cabelo solto da morena.

— Sabe, acho que você ficaria muito bem de cabelo curto. – ele comentou, correndo os dedos pelos fios que, por vezes, atingiam-no o rosto. Hinata riu, pensando ser um comentário engraçado por estar acertando-o.

— Você acha? – brincou com as pontas em seu ombro – Eu sempre gostei dele longo. – disse, nostálgica.

— Mas está na hora de mudar, não está? – sua voz indicava que ele falava sério – Acho que combinaria bem mais com você, ficaria mais bonita.

— Talvez. – respondeu, pensativa – Nunca saberemos.

— Mas eu acho…

— Ei. – se virou abruptamente, meio rindo, meio aborrecida – Eu não vou cortar o cabelo. – embora risse, seu tom dava a entender que a conversa estava encerrada.

Hinata não viu a sombra que tomou o rosto. Aquela foi a primeira vez.

(três meses)

Eles estavam dopados, e Hinata não se orgulhava disso. Dessa vez, no chão do quarto de Kiba, que parecia assustadoramente normal, sem decorações ou pessoalidade. Ele tinha um conjunto de almofadas gigantes no canto, e estavam deitados sobre elas. O teto de madeira girava de maneira engraçada, e a garota sentia as pálpebras se inclinarem cada vez mais morosamente.

A primeira vez foi despropositada. Ela reclamou de uma enxaqueca repentina que não a deixava dormir, e Kiba propôs, imediatamente, uma solução. A levou até sua casa, e Hinata ficou impressionada com a dimensão da residência Inuzuka – fazia a sua parecer uma cabana de férias –. Era luxuosa e requintada, com móveis em magno e mármore no piso. A escadaria espiral dava a impressão de guardar muitos segredos no segundo andar, por trás das portas de correr com maçanetas douradas que Hinata supôs não serem apenas tinta metalizada. Kiba confidenciou um cômodo específico – o laboratório de seus pais. Ser farmacêuticos renomados aparentemente valia a pena. Além de um estoque vitalício de qualquer substância conhecida pelo homem, eles ainda conseguiam receitas tranquilamente, e, por isso, o banheiro de Kiba era repleto de frascos laranjas e etiquetas pretas.

Ela agradeceu as pílulas para dormir e teve a noite de sono mais tranquila e mais pesada de toda sua vida. Acordou doze horas depois, vitalizada, porém com o corpo pesado. Prometeu a si mesma nunca mais usar aquele remédio, e cuidar melhor da sua rotina e da sua saúde. No entanto, Kiba parecia ter uma idéia melhor. Apresentou infinitas pílulas diferentes, desde remédio para emagrecimento, anti-inflamatórios, antibióticos prescritos, até remédios controlados.

Surgiu como uma pequena curiosidade. Kiba era bastante persuasivo, e Hinata procurava distrações. Ela descobriu que determinadas substâncias reagiam de certa maneira em seu organismo, a deixando mais sonolenta, os membros relaxados, a cabeça leve. Eles ficavam deitados, conversando com a voz arrastada, dormindo na maior parte do dia. Era como se estivessem chapados, mas sem a maconha – Hinata morreria antes de colocar um cigarro na boca.

— Ai, eu estou com sono. – resmungou, virando-se na almofada e ficando de frente para Kiba. Ela achava engraçada a maneira que as pupilas dele nunca dilatavam o bastante, e como as pequenas veias vermelhas apareciam.

— Você fica muito bonita quando está com o rostinho assim. – cutucou sua bochecha com o indicador.

Por algum motivo, Hinata riu. Ela sempre ria de suas investidas, e quase não se incomodava mais. Era bom se sentir desejada de novo, mas seus amigos não concordavam. Sakura parecia a mais desconfiada. Com a volta as aulas, a Hyuuga fazia questão que Kiba se sentasse com eles nos intervalos – tinha medo que, sem sua presença, ela desmoronasse. Queria estar com alguém que não a olhasse com pena. Queria ser mais que “a ex que foi deixada para trás”.

Nas últimas semanas, Kiba parecia mais incisivo nas suas intencionalidades. Ela esquivava, na maioria das vezes, e até ousou um flerte ou outro, mas quase nunca chegava até o fim.

— O que nós estamos fazendo? – murmurou, mais para si que para ele.

— Algo incrível.

Hinata viu seu rosto se aproximando. Viu seus olhos a encararem fixamente. Viu toda a cena se desenrolando em questão de segundos. E, por algum motivo, não se afastou.

Não sabia se estava sonolenta demais, ou se seu corpo simplesmente se recusou a mexer. Deixou que Kiba a beijasse, e, quando suas bocas se uniram, as memórias a atingiram com força. Os lábios não eram tão macios. Não houve o fogo incendiador, ou o frio na barriga, ou o arrepio na espinha. Foi simples, e molhado. As comparações a deixaram triste, e a saudade, que há muito se tornara suportável, agora era agonizante. Ela não queria ser esse tipo de pessoa. Mesquinha, cruel. Brincar com os sentimentos dele.

Kiba se afastou, parecendo radiante por ela ter aceito – ou, pelo menos, por não ter fugido.

— Eu prometo, Hina, que não vou te abandonar como ele fez. – sua voz estava rouca.

Sem resposta, ela apenas assentiu.

(seis meses)

Hinata soprou a nicotina para fora de seus pulmões.

Estavam sentados na sacada, posando como adolescentes rebeldes e legais. Hinata segurava o cigarro com força, e soprava com impaciência. Todo tipo de sentimento negativo dentro de si tinha se transformado em raiva – isso já há algumas semanas. Repentinamente, tudo e todas as coisas começaram a lhe irritar, a começar por seus próprios amigos. Amigos. Não aguentava mais ouvir os discursos, como se eles entendessem sequer metade do que se passava com ela.

Kiba a acompanhava em silêncio. O cabelo grande estava preso para trás com um boné, que o deixava bastante atraente. Suas pernas estavam esticadas por cima da cerquilha, e ambos sabiam que logo ele teria de escapulir pela trepadeira. Os pais de Hinata tinham proibido sua entrada na casa, mas tudo que conseguiram, além de uma discussão exaltada com a filha mais velha, foi uma revolta silenciosa. Nada tinha como impedir a passagem do Inuzuka pelo quintal dos fundos, uma vez que suas casas eram vizinhas; o mesmo motivo também facilitava as escapadas da Hyuuga para lá.

Hinata não conseguia entender. Eles eram contra sua felicidade? Desde que engatara um namoro firme com Kiba, as coisas tinham melhorado para ela. Conseguia dormir melhor – porque tomava remédios –, melhorou na escola – porque a sala de aula era o único lugar onde tinha paz de espírito – e até voltou a falar com seus antigos amigos – porque Kiba sempre estava com ela.

Ele fazia bem a ela. A tinha tornado mais independente, mais ousada, mais corajosa. A tinha tirado do fundo do poço, quando não via nada além de tristeza e solidão. Fazia quase um ano agora, e seu coração não doía mais ao pensar em Naruto. Nenhuma notícia, nem para Sakura ou Sasuke. A essa altura, Hinata também não perseguia mais seus avós, que continuaram a viver em Konoha. Se tivesse sorte, seria como se ele nunca tivesse existido.

Kiba era maravilhoso. Ele era compreensivo e carinhoso. Protegia ela, cuidava, se interessava. Apresentou alguns de seus outros amigos, e ela se aproximou de Sasori, quase tanto quanto era próxima do irmão mais novo dele. Quando estavam juntos, era fácil fingir que estava tudo bem, embora estivesse estressada nos últimos dias – por isso fumava. No começo era azedo, mas a nicotina agia como um calmante estranho. Prometeu a si mesma que não fumaria muito, apenas o necessário. Claro que, se seus pais soubessem, a matariam.

O vento jogou os fios sobre seu rosto, e Hinata jogou todo o cabelo por cima do ombro, os dedos escorrendo por ele até saíram, logo na altura do pescoço. Convenceu a si mesma que tinha cortado o cabelo por vontade própria, ainda que Kiba tivesse insistido muito. A sensação libertadora ainda não tinha chego, e ela evitou a maioria dos espelhos de casa. Os fios balançavam sem chegar em suas costas, sem peso. O corte era lindo, mas, toda vez que sentia o comprimento roçar em sua orelha, algo dentro de si retorcia.

— Seus pais não gostam muito de mim. – Kiba comentou, logo depois de verem o sedã escuro de Hiashi sair da garagem. Hinata grunhiu, irritada.

— Eles estão superreagindo. – Naruto Uzumaki nunca precisou sair pela trepadeira da janela; para todos os efeitos, as comparações eram feitas por um alterego da sua personalidade, e ela tentava, a todo custo, calá-lo.

— Sabe, não precisaríamos ficar nos escondendo se morássemos juntos. – soou como uma sugestão inocente. Hinata o encarou, sem responder. Apagou a bituca de cigarro e jogou, a vendo descer em alta velocidade e se perder entre os arbustos podados.

Não era a primeira vez que Kiba propunha aquilo. Sabia perfeitamente que ele tinha poderio para comprar um apartamento no centro da cidade, nos prédios novos que estavam desocupando. Sabia também que, caso morassem juntos, muitos dos seus problemas se resolveriam. Estavam prestes a entrar no terceiro ano, e ela não tinha ideia do que fazer. O curso de Astrofísica da Universidade de Konoha era disputado por alunos de todo o país, e ela poderia cursá-lo sem sair de casa. Era seu sonho. Antes de Kiba, antes de Naruto, antes de tudo, aquele era o seu sonho, o sonho da sua vida. Estava pronta para dividi-lo com outras pessoas?

— Você sabe, somos nós dois contra o mundo. – estendeu a mão, tocando sua perna desnuda. Hinata assentiu.

— Eu sei.

Nicotina a deixava constantemente entorpecida. Ao contrário das pílulas, cujo efeito passava depois de uma boa noite de sono, o cigarro permeava seus pulmões, e começava a incomodar. O cheiro, ela odiava o cheiro. No entanto, percebeu, depois de alguns meses, que gostava de fazer as coisas que odiava. Tornava tudo mais fácil.

Hinata estava se tornando a pior versão dela mesma – mas, mesmo assim, Kiba estava ao seu lado, e ela não tinha com o que se preocupar.

— Só o futuro irá decidir. – suspirou. Deixou que ela entrelaçasse seus dedos, concentrando-se no conforto da familiaridade de ter alguém ao seu lado.

Em abril do ano seguinte, Hinata se mudou.

(um ano)

Da primeira vez, ela ficou em choque. Surpresa por ter acontecido. Foi tão repentinamente que a dor da humilhação quase não a atingiu. Ela só queria saber como acabou naquela situação. Em uma festa qualquer, o álcool atordoando sua visão, a música alta fazendo seus ouvidos doerem. Um trombo. Foi acidente? Alguém a segurou de cair. Ela riu, bêbada, lamuriosa. Então ele veio. Furioso como um animal. Empurrou a pessoa, empurrou a ela. O primeiro tapa foi mais ardido. Poucos viram, e, quem viu, não se intrometeu. Chocada, ela se afastou. E correu.

Era algo totalmente novo. Não conseguia respirar. Saiu correndo, sem rumo. Não sabia onde estava, em um bairro desconhecido e longe de casa. Olhava para trás, com medo de estar sendo seguida. Não entendia como um tapa apenas pôde cortar sua boca e inchar a lateral de seu olho. O sangue pulsava dolorosamente, e, entre tropeçar nos próprios pés e fugir do monstro, ela esbarrou em alguém, levando ambas para o chão.

Ela era alta e fabulosa. Usava roupas curtas e brilhantes, maquiagem carregada que escondiam olhos ferozes. Ajudou Hinata a se levantar, e, quando a luz do poste iluminou seu rosto, ela não disse nada. Desistiu do que estava fazendo e a carregou para um táxi, a levando direto para sua casa. Cuidou dela, colocou um band-aid no corte e passou compressa quente. Não tinha sequer perguntado seu nome. A Hyuuga, por outro, nunca se sentira tão segura com uma desconhecida. Durante a madrugada, ficaram se conhecendo, encolhidas contra um sofá confortável, em uma pequena e simpática casa. Ela deixou que chorasse, que se perguntasse o porquê, que vomitasse palavras. Não julgou – nem naquela noite, nem no dia seguinte, quando ele a ligou, implorando perdão.

Da segunda vez, no entanto, ela admitiu que provocou. Não conseguia lembrar o motivo – pareciam sempre tão banais. Ela podia estar irritada com alguma coisa, e ele também. A vida a dois não era exatamente um mar de rosas, como bem constataram. Hinata pode ter dito algo, não sabia. A questão era que havia uma chama, ínfima, de rebeldia. De não se deixar render totalmente. Ele tinha dito que seria a única vez, e ela acreditou.

Quando o tapa veio, ela revidou.

Com um empurrão nos ombros, Kiba perdeu o equilíbrio e tropeçou para trás. Hinata ostentava uma postura agressiva, e assim ele o fez. Ele avançou, com o punho em riste, e ela não deixou barato. Não estava pensando – sempre odiou toda e qualquer demonstração de violência desnecessária –. Não, ela só queria feri-lo da mesma maneira.

Seu rosto estava inchado e com um corte no supercílio; o rosto dele tinha arranhões por toda a extensão e marcas vermelhas de dedos. Seus olhos estavam injetados, talvez como as veias de seu braço. Não importava.

— Você vai se arrepender disso. – rosnou, tentando conter um pequeno sangramento que se formara. Hinata sequer piscou.

— É mesmo? Pois eu vou pagar para ver, amor. — cuspiu.

Deu as costas e saiu do apartamento, batendo a porta ruidosamente. Pensou que não aguentaria muito mais tempo daquela maneira. Abandonaria tudo, jogaria tudo para o ar e voltaria para casa, sua verdadeira casa.

Hinata não sabia, naquele momento, que o ciclo vicioso de culpa, medo e raiva se repetiria ao longo de outros meses e outros anos. Ela não entenderia, no futuro, como aquele amor se construíra e se estabelecera dentro de si. Não fazia sentido, porque ela não lembraria de cada um dos detalhes que concretizariam seu elo frágil e nocivo com Kiba. Hinata pensaria, por dias a fio, que aquela era a única maneira, e, de tempos em tempos, supriria suas próprias necessidades em troca de um pouco de paz.

Era o único jeito que ela tinha aprendido para amar de novo.



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