História Hidra - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo dois: terminus somnum exterreri solebat


Capítulo dois

(1872)

Rainha,

Peço desculpas a intromissão em seu banquete matinal. Confesso que não passo um dia sequer sem lembrar de Vossa excelência. Se me permite dizer, Você consegue ser a criatura mais intrigante de todas do Reino apesar de ser uma mera hominum. Os meus animais comem os seres mais frágeis dessa raça, os estupram, e mesmo Você sendo de aparência dócil… estranhamente Lhe respeitam! Lhe adoram como se fosse uma Deusa. Temem que, apenas com um olhar, a vida deles seja ceifada. Desejo encontrá-la e, se possível, o quanto antes.

Seu Rei

K.

(escrita originalmente no idioma da Fronteira, traduzida para leigos - B e B)

“Por favor… me ajude.” Ouvir algo assim e não poder ajudar é doloroso, mais ainda se os dois estiverem na mesma situação. Eu não prometeria salvação justamente por não conseguir me salvar e nem daria esperanças tentando me libertar porque o pior sentimento é a desilusão. Com os pulsos amarrados por cordas na parede, minha única defesa seria chutar caso viessem atrás de mim… para me levarem a um destino que ninguém aqui gosta de comentar. Eu mesmo não sei o que me aguarda. Posso sobreviver por anos, dias, ou horas. São probabilidades infinitas! Como poderei imaginar se a última coisa que desejo é mentir para mim mesmo? Os monstros viriam nem que fosse para buscarem alguém desconhecido. E, note bem, somos muitos homens aqui. Dificilmente, disseram-me, uma fêmea aparece aqui por baixo. Meus companheiros de cela passaram tanto tempo convivendo com monstros que falam feito eles. Acredito que tinham sonhos antes dessa merda acontecer… agora só buscam sobreviver ao dia de amanhã. Queira me perdoar, desde que cheguei eu realmente perdi a noção das horas.

Agora vamos aos detalhes.

Pode ser que não, mas as aparências dificilmente enganam quando se trata de lugares. Eu tenho plena certeza de que se trata de uma masmorra. As paredes de tijolos e o chão sem piso dão um ar de prisão, junte isso ao fato deste lugar ser frio e de pouca iluminação. Sei que os dias se passam, apenas isso, por causa de um pequeno buraco na parede que deixa o brilho da lua ou os raios solares invadirem - e também são acesas quatro tochas por um deles, assim que o Sol se vai e apagam assim que a estrela surge no horizonte. Eu continuo sem saber que tipo de monstro é o que tive a infelicidade de encontrar, na verdade quanto mais o tempo passa menos é a minha curiosidade. Se autointitulam hominum. Imagine só… um deles. Quando ouvi a palavra pela primeira vez, estava tão assustado que não percebi os termos que me são conhecidos dessa língua morta, porém, tendo me acalmado e escutado outros seres humanos feito eu, entendo melhor o idioma e percebo o quão previsíveis esses monstros são.

Um: somos chamados de escolhidos, cada ser humano sendo único. Uns ficariam orgulhosos de servirem ao famoso ‘não sei o que é exatamente, mas acho que vão nos devorar e nos deixar presos é uma tortura’. Para créditos da frase digo Charles D., homem que sentava ao meu lado antes de ser levado. Que Deus o tenha… parecia um bom homem. Eu não entendo como acham esse ‘sacrifício’ uma honra, em minha opinião, ser pego no meio do nada parece mais um sequestro. Do meu ponto de vista humano, não desses monstros ou de outros humanos insanos. Mas não faz sentido. Uns chegam pedindo ajuda e vão embora agradecendo por terem sido escolhidos, penso que talvez eles mexam com nossas cabeças. Dois: exceto Daryen, ninguém voltou a masmorra para contar sobre o destino cruel. Nenhuma dica. Disseram-me que o espanhol é um velho maluco e que eu não conseguiria descobrir nada conversando com ele. Se continuarem agindo de má fé comigo eu… eu… bem, não posso fazer a diferença enquanto preso. Ignoro os que duvidam de mim facilmente, dessa vez seguindo os meus próprios instintos - que, diga-se de passagem, se eu tivesse prestado atenção neles estaria em casa agora -. O idoso nunca era posto na mesma corda quando voltava para nosso ‘querido e especial lar’, a exemplo agora: ele retornou a pouco tempo e está preso à duas pessoas de mim.

A maioria dos meus companheiros sem esperança dormem - não posso culpá-los, afinal está à noite - enquanto eu observo o grande e velho Daryen. Com sua aparência de cansado, a cabeça escorada na parede e olhos fechados, com olheiras e uma grande barba branca. Eu não sei a sua história, mas o espanhol idoso deve saber algum jeito de sair daqui e… só não testou porque achou seu lugar especial? Esqueça. Devo estar aqui à tanto tempo que já estou começando a delirar. Daqui a pouco direi que somos iguais!

“O que quer, hijo?” Sua fala me pegou desprevenido por eu achar que estava dormindo assim como os outros. Fiquei alguns segundos pensando em uma resposta.

“Chega a ser engraçado você vindo e voltando. Parece estar totalmente submisso a eles.” Fui direto, fazendo com que abrisse um olho e franzisse uma das sobrancelhas.

“E estou, hijo.” Respondeu, calmo. “E estou.”

“Como pôde ter desistido de lutar? Eu não entendo.” Falam sobre Daryen quando este vai embora. Existem inúmeros contos de sua vida, cada um aqui é o autor. Desse modo fica difícil saber a verdade. Confesso que, por falta do que fazer além de temer os monstros, ouvi cada um dos prisioneiros; tanto suas histórias pessoais quanto seu conhecimento do terreno ou um dos contos do nosso querido e velho companheiro acabado.

Abast, o carismático, diz que Daryen matou pessoas inocentes e os monstros estão o punindo, assim como todos nós que fizemos algo cruel senão não estaríamos aqui. Em minha defesa, sou um detetive que busca fatos concretos evitando o máximo possível de sangue derramado. Acreditar na ideia de que estamos pagando por crimes que sequer (ao menos alguns) tem a intenção de cometer ou até mesmo apenas o fato de existirmos e vivermos de um jeito ter sido a passagem de vinda para este inferno… eu não acredito nisso há um tempo. Não fui um ser humano tão pecador para este castigo. Prosseguindo. Já Nicholas, o louco, afirma estarmos em um mundo paralelo ao nosso e entre os humanos desse calabouço estão escondidos criaturas repugnantes só de olhar. Advinhe só? Daryen é um desses monstros malignos. E ele, Nicholas, afirma ser um dos servos da ‘Rainha’ que brincou de possuir os ‘Nada’ e foi banido, preso em um dos corpos, para os Pesadelos. Eu tenho pena de sua pobre alma, esse homem nunca disse algo que preste ou que faça sentido.

As outras histórias são mais convincentes, do tipo que o velho era dono de um sítio e um dia apareceu vagando nesse lugar; que ele era um homem espanhol rico que, ao passear em seu carro à noite, foi sequestrado pelos monstros. Bem… são tantas opções que se torna difícil escolher. Particularmente, a ideia de que Daryen possa ser um espião me intriga. Disse acima que o homem que contou essa estória é um lunático, porém, eu nem mesmo sei se ainda me resta alguma sanidade. Não sei quanto tempo se passou, entretanto, minha barba já está em uma altura considerável e ela demora a crescer. Acho normal que eles venham, alimentam-nos com carne de sabor diferente (talvez seja de outro homem? Sinceramente... eu desisti de fazer abstinência) e uma hora ou outra se vão pessoas da masmorra. Mesmo tendo me acostumado ainda não sei dizer se eu desisti. Afinal, alguma esperança devo ter por estar puxando conversa com o espanhol.

“Você sabe... o que dizem?” Perguntei, querendo provas concretas da hipótese de Wilson. “Os mons…”

“Hominum. Como eu... como você.” Daryen deu um sorriso estranho, não tenho certeza se posso dizer ‘mostrando os dentes’ porque falta dois. “Se parassem, por um momento, de levantarem hipóteses sobre a minha vida saberiam cada palavra.”

“E o que disseram sobre hoje?” Não aguentei, de curioso, então perguntei.

“Você é o próximo.” Depois de sua resposta, e de seu sorriso macabro, olhei para frente e tornei a decisão de deixá-lo em paz. Sua resposta me causou calafrios e sei que, caso continue vivo para contar, me assombraria até a morte. Tentei lembrar realmente de cada homem que os... hominum... olharam noite passada quando fizeram a colheita, mas, sinceramente, é difícil ter certeza pois conseguem usar algum truque que o fazem falar na mente de todos nós. Um sussurro no escuro; um número que apareceu na sua cabeça do nada; não estamos seguros nem mesmo em nossas mentes. Bem, o que me resta agora é esperar com uma pequena intuição dizendo que Daryen me deu um aviso.

Ao amanhecer, os monstros vieram.

Algo estranho de ser, porque em histórias para crianças dormirem algo de assombroso vem apenas ao anoitecer. Acredito que esses devem dormir durante a noite assim como nós. Lembrando da fala de Daryen, fiquei o tempo inteiro olhando para o chão. Se não os olhasse nos olhos talvez me ignorassem, foi meu pensamento energúmeno. Parte de mim, verdade seja dita, queria ser pego. A curiosidade sobre o desconhecido sempre me foi um ponto fraco, provável que seja por isso que fui detetive. Porém, a parte assustada recuou. Eu posso ser curioso, mas ainda sou humano e humanos têm medo. Infelizmente, com um pouco de felizmente, a parte curiosa venceu. Um deles desamarrou meus pulsos da parede enquanto meus companheiros de cena encaravam-me, uns com olhar penoso e outros com inveja. Veja só: o novato finalmente está sendo levado embora. Duvido que sintam falta... mas podem sentir caso seja isso que o coração desejar. Cogitei ainda a possibilidade de perguntar para onde estão me levando e xinguei mentalmente por isso. Essas criaturas não respondem prisioneiros.

“Akulla escolheu você. As crias serão fortes e de pelo brilhante... foi o que disse.” Fui surpreendido por um dos que andavam ao meu lado. O mais estranho foi que tinha dito em voz alta, sem falas bagunçando minha mente senão a minha própria voz.

“Quem é Akulla?” Perguntei, curioso. Dois monstros me guiam pelos corredores de aparência antiga e estou com as mãos livres, mas não tentarei nada pois, da última vez sendo um só, eu perdi e ele me trouxe até aqui. Sem remorso, obviamente.

“Hominum.” Disseram, ambos, em sincronia. Mas é óbvio. Respirei fundo, ansioso com o que me aguarda. Verdade seja dita: não sou um homem, de fato, corajoso. Ao procurar pistas em Londres que me levariam a assassinos, a sensação era apenas um frio na barriga. Somos humanos naquele lugar, afinal. Todos humanos parecidos comigo e eu não causo medo.

Acredito que não tenha sido uma longa caminhada, mas quando é sua pele em risco o tempo parece ficar mais lento. Chegamos a uma porta alta (digo logo que para mim tem dois metros e meio, o equivalente de uma porta de altura normal para essas criaturas), bateram duas vezes e, quando foi aberta, me empurraram para dentro. Com o quarto escuro, apesar de uma mínima luz entrando, forço minha vista para conseguir enxergar ao menos as silhuetas do cômodo. Demorou apenas poucos segundos, consegui notar um tapete grande e cortinas finas. Observei todas as partes do quarto e quando volto a olhar para a porta lá estava um deles, encarando-me. Akulla parece ser nome feminino, uma suposição precoce. Nada parece certo nesse lugar ainda desconhecido.

“O que estou fazendo aqui?” Perguntei, evitando que a voz ficasse trêmula. Tenho postura de um homem forte, audacioso e corajoso; mas, sendo sincero, é apenas uma farsa para que meus inimigos pensem isso e que eu comece, depois de um tempo, a acreditar. “Não entendo porque só agora e por quanto tempo estou preso nesse lugar com vocês.” O hominum inclinou a cabeça para o lado feito um cachorro buscando entender a fala humana.

“Pergunte com devido respeito, pois somos da mesma raça.” Engoli o seco. Pude notar, sem dúvidas, as diferenças físicas desse monstro para os demais claramente: seu corpo não é musculoso, e é, ao menos, um metro menor do que os monstros que via. Não vou mentir e dizer que sei lidar com tais criaturas, mas eu estou acostumado com os hominum que iam e vinham das masmorras. Este, sem dúvidas, é desigual. Algo interessante de se ver. “Ignorantes como você deveriam servir de alimento aos pesadelos.”

Lembrei de Nicholas, o louco, com os seus contos macabros. Ainda afirmo com total certeza que tenho pena de sua pobre alma, mas Akulla falou sobre pesadelos e era isso o que ele dizia… que foi banido para pesadelos. Talvez estejamos em um lugar assim chamado, logo sua estória passaria a ser uma história real. O que significa que eu devo ter mais cuidado e tratá-los com falsa simpatia. Eu não pretendo morrer jovem sendo que tenho planos para o futuro… que não adiantam nada caso eu não escape desse lugar!

“Um colega de cela disse que foi banido para pesadelos por entrar no corpo de uns seres.”

“As regras são nítidas por aqui.” Disse, sem rodeios. Sua voz é mais fina, dócil, porém grave da mesma forma. “A Rainha fala e quem desobedece é enviado para o nosso rei.” Akulla começou a vir em minha direção lentamente e eu, obviamente, fui me afastando até não poder mais. Quando me encurralou na parede, ficou de pé com apenas as duas patas traseiras e é mais que notável nossa diferença de altura; sou cinco centímetros menor que a hominum. “Agradeça por não estar fora dos portões desta casa.”

“Eu prefiro ser largado no deserto com um bando de criaturas carnívoras do que continuar aqui!” Exclamei, de braços cruzados.

Era um blefe, não tenha dúvidas.

“Então, se é assim…” Akulla abriu espaço, levantando o braço para que eu olhasse a porta. “Pode ir. Estou te libertando de nosso lar e de seus deveres impostos contra a sua vontade.” Seu tom era sério, mas uma das qualidades de se trabalhar no Departamento é que reconheço tons sarcásticos… mesmo em uma voz dócil.

“O quê?”

“Não é este o seu desejo? Agora está livre, mas lhe desejo boa sorte.” Fácil assim? Algo está errado, pode ser uma armadilha. Caso eu atravesse aquela porta, os hominum me atacam. Estou confuso… eu poderia ter dito o tempo todo que não era do meu agrado estar preso na masmorra que me soltariam? Sem chance. Parando um pouco para pensar sobre, Daryen parecia feliz de estar aqui. Ele não era o único, Nicholas parecia agradecido e metade dos homens não reclamavam. Eu fazia parte dos reclamões. Faz sentido o fato de ocultarem as emoções verdadeiras? Afinal, eu era um dos novatos. Sabedoria nenhuma sobre essa vida.

“Está brincando.” Afirmei, franzindo a testa. “Não me deixaria ir tão facilmente.”

“Você não sabe do que sou ou não capaz.” Retrucou, suspirando. “Mas eu sei o que você está pensando.”

“Não acredito que somos iguais.”

“E não somos. Ao contrário de você, eu nasci híbrida.”

Se afirmam que somos da mesma espécie, significa que nasceram de união humana com monstros e isso explica seu formato humanóide deformado e bizarro (por mais que intrigante). Os homens daquela masmorra são objetos para a reprodução dessa tal subespécie… logo um desses pode ser filho de Daryen, talvez até Akulla, e querem que eu seja um objeto de uso sexual. Pois bem: eu me recuso. Nunca quis ter filhos com humanas parecidas comigo, agora imagine com um monstro? Eu posso morrer e eles não irão conseguir com que eu doe ‘sementes da vida’ para essa raça continuar. Continuarão fazendo o que fazem, roubando seres humanos como fizeram comigo há não sei quanto tempo atrás de qualquer forma.

“Eu não vou fazer parte disso.” Falei em voz alta, cruzando os braços. “Já tem muitos monstros aqui.”

“Mas é claro, senão ninguém chamaria este lugar de Fronteira dos Pesadelos.” Parece que eu consegui irritá-la. Akulla fez com que viria com todas as forças bater em meu rosto. Eu não tinha para onde fugir, fiz pressão contra a parede e, por incrível que pareça, caí de costas. Atravessei o lugar. Ela conseguiu me acertar, aquela infeliz, no peito. Os seus olhos foram a única característica cujo prestei atenção enquanto caía, repleto de ódio, e ela tem os dois da cor dourado.

São bonitos.

Alguém lá de cima atendeu minha fala, aquela em que eu dizia preferir um deserto do que estar com os hominum. Quando dei por mim, havia caído de bustos na areia fria. Algo estranho porque o sol está parecendo um meio externo para a morte. Tossi um pouco, logo fazendo força para me levantar de uma só vez. Há areia em meu rosto, na minha barba, em minhas mãos e pelo meu corpo. Estou sangrando e a ferida está suja de areia, improvisei, com folhas da árvore, algo que apertasse a ferida para o sangue não sair. De qualquer forma, não será isso a me fazer desistir de caminhar. Começo a andar sem rumo, buscando entender como consegui cair só de encostar na parede. Pareceu que atravessei aquelas sombras e fui cuspido por a sombra da árvore. Eu não sei e não vou perder meu tempo questionando coisas improváveis.

Parece que não saber dos fatos está na minha rotina mesmo fora do trabalho. Andando sem rumo, mal prestei atenção na paisagem. Eu estou com raiva demais de Akulla para pensar em algo que não seja uma discussão imaginária com aquela monstruosidade. Penso, na verdade, que não tenho tanta razão para odiá-la. Ela quem deve ter ficado triste. Tomara que sim! De fato que... humanos não são realmente bons, meu emprego deixa isso óbvio, também sequestram e estupram. Se bem que Akulla disse sobre os parecidos comigo serem felizes por estarem lá. Melhor do que aqui fora, agora vejo o porquê. De qualquer forma, não me arrependo nem um pouco. Continuo sendo teimoso e preferindo o livre arbítrio… ou estou errado?

Vi logo à frente as costas nuas, e sujas, de um homem branco.

“Ei!” Apertei os olhos para ter certeza de que era isso mesmo e fui correndo, cambaleando, em sua direção. Ele se encontra abaixado, no meio do nada, acredito que se banqueteando com alguma comida encontrada na sorte. Para minha surpresa, estava comendo as tripas de um outro animal caído. Ainda tentei mentir para mim mesmo ao pensar 'o homem deve estar aqui faminto e com esse vento a fogueira apaga rápido demais'... foi inútil. Eu gostaria que não tivesse ouvido o meu “Ei!” anterior, pois me assustei assim que vi seu rosto. Nesse lugar só tem monstros? O monstro da vez tem o corpo humano quase que por inteiro, exceto o rosto. Seus olhos, nariz, boca e testa foram substituídos por uma única abertura de onde saem dentes afiados, longos e médios. Quem diria? As aparências enganam. Talvez eu devesse ter ficado com os hominum. Infelizmente, Akulla estava certa: é mais seguro na casa.

“Amigo, por um acaso, sabe me dizer o caminho da saída?” Perguntei para descontrair o meu temor. O humano de mentira ficou de pé, sem deixar de parecer me encarando, e apontou para uma placa. Está a pouco quilômetros, então não seria problema caminhar até ela. Eu só precisava fazer pressão em meu peito, pois as folhas não servem para interromper o fluxo de sangue. “Obrigado.” Ele grunhiu em resposta.

Notei, em seu pescoço e em seu braço esquerdo, duas tatuagens. A letra K é evidente no pescoço e parecida com a de outros hominum; um pentagrama no braço que nunca vi na vida. Seria essa a forma de identificação, talvez? Não vejo, além da região, algo que ligue esse ser com Akulla.

“Por nada.” O pior de tudo é que sua voz parecia com a minha da época da adolescência. Eu estava com medo de ir embora e dar as costas para o falso homem, por esse der me atacar a qualquer momento e, caso de costas, eu não tenho olhos atrás. “Não identifico o seu cheiro.” Saiu a voz da abertura dos dentes, grave e forte. Engoli o seco. “Rei Keath gostará de saber.”

Desconheço o nome, mas parece começar com a letra K. Imagino que deva pertencer a esse tal rei. Francamente, eu não estou afim de conhecê-lo porque se suas criaturas são horrendas imagine ele! Apenas uma mente nos confins mais baixos da insanidade seria louco o suficiente para ter monstros. Embora, devo admitir, que deva ser uma boa escolha para uma guarda real. Pensa na rainha com esse exército? A Inglaterra voltaria a comandar, diretamente, o mundo e o único esforço seria fazer apenas uma ordem. Apesar de, não sendo de nacionalidade inglesa, eu ter minhas discordâncias sobre o assunto.

“Eu acho que não.” Falei, continuando nervoso e fingindo ter a calma que não tenho. “Tenha um bom almoço e desculpe-me o incômodo.” Surpreendentemente, o humano de mentira deixou que eu fosse. Segui meu rumo à destino algum me perguntando se fiquei feliz ou irritado por não ter apresentado ser uma ameaça para a criatura.


Notas Finais


Obrigada por ler.


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