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História High School Sucks - Capítulo 24


Escrita por: e GbMr


Capítulo 24 - "Nisso Que Dá Ter Pais Hippies"


Fanfic / Fanfiction High School Sucks - Capítulo 24 - "Nisso Que Dá Ter Pais Hippies"

Darcy simplesmente apagou.

 

Seu corpo parecia estar em outro lugar.

Ela se viu no dia em que seus pais a levaram para a Casa Psiquiátrica de Arkham. O utilitário esportivo estava quente enquanto neve caía do lado de fora. Os cabelos castanhos claros de sua mãe estavam no banco do passageiro, a mulher de meia idade com seu sobretudo cor de sangue e com uma expressão num mix de tristeza e raiva. Os cabelos escuros de seu pai permaneciam empertigados na mesma expressão que o Sr. di Angelo entrara no carro.

Darcy queria muito dizer alguma coisa. Falar que não tinha necessidade de a levarem para aquele lugar, que eles simplesmente não entendiam que tudo o que ela tinha feito foi ciência. Mas de certa forma ela sabia que nada adiantaria.

O devaneio mudou. Darcy encarava uma parede branca, a parede de seu quarto. Era composto apenas por uma cama feita de concreto e uma janela estilo basculante. Ela não usava suas roupas favoritas, nem seus óculos redondos. Não se parecia em nada com a garota hippie de Gasglow. Tudo o que vestia era uma calça branca e uma camisa larga demais estilo bata cirúrgica.

Por que ser cientista doía tanto? Darcy tinha que ter nascido numa família descendente de Einstein, não descendente dos di Angelo.

A porta se abriu. Uma mulher e um homem entraram. Ela empurrava um carrinho com uma bandeja, que possuía um vidro branco que soltava fumaça¹ e uma agulha descartável.

Darcy engoliu em seco e se afastou o máximo que pôde. Odiava ser "vacinada" quando na verdade ela não tinha nada de errado. Existiria uma vacina para psicopatia?

— Não corra, senhorita. Vai doer menos se facilitar pra gente. Pode até receber um presente se for boazinha. — O homem disse suavemente, pondo a medicação na agulha.

Ela balançava a cabeça freneticamente, mas não conseguia falar. Era como se sua boca estivesse lotada de algodão, se afogando em chumaços. A mulher a pegou pelos braços e a forçou a ficar parada. Darcy tentava se sacudir, se soltar, mas ela era muito forte. Ela sentiu lágrimas caírem se seus olhos. Ela não queria apagar. Ela não queria ser quem ela não era.

E sentiu uma picada em seu pescoço.

Darcy acordou de supetão. Estava num local todo branco, que parecia com seu quarto do manicômio. Ela arregalou os olhos e se forçou a sentar, desesperada, e gemeu quando sentiu uma pontada no lado direito de seu abdômen.

— Darcy, não se esforce. — Faragonda a forçou a ficar deitada. — Você teve apendicite. Está no hospital agora.

Ela piscou, atordoada. Virou a cabeça de lado e viu as diferenças de seu quarto em Arkham: uma mesa de cabeceira com seu celular, a haste que pendia o pacote de soro, o monitor de sinais vitais fazendo um som tão suave que era quase imperceptível. Também percebeu que se encontrava em uma maca macia, nem um pouco comparável com a cama de concreto do hospício.

— Apendicite? — Ela olhou para Faragonda. Apenas ela e Griselda estavam no quarto.

— Sim. Você deveria ter dito que estava sentindo dor. — Griselda disse ríspida, mas Darcy pode sentir um certo alívio na voz da inspetora. — Por pouco sua infecção não se espalhou!

— O que ela quis dizer… — Faragonda desviou o olhar de Griselda e olhou para a aluna. — É que está feliz por você está bem. Seu apêndice chegou a se romper.

Ela franziu os lábios.

— Seus pais devem chegar daqui a pouco. Não se esforce para não abrir os pontos da cirurgia. — Faragonda avisou.

— Posso comer alguma coisa? — Ela olhou para baixo. Usava uma bata hospitalar que a deu arrepios.

— Claro. O que você quer?

— Qualquer coisa que não seja de origem animal.

Quando Faragonda abriu a porta, duas figuras estavam atrás. Uma era uma mulher de cabelos castanhos claros, os olhos apavorantemente escuros. O outro, um homem de cabelos escuros.

— Darcy. — A mãe dela manteve a postura.

— Sra. di Angelo… — Faragonda os cumprimentou, seguida por Griselda. — Iremos buscar a refeição de Darcy.

A mãe de Darcy só olhou para a filha como resposta. Assim que a porta se fechou, a mulher mostrou os dentes.

— Por que você fez uma cirurgia?! — Ela se exasperou. — Poderíamos ter usado algumas ervas e…

— Mãe… hm… Não é assim tão simples. — E esse era o problema de Darcy.

Seus pais, apesar de parecerem dois senhores das trevas, também era hippies, mas em outro patamar. Acreditavam que tudo podia ser curado com a natureza, daí o motivo de serem referências no ramo que seguiam: eram completamente veganos, naturais e sem qualquer uso de conversantes.

Era num nível tão acima que eles acreditavam na cura da Mãe Natureza. Acreditavam que não havia a necessidade de médicos e remédios, apenas chás e banhos termais. Que medicamentos farmacêuticos e cirurgias serviam para corromper a essência humana, para viciá-la e destruí-la.

Parecia contraditório, já que eles a internaram num hospício por um tempo, mas ela nunca argumentava com eles sobre essa possibilidade porque acharam extremamente chocante a jovem ter envenado seu animalzinho de estimação.  Também havia o fato de eles estarem completamente perdidos, achando que a filha deles fora possuída pela poluição de Gasglow e precisava de uma limpa. É, morte animal era um assunto sério.

Darcy já sabia que por ter feito uma cirurgia, coisas sérias viriam por aí.

E como viriam.

.         .         .

Musa não parava quieta em seu lugar. O primeiro grupo apresentava o trabalho de Wizgiz. Por ser Watanabe, seria uma das últimas, assim como Bloom – que era Peters – e Sky – que era Sutherland. Riven, seu parceiro, brincava com um lápis, girando-o nos dedos.

Ela ainda sentia-se quente quando Riven estava próximo. Não sabia que diabos era isso, mas passou a gostar mais ainda de insultá-lo. Ele, por outro lado, não era muito diferente, pois amava ser xingado por ela por todos os nomes possíveis.

Assim como Musa, Bloom também se sentia diferente em relação a Sky. O jovem loiro continuava na mesma de sempre, os cabelos ligeiramente desgrenhados, os olhos brincalhões, a roupa desarrumada e, para somar, um jaleco de laboratório. Ele parecia o cientista mais gato da face da Terra para ela.

Mas ele tinha perdido o sorriso de seus lábios. Ultimamente, ela percebia que ele sorria menos, implicava menos com ela, como se desejasse certa distância. Isso a incomodava, pois não queria perder alguém que se tornara especial para ela.

— Sky… hm… Você sabe o que vai falar, né?

Ele se virou para ela e lhe deu uma piscadela. — Não se preocupe, cenoura, eu sei exatamente o que fazer.

Ela desceu seu olhar pelo corpo dele.

— Você parece um belo médico. — Ela deu um sorriso ladino, brincalhão.

Um certo vulto passou pelos olhos dele e Bloom automaticamente se arrependeu de ter dito aquilo. Não sabia que era um tópico tão sensível. Mas em menos de dois segundos, sua expressão suavizou novamente e ele riu.

— E você parece uma cientista prestes a explodir a escola.

— Sky!

— Só tô dizendo a verdade.

Ela deu um soco em seu braço, e ele riu. Esperaram uma repreensão de Wizgiz, mas ele estava concentrado demais na mistura de sulfato de cobre e outras substâncias com o fogo.

Algo acertou Bloom no rosto. Ela se virou e fez uma careta. Uma garota morena bem bonita apontou para o papel e para Sky. Ela piscou um pouco e olhou para a bolinha.

Ficou tentada a abrir. O que será que estava escrito? Mas ao invés disso, cutucou o amigo e lhe deu a bolinha.

— Aquela menina morena que jogou. — Ela murmurou.

Sky abriu o papel. Bloom viu seu rosto ficar vermelho e ele abaixou o papel, parecendo querer ignorá-lo.

— O que foi? Ela está dando em cima de você? — Ela brincou, ignorando uma pontada de ciúmes cutucando seu peito.

— Não exatamente. — Ele deu o papel para ela. Bloom abriu e leu. Havia um número de telefone, seguido por:

 

Me ligue, gatinho.

sinto falta do seu corpo no meu.

Politea ��

 

Ela sentiu o sangue ferver. Amassou o papel de volta e o entregou sem encará-lo.

— Você tá parecendo um camarão, cenoura. O que houve? — Ele a cutucou.

— Nada. — Saiu mais como um resmungo que uma resposta. — Você se dá bem com as garotas.

Ele arqueou a sobrancelha, esperançoso. Com certeza aquela atitude alimentava as chamas do amor que sentia por ela e que ele ainda não queria confessar. — Você tá com ciúmes.

Ela bufou, forçando um sorriso. — Eu? Não. Por que eu sentiria ciúmes de um cara que parece o He-Man?

Ela estava sim com ciúmes, ah como estava. Nunca havia conversado com Politea antes, mas apenas por ser bonita com aqueles cabelos cor chocolate e os olhos num tom misterioso de azul e por chamá-lo para ficar já a fez sentir vontade de queimar a escola. Como ela ousava fazer isso com o garoto dela?

Mas Sky não era dela de fato. E ela não podia reclamar.

— Está com ciúmes sim, cenourinha. — Ele cutucou a bochecha rosada dela, um sorriso estampado no rosto num mix de gozação e alegria.

— Cala a sua boca. — Ela rosnou.

— Tá com ciúmes! Tá com ciúmes!

Ela rangeu os dentes e mordeu seu dedo. Ele fez um "ai" inaldível e o sacudiu. Ela deu um olhar de "eu avisei" e permaneceu com sua postura séria, que não durou nem dois segundos, porque os dois embarcaram em uma risada.

— Peters e Sutherland! Vocês estão achando essa apresentação engraçada?! Gostariam de explicar o que ocorreu ali?! — O professor ruivo se agitou, apontando para o béquer sendo aquecido com algo que Bloom e Sky nem imaginavam que nome tinha.

Eles engoliram em seco e abaixaram o olhar.

— Só por causa da bagunça que estão fazendo, irão ser os próximos a apresentar! — Os olhos do químico passaram pelos outros alunos. — E quem der mais um pio será deixado de castigo!

E a apresentação continuou.

Os dois pombinhos tinham as bochechas tão vermelhas quanto morangos. Eles trocaram olhares de canto de olho, se comunicando perfeitamente.

A conversa foi mais ou menos assim:

— Por pouco.

— Você é um idiota.

— Um que você ama, fala sério. — Seguido por uma piscadela.

Nem mesmo Sky entendeu o próximo olhar de Bloom, mas segurou-se para não rir alto. Algo lhe dizia que ela ou estava o mandando ir para o inferno, à merda ou o chamando de um completo imbecil.

— Peters e Sutherland, por favor! — Wizgiz os chamou para a apresentação. Bloom e Sky se levantaram em seus jalecos brancos e seguiram para a frente da turma.

Sky parecia tranquilo, mas Bloom sentia um revertério prestes a vir. Era o primeiro trabalho que apresentaria na frente de seus colegas em Manchester Hall, e isso não era nem um pouco empolgante. Não se sai por aí dizendo que vai apresentar um trabalho como se tivesse sido chamada para sair pelo Leonardo DiCaprio.

Ele começou a falar, como haviam ensaiado, um pouco diferente do combinado, visto que ele tinha uma maneira despreocupada e fluída de seguir com a apresentação, fazendo algumas observações que faziam seus colegas rirem e até mesmo Wizgiz esboçar um sorriso. Bloom sentiu as bochechas ruborizarem enquanto o observava em sua explicação. O jaleco e o cabelo desgrenhado o faziam parecer um médico explicando para um paciente como fazer cocô direito e ser levado a sério por mais que fizesse diversas brincadeiras e trocadilhos. Como Sky conseguia ser tão charmoso a ponto de fazer Wizgiz sorrir, Bloom também queria saber.

De repente, ele olhou para ela. Seus olhos azuis fixos nos dela. Ela lembrou-se da madrugada anterior, da simulação de incêndio. Os olhos deles estavam vermelhos, como era possível estarem tão azuis e saudáveis agora? Talvez fosse apenas alucinação, ela pensou. Acordar no meio de um sonho belíssimo de uma viagem de primeira classe para a China e acordar despretensiosamente é de irritar qualquer um.

— Senhorita Peters? — Ela só voltou a si quando ouviu a voz do professor de química. Ela se empertigou. Percebeu que Sky apontava para a mesa de experimentos com os olhos.

Ela corou pelo devaneio e limpou a garganta. — Bem, como Sky estava dizendo, o que ocorre é uma reação de oxirredução. — Ela se pôs atrás da bancada, as mãos ligeiramente trêmulas e suadas. Sky se pôs ao lado dela e por trás de uma das vidraças preenchidas, tocou sua mão de forma que ninguém mais pudesse ver.

— Relaxe. Imagine que está explicando como que foi parar num beco sem um puto no bolso para seus amigos.

Ela deu uma risadinha involuntária com esse sussurro e continuou a explicação, se saindo bem melhor, apesar de ainda estar com uma tremedeira como um diagnosticado com Parkinson.

Quando Bloom misturou os solutos e explicava os motivos de se usar permanganato de potássio, água destilada e ácido acético, soou uma batida na porta, um pouco desesperada demais.

Wizgiz fez uma carranca, irritado com a interrupção. Ele ergueu a mão para a dupla e gritou para que a pessoa atrás da porta entrasse.

O que ninguém esperava era ver Faragonda com um olhar assustado no rosto. O que ela fazia ali? Bloom sentiu um peso no peito, sentindo que algo terrivelmente errado estava ocorrendo.

Diretoras de escola tendem a ser temidas e autoritárias, mas Faragonda era o completo oposto disso. Ela exalava carisma e compaixão, completamente diferente de funcionários como Griselda e Wizgiz. Seus alunos sempre eram recebidos com um sorriso e frases sábias da jovem senhora, mas naquele momento, Bloom pôde sentir o desespero em seu olhar.

Os outros alunos devem ter sentido a mesma coisa, pois um burburinho desconfortável ecoou pela sala, assentos e dedos se mexendo.

A diretora pigarreou, tentando afastar – sem sucesso – o pavor no olhar. — Mestre Wizgiz, peço perdão pela intromissão…

O ruivo gorducho só deu de ombros e segurou uma revirada de olhos. — Prossiga, querida.

— …Eu precisarei de Sky Sutherland na minha sala.

Sky piscou um pouco, atordoado. Bloom pôde perceber uma agitação repentina em seu amigo. Ela franziu os lábios, murmúrios se tornando cada vez mais altos na sala.

— Hehe… err… Diretora Faragonda, seja lá o que tenham dito… eu juro que não fui eu.

— E Faragonda, não poderia esperar, Sky acabou de começar sua apresentação e…

— Sinto muito mas não. — O olhar dela encontrou os olhos do jovem londrino. — Sky, é urgente. É sobre sua avó. 


Notas Finais


¹) A fumaça é devido à temperatura que alguns medicamentos devem ser mantidos para serem injetados. Assim como as vacinas, estes são conversados em geladeiras, frigobares ou isopores, alguns apenas com gelo e outros (esses bem poucos) – como no caso do remédio de Darcy – em nitrogênio líquido.

Muito obrigada por sua audiência, por sua paciência e por ser essa pessoa maravilhosa!!!

Beijos, GbMr ~


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