1. Spirit Fanfics >
  2. Highway to Hell >
  3. Scary Love

História Highway to Hell - Capítulo 16


Escrita por:


Notas do Autor


Boa leitura <3

Capítulo 16 - Scary Love


Fanfic / Fanfiction Highway to Hell - Capítulo 16 - Scary Love

 

31 de Outubro 18h00

Kirk havia acabado de chegar do trabalho, entrou no apartamento, fechou a porta, jogou as chaves e se jogou na cama, enfiando a cara no travesseiro e suspirando alto. Algo que vem fazendo há seis dias, desde sábado da semana passada.

 

Desde a viagem com Zoe, desde que entraram no carro todo encharcados e vieram as cinco horas de viagem calados, apenas olhando sorrateiramente um para o outro a cada cinco minutos para furar a tensão no ar, desde que a deixou em casa no sábado a noite, se despediu com um sorriso e guardou o de Zoe na cabeça e desde então...não mais se viram, não mais se ligaram.

 

Kirk ainda tentou a ligar umas três vezes desde o acontecido, mas Zoe sempre dizia que não podia falar, até que na noite passada, após a terceira batida de telefone na cara, Kirk desistiu. 

 

E mesmo hoje, dia 31 de outubro, o dia favorito de Kirk em todo o ano, nem assim, ele estava feliz, continuava no mesmo estado que está há 6 dias, 144 horas, pensando em Zoe, pensando em Zoe, pensando tanto em Zoe que já achou estar enlouquecendo, pois não há mais nada em sua cabeça além de Zoe...os olhos de Zoe, a voz de Zoe, tudo com Zoe, Zoe, Zoe, Zoe, Zoe...Zoe o fazendo gritar com a cara enfiada no travesseiro.

 

Kirk estava confuso. Completamente confuso e não mais conseguindo matar os sentimentos quando eles chegam, muito pelo contrário, essa semana ele foi consumido e engolido vivo pelos sentimentos por Zoe, pensando em Zoe, em tudo que envolve Zoe, no rosto, na voz, na mente, na pele, no cheiro, no toque, em cada uma das células de Zoe, o enlouquecendo desde aquele momento na chuva, quando sentiu a respiração dela ricocheteando em seu rosto e o raio caiu entre eles, os afastando.

 

“O que teria acontecido se o raio não tivesse caído?”

 

Foi a pergunta que enlouqueceu a mente de um Kirk obcecado pela garota.

 

“E se tiver alguma chance?”

 

Alimentando tantas expectativas e depois as quebrando por achar que estava enlouquecendo que de fato chegou a enlouquecer pensando naquele momento, pensando em Zoe tão perto dele e de como a queria perto de novo daquele mesmo jeito.

 

Sonhando com a garota...dormindo e acordado.

 

Tão obcecado e pensativo, ainda preso naquele momento no chão na chuva que no domingo, um dia depois do acontecido, Kirk encontrou Rebecca e terminou o que nem ao menos tinha começado, botando um fim em tudo. 

 

O pobre garoto deu um ponto final no que estava rolando entre ele e Rebecca sem nem ao menos saber o que Rebecca fez com Dave Mustaine. Mas a essa altura do campeonato, Kirk não se importava com mais nada ao seu redor, o mundo poderia desabar que ele só tinha uma coisa em mente: Zoe.

 

Tão louco por Zoe que a garota parecia ter virado seus neurônios. Só pensava nela, em vê-la de novo.

 

Mas ambos sumiram um da vida do outro desde aquele sábado. 

 

Confuso, com medo de estar se entregando ao que sempre teve tanto medo: a platonice. Certamente não aguentaria ter seu coração esmigalhado por Zoe e só de pensar que tudo isso pode ser só um mal entendido, que ele interpretou mal aquela olhada, aquela proximidade...que Zoe não sentisse o mesmo, Kirk já entrava naquele desespero que remexe o estômago e o faz gritar no travesseiro.

 

Agonia.

 

Será?

 

Será que não?

 

Sim?

 

 O que aconteceu naquele chão naquela chuva?

 

Ele imaginou tudo? Ele tem alguma chance? A garota sente algo, pode sentir ou é só amizade e ele distorceu tudo porque sua obsessão por ela está o fazendo enxergar mais do que deveria?

 

Uma coisa é certa. Kirk cansou de negar o que sente. Ou melhor, ele não consegue mais negar e nem esconder porque se tornou grande demais em seu peito para ficar guardado. O sentimento está à flor da pele, queimando, transbordando…

 

Quer arriscar tudo, testar, tirar a dúvida mas está tão apavorado de ter interpretado errado e perder a garota...ele não pode perdê-la. Não pode perder a amizade dela, não pode conviver sem ela, não pode deixá-la escapar de sua vida.

 

O que fazer?

 

Arriscar e perder a amizade pra sempre?

Ficar calado e tentar ignorar o que sente até queimar por dentro e enlouquecer?

Por que ela não atende as ligações? 

 

Não sabe o que fazer. Enlouquecendo.

 

Mais murmúrios no travesseiro.

 

Só sabe que quer vê-la, precisa vê-la, sente falta dela...

 

E enquanto Kirk terminou com Rebecca e passou a semana gritando no travesseiro. Zoe sofreu como uma verdadeira tola apaixonada de quem descobre o amor, como se tivesse malditos treze anos e estivesse sentindo o amor pela primeira vez.


 

E como?

 

Chorando e vomitando na privada de tão ruim do estômago. Afetada.

 

Afetada porque não sabe que Kirk terminou com Rebecca e ainda acha que ele está com a garota. 

 

E por isso não atendeu nenhuma ligação dele, porque estava de cabeça quente e não queria falar nenhuma besteira que a faria perdê-lo.

 

Afetada porque naquele sábado na chuva quase arriscou perder a amizade dele ou perdê-lo em sua vida quando pensou impulsivamente em beijá-lo. 

 

Zoe pensava nele o dia todo, cada segundo, da hora que acorda a hora que vai  dormir, o fato dele ligar ou não é o que mantém o humor dela no dia. Passa horas olhando pela janela da loja do Zazula esperando ver ele. 

 

E ao mesmo tempo, medo, medo porque nunca se sentiu assim, medo de expor seus sentimentos, medo de perder mais uma pessoa, medo de dar errado. E não quer perdê-lo. Medo de estragar a amizade. Medo. Medo. Medo. Não quer arruinar a amizade, não pode perder Kirk.

 

Medo, um medo também de não ser correspondida.

Medo de Kirk não acreditar.

Medo de Kirk a renegar.

Medo de Kirk não falar mais com ela.

Medo de Kirk não ser mais amigo dela.

Medo de Kirk  ir embora de sua vida.

Medo de Kirk continuar com Rebecca.

 

O que Zoe não sabia, é que Kirk estava do mesmo jeito e Rebecca não estava mais em sua vida há quase uma semana, desde o acontecido.

 

Pensar nele a fazia queimar. Cada um dos órgãos, um calor confortável e ao mesmo tempo desesperado para tê-lo logo, uma pressão no peito, uma vontade de falar, expor.

 

Ao menos Zoe entendia o que sentia, entendeu naquele chão na chuva e aceitou os próprios sentimentos, e assim como Kirk agora estava sendo engolida por eles.

 

É melhor morrer ou falar? Mas o que de fato ela falaria para ele? Ela nem ao menos sabe o que falar...mas já sabe colocar em palavras o que está sentindo.

 

Pensar nele a deixa feliz. Imaginar cenários ao lado dele faz o dia valer a pena. Seu peito bate rápido e todo dia quando fecha os olhos torce para sonhar com ele. 

 

Pensa nele o dia todo, em todo o cuidado dele, na forma como ele a trata, no jeito dele, nele, em tudo que ele faz, em tudo que ele é. E quer isso todos os dias, quer mais do que isso, quer que ele sinta por ela o que ela sente por ele…

 

Será que sente.

 

Sente. Sente até mais. Mas Zoe não sabe e não saberá enquanto não falar porque Kirk certamente tem medo de falar, medo de falar porque acredita que Zoe nunca se interessaria por ele.

 

Medo de perder um ao outro. Alguém vai ter que falar.

 

Ou sufocar para sempre enquanto a vida passa. 

 

31 de outubro - 20h45

 

- E aí? - Zoe chegou na cozinha e encontrou Dave, seu irmão, passando uma bandana para amarrar na cabeça e completar a fantasia de pirata. 

 

- Que merda de roupa é essa?

 

- Ei, não critica, eu dei meu suor e alma pra fazer isso. Ficou incrível! Deixa eu te ajudar com isso - Zoe se aproximou do irmão e o ajudou a amarrar a bandana - Você tá muito básico, pirata, argh, zero criatividade.

 

- É só Halloween, Zoe.

 

- EI! Não ouse desrespeitar a melhor data do mundo.

 

- Do que é que você tá vestida? Garota de programa?

 

- Vai se foder, ok? E eu tô de Barbarella e muito orgulhosa, vou ganhar o Halloween.

 

- Não é uma competição - Dave sorriu - Você vai pra alguma festa ou pro bar comigo?

 

- Pro bar - Zoe respondeu, ansiosa, fitando a própria fantasia feita a mão durante a semana no reflexo do fogão. Toda sexta é noite de show e o bar aproveitou para dar uma festa de Halloween e na hora que Zoe soube que o Exodus tocaria...a ansiedade a engoliu viva. Louca para vê-lo.

 

- Eu não vou sair com você vestida assim, vê se arruma outra carona - Dave fez uma careta fitando a fantasia da irmã.

 

- Eu é que não vou sair com alguém tão básico de pirata no Halloween. Você é zero criativo, credo. Vê se não sai espalhando por aí que é meu irmão, você me envergonha.

 

- Não sou eu que to mostrando a calcinha.

 

- É aquele ditado, Dave, o que é bonito foi feito pra ser mostrado - deu uma última olhada no próprio reflexo nos eletrodomésticos e fitou as botas prata até o começo do joelho, a calcinha preta de cintura alta, uma meia calça arrastão cobrindo o corpo todo, as pernas, a coxa, subindo até o meio da cintura e outra meia calça que ela customizou para cobrar a barriga e os braços, formando um macacão junto com o cropped prata que cobria metade da barriga. Arrumou os cabelos cacheados para que lembrasse a personagem e customizou uma pistola de cola quente a pintando de prata para que parecesse com a do filme, assim como pendurou um cinto na altura do quadril e comprou um tecido prato para usar como capa. 

 

- Vai ganhar muitas bebidas de graça.

 

- Cala a boca, Dave  - saiu porta a fora - Espero só te ver amanhã.

 

- Ah, eu também.

 

Deixou o irmão falando sozinho e caminhou pelas ruas de San Francisco, feliz, o Halloween é sua data favorita do ano, adora a alegria, as ruas decoradas, todos fantasiados, os confetes e doces, os gritos de euforia das crianças. Zoe andou até o bondinho e entrou no mesmo, sim, ela voltou a frequentar transportes e todas as vezes lembrava e agradecia Kirk mentalmente por isso, até rodar durante vinte minutos por San Francisco, os olhos na janela, feliz com toda aquela decoração, feliz por amar o Halloween, até por fim chegar ao bar. 

 

E enquanto Zoe estava no bar, pagando pelas próprias cervejas, dançando, tentando se animar com o clima de Halloween, com o fato de poder ser uma personagem por uma noite e fugir dos olhares de todos da cidade, ela também dançava, olhando de um lado para o outro com a cerveja em mãos e procurando Kirk. 

 

Enquanto isso, Kirk já estava no camarim, sua banda seria a primeira a tocar hoje, em seguida do Metallica e por último o Slayer. Kirk estava testando o som e conversando com alguns colegas de banda, principalmente travando uma conversa com James e com Lars estressados com o atraso do guitarrista Dave Mustaine, só mais um dos inúmeros motivos que os faziam juntar um ódio cada vez maior de Dave. 

 

- Olha, cara - Kirk respondeu, se afastando - Eu entendo o lado de vocês, de verdade, acho que seria uma puta oportunidade tocar no Metallica, mas eu não quero trair a confiança do Gary, a gente começou o Exodus juntos, sabe - olhou de um lado para o outro, tomando uma cerveja enquanto James e Lars o fitavam - E pra ser bem sincero, o seu guitarrista, o tal de Dave, é louco pra caralho e eu não to afim de meter em confusão com ele não.

 

- É só uma questão de tempo até expulsarmos o Dave, Kirk, você seria perfeito pra banda. Pensa com carinho na proposta, de verdade. O Exodus é pequeno pra você. E o Dave não vai fazer nada, ele só ameaça, mas é um idiota no fundo.

 

- A última vez que ele só me ameaçou, quebrou meu nariz, quero nem imaginar quando ele cumprir as ameaças. Preciso ir - escutou Gary o chamando para entrar no palco - Mas não prometo nada, rapazes, foi mal…

 

- Ele vai mudar de ideia -  Lars sussurrou para James.

 

- Eu espero - James sussurrou de volta - Eu não aguento mais o Dave...Ele só afunda mais a gente com as imprudências idiotas dele.

 

- Eu sei…

 

(...)

 

Zoe parou tudo que estava fazendo, empurrando algumas pessoas no momento que a música cessou e ela sabia muito bem que o show começaria. Se espremeu entre a multidão de pessoas até chegar à frente do palco, primeira fila, dando um gole longo na cerveja no momento que viu a bateria com o nome “Exodus” escrito.

 

Aproveitou os segundos de coragem que a bebida aquecendo seu corpo trouxe. Ansiosa, os olhos de felina grudados no palco, prestes a atacar, a fazer sua vítima fatal. Preparada, decidida, como um predador faminto prestes a devorar sua presa. 

 

E colocou as garras para fora quando o som estourou nos ouvidos e a banda começou a tocar. Ele subiu no palco. E Zoe não tirou os olhos dele um só segundo, ao contrário de todos ali ela era a única que não se balançava ao ritmo da música, pois estava parada, intacta, sem se mover e apenas olhando para ele, os olhos grudados no dele, o vendo concentrado e tocando vestido numa fantasia simples e com certeza improvisada de vampiro. 

 

E na quarta música, metade do show, no qual Zoe continuava com o olhar grudado, os olhos numa persistência tremenda que ninguém a tiraria dali, nem mesmo os metaleiros rodando e batendo cabelo tentando chegar na primeira fileira a tirariam dali. Na quarta música...Kirk a viu. Olho no olho.

 

Zoe sorriu e acenou com a ponta dos dedos, com a garrafa de cerveja grudada na boca, não parando de olhar para ele um só momento.

 

E Kirk...Kirk se perdeu todo com o olhar, tocou as notas erradas, recebeu xingamentos de Gary, andou de um lado para o outro. Completamente desconcertado, visivelmente desnorteado sem nem saber qual música estava tocando e se perdendo durante o resto do show tentando tocar e olhar para Zoe ao mesmo tempo, ali, parada, de frente para ele, o show todo. 

 

E ficou ali até o final, fielmente colada na ponta do palco, olhando para ele, gritando a cada fim de música, quando o show acabou, as luzes se apagaram e Kirk quis descer do palco, pular e ir até ela, mas foi impedido pois sabia que tinha que guardar as coisas e provavelmente escutar os xingamentos de Gary ao vê-lo, mais uma vez, perdido no meio do show, os dedos deslizando nas casas erradas porque os olhos e a mente dele estava em outro lugar.

 

O único lugar na qual esteve nas últimas semanas.

 

Em Zoe…

 

Enquanto Kirk guardava os fios e equipamentos correndo, sem nem saber o que estava falando, ignorando as vozes de todos ao redor, tropeçando, ansioso, fazendo tudo às pressas, Zoe ignorou o próximo show e voltou para perto do bar, um lugar estratégico e fácil, esperando que Kirk a encontrasse logo.

 

Voltou a dançar, se balançando ao ritmo do som que tocava, para não se sentir deslocada ali no meio do bar cheio de pessoas conversando e ela ali sozinha.

 

E o plano mirabolante de Zoe deu certo. Ele a achou menos de cinco minutos depois, guardou tudo com tamanha pressa que estava suado e ainda ofegante pós show, mas correu para encontrá-la e quando encontrou quase caiu duro no chão. E se alguém tivesse ao lado dele assim que encontrou Zoe, a fantasia da garota, a garota dançando, certamente teria  oferecido um babador por pena e fecharia a boca dele. As botas, a meia calça, os cabelos voando, o rosto com olhos fechados, o quadril, a dança. Zoe, Zoe, Zoe, levar um tiro à queima roupa com a bala atravessando o coração seria menos letal do que a cena dela dançando de frente para ele. 

 

Kirk precisou de alguns segundos parado, recebendo vários xingamentos de pessoas tentando passar e ele barrando o caminho, boquiaberto, tentando fazer sua mente e suas pernas voltarem a funcionar até por fim se aproximar. 

 

E Zoe, dançando de costas e com os olhos atentos esperando garoto, não percebeu quando ele chegou por trás dela, mas se arrepiou, sentindo cada um dos poros eriçados quando escutou um sussurro perto da orelha, mas não colado, apenas perto.

 

- "It's a wonder. Wonder woman. You're so wild and wonderful. Cause it seems whenever we're together the planets all stand still. Barbarella, psychedelia" - Kirk sussurrou a letra da música de abertura do filme.

 

- Ei, finalmente alguém reconheceu minha fantasia! - Zoe virou, sorridente, eufórica por finalmente vê-lo e o abraçou. Os pelos do  braço eriçados como se ela tivesse tomado um banho de água fria no inverno negativo, Mas foi só a voz dele sussurrada em seu ouvido o grande motivo. “Amigos, só amigos” - E aí, como estou?

 

- Arrebatadora - Kirk sorriu, fitando o chão e em seguida simulou um tiro certeiro no coração de brincadeira - Tenho pena dos corações que você vai quebrar hoje. Quantos barmans já desestruturou?

 

- Nenhum - a garota gargalhou - Acho que minha única vítima hoje é você. 

 

Kirk sorriu, de nervoso, mas imaginando que Zoe só estava falando aquilo na brincadeira, achando que era mais um dos flertes acidentais dela do tipo que ela fazia assim que se conheceram apenas para brincar com a cara dele. Mas a verdade, é que pela primeira vez, ela estava flertando com ele pra valer, mas Kirk é idiota demais pra perceber ou acreditar.

 

- E aí, o que quer fazer hoje?

 

- Hoje eu quero ficar muito louca e dançar muito, dançar todas - ela respondeu, pegando a cerveja da mão de Kirk e dando um gole - E me divertir com você.

 

- Ah, eu não danço. De forma alguma. De jeito nenhum. Só se for pra me envergonhar e constranger todos ao redor. 

 

- Mas vai dançar - Zoe o puxou, o garoto que ficou em pânico ao ser carregado para o meio da pista. Sorriu ao ver a cara de desespero de Kirk, completamente sem jeito - Ou pode só ficar parado enquanto eu danço - entregou a cerveja de volta para ele. 

 

Kirk ficou escorado no balcão, apenas bebendo e olhando de um lado para o outro, enquanto era empurrado por muitas pessoas eufóricas dançando e só ele ali parado.

 

E Zoe era uma das pessoas dançando, mas ao contrário de todos passando rápido por um Kirk distraído, ela dançava olhando para ele e quis não ter gasto seus truques de flerte nas primeiras semanas pois agora não sabia o que fazer já que Kirk estava acostumado com o jeito dela. E Zoe quis ser aquela garota impulsiva de um mês atrás, a que não tem medo de falar, a que grita para o mundo e consegue o que quer porque não liga para mais nada, mas agora ela se importa, se importa tanto que tem medo de falar...e estragar tudo. Queria ser a Zoe de um mÊs atrás, sem medo das consequências, que estaria provavelmente se insinuando para conseguir o que quer, balançando o quadril e mordendo os lábios, qualquer coisa para desestruturá-lo, queria perguntar se ele estava curtindo o showzinho como fazia antigamente, mas essa Zoe, a Zoe de hoje e com medo estava dançando devagar e de olhos fechados, em choque e sem saber o que fazer.

 

Falar ou não falar?

 

Queria ao menos um sinal, mas ele nem olhava para ela, Kirk fitava a cerveja, a segurando com os dedos trêmulos e a cabeça uma zona, mas Zoe não sabia dos detalhes, apenas se entristecia com o fato dele não estar olhando e ele não estava  olhando porque tinha medo de babar ou fazer do balcão do bar um travesseiro e gritar. 

 

Falar ou não falar?

 

Zoe lembrou de uma das conversas que teve com Kirk há alguns meses atrás e se perguntou o que tinha acontecido com aquela Zoe e como ela queria ser aquela Zoe imprudente e sem medo agora nesse exato momento, a Zoe que disse aquilo há um mÊs atrás e a Zoe que nem ao menos conseguia abrir os olhos hoje.

 

“- Você é - fez uma careta - Impossível. Não tem papas na língua?

- Não. Eu tenho um lema, Hammett. Comunicação. Comunicação é tudo na vida. Pra que guardar o que eu penso? Falo o que der na telha, afinal, todos somos seres humanos, se eu morrer daqui 20 minutos ao menos terei falado tudo que quis falar.

- O nome disso é imprudência e falta de senso.”

 

Fale, Zoe. Fale.

 

Mas falar o que?

 

Demonstra, então.

 

Arrisque. Se não arriscar nunca vai saber.

 

E se perder ele? E se ele sumir?

 

Não arrisque.

 

Fique calada.

 

Pensamentos confusos, confusos, confusos ao ponto que ela nem ao menos sabia o que estava tocando, apenas dançando sem jeito e tentando controlar a mente eufórica. 

 

Zoe respirou fundo e se aproximou de Kirk, ainda dançando, tentando descontrair, pegou a cerveja da mão dele, dedo com dedo, deu um gole, continuou dançando ali ao redor dele, perto dele - Você sumiu.

 

- O QUE? - Kirk perguntou, não conseguindo ouvir devido à música alta e o barulho em sua mente - A música tá muito alta, não consigo ouvir.

 

Zoe o entregou a cerveja de volta e se abaixou, colando nele e sussurrando no ouvido, sentindo os cabelos dele em seu rosto ao mesmo tempo que a quentura vindo da pele do pescoço, poros, toque - Você sumiu - sussurrou na orelha dele, quase encostando a ponta molhada dos lábios na orelha ou na pele do pescoço de um Kirk quase caindo da cadeira e que demorou a processar o que ela tinha falado, só conseguindo voltar a realidade quando ela se afastou. Braços arrepiados. Respirou fundo. Tentando manter a postura.

 

- Você também.

 

- Que?

 

- Você também sumiu - foi a vez dele se aproximar e falar colado à orelha da garota de pelos e poros eriçados.

 

- O que fez essa semana? - Zoe repetiu o ato, colando nele, dessa  vez  podendo sentir o ombro dele encostando no seu conforme se abaixou. Sabia que seria mais fácil irem lá fora conversar fora do barulho. Mas ela não sairia dali por nada no mundo.

 

Nem Kirk. Que agora estava de pé e colado nela a mesma medida que ela colada nele, ambos conversando em sussurros. Vez ou outra, braços se encostando, dedos na troca de cerveja, a ideia de dividir o mesmo gargalo, a saliva, a proximidade do calor do outro quando os copos de moviam um em direção ao outro, inclinando, chegando ao pescoço, ao ouvido, o hálito quente das palavras, dos sussurros, arrepiando ambos. O jogo corporal de Zoe quase fazendo Kirk ter um ataque cardíaco e ir ao chão, a forma como ela faz de tudo para encostar nele, sem espaço, o fazendo questionar se aquele era mais um dos sonhos parecidos com os quais teve em sua semana repleta de surtos ou se era vida real, podendo até mesmo sentir o tecido da  meia calça que ela usava encostando em sua pele, o fazendo precisar puxar ar do fundo do peito. O cheiro dela, o perfume feminino, o cheiro do gloss de cereja, os lábios melados e doces, os olhos naturais que o faziam um total prisioneiro, quase hipnotizado e nada mais existia ao redor, só a garota, só Zoe…

 

Vida real. Carne e osso e sussurros.

 

E enquanto Zoe falava, ali, escorada e apoiada nele, roubando a cerveja dele, encostando nos dedos deles, passando o calor do corpo dela para o dele, Kirk só conseguia pensar no gosto dos lábios dela, se teria o mesmo gosto do cheiro do gloss de frutas que usa, a sensação de sentir a boca, a pele da boca dela na sua, a sensação de sentir o gosto dela, a sensação da língua úmida com o gloss pegajoso sujando o rosto dele, o calor dentro da boca dela, tocar nela, a segurar pela cintura.

 

Kirk balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. 

 

Pensamentos que uma Zoe escorada nele, tocando no ombro dele, a lateral do corpo encostando na dele, fazendo o jogo corporal porque queria que ele fizesse o mesmo. Zoe respirou fundo sabendo que Kirk não captaria nenhum dos sinais, nenhum dos flertes dela. A proximidade excessiva durante a conversa, como ela fazia questão de passar a panturrilha coberta pela bota na calça jeans dele a cada passo, a cada movimento, a lateral do corpo dela pendendo para o lado dele propositalmente, o braço em cima do ombro dele, como toda vez que abaixava deixava a ponta do nariz encostar na pele do pescoço dele enquanto falava sobre qualquer coisa.


 

- Quer ir lá pra fora? - Kirk perguntou colado no rosto da garota quando notou que o Metallica havia subido no palco e Kirk estava fugindo de James, Lars e principalmente de Dave Mustaine, com medo de outro soco do tal guitarrista surtado.

 

Ah, Kirk...você não faz ideia de quem é Dave Mustaine...o irmão da garota que te faz perder o sono. 

 

- Ah, ok, tá - Zoe respondeu, levemente frustrada porque sabia que ir lá para fora no lugar silencioso significava acabar com as falas sussurradas no ouvido. Começou a ficar paranoica...será que ele tá incomodado com a proximidade? Por que ele quer ir lá para fora? Afinal Zoe faria de tudo para continuar ali dentro escorada nele.

 

Ela não sabia o real motivo da saída de Kirk do bar, só querendo fugir dos membros do Metallica e não dela.

 

Deus, não fugiria dela por nada no mundo.

 

Queria a garota por perto muito mais do que o necessário. Não querendo desgrudar dela um só segundo e não querendo que ela desgrudasse dele e Kirk deixou claro que estava tão interessado naquela proximidade recente quanto Zoe quando estendeu a mão para ela - Vem, não se perde- usou a desculpa do bar lotado e terem que ultrapassar barreiras de pessoas até o lado de fora, a verdade é que ele só queria continuar tocando nela, mesmo que fosse só a mão. E Zoe agarrou nos dedos dele, o seguindo até o lado de fora e não querendo soltar. 

 

- Por que quis sair? - Zoe perguntou assim que chegaram ao lado de fora, longe do bar abafado e do barulho alto do som. Ela estava paranoica, ainda achando que ele quis sair para que parassem a conversa boca no ouvido, mas uma coisa chamou a atenção de Zoe que quebrou a teoria anterior. Mesmo do lado de fora do bar, ele continuava segurando a mão dela.

 

Zoe encostou na parede do bar, puxando Kirk lentamente para perto, ainda com seu jogo corporal, querendo que ele captasse os sinais. Ele se aproximou, mas não o suficiente, não o tanto que Zoe gostaria. Se aproximou o suficiente, como um amigo, para bater um papo, as mãos ainda juntas ali no lado de fora do bar, o som abafado, os motoqueiros na calçada, as bebidas no chão.

 

- Eu não tava escutando nada - Kirk mentiu, não querendo falar que estava fugindo do tal guitarrista do Metallica, não queria que Zoe o achasse ainda mais um fracote. Mãos ainda juntas - Muito barulho lá.

 

Zoe sorriu, assentindo e fitou as mãos ainda juntas, Kirk segurando os dedos delas enquanto ela segurava os dele - Isso é engraçado.

 

- O que?

 

- Nós ainda estamos de mãos dadas.

 

- Ah, foi mal, não percebi - Kirk interpretou errado a fala de Zoe, achando que ela não estava gostando e soltou a mão.

 

- Eu não reclamei - Zoe pensou em segurar a mão dele de novo, mas só respirou fundo, confusa, e sentou na lateral do bar, Kirk se ajoelhou ao lado dela - Mas a Rebecca vai ficar bem brava com você - jogou no vermelho de novo, querendo ver a reação dele, querendo qualquer sinal.

 

- Rebecca? Ah, Rebecca é passado - Kirk sorriu.

 

- Passado? - os olhos de Zoe se arregalaram, quase sorriu, mas se controlou, tentando manter a postura enquanto queimava por dentro de alegria com aquela notícia - Como assim? Vocês terminaram? Terminaram pra valer? Quem terminou com quem? 

 

- Ah - Kirk ficou chocado com a forma com a qual Zoe ficou eufórica no momento em que o assunto surgiu - Eu nem te contei, né, a gente quase não se falou essa semana. Eu terminei com ela. Quer dizer nem tinha o que terminar, a gente não tinha um lance, só tava saindo.

 

- Por que você terminou? - o sorriso quase rasgando na face.

 

- Porque eu andei pensando no que você disse - Kirk a fitou, sabia bem que o motivo por ter terminado com Rebecca é porque não consegue parar de pensar em Zoe e também porque nunca gostou de Rebecca de forma atrativamente romântica ou qualquer outra coisa do tipo - Não faz sentido estar com alguém sem gostar da pessoa. 

 

Outro sorriso. Zoe se controlou para não dar muito na cara quando por dentro gritava internamente - É. Você merece coisa melhor mesmo e que bom que está ouvindo meus conselhos. Então você tá na pista de novo? - Zoe levantou, animada, girando ao redor dele, quase pulando de felicidade - Vem, vamos entrar, você precisa comemorar e se divertir. Vem dançar comigo - estendeu a mão, feliz, só querendo puxar Kirk para dentro de novo e dançar ao redor dele. 

 

Kirk sorriu baixo e balançou a cabeça, estava prestes a corresponder a animação da garota, quase segurando a mão dela e levantando, mas foi impedido.

 

Os dois se assustaram. Zoe e Kirk deram um pulo, assim como outras pessoas ao redor quando uma garrafa de cerveja vinda do além espatifou na frente deles, quase os atingindo.

 

Zoe levantou o olhar e nem precisou raciocinar para saber de onde havia vindo aquilo, ela sabia muito bem quem curtia jogar garrafas violentamente. E quando levantou os olhos comprovou o que já sabia.

 

Lombardo. Lombardo há alguns passos de distância dos dois e sorrindo com o grupinho de amigos após ter atirado a garrafa.

 

 - VOCÊ TÁ LOUCO? - Zoe, impulsiva e com o ódio na cabeça, partiu pra cima de Lombardo - Essa merda podia ter me cortado, cortado todo mundo  por perto, seu imbecil - empurrou Lombardo com força, grudando as unhas no peito dele e colocando todo o ódio para fora, o ódio que sempre existiu.

 

- Me solta, putinha de merda - Lombardo a segurou pelo braço, quase a sustentando do chão, desceu o olhar, com nojo e desprezo para a forma como estava vestida e os amigos dele seguiram na mesma onda, rindo da situação - Já deu seu show, Zoe? Nós já sabemos que você é…- fez sinal de loucura na cabeça - Não precisa provar nada pra ningu…- Lombardo teve a fala interrompida e soltou Zoe assim como todos se assustaram com o ato recente. Kirk. Kirk calou a boca de Lombardo com um soco certeiro e raivoso bem no meio dos dentes.

 

- Não encosta nela, imbecil - Kirk cuspiu entredentes, afastando Zoe enquanto segurava a própria mão dolorida pelo soco que havia dado bem na boca de um Lombardo que foi ao chão, ainda tentando levantar...e quando ele levantou, estava tão surpreso como todos ao redor vendo a cena, mas além de surpreso, Lombardo levantou raivoso, com seus quase dois metros de altura, a boca ensanguentada e o fogo no olho, partiu para cima de Kirk, querendo retribuir a porrada.

 

- Kirk, sai, ele vai te machucar- Zoe gritou, desesperada, tentou puxar o amigo, com medo que Lombardo machucasse Kirk, em pânico de imaginar Lombardo batendo nele, estava quase se enfiando no meio, mas não foi preciso, pois Kirk desviou do soco que Lombardo daria nele e ainda sorriu de deboche, deixando Lombardo ainda mais puto, mas não conseguiu desviar por muito tempo pois Lombardo veio para cima dele com tudo, acertando um soco no nariz que fez os ouvidos de Kirk zumbirem, o desnorteando por um tempo. Levantou a cabeça rápido e revidou, acertando Lombardo mais uma vez, ao ponto de machucar a mão com a força que botou no segundo soco que acertou no rosto do idiota do Lombardo, o fazendo cuspir sangue no chão.

 

Lombardo levantou, se lançando na direção de Kirk mais uma vez, pronto para o ataque, enquanto Zoe ainda gritava, andando de um lado para o outro com as mãos na cabeça, com medo de Lombardo machucar Kirk.

 

Kirk se preparou assim como Lombardo, mas se assustou ao ter os braços segurados para trás - Para com isso - Gary Holt o segurou, o impedindo de avançar em Lombardo enquanto outros caras de bandas seguravam Lombardo que se debatia - Sai cara, sai daqui - Gary arrastou Kirk pra longe, o puxando com força para longe de Lombardo - Que merda deu em você, porra? Se metendo em briga, você não é assim.

 

- Eu to bem, me solta - Kirk empurrou Gary, chamando a atenção de algumas pessoas no bar. 

 

- Seu nariz, merda, de novo - Zoe chegou correndo, empurrando algumas pessoas e se aproximou de Kirk, eufórica e preocupada, levantando o rosto dele para que parasse de sangrar - Merda, você se machucou? Tá doendo?

 

- Não, relaxa, não muito, é só lavar - Kirk segurou nas mãos de Zoe - Você tá bem? - segurou o braço dela, vendo o vermelhidão desaparecendo onde Lombardo estava segurando.

 

- To, a gente tem que lavar isso, vem - Zoe segurou Kirk pelo braço o arrastando até o banheiro do bar, preocupada com o nariz do garoto escorrendo sangue, e Gary os acompanhou. Zoe escutou uma risada irônica vindo de Gary e uma balançar negativo de cabeça, demonstrando deboche ao olhar para ela enquanto sussurrava “claro, tinha que ser”.

 

Zoe não entendeu o que Gary quis dizer, mas ignorou, mais preocupada com Kirk. Chegaram ao banheiro e ele se trancou na cabine para lavar o rosto - Você consegue entrar sozinho?

 

- Consigo, relaxa, não quebrou,  não tá doendo, só ardendo um pouco - respondeu e entrou, deixando Zoe e Gary plantados do lado de fora.

Uma Zoe não gostou dos olhares que estava recebendo de Gary, escorado na porta.

 

- Pode deixar, eu cuido dele - Zoe sussurrou, sem nem olhar para o tal Gary Holt.

 

- Eu sabia que você tava envolvida nisso - Gary disse entredentes, deixando explícito o ódio que sente de Zoe, um ódio comum ao que a maioria sente, por escutar as histórias mentirosas sobre ela e deduzir que a garota não presta, as histórias do acidente que correm na boca de todos - Para de entrar na cabeça dele, garota. Deixa o Kirk em paz, eu sei bem o seu tipinho, as histórias que contam de você. Kirk não é assim, nunca foi de se meter em briga, aposto que isso é coisa sua. Só vou dizer uma vez...eu sei que você não vale nada e vou fazer questão de abrir os olhos do Kirk pra víbora que você é. Você tá adorando isso, não tá? Ver os dois disputando você?

 

- Disputando? Vai à merda, você não sabe de nada, não sabe nada sobre mim - respondeu entredentes não querendo gastar palavras com Gary, sabendo que ele não a conhecia, sabendo que ele a odiava gratuitamente como todos ao redor pelas histórias que espalham, as histórias que a machucam e a fizeram criar a casca que a afasta de todos, que a obrigam a ignorar sentimentos, a ser imprudente, para não se machucar, para lidar com as mentiras que as pessoas contam, achando que a culpa do acidente é dela, as histórias sobre ela.

 

- Foda-se, eu já avisei - Gary jogou a jaqueta de Kirk na pia  e saiu, andando a passos raivosos e deixando uma Zoe cabisbaixa na frente do banheiro e abalada, abalada como sempre quando escuta o que as pessoas falam sobre ela. Secou a lágrima que ousou cair e engoliu o choro, tentando manter a pose e esquecer as palavras mentirosas de Gary, as palavras que todos falavam e espalhavam desde o acidente.

 

- Novo em folha - Kirk saiu do banheiro, e de fato ele não havia se machucado, o nariz só estava um pouco avermelhado, mas nada grave e o sangue já havia parado de sair - Cadê o Gary?

 

- Saiu.

 

- Você tá bem? - Kirk se aproximou, segurando o braço dela levemente e vendo que o vermelhidão dos dedos de Lombardo já havia sumido - Esse cara é um idiota. 

 

- Eu sei. Você é um idiota por ter se metido numa briga com ele, tá louco?

 

- Ele mereceu levar uns socos. E se machucou bem mais do que eu? Viu a cara dele? - sorriu, vitorioso. 

 

- Quem diria que o Kirk Hammett zero imprudente seria bom de briga - Zoe sorriu e segurou o rosto de Kirk levemente, checando se ele estava bem mesmo - Você fez algo que eu sempre quis fazer. Socar a merda do Lombardo.

 

Kirk sorriu - De nada.

 

- Mas chega, não se mete em briga de novo, entendeu? - o apertou - Eu to falando sério, para com isso, não quero que você se machuque.

 

- Ah e você se importa comigo? - Kirk sorriu, ainda com as mãos da garota em seu rosto.

 

Zoe sorriu de volta, contagiada pelo sorriso suave dele, as covinhas aparecendo na bochecha.

- Claro que eu me importo, imbecil. Gosto do Kirk que não se mete em confusão, por favor continue a ser ele.

- Ok.

- Promete?

- Não vai me fazer cuspir na mão de novo, né? Nesse caso eu prometo - Kirk revirou os olhos de brincadeira, fazendo Zoe gargalhar - Quer sair daqui? Roubar alguns doces de crianças na rua? Esse bar já perdeu a graça por hoje.

- TOTAL! Vamos sair daqui logo, cansei desse lugar - Zoe o puxou para fora do banheiro, mão na mão de novo para não se desgrudarem enquanto atravessavam a multidão de pessoas para fora do bar. Zoe escolheu a outra saída, a que ficava longe de Lombardo e dos motoqueiros, desesperada e com medo de que Lombardo encontrasse Kirk de novo e quisesse se vingar. 

Por fim saíram no lado vazio da rua, longe do bar e caminharam em silêncio pelas ruas decoradas, passos lentos e ainda com as mãos dadas. Zoe estava distraída, pensando no que Gary havia falado, de novo sentindo a tristeza chegar em seu peito, pensar no acidente e Kirk estava olhando para ela, fitando a beleza extraordinária da garota, ainda mais bonita com as luzes alaranjadas das decorações de Halloween da rua refletindo nos olhos mel esverdeados. 

- Que foi? - Kirk perguntou ao notar o olhar baixo de Zoe, já conhecendo cada uma das expressões dela - Estraguei a noite?

- Não! - Zoe levantou a cabeça e sorriu ao olhar para ele, esquecendo os pensamentos, só de olhar para ele - Você salvou a noite! Você sempre salva.

Kirk sorriu - Tá bom, e o que quer fazer? Ainda é Halloween. Quer procurar outra festa?

- Não. Na verdade só quero pegar alguns doces. Você também sente saudade dos Halloweens passados? Tipo, na infância, tudo era tão mais divertido, pegar doce na rua, ir fantasiado pra escola - sorriu - Ficar doidão de açúcar.

- Eu sei, sempre foi minha data favorita do mundo, escolher uma fantasia legal, correr na rua sem medo.

- A minha também. A vida adulta é chata. - respondeu quando saírem dos becos escuros e chegaram nas ruas iluminadas onde a agitação ainda acontecia, mas estava mais contida pelo horário e com menos crianças nas ruas. Os olhos de Zoe brilharam, casas e ruas decoradas e iluminadas, confetes no chão, ruas fechadas e sem carros, apenas com pessoas fantasiadas correndo felizes pra lá e pra cá.

E outra coisa a deixou ainda mais feliz...o fato de ainda estar segurando a mão de Kirk. Andavam grudados, atravessando a rua cheia de crianças eufóricas correndo entre eles e jogando doces para cima.

- Qual é o seu favorito? Vou conseguir um pra você.

- Huh, sabe aquele pirulito de abóbora que deixa a língua roxa? Eu amo - Zoe encostou o ombro no de Kirk - Vai roubar doce de criança? - gargalhou alto.

- Roubar não, subornar. Seu pedido é uma ordem, madame. Espera aqui.

Faria qualquer coisa por ela. Qualquer coisa...Mesmo algo tão simples e pequeno como pegar um doce, mas faria, faria qualquer coisa...

Por ela...

Soltou a mão de uma Zoe sorridente, gargalhando e incrédula, genuinamente feliz. Feliz. Kirk virou para trás algumas vezes, a vendo sorrir...e Deus, quando ela sorri...é como se ele chegasse ao paraíso mesmo sem merecer, encostar nas mãos de um ser angelical…

Zoe encostou numa árvore de uma casa toda decorada e fechou os olhos por dois segundos, querendo memorizar aquele momento para sempre, não querendo esquecer da sensação incrível em seu corpo, o coração quente, a felicidade a fazendo sorrir ao estar no meio daquela rua decorada, os sentimentos por kirk...Kirk...sorriu de novo.

Gargalhou alto quando o viu abordar uma criança na rua e trocou uma abóbora de plástico cheia de doces por cinco dólares. Zoe sorriu alto, com as mãos no rosto enquanto Kirk vinha caminhando rápido na direção dela, igualmente gargalhando - Eu disse! Subornar criança é fácil, eles acham cinco dólares muita coisa…

- Você é inacreditável - Zoe gargalhou alto, o abraçando com força, mais uma vez encostando nele, não conseguindo parar de tocar nele, ansiosa, louca para senti-lo o tempo todo.

- Olha só o que temos aqui - Kirk sentou na escadaria da casa decorada assim que Zoe o soltou, não querendo que ela tivesse soltado, e virou o pote de doces, espalhando diversas coisas no chão - Tem seu pirulito.

- Mentira! Não acredito! - ela correu pela escada pequena e sentou ao lado dele, aceitando o pirulito e comendo o doce. Feliz - Merda, isso é muito bom, já provou?

- Nunca comi isso, parece nojento. Quem bota abóbora num doce? Eu prefiro esses - Kirk abriu um pote de jujubas e virou na boca - A gente tá parecendo dois idiotas sem infância.

- Eu amo o Halloween, me deixa em paz - Zoe sorriu e se aproximou ainda mais de Kirk - Que cor tá minha língua? - apoiou em Kirk, praticamente se jogando em cima dele e abrindo a boca perto demais, tão perto que ele conseguiu sentir o cheiro de tutti frutti partindo do doce hálito da garota.

- Huh...Roxa! - Kirk engoliu em seco ao responder, trêmulo, com o rosto da garota tão perto dele, o corpo queimando, a língua estirada, os olhos sorridentes e felizes dela, e Kirk nervoso e com os mesmos pensamentos do começo da noite ressurgindo em sua cabeça...a boca de Zoe...o gosto de Zoe...a vontade de...beijar Zoe.

- Você precisa provar.

- Eca, eu não vou comer doce de abóbora.

- Por favor, é bom, eu juro, prova, vai, por mim! 

- Tá, tá bom - Kirk revirou os olhos - O que eu não faço por você, não acredito que vou comer isso.

- Abre a boca - Zoe gargalhou e encostou o pirulito na boca de Kirk, o tirando em seguida e enfiando na própria boca, voltando a chupar. Saliva com saliva, isso a aqueceu, como uma forma desesperada de querer senti-lo mais, e lá estavam eles, dividindo a porra de um pirulito com segundas intenções de ambos os lados, mas ninguém dava o braço a torcer - E aí, gostou? 

Kirk sentiu o gosto do doce e sentiu seu coração batendo forte, rápido demais com a proximidade de Zoe, ela sentada na escada mas grudada nele, as pernas com botas prateadas e meia calça arrastão quase em cima das dele, o braço dela encostando no dele, a forma como ela estava toda apoiada nele, quase deitando o rosto nele, os sorrisos, a animação, ela, os olhos dela, a boca dela, o gloss, ela, ela, ela...podia ter um ataque cardíaco a qualquer momento se não falasse logo. Ficar ao lado dela desse jeito sem falar, sem poder ter mais, sem saber, com a dúvida, deveria ser considerado uma das piores formas de tortura. 

Kirk respirou fundo. Não aguentando mais aquilo, não aguentando mais ficar calado, perdendo a cabeça, o pirulito, o gosto indireto da boca dela, o cheiro dela.

Falar. Precisa falar antes que fique louco.

Aquele segundo de coragem que chega com impulsividade do desespero. A impulsividade do desejo, do medo de nunca a ter, de a perder, de perder a chance, de ter que sentir a dor de não saber o gosto dela, de perder o sorriso dela. Prefere tentar do que passar a vida toda se culpando por não ter tido a coragem. Kirk estava desesperado, com as palavras na ponta da língua. 

 

Se xingou mentalmente por não ter  bebido muito hoje, afinal se estivesse bêbado, ao julgar pelo desespero que está com seus sentimentos, já teria tido a coragem de falar.

 

- Z…- começou e parou, com medo da reação dela…

 

- Huh - Zoe continuou chupando o pirulito, não ouvindo quando Kirk tentou chamá-la, ainda colada nele, querendo que ele entendesse a proximidade, querendo que ele a tocasse - Eu to brava com você, ok? - apoiou o queixo no ombro de Kirk, sentindo o tecido da camisa dele em sua pele, o cheiro dele, fazendo de tudo para que ele entendesse os sinais, entendesse o flerte - Eu falei sério quando disse que não quero mais você se metendo em brigas, principalmente com Lombardo. Eu sei que ele é um idiota, mas eu não quero você metido em brigas, eu me importo pra porra com você - deitou o rosto, substituindo o queixo pelo ombro e ergueu o braço, segurando o pulso de Kirk, mão com mão, já desesperada, o coração batendo rápido, querendo que ele entendesse o flerte, querendo que ele a beijasse, querendo que ele se tocasse logo o que ela estava fazendo, praticamente se atirando para cima dele, sem medo, Zoe perdeu o medo, o desejo engoliu o medo. Estar perto dele a fazia querer arriscar tudo e não pensar nas consequências, não pensar no medo de perdê-lo tomada pela vontade de tê-lo mais...E se...E se...só se sabe tentando. “Por favor, por favor perceba, entenda os sinais, por favor…” Zoe estava quase suplicando - Não suporto pensar na ideia de você se machucando, sério, Kirk, eu fico desesperada, você é meu amigo, minha pessoa favorita, não quero que você se machuque.

 

“Você é meu amigo.”

 

“Amigo”.

 

Ouvir isso deixou Kirk ainda mais desesperado com medo dela nunca o ver mais do que um amigo e ele precisar conviver com a dor de não tê-la.

 

Kirk decidiu arrancar logo o band-aid, falar tudo e sofrer, ou falar tudo e ter tudo.

 

Arrancar o band-aid e parar de adiar o sofrimento ou a cura.

 

- Ok, relaxa, não vou mais me meter em briga - Kirk respondeu no modo automático, tentando respirar, nervoso com ela deitada em cima dele, querendo falar, querendo expor os sentimentos, querendo arriscar. E  ao mesmo tempo, o coração agitado em conforto com as palavras dela, as palavras que demonstram carinho, que deixam claro que ela se importa com ele, a forma como os dedos dela estavam brincando com a camisa dele, a ponta dos dedos suavemente no pulso, no braço, a cabeça dela em seu ombro. 

 

- Promete mesmo? - Zoe se aproximou e ela mesmo queria arrancar o próprio band-aid e num ato de desespero para que ele entendesse logo, Zoe testou, levantou o rosto e deixou um beijo suave na bochecha de Kirk, sentindo a pele do rosto dele, o gosto dele em seus lábios,  rapidamente, até se afastar - Espero que seja uma promessa real - voltou para o ombro dele, o coração batendo rápido, esperando a reação dele, esperando para ver se ele tinha entendido o recado. 

 

- Prometo - Kirk respondeu no modo automático, mal escutando os próprios pensamentos de tão alto que seu coração batia em sua cabeça e no seu corpo todo - Eu sou seu amigo não sou?

 

- É…- Zoe sussurrou, quase decepcionada por ele não ter se mexido, não ter ao menos tentado retribuir o maldito beijo na bochecha. Respirou fundo.

 

- Mas eu não quero ser - Kirk arrancou o band-aid, falou com a voz trêmula sabendo que não podia mais voltar atrás - Eu não quero ser seu amigo, Zoe - respirou fundo, esperando a resposta dela.

 

- Que? O que está dizendo? O que eu fiz? - Zoe entendeu errado, tão desesperada que não captou o real motivo das palavras de um Kirk querendo avançar, ela apenas entendeu que ele não a queria mais por perto. 

 

Por sorte, Kirk decidiu arrancar o band-aid de uma vez, mesmo quando sentiu Zoe levantar o rosto e desencostar de seu ombro - Quer dizer, não acho que amigos sintam vontade de beijar a boca do outro o tempo todo - Kirk sussurrou, fitando o chão, mas sabia que ela tinha escutado. 

 

“Pronto, falou, você pode ter estragado tudo, seu idiota, seu idiota...por que falou...ela nunca mais vai olhar na sua cara...porra.” Kirk pensou, em desespero, tremendo, o coração batendo forte, a falta de reação de Zoe, a falta de palavras de Zoe.

 

E Zoe...Zoe também não conseguia pensar pois seu coração também batia tão rápido e alto com o que tinha acabado de ouvir que não conseguia raciocinar, mas pensou rápido o suficiente para falar. 

 

Levantou.

 

Deixando Kirk ainda mais nervoso achando que ela ia embora. 

 

Zoe estava ansiosa, ele havia entendido seus flertes, seu jogo corporal, ele estava retribuindo, a felicidade chegando em forma de desejo e ansiedade correndo em suas veias no lugar do sangue que a mantinha viva - O que está esperando então? -  e jogou o pirulito no chão, o doce se espatifando nas botas de Kirk.

O olhar. O olhar de Zoe poderia tê-lo matado de um ataque cardíaco, os lábios abertos, a forma como ela mordeu sem consciência a ponta do lábio com um dente afiado e umedeceu a própria boca, ansiosa, os olhos, o olhar de felina dissimulada que o faria lamber o chão, o olhar o chamando, o olhar que o fez prisioneiro e vítima e ah...ele queria ficar preso sempre...

O olhar que fez Kirk levantar imediatamente e parar de tremer, quebrando o conceito de tempo e espaço, quebrando o conceito de segundos do relógio de tão rápido que seu corpo saiu daquela escada,  se aproximou de Zoe a puxou pela cintura, podendo sentir a pele da cintura dela em seus dedos, a textura da meia calça que usava, o coração pulando para fora da boca, perdendo algumas batidas de tão rápido.

 

Zoe imediatamente se agarrou nele, passando todo o seu corpo pelo de Kirk, o segurando pelos cabelos, sentindo o toque dele a puxando delicadamente na direção, os unindo, os grudando e Zoe tomou a iniciativa...rompendo a barreira de rostos, fechando os olhos e matando a vontade do que a estava matando...o beijando. 

 

E o toque molhado de lábios se encontrando aconteceu. Ela se aproximou, grudando os lábios dos dois e abriu a boca na mesma hora, sentindo o tecido dos lábios de Kirk nos dela. O toque. A sensação, pele com pele, boca com boca, o quente, o molhado, as línguas, as papilas passando uma pela outra, o tecido áspero deslizando e acariciando, as línguas unidas, os lábios se encostando. 

 

Um beijo suave, o gosto do outro na boca do outro, línguas quentes deslizando com fúria e facilidade, pele dos lábios úmidas juntas em um beijo longo e sem ar, um beijo com corpos juntos se tocando e apertando, um beijo profundo com línguas quentes deslizando uma na outra. Kirk a segurando, sentindo o gosto da boca dela, sentindo o sabor do gloss, a sensação do corpo da garota no seu, as mãos de Zoe em seus cabelos o puxando para mais, se prendendo nele, se forçando nele, colando corpos, passando corpos, membros por membros, mãos, a ponta dos dedos dela agarradas no pescoço dele, a falta de ar, a quentura da boca, do beijo sem fim, do beijo aguardado e desesperado.

 

Zoe o soltou para respirar depois de quase um minuto e nem deu tempo de Kirk procurar fôlego, nem abriu os olhos e grudou a boca na dele de novo, se arrepiando com a forma com a qual ele a tocava, a segurava pela cintura, o cheiro dele, as mãos suaves dele, a forma como ele controlava o beijo, sabendo o que está fazendo, passando a língua pela dela, a arrepiando, o toque molhado, os corpos grudados, querendo mais e mais e mais, o gosto do doce na língua, o pirulito de mais cedo. 

 

A forma como ele subia a mão da cintura para o maxilar dela, a segurando com delicadeza, segurando o rosto dela e a trazendo ainda mais para ele, aprofundando ainda mais o beijo, o gosto, o toque, as línguas quentes, a boca quente e molhada, deslizando uma pela outra, lábios se encontrando, pele se encontrando, bocas se encontrando, os lábios inferiores e superiores se encostando enquanto as línguas se tocavam, sem ar, úmidas, se entrelaçando, sentindo, o gosto, o toque, a sensação os fazendo querer mais e mais e mais.

 

Línguas quentes, macias, entrelaçadas, passando uma na outra, boca dentro da boca, o beijo desesperado, os dois desesperados procurando mais toques, os dois eufóricos, Zoe levemente prensada na parede e querendo ficar ali pra sempre, incapaz de definir sensação melhor passando o próprio corpo no de Kirk, o puxando para mais perto, para ter mais dele, mais do toque dele, mais de tudo que vem dele...

 

Um beijo longo e sem ar fazendo as papilas molhadas se encontrarem, se contornarem, se beijarem como se fossem uma só, e estavam entrelaçadas, em bocas unidas como se fossem uma só em um beijo.  Pernas com pernas, braços com braços, peito com peito, barriga com barriga, nariz com nariz, a forma como Zoe estava encostada na parede de uma casa e completamente entregue, se apoiando dele, forçando todo o seu corpo no dele, quase afundando nele, agarrando a barra da blusa dele, o beijando, o beijando, sem fôlego, sem ar...não querendo parar de beijá-lo um só segundo...

Não querendo parar de beijá-lo um só segundo...

Um só segundo...

 

 


Notas Finais


Comentem!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...