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História H(L)Ove - Capítulo 11


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Notas do Autor


e aí, galero?! todo mundo bem? espero real que sim.

aqui vai mais um capítulo. se vocês notarem no título, essa é a parte dois dos feriados de inverno. a primeira foi o baile, agora a ação de graças e... aposto que vocês conseguem adivinhar o que vem depois, ne?

vou tentar me esforçar ainda mais para poder postar mais cedo, mas é aquela coisa ne, eu trabalho, estudo e tenho outros projetos além dessa história. e minhas aulas já voltaram, tenho aulas online e presenciais agora.

não revisei o capítulo porque tava toda agoniada para postar logo, então por favor me desculpem quaisquer erros presente, ok? boa leitura, galera!

Capítulo 11 - L'hiver; end of season (part. 2)


Namorar Jung JinSol significava muitas coisas. Significava não cabular nenhuma aula de Educação Física porque: a) eu jamais perderia a oportunidade de vê-la transpirando em trajes apertados, e b) ela sabia ser insuportável quanto à importância da prática contínua de exercícios físicos, por mais que eu odiasse qualquer movimento extremo que me fizesse cansar. Também significava ir a eventos escolares para assisti-la fazer o que quer que estivesse fazendo. Significava fazer horas a mais no Aquário de Loonaville apenas porque ela está preocupada com uma maldita foca e você sente uma fisgada de dor em seu subconsciente toda vez em que pensa em deixá-la lá sozinha. E, uma razão não tão infeliz assim, significava estar inclusa em todos os possíveis feriados comemorados por sua família, o que se resumia a todos eles. 

Estávamos na quarta quinta-feira de Novembro, o que traduzia nada mais, nada menos, que o dia de Ação de Graças, e JinSoul, fiel às celebrações como era, jamais me permitiria passá-lo no orfanato — ou em qualquer outro lugar longe dela, sendo sincera. Não, de jeito nenhum isso aconteceria, principalmente com sua mãe tendo viajado à pedido de seu pai para acertar questões legais de seu divórcio. 

Mas eu estar em sua casa era tão pouco suficiente; eu também tinha que estar de pé e em movimento. 

Após me acordar às oito da manhã de um feriado, ela insistiu para que eu levantasse da cama e descesse junto a si para tomar um café especial em família. Como se pode imaginar, ela deixou o quarto emburrada e sozinha, pois de jeito nenhum eu sairia de uma cama tão confortável tão cedo. Se eu estava arrependida? Nem de longe. Todavia, não tinha conseguido voltar a dormir, como sempre. 

Esta fora a primeira vez em que passei a noite com JinSoul em sua casa. À sós, dividindo sua cama. Ela disse que Jiwoo, a diretora de nossa escola e amante de sua mãe — que passará a ser namorada depois que o processo do divórcio estiver completo — pela manhã para preservar o espírito de feriado em família, e que tanto ela quanto sua mãe sabiam que a loira teria alguém em casa que ficaria para o jantar. Alguém, minha cabeça fez questão de privar assim que a frase deixou seus lábios rosados na noite anterior. 

Não fazia ideia de que horas eram, mas ouvi passos vindo de fora do quarto e então a porta de madeira se abrindo, o movimento se aproximando até que minhas costas estivessem sendo pressionadas e meus seios se apertassem contra o colchão. Dedos sorrateiros e gélidos tocaram minha bochecha, cutucando-a como a um botão repetidamente. 

— Se você quer viver, saia de cima de mim agora, Jung JinSol.

Uma gargalhada soou perto demais dos meus ouvidos e a cama se mexeu quando o corpo se jogou ao meu lado. 

— Que horror, Jungeun. Isso lá é jeito de tratar a sua namorada? 

Resmunguei contra sua fala infeliz e forcei meu corpo a gerar algum movimento, empurrando-me com minhas mãos até estar fitando seu rosto redondo e a expressão brincalhona. 

— O que está fazendo aqui, Yerim? 

— Feliz Ação de Graças para você também, — ironizou, embora sorrisse. 

— Achei que fosse passar a semana na casa da Hyejoo. O que, ela percebeu finalmente o quão chata você é e te pôs para fora? 

Ganhei dois tapas no braço pela provocação e vi seu rosto tomar uma feição de desgosto.

— Não, idiota. A mãe da JinSoul ligou ‘pra senhora Son e disse que éramos para virmos para cá. Ela conseguiu ser liberada antes do previsto e ‘ta vindo fazer uma surpresa, pelo que eu entendi. 

— Jantar? — Minhas sobrancelhas franziram. — Mas nem almoçamos ainda. 

— Você, ‘né? Já são quase três da tarde. 

A informação me surpreendeu porque eu não tinha me dado conta de que havia passado tanto tempo deitada. Não pareceram tantas horas assim. 

Suspirei e sentei-me, sentindo de imediato todos os meus músculos reclamarem pela ação, como se eu estivesse sendo atingida por uma bola de destruição.

— Merda, — murmurei, dando-me conta da lentidão de meus movimentos ao me levantar. 

Yerim levantou junto ao tempo em que eu calçava a pantufa que JinSoul me emprestara, agarrando-se a mim pelo que pareceu ser a eternidade. 

— ‘Tá doendo, Cerejinha. Desgruda aí. 

Senti seu rosto inteiro franzir antes mesmo dela tirá-lo dos meus ombros. — Você disse o quê? 

— Sei lá, Yerim, — respondi, preguiçosa demais para sequer pensar sobre. — Meu corpo ‘tá doendo. 

— Você me chamou de cerejinha, — seu tom foi cômico, porém, ao perceber que eu realmente não aparentava estar em minha melhor versão, ela levantou o braço e colou a mão em minha testa. — Você deve estar com febre. Sua cabeça ‘tá meio quente. 

Se eu, de fato, estivesse doente, explicaria muita coisa, a começar por minha falta de apetite. Em outra situação, certeza que eu teria acordado quando JinSoul me chamou da primeira vez só para encher meu estômago com as delícias que seus empregados faziam pela manhã. 

— Vem, — disse Choerry ao pegar minha mão. — Vamos procurar algo para você comer agora ou eu tenho certeza que vão te obrigar a esperar até o jantar. 

Ela me segurou mais firme e forçou meu corpo a acompanhar o seu para sair do quarto e descer as escadas. Ouvi os gritos de Yeojin antes mesmo de chegar à sala, encontrando-a em uma breve discussão com Chaewon sobre qual filme do Frozen era o melhor, o primeiro ou o segundo. Porém, assim que me viu, a menor gritou meu nome em excitação e correu ao meu alcance, abraçando minha cintura e me fazendo gemer de dor.

— Calma lá, pirralha. Eu não estou em meus melhores dias. 

— Mas você nunca ‘ta, unnie, — seu sorriso brincalhão me fez apertar meus dedos contra sua cintura até vê-la se afastar de mim em gargalhadas. — Não, unnie! Eu odeio cócegas!

— Você ‘tá com cara de morta, Jungeun, — disse a loira em uma provocação amigável. 

— Que engraçado, — ironizei. — Pelo menos isso é passageiro. E você que está em ótimo estado de saúde e ainda assim parece uma variação da noiva do Chucky? 

Revoltada, a Park apanhou a primeira almofada e sua frente e a jogou no meu corpo. Todavia, Choerry estava lá e a pegou antes que atingisse meu braço. Agradeci a tudo que estivesse disponível por ela estar ali. 

 — Yah! Chae! Ela está doente, não faça isso.

Sua fala fez Yeojin arregalar os olhos e direcionar sua expressão mais preocupada para mim. 

— O que há contigo, unnie? Você está bem? Precisa se sentar? 

— É só uma gripe, Yeojin. Relaxa aí, — baguncei seu cabelo antes de virar-me para Yerim. — Onde está todo mundo? 

— Soyeon e Becky estão na sala de jantar preparando a mesa e Hyejoo está lá em cima procurando mais DVD’s. O senhor e senhora Son foram ao mercado comprar o que faltava, — foi Chaewon quem respondeu. — JinSoul está com a diretora Kim na cozinha. 

— Beleza, — respondi e puxei Yeojin comigo, ouvindo seus resmungos por tê-la afastado de seu filme, mas algo que eu havia notado e vinha me incomodando era que Hyejoo estava roubando todo o meu contato com ela. 

Não que eu visse problema em Yeojin ter pessoas que se importam com ela, porque eu não via. Contudo, fazia algum tempo já que Yeojin recusava minhas chamadas para ajudá-la em seu dever de casa porque Hyejoo já o havia feito, ou negava meus convites para sair comigo e JinSoul porque a casa da família Son era mais interessante. Olivia até mesmo a buscava na escola com Yerim e forçava Chaewon a levar minhas duas colegas de quarto de carro até o orfanato todos os dias. 

Era uma gentileza que a morena fazia com prazer e eu ficava contente ao ouvir Yeojin tagarelar a noite inteira sobre suas saídas super divertidas com as meninas, mas era impossível não sentir uma pontada sentimental negativa por estar sendo excluída de sua vida. 

— Lippie? — Chamou JinSoul assim que me viu entrar na cozinha. Ela sorriu e tirou as mãos do que quer que estivesse amassando dentro daquela vasilha metálica e a lavou, aproximando-se de mim. — Pensei que ainda estivesse dormindo. Estávamos começando a ficar preocupadas.

A diretora Kim confirmou a afirmação com um sorriso gentil e JinSoul me abraçou. Retribuí o gesto ao alcançar sua cintura com meus braços e beijei seus lábios rapidamente. Ela corou e eu sabia que era por conta da presença de Kim Jiwoo em sua cozinha. Entretanto, sua — quase — madrasta fingiu não ter visto, determinada a terminar a preparação de seu prato de uma vez. 

— Eca! A unnie está doente, JinSoul. Você tem que ter cuidado!

Os olhos da loira arregalaram-se em questões de segundos e ela começou a me analisar exasperadamente, chegando até a abrir a minha boca para olhar a minha garganta.

— Pare já com isso, JinSoul! — Protestei e segurei seus pulsos para que sua vistoria cessasse. — E você, pestinha, — Yeojin riu. — Boca fechada não entra mosca, sabia? 

— Mas se você está doente nós temos que saber, Jungeun, — Jiwoo interveio, aproximando-se com um olhar preocupado e um pano de prato branco entre as mãos, que colocou sobre o ombro direito assim que as palmas estavam secas. — Deixe-me ver. 

JinSoul se afastou e a senhorita Kim pôs sua mão sobre minha testa, exatamente como Yerim fizera antes, e então em meu pescoço. 

— Você está quente. Está sentindo alguma coisa? 

— Fome, — respondi, dando-me conta do enorme vazio que doía em minha barriga. — E dor. 

— Dor onde? 

— No corpo inteiro.

— Eu vou pegar um comprimido, — disse a diretora, deixando a cozinha em segundos. 

Sentei na primeira cadeira que vi e puxei Yeojin para o meu colo, apoiando minha cabeça em seu ombro e olhando para JinSoul. 

— Eu vou pegar alguma coisa para você comer, — ela falou, entendendo exatamente o que o meu olhar significava. 

— Por que eu tenho que ficar aqui? — Yeojin cruzou os braços, o bico emburrado nos lábios. 

— Porque você é um ótimo travesseiro. 

Ignorei seus resmungos e a apertei ainda mais contra mim, afrouxando meus braços em sua cintura apenas quando JinSoul pôs na mesa a minha frente um prato com ovos mexidos e torradas, acompanhado de um copo de suco de laranja e uma tigela com frutas cortadas. 

Agradeci preguiçosamente e ela sorriu para mim como se visse o mesmo rosto bonito que viu em nosso primeiro encontro, e não aquela versão doente e cansada, com olheiras e sem energia, de mim que se estendia em sua cozinha. 

JinSoul alisou meu cabelo e sentou-se do outro lado da pequena mesa, destinada a me observar a comer. 

— Vamos ter um verdadeiro banquete hoje, — ela começou. — A sala de jantar está ficando bastante bonita. Becky tem jeito para decoração. 

— A gente vai ganhar presentes? — Perguntou Yeojin.

— Ação de Graças não é Natal, pirralha, — respondi enquanto ainda mastigava o morango. Vendo a fruta, a pequena também pegou um da tigela azul. — Ação de Graças é, tipo, para agradecer.

— Agradecer o que?

— Isso eu também não sei, — eu não estava falando sério, sério mesmo, mas JinSoul jogou uma bola de papel em mim do mesmo jeito, explicando a Yeojin a importância do feriado logo depois. 

Não demorou muito mais para a senhorita Kim retornar, trazendo Son Hyejoo consigo. 

Jiwoo me entregou um comprimido redondo e me deu um copo de água, assistindo-me engoli-lo imediatamente, e vi Hyejoo começar uma conversa em libras com JinSoul ao tempo e que olhava curiosamente para o que acontecia na cozinha. 

Uma vez não mais mexendo as mãos, a morena se virou em minha direção e pareceu receosa ao se aproximar, mexendo uma mão na outra ao passo que, achando que eu não veria, minha namorada se afastou. 

— Jungeun, — chamou Hyejoo. — Você não acha que não deveria ficar assim tão perto de Yeojin para o caso de… — minhas sobrancelhas arqueadas a fizeram corar. — De passar a gripe para ela. Você sabe, não deixá-la doente também.

Sinceramente, não importava o quanto as intenções da Son eram boas porque suas ações fizeram meu sangue subir e ferver, e eu estava prestes a pular em seu pescoço e jogar sua cabeça para longe bem ali  — e o teria feito, se não fosse pela serenidade de Kim Jiwoo e sua, aparentemente infindável, paciência.

— Bem, isso é verdade, — ela disse. — Não seria bom ter não uma, mas duas, pessoas doentes em nosso feriado. Principalmente uma criança, que tem um sistema imunológico mais frágil que o nosso. Tenho certeza que Kimberly também pensa assim, certo?

Contrariada em meu máximo e ignorando o olhar de expectativa da minha diretora, eu soltei a criança em meu colo e ela pulou para fora, animada novamente com o filme que a esperava na sala. 

— Quando você melhorar, eu vou te dar um abração, unnie, — prometeu, deixando um beijinho no meu ombro antes de agarrar a mão de Hyejoo, que carregava um olhar culpado intenso, e deixar o cômodo. 

— Ótimo, — murmurei, levantando-me e saindo da cozinha também. 

— Kim, — a voz de Soyeon soou. Ela estava na sala, a única de pé enquanto as demais estavam sentadas no sofá aguardando o filme começar. — Quer assistir conosco? 

Varri meu olhar por entre as meninas esperando encontrar algum sinal de que eu não era bem vinda ali, mas nem mesmo em Olivia eu o encontrei. Choerry, entretanto, abriu os braços e talvez tenha sido toda essa situação de estar doente, mas este fora o incentivo de que precisei para deitar-me ao lado dela e usar seu braço como travesseiro.

A abertura da Disney logo se iniciou.

— Que Frozen é esse?

— Yeojin e Chaewon não chegaram em um consenso, então Soyeon decidiu que todas veríamos Moana, — ela respondeu em um tom igualmente baixo. 

Eu não tinha assistido Moana ainda, e não é que eu não tivesse interesse, mas meu cérebro parou de processar as cenas e falas dos personagens vinte minutos depois do filme ter começado, e, não muito além, o corpo de Jung JinSol se espremeu ao meu lado. 

Não lhe dei atenção, focada em continuar apertando o braço de Yerim, até que ela tentou me puxar para seu aperto.

— Eu sou infecciosa, esqueceu? — Provoquei e puxei minha perna de entre suas coxas. 

— Eu não ligo, — ela disse, desistindo de me fazer agarrá-la e praticamente deitando em cima de mim, o rosto formoso escondendo-se na curva de meu pescoço. 

Revirei os olhos porque, céus, essa gripe estava me deixando insuportável. 

— Chegue para lá, — pedi, e assim ela o fez, afastando-se como podia de mim enquanto eu deixava Yerim, que estava mesmo concentrada na canção que a televisão emitia, para abraçar minha namorada. 

JinSoul deixou um caminho de beijos da minha boca até a minha bochecha e murmurou coisa ou outra que não consegui entender. Meus olhos sequer estavam abertos. 

— Se você começar a falar que nem um bebê comigo de novo, eu vou subir e te deixar aqui, — ameacei. Porém, como se fosse imune a qualquer coisa que eu dissesse, JinSoul riu e se aconchegou contra mim, eu fazendo o mesmo tendo a certeza de que dormiria pelo até a hora da janta ao seu lado. 

 

+++

 

Se alguém pensou que passar uma semana na casa de JinSoul me ajudaria a me recuperar, achou bastante errado. Tudo o que aconteceu com a minha saúde desde o feriado foi um decaimento desmedido que veio com rapidez. Primeiro os espirros, depois a tosse e então o enjôo, como complemento da febre e da perda de apetite inicial. Ótimo jeito de passar a semana de férias. 

Mas então as aulas retornaram — apenas para finalizarmos o segundo período — e eu optei por voltar para o orfanato, uma vez que a visualização da minha estadia na casa da família Ha não era nada boa com a presença da prefeita, e estar doente e desconfortável ao mesmo tempo era pedir demais de mim e do meu humor. 

Para a destruição do meu histórico escolar, eu vinha faltando há quase treze dias agora — faltas que não estariam justificadas se a própria diretora Kim não estivesse a par da minha condição física — e a minha melhora não poderia estar mais devagar. Yerim trazia meu dever de casa e permanecia ao meu lado por apoio moral, mas era apenas insuportável ter que pensar enquanto meu cérebro parecia estar derretendo dentro da minha cabeça. 

JinSoul, depois de ficar extremamente brava comigo por ter optado por voltar para casa, visitava dia sim, dia não, sempre trazendo uma cesta de comidas gostosas consigo para dividir entre as outras órfãs — ela não me deixava tocar em nada que não fosse saudável e nutritivo. Mas não que isso fosse o pior: ela não me deixava tocá-la, de forma nenhuma, e a carência estava me forçando a recorrer a Yeojin e seus abraços apertados, que me espremiam em minha própria cama durante a noite.

Uma.

Contudo, faziam três dias que eu não via seu cabelo brilhante graças a sua mãe, que descobriu sobre suas aparições secretas quando, supostamente, a filha estava proibida de sequer chegar perto desse lado da cidade. Ótimo.

Duas. 

A prefeita Ha, entretanto, por pura pressão da filha, veio em pessoa falar com Grimes para questioná-la sobre os remédios comprados para mim, já que a renda destinada ao orfanato era, em teoria, suficiente para os medicamentos indicados, e exigiu uma vistoria. Grimes, depois de garanti à política que compraria o que estava na receita dada pelo médico, colocou-me de castigo assim que a mulher deixou o terreno, passando a não gostar nada da minha aproximação com a princesa da cidade — ela gostava antes porque, assim, tinha meninas a menos para tomar conta, visto que estávamos sempre levando Yeojin conosco em nossas saídas.

O que fazia, não uma nem duas, mas três pessoas quererem me ver em uma forca, ainda que por motivos diferentes. 

A única boa notícia era que eu não estava mais tossindo, o que era um alívio porque minha garganta doía a cada mínima abertura que eu fazia com a boca e, como Yerim teria que ir à casa de Hyejoo esta tarde para terminar um trabalho de História que ficaram de fazer juntas — era a única aula que elas tinham sozinhas —, as pastilhas de dor só me seriam trazidas lá para as seis da noite. 

Ainda eram dez da manhã. 

Levantei-me da cama após passar cinco minutos juntando forças para tal, apenas para ir à cozinha encher a garrafa de água que eu tinha esvaziado — todos os cômodos estavam vazios porque era um dia letivo e todas somos obrigadas a ir à escola, é claro —, e Grimes chamou meu nome quando viu minha sombra passar pelo corredor. 

— O que? — Perguntei, encostando meu corpo na parede da sala. 

Ela estava sentada no sofá penteando o cabelo, usado a câmera frontal de seu smartphone como espelho para prender o cabelo corretamente.

Ergueu a cabeça para me olhar, o prendedor preto preso na roupa. — Vou sair. Tenho um almoço com uma prima que está visitando a cidade, — ela disse, esticando a roupa ao terminar a ação, já de pé. 

— Beleza, — respondi, pronto para volta à minha cama, mas seu grito me fez girar os calcanhares. 

— Uma amiga sua veio aqui mais cedo, quando você estava dormindo. Disse que voltaria para almoçarem juntas. 

— Que amiga? — Estranhei, mas poderia ser Chaewon e sua mania de querer ter tudo sob seu controle. 

Grimes me olhou como se estivesse me perguntando se eu achava que ela sabia, ou que ela se importasse, com alguma das minhas amigas, e passou mais uma vez a mão na roupa antes de apanhar sua bolsa em cima da mesa e me empurrar para seguir seu caminho até a porta. Sua figura se foi com o som da madeira contra a parede, e eu rumei novamente para meu quarto, bebendo já um terço do conteúdo da garrafa e voltando a deitar na cama como se alguém tivesse me jogado e me deixado para apodrecer. 

Não liguei quando o barulho da porta batendo mais uma vez porque tinha certeza de que era Grimes voltando para pegar algo que havia esquecido; porém, não foi seu corpo que apareceu na minha frente, apoiando o corpo coberto pela calça jeans escura e a jaqueta preta na parede. 

— Haseul?!

— Ah, príncipe, — disse em gozação. — Não fale como se estivesse vendo um fantasma. Está assim tão surpresa por me ver? 

Revirei os olhos. — O que está fazendo aqui? 

— Você sumiu, então eu vim visitar. Não pode?

De fato, a última vez em que vi Haseul fora quando fui em seu apartamento entregar as bonecas, e isso já tinha algum tempo. Mas ela nunca teve o costume de vir até o orfanato, a não ser quando éramos menores. 

— Estou doente, Seul. Não posso fazer nada, — adiantei-lhe, uma vez que pensava que era para isso que ela vinha: para entregar-me uma nova tarefa.

Todavia, a morena logo balançou a cabeça em negação, um sorriso nos lábios. — Não foi por isso que vim. 

Franzi o cenho para sua fala, mas comecei a raciocinar sobre o provável motivo de sua visita à medida em que ela se aproximava com uma expressão sapeca. Tirou a jaqueta e a deixou sobre a cama de Yeojin. 

Suspirei. — Estou com alguém agora, Haseul. Se você veio aqui atrás de- 

— Não me lembre do seu conto de fadas com a princesa de Loonaville, — ela soou mal humorada ao me interromper, seu rosto acompanhando a intensidade de sua fala. — Não vim até você à procura de sexo, Jungeun. Pela santa paciência!

— Droga, Haseul, você está me deixando paranóica. Diga logo o que veio fazer aqui!

Em resposta, ela sentou-se ao lado dos meus pés na cama e tirou a mão que escondia detrás das costas, balançando a pequena sacola branca de plástico que segurava, ainda rindo da minha ansiedade.

— Ouvi dizer que você estava para morrer e que precisava de cuidados.

Respirei fundo em alívio ao tempo em que a assisti gozar com a minha cara. Haseul sempre gostou de me deixar maluca com essas ações súbitas, e a falta de contato consigo talvez tenha me feito uma vítima mais sensível. 

— Não é necessário. Grimes já comprou tudo que estava na receita médica. 

— É, eu sei. Eu a vi comprando na mão de Tyler uns dois dias atrás. Como acha que eu descobri? 

Grimes ter ido comprar remédios na mão de traficantes apenas para pagar menos por eles não deveria me surpreender, mas surpreendeu, e, agora que sabia disso, a demora da minha recuperação fazia bastante sentido, uma vez que grande parte dos produtos revendidos pelas gangues locais estavam longe de serem puros. 

— Maravilha, — resmunguei. 

— Toma, — ela me jogou o saco plástico e eu consegui identificar a logo da farmácia local colorindo sua frente. Três ou quatro caixas de remédios diferentes estavam em seu interior. — Também comprei vitamina C porque, você sabe, o gosto é bom, e eu tentei achar aquela coisa que-

— Haseul, — interrompi-a. Seu olhos focaram em mim. — Obrigada. 

— É, é. Eu sei. O que você faria sem mim, certo? — Brincou e se aproximou, tirando os novos remédios do saco e os colocando em minha cabeceira. — Você tem que tomar algum agora?

— Não. ‘Tô tranquila. 

— Onde estão os que a projeto de indecência comprou? 

Estiquei-me para abrir a gaveta do objeto ao lado da minha cama e tirar as cartelas de lá, bem como o frasco com xarope, e entregá-los a Haseul. Ela se levantou para jogá-los fora e voltou balançando seu celular em minha direção, um sorriso malicioso nos lábios. 

— Eu pedi pizza. 

Minha mente agradeceu a existência de Jo Haseul e eu gemi de satisfação apenas pela lembrança do queijo derretido entrando na minha boca. Refeições saudáveis poderiam estar me ajudando a recuperar a minha saúde, mas estavam destruindo a minha alma, e se Haseul não tivesse essa sensibilidade, eu provavelmente não comeria nada o dia inteiro. 

— Céus! Como você faz isso?

— O que, sempre saber o que você quer? — Brincou. — É prática!

Revirei os olhos para sua arrogância e sentei-me na cama, atendendo seu pedido silencioso que fazia ao balançar as mãos, encolhendo-me contra a parede para que ela preenchesse o espaço deixado. 

— Vamos assistir alguma coisa. Não terminamos Euphoria, ‘né?

Sua fala me levou a lembranças um pouco distantes, que me chamaram atenção para o poderia estar acontecendo naquele momento, e mordi o lábio inferior sem perceber. 

— Haseul, — chamei, mas ela murmurou algo para que eu continuasse enquanto ela abria o aplicativo. — Eu sei que não verbalizei isso antes e que deveria tê-lo feito, mas… Eu não me sinto mais do mesmo jeito sobre você. 

Seus olhos me alcançaram e, como sempre, pude ver a tristeza que ela tentava esconder, porque eu sempre fui boa demais em ler as emoções de Haseul. 

— Eu sei, príncipe. Eu sei disso há um tempo agora. Você sabe, você não é a pessoa mais sutil do mundo e… Muito menos para mim. Eu ‘tô de boa. 

Compartilhamos um sorriso sentimental e, se ela estava bem com a nossa relação e com o que eu lhe podia fornecer, então eu também estaria. Ao contrário do que Choerry pensava, Haseul não era nada de ruim. Ela nunca o fora. 

Alcancei sua mão para que sua atenção voltasse para mim. — Obrigada. 

— Kim Jungeun ficando soft, — ela levantou as sobrancelhas em provocação, mas logo seu olhar se endureceu da forma mais doce possível e sua mão apertou a minha. — Eu senti falta dessa versão de você.

Não soube o que responder ou sequer como reagir, mas uma coisa não podia ser contestada: Haseul não tinha nada a ver com o que eu me tornei, e se até ela havia notado alguma diferença, então a) eu tinha mudado mais do que me permiti ver, e b) essa mudança estava sendo desfeita com sucesso.

 


Notas Finais


aiai, esses feriados tão sendo um baita divisor de águas, ne? façam suas teorias!


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