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História Maldições Passadas - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Expresso Hogwarts


Maldições Passadas

Capitulo 2: Expresso Hogwarts

Ir para casa de Margot acabou sendo bem diferente do que Jackie imaginou.

Ao entrar logo reparou que não havia nenhuma garrafa — vazia ou cheia — na cozinha, o que podia ser considerado um avanço. E, apesar de ter reclamado uma ou duas vezes da insistência de Jackie em escrever para Jader, Margot emprestou de bom grado seu corvo para que a filha pudesse fazer isso.

— Vou perguntar se posso ter um bicho de estimação. — Jackie disse buscando no olhar da mãe qualquer indicio de que aquilo ainda era uma possibilidade. Como não encontrou sinais de reprovação continuou: — Se ele deixar podemos ir comprar, certo?

Ouviu um resmungo que interpretou como positivo.

Margot seguiu para cozinha, dando a filha privacidade para que pudesse escrever ao pai. Enquanto o fazia podia ouvir o barulho de panelas sendo reviradas, bem como armários e a geladeira. Ao final da carta Margot já havia desistido de cozinhar, saiu de casa sem dizer uma palavra e retornou alguns minutos mais tarde trazendo consigo comida de um restaurante local. Depositou o almoço e os pratos na mesa, bastou um olhar para que Jackie soubesse que era hora de se sentar junto a ela. Comeram em silêncio. Se não fosse o barulho ocasional dos talheres poderiam pensar que a casa se encontrava vazia. Jackie se ajeitou em sua cadeira pelo menos meia dúzia de vezes entres as garfadas. Mudez não era algo que lhe vinha naturalmente, a ausência de palavras secava sua boca e comichavam suas mãos. Além disso, as vezes haviam mais coisas no silêncio do que gostaria de ouvir.

De tempos em tempos olhava em direção dos olhos de sua mãe, mas seus olhares nunca chegaram a se cruzar. Margot tinha a capacidade de atravessar objetos com seu olhar — ao menos assim pensava Jackie —, como se estivesse em um lugar distante e completamente diferente dali. Jackie invejava tal habilidade.

— Estou no turno da noite agora. — Disse Margot em certo ponto. Apanhou o guardanapo e limpou delicadamente os lábios. Jackie imitou o gesto, porém deixou o talher cair durante o processo. — A Sra. Baker irá vir aqui para checar se está tudo bem, atenda a porta e seja educada.

Praguejou baixinho enquanto apanhava o garfo de baixo da mesa.

A Sra. Baker era uma vizinha, morava logo no apartamento de frente com seu marido e três filhos. Toda vez que Jackie ia até a casa da mãe era inventada uma desculpa para que ela pudesse ver Baker e seus filhos, as vezes eram convidados para tomar chá, em outras tinha que levar uma xícara de açúcar até lá. Seja qual fosse o caso, nunca se sentia completamente à vontade perto daquela família. Os Baker eram diferentes de todas as outras pessoas que conhecia. Trouxas, completamente incapazes de controlar magia, eles nem faziam ideia de que havia uma bruxa morando na porta ao lado ou sequer sobre a existência da magia em si.

Margot sempre tentou fazer com que a filha se interessasse mais pelo modo de vida dos trouxas. Como Obliviadora era sua função garantir que pessoas como a sra. Baker permanecessem ignorantes em relação a magia, mas como pessoa não parecia acreditar que o isolamento dos dois mundos fosse a solução. Dentre as diversas discussões entre os pais que Jackie presenciou as mais intensas sempre eram sobre essa questão. Jader não tinha o mesmo entusiasmo que a ex-mulher em inserir seus filhos no mundo trouxa.

“Estamos em guerra”, ele dizia temendo pela segurança da família.

“Se todos soubessem como conviver com trouxas não estaríamos”, rebatia ela.

Entre gritos e opiniões fortes, Jackie realmente não sabia o que pensar. Trouxas certamente não pareciam perigosos como seu pai insistia em dizer, mas estava longe de entender o fascínio que sua mãe tinha por eles. Mas não por falta de tentativas, isso ela podia garantir. Já tinha ido na casa da sra. Baker diversas vezes para conversar com as outras crianças, entretanto o assunto costumava acabar antes do começo. De um lado ela não podia falar sobre as últimas edições de “As aventuras de Martin Miggs, o trouxa pirado”, do outro os garotos não acreditavam nela quando dizia que nunca tinha visto aquele aparelho chamado “televisão”. Se a perguntassem Jackie diria que não se incomodava com a presença de trouxas, mas também não via motivos para que se aproximassem.

Chegou a abrir a boca para expressar aquele pensamento, mas controlou seu impulso de contestar o que a mãe dizia. Ao invés disso voltou os olhos para a comida e murmurou:

— Sim, mãe.

As semanas seguiram tranquilas dali em diante.

Jackie se ocupou por um tempo abrindo os pacotes que compraram no Beco Diagonal. Testou a nova balança e rabiscou algumas vezes o próprio nome na última folha no caderno tomando alguns minutos para olhar insatisfeita a própria caligrafia. Durante as manhãs tomava café com Margot na cozinha sentada de costas para a janela para evitar ver a correspondência chegando, mesmo que os pios estridentes das corujas ainda lhe causassem arrepios na nuca. O berrador que esperava do pai veio ainda nos primeiros dias, seu estoque de doces fora descoberto depois de atrair pufosos para o quarto e esse foi o motivo que Jader lhe deu para negar seus pedidos de levar um animal de estimação para Hogwarts.

Após o café Margot ia até a sala, sentava-se na poltrona e abria o jornal ou um livro qualquer. Duas ou três páginas ela olhava por cima das folhas e mandava que a filha apanhasse algo para ler também. Nos primeiros dias tentou “Porque os trouxas preferem não saber”, estava curiosa sobre o livro de seu bisavô e quase podia jurar que Margot estava feliz com sua escolha. Entretanto isso não durou muito. Aquele era um livro antigo com palavras estranhas — não sabia o que idoneidade significava, muito menos apedeuto ou outorgamento —, por mais que fixasse seu olhar nos parágrafos eles pareciam dançar em sua cabeça, dando piruetas e correndo em círculos. Com muita insistência conseguia chegar ao final de um capítulo, mas já não lembrava de nada do que havia lido no início.

Logo se rendeu para o livro de feitiços. Pulava a parte escrita e olhava os diagramas que demonstravam o movimento que a varinha deveria fazer em cada encantamento. Quando Margot saia para trabalhar, lá pelas seis e meia da tarde, Jackie ia para o quarto e apanhava sua varinha e tentava imitar o que via no livro, também sem muita sorte. Explodiu um travesseiro tentando fazer com que levitasse, quebrou um prato tentando limpa-lo, e apavorou os vizinhos com os barulhos altos que sua varinha fazia ao tentar lançar Cistem Aperio para abrir seu baú. O único feitiço com que teve um pouco de sorte foi o Lumos, após alguns dias praticando conseguiu produzir luz na ponta de sua varinha.

As noites eram quietas.

Em nenhuma outra visita a mãe aquela casa esteve tão silenciosa após o pôr-do-sol como agora. A sra. Baker ia até lá por volta das nove, perguntava se Jackie gostaria de jantar com ela e sua família e na maioria das vezes voltava para casa sozinha. Jackie se debruçava na janela com o telescópio de latão e rabiscava constelações em um pedaço de pergaminho sem se preocupar em nomea-las. Era a noite também que se pegava encarando a porta da frente. O antigo quarto de Jacob. Chegou a pôr a mão na maçaneta uma vez, mas não teve a coragem necessária para abrir.

Se lembrava de quando Jacob decidiu ir morar em Londres com Margot como se tudo tivesse acabado de acontecer. Tinha seus oito anos recém completos, sentada no balcão do Descanso do Trasgo soluçando ao ver a bagagem dele próxima a porta.

“Ora, vamos lá, Kelly!” — Afagou seus cabelos com um sorriso sereno desenhando o rosto. — “Não é como se eu estivesse sumindo do mundo. Você pode ir visitar eu e a mamãe sempre que quiser.”

Um ano e meio depois Jacob arrumou as malas novamente. Fugiu de casa e desapareceu deixando um rastro de rumores atrás dele. Jornais e revistas falaram sobre o assunto, por um tempo tudo o que as pessoas sabiam conversar era Jacob Egg e as especulações ao redor de seu desaparecimento. Claro que o interesse das pessoas eventualmente começou a declinar, outras notícias ganharam a capa do Profeta Diário: Lúcio Malfoy absolvido das acusações de ser um comensal da morte, Sirius Black condenado a prisão perpetua em Askaban..., Mas mesmos meses depois aquilo estava longe de ser notícia velha para Jackie.

Seu avô, Mordico, as visitou uma única vez. Chegou de surpresa durante o jantar e contou histórias sobre o a divisão de obliviadores no ministério. As picuinhas entre eles e os aurores pareciam constantes, e Mordico estava especialmente irritado com Alastor Moody que havia deixado uma grande bagunça entre os trouxas enquanto caçava um dos últimos comensais foragidos.

Ao fim do jantar Jackie pediu a ele que lhe ensinasse feitiços como havia planejado fazer no beco diagonal, mas Mordico estava cansado de todo aquele trabalho. Margot não deixou que ela o importunasse com isso e a lembrou de que as aulas já estavam muito próximas de começar. Poderia aprender tudo o que quisessem em Hogwarts, ou nos livros que haviam comprado. Ainda assim Mordico prometeu em segredo mostrar feitiços a neta quando ela voltasse para uma visita no natal.

Antes que pudesse perceber setembro havia chegado. Acordara as cinco da manhã tamanha era a ansiedade e tentou descer as escadas sozinha com o malão, acordando sua mãe que se viu obrigada a ajudar com isso. Foram até a estação em um daqueles veículos trouxas estranhos e Jackie espiou a mãe mexer em notas de papel que nunca tinha visto antes, mas supôs ser uma espécie de dinheiro. Uma vez lá atravessaram direto entre a plataforma nove e dez. Já tinha feito isso algumas vezes quando acompanhava Jacob, mas dava uma sensação diferente saber que era sua vez de viajar naquela locomotiva vermelha.

Jader já estava lá a espera das duas e se demorou no abraço de despedida enquanto Margot cuidava de colocar o malão no bagageiro. Todos estavam se despedindo de seus pais, algumas mães davam a seus filhos lanches para que comessem durante a viagem, outras ajudavam as crianças a ajeitarem a vestes uma última vez mesmo que sob protestos.

— Comporte-se! — Mandou o Jader pela sétima vez seguida. — Respeite seus professores, e não deixe de entregar os trabalhos que eles pedirem.

Murmurou em concordância, enfiando as mãos nos bolsos. Teve que jurar que iria escrever com frequência, e escapou por pouco do feitiço que Jader lançou para lhe pentear os cabelos. Margot não falou muito, apenas prometeu que enviaria por correio qualquer coisa que ela tivesse esquecido no quarto e que se veriam novamente no natal.

Após ter as bochechas apertadas pelo pai uma última vez e receber um breve aceno de cabeça da mãe Jackie finalmente subiu no trem que levaria para a escola. Os primeiros vagões todos ocupados por alunos mais velhos, mas iam esvaziando à medida que andava para o fundo. Vez ou outra encontrava crianças de sua idade pelo caminho e se surpreendeu ao notar que eles já começavam a se agrupar também. Pensou em fazer o mesmo e entrar em uma das cabines que já estavam ocupadas, mas não conhecia nenhuma daquelas pessoas e suas pernas continuaram a leva-la cada vez para mais fundo no trem.

— Peterson? — Parou quando ouviu alguém lhe chamar. — É esse seu nome, não é?

Quando olhou para trás encontrou a garota alta de óculos que reconheceu como sendo a mesma que encontrou na Floreios e Borrões enquanto comprava seu material escolar.

— Rowan, certo? — Forçou a memória até encontrar o nome.

— Ah, você lembra! — Rowan parecia contente ao constatar isso. — Sinceramente, já estava começando a me preocupar em não ver nenhum rosto conhecido por aqui.

Jackie espiou a cabine onde a garota havia acabado de sair e a encontrou vazia. Antes que pudesse perguntar se poderia entrar Rowan a convidou e no segundo seguinte estava acomodada no banco vermelho e estufado.

— Então, você acabou de ler? — Rowan perguntou se ajeitando na poltrona e colocando uma caixa transportadora em seu colo.

— O que? — Jackie piscou confusa.

— A filosofia do mundano! — Respondeu o óbvio. — Era esse o livro que você estava comprando, não era?

Jackie encolheu os ombros, mal chegara ao terceiro capitulo.

— Ainda estou na metade. — Mentiu, rodeando o polegar nas costas da mão.

— Ah. — Rowan retirou da caixa um jovem gato cinzento e o deixou livre para passear pela cabine — Eu também quase não dei conta de ler tudo. Tive que terminar o guia básico de transfiguração no caminho pra cá.

O apito do trem soou. As duas garotas grudaram no vidro da janela e acenaram para os pais enquanto sentiam as rodas começarem a se mover pelos trilhos abaixo de seus pés. A estação estava sendo deixada para trás, e isso fez com que Jackie retornasse sua atenção para Rowan.

— Você leu todos os livros? — Perguntou curiosa ao se dar conta do que a menina havia lhe dito.

— Estava ansiosa demais para esperar. — As bochechas de Rowan mudaram de tom, ajeitou os óculos e então continuou: — Eu teria lido tudo antes, mas minha mãe não queria que eu tentasse fazer magia antes de entrar para escola.

Sorriu em afinidade. Seus pais também tinham regras rígidas em relação ao uso da magia. Jackie já havia quebrado algumas dessas regras, mas nunca sem ter que enfrentar consequências.

— Uma vez eu tentei entrar escondida no trem. — Confidenciou, sabia bem como era está ansiosa para Hogwarts. — Fugi dos meus pais enquanto estavam se despedindo do meu irmão na estação. Meu pai ficou maluco atrás de mim! Tiveram que esperar meu irmão me achar escondida atrás de um malão para começarem a viagem.

Rowan riu sonoramente deixando que escapasse um ronco entre uma risada e outra, sendo acompanhada por Jackie que contava pela primeira vez aquela história. Naquela época ficou envergonhada, após receber uma bronca dos pais e ver como os amigos de Jacob achavam graça da situação. Era bom poder rir com alguém sobre aquilo, ao invés de ser o motivo da piada. Aos poucos até o banco parecia ficar mais confortável, a paisagem na janela tornava-se mais rural e o assunto corria junto aos trilhos do trem.

— Moro em uma fazenda de árvores. — Rowan contou encabulada após ouvir algumas das histórias que Jackie tinha sobre o Descanso do Trasgo, em Edimburgo. — Meus pais vedem a madeira para fabricação de varinhas e vassouras.

Rowan falou sobre um carvalho que foi plantado a gerações atrás e era a árvore mais alta de toda fazenda, podendo ser vista mesmo de muito, muito longe. Falou sobre o rio que cortava a propriedade e ajudava na irrigação, das várias criaturas — fadas e tronquilhos em sua maioria — que habitavam o lugar e como ela gostava de ler abaixo de uma romeira protegida pela sombra durante os dias quentes. Jackie ouviu fazendo comentários aqui e ali. Ela gostaria de morar em uma fazenda como aquela, explorar entre as árvores a noite e nadar no rio. Rowan era tão detalhista em suas descrições que quase podia sentir o vento passar por seu rosto quando ouviu sobre a experiencia da nova amiga em uma vassoura, olhando a paisagem do alto. Estava tão imersa no que ouvia que ao fechar os olhos por um instante pensou ter visto a fogueira na frente da casa de marcenaria, junto a um sorriso morno de uma mulher que muito se assemelhava a Rowan, enquanto lhe era narrado um piquenique em família no meio da noite.

Neste exato momento suas mãos formigaram, como pequenas agulhas lhe entranhassem a pele em sinal de censura e de longe pode ouvir a voz de seu irmão se repetir: Esqueça isso!

Enxugou a testa com as mangas e pode ver como estava suada mesmo com o clima brando da cabine.

— ... Papai não me deixou trazer ele, já está muito velho. — Ergueu a cabeça e a voz de Rowan, que parecia tão distante, voltou a se elevar até que voltasse a ouvir completamente o que a garota dizia. — Mas, ganhei Glenda quando estávamos no beco diagonal.

Jackie abriu as janelas, deixando que a brisa gélida dos campos levasse consigo a sensação de desconforto em seu peito conforme o antigo conselho do irmão mandava. Pulou para o assento ao lado de Rowan e acariciou os pelos macios do gato ao qual a menina se referia, sentindo-o ronronar em um sono tranquilo.

— Minha mãe teve um gato... — Lembrou Jackie casualmente. — Mas acho que ele não gostava muito de mim. Uma vez ele deixou um bicho morto na minha cama.

— Gatos são assim mesmo. — Rowan de forma branda. — Acho que eles pensam que são presentes. O Flufy uma vez colocou um rato morto no meu prato na hora do jantar.

Jackie torceu o nariz. Por mais que Glenda fosse fofa, não gostaria de receber presentes como esses. Além disso, Conhaque — o gato de sua mãe — era simplesmente cruel. Passava horas na janela esperando que algum pássaro desavisado passasse por ali, e vivia se esgueirando pelos cantos procurando uma oportunidade de lhe morder os dedos dos pés. Lembrava de ter corrido em direção de Jacob umas duas ou três vezes pedindo por colo quando cruzava seu caminho com Conhaque, e de ter acordado certa vez com arranhões na bochecha. Sua aversão ao bicho era apenas menor do que a de seu pai; esse estava certo de que o gato era o próprio diabo e era rotineiro vê-lo expulsando o animal de sua cozinha às vassouradas.

Estava prestes a contar isso a Rowan quando foram interrompidas pela abertura bruta da porta de entrada da Cabine. Do lado de fora havia um menino espichado e magricela, com dedos nodosos e compridos, olhos arregalados e os fios lisos de cabelos loiros manchados com o que parecia ser o resto de um sanduíche.

— O que...— Rowan começou a pergunta, mas não chegou a terminá-la.

Ao final do corredor eram ouvidos risos, e num ato desesperado o menino invadiu a cabine e fechou a porta atrás de si. Desfez ao passo que as risadas se tornavam cada vez mais auditivas, encolhendo ao chão até que perdesse toda a altura que tinha, abraçando os próprios joelhos enquanto as costas tratavam de manter a porta fechada.

Jackie trocou olhares com Rowan. A cena se desenvolveu tão rapidamente que não tiveram tempo de reação, e, após recuperado o choque, estendeu a mão para ajudá-lo a se sentar na poltrona.

Jackie nunca tinha visto alguém soluçar tanto. O garoto parecia inconsolável, murmurando palavras incompreensíveis e com lágrimas pingando pelo queixo. Levou algum tempo para que pudessem descobrir seu nome — tempo o bastante para que as risadas do corredor desaparecesem:

— B-b-benjamin. — Gaguejou acanhado. — Benjamin Copper.

Rowan tomou alguns segundos para que pudesse apresentar a si mesma e a Jackie, dizendo seus nomes em tom amigável, e isso de fato pareceu acalmar o menino. A respiração voltava ao normal e os soluços mais raros. Murmurou uma autorização para que lhe chamassem apenas de Ben, e finalmente soltou os joelhos para se sentar em uma posição mais confortável.

— E o que aconteceu com você? — Perguntou Jackie sem medir palavras, observando parte do sanduíche escorrer pelo cabelo de Ben.

Ele ginchou como um animalzinho sendo esmagado. Rowan deu a ele um lenço de pano para que pudesse se limpar, mas isso não pareceu melhorar seu humor.

— O que aconteceu?! — Repetiu em tom de indignação. — Um bruxo foi na minha casa, é isso que aconteceu! Botou na cabeça dos meus pais que tinha que estudar magia, mas eu sabia que não era uma boa idéia. Eu sabia!

Retirou furiosamente as migalhas da cabeça, mas ainda chorava ao ponto de deixarem os olhos vermelhos e a respiração descompassada.

— Você é nascido trouxa. — Rowan afirmou, não era necessário perguntar após ouvir as declarações do menino.

— Isso é uma coisa ruim não é? — Ben se encolheu ainda mais. — Todo mundo continua falando isso, "nascido trouxa", até outro dia eu nem sabia o que era um trouxa!

Novamente Jackie e Rowan trocaram olhares de insegurança, os mesmos que haviam trocado na primeira vez que se viram no beco diagonal, quase como se perguntassem silenciosamente o que a outra planejava fazer a seguir.

Nascidos trouxa eram cada vez mais raros de se ver nos últimos anos, mesmo bruxos vindos de longas linhagens trouxas tomavam o cuidado de esconder aquela informação por bom senso. E se de um lado a guerra havia finalmente acabado, de outro ainda haviam dúvidas sobre esse fim ser definitivo. Não fora a apenas duas semanas que Bartô Crunch Júnior gritou em frente a suprema corte dos bruxos que o Lorde das Trevas vivia? Mesmo crianças como elas ouviam essas coisas — todos ouviam —, era bem provável que Rowan, assim como Jackie, já tivera pesadelos com comensais da morte no meio da madrugada. Ficar perto de um nascido trouxa era ficar perto do perigo, ouviu isso dúzias de vezes saíndo pela boca das mais diferentes pessoas, mas ao dar uma nova olhada em Ben espantou esse pensamento.

— Não é ruim. — Jackie tomou a iniciativa de ser a primeira a falar. — É que minha família é toda bruxa, não conheço muitos trouxas... Vocês costumam andar com o almoço na cabeça?

A pergunta saiu sem querer, mas assim que terminou Jackie percebeu que talvez lhe faltasse tato. Rowan lhe olhou em tom de censura e Ben voltou a grunir sons inaudíveis.

— Não que eu ache feio! — Tentou concertar encolhendo os ombros arrependida.

— Aposto que vocês devem ter ótimos chapéus. — Rowan a socorreu.

— Não é um chapéu! — Ben exclamou. — Minha mãe fez sanduíches de atum pra viajem.

— Então como ele foram parar aí? — Perguntou Jackie novamente.

Ben hesitou.

— Eu estava em outra cabine. — Contou. — Tinha outros alunos comigo, alguns mais velhos. Estavam contando sobre a escola, e fizeram algumas perguntas sobre meus pais.

Os olhos dele encheram novamente de lágrimas.

"Eles começaram a me chamar de uma coisa... Eu não sei bem o que significa, acho que é ruim. Uma garota começou a fazer mágicas para me assustar, fez o sanduíche flutuar e cair na minha cabeça."

Um nó se formou na garganta de Jackie, foi Rowan quem teve a coragem de perguntar o que se passava por sua cabeça:

— Do que eles te chamaram.

— Sangue ruim.

Duas palavras. Apenas duas palavras, e ainda assim as duas piores palavras que poderia ouvir como resposta. Era exatamente isso o que temia, que pudesse haver alguém ali capaz de dizer aquelas duas palavras.

Levantou-se de sobressalto com os punhos cerrados.

— Em que cabine você estava? — Perguntou sentindo o sangue ferver.

— Porque...

— Qual o número da cabine? — Insistiu, interrompendo o menino.

— Vinte e dois.

Foi sua vez de abrir a porta da cabine violentamente e sair sem dar explicações. Não sabia o que iria fazer, mas continuou andando pelos corredores. Trinta e quatro, trinta e três... Conforme passava pelas cabines o nó em sua garganta crescia. Uma coisa era ter medo — quem não tinha? —, e outra bem diferente era dizer algo como aquilo.

Sangue ruim.

Como alguém tinha coragem de dizer aquilo depois de tudo o que aconteceu? Não estava certo! Um crime até!

— Jackie! — Virou para encarar Rowan, que vinha logo atrás de si. — Aonde você tá indo?

— Cabine vinte e dois. — Respondeu de cara amarrada, cerrando ainda mais os punhos.

— Fazer o que lá? — A pergunta a chamava de volta a razão. — Não ouviu o que Ben disse? Tem alunos mais velhos lá!

Afrouxou as mãos e olhou para as mesmas. O que estava planejando fazer? Se era verdade o que Ben disse aqueles alunos eram, além de mais velhos, projetos de comensais da morte. Os mesmos comensais que lhe dão calafrios só de ouvir os nomes. Não podia fazer nada contra eles, e mesmo assim havia descarado para fora da cabine sem pensar duas vezes.

— Não podemos só deixar pra lá! — Jackie falou, ainda que com as bochechas queimando ao perceber suas próprias atitudes.

Rowan se calou por um instante. Pensou, e pensou mais um pouco, até chegar em uma conclusão:

— Os monitores! Eu li em "Hogwarts: Uma história", eles ajudam os professores. Se contarmos o que aconteceu para um monitor ele vai resolver a situação. — Concluiu.

— E onde achamos um monitor? — Perguntou Jackie.

— Eles tem uma cabine exclusiva.— Rowan respondeu, mas sua resposta não ajudava muito.

Haviam pelo menos umas cinquenta cabines no trem, mais o bagageiro. Perguntou se havia alguma chance do livro especificar onde essa cabine ficava, mas esse não era o caso.

— Deve ficar próximo ao vagão do condutor. — Sugeriu Rowan, e continuaram a seguir em frente.

Vinte e quatro, vinte e três, vinte e dois! Jackie parou de andar e deu uma boa olhada para a porta daquela cabine, mas continuou convencida por Rowan de que era melhor seguir com o plano do que simplesmente invadir o local.

Pensaram ter chegado quando viram que no vagão da frente as portas eram diferentes, maiores e mais robustas. Jackie deu um passo largo naquela direção, mas seu pé parou no meio do caminho. Piscou confusa, colocou um pouco mais de força nas pernas e nada. A sola de seu sapato tinha encontrado um muro que seus olhos não podiam ver e o mesmo havia acontecido com Rowan que tinha as palmas das mãos tocando o ar sólido. Nenhuma das duas parecia surpresa, no entanto. Hora, não fazia tanto tempo assim que atravessaram tijolos para chegar até a estação, uma parede invisível estava longe de ser a coisa mais estranha que já tinha visto. Ao invés disso olhou ao redor. Em seu lado esquerdo estava um banheiro masculino, a direita o feminino, e acima de sua cabeça uma placa que indicava o motivo da parede invisível:

"RESTRITO: Professores, funcionários e monitores apenas"

— E agora? — Se virou para Rowan em busca de respostas quase que automaticamente e a observou ajeitar novamente o óculos que insistia em cair.

O silêncio da menina foi maior dessa vez. Jackie imaginou que "Hogwarts, uma história" não dizia nada sobre como ultrapassar barreiras mágicas e também não sabia dizer se algum de seus outros livros escolares ensinavam essas coisas.

— Um feitiço deve dar jeito nisso, mas eu não sei qual. — Rowan admitiu. — Talvez se esperarmos um pouco alguém possa aparecer...

Jackie havia saído tão depressa da cabine que só agora se dera conta que Ben estava sozinho agora.

— Ou podemos tentar alguma coisa. — Sugeriu puxando a varinha do bolso. — Não pode ser assim tão difícil, né?

Estava tentando convencer a si mesma mais do que tentava convencer Rowan. A garota chegou a abrir a boca para contestar, mas apenas deu um passo para trás, olhando com tom de curiosidade para o que aconteceria a seguir. Jackie buscou na memória os livros que remexeu durante as manhãs de verão, lembrou das imagens, mas não das palavras e um feitiço veio em sua mente.

— Alohomora? — Sua voz soou como pergunta.

Dá ponta de sua varinha saíram fagulhas brancas estalando como bombinhas, giraram no ar e ricochetearam na barreira, espalhando para todos os cantos e tremendo as maçaneta das portas sem fazer com que nenhuma delas realmente abrissem. As orelhas de Jackie queimaram sobre o olhar de Rowan, mas não teve muito tempo para sentir vergonha, o barulho das maçanetas havia chamado a atenção de quem estava do outro lado da barreira e uma senhora rechonchuda apareceu empurrando um grande carrinho de doces, olhou atravessado em direção das garotas e com um leve aceno com sua própria varinha fez com que as maçaneta voltassem ao normal.

— Todo ano a mesma coisa. — Resmungou baixinho de forma que Jackie só conseguiu ouvir parte do que dizia. — ...Mortos de fome todos eles! Tudo por um punhado de doces...

— Hm... — Rowan chamou atenção para si enquanto Jackie guardava a varinha novamente no bolso, concluindo que aquele era o melhor lugar para ela no momento. — Com licença, a senhora poderia nos deixar passar para o outro lado? Precisamos falar com os monitores.

A velha bruxa estreitou os olhos como quem quisesse enxergar melhor, levantando a sobrancelha e torcendo o nariz em formato de gancho.

— Deixar vocês passarem? Ha! Essa é nova. — Riu sem humor. — Eu não sei o que vocês duas aprontaram, lançando feitiços pelos corredores desse jeito, mas os monitores estão ocupados e não devem ser perturbados. Agora, vocês vão comprar alguma coisa ou não?

— Nós não aprontamos nada, mas precisamos mesmo falar com um monitor. — Rowan insistiu. — É importante.

— Se é tão importante assim falem comigo e eu mesma resolvo. — Rebateu.

E contaram o que Ben havia contado a elas. O rosto da velha bruxa perdeu completamente a cor quando repetiram as duas palavras que ouviram entre os soluços do menino. Sangue ruim. A mulher tinha mudado completamente de postura, os olhos se arregalaram e levou as mãos a boca em sinal de descrença. De certo não esperava que o caso fosse tão sério assim e quando acabou de ouvir estava sem palavras.

— Estão na cabine vinte e dois. — Jackie apontou esperando que a bruxa fosse correndo buscar os monitores, que vissem cinco deles as pressas para aquela direção. Talvez até seis!

Mas a mulher estava estática.

— Vocês voltem para sua cabine e fiquem lá, nós vamos lidar com essa situação da maneira apropriada. — Curta e firme, a bruxa não deu espaço para as perguntas de Jackie.

"Nós" quem? Os monitores? Professores? Outros funcionários do trem? Talvez tivessem que chamar os aurores para prender os alunos que disseram aquilo. A mulher não falou mais uma palavra, por mais que continuassem insistindo. Jackie chegou a dizer que a "maneira apropriada" de lidar com aquela situação séria jogar aqueles alunos pela janela, mas sua sugestão não foi bem recebida. A bruxa continuava a insistir que voltasse todo o caminho e deixassem que os adultos cuidassem do resto.

Essa frase em particular atingiu Jackie em um ponto sensível, um gosto amargo preencheu sua boca e o pulso acelerou. Um garoto havia aparecido em sua frente chorando assustado e tudo o que ela podia fazer era aquilo? Quanto mais tempo a velha bruxa passava tentando fazer com que voltasse para cabine ao invés de procurar por mais ajuda, mais ressentida ficava. Como se no fim a bruxa pensasse que ela estar ali era um problema maior do que as pessoas dentro da cabine vinte e dois.

— Menina teimosa! — Rangeu os dentes impaciente, a cor já havia voltado a seu rosto. — Já disse que tudo vai ser resolvido.

Mas Jackie não acreditava nela.

Rowan estava bem mais conformada, ainda que não completamente satisfeita. Queria falar diretamente com os monitores, mas quando a bruxa disse mais uma vez que não seria possível ela apenas assentiu e tirou do bolso algumas moedas.

— Vou querer um sanduíche. — Disse a senhora, e então se virou para Jackie. — Para o Ben, ele deve ter ficado sem nada pra almoçar.

Jackie resmungou, porém assentiu e também comprou um bolo de caldeirão para o menino comer, ao menos nisso podia ajudar.

No caminho de volta olhou por cima do ombro, apenas para confirmar que a bruxa havia voltado para a área restrita e batia em uma das portas.

— Aposto que ela foi falar diretamente com um professor. — Rowan falou enquanto andavam. — Você viu a cara dela quando contamos o que aconteceu, eles não vão deixar que por isso mesmo.

Dezenove, vinte, vinte um, vinte e dois... Dessa vez Jackie parou de andar. Deu uma boa olhada para porta e pelo vidro conseguiu ver de relance os alunos que haviam dito aquelas palavras para Benjamin. Os mais velhos usando uniformes verdes com detalhes prata cintilante, e uma garota mais ou menos de sua altura cujas vestes ainda eram completamente pretas e os olhos brilhavam em um tom de roxo. Estavam rindo, tão imersos na conversa que não chegaram a notar a presença de Jackie em frente a porta, na direção da área restrita a funcionário não havia nenhum sinal de que alguém estivesse vindo.

— O que você tá fazendo? — Perguntou Rowan em um sussurro, fazendo sinal para que voltasse a andar.

Ao invés disso Jackie meteu a mão nos bolsos e tirou de lá uma caixinha de chumbinhos fedorentos que havia comprado no Beco Diagonal. Se ajoelhou e olhou bem para os trilhos da porta, depositando uma carreira de chumbinhos pelas frestas, preenchendo cada buraquinho que encontrou.

"Deixe que os adultos cuidem disso." — Repitiu em pensamento com um sorriso travesso desenhando os lábios.

Se levantou e a caixinha estava vazia, alguns chumbinhos haviam escorregado para dentro, mas ninguém pareceu notar. O importante era que quem abrissem aquela porta iria feder a meia de Trasgo pelo resto do dia.

— Alohomora! — Pegou sua varinha e repetiu o feitiço.

O efeito foi o mesmo da primeira vez, as fagulhas brancas estouraram e maçanetas começaram a tremer por todo o corredor, incluindo a da cabine vinte e dois. Agarrou o braço de Rowan e começou a correr. Ela já estava acostumada a fazer isso, tinha anos de prática graças as pegadinhas que pregava nos clientes de seu pai, mas Rowan foi pega de surpresa e tropeçou duas ou três vezes antes de conseguir acompanhar seu ritmo. Por cima do ombro ainda conseguiu ver algumas portas se abrindo atrás dela enquanto corriam expondo rostos curiosos, o barulho dos chumbinhos explodindo e o os olhos púrpura agora não tão brilhantes. Correram ainda mais, e quando chegaram a porta da cabine em que estavam explodiram em risadas. O rosto de Jackie fervia e sua barriga chegou a doer de tanto rir. Rowan não estava muito melhor que isso, seu óculos estava pendurado por apenas uma orelha e entre uma risada e outra roncava sonoramente, mas quando a adrenalina passou sua face empalideceu.

— Pelas calças de Merlin! — Exclamou. — Não acredito que você fez isso! Será que nos viram? Vamos ficar encrencada antes de chegar na escola e...

— Ninguém viu a gente. — Jackie tentou tranquilizar.

— Mas e se viram? — Rowan teve arrepios. — Aquilo era chumbinho fedorentos não era? Tenho certeza que está na lista de brinquedos proibidos!

— Tenho certeza que não viram. — Garantiu, mesmo sem ter tanta certeza assim. — Ninguém estava vindo. Além disso, foram eles que começaram quando fizeram aquilo com Ben!

— É. — Rowan concluiu após um minuto de reflexão. — Eles mereceram.

Entraram na cabine. Ben ainda estava lá, mas agora com o rosto um pouco menos inchado após toda aquela choradeira, se distraindo com Glenda que brincava com o fecho de seu casaco. Quando ele notou que haviam chegado — e isso demorou um pouco — pulou no lugar como se tivesse levado um susto. Glenda correu do colo do menino para atrás da caixa transportadora olhando desconfiada com a cauda abanando a movimentação.

— Vocês voltaram! — Ele parecia surpreso. — Pensei que... Que estavam procurando outra cabine pra ficar.

Jackie praguejou consigo mesma, deveriam pelo menos ter explicado a situação a Ben antes de saírem correndo. Mas após se sentarem corrigiram esse erro e contaram tudo a ele, pulando apenas a parte que envolvia os chumbinhos fedorentos. Rowan garantiu a ele que aqueles alunos seriam punidos, Jackie estava satisfeita o bastante com sua contribuição para essa punição. Mas conforme falavam notaram que o garoto não melhorava seu humor com o que ouvia. Acenava a cabeça aqui e ali, suspirou profundamente duas ou três vezes e tentou atrair novamente a atenção do gato chacoalhando o fecho do casaco de um lado para o outro.

— Eu nem sabia que era tão ruim o que eles disseram. — Murmurou.

— Bem, agora você sabe. — Respondeu Jackie. — Se alguém falar algo parecido com você de novo vai poder reagir!

Ben deu uma risada curta e melancólica. Quando Glenda atacou o fecho de um lado ele puxou o casaco para o outro, e repetiu o movimento várias vezes.

— Você não entende. — Balançou a cabeça. — Eu nem sabia que estavam implicando comigo até jogarem o sanduíche na minha cabeça. Se pelo menos essa fosse a única coisa que não sei sobre bruxos... Mas eu nem tenho certeza se sou mesmo um, eles devem ter se enganado.

— Se enganado? — Rowan repitiu incrédula. — A escola recebe alunos nascido trouxas desde que foi fundada, séculos atrás! Não acho que seja possível eles se enganarem assim. Se você está aqui é porque é tão bruxo quanto qualquer outra pessoa nesse trem.

Ben gemeu.

"E se eu não quiser ser bruxo?" — Jackie pensou ter ouvido, mas aquilo não podia estar certo pois da boca de Ben saiam palavras completamente diferentes.

—... E aposto que vou ser o único a chegar sem saber nada. — Suspirou. — Vocês devem fazer magia o tempo todo.

— Quem me dera! — Jackie respondeu com uma careta, aquilo tinha sido só uma impressão. Talvez o vento soprando em seus ouvidos pela janela aberta. — Meu pai nunca me deixou fazer mágica em casa.

— Eu também nunca fiz. Sabemos tanto disso quanto você. — Tranquilizou Rowan.

— Mas vocês já sabiam que eram bruxas antes de receber aquela carta, não sabiam? — Ben insistiu. — Eu ouvi sobre tudo isso faz só uns dias e me mandaram comprar aquele monte de coisas estranhas que não sei nem como usar.

— Nós podemos falar o que sabemos, se isso te deixar mais confortável. — Rowan se ofereceu e logo elas perceberam que teriam muito trabalho pela frente.

Assim que Jackie deu a ele o Bolo de caldeirão que comprou Ben já perguntou o que aquilo era, alegando nunca antes ter visto um doce com aquele formato. O mesmo valia para os sapos de chocolate e lesmas de gelatina que carregava em um dos bolsos. Explicaram rapidamente sobre os doces, Jackie deu a ele as figurinhas dos sapos de chocolate que lhe vieram repetidas para que ele pudesse começar a colecionar e isso já abriu uma brecha para que lhe contassem histórias sobre bruxos e bruxas famosos.

Ben tremeu ao ouvir sobre as criaturas que Newt Scamander descobriu, chamou de louco Derwent Shimpling por comer uma tentácula venenosa inteira, e disse reconhecer Paracelso de uma de suas aulas na escola dos trouxas.

— Mas eu não sabia que ele era um alquimista. — Declarou após ler o verso da carta e sorrir para o inventor que acenava animadamente para ele na foto. — As fotos trouxas não costumam se mexer, sabia?

— Sério? — Perguntou Jackie curiosa. — Que esquisito!

Ganhou mais um olhar de censura de Rowan por isso.

Com um pouco de insistência Ben estava finalmente pronto para experimentar comida bruxa, embora ainda reclamasse que elas se mexiam de mais. Jackie guardou o último sapo de chocolate que conseguiu achar em seus bolsos para ele e espiou com uma pontinha de inveja a carta que ele havia tirado: Fulbert, o medroso.

— Ah, essa eu não tenho. — Se lamentou, mas recusou quando o garoto tentou dar a ela a carta.

A experiência dele com as lesmas gelatinosas não foi tão divertida. Benjamin se engasgou e cuspiu o doce fazendo com que agarrasse no vidro da janela.

— Estava andando na minha boca! — Exclamou revoltado, causando risadas nas garotas.

Depois falaram de sobre esportes. Rowan estava particularmente animada para explicar a Ben sobre quadribol e seu time favorito: As Harpias de Holyhead.

— Esqueça isso! — Jackie bufou, todo mundo só falava em quadribol e ela estava cansada disso. — O esporte que você realmente quer conhecer é Mergulho de Brejo. Os mergulhadores tem que mandar num brejo escuro e bem fundo, lá em baixo tem estátuas pesadas de sapo. Quem conseguir voltar com mais estátuas ganha. É o melhor esporte do...

— Besteira! — Rowan a cortou, se sentindo ultrajada. — Quadribol é o melhor esporte!

As garotas entraram em uma pequena discussão, mas Ben não parecia particularmente animado com nenhuma das duas modalidades e pensava que voar em vassouras e mergulhar em brejos cheios de criaturas eram igualmente louco e perigoso.

— Você diz isso porque ainda não montou em uma vassoura. — Rowan insistiu com o peito estufado. — Espere só para ver as coisas lá do alto, as pessoas pequenininhas passando lá embaixo e o vento te balançando. E quando assistir uma partida de quadribol de verdade, as manobras dos jogadores, aí você vai concordar comigo!

Ben estava verde e parecia prestes a vomitar.

— Você pode sempre mergulhar comigo ao invés disso. — Jackie disse dando tapinhas nas costas dele.

— Acho que vou ficar longe de esportes por enquanto. — Torceu o nariz.

Com um pouco de conversa já era como se conhecessem a anos. Ver as reações de Ben as coisas mais comuns do mundo bruxo era simplesmente divertido. Rowan e ela estavam fazendo seu melhor para explicar tudo a ele, mesmo que Rowan fosse bem melhor explicando as coisas do que ela.

Jackie só se deu conta de quanto tempo havia passado quando olhou pela janela onde o céu já começava a escurecer, e alguém bateu a porta.

— Com licença. — Era um garoto bem mais velho que eles, trajando o mesmo uniforme verde e prata que os garotos da cabine vinte e dois mais um crachá esmeralda polido com a letra "M" no centro. — Estaremos chegando na estação de Hogsmead em pouco tempo, e todos os estudantes devem estar uniformizados.

E saiu. Jackie soltou a respiração que nem havia notado que tinha prendido e observou os ombros de Rowan relaxarem também. Já estavam chegando a Hogsmead e durante toda viagem ninguém veio prestar contas por causa dos chumbinhos fedorentos.

Tanto Rowan quanto Jackie só precisaram jogar a capa por cima das vestes que já estavam usando, vieram preparadas para isso, mas tiveram que esperar do lado de fora da cabine enquanto Ben se trocava.

Jackie podia sentir as rodas diminuindo a velocidade gradativamente debaixo de seus pés, o apito soou soltando sua fumaça e o trem havia enfim parado.


Notas Finais


Enfim posto esse capítulo que demorou séculos para ficar pronto.
Sinceramente, dessa vez vou ficar realmente chateada se não receber nenhum comentário pq isso que acabaram de ler é o trabalho de semanas em feito em uma época que não estou muito bem para escrever nada.
Mas tirando esse pequeno desabafo, espero que tenham gostado! Com sorte eu consigo postar o próximo capítulo um pouco mais rápido.


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