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História Honra - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo único


Quando encontramos algo de grande valor, queremos mais que nada ter aquele objeto perto da gente. Lisanna, pelo contrário, nunca desejou se ver mais livre daquilo.

A mulher albina com uma filha nos braços nunca imaginou que teria um iPhone 12 em mãos em algum momento da vida. Aquele celular custaria oito, nove meses de seu salário de caixa de supermercado sem gastar um único centavo sequer. 

E onde foi encontrá-lo? Justamente em um supermercado enquanto estava fazendo suas despesas do mês! 

Desde criança, sempre aprendeu da mãe a nunca pegar nada do que era dos outros, sempre devolver no lugar o que encontrou perdido. Ao trabalhar no supermercado, percebeu essa realidade mais que nunca. Os clientes geralmente preferiam deixar no caixa mesmo uma porção de produtos que se arrependeu de comprar, gerando uma pilha de produtos a serem devolvidos no final do dia para as prateleiras. Aquilo era um verdadeiro caos! A mesma coisa poderia ser dita de um objeto perdido. As palavras da mãe ecoavam em sua mente como se fossem ditas ontem.

— Filha, não pegue nem mesmo um palito de dente que você achar na casa dos outros! 

E foram esses princípios que nortearam a sua vida até aquele momento, agora com 25 anos e uma filha nos braços de cinco anos para criar. 

Preocupada com o que fazer, Lisanna liga para Natsu, seu marido, para desabafar sobre o ocorrido.

— Alô, Natsu… 

— Oi, Lis, como está aí no supermercado?

— Você não vai acreditar: eu achei um iPhone 12… 

— Um iPhone 12?

— Sim! Tá novo ainda. Tem uma foto da dona e tudo mais. Mas tá bloqueado e não consigo ver um contato pra ligar pra avisar que ela perdeu o celular. O que eu posso fazer?

— Lis, se acalme. O que acha de esperar a dona ligar, e você devolve pra ela? É uma boa opção… 

— Só não sei quanto ela vai demorar… 

— Espera uma hora. Depois disso, você pode entregar nos achados e perdidos do celular, eu não confio muito em terceiros, você sabe… 

Lisanna passou o telefone para Elsa, os dois despediram-se, e Lisanna fez o que ele pediu: esperou pela dona enquanto andava pelo celular com a filhinha de cabelos rosados e olhos claros como o dela. De vez em quando, via a filha olhar para um salgadinho ou uma bolacha, desejando ter a guloseima. Aquilo apertava seu coração, pois só tinha dinheiro para o básico e não poderia gastar mais. 

Com certeza, se vendesse o celular, teria bastante dinheiro para ela, principalmente para pagar as contas do cartão. Mas dinheiro era uma coisa passageira e passava como tudo na vida. A sua resolução para devolver o celular era firme como rocha, mas de vez em quando sua mente oscilava para esse tipo de pensamento, mordida pelo bicho do “e se?”. 

“Se eu tivesse perdido o meu celular, eu gostaria muito que devolvessem”, era o pensamento mais forte que tinha em sua cabeça. Seu motorola g7 de segunda mão, que ganhou do marido como presente de aniversário, ainda funcionava e tinha uma porção de fotos com a filha. Não tinha necessidade de um bem que não era seu, não precisava daquele celular. 

Deus daria forças necessárias para ela batalhar e conquistar um lá na frente, da mesma forma que daria forças para comprar um salgadinho para a filha. 

Pensando e andando no mercado, viu que já se passou mais de uma hora e nada de a dona ligar. Pensando na segunda opção que Natsu lhe deu, começou andar até a segurança na entrada até que o bendito iPhone 12 tocou. O rosto de um homem de cabelos espetados pretos apareceu.

— Alô?

— Alô nada! O que você tá fazendo com o celular da minha mulher? — disse uma voz rude e agressiva.

— Calma, moço! Eu tô esperando que alguém ligasse para dar conta do sumiço do aparelho. Não consigo desbloquear, não deu pra ligar pra um contato pra avisar. Eu tô aqui com ele no mercado… — disse, com humildade. 

O homem do outro lado da linha acalmou-se um pouco mais.

— Tudo bem, me desculpe. Me diga: onde você está que ela vai até aí.

— Estou no mercado, acho que sua mulher esteve horas antes aqui… 

— Espera aí, ela já tá saindo de casa.0

— Okay, vou esperar no estacionamento do mercado… 

E Lisanna esperou mais meia hora para ela aparecer, além da uma hora que já tinha esperado no mercado. Natsu já mandou mensagem, preocupado com ela, mas ela tratou de acalmá-lo, dizendo que em uma hora no máximo estaria em casa para o jantar e que ele já podia preparar as coisas. A pequena Elsa estava cansada e deitou-se no colo da mãe. Lisanna acariciou seus cabelos rosados, sorrindo. Aquela menina era seu futuro, seu tesouro. 

Foi então que um carro da marca “Land Rover” apareceu. A dona saiu exasperada ao encontro dela, uma bela loira com roupas executivas acompanhada de um menino de cabelos espetados bem a cara do homem que telefonou para ela.

— Moça, você que é a Lisanna?

— Sou sim, tá aqui… — Lisanna devolveu o aparelho para ela, tirando um grande peso de suas costas. 

— Graças a Deus, existe gente honesta no mundo! — A mulher loira suspirou aliviada, como estivesse sem ar. — Eu comprei não faz nem um mês! Como isso foi acontecer? 

— A gente se distrai e dá nisso mesmo. — Lisanna sorriu timidamente. — Bem, agora vou indo. Meu marido tá me esperando em casa, dona… — Lisanna levantou-se do banco e partiu como sempre: com leveza na alma, humildade e a sensação de fazer a coisa certa. 

O pequeno rapaz de cabelos espetados correu até Elsa e tocou em seu ombro. Em suas mãos havia um grande pacote azul claro de salgadinhos “cheetos” de requeijão, de 280 gramas. Ele entregou para a menina, e Elsa arregalou os olhos.

— Pra mim? — perguntou ela. 

O rapazinho fez sim. 

— Que gesto bonito, Hans! — disse a mulher. — Meu nome é Lucy. Não vai querer uma carona até sua casa? 

— Não precisa. Não quero ser vista com carro de bacana na quebrada, vão pensar que eu tô mexendo com coisa errada… 

Lucy segurou suas mãos, insistindo.

— Eu posso deixar em um lugar mais perto pra você… 

Lisanna não queria nada dela, nem deles. Mas aceitou o convite como forma de gratidão. Desde sempre foi ensinada a ser uma pessoa honrada, uma pessoa com princípios. Era isso que norteava a sua vida e era isso que iria nortear sempre. Não dependia de heróis, nem políticos, dependia de si mesma, de sua luta e, principalmente, de sua família.  

Por mais que a vida não fosse muito boa com ela e injusta em uma porção de momentos, manteria a fé em Deus acima de qualquer coisa, manteria um coração honesto em toda e qualquer situação, pois não levamos nada desse mundo quando vamos embora, a única coisa que fica são nossos princípios, valores e a nossa honra.

Nada melhor do que dormir com um coração honrado e despertar com o mesmo coração honrado todos os dias. E a fé no Pai do Céu que tudo vai dar certo depois de ter dado tanto errado lá para trás. 

 

FIM



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