História Hopeless - Z.M. - Capítulo 20


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Notas do Autor


Oi oi

Boa leitura anjos :)

Capítulo 20 - Você


Fanfic / Fanfiction Hopeless - Z.M. - Capítulo 20 - Você


*Valerie* 

 

Quando estava encima daquele palco com a luz forte de um enorme holofote na minha cara há um mês atrás, eu ainda não tinha entendido porquê Bashkim ou Greta haviam se referido aos seus clientes como “lobos”. Mas naquele momento em que eu estava com a posse de todas as minhas faculdades mentais, diferente de antes, eu consegui ver com clareza. Havia algo no olhar daqueles homens que os deixam obscuros, que fazem até a mais corajosa das garotas se sentir perturbada à ponto de desviar os olhos. Eles te olham como se você fosse um pedaço de carne a ser conquistado, nada mais que isso. Eles te olham com cobiça, examinando e observando de longe cada mínimo detalhe seu, te dando uma nota, um valor, e dependendo dele, você vale ou não a pena. Se você vale a pena no julgamento deles, bem, parece que eles podem pular em você a qualquer momento. À princípio, eu me senti como se estivesse pelada, desprotegida e insegura para caramba. Eu só quis ir embora. 

 

— Apenas ignore-os. 

 

Mas então, bastou apenas ouvir as palavras roucas de Javadd saindo de sua boca, pertinho do meu ouvido, para que eu me lembrasse que não estava sozinha. Que ele estava ali, do meu lado. Senti a força do seu braço ao redor da minha cintura ficar ainda mais pesada, e ele me trouxe para tão perto dele que eu juro que podia sentir os seus batimentos cardíacos ou ouvir o som do movimento de seu pomo-de-Adão em sua garganta. Olhei para ele, tentando respirar direito, até porque ele tem um efeito e tanto sob mim, e vi ele encarar todos aqueles homens com um ar de superioridade de arrancar suspiros. É um ar de liderança natural que não se adquire por qualquer um da noite para o dia. Levam anos para construí-lo, e combina demais com alguém que o merece. Um líder nato. Os olhos pareciam mais escuros e sua mandíbula estava trincada. Ele claramente estava com raiva de algo, ou tentando se controlar ao máximo, e estava me usando como seu autocontrole, algo em quem se segurar caso perdesse a linha. E eu não preciso dizer o quão lindo ele ficou dessa forma. 

 

Não vou negar que estava adorando estar tão perto dele desse jeito. Por Deus, ele é quente, muito quente. Tão quente que funciona muito melhor do que qualquer casaco. Uma temperatura elevada em um frio tão intenso fez com que eu me sentisse tão confortável no meio de tudo aquilo, que por alguns segundos eu esqueci que estava quase sendo servida para os “lobos”. Quase

 

Descemos os degraus enquanto ainda éramos encarados por uma grande quantidade de pessoas, e tudo que eu pensava era que não queria cair e sair rolando por ali por conta da minha grande tendência a acidentes. Maldita visão defeituosa. Parece piorar quando estou sob algum tipo de pressão. Eu mal conseguia enxergar os meus pés. Estava tão concentrada em tentar enxerga-los, que meu corpo inteiro se tencionou quando eu ouvi uma voz que não estava preparada para ouvir de novo. 

 

— Javadd. — Ergui os meus olhos lentamente, rezando de forma silenciosa para que eu estivesse enganada. Mas eu não estava. Aquele homem de cabelos longos e grisalhos, tão alto quanto um armário, com um ar de superioridade e tranquilidade conflitantes em seu semblante perturbador. O chefe. — Acertei o seu nome, não é? 

 

— Parece que sim. — O moreno respondeu, irônico. 

 

— Não há a menor possibilidade de esquecimento da minha parte, jovem. Sou eternamente grato a você. Você faz parte dessa história, garoto. — Senti os dedos de Javadd ficarem rígidos em minha cintura desnuda. Se não estivesse preocupada pela sua reação, teria suspirado pela sensação deliciosa daquela mínima força em uma área descoberta. Meu coração começou a acelerar ainda mais quando ele olhou para mim, ainda com aquele maldito sorriso tranquilo no rosto, com os olhos quase fechados. — Ora, ora, ora, veja só se não é aquela gracinha! Você está magnífica, docinho! Valerie, não é? 

 

Eu não sabia se respondia àquilo. Javadd disse que eu não precisava, e eu realmente não queria, então me mantive quieta. Parece que era uma pergunta retórica porque ele não pareceu ligar se eu responderia ou não, e deu um passo em minha direção, com as mãos estendidas na altura do meu rosto. Antes que ele me tocasse, Javadd deu um passo para trás, me levando junto com ele, impossibilitando-o de fazer aquilo.

 

— Se não for pedir demais, gostaríamos de uma mesa. — A voz dele parecia ainda mais grave, e seu aperto ainda mais firme ao meu redor. Ele estava se controlando para caramba, eu podia saber só de observar uma veia grossa saltada em sua garganta. 

 

— É claro que sim. Sigam-me, por favor. Meu melhor cliente merece a melhor mesa desse lugar. 

 

Nós dois o seguimos, passando pelas milhares de outras mesas cheias de homens com suas devidas acompanhantes. Mas não houve um sequer que não estivesse olhando em nossa direção, para mim, o que me fez olhar para baixo e suspirar. Eu só queria que aquilo acabasse logo. 

 

— Ei. — Javadd sussurrou. Olhei para ele, aflita. — Erga a cabeça, você vai parecer mais confiante. — Eu assenti, engolindo em seco, nem um pouco segura, mas fazendo o que ele recomendou. — Val, está tudo bem, não se preocupe. Eles não vão te machucar se você estiver comigo. Confie em mim. 

 

Eu apenas suspirei e assenti. Ele me mostrou um sorriso leve antes de passar o dedão de forma discreta e quase imperceptível, em um sinal de consolo, em minhas costas. Se fosse qualquer outra pessoa, eu com certeza não daria tanta importância àquele pequeno sinal, mas quando se trata dele, qualquer mínimo detalhe se torna gigante e deixa as minhas pernas moles. Só por ser ele. 

 

O chefe nos indicou uma mesa mais afastada de todos, o que foi aliviador, devo dizer. Nós nos sentamos no pequeno sofá que mal servia duas pessoas, apesar de todos os móveis serem luxuosos e dourados, com uma decoração cara. Na verdade, tudo ali esbanjava riqueza, então soube que toda aquela proximidade era intencional. O homem não ficou muito tempo ali, pois logo foi chamado por uns dos seus capangas carrancudos. Ao olhar para o seu rosto, tive a breve impressão de que já havia visto ele antes, o que me fez olhar para baixo. Ele com certeza foi um dos que me levaram até o palco com tanta agressividade que eu mal conseguia acompanhar os seus passos. 

 

— Você reconhece alguém daqui? — Ele perguntou, tirando o ponto do bolso e o colocando em seu ouvido. 

 

Dei uma olhada pelo local, engolindo em seco ao reconhecer outros rostos que participaram dos piores momentos da minha vida. Vê-los foi como confirmar que o que aconteceu comigo não foi um pesadelo, mas eu sabia que precisava tentar ajudar Javadd o máximo que podia, por mais que não soubesse como e porquê. 

 

— Sim. Aquele ali é Bashkim. — Apontei discretamente para o homem enorme, sentado em uma mesa. — Ele me dá arrepios. 

 

— Por que? O que ele fez? 

 

— Ele me tocou... — Pigarreei. — ...de forma imprópria. E também disse coisas nojentas sobre o meu corpo enquanto todas as outras garotas assistiam. 

 

— Ele fez isso com todas elas também? — Ele parecia atento, absorvendo cada mínimo detalhe contado por mim. 

 

— Não. Foi só comigo. — O moreno desviou o olhar de mim pela primeira vez, com a mandíbula trincada, olhando para Bashkim e resmungando um palavrão. Olhei ao redor novamente. — Aquela ali é Greta. Ela maquia e prepara as garotas para irem arrumadas ao palco. Não me fez mal algum, apesar de também trabalhar para esse chiqueiro. 

 

— É horrível ver mulheres trabalhando com algo que é contra outras mulheres. — Ele disse, emburrado, pegando um bloco de notas em seu bolso, onde começou a anotar os nomes que eu lhe disse e as devidas funções que listei. — Reconhece as outras que estão ao redor dela? 

 

— Não todas, mas me lembro que uma delas estava com a seringa que é usada nas garotas antes que elas entrem no palco. — Ele assentiu e vi o momento em que levou a mão ao ponto, ouvindo com atenção.

 

— Styles está perguntando qual é a primeira lembrança que você tem daquele lugar e dessas pessoas. 

 

— Eu acordei em um quarto pequeno, com cerca de vinte garotas comigo. Eu fui a última delas a acordar, aparentemente devo ser mais sensível ao clorofórmio. 

 

— Clorofórmio? — Javadd ergueu os olhos do bloco de notas em que anotava tudo rapidamente. 

 

— Foi o que usaram em nós para que apagássemos quando fomos sequestradas. 

 

— E você se lembra de como foi sequestrada? 

 

— Sim. — Eu engoli em seco e olhei para as minhas mãos. — Eu estava em uma praça em Paris, sentada em um banco, descansando, quando um homem jovem, muito diferente dos outros daqui, se aproximou e disse que gostaria de tirar fotos de mim porque tinha me achado bonita, e que precisava para o seu curso. Antes que me ache burra por ter aceitado...

 

— Você não é burra, Valerie. O que fizeram com você é desumano e você não tem culpa alguma. — Javadd colocou a mão quente, grande e tatuada por cima da minha, o que deve ter me deixado vermelha. Ele olhava dentro dos meus olhos e não desviou o olhar do meu em momento algum. — Pode continuar? 

 

— Claro. Bem, eu não sou acostumada a ser paquerada, e quando ele começou a fazer isso comigo, eu não soube o que fazer e acabei aceitando tirar aquelas malditas fotos. — Meus olhos arderam, então escondi o meu rosto com as duas mãos. — Se eu apenas tivesse negado, se tivesse gritado por ajuda... 

 

— Você não tinha como saber. 

 

— Eu sei. — Eu respirei fundo, olhando para cima, para o teto de gesso ornamentado. — Ele usou um pano molhado com clorofórmio para me fazer desmaiar. Não lembro de nada depois disso, só de acordar no quarto pequeno. 

 

— Você por acaso lembra do nome dele? Do homem que te sequestrou? — Eu engoli em seco, mordi o meu lábio inferior e fechei os meus lábios. Por que estava me sentindo um pouco culpada por entregar ele? Querendo ou não, Argus ainda parecia mexer um pouco comigo. Ele foi o mais próximo de segurança que eu encontrei quando estava naquele lugar, e ele iria ter me ajudado, não é? Ele só não conseguiu chegar a tempo — eu tentei me convencer. Eu e a minha terrível capacidade de tentar achar o melhor nas pessoas. Antes que mudasse de ideia, eu assenti. — E então? 

 

— Argus. O nome dele é Argus. — Abri os meus olhos, encarando a parede e sendo atingida por aquela enxurrada de memórias. — Argus Pelacinos. 

 

Quando Javadd ficou em silêncio por muito tempo, olhei para o lado para descobrir o porquê. Ele encarava o papel em que havia escrito o nome de Argus, mas pareceu congelar no “P” de Pelacinos. 

 

— Javadd? Você está bem? O que aconteceu? 

 

— Qual é mesmo o sobrenome que você disse? — Ele perguntou, com a voz mais grave, lenta e baixa. Fiquei ainda mais confusa. 

 

— Pelacinos. 

 

Javadd largou o lápis que usava sobre a mesa e tocou os cabelos, parecendo estressado. Ele bufou, sem olhar para mim, ainda encarando o bloco de notas. 

 

Ele tem um filho, porra. 

 

— O que? De quem você está falando?!

 

— Valerie, por acaso você sabe quem é o homem com quem nós acabamos de falar? 

 

— Sim, ele é o dono de tudo isso aqui. O chefe, como eles o chamavam lá. 

 

— E você sabe qual é o nome dele? — Procurei por algum registro, mas não encontrei nada, então neguei. — O nome dele é Leander. Leander Pelacinos. 

 

Oh

 

Então quer dizer que Argus é filho do chefe de todo esse esquema de prostituição?!

 

Agora tudo faz sentido. O modo informal que eles se trataram quando Argus estava me levando até o leilão, o orgulho estampado no rosto de Leander, o tapinha que deu no ombro dele enquanto sorria, até mesmo a leve semelhança entre os dois. Eu arfei, surpresa, encarando a mesa, sem saber como reagir. Tem noção do quão perto do perigo eu cheguei?! Por Deus, ele me beijou! Por que?! 

 

— Está tudo bem? Você parece chocada demais. — Ele tocou o meu braço, fazendo com que eu olhasse para ele. Temi que meus olhos estivessem tão arregalados que assustaria Javadd, então tratei de me acalmar, tentando controlar minha respiração. 

 

— Não, eu estou bem. Só não esperava por essa. Eles parecem tão diferentes. — Pigarreei, sentindo que havia um outdoor em minha testa expondo algo como “Pareço surpresa? Ora, jura?! É que eu beijei o filho de um traficante sexual, que por coincidência, também me sequestrou, e talvez eu ainda sinta algo por ele! Louco, não é?!” 

 

Olhei para o lado e encontrei Leander, o pai de Argus, conversando com um homem de meia idade, baixinho e careca, e então, quando olhei para a garota que estava ao lado dele, reconheci Aisha, uma das garotas que conheci naquele quarto. Ela estava cabisbaixa, encarando o chão, quando recebeu uma apalpada do homem ao seu lado, recebendo um sorriso nojento tanto dele quanto de Leander. Eu me senti péssima por ela. Ela ergueu os olhos castanhos, olhando ao redor, como se tivesse alguém para pedir ajuda, até que seus olhos pousaram em mim. Ela parecia incerta se era eu mesmo, então eu acenei com a mão de forma discreta, lhe direcionando um sorriso triste. Ela fez o mesmo, erguendo a mão trêmula ao lado do quadril. 

 

Ela parecia estar prestes a falar algo sem o devido som para mim quando um alguém passou rapidamente perto da minha mesa, como um vulto, fazendo os meus cabelos se afastarem do meu rosto, deixando um pequeno papel sobre a mesa. Olhei para o lado, para Javadd, mas ele estava focado em seu bloco de notas, conversando baixinho com os garotos pelo ponto de escuta, com a mão no rosto. Mordi o meu lábio inferior e abri o papel. 

 

“Preciso falar com você sobre a sua liberdade. 

A.” 

 

Olhei ao redor, tentando procurar a pessoa que passou por ali, confusa. 

 

Mas acabei encontrando outra pessoa. 

 

Argus não estava tão longe de mim e me olhava intensamente. Seu cabelo castanho havia crescido um pouco, mas os olhos verdes continuavam os mesmos, naquele tom vivo e forte. Ele ergueu a mão de forma discreta, apontando para o papel em minhas mãos, e depois para um lugar reservado ao lado do banheiro masculino e feminino, não me dando chance de fazer qualquer coisa, já que saiu andando rapidamente até lá. 

 

Eu não iria. Eu juro que não iria mesmo, mas então eu lembrei do sonho que tive quando acordei ontem pela manhã. Meu pai parecia tão próximo, tão perto, tão alegre por me ver de volta. Eu ainda sentia a sensação quente e protetora de seus braços ao meu redor. O cheiro de seu perfume, o som da sua voz e os seus batimentos cardíacos. Tudo aquilo se acumulou, e em um impulso, eu me virei para Javadd. 

 

— Eu preciso fazer xixi. 

 

— Como? — Ele tirou o ponto do ouvido para que pudesse me ouvir melhor. Eu pigarrei, tentando fazer a minha voz soar mais calma. 

 

— Preciso ir ao banheiro. Agora. É logo ali. — Apontei para o banheiro feminino, muito próximo de nossa mesa. — Posso ir? 

 

— Claro. Você quer que eu espere na porta? 

 

— Não, não precisa, é bem pertinho. Você pode ficar me vigiando. — Eu sorri de leve, já me levantando enquanto ele assentia e também sorria, colocando o ponto de volta em seu ouvido. — Eu volto já. 

 

Andei até o banheiro, e só olhei para trás quando estava com a mão na maçaneta da porta do banheiro. No momento em que a abri, Javadd abaixou a cabeça para o bloco de notas, e então eu corri até a área reservada onde Argus estava. Ele abriu um sorriso leve quando me viu, passando seus olhos claros por todo o meu corpo e inclinando a cabeça.

 

— Por Deus, Valerie, você é tão linda...

 

Quando eu estava perto dele, ele abriu os braços para me abraçar, mas eu não tinha tempo para aquilo. 

 

— Por que você não me disse que é filho dele?! 

 

— O que?

 

— Eu sei que você é filho de Leander, Argus. — Ele desmanchou o seu sorriso. 

 

Por que você não me disse que é famosa? 

 

— O que?!

 

— Você deveria ter me dito que é famosa Valerie. — Ele se aproximou e sorriu de novo, tocando os meus cotovelos. — Você não sabe o quanto isso vai te ajudar. 

 

— Do que você está falando?! Eu não sou famosa, só...conhecida

 

— Tem fotos suas em todo lugar lá fora. Estão procurando pela estilista de Nova York desaparecida como loucos. 

 

— O que?!

 

— É como estão te chamando. — Ele deu de ombros. — Eu te chamei aqui por isso. Meu pai... — Ele pigarreou, desconfortável. — ...ele já sabe sobre você. Ele está planejando pegar você de volta para que possamos fazer o resgate, e então você poderá voltar para a América. 

 

— Espera...o que?! Resgate? Como assim? Por que ele faria isso? 

 

— Você está valendo milhões lá fora, Valerie, é claro que é por dinheiro, é isso que o move. — Revirou os olhos. — Mas dessa forma, você poderá ser liberta das mãos daquele cara. — Ele fez uma careta ao se referir a Javadd. — Sabemos que seus pais são ricos. Vamos pedir o dinheiro do resgate para eles, e se tudo andar conforme o combinado, sem a polícia envolvida, ninguém se machucará, e você poderá voltar para casa. Ambos os lados saem ganhando. Não é perfeito?!

 

O que?!

 

Tirar dinheiro da minha família?! Eu não podia concordar com aquilo! Leander Pelacinos merece pagar pelo futuro perdido de cada garota que arruinou! Além disso, meus pais não merecem passar por essa situação em que “talvez” não saiam machucados! Fazer um acordo com traficantes sexuais apenas para me ter de volta? Isso mancharia a carreira do meu pai para sempre. 

 

Argus continuava a tagarelar com um sorriso no rosto, começando a se aproximar demais, como se eu já tivesse concordado com tudo que ele havia dito, quando eu o empurrei pelos ombros. 

 

— Não. — Sussurrei. 

 

— Ah, qual é, Val, eu estava com saudades de você. Do seu cheiro, do gosto dos seus lábios, da sua voz. — Ele empurrou os meus cabelos para trás dos ombros e beijou o meu pescoço quando eu tentei o empurrar de novo, mas ele segurou os meus braços, se aproximando para me beijar. — Eu vou te tirar dele, Valerie. Confie em mim. 

 

Seus lábios tocaram os meus enquanto eu ainda tentava me afastar do toque dele, mas não durou mais que meros segundos, porque meu braço foi puxado de forma brusca para longe de Argus. 

 

Fique longe dela, porra.

 

Quando vi Javadd, entrei em desespero ao ver seus olhos cheios de raiva, mas eles não estavam direcionados para mim, e sim para Argus. O moreno me deixou atrás dele, se aproximando do de olhos verdes. 

 

— Por que, hum?! Porque ela é sua?!  — Ele riu com ironia, provocando-o e ficando cara a cara com Javadd. — Porque você a comprou na porra de um leilão ilegal?! Por isso ela é sua?!

 

— Não. Fique longe dela... — Ele ficou tão perto de Argus que jurei que os dois estavam se tocando. — ...porque ela te disse não. 

 

Argus ficou tão possesso que ergueu o punho para acertar Javadd, o fez com que eu soltasse um gritinho de susto, cobrindo a minha boca para não chamar a atenção de ninguém que fora, mas o moreno foi muito ágil. Malik segurou o braço dele com pouco esforço e em um simples giro conseguiu colocar Argus de barriga para baixo no chão, que com certeza não esperava que Javadd fosse tão bom assim. Por Deus, nem eu mesma esperava que ele soubesse se defender tão bem desse jeito. Eu entreabri a minha boca, surpresa, vendo que ele ainda deixava o de olhos verdes imobilizado, no chão, segurando o seu braço e ameaçando desloca-lo. 

 

— Quem é você?! — Ele rugiu, entredentes, com os olhos castanhos ávidos para cima dele. 

 

— Eu não vou falar, porra. 

 

— Quem é ele, Valerie?! — Javadd olhou para mim, bravo. Juro que pude ver todas as veias de seu pescoço saltadas, assim como seus músculos rígidos pelo esforço e talvez até faíscas saindo dos seus olhos. Eu travei. Não soube o que fazer. Isso acontece com muita frequência comigo quando estou sob pressão. — Valerie! 

 

— Argus. — O nome fugiu da minha boca e os meus olhos lacrimejaram. Desviei os meus olhos, não querendo olhar para o homem no chão. — Ele é o Argus.

 

Fiquei de costas, agradecendo pelas risadas e a música clássica alta não deixarem com que outras pessoas ouvissem o que estava acontecendo. Até porque qualquer um defenderia o filho de Leander, e Javadd não conseguiria se defender de todos. Não queria que ele saísse machucado. Não quando tudo que ele fez desde o maldito início de tudo isso foi me ajudar. 

 

— Se eu te ver perto dela de novo, eu juro que corto o seu braço fora, entendeu?! — Argus apenas gemeu de dor, talvez pela força que estava sendo exercida sobre ele. — Eu te fiz uma pergunta, cacete!

 

— Vá se foder!

 

Eu fechei os meus olhos, esperando pelo pior, já que Javadd havia se mostrado tão violento. Juro que esperava ouvir o som do braço dele quebrando como o galho de uma árvore, mas quando não ouvi nada, olhei para trás, confusa. 

 

— Imbecil do caralho. — Javadd resmungou, soltando o braço dele e se afastando. Ele segurou o meu pulso e me puxou para longe, caminhando rapidamente e sem olhar para trás. — Vamos embora daqui. 

 

Saímos daquele lugar o mais rápido que podíamos, sem nos despedirmos de ninguém. Foi muito difícil não cair, e não sei quantas vezes tropecei pelo caminho, principalmente na escada do lado de fora, que, a propósito, estava completamente coberta de neve. Meus saltos começaram a afundar nela automaticamente, tornando tudo ainda mais difícil. O vento gelado arrancou um suspiro e um arrepio de mim, e fiquei surpresa por ter nevado tanto em pouco tempo. Quando já estávamos quase chegando no carro, meu cabelo já estava cheio de flocos de neve, eu tremia de frio e meus dedinhos do pé estavam quase congelados naquela sandália. Eu só queria entrar naquele carro e ligar o aquecedor, mas, de repente, Javadd se virou para mim, ofegante, como se não conseguisse mais se controlar. 

 

— Por que você precisa ser tão teimosa?! — Ele gritou. 

 

— O que? Do que você está falando? 

 

— Eu mandei você não sair de perto de mim, caramba! 

 

— Eu sei, tudo bem?! Você não precisa gritar para que eu entenda! 

 

— Você não tem noção do quão perigoso tudo isso é! De como tudo poderia simplesmente ter saído do controle! 

 

— Eu sei disso! — Abracei o meu próprio corpo quando gaguejei porque meu queixo  bateu pelo frio. — Mas eu precisava conversar com Argus! Precisava saber o que ele tinha para me falar! 

 

— Ele é a porra do filho do cabeça de toda a barbaridade que você passou, Valerie! O pai dele vem fazendo merda sem sofrer as consequências há vinte anos! Isso é nojento!

 

— Eu descobri isso hoje, Malik, me dá um desconto! — Eu respirei fundo, só então percebendo o quão próximos nós estávamos. — Não entendo porque você está se importando tanto assim com a droga da minha segurança! Você mesmo disse que não há nada entre nós, então por que ficar tão preocupado comigo?! Droga, por que compra suco de abacaxi só para mim se é alérgico?! Por que manda fazer os meus vestidos?! Por que me leva para sair?! 

 

— Eu já disse! Você é a porcaria da única coisa que está mantendo a minha vida nos eixos ultimamente, porra! Se quiser mais que isso, eu infelizmente...

 

— Você quer mesmo saber?! Sim! Sim, eu quero mais que isso! Preciso mais do que isso! Mais que apenas essas palavras! — Exclamei, sentindo meus olhos ardendo. — Você sabe tudo sobre mim, Javadd, e eu não sei nada sobre você. Nada! E você não parece se importar com isso. Por que deveria, não é mesmo?! Quer saber?! Eu só queria poder ter a chance de retribuir tudo o que você está fazendo por mim, mas como espera que eu consiga fazer isso sem saber do que você gosta, o que você faz, o que ainda quer fazer, se toda vez que eu me aproximo, você parece entrar em pânico e se afasta?! O que quer que eu pense, hum?! 

 

— Você não precisa retribuir nada, Valerie, pelo amor de Deus. — Ele disse, baixinho, passando as mãos pelo cabelo. — Você já faz tudo que pode fazer para tornar os meus dias melhores. 

 

Eu ri de forma irônica, tirando a neve de meus cabelos e dando uma voltinha, tentando refrescar a minha mente, que estava virada em um caos. E então me virei para ele, sarcástica. 

 

— Isso não é nem um porcento do que eu poderia fazer por você se você deixasse. 

 

Javadd pareceu tocado por aquilo, ou, no mínimo, achou intrigante, pois ficou alguns segundos parado, refletindo, olhando fixamente em meus olhos, o que me deixou ainda mais aflita pelo silêncio. 

 

— Olha, quer saber? Esqueça. Eu estou congelando, só me deixe entrar na porcaria do carro. 

 

E então, quando eu menos esperava, Javadd segurou o meu braço e me puxou, fazendo com que trocássemos de lugar. Minhas costas bateram contra o carro e o meu corpo foi prensado ali pelo corpo quente, forte e rígido dele. Aquele frio de graus negativos se tornou uma leve brisa quando a boca dele encontrou a minha, ainda mais quando a sua língua passou a explorar a minha boca de forma deliciosa. Por Deus, isso é muito, muito, muito melhor do que um mero selinho. 

 

Meu Deus do céu. 

 

O corpo dele era quente o bastante para me aquecer, e no momento em que senti as suas mãos grandes e fortes em minha mandíbula, tocando as minhas bochechas e também o meu pescoço, me guiando, eu jurei que iria desmaiar. Minhas pernas estavam moles e eu não fazia ideia de como ainda estava em pé. Nunca havia sentido algo tão forte, intenso, quente, íntimo e delicioso. Eu me sentia viva como nunca me senti antes só por sentir o toque dele, seus lábios me beijando de forma autoritária, como se ele estivesse com raiva, e suas mãos possessivas. Acho que acabei gemendo de prazer, sem conseguir pensar em mais nada, o que fez com que Javadd se aproximasse ainda mais de mim e grunhisse contra a minha boca. Como ele pode beijar tão bem sendo que não fazia isso há anos?! Eu toquei os seus braços e seus ombros, matando todos os desejos que tinha de sentir aqueles músculos rígidos contra as minhas mãos. Ficamos ali por alguns minutos, e eu não queria que aquilo acabasse. Quando nos afastávamos por meros segundos para recuperar o fôlego, olhava dentro dos olhos dele e via que ele estava tão desesperado, ávido e desejoso quanto eu. Conseguia ver isso em seu semblante, e não conseguíamos ficar muito tempo separados. Logo, nossas bocas estavam juntas novamente, e eu já não lembrava de mais nada que tinha acontecido antes daquela boca perfeita, quente e extremamente habilidosa ter tocado a minha. Eu subi as minhas mãos até os seus cabelos, e então passei à sua barba áspera, e foi aí que ele recuou um pouco, mas não abriu os olhos ou se afastou de mim. Ele tocou os meus ombros de forma delicada, passando pelos meus braços até chegarem às minhas mãos, quando ele as tirou de seu rosto. Foi então que eu percebi que seus cabelos e seu rosto pareciam ser um ponto sensível demais para ele, já que ele parecia recobrar a consciência toda vez que eu o toco em tais regiões. 

 

— Eu não consigo te entender. — Sussurrei, fazendo com que ele abrisse os olhos castanhos, agora muito mais calmos. A ponta de seu nariz não tocava o meu por muito pouco. — O que você quer, Javadd? Por favor, me diga. Eu não posso mais ficar nessa dúvida, e...

 

— Você. — Ele me cortou, sem hesitar e olhou dentro dos meus olhos, o que me deixou sem fôlego. — Eu quero você, Valerie. 

 

Caramba.

 

Eu juro que o meu coração parou de bater quando ouvi aquilo, e então começou a bater de forma acelerada de novo.



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