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História Hora de Recomeçar - Capítulo 16


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Notas do Autor


Olá galera! Todo mundo ansioso para ver no que vai dar né! Pois é... heheheheh Só prometo que o Shaka será extremamente abalado nesse cap e muita coisa dentro dele vai mudar depois desse cap... Vamos logo, chega de ansiedade! Bj gigante pra vcs!

Capítulo 16 - Contratranferência


Contratransferência

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Por mais que seu relógio biológico o chamasse de volta à vida ativa, sentia-se tão confortável e relaxado que não queria abrir os olhos... A cama era tão macia que parecia sua antiga... Era sua antiga cama. Aos poucos as lembranças retornavam... Havia dormido com Mu... Ainda mais, fizeram sexo...

A verdade é tudo aquilo tirou sua paz momentânea e inquietou sua mente. Estava confuso, não sabia o que fazer, pensar, como agir... Não sabia o que aquilo significava... Se esse ato reatava os laços ou era apenas um momento de fragilidade de ambas as partes.

Inesperadamente ouviu o telefone tocar e assustou-se. Abriu os olhos mas não virou-se pra ele. Escutou-o atender.

- Alô, Aldebaran? Tudo bem querido? Por aqui está tudo bem também... Ah, agora de dia não dá, mas pode ser à noite, tudo bem pra você? Bem, no lugar de sempre Alde! Beijos! – Acordou atônito com o telefone, era Aldebaran de novo.

Havia feito amor com Shaka na noite anterior... E ele dormia naquela cama como nos velhos tempos. Estava extremamente confuso, sem saber o que realmente queria. Teve dúvidas de atender ao moreno, talvez fosse a decisão certa a ser tomada... Mas só talvez...

Percebeu o loiro se mexer irrequieto, sabia que estava acordado, deitado de lado. Tocou em seu ombro levemente, tentando olhar seu rosto sem sucesso.

- Shaka, está bem? O telefone te acordou? – Disse cuidadoso, de maneira especulativa e dirigida.

- Já estava acordado, não se preocupe. – Seu tom era seco, áspero.

- Era o Alde, ele queria que... – Fora interrompido.

- Eu ouvi Mu. Ademais não tem que me dar explicações. Bem, como combinado eu me vou. Se precisar me ligue, por favor. – Levantou-se da cama sem olhá-lo e saiu do quarto. Sua bagagem já estava pronta do lado de fora. Sabia que não lhe era direito, mas sentiu o coração doer, enciumado, magoado.

Talvez... Mas só talvez tivesse imaginado que as coisas mudariam, que aquela noite poderia virar o jogo e lhes dar mais uma chance...

Porém aquela ligação fora a resposta de todas as suas dúvidas... Foi só um deslize. Carência talvez, mas não a religação daquele vínculo. Ele já não era mais possível.

Foi embora, simplesmente.

O dono dos belíssimos olhos verdes ficou mais um tempo na cama pensando, refletindo sobre o que aconteceu... A noite de amor... Ou apenas sexo? Não sabia dizer, não trocaram nenhuma palavra durante o ato, mas pareciam retomar aquela cumplicidade.

Bem, tudo parecia estar resolvido. Fizera a escolha no momento em que atendeu àquele telefonema. A hora em que viu o nome no visor teve a oportunidade de decidir. Não conseguia dizer se fora um erro, um equívoco... O único que restava era aceitar as consequências de sua escolha...

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Na hora marcada, encontraram no mesmo lugar... O de sempre... Desde a adolescência. Logo recebeu um grande e intenso abraço regado a palavras de carinho e alegria.

- Oi Alde, vamos sentar! – Com a proximidade do garçom, logo pediu um suco. – Tudo bem com você?

- Tudo sim Mu e você? – Estava feliz por estar na presença do amigo, mas sentia-lhe um pouco mais abatido que o normal. – Ainda sente muito a falta do seu tio né! Tá muito abatido Mu! Acho que o Shaka não cuidou bem de você, eu mesmo deveria tê-lo feito.

- Não, está tudo bem. Estou bem. Não é bem isso que me aflige. E por favor, não fale mal do Sha, ele cuidou muito bem de mim sim. Ele foi ótimo. – Seu humor não era dos melhores, havia certa contrariedade em seu rosto e rudeza em sua voz. Na verdade apenas compareceu ao encontro por educação. Não tinha vontade de sair de casa depois do que ocorrera pela manhã.

- Se é assim eu fico mais tranquilo. Eu te conheço Mu, tá acontecendo alguma coisa que você não quer contar! – Logo o garçom chegou com as bebidas de ambos. – Não precisa esconder nada de mim, eu estou aqui pra te ajudar!

- Eu sei Alde, me desculpe! – Seu coração amoleceu com essas palavras... A verdade é que não conseguia ficar irritado perto dele, sua energia era tão alegre. Era bom poder contar com ele. – Sabe, o Shaka foi embora hoje de manhã... A gente dormiu junto essa noite... – Seu tom era baixo, quase envergonhado. Fitava o suco de maneira escapista.

- Dormiram juntos? Nossa, isso era inesperado. Vocês voltaram Mu? – Tinha de admitir que aquela notícia não o agradou, tentou disfarçar.

- Não. Foi bom como há muito tempo não era. Não chegamos a nos falar de manhã. Aí você ligou. Ele foi embora. – As palavras pareciam meio desconexas, demonstrando seu verdadeiro estado mental.

- A culpa foi minha Mu, me desculpe. Eu não queria atrapalhar. – Sentia algum peso na consciência, mas de alguma maneira, gostou do resultado, pois esse lhe era favorável.

- Não se preocupe. Acho que as coisas aconteceram como deveriam ser... Penso que não tem mais volta. – Sua atitude era conformada, apenas isso. – É hora de seguir em frente e buscar novas possibilidades. – Sim, sabia que isso dava abertura ao outro, mesmo sem quere-lo.

- Isso é muito bom Mu. Eu gosto de saber que está com o coração aberto. – Um pouco de esperança renasceu em seu peito.

- Tem que estar né! – Riu de maneira gostosa, sentindo-se mais leve por ter lhe confidenciado tudo. – É hora de uma nova vida.

- Olha Mu, eu gosto de ouvir isso. É animador, eu começo a pensar que talvez tudo isso tenha sido muito bom. Pelo menos pra mim. – Olhou de maneira mais profunda, mais significativa.

- Muito bom? O que está querendo dizer com isso? – Perguntou, mesmo sabendo a resposta. Aquilo era intimidador... E instigante. A verdade é que no fundo, sempre buscava o olhar alheio sobre si, era isso que lhe alimentava o espírito.

- Mu, não vou mentir. Desde que você se separou e nos reaproximamos senti algo diferente entre nós. Ficamos mais próximos e... – Esticou o braço segurando em sua mão. – E aquela chama começou a reacender... Sei que não demos certo no passado, mas agora poderia ser diferente e... – Ao escutar aquela voz a lhe interromper, sabia que não viria nada muito animador.

- Alde, você sabe que eu adoro você, prezo muito nossa amizade, mas não pode acontecer nada entre nós... Não faz sentido.

- Mas você não disse estar aberto a possibilidades? – Não conseguia entender, ficara óbvio que Mu estava flertando consigo todo esse tempo, pelo menos era essa a impressão que tivera.

- Eu quero uma vida nova, diferente. Deixar o passado pra trás, começar do início. Fazer tudo diferente. – Era difícil articular as palavras de um modo que não o magoasse, afinal essa não era sua intenção.

- Eu nunca te esqueci Mu, sempre amei você. Todos esses anos...

- Desculpa Alde. – Retirou a mão que estava presa na dele. – Pra mim você é apenas um amigo, tudo aquilo ficou no passado e... Eu entendo seus sentimentos, mas acho melhor a gente se afastar... Não quero alimentar esse sentimento e te magoar mais... Adeus Alde!

- Não Mu, não vá! Eu... – Tentou impedi-lo, mas foi inútil. Ele se levantou e se foi. Amava o ariano, mas nesse momento teve a certeza de que nunca o teria de volta.

Voltou para casa arrasado, era terrível saber que teria de se afastar de seu melhor amigo novamente... Sabia que tinha culpa naquilo. Sentia-se mal por isso, mas já havia conseguido o que queria: o olhar do outro sobre si, a sensação de ser amado... De não estar só.

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- Fico feliz em ver que está melhor, menos abatido. Como está? – Lhe agrava ver que o loiro parecia mais corado, mais existente.

- Estou bem sim Kamus, obrigado. Bem, preciso te falar algo importante. O Ikki insinuou novamente que eu tenho uma influência diferente sobre ele, da mesma maneira que tem o irmão e tinha a noiva.

- Isso é apenas o processo de repetição, nós já sabíamos disso. – Shaka sempre fora cuidadoso e comedido com as palavras. Isso dificultava o processo, mas o conhecia bem o suficiente para ler nas entrelinhas do discurso.

- Ele disse também que eu sabia a resposta que estava procurando, mas não queria admitir. – Não gostava de comunicar esses detalhes, mas tampouco gostava de ser incorreto.

- Até ele já sabe que você entende o que acontece ali e não quer admitir. – Havia algo em Shaka que lhe bloqueava em agir de acordo com sua função. Ele estava envolvido emocionalmente, mas não sabia em que nível. – Shaka, com o que você tem sonhado?

- O quanto isso é relevante pra supervisão? – O francês sempre insistia em entrar em algo íntimo, o que a todo custo tentava evitar.

- Você sabe disso tanto quanto eu, que seus sonhos podem trazer boas informações. – Era um jeito de fazer Shaka trazer algum conteúdo pra fora.

- Tudo bem, há duas noites eu sonhei com um monstro, muito alto, muito grande, assustador, escuro e disforme. Ele me perseguia. Não tinha face. Mas eu não corria, eu não tinha medo, e quando foi chegando mais perto ele parou e começou a retroceder. Eu comecei a ir em direção a ele, queria me aproximar, queria ver sua face, mas não conseguia.

- O que você acha? Como interpretaria esse sonho?

- Cansaço, apenas. Reflexos desconexos do dia-a-dia.

- Talvez seja algo mais profundo Shaka.

- Ah sim! – Começou debochado. – Bem, você vai me falar que deve ser algo relativo ao meu inconsciente... Deve ser culpa da minha mãe.

- A mãe não, o pai. – Ignorou o deboche, sabia que era a defesa psíquica dele que estava alta. – Esse monstro grande, disforme e escuro me lembra de alguma forma a representação da prancha IV do Rorschach.

- Você tá de brincadeira né Kamus? Representação paterna? Eu não tenho pai, aquele homem nunca...

- Não estou falando dele Shaka, estou falando do verdadeiro, que você nunca conheceu. – Sim, as coisas começavam a fazer mais sentido agora.

- Você está enlouquecendo, lhe falta coerência, como vou sonhar com alguém que nunca conheci?

- Justamente! Alguém que de alguma maneira faz parte de sua vida lhe segue, mas quando você tenta se aproximar, que ver o rosto, ele se afasta e você fica frustrado.

- Então você acha que eu agora, nessa altura da vida estou na busca do pai perdido? Kamus, não estou te reconhecendo. – Aquilo tudo era patético, o francês estava exagerando demais.

- Shaka, me descreva o Ikki fisicamente.

- Hum? Pra que? O que isso tem a ver?

- Descreva. – Seu tom era imperativo, demonstrando que aquela informação era relevante.

- Ele é alto, um pouco maior que eu, com um corpo forte, moreno num tom escuro. Os cabelos são castanho-escuro e bem rebeldes. Tem algo de oriental nos traços.

- Shaka, tenho certeza que você teve outros sonhos por esses dias, mas decidiu contar justamente esse na supervisão do Ikki. Preste atenção. Pelo que você descreveu, ele deve se assemelhar a imagem que você faz de seu pai biológico. Seu pai é indiano Shaka, repare na descrição que você deu do Ikki. Você não percebeu a contratransferência*.

- Mas... – Aquilo realmente o pegou de surpresa. Por mais que não quisesse admitir, fazia sentido. Sentiu a cabeça esquentar e as emoções aflorarem... Seu corpo tremia e não conseguia disfarçar. Nunca se tinha pego numa situação similar e isso o apavorava. Não sabia se podia lidar com isso...

- Shaka, de repente num momento difícil de sua vida pessoal você ganha um paciente que te traz uma fisionomia que mexe com suas questões primárias, ligadas à infância que não foi saudável nem completa. Agora faz sentido o modo como você ignora a problemática das investidas dele e de algum modo, acaba por defende-lo. Você tem medo que essa imagem do pai se torne incógnita, mesmo sendo fantasiosa. Pela primeira vez você colocou algo nesse lugar vazio e não quer perder. – Da mesma maneira que se sentia aliviado por confirmar sua hipótese, estava receoso de como ajudar Shaka a manejar tudo isso.

Ficou estático. Sim, tudo o que ele disse fazia sentido. Mas isso não o impediu de se chocar, de se abismar. Nunca teve tão grande falha num processo terapêutico. Estava assustado.

- Eu não sei como isso foi acontecer... – Seu olhar era vago e seu corpo já transparecia toda sua insegurança e fragilidade.

- Todos estamos passíveis a esse tipo de situação. Agora precisamos ver o que fazer.

- Kamus, me dê uma sessão com ele. Quero vê-lo e interagir sozinho depois de refletir sobre isso tudo. – Estava desesperado por não ter o controle de suas emoções e precisava reverter isso de qualquer maneira. Sua racionalidade agora disparava, como todo bom mecanismo de defesa.

- Tem certeza? – Era arriscado, mas não podia impedi-lo. Colocou-se em seu lugar e percebeu que faria o mesmo.

- Tenho sim. – Nada com uma boa resistência psíquica e anos de treino em trancar as próprias emoções para resolver uma situação como aquela e se colocar em aparente equilíbrio. Aquilo não poderia jamais lhe vencer.

- Não vejo porque não, eu aceito e apoio sua ideia Shaka, se se sentir estranho ou incômodo me ligue a qualquer hora. – Estaria alerta.

- Ok Kamus, já deu o horário, até a próxima semana. – Levantou-se pálido e desconcertado, tudo que queria era ficar sozinho e pensar...

Aquela situação era muito complexa e sabia que seria mais difícil impulsionar Shaka a um processo mais equilibrado. As emoções dele com relação à Ikki deveriam ser fortes e sabia que ele se recusaria a encaminhá-lo. O elo mais fraco e confuso do psíquico de Shaka havia se rompido. Shaka finalmente entrara no arquétipo da relação paterna e tudo o que se relacionasse com isso nesse momento traria apenas dor e desequilíbrio. Chegou mesmo a duvidar que um dia o loiro teria que lidar com aquele tema, mas a verdade é que tudo na vida chegava, uma hora ou outra chegava, nada passava desapercebido pelo tempo... Tudo o que sabia é que precisava fazer o que fosse possível para minimizar o sofrimento daquele que ainda considerava amigo. Afinal a vida já lhe trouxera sofrimento o suficiente e sabia ter sua parcela de culpa...

 Aquela situação instalou-se em sua cabeça e ficou lá rodando pelo resto do dia. Talvez ficasse a semana toda. Havia muito no que trabalhar por aquele caso, por Shaka.

*[ A Contratransferência é um conceito psicodinâmico fundamental na técnica psicanalítica. Entende-se por contratransferência as emoções que o terapeuta experimenta no decorrer de uma análise, em relação ao paciente, e que são relacionadas com circunstâncias sentidas na sua própria vida, que o afetaram consciente e inconscientemente.
Tal como os pacientes têm transferência, os terapeutas e analistas têm contratransferência, já que todo o relacionamento atual é uma nova edição de antigos relacionamentos e este aspecto será igualmente válido para o analista.]


Notas Finais


Gente acho esse cap muito forte e fico com dó do Shaka, o sentimento de impotência dele... Mas foi fundamental. Vamos seguindo que as emoções não param! Espero que tenham gostado! ♥


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