História Crescendo: Hush, Hush - Capítulo 7


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Categorias Sussurro (Hush, Hush)
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Palavras 4.394
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Misticismo, Sobrenatural
Avisos: Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 7 - Capítulo 6


Encontrei o Diego inclinado contra seu taco de sinuca numa mesa próxima à frente.

Ele estava estudando uma difusão de bolas de bilhar quando cheguei até ele.

— Achou um caixa eletrônico? — Perguntei, jogando a minha jaqueta jeans úmida numa cadeira dobrável de metal empurrada contra a parede.

— É, mas não antes de engolir trinta e sete litros de chuva. — Ele levantou o boné havaiano e sacudiu a água para dar ênfase.

Talvez ele tenha encontrado um caixa eletrônico mas não até ter terminado o que quer que esteve fazendo na viela lateral. E por mais que eu teria gostado de saber o que era, eu provavelmente não ia descobrir tão cedo. Eu perdi a minha chance quando Simon me puxou para longe para me dizer que eu era louca de estar aqui no Z e devia ir embora para casa.

Espalmei minhas mãos no extremo da mesa de sinuca e me inclinei casualmente, esperando parecer completamente natural, mas a verdade era que meus batimentos cardíacos estavam acelerados. Não só eu tinha acabado de sair de um confronto com o Simon, como ninguém nos arredores parecia ser remotamente amigável. E, embora eu tentasse, eu não conseguia afastar a lembrança de que alguém tinha sangrado até a morte numa dessas mesas. Foi nesta? Eu me afastei da mesa e limpei as minhas mãos.

— Nós estamos prestes a começar um jogo — Diego disse. — Com cinquenta dólares você está dentro. Pegue um taco.

Eu não estava com vontade de brincar e teria preferido observar, mas uma rápida olhada no cômodo revelou que Simon estava sentado numa mesa de pôquer nos fundos. Apesar do corpo dele não estar encarando o meu diretamente, eu sabia que ele estava me observando. Ele estava observando todos no cômodo. Ele nunca ia a lugar algum sem fazer uma avaliação cuidadosa e detalhada de suas cercanias.

Sabendo disso, testei o sorriso mais deslumbrante que eu tinha dentro de mim no momento.

— Eu adoraria.

Eu não queria que o Simon soubesse o quanto eu estava chateada, o quanto eu estava machucada. Eu não queria que ele soubesse que eu não estava me divertindo com o Diego.

Mas antes que eu pudesse ir para a prateleira, um homem baixo com óculos de arame e um colete de lã veio por trás de Diego. Tudo nele parecia fora de lugar, ele estava arrumando, sua calça passada, e seus sapatos polidos. Perguntou ao Diego numa voz quase diminuta demais para escutar, — Quanto?

— Cinquenta — Diego respondeu com um toque de irritação. — O mesmo de sempre.

— O jogo tem um mínimo de cem dólares.

— Desde quando?

— Deixe-me reformular. Para você, o mínimo é cem dólares.

Diego ficou com a face vermelha, pegou a sua bebida na beirada da mesa, e a entornou. Então ele pegou sua carteira e comprimiu um bolo de dinheiro no bolso dianteiro da camisa do homem.

— Aí estão cinquenta. Pago a outra metade depois do jogo. Agora tire seu mau hálito do meu rosto para que eu possa me concentrar.

O homem baixo bateu um lápis contra seu lábio inferior.

— Você vai ter que acertar a sua conta com o Dew primeiro. Ele está ficando impaciente. Ele tem sido generoso com você, e você não tem retornado o favor.

— Diga a ele que terei o dinheiro ao fim da noite.

— Essa fala ficou velha há uma semana.

Diego chegou mais perto, comprimindo o espaço do homem.

— Não sou o único cara aqui que deve um pouquinho ao Dew.

— Mas você é o único que ele está preocupado que não vá pagá-lo de volta. — O homem baixo puxou o dinheiro que Diego tinha enfiado em seu bolso e deixou as notas flutuarem para o chão. — Como eu disse, Dew está ficando impaciente. — Ele deu ao Diego um levantar expressivo das sobrancelhas e foi embora.

— Quanto você deve ao Dew? — perguntei para ele.

Ele olhou feio para mim.

Está bem, próxima pergunta.

— Como é a competição? — falei em um tom abafado enquanto olhava os outros jogadores espalhados pelas várias mesas de sinuca. Dois de três fumavam. Três de três tinham tatuagens de facas, revólveres, e várias outras armas subindo por seus braços. Qualquer outra noite e eu podia ter ficado assustada, ou no mínimo, desconfortável, mas Simon ainda estava no canto. Enquanto ele estivesse aqui, eu sabia que estava a salvo.

Diego bufou.

— Esses caras são amadores. Eu poderia acabar com eles no meu pior dia. A minha verdadeira competição está aqui. — Ele deslocou seu olhar na direção de um corredor que ramificava para a área principal.

O corredor era estreito e turvo, e dava para um cômodo que brilhava num laranja luminoso. Uma cortina de contas pendia pela entrada. Uma mesa de sinuca entalhada complexamente estava logo depois da entrada.

— É lá que os grandalhões jogam? — adivinhei.

— Lá, eu podia conseguir em um jogo o que eu consigo em quinze aqui.

De canto de olho, eu vi o olhar de Simon relampejar na minha direção.

Fingindo não notar, estiquei a minha mão para o meu bolso traseiro e dei um passo mais para perto do Diego.

— Você precisa no total de cem dólares para o próximo jogo, certo? Aqui estão... cinquenta — eu disse, contando rapidamente as duas notas de vinte e a de dez que Simon tinha me dado. Eu não era grande fã de jogos de azar, mas eu queria provar para o Simon que o Z não ia me comer viva e me cuspir fora. Eu podia me encaixar. Ou pelo menos não ser empurrada. E se parecesse que eu estava flertando com Diego no processo, que fosse. Foda-se, pensei até o outro lado do cômodo, mesmo sabendo que Simon não podia me ouvir.

Diego olhou entre mim e o dinheiro na minha mão.

— Isso é uma piada?

— Se você ganhar, dividiremos o lucro.

Diego considerou o dinheiro com uma luxúria que me pegou desprevenida. Ele precisava do dinheiro. Ele não estava no Z hoje à noite pelo entretenimento. Jogos de azar eram um vício.

Ele pegou o dinheiro e correu até o homem baixo com o colete de lã, cujo lápis estava rabiscando números e saldos furioso, mas meticulosamente, para os outros jogadores. Roubei uma olhar para o Simon, para ver sua reação para o que eu tinha acabado de fazer, mas seus olhos estavam no jogo de pôquer, sua expressão indecifrável. O homem com o colete de lã contou o dinheiro de Diego, alinhando habilidosamente as notas para que elas todas encarassem a mesma direção. Quando ele terminou deu um sorriso apertado ao Diego. Parecia que estávamos dentro.

Diego retornou, passou giz em seu taco de sinuca.

— Você sabe o que dizem sobre boa sorte. Tem que beijar meu taco. — Ele o enfiou no meu rosto.

Eu dei um passo para trás.

— Não vou beijar seu taco de sinuca.

Diego bateu seus braços e fez barulhos de galinha.

Olhei para o final do cômodo, esperando confirmar que Simon não estava observando a cena humilhante se desenrolando, e foi quando vi Jazmín Carvajal vaguear por trás dele, se inclinar, e cruzar seus braços ao redor do pescoço dele.

Meu coração caiu até meus joelhos.

Diego estava falando, batendo o taco de sinuca contra a minha testa, mas as palavras passaram diretamente. Lutei para recuperar meu fôlego e me focar no borrão de concreto logo à frente para pulverizar o meu choque completo e o sentimento de traição. Então era isso que ele queria dizer quando disse que as coisas com a Jazmín eram simplesmente negócios? Porque certamente não parecia assim para mim! E o que ela estava fazendo aqui logo depois de ter sido esfaqueada no Fliperama do Bo? Ela se sentia segura porque estava com o Simon? Pensando por uma fração de segundos, me perguntei se ele estava fazendo isso para me deixar com ciúmes. Mas se esse fosse o caso, ele teria que saber que eu estaria no Z hoje à noite. O que ele não saberia, a não ser que estivesse me espionando. Ele tinha ficado mais por perto nas últimas vinte e quatro horas do que eu acreditara originalmente?

Enfiei minhas unhas nas palmas das minhas mãos, lutando para me focar na dor ali, e não no sentimento de choque e humilhação que estava crescendo dentro de mim. Fiquei daquela maneira, entorpecida e segurando a ameaça de lágrimas, antes que a minha atenção fosse puxada para a entrada que dava para o corredor. Um cara numa regata vermelha que mostrava seus músculos inclinava-se na moldura. Algo estava errado com o pedaço de pele na base de sua garganta, quase parecia deformado. Antes que eu pudesse dar uma olhada mais de perto, fiquei paralisada por um relampejo de déjà vu. Algo nele era assustadoramente familiar, mesmo eu sabendo que nunca o tinha conhecido. Eu tive uma vontade enorme de correr, mas, ao mesmo tempo, fui sobrepujada pela necessidade de identificá-lo.

Ele pegou a bola branca de bilhar da mesa mais próxima e jogou-a algumas vezes no ar, preguiçosamente.

— Vamos — Diego disse, acenando o taco de sinuca para frente e para trás pela minha linha de visão. Os outros caras cercando a mesa riram. — Faz, Ámbar — Diego disse. — Só um selinho. Para boa sorte.

Ele deslizou o taco de sinuca sob a barra da minha blusa e a levantou.

Bati o taco de sinuca para longe.

— Para com isso.

Eu vi um movimento do cara na regata vermelha. Aconteceu tão rápido que levei dois batimentos cardíacos para perceber o que estava prestes a acontecer. Ele girou seu braço e atirou a bola de bilhar para o outro lado do cômodo. Um instante mais tarde o espelho pendurado na parede oposta se despedaçou, cacos de vidro chovendo no chão.

O cômodo ficou silencioso, exceto pelo rock clássico tocando nos auto-falantes.

— Você — o cara de regata vermelha disse. Ele apontou um revólver para o homem no colete de lã. — Me dê o dinheiro.

Ele gesticulou para que ele chegasse mais perto com um empurrão da arma. — Mantenha suas mãos onde eu possa vê-las.

Ao meu lado, Diego se propeliu para a frente da multidão.

— De jeito nenhum, cara. Esse dinheiro é nosso. — Alguns gritos de concordância elevaram-se no cômodo.

O cara de regata vermelha manteve sua arma apontada para o homem de colete de lã, mas seus olhos andaram de lado até o Diego. Ele forçou um sorriso, mostrando seus dentes.

— Não é mais.

— Se você pegar o dinheiro, eu te mato. — Havia uma calma fúria na voz do Diego. Ele parecia que realmente quis dizer aquilo. Fiquei congelada no lugar, mal respirando, aterrorizada pelo que podia acontecer a seguir, porque nenhuma parte de mim duvidava que a arma estivesse carregada.

O sorriso do pistoleiro aumentou.

— É mesmo?

— Ninguém aqui vai deixar você ir embora com o nosso dinheiro — Diego disse. — Faça um favor a si mesmo e abaixe a arma.

Outro murmúrio de concordância encheu o cômodo.

Apesar do fato da temperatura no cômodo parecer estar aumentando, o cara de regata vermelha coçou preguiçosamente seu pescoço com o cano da arma. Ele não parecia nenhum pouquinho preocupado.

— Não. — Virando a arma para mirar no Diego, ele ordenou: — Vai pra cima da mesa.

— Cai fora.

— Vai pra cima da mesa!

O cara de regata vermelha estava segurando a arma com as duas mãos, mirando no peito do Diego. Muito lentamente, Diego levantou suas mãos na altura de seus ombros e correu de ré para a mesa de sinuca.

— Você não irá embora vivo. Está em menor número, 30 contra um.

O cara de regata vermelha chegou até Diego em três passadas. Ele ficou diretamente na frente de Diego por um momento, seu dedo apontado para o gatilho. Uma gota de suor escorreu pela lateral do rosto de Diego. Eu não conseguia acreditar que arrancou a arma dele. Ele não sabia que não podia morrer? Ele não sabia que era Nephilim? Mas Simon disse que ele pertencia a uma sociedade de sangue Nephilim, como ele podia não saber?

— Está cometendo um grande erro — Diego disse, sua voz ainda gelada, mas derramando a primeira gota de pânico.

Me perguntei por que ninguém foi ajudá-lo. Como Diego tinha apontado, a multidão estava em maioria esmagadora contra o cara de regata vermelha.

Mas havia algo malévolo e assustadoramente poderoso nele. Algo... de outro mundo. Eu me perguntei se eles estavam tão assustados por ele quanto eu estava.

Também me perguntei se a sensação enjoativa e desconfortavelmente familiar dentro de mim significava que ele era um anjo caído. Ou um Nephilim.

De todos os rostos na multidão, eu de repente me encontrei olhando para a Jazmín. Ela estava do outro lado da multidão, com algo que eu só poderia descrever como uma fascinação perplexa escrita por toda a sua expressão. Eu soube, bem então, que ela não fazia ideia do que estava prestes a acontecer. Ela não percebeu que Diego era um Nephilim e tinha mais força em uma de suas mãos do que um humano em seu corpo todo. Ela não viu Chauncey, o primeiro Nephilim que eu conheci, mutilar meu celular na palma de sua mão. Ela não esteve lá na noite que ele me perseguiu pelos corredores da escola. E o cara de regata vermelha? Quer fosse um Nephilim ou um anjo caído, ele era igualmente tão poderoso quanto. O que quer que estivesse prestes a acontecer, não era uma mera briga de socos.

Ela deveria ter aprendido sua lição no fliperama e ficado em casa. E eu também deveria.

O cara de camiseta vermelha empurrou Diego com a arma, e ele voou sobre a mesa. De surpresa ou de medo, Diego se atrapalhou com seu taco, e o cara de camisa vermelha o pegou. Sem parar, ele pulou para cima da mesa segurando o taco na mira do rosto de Diego.

Ele perfurou a mesa de sinuca com o taco a um centímetro da orelha de Diego. O taco desceu com tanta força, que se espatifou através da superfície de feltro. Umas doze polegadas de taco eram visíveis por baixo da mesa.

Segurei o grito.

O pomo-de-adão de Diego tremeu.

— Cara, você é louco — disse ele.

De repente, um tamborete voou pelo ar, batendo na lateral do cara de camiseta vermelha. Ele saltou da mesa para manter seu equilíbrio.

— Pega ele! — alguém na multidão gritou.

Foi como um grito de guerra, mais pessoas agarraram os bancos do bar. Desci com minhas mãos aos joelhos e olhei pelo amontoado de pernas a saída mais próxima. A poucos metros havia um homem com uma arma no coldre, e uma no tornozelo. Ele a pegou e momentos depois desmoronou sons de tiros. O que se seguiu não foi silêncio, mas o mais caótico possível: xingamentos, gritos, punhos batendo na carne. Virei meus pés e em direção à porta e saí correndo. Apenas escorreguei pela saída quando alguém me segurou pelo cós da minha calça e me puxou para ficar de pé. Simon.

— Pegue o jipe — ordenou, empurrando as chaves na minha mão. De repente parou. — O que você está esperando?

Meus olhos encheram de lágrimas, mas eu pisquei de raiva.

— Pare de agir como se eu fosse um peso enorme! Eu nunca pedi sua ajuda!

— Eu te disse para não ficar aqui hoje à noite. Você não seria um peso se tivesse me ouvido. Este mundo não é seu, é meu. Você está tão empenhada que sabe se virar sozinha que vai acabar fazendo algo estúpido ou se matar.

Fiquei ressentida por isto, e abri minha boca para dizer isso.

— O cara de camiseta vermelha é um Nephilim — Simon disse, me cortando. — A marca significa que ele faz parte da sociedade de sangue que eu te falei antes. Ele jurou lealdade a eles.

— Marca?

Perto da clavícula dele a deformidade era uma marca? Virei meus olhos para uma pequena janela na porta. Dentro, haviam corpos nas mesas de sinuca e jogados em todas as direções. Eu não vi o cara de camisa vermelha novamente, mas agora eu entendi porque eu o reconheci. Ele era Nephilim. Ele me lembrou Chauncey de forma que Diego não tinha chegado nem perto. Imaginei que isso poderia significar que, como Chauncey, ele era mal. E Diego não era.

Um barulho parecia que ia romper meus tímpanos, e Simon me puxou para o chão. Fragmentos de vidros caíram ao nosso redor. A janela na porta dos fundos foi atingida por uma bala.

— Saia daqui — disse Simon, empurrando-me na direção da rua.

Eu virei para trás.

— Onde você vai?

— Jazmín ainda está lá dentro. Eu pego uma carona com ela.

Meus pulmões pareciam bloqueados, não havia ar entrando ou saindo.

— E eu? Você é meu anjo da guarda.

Simon me olhou nos olhos.

— Não mais, Anjo.

Antes que eu pudesse argumentar, ele saltou pela porta, sumindo no caos.

Na rua, eu destranquei o Jipe, me jogando no assento da frente e dirigi para fora do estacionamento. Ele não era mais meu anjo da guarda? Ele estava falando sério? Tudo porque eu disse a ele que não o queria mais? Ou será que ele disse isso para me assustar? Para fazer eu me arrepender de ter dito que não queria mais ele? Bem, se ele não era mais meu anjo, era porque eu estava tentando fazer a coisa certa! Eu estava tentando fazer isso ficar mais fácil para nós dois. Eu estava tentando mantê-lo a salvo dos arcanjos. Eu disse exatamente os motivos pelo qual tinha feito isso, e ele jogou tudo nas minhas costas, como se toda essa confusão fosse por minha culpa. Como se fosse isso que eu quisesse. Tudo isso era mais culpa dele do que minha. Eu tinha vontade de voltar lá e dizer que eu não estava desamparada.

Eu não era uma peça do seu mundo grande e mau. E eu não era cega. Eu podia ver muito bem que algo estava acontecendo entre ele e Jazmín. De fato, eu não sabia exatamente o que era, mas era algo. Esqueça isso. Eu estava melhor sem ele. Ele era um idiota. Um idiota traidor. Não precisava dele para nada.

Virei o Jipe para parar em frente a minha casa. Minhas pernas ainda estavam tremendo, minha respiração falhava quando eu exalava. Eu estava plenamente consciente do silêncio ao redor. O Jipe sempre tinha sido um lugar de refúgio, hoje me senti estranha e isolada, era grande demais para uma só pessoa. Baixei a cabeça sobre o volante e chorei. Eu não imaginei Simon levando Jazmín para casa em seu carro, eu simplesmente deixei o ar quente que vinha das portas passar sobre a minha pele e sentir o cheiro do Simon.

Estava sentada curvada e chorando, até que o ponteiro do medidor de gás desceu um pouco. Enxuguei meus olhos e dei um longo suspiro conturbado. Estava prestes a desligar o motor quando vi Simon em pé na minha varanda, inclinando-se sobre um das vigas de sustentação. Por um momento eu pensei que ele tivesse vindo por minha causa, e uma lágrima de alívio saltou dos meus olhos. Mas eu estava dirigindo o Jipe dele. Ele provavelmente veio pegá-lo de volta. Depois da maneira como me tratou hoje, não poderia acreditar que haveria outro motivo.

Ele desceu a calçada e abriu a porta do lado do motorista.

— Você está bem?

Balancei a cabeça mecanicamente. Eu teria dito sim, mas minha voz estava presa no estômago. Os olhos frios do Nephilim ainda estavam na minha mente, e eu não consegui parar de me perguntar o que tinha acontecido depois que saí do Z. Diego tinha saído? E Jazmín?

É claro que ela tinha. Simon parecia empenhado para ter certeza disso.

— Porque o Nephilim de camisa vermelha quer dinheiro?

Passando para o banco do passageiro. Foi automático, mesmo sabendo que Simon não pode sentir o frio úmido da chuva, me pareceu errado deixá-lo parado lá.

Logo ele estava atrás do volante, nos trancando no Jipe. Duas noites atrás, o gesto teria um sentido íntimo. Agora só parecia tenso e desajeitado.

— Ele estava angariando fundos para a sociedade de sangue Nephilim. Gostaria de ter uma ideia melhor sobre o que estão planejando. Se eles precisam de dinheiro, é mais provável que seja para os recursos. Ou isso, ou para pagar anjos caídos. Mas como, quem e por que eu não sei. — Ele balançou a cabeça. — Preciso de alguém lá de dentro. Pela primeira vez, ser um anjo me coloca em desvantagem. Eles não vão me deixar chegar perto dos planos.

Por uma fração de segundo, ocorreu-me que ele poderia me pedir ajuda, mas eu não era Nephilim. Eu tinha um milésimo de sangue Nephilim correndo em minhas veias, que pode ser rastreado pelos quatrocentos anos do meu antepassado Nephilim, Chauncey Langeais. Para todos os efeitos, eu era humana. Eu não tinha nenhuma vantagem dentro de mim a mais que Simon.

Eu disse:

— Você disse que o Diego e o Nephilim de camiseta vermelha são parte da sociedade de sangue, mas eles não pareciam se conhecer. Tem certeza de que Diego está envolvido?

— Ele está envolvido.

— Então, como eles não se reconheceram?

— Meu palpite é que agora quem está comandando a sociedade está separando os membros individualmente para mantê-los no escuro. Sem amizades, as chances de um golpe são baixas. Mais do que isso, se eles não sabem o quanto são fortes, os grandes não podem vazar essa informação para os inimigos. Anjos caídos não podem obter informações sobre a sociedade se os seus membros não sabem de nada.

Digerindo isso, eu não sabia dizer de que lado eu estava. Parte de mim abominava a ideia de anjos caídos possuírem os corpos dos Nephilim no Cheshvan. Uma parte pequena de mim estava agradecida pelo alvo serem os Nephilins e não os humanos. Não era alguém que eu amava.

— E Jazmín? — Eu disse, tentando manter minha voz com naturalidade.

— Ela gosta de poker — Simon disse evasivamente. Ele fez o retorno com o Jipe. — Eu devo ir. Você vai ficar bem essa noite? Sua mãe não está em casa?

Virei-me no banco para encará-lo.

— Jazmín tinha os braços em torno de você.

— O sentido espacial pessoal de Jazmín é inexistente

— Então você é um especialista em Jazmín agora?

Seus olhos escureceram, e eu sabia que não deveria prosseguir, mas não importava. Eu continuei.

— O que está acontecendo entre vocês dois? O que vi não pareciam negócios.

— Eu estava no meio de um jogo, quando ela veio atrás de mim. Não é a primeira vez que uma garota faz isso, e provavelmente não será a última.

— Você poderia tê-la afastado para longe.

— Ela tinha os braços em volta de mim num momento, no momento seguinte o Nephilim jogou a bola. Eu não estava pensando em Jazmín. Corri para verificar o perímetro, caso ele não estivesse sozinho.

— Você voltou por ela.

— Eu não ia deixá-la lá.

Fiquei no meu lugar, com um nó no estômago tão apertado que doía. O que eu deveria pensar? Se ele tivesse voltado por ela por cortesia? Um senso de dever? Ou outra coisa totalmente diferente, mais preocupante?

— Tive um sonho sobre o pai de Jazmín a noite passada. — Eu não sabia ao certo porque tinha dito. Provavelmente para comunicar a ele que minha dor era tão grande que estava entrando em meus sonhos. Li uma vez que os sonhos são uma forma de entender o que está acontecendo em nossas vidas, se isso for verdade, meu sonho definitivamente estava me dizendo que eu não fazia ideia do que estava acontecendo entre Simon e Jazmín. Já que eu estava sonhando com anjos caídos e Cheshvan. Se estiver sonhando com o pai de Jazmín.

— Você sonhou com o pai de Jazmín? — A voz de Simon era calma, como sempre, mas algo na maneira como ele me olhou fez pensar que ele estivesse surpreso com essa notícia. Talvez até desconcertado.

— Acho que era na Inglaterra. Há muito tempo atrás. O pai de Jazmín estava sendo perseguido na floresta. Mas ele não podia fugir, pois sua capa se enroscou nas árvores. Ele continuava dizendo que um anjo caído estava tentando possuí-lo.

Simon ponderou nesse momento. Mais uma vez seu silêncio me disse que eu tinha dito algo do seu interesse. Mas não podia adivinhar o que era. Ele olhou o relógio.

— Precisa de mim para entrar em casa?

Olhei para cima no escuro, as janelas vazias da casa. A combinação do anoitecer com chuviscos era sombrio, afastando tudo ao redor. Eu não podia dizer que era pior ir lá pra dentro ou ficar aqui com Simon com medo de que ele fosse embora. Para Jazmín Carvajal.

— Estou hesitando porque não quero ficar molhada. Além disso, você obviamente tem um lugar para ir. — Empurrei a porta e coloquei uma perna para fora. — Isso, e nosso relacionamento acabou. Você não me deve favores.

Nós trocamos olhares.

Eu disse isso para magoá-lo, mas eu era a única com um nó na garganta. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa que magoasse mais profundamente, corri para a varanda, segurando meus braços sobre a minha cabeça tentando me proteger da chuva.

Dentro de casa, encostei-me à porta e ouvi o carro dele. Minha visão estava embaçada por causa das lágrimas, e fechei os olhos.

Eu queria que Simon voltasse. Eu o queria aqui. Eu queria que ele me puxasse contra ele e me beijasse para afastar a sensação de vazio congelando-me de dentro para fora lentamente. Mas o som dos pneus deslizando sobre o piso molhado apenas ficou mais distante.

Sem aviso, a lembrança da nossa última noite juntos antes de tudo desmoronar veio em minha memória. Eu automaticamente comecei a bloqueá-la. O único problema é que eu queria lembrar. De alguma maneira eu precisava sentir o Simon. Baixando a minha guarda, deixei-me sentir sua boca na minha devagar no começo e depois mais forte. Sentir o seu corpo firme e quente contra o meu. Suas mãos estavam na minha nuca, prendendo sua corrente de prata. Ele prometeu me amar para sempre...

Virei a fechadura, dissolvendo a lembrança com um clique. Foda-se ele. Repito essas palavras tantas vezes que posso. Na cozinha, as luzes se acenderam ao tocar no interrupto, e fiquei aliviada ao descobrir que a eletricidade voltou a funcionar. O telefone estava com uma luz vermelha piscando, fui checar as mensagens.

— Ámbar — a voz da minha mãe disse, — está chovendo litros aqui em Boston e eles precisam reagendar o evento. Estou voltando para casa e devo chegar por volta das onze. Você pode ir para a casa da Luna se quiser. Te amo e nos vemos em breve.

Eu olhei o relógio. Poucos minutos antes das dez. Eu tinha apenas uma hora a mais sozinha.



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