História Crescendo: Hush, Hush - Capítulo 9


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Categorias Sussurro (Hush, Hush)
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Palavras 4.022
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Misticismo, Sobrenatural
Avisos: Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 9 - Capítulo 8


Luna levantou primeiro da cadeira.

Eu fui atrás dela até a porta da padaria, para a ofuscante luz do sol. Tampando nossos olhos, olhamos para os dois lados do calçadão. Corremos para a areia e fizemos a mesma coisa. As pessoas estavam espalhadas por toda a praia, mas eu não via nenhum rosto familiar. Meu coração estava acelerado, e perguntei para Luna:

— Você acha que isso foi uma piada?

— Eu não estou rindo

— Foi Diego?

— Talvez. Ele estava aqui, afinal.

— Ou Jazmín? — Marcie era a única pessoa que eu podia pensar que pudesse fazer esse tipo de coisa.

Luna olhou atentamente para mim.

— Uma brincadeira? Talvez

Mas Jazmín foi tão cruel? E ela poderia arranjar problemas? Isso era muito mais do que um comentário maldoso. O bilhete, o anel e até a entrega. Isso teve que ser planejado. Jazmín parece ser do tipo de pessoa que se cansa após cinco minutos de planejamento.

— Vamos investigar ao fundo isso — disse Luna, caminhando de volta em direção às portas da padaria. Uma vez lá dentro, ela procurou Madeline. —Precisamos conversar. Como o cara se parecia? Baixo? Alto? Cabelos castanhos? Louro?

— Ele estava usando um boné e óculos escuros — Madeline respondeu, percebendo os olhares dos outros funcionários da padaria, que Luna começava a chamar a atenção. — Por quê? O que havia no envelope?

— Você terá que fazer melhor que isso — disse Luna. — O que exatamente ele estava usando? Tinha algum logotipo de time no seu chapéu? Ele tinha barba?

— Eu não me lembro — Madeline gaguejou. — Um boné preto. Ou talvez marrom. Eu acho que ele estava vestindo calça jeans.

— Você acha?

— Venha — eu disse, puxando o braço de Luna. — Ela não se lembra — Olhei nos olhos de Madeline. — Obrigada por sua ajuda.

— Ajuda? — Luna disse. — Ela não foi útil. Ela não pode sair por aí pegando envelopes de caras estranhos e não se lembrar da aparência deles depois.

— Ela achava que ele era meu namorado — eu disse.

Madeline assentiu com a cabeça vigorosamente.

— Isso, e eu sinto muito! Pensei que era um presente! Tinha algo ruim no envelope? Você quer que eu chame a polícia?

— Nós queremos que você se lembre de como o psicopata parecia — Luna revidou.

— Jeans preto! — Madeline soltou de repente. — Eu me lembro que ele usava um jeans preto. Quer dizer, estou quase certa que ele usava.

— Quase certeza? — Luna disse.

Eu a puxei para fora e descemos o calçadão. Depois que ela teve tempo suficiente para esfriar a cabeça, ela disse:

— Querida, eu sinto muito sobre isso. Eu deveria ter olhado primeiro dentro do envelope. As pessoas são tão estúpidas. E quem lhe mandou esse envelope é o mais estúpido de todos. Eu ficaria contente em ser uma estrela ninja, se eu pudesse.

Eu sabia que ela estava tentando aliviar o clima, mas os meus pensamentos estavam longe. Eu não estava mais pensando sobre a morte de meu pai. Tínhamos chegado a uma rua estreita entre as lojas e eu a puxei para fora do caminho.

— Escute, preciso falar com você. Ontem pensei ter visto meu pai. Aqui no cais.

Luna olhou pra mim, mas não disse nada.

— Era ele, Luna. Era ele.

— Ámbar... — ela começou com ceticismo.

— Eu acho que ele ainda está vivo. O funeral do meu pai foi de fachada. Talvez tivesse sido um erro, um mal-entendido e ele não teria morrido naquela noite. Talvez ele estivesse sofrendo de amnésia, e é por isso que ele não voltou para casa. Talvez alguma coisa o esteja impedindo. Ou alguém...

— Eu não sei como lhe dizer isso — disse Luna, olhando para todos os lugares e para mim. — Mas ele não vai voltar.

— Então como você explica o que eu vi? — Eu disse na defensiva, magoada por ela e todas as outras pessoas não acreditarem em mim. Lágrimas encheram os meus olhos e rapidamente começaram a descer.

— Era outra pessoa. Um parecido com o seu pai.

— Você não estava lá. Eu o vi. — Eu não ia voltar atrás. Eu não iria me resignar aos fatos. Não depois de tudo o que passei. Há dois meses eu me joguei das vigas do ginásio da escola. Eu sabia que morreria. Não me esqueço daquela noite, ainda assim.

Ainda sim estou viva hoje.

Havia uma chance de o meu pai estar vivo ainda hoje. Ontem eu tinha visto meu pai. Eu tinha. Talvez ele estivesse tentando se comunicar comigo, me enviando uma mensagem. Ele queria que eu soubesse que ele está vivo. Ele não gostaria que eu desistisse dele.

Luna balançou a cabeça.

— Não faça isso.

— Não vou desistir dele. Não até eu saber a verdade. Eu tenho que descobrir o que aconteceu naquela noite.

— Não, você não vai — Luna disse com firmeza. — Deixe a alma do seu pai descansar. Mexer com isso não vai mudar o passado, não vai trazê-lo de volta.

Deixar a alma do meu pai descansar? E quanto a mim? Como eu iria descansar até saber a verdade? Ela não entendia.

Ela não sabia como era ter seu pai inexplicavelmente e violentamente arrancado dela. Sua família não foi destruída. Ela tinha tudo. A única coisa que me restava era ter esperanças.

Passei a tarde de domingo no Bistrô Enzo's na companhia da tabela periódica, me concentrando na minha lição de casa, na tentativa de evitar qualquer pensamento sobre meu pai ou sobre o envelope que eu havia recebido dizendo que a Mão Negra foi a responsável pela morte dele. Só podia ter sido uma brincadeira. O envelope, o anel, a nota, tudo parte de uma piada cruel. Talvez Diego, talvez Jazmín. Mas com toda sinceridade eu não achava que tivesse sido nenhum dos dois. Diego parecia sincero quando ofereceu suas condolências para mim e para minha mãe. E Jazmín, sua crueldade eram quase sempre imatura e espontânea.

Uma vez que estava sentada à frente do computador e devidamente logada, corri para pesquisar na internet sobre a Mão Negra. Eu queria ter certeza da autenticidade do bilhete. Provavelmente alguém tinha encontrado o anel em uma loja de segunda mão, viu alguns aspectos sobre a Mão Negra, me seguiu até o calçadão, pediu a Madeline que entregasse o envelope para mim. Olhando pra trás, não importa que Madeline não se lembrasse da aparência do cara, muito provavelmente, ele não era a pessoa por trás da brincadeira. Essa pessoa com certeza tinha parado alguém por acaso na praia e pagou-lhe uns trocados para entregar o envelope. Isso é o que eu teria feito. Se eu fosse um doente, uma pessoa que gostasse de ferir as outras pessoas.

Uma página com links para a Mão Negra apareceu no monitor. O primeiro era sobre uma sociedade secreta que tinha alegado assassinar o Duque Franz Ferdinand da Áustria em 1914, colocando o mundo na Primeira Guerra Mundial. O link seguinte foi para uma banda de Rock. A Mão Negra era o nome de um grupo de vampiros em um jogo de “role-playing”. Finalmente, no início de 1900 uma gangue italiana apelidada de Mão Negra, invadiu NY. Nenhum link menciona o Maine. Nenhuma imagem de um anel de ferro com um punho cerrado pareceu.

Viu? Disse a mim mesma. Apenas uma brincadeira.

Percebendo que me desviei para um assunto em que não deveria estar pensando, voltei meus olhos para o meu dever de casa que estava diante de mim. Eu precisava decorar fórmulas químicas e calculo de massa atômica. Meu primeiro teste do laboratório de química estava chegando, e tendo Jazmín como parceira, me preparava para o pior, fazendo horas extras de estudo após a aula para aguentar o seu peso morto. Digitei alguns números na minha calculadora, em seguida transcrevi a minha resposta no notebook, repetindo em voz alta na minha mente para bloquear os pensamentos sobre a Mão Negra.

As cinco, liguei para minha mãe, que estava em New Hampshire.

— O check-in — eu disse. — Como está o trabalho?

— O mesmo de sempre. E você?

— Estou no Enzo's tentando estudar, mas o smoothie de manga continua me chamando.

— Agora você está me deixando com fome.

— Fome o suficiente para você voltar para casa?

Ela deu um daqueles suspiros “está fora do meu controle”.

— Eu queria poder. Nós faremos waffles e smoothies para o lanche no sábado.

As seis, Luna me ligou e me disse para encontrá-la na academia. Às sete e meia ela me deixou em casa. Tinha acabado de tomar banho e estava em frente à geladeira, caçando as sobras que minha mãe tinha guardado ontem antes de sair, quando ouvi baterem na porta da frente. Olhei pelo olho mágico. Do outro lado da porta, Diego Hernandez fez um sinal de paz.

— Batalha de Bandas — eu disse em voz alta, batendo a palma da minha mão na testa.

Eu havia esquecido completamente de cancelar. Olhei para minhas calças de pijama e suspirei. Após uma tentativa frustrada de arrumar meu cabelo molhado, virei a chave e abri a porta.

Diego olhou meu pijama.

— Você esqueceu.

— Você está brincando? Eu estava ansiosa o dia inteiro, estou apenas um pouco atrasada — apontei sobre meu ombro em direção à escada. — Vou me vestir, porque não... esquenta alguma coisa para comer? Tem um pote com tampa azul na geladeira.

Subi as escadas num pulo, fechei a porta do quarto, e liguei para Luna.

— Eu preciso de você agora — disse. — Estou indo para batalha de bandas com Diego.

— E o objetivo dessa ligação é me deixar com ciúmes?

Coloquei minha orelha na porta. Parecia como se Diego estivesse abrindo e fechando os armários da cozinha. Por tudo que sabia, ele deveria estar procurando prescrição para drogas ou cerveja. Ele iria se decepcionar em ambos os casos, no máximo iria achar as minhas pílulas de ferro.

— Não estou tentando fazer você ficar com ciúmes, apenas não quero ir sozinha com ele.

— Então diga que não pode ir.

— A questão é... eu meio que quero ir. — Eu não fazia ideia de onde veio esse desejo repentino. Tudo o que eu sabia é que não queria passar essa noite sozinha. Enchi meu dia de deveres, depois segui para a academia, e a última coisa que queria era ficar em casa hoje à noite e fazer uma lista de tarefas para o final de semana. Eu estive bem o dia todo. Eu merecia um pouco de diversão. Diego não era o melhor acompanhante do mundo, mas ele não estava morto, ainda. — Você vem ou não?

— Tenho que admitir, parece bem melhor do que ficar conjugando verbos em espanhol a noite toda em meu quarto. Vou chamar Benício e ver se ele quer ir também.

Desliguei e fiz um rápido inventário do meu armário. Decidi por uma blusa de seda clara, uma minissaia, meias opacas e saltos. Pulverizei um pouco de perfume e fui ao encontro da nuvem que se formou. No fundo da minha mente, eu me perguntava por que estava gastando tanto tempo para me arrumar para Diego. Ele não tinha futuro nenhum, não tínhamos nada em comum, e na maioria das nossas breves conversas trocamos alguns insultos. E não era só isso, Simon tinha me dito para ficar longe dele. E isso quando ele estava brigando comigo. Por algum motivo fiquei atraída por Diego, motivos de natureza psicológica, com contestação e vingança envolvidos. E tudo apontava para Simon.

Eu via isso assim, poderia fazer duas coisas: Ficar em casa e deixar Simon ditar a minha vida ou minha vida de escola, boa garota ter um pouco de diversão. E mesmo não querendo muito admitir, tinha esperanças de o Simon descobrir que fui à batalha de bandas com Diego. Eu esperava que o pensamento de mim com outro cara o deixasse louco. Opinião formada, eu joguei minha cabeça pra frente, secando o meu cabelo o suficiente para definir meus cachos e segui para a cozinha.

— Pronto — disse Diego.

Ele me deu uma segunda olhada de cima para baixo, mas dessa vez me senti mais autoconfiante.

— Está bonita, Smith — avaliou.

— Igualmente — sorri, sendo um pouco simpática, mas fiquei nervosa. Que ridículo, esse era Diego. Nós éramos amigos. Nem mesmo amigos, apenas conhecidos.

— A consumação mínima é de dez dólares.

Fiquei parada por um momento.

— Ah. Eu sabia disso. Podemos parar em um banco no caminho? — Eu tinha cinquenta dólares que ganhei de aniversário e estava depositado na minha conta corrente. Eu já tinha destinado para compra do Cabriolet, mas retirar apenas dez dólares não iria arruinar meus planos. No ritmo que eu estava guardando, eu não seria capaz de comprá-lo antes do meu vigésimo quinto aniversário, de qualquer forma.

Diego jogou uma carteira de motorista do Maine no balcão, com a minha foto do anuário copiado por ele.

— Valentina, OK?

Valentina?

— Eu não estava brincando sobre a identidade falsa. Você não está pensando em desistir, não é? — ele sorriu como se soubesse exatamente quanto a minha pressão arterial tinha aumentado com a simples ideia de usar uma ID ilegal, e ele apostou todo o seu dinheiro que eu daria pra trás em cinco segundos.

Quatro, três, do...

Peguei a ID do balcão.

— Pronto.

Diego dirigiu o Mustang pelo centro de Coldwater até o lado oposto da cidade, algumas estradas sinuosas para trás e todo trilho do trem. Ele parou em frente a um armazém de tijolos invadindo por ervas daninhas que entrelaçavam a fachada. Uma longa fila de pessoas aguardava na frente da porta. Pelo que eu podia reparar, as janelas haviam sido cobertas por dentro com papel preto, mas por algumas brechas eu vi um pedaço de luz estroboscópica. Uma placa de neon por cima da porta brilhava com as palavras

THE DEVIL'S HANDBAG.

Eu já tinha vindo a essa parte da cidade uma vez, na quarta série, quando meus pais levaram Luna e eu para uma casa assombrada numa encenação de Halloween. Eu nunca tinha visto o Devil's Handbag, mas tinha certeza que apenas olhando que minha mãe odiaria me ver aqui. A descrição que Diego fez daqui veio em minha memória. Música alta espontânea. Multidão incontrolável. Muito sexo louco nos banheiros. Caralho!

— Eu vou te deixar aqui — disse Scott, indo na direção da rua. — Encontre bons lugares. Perto do palco, no centro.

Desci e fui atrás da fila. Com toda honestidade eu nunca fui a um clube que cobrasse couvert antes. Eu nunca fui a um clube, ponto. Minha vida noturna era composta de filmes e Baskin-Robbins com Luna. Meu celular tocou o ringtone de Luna.

— Eu ouço uma música de fundo, mas tudo o que eu vejo são trilhos de trem e alguns vagões abandonados.

— Você está a alguns quarteirões. Você está com ou sem o Neon?

— Com o Neon.

— Eu vou te encontrar.

Saí da fila, que foi crescendo a cada minuto. No fim do quarteirão, dobrei a esquina, indo em direção ao caminho que Diego tinha feito para chegar aqui. A calçada estava rachada e desigual, em razão de anos de abandono. E com os postes colocados um pouco distantes entre si, por isso tive que diminuir meu passo para evitar tropeços.

Os armazéns na parte de baixo do quarteirão eram escuros e as janelas como olhos vazios. Os armazéns viraram moradias cobertas de pichações nos tijolos. Mais de cem anos atrás, esse foi o centro de Coldwater. Hoje não é mais assim.

A lua lançou uma luz misteriosa e transparente sobre o cemitério de edifícios. Cuzei os braços apertados e andei mais rápido. Há dois quarteirões de distância, uma forma se materializou na névoa escura.

— Luna?

A figura continuou em minha direção, de cabeça baixa, mãos escondidas. Não era Luna, mas um homem alto e esguio, com ombros largos e um jeito de andar levemente familiar. Não me sentia exatamente confortável por estar sozinha nesse trecho da calçada com um desconhecido, peguei meu celular no meu bolso. Eu estava prestes a ligar para Luna e saber sua localização exata, quando o homem passou por um poste de luz na rua. Ele estava usando a jaqueta de couro do meu pai.

Parei.

Completamente indiferente a mim, ele subiu um lance de escadas para a direita e despareceu dentro de uma das moradias abandonadas.

Senti um frio na nuca.

— Pai?

Num movimento automático, atravessei a rua sem olhar para os lados, sabendo que não havia nenhum carro. Quando cheguei ao sobrado eu tinha a certeza de que ele havia entrado. Tentei a porta dupla alta. Fechada. Apertei os punhos, batendo nas portas, sem resposta. Coloquei minhas mãos ao redor dos meus olhos e tentei espiar pelas janelas ao lado da porta. As luzes estavam apagadas, eu podia ver alguns móveis cobertos por lençóis claros. Meu coração estava batendo descompassado. Era meu pai vivo? Durante todo esse tempo, será que ele tinha vivido aqui?

— Pai! — chamei através do vidro. — Sou eu, a Ámbar. — No topo da escadaria no interior do sobrado, os sapatos desapareceram no corredor. —Papai! — Gritei através do vidro. — Estou aqui fora!

Recuei, com a cabeça inclinada para cima, olhando para as janelas do segundo andar, olhando sua sombra passar.

A entrada dos fundos. O pensamento me veio à mente, eu imediatamente fui até lá. Desci as escadas, escorregando para o corredor estreito entre essa casa e a vizinha. Claro, se a porta de trás estivesse aberta, eu poderia entrar e ver meu pai.

Mais uma vez senti um frio na nuca. O frio vinha da ponta dos pés e passava por minha coluna, momentaneamente me paralisando. Eu estava no final da passagem estreita, olhos fixos no quintal. Arbustos balançando docilmente pela brisa. O portão aberto rangeu as dobradiças. Muito lentamente, me afastei, não confiando no silêncio. Não acreditava que estivesse sozinha, eu já tinha me sentido assim antes, sempre sinalizando perigo.

Ámbar, não estamos sozinhos. Alguém mais está aqui. Volte!

— Pai? — Sussurrei, minha mente disparada.

Vá encontrar Luna. Você precisa sair!

Vou encontrá-la novamente.

Depressa!

Não me importava com o que ele estava dizendo, eu não estava saindo. Não até saber o que estava acontecendo. Não até vê-lo. Como eu poderia sair daqui? Ele estava aqui. Uma vibração de entusiasmo e alívio nervos borbulhou dentro de mim, encobrindo qualquer medo que estivesse sentindo.

— Pai? Onde você está?

Nada

— Pai? — Tentei novamente. — Não vou sair...

Dessa vez houve uma resposta.

A porta dos fundos está destrancada.

Toquei minha cabeça, sentindo as palavras ecoando dentro dela. Algo estava diferente em sua voz agora, mas não o bastante para não reconhecê-la. Ligeiramente mais fria, mais nítida, talvez?

— Pai? — Sussurrei baixo.

Estou aqui dentro.

Sua voz era mais alta, real. Não só na minha mente agora, mas nos meus ouvidos também. Me virei para a casa, certa de que ele falava através da janela. Cortando caminho, tentei colocar minhas mãos no vidro. Eu desesperadamente queria que fosse ele, mas ao mesmo tempo, senti um frio na barriga, surgindo em toda a minha pele, me avisando que aquilo poderia ser um truque. Uma armadilha.

— Pai? — minha voz tremeu. — Estou com medo.

Do outro lado do vidro, um espelho, cinco pontas de dedos alinhando-se com os meus. No dedo anelar estava à aliança de casamento do meu pai. Meu sangue bombeou tão depressa que me senti tonta. Era ele. Meu pai estava a alguns centímetros de distância. Vivo.

Entre. Não vou machucar você. Venha, Ámbar.

A urgência em suas palavras me assustou. Eu agarrei a janela, tentando achar a trava, precisava desesperadamente me jogar em seus braços e impedi-lo de ir embora novamente. Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Pensei em correr até a porta de trás, mas não conseguia deixá-lo, mesmo que por alguns segundos. Eu não podia perdê-lo novamente.

Bati minha mão na janela, mais forte dessa vez.

— Estou aqui, pai.

Desta vez, o vidro ficou fosco ao meu toque e minúsculas fibras de gelo ramificavam em todo o vidro com um barulho frágil e crepitante. Afastei meu braço com o frio repentino, mas minha pele estava grudada ao vidro congelado. Chorando, tentei me libertar usando a outra mão. A mão do meu pai passou pelo vidro em torno da minha, me segurando para que eu não conseguisse sair. Ele me puxou para frente segurando minha roupa, meu braço inexplicavelmente desaparecendo da janela. Meu reflexo apavorado pareceu novamente, com minha boca aberta comecei a gritar. O único pensamento que veio a minha cabeça é que aquele não poderia ser meu pai.

— Socorro! — Eu gritei. — Luna! Você pode me ouvir? Socorro!

Inclinando meu corpo de lado, tentei usar meu peso para me libertar. A dor aguda cortava meu antebraço, uma facada explodiu em minha mente com tal intensidade que pensei que minha cabeça estivesse partida em duas. O fogo lambeu meu antebraço, ele estava me cortando.

— Pare! — Gritei — Você está me machucando!

Senti sua presença por toda a minha mente, sua própria visão ofuscando a minha. Havia sangue por toda parte. Vermelho, escorregadio... e meu. A bile passou pela minha garganta.

— Simon! — Gritei para a noite com nada menos do que terror e absoluto desespero.

A mão se dissolveu em torno da minha. Caí para trás no chão. Instintivamente, segurava meu braço ferido contra a minha blusa para estancar o sangramento, mas para minha surpresa, não havia sangue e nenhum corte.

Engolindo o ar, eu olhava para a janela. Perfeitamente intacta, refletindo as árvores atrás de mim, balançando para frente e para trás no vento da noite. Corri cambaleando para a calçada. Corri na direção do Devil's Handbag, virando para olhar sobre meus ombros a cada passo. Eu esperava ver meu pai — ou seu sósia — aparecer das casas abandonadas segurando uma faca, mas a calçada estava vazia. Virei para frente para atravessar a rua e num piscar de olhos esbarrei com uma pessoa na minha frente.

— Ai está você — disse Luna, estendendo a mão para me segurar quando sufoquei um grito. — Achei que tínhamos nos desencontrado. Eu fui até o Devil's Handbag e voltei para trás para te encontrar. Você está bem? Você está olhando com se fosse vomitar.

Eu não queria ficar na esquina pensando sobre o que havia acontecido na casa abandonada, me lembrava do que aconteceu com Chauncey e o Neon. Momentos depois o carro tinha voltado ao normal, não deixando nenhuma evidência do acidente. Mas dessa vez era o meu pai. Meus olhos ardiam, meu queixo tremia enquanto falava.

— Pensei ter visto meu pai novamente.

Luna me abraçou.

— Ámbar...

— Eu sei. Ele não era real, não era real. — Repeti, tentando me tranquilizar. Pisquei várias vezes seguidas, as lágrimas manchavam a minha visão. Mas ele parecia real. Tão real..

— Você quer falar sobre isso?

O que eu poderia dizer? Que estava sendo assombrada? Alguém estava brincando com minha mente? Fazendo-me de brinquedo? Um anjo caído? Um Nephilim? O fantasma do meu pai? Ou foi a minha própria mente me traindo? Não foi como da primeira vez que imaginei ver meu pai. Eu pensei que ele pudesse estar querendo se comunicar comigo, mas talvez fosse um mecanismo de autodefesa. Talvez minha mente estivesse me fazendo ver coisas que recusei a aceitar e que se foram para sempre. Eu estava preenchendo o vazio, porque era mais fácil que seguir em frente.

O que quer que tenha acontecido naquela casa abandonada, não era real. Não era meu pai. Ele nunca me machucaria. Ele me amava.

— Vamos voltar para o Devil's Handbag, — eu disse, trêmula.

Eu queria me distanciar daquela casa abandonada o mais rápido possível. Mais uma vez disse pra mim mesma, seja que lá quem fosse que tinha visto lá, não era o meu pai.

O eco de batidas das baterias e guitarras que estavam aquecendo para o show ficou mais alto, enquanto meu pânico foi lentamente passando, senti meu coração desacelerar. Há algo tranquilizador na ideia de me perder no meio de uma centena de pessoas lá dentro. Apesar do que tinha acontecido, eu não queria ir para casa, eu não queria ficar sozinha, eu queria me perder no meio da multidão. Eu queria isso.

Luna agarrou meu pulso e me perguntou.

— É quem estou pensando?

Na metade do quarteirão de cima, Jazmín Carvajal estava subindo em um carro, vestindo um mínimo de tecido preto, curto o suficiente para mostrar suas roupas íntimas. Saltos pretos e brincos longos complementavam o look. Mas não foi isso que me chamou a atenção. Foi o carro. Um Jipe Commander preto brilhando. O motor roncou e o Jipe virou a esquina até sair de vista.



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