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História I don't wanna hurt you - Capítulo 10


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Notas do Autor


TÔ DE VOLTA, FINALMENTE TERMINEI ESSE. CAPÍTULO

Capítulo 10 - Chapter X


Pov Aziraphale  

Crowley dirigia lentamente, a luz crepuscular refletindo no rosto, escamas o ondulando e desaparecendo, fracas. Guiava o volante com uma mão, a outra atada a minha. Parece sereno, tranquilo. 

Eu estava simplesmente e completamente em paz. 

Sorrio, pegando sua mão e dispondo um pequeno beijo na palma. 

Ele se vira tão rapidamente que tenho certeza que poderia ter quebrado um pescoço comum. Sua expressão é cômica: lábios entreabertos e sobrancelhas arqueadas. Os olhos [agora de seu dourado habitual] me encaram chocados. Presumo orgulhosamente que, se tivesse batimentos cardíacos, seu rosto estaria em chamas. 

Então sua face suaviza, e ele sorri, terno e apaixonado. Pega minha mão, levando-a à seu rostô e respirando fundo, parecendo testar o ar. Fecha os olhos. 

Oh, me desculpe, querido. Esqueço-me de suas limitações as vezes. Principalmente agora que sei o quanto é difícil. Me perdoe... 

Antes que possa puxar minha mão, ele os abre, roçando suavemente os lábios frios no meu pulso, nada mais que um leve pincelar. 

Fico completamente imóvel.  

Crowley me olha, preocupado. 

- Respire, anjo. 

Nem reparei a escuridão adornando minha vista. Quase engasgo com o ar. 

Ele sorri, agora ternamente. 

- "A consciência de amar e ser amado traz um conforto e riqueza à vida que nada mais consegue trazer." - recita, me olhando profundamente. 

Coro, sorrindo encantado. 

- Oscar Wilde? 

- Claro, anjo. - lhe dirijo um olhar desconfiado, e ele solta um som de falsa indignação. - Nossa, me sinto ofendido com tamanha desconfiança! Até eu tenho meu lado poético.  

- Ok, querido. Apenas não me parece de seu estilo. 

Ele bufa.

- É claro que não é meu estilo, Azi. Apenas ia em suas performances por tédio.

Arregalo os olhos, guinchando:

- Você foi aos concertos de Oscar Wilde?! 

Crowley olha para baixo, parecendo nervoso. E culpado. - Oops. 

- Bem...    

                         

                               ~~~ 


Parabéns, Crowley. 

Muito bem. 

Você não consegue manter a boca fechada, não é? 

Não, aparentemente.  

Agora que já fez o favor de começar, desembuche logo. 

- ... sim. 

Espero, encolhido, pelo choque. Sempre esperando o dia em que sua aceitação chegaria ao limite. Mas ele apenas me encara, cenho franzido. 

Então sua expressão se fecha, ficando triste.

- Você não vai mesmo me contar sua idade. - não parece uma pergunta. 

Eu quero anjo, eu quero. 

Mas contar minha idade implicaria contar sobre minha vida humana, a fase após a transformação [o que era por si só algo espantoso] a promessa... 

Estremeço.

Fico apenas imaginando sua reação. - não estava mentindo.  

- Teste-me, querido. - Aziraphale brinca, tentando quebrar o clima. Isso me dá o gatilho que preciso.

Respiro fundo, um fôlego doloroso e desnecessário, e solto. 

- Nasci nas limitações de Londres, Inglaterra, em 1637. - paro, tenso, esperando sua reação. Além do leve acelerar de pulso, ele continua impassível. Continuo. - Não me lembro muito da minha vida humana, as memórias mortais se esvaem com o tempo, e você pode ver que há muito tempo disso. - rio sem humor. 

- Como era? Os costumes, sua... família? - Azi pergunta timidamente.  

- Não há muito a contar, realmente. Eu era filho único de uma família simples. Minha mãe era muito rígida, então as memórias que guardo dela não são muito agradáveis. Meu pai morreu quando estava na minha adolescência.  

- Oh! Sinto muito querido! - Aziraphale diz, triste e com olhos começando a marejar. 

- Hey, não fique triste. - digo, tentando impedir suas lágrimas. - Eu nem me lembro de seu rosto. Ele era muito distante comigo. Te garanto, não mantenho sentimentos por ele. 

Azi funga, se endireirando. Me concentro, tentando repescar mais alguma coisa... 

Então sorrio. 

- Meu nome era Anthony. Anthony J. Crowley.  

O efeito é imediato, e bem o que esperava. Seus olhos se iluminam. 

- Mesmo? Anthony... posso me acostumar com isso.  

- Ah, por favor, não! - rosno, revirando os olhos. - Eu odiava esse nome. Por que acha que não o uso mais, anjo? 

- Oh, querido, mas é tão lindo! Cordial, elegante... porém, se você não quiser eu não irei-- espere, o que o J significa? 

- Se eu lhe disser que não lembro, você acreditaria? - e eu realmente não lembrava. Na minha infância odiava tanto o sobrenome que usava a abreviação. - Só sei que era terrível.  

Ele ri, e automaticamente acompanho. 

- E a transformação, querido, como foi? 

Minha expressão cai, ficando instantaneamente séria. Vejo-o regredir, transgredindo de culpa. 

- Oh! Desculpe-me, Crowley! - coloca uma mão sobre o rosto, corando de raiva. - Sou tão estúpido! É claro que não deve ter sido algo apreciável! Eu me sinto tão-- 

Aziraphale! - afasto o mais suavemente possível suas mãos. Olhos azuis chorosos me encaram confusos. - Anjo. Nunca tenha medo de me questionar. Qualquer coisa que queira perguntar, que tiver curiosidade, pergunte. Eu sempre responderei sinseramente.

Ele acente, ainda com a cabeça baixa.  

Fecho os olhos. Não era uma memória exatamente amistosa para relembrar.  

- Inglaterra no século XVII não era fácil. A monarquia era mais imposta, árdua. Se você nascia pobre, um agricultor, você sempre seria um agricultor. - reviro os olhos. - Mas para mim, não era o suficiente. Não tinha a ânsia de servir o exército, muito menos me casar. - lhe lanço um olhar sugestivo, e ele cora. Sorrio. - Por isso, minha ganância sempre fora ter o título de nobreza.  

"Juntei dinheiro. Desde que saira de casa, não aguentando minha mãe e seus insultos. Montei minha própria herdade, nada muito atrativo. Mas rendeu, e juntei depois de alguns anos o dinheiro necessário.  

A pré-ordem dos títulos era comprada e recebida no Castelo de Buckingham, no centro de Londres. Tinha 29 anos na época, e seria uma longa jornada. Semanas a cavalo. Mas mesmo assim, fui. Estava tão animado! Finalmente conseguira o quê tanto ansiava!" 

Abaixo os olhos, mirando a estrada vazia. 

- Fora uma péssima idéia. Você é inteligente, acho que já sabe o porquê.  

- Peste Justiniana. - Aziraphale sussura. 

Suspiro. 

- Peste Justiniana.  

"É claro, não tinha esse nome. Os curandeiros não sabiam o quê era, apenas que era forte e altamente contagiosa. A Peste já havia chegado a Europa, e a capital estava um caos. Nós, das periferias, não sabíamos. Não tínhamos informação. - ranjo os dentes, frustrado. - Quando estava na estrada, esbarrei com outras famílias que estavam tomando o mesmo rumo. Até que nas semanas seguintes o caminho ficou vazio. 

Tudo estava relativamente normal, para uma viajem na época. Comia, bebia, descansava o cavalo. A ansiedade me deixava eufórico, e não esperava até chegar ao Castelo. - sorri, azedo. - Passava horas a fio fantasiando sobre a cerimônia. Havia treinado minha assinatura apenas para a ocasião. 

Todavia, na terceira, quarta semana, eu comecei a tossir. Muito. Não dei muita atenção. Apenas um resfriado pensara. Seguia em frente, mesmo que enfraquecido. 

Mas então, veio o sangue." 

O silêncio pondera o carro. Aziraphale encara estático as árvores que passam rapidamente por nós.  

- Então eu caí. Literalmente caí do cavalo. - brinco, mas o clima está muito pesado para amenizar. - Estava perdendo a consciência. O cavalo guinchava, desorientado. Quase tanto quanto eu naquele momento. E lembro de pensar: É o fim. Acabou. Tudo acabou antes mesmo de começar.  

Não registro o aperto cada vez mais tenso de Aziraphale na minha mão.  

- Não me recordo da face do vampiro que me encontrou. Mas a sensação de quando seus lábios encontraram meu pescoço não é algo que eu me esqueça. - engulo em seco. - Ele devia ser jovem, inexperiente. Pois quando sugara, soltara veneno também. Procurava apenas uma refeição, não sabendo que estava me transformando no processo.  

"Estava muito fraco, não me lembro muito da dor da doença. Essa memória foi... - sinceridade, Crowley. Sempre. - amortecida com a proximidade da transformação. - repuxo os lábios. - Mas me lembro exatamente da sensação do veneno correndo em minha veias, matando cada célula mortal." 

- São três dias de pura agonia, pura tortura. Você não diferencia mais o tempo, e a dor está tão insuportável que você implora pela morte. - divago, sem dosar meus pensamentos. Quase me esquecendo de que não estou sozinho. 

Até que ouço um soluço.  

E percebo o tremor na minha mão esquerda. 

- Aziraphale! - digo alto, definitivamente não gritando em pânico. - Anjo. Por favor, olhe para mim. 

Ele apenas balança a cabeça. Vejo algo brilhar em sua bochecha com o movimento.  

Uma lágrima.  

Eu havia feito ele chorar. 

Você acaba de contar a história da sua morte. O quê quer que ele faça? Sorria? 

Idiota. 

Engulo a raiva, virando suavemente seu queixo. Seus olhos não encontram os meus. 

- Anjo, me perdoe. Eu não devia ter contado... merdaO quê eu queria com isso? Por que eu não mantenho minha boca fechada--

- Crowley. - Aziraphale murmura, assustadoramente inexpressivo. Fico quieto. - Querido. Você me disse para nunca temer questionar, agora eu digo: nunca tema contar sua história. Tire esse peso dos ombros, divida-o comigo. Não sou tão frágil como aparento, amor. 

Arregalo os olhos, abrindo um sorriso. Esse anjo vai acabar me matando de fofura um dia. 

Limpo gentilmente o rastro das lágrimas, descansando minha mão em sua bochecha. Ele se inclina ao toque. 

Retiro-a, apenas para pegar sua mão. Dou um leve aperto, questionador. 

Posso continuar? 

Ele acente em resposta. 

- No meu período ainda consciente, algum instinto de sobrevivência assumiu, e rastejei floresta adentro. 

- Por quê? 

- Eu ainda estava na estrada, Azi. Qualquer um poderia passar e me ver. Naquela época eles sabiam o que éramos, como nos matar. - faço uma careta. - Ligur tinha razão quanto a isso. É muito mais fácil caçar agora que somos mitos. - balanço a cabeça, entojado. 

- Me conte, Crowley, você sempre foi assim? "Vegetariano"? - me pergunta, tímido.  

Ah. 

Encaro o volante, imóvel. Não tinha noção de sua reação a essa parte da história. Não era algo de que eu me orgulhava, mas lhe prometi sinceridade. E eu a daria. 

Mesmo que me custasse seu medo. Nojo. 

- Estamos quase lá. - digo por entre dentes cerrados. Ele franze o cenho, mas não diz nada. 

Continuo. 

- Por entre a dor abominável, vago entre as árvores, cambaleante. Até que avisto um pequeno armazém abandonado. Rastejo pela janela que nem percebi que havia quebrado. Nem o vidro era capaz de me ferir. - suspiro, cansado. - Então me encolho em um canto, meus olhos a muito fechados. Mordo minha túnica para não chamar atenção indesejada, agarro meus cabelos e aguento. 

Aziraphale pressiona um pouco minha mão. Lhe dou um aperto reconfortante.  

- Os três dias se passaram, como era de se esperar. Para mim, havia sido uma eternidade. Mal eu sabia que a verdadeira eternidade estava apenas começando. - reviro os olhos. - Para a maioria dos mortais isso seria uma dádiva. Tanto que alguns procuram vampiros que os transformem. Tontos. Não reconhecem a danação onde querem se meter. 

- A eternidade não é interessante quando você não tem ninguém com quem compartilhá-la. - Aziraphale balbucia. 

Minha expressão se fecha. Estava chegando a essa parte também.  

- A primeira coisa que reparei quando passou fora minhas mãos. Poucos dias após a transformação, sua verdadeira forma é revelada. A forma que você viu no sol. A única diferença estão as íris. - encaro meu reflexo no visor. - Sangue humano ainda corre nas veias, modelando sua forma e retirando sua sede. Rubros, desmedidos. - abaixo a cabeça, menoscabo. - A aparência de um monstro. 

- Crowley... - Aziraphale começa, mas já o corto. O faria ver a razão. A razão que eu não queria aceitar. 

- A resposta é não, anjo. Eu nem sempre fui assim. - rilho, depressiativo. É agora. - Na primeira década como vampiro, eu consumia... sangue humano.  

O silêncio retorna, pesado e deplorável. Sua respiração é superficial, os batimentos aceleram. Não desvio o olhar da estrada. Não queria ver sua expressão. 

Tento retirar minha mão, ignorando a dor e tristeza que isso me traz. 

Mas ele a segura. 

A mantém firmemente na sua, como se achasse confortável. Como se não ligasse para o que acabara de ouvir. Finalmente o olho, confuso. 

E vejo-o sorrir. 

Calmo. Contemplativo. Como se não tivesse sentado ao lado do monstro que revelara que já matou sua espécie.  

- Ok. Agora você realmente passou dos limites. - digo, voz robotizada. - Suas reações não são naturais! Como você pode ser indiferente ao fato de que me alimentei de sua espécie? - solto, mostrando minhas presas. Eu estava com raiva. Ele acabaria se matando com essa falta de noção ao perigo.  

Aziraphale apenas dá de ombros. Gemo, recostando-me no banco. 

- Primeiramente: drama queen. - revira os olhos com carinho. Estou muito angustiado para revidar. - E segundo: eu nunca poderia julgá-lo por algo que é puramente sua natureza. Ainda mais agora, que sei como é difícil resistir. Na verdade, te admiro, querido. - o olho cético,  mas a esperança estava crescendo dentro de mim. - Crowley! Você passou mas de 200 anos resistindo. Deveria sentir olgulho de si mesmo, querid--

Não o deixo terminar. Meus lábios encontram os seus gentilmente, minha resistência caindo e afundando até o sétimo círculo do Inferno. Ele arqueja assutado, mas logo se entrega ao gesto.  

Minha felicidade ultrapassa a sede, e sorrio, fechando os olhos. Seu cheiro não me tortura agora.  

Até que ouvimos uma buzina. Azi se afasta, rindo. 

- Acho que você deveria se concentrar na estrada, querido. 

Nem percebi que estava quase no centro de Londres. Finjo não notar a ironia. 

Praguejo.

Tráfico estúpido. 

- Bem, e então, querido? - Azi pergunta, ainda rindo.

Me recomponho, voltando a expressão calculada.

- Eu voltei a cidade. Como disse, nos primeiros dias você não tem sede. Eu não sabia o que eu era, nunca acreditei em vampiros, mesmo na época. - O sinal fica vermelho. Piso no freio. - Óbvio que não passei despercebido. Estava amortecido, alheio a meus olhos rubros, as escamas em meu corpo. Me perseguiram. - abro um sorriso melancólico. - Até que ela aparece.

- Ela? - Aziraphale pergunta com voz baixa e... seria isso ciúmes?

Sorrio mais abertamente.

- Nem perca seu tempo com ciúmes, anjo. - ele abre a boca para discutir, mas o calo com um selinho. Sinto o calor de seu rosto corado do meu assento. - Sou tão gay quanto você. Além do mais, você é meu primeiro. - digo, envergonhado. E será meu único se me permitir. - Ela é minha irmãzinha caçula, por assim dizer.

Sinto-o relaxar. Embora tente se manter impassível, seu rubor o denuncia.

- Aparentava 11 anos, no máximo. Ela distraiu a multidão, e me arrastou até a floresta. Estava muito pasmo, perdido em sua beleza pura. Pele negra, cabelos encaracolados e incríveis olhos âmbar. Ainda não tinha percebido seu cheiro diferente, não atrativo. Me levou até sua casa, no meio de uma colina.

"Ela me explicou o que eu era, o que teria de esperar da minha existência a partir de agora. Como me misturar aos mortais e não ser reconhecido. E então, me deu uma escolha.

Ficar com ela, aprendendo por alguns meses, ou partir. Escolhi ansiosamente a primeira. Já tinha ficado sozinho por muito tempo. 

Então veio a questão da alimentação. - engulo em seco. - Ela me mostrou sua antelação: viver normalmente com os humanos, resistindo, e se alimentar de sangue animal. Concordei avidamente. - abaixo a cabeça. - Achava inocentemente que era fácil."

- Não era. Percebi isso quando os dias imunes e exauridos de sede acabaram. 

Aperto o volante com mais força. Não queria falar desta parte. De como fui fraco, débil. O resultando de um autocontrole baixo.

Aziraphale parece perceber, e pergunta.

- Ela não se importou com essa... divergência?

Relaxo, lhe lançando um olhar agradecido.

- Não. Pepper não concordava, porém respeitava. Vivemos por bem mais do que os meses programados. Ela era a irmãzinha que eu nunca pensei que teria. - sorrio. O sinal abre. Giro a ignição. - Foi uma dádiva quando criaram os óculos escuros. Assim podia ir a população com ela, quando estava alimentado, é claro. Vivemos normalmente por mais de 10 anos. - repuxo os lábios, rosnando. - Até que eles chegaram. Os Volturi. 

- Volturi? 

- São os vampiros mais antigos. Eles quem criaram as regras, e sim, regras para vampiros. São muito precisos em punir quem não as cumpre, e também muito bons em manter o sigilo da nossa espécie. - faço uma careta, cuspindo seus nomes. - Aro e os gêmeos Jane e Alec. Eles quem comandam uma laia de seguidores que só estam lá por bebida de graça. - vejo Aziraphale estremesser. Amaldiçoo baixinho. - Eles são os mais temíveis, mais cruéis. Não tem um pingo da humanidade que um dia serviram. 

- Pode me contar mais sobre eles? Sobre os Volturi?

Eu não queria. Mas faria um esforço por meu anjo. Respiro, a ardência retornando.

- Alec é o terceiro na hierarquia. Sinseramente, só está nessa posição por causa de sua irmã. Não tem dom especial, mas compensa isso com sua determinação e violência. 

"Jane é... a pior. - extremesso. Meus ossos rangiam apenas em pensar em Jane. - É a segunda na hierarquia, e seu dom é tão atroz, tão vil que me faz pensar em que tipo de pessoa ela era em sua vida humana. - fecho os olhos. Uma criatura como Jane não deveria existir, muito menos se tornar vampira. - Saberá seu dom em breve.

E finalmente... Aro. O líder, o Mestre. - paro um momento para xingar o volvo prata que passa a 120 km por hora ao meu lado. Apenas eu poderia dirigir a 120 km por hora. Aziraphale pirragueia, e demoro um pouco para voltar ao raciocínio. - Seu dom não é excepcionalmente cruel, nem sua personalidade. É muito pior. Jane e Alec podem sentir prazer na tortura, mas se amam. Se sacrificariam um pelo outro, com certeza. Mas Aro não sente nada. - pisco, balançando a cabeça. Sentia raiva, muita raiva de Aro. Mas também sentia pena. Não sabia se pessoas insensíveis mereciam misericórdia, mas serviam para te fazer agradecer por ainda ter um coração humano, no caso de ser um vampiro. 

Seu dom é simples, mas extremamente eficaz para alguém que está em sua posição. Consegue ver, ouvir e sentir tudo o que você já viveu. Tem acesso a todas as suas memórias,  com um simples toque." 

Aziraphale inclina a cabeça, pensativo.

- Muito cabal, se me permite dizer.

- Absolutamente.

- Eles ainda estão vivos?

- Infelizmente sim. - balanço a cabeça. - Não é tão fácil matar vampiros que estão aqui deste a época do Eden. - Sorrio. Azi ri com isso.

- Quais são as regras?

- Não muitas, mas rígidas. Não se mostrar a humanidade é a principal. Só essa abrange uma série delas. - fico sério quando me lembro. Ranjo os dentes. - Uma delas é que crianças não podem ser transformadas. E se já são... - obrigo as próximas palavras a saírem, engasgadas. - são eliminadas. 

- O quê? Mas porquê? - Aziraphale parece pasmo. Acho que já reparou a relação dessa regra com minha história. 

- Elas são consideradas um perigo para nossa sociedade. - como se fossemos uma sociedade penso. - Não conseguem controlar a sede, e nos revelam. 

- Foi isso que aconteceu com Pepper, não é? - Aziraphale pergunta com voz baixa, irada. E triste.

Assinto rigidamente, controlando para não esmagar o volante sob meus dedos. E, principalmente, sua mão. 

Sinto que ele não quer me pressionar, mas a curiosidade e confusão se tornam quase palpáveis. Respiro, focando as nuvens negras acima. Iria chover logo. E seria uma tempestade das grandes.

- Pepper queria ir a Itália para procurar um livro. - franzo o cenho, tentando lembrar. - The Nice and Accurare Profecies of Agnes Nutter, Witch.

- Ah, é realmente um livro muito raro. - Aziraphale murmura.

- Tão raro que custou sua vida. - balbucio, inalditível a ouvidos humanos.

"Chegamos por volta de algumas horas. Correr é muito fácil para nós. O leilão ocorreria num banco clandestino em Volterra, na noite daquele mesmo dia.

Mas para tudo há um porém, e nesse caso era estar no lugar errado. Os adeptos de Aro nos sentiram, e nos atraíram para o subterrâneo. - ranjo os dentes. - Foram tão cordiais que fomos a Cúpula contra própria. Sem discussões, sem lutas. Seus pensamentos eram muito cuidadosos, e não reconheci que estávamos indo à um matadouro. - solto sua mão para trocar a marcha. A ponta se molda ao meu toque. Preciso de alguns segundos para me controlar, então seguro sua mão novamente. 

Quando chegamos, eles nos confrontaram, no acusaram. Tentamos explicar como Pepper era controlada, até mais do que eles próprios, e como não revelara nem revelaria nada. - respiro fundo. - Eles não aceitaram. E atacaram."

- Mas Crowley, eu ainda não entendo. - Aziraphale balbucia, gesticulando nervosamente. - Se o problema era a exposição da espécie, por que a... - sua voz morre. Ambos já entendemos.

- É precisamente o ponto, anjo. Não a mataram por que ela era uma criança, mas porquê tinham medo de que ela os queimasse por não terem a mesma ideia de alimento. - rosno, rangendo os dentes. 

- Mas o quê...?

- Azi, Pepper tinha um dom... ilustre. Nem ela o compreendia direito. Era perigoso, sim. E difícil de controlar. Mas ela o fazia, e bem. - penso em, como ela mesma chamava, suas recaídas. - Podia fazer coisas levitarem, estilhaçarem ou até mesmo se incendiarem. Isso era o que eles temiam. Mas eles não a conheciam, não sabiam como ela nunca o usara, como o temia. Não sabiam e nem tentaram entender. - Aziraphale aperta minha mão com mais força. 

"A luta fora injusta. Eu conseguia desviar dos golpes, por questão das mentes anunciarem o que fariam antecipadamente, mas Pepper não. Era muito menor que os outros, e não queria usar seu dom de jeito nenhum, nem mesmo com minhas súplicas. - mordo o lábio, cerrando-o. - Eu sabia que ela não se livraria sozinha, então fui ajudá-la.

Então Jane entra na cena. - estremeço com o pensamento, a memória. - Apenas um olhar. Ela me lança apenas um simples olhar, e a dor mais ímpia de toda minha existência me consume. - Agora estou tremendo, e tenho uma leve consciência de Aziraphale tentando me acalmar, com lágrimas nos olhos. Suas palavras não chegam a mim. - Era como se eu estivesse de volta naquela dispensa, me transformando lentamente. Me incapacitou. E naquele momento, Aro acendeu a tora."

Aziraphale está chorando ao meu lado, mas não reconheço. Tudo parece um borrão comparado ao sino estridente nos meus ouvidos.

Estou em conflito, algo em mim implora para terminar, compartilhar esse tormento. A outra parte me diz para parar.

Então abro os olhos, respiro e me obrigo a continuar, pensando mais alto que o alvoroço em minha mente.

- Não conseguia ver direito através da dor, mas me lembro de seu último pensamento, dirigido especialmente para mim. - engulo em seco. Tão vívido. - Continue meu legado, irmão. 

E então, Pepper é envolvida pelas chamas."

Aziraphale permanece em silêncio, soluçando baixinho. Não há palavras que possam trazer conforto agora. Que possam trazê-la de volta. 

Porém não solta minha mão, o toque que me aterra, que me impede de cair no penhasco fundo de dor e melancolia. Seu toque e o pensamento de que ela não iria querer meu sofrimento, e que está num lugar muito melhor.

Levanto a cabeça, determinando. Ela não iria querer toda essa lamentação. Provavelmente me daria um longo discurso sobre como a morte é um conceito biólogo para os seres humanos, e que para nós também deveria ser. 

E de como eu era um idiota por trazer tristeza a pessoa que eu amo.

Aperto sua mão para chamar a atenção de Azi. Ainda estava desidioso, mas faria o possível para afastar esse clima álacre do carro. Seus olhos estão vermelhos.

Abro um sorriso um tanto frágil. 

- Lembro, anjo, de que era a minha vez.


                              ~~~


Ok. Recomponha-se, Aziraphale. Você sabia que esse dia chegaria, e que seria hoje. Apenas...

Merda.

Mantenho uma ensaiada expressão agradável de indiferença calculada, com uma pitada de felicidade. Muito usada nos meus anos de adolescência. Limpo o rastro das lágrimas. 

- O quê quer saber, querido?

- Ah, você sabe. Sua vida, família... - responde, ainda parecendo um pouco alheio.

Praguejo silenciosamente, tentando conter o nervosismo.

- Minha história não é tão interessante quando a sua, já vou avisando. - sai um pouco histérico. Crowley não parece perceber.

- Anjo, só de ser sua vida já é interessante para mim. 

Coro com isso.

Bom, é só esperar que ele não se aprofunde muito. 

- Minha mãe era muito atarefada, tivemos um relacionamento muito distante. 

- Qual era sua profissão?

Esfrego nervosamente as mãos.

- Fundadora e regente de uma... - não dê muita informação. - ...empresa. 

Crowley levanta as sobrancelhas. - Sério? Wow. 

Felizmente ele não pergunta o nome da empresa. 

- Bom, tenho alguns irmãos também. Assim como minha mãe, não tinhamos um relacionamento agradável. - tirando a parte do preconceito e homofobia penso com repulsa.

- Sinto muito, anjo. - seus olhos não se desviam da estrada, mas as palavras são sinceras. 

Oh, querido. Ainda deve estar pensando na irmã. Pobre garoto...

Preciso animá-lo.

- Eu tinha uma amiga. - sorrio. Ele dá um aperto, como se falasse Estou ouvindo. O Bentley passa por uma lombada, estávamos quase em Soho novamente. - Minha melhor amiga. Ainda é. Fazíamos tantas idiotices. - balanço a cabeça, rindo. Crowley sorri. - Anathema Device. Um dia teremos que visitá-la justos, querido. 

- Absolutamente, anjo. - seu sorriso é de canto, revelando uma presa.

- Ótima ocultista também. - pulo a parte de que Anathema é descendente direta de Agnes Nutter. Não precisava lembrá-lo do livro que praticamente foi a causa da morte de Pepper. - Sempre queria tentar lançar alguma maldição em meus irmãos. Ou em Robert. - rio, porém quase engasgo quando percebo que o coloquei na conversa. Anathema podia colocar uma maldição em mim agora.

Isso, para meu completo horror, atrai a atenção de Crowley. 

- Robert, huh? - Sinto uma pequena parcela de ciúmes, mas não sou capaz de fazer nada com isso no momento.

Oh, mais que merda.

- Ah, sim. Robert. Meu... pai. - era estranho, quase doloroso chamá-lo de pai. Dado o significado da palavra, ele era apenas um homem que fizera minha vida um inferno.

Crowley solta um suspiro de alívio. - Bom.

Oh, nada de bom nisso, querido.

Crowley permanece em silêncio. Então me lança um olhar questionador. Ah, ele espera alguma continuação. 

Engulo em seco.

- Meu pai é divorciado da minha mãe. 

- Por quê?

Ai senhor, como não revelar algo mais ainda assim não mentir?

Deus, se você realmente existir, AJUDE!

- Ah, é que ele... realmente não pode estar com ela. Além do mais, não se amam. - não é como se alguém pudesse amá-lo, na verdade. Reviro os olhos.

Crowley franze os cenho, ainda distraído. 

- Como assim não pode estar com ela?

Oh, Deus.

- É... é que ele... - as palavras não saem por minha garganta travada.

- Robert-- Robert... - Crowley arregala os olhos, parecendo muito mais lívido do que a segundos atrás. Ele me encara. - Aziraphale.

Me encolho. Oh, céus. Ele descobriu. - Sim?

Os nós dos seus dedos são de um branco fantasmagórico no volante. Sua voz se torna sombria, ainda que suave.

- Qual é o seu sobrenome?

Fecho os olhos, juntando os lábios. - Já lhe disse, querido. Zack. - gaguejo nervosamente.

- Seu verdadeiro sobrenome, Aziraphale. Você sabe o quê quero dizer. - Ele desfaz nossas mãos, tomando o volante com força renovada. Sinto um frio que não tem nenhuma relação com o clima.

Digo as próximas palavras tão baixo quando posso, um sussurro.

- Fell.

Ele escuta.

Sua cabeça se vira lentamente, todos os músculos tensionados. Sua mão deixa o volante por um segundo, e vejo o plástico amassado por baixo, moldado sob seus dedos. Sua expressão é ininteligível, e ele parece seriamente em conflito. 

Palavras lentas, calculadas. Como se tivesse medo da resposta.

- Robert Fell. O homem que foi preso por violência doméstica. Que tem uma ficha longa por ser danoso com sua família... - Crowley engole auditivelmente. Suas mãos voltam a tremer. - ...é seu pai?

Sinto meu próprio corpo tremer, lágrimas à anos reprimidas transbordando. A palavra sai com um soluço sufocado. 

A expressão de Crowley se modifica a uma careta feral. As pupilas estreitas retornam, e seus caninos ficam mais longos, afiados. Garras irrompem de seus dedos, rasgando o couro do volante.

Seu amado Bentley...

Ele pisa no acerelador com força, mudando a rota e rosnando. É o som mais desumado que já o ouvi emitir. 

Então desliza a toda velocidade...

Em direção a Bridewell Palace. A maior prisão de Londres.


E pela primeira vez, tenho medo. 

Não dele. Sabia que Crowley jamais me machucaria.

Mas do que ele poderia fazer.


Notas Finais


Hehe


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