História I Knew You Were Trouble - Asas Da Noite - Capítulo 9


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Festa, Ficção, Ficção Científica, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Policial, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 9 - Tudo por nosso encontro


Capítulo nove: O dia destinado

Ponto de Vista de Sophia Emmy Hummel

Abri meus olhos sonolenta, de imediato voltando a fecha-los, incomodada com a iluminação do local. Lentamente voltei a mover minhas pálpebras, aos poucos me acostumando com a claridade. Minha cabeça pulsa intensamente com uma dor aguda a me incomodar.

— Tome esse medicamento, Sho. ― a voz de Ryan, chamou-me a atenção. Ele está sentado ao meu lado na cama. Uma de suas mãos tem um comprimido, e a outra segura um copo de água. Olhei ao meu redor, identificando estar no mesmo quarto que fico na mansão de Nicholas. Cautelosamente, sentei-me lentamente na cama, suspirando incomodada com a forte tontura. Peguei o comprimido juntamente com o copo que Ryan me entrega, logo o tomando.  — Isso é um progresso! ― ele deu uma leve risada nasalada, pegando o copo agora seco de minha mão e o colando no criado-mudo. ―Tomando remédio sem fazer careta ou contrariar. Muito bem.

— Odeio remédios, mas tomo quantos for preciso para essa dor de cabeça infernal ir embora. ― expliquei desconfortável.

— O medicamento irá ajudar. Logo você estará melhor. ― Ryan disse compreensivo. Suspirei cansada. Franzi o cenho ao observar o curativo em seu braço, causando-me de imediato uma pontada de curiosidade e temor em minha mente pelas pequenas recordações sobre a noite anterior.

— Ryan, o que exatamente aconteceu ontem? — tomei coragem de enfim tentar compreender toda confusão assustadora. Ryan adotou uma postura séria, evidenciando seu desconforto pelo assunto adentrado. — Eu me lembro de algumas coisas. ― continuei pensativa. — me lembro do homem que me perseguia, ele me fazia perguntas e queria que eu respondesse corretamente. Lembro-me do momento em que estava completamente fora de meus movimentos e raciocínio. Tudo parecia sem sentido até minha visão escurecer.

— Desculpe ter lhe deixado sozinha. ― O remorso se fazia presente não somente em sua fala mas como também em sua expressão. ― Eu não deveria ter saído de perto de você. Eu sabia que poderia ser perigoso.

― Não se culpe Ry. Fui eu quem pediu para que você ajudasse aos outros. ― Dei uma pausa. ― E como está Charlie?

― Ele está bem. ― Sorri levemente, satisfeita com a resposta. Inconscientemente, meus olhos se guiam na janela transmitindo o céu escuro, gerando-me confusão.

― Ainda estamos na noite do ocorrido? ― perguntei.

— Não. Já estamos na noite posterior à do ocorrido. ― Ryan respondeu, causando-me espanto. — Você ficou bastante tempo desacordada.. Você desmaiou e te trouxemos para cá, logo chamamos um médico confiável, a quem nos informou que desmaiar foi a melhor opção que seu organismo achou optar para passar por uma situação que te causava extremo pavor. Pelo que ele disse você sofreu com uma crise de pânico, seu corpo não estava reagindo aos seus comandos. 

— Eu me lembro de você gritando com Nicholas, antes da minha visão ficar completamente preta. ― Disse pensativa.

— Eu pensei que.. na verdade todos nós pensávamos que ele tinha.. ― Ryan deu uma pausa, engolindo em seco. ― Acertado a bala em você. Só depois a gente veio perceber que você só tinha desmaiado. Você me deu um susto gigante.

— Ela já acordou? — De repente uma voz conhecida chamou nossas atenções. Ergui meus olhar à porta agora aberta. — Fiquei preocupado. ― Charlie dizia ao se aproximar. Sua fala causou-me surpresa, sem reações. Preocupação vinda dele? ― Ryan me contou que você foi quem insistiu para que ele me ajudasse. ― Charlie explicou. ― Fico grato Sophia.

Apenas direcionei um leve sorriso, surpresa por não esperar seu agradecimento.

— Querida! — De repente a voz de Margarete exclamou. Guio meu olhar à porta, vendo-a se aproximar. ― Você está bem? Está sentindo alguma dor? Está com fome, ou sede? ― Margarete direciona-me tantas perguntas ao mesmo tempo em que me analisa com uma verdadeira preocupação de mãe. Lembrar-me de minha mãe faz meu coração apertar. Surpreendo-me com a preocupação por parte de Charlie e Margarete. Eles são as almas boas que ainda existem nesse lugar.

— Não se preocupe, eu estou bem. Obrigada. ― sorri levemente agradecida.

― Você ficou tanto tempo desacordada. — Margarete relatou. — Vou já atrás de algo para você comer.

― Não precisa Margarete. Eu estou bem.

― Eu insisto minha querida. ― Ela disse guiando-se à porta do quarto. ― Farei algo bem delicioso. ― Logo ela se retirou do quarto. Seu jeito protetor realmente me lembra minha mãe. A gentileza com todos a sua volta cativa qualquer um. Seu jeito tão meigo encantava todos os olhares.

― Por que ficou triste de repente? ― Ryan perguntou preocupado.

― Lembrei-me de minha mãe. ― Engoli em seco, sentindo o nó de choro entalado em minha garganta. Já posso sentir meus olhos marejarem, aflita. Ryan aproximou-se mais, puxando-me a um forte abraço confortador.

― Vou dar privacidade aos dois. ― Charlie chamou-nos a atenção. ― Mais uma vez, obrigado Sophia. ― Após sua fala, ele logo sumiu de nossas vistas ao passar pela porta, retirando-se do quarto.

― Minha pequena.. ― Ryan apertou-me confortavelmente em seus braços. ― Não gosto de te ver triste assim.

― Meu prazo se esgotou Ryan. ― sussurrei trêmula. ― Hoje é o último dia com os medicamentos e despesas pagas. A partir de amanhã, eles podem.. desligar os equipamentos. Era o que eles queriam desde o início. ― fechei fortemente meus olhos. ― Para eles, ela é apenas um problema. Eles só a mantem por causa do pagamento que os dou. Mas eu não sei mais o que eu faço. Não tenho como conseguir esse dinheiro. Nem ao menos tenho como tentar, Nicholas não me deixa ir embora.

Por fim soltei as lágrimas que tanto insistiam em descer. Pensar no estado que minha mãe se encontra sempre é algo de minha extrema agonia e desespero. Eu queria tanto poder mudar sua realidade.

― Não pense assim. ― Ryan tentava limpar o rio de lágrimas que desciam dolorosamente por meu rosto.

― A esperança morreu para mim. Não tenho mais o que fazer. Está tudo acabado... Eu não quero perdê-la. ― Desabei no desespero. De repente Ryan mudou sua expressão, adotando uma com o caráter sério e pensativo.

― Eu vou te falar uma coisa. ― a hesitação é muito evidente em sua fala. ― Mas não quero que pense que só por isso ele é bom. Não se deixe enganar. ― Franzi o cenho, encarando-o confusa. ―Ele não queria que ninguém soubesse. Mas eu acabei descobrindo.

― Ele quem? ― questionei.

― Nicholas.. ― Ryan respondeu. ― Ele.. Nicholas está pagando o tratamento e despesas médicas de sua mãe. ― A  surpresa atingiu-me tão intensamente que posso jurar arregalar meus olhos em grandes petecas a quase pular para fora. Isso não pode ser verdade.

― Como você sabe disso? ― perguntei em extrema confusão, enxugando rapidamente algumas lágrimas que ainda rolavam por meu rosto.

― Achei os recibos em cima da mesa de seu escritório. ― revelou. Engoli em seco. Um bilhão de pensamentos me atingem. Diversas perguntas gritam estridente, quase que ensurdecendo minha mente. Eu não consigo acreditar em uma informação desta, não nesta possível ação tão gentil partindo de Nicholas. Alguém como ele seria capaz de ser bondoso? A expressão tão séria de Ryan me faz ter a certeza que ele não brincaria com esse assunto. Mas ainda não consigo encontrar coerência à esta descoberta. Atos gentis não combinam com a tão perturbada personalidade de Nicholas. Diante de mim ele apenas a ameaçou, mas por trás estava escondendo sua proteção?

De repente um alto pigarreio se fez presente no ambiente, chamando nossas atenções ao despertar-me do mar infinito de questionamentos de minha mente. De imediato guiei meu olhar na direção do som.

— Vejo que ela acordou. — Nicholas está parado, apoiando-se na porta. Ele foca seu olhar fixamente em mim. Olha-lo faz meus pensamentos gritarem a informação anteriormente descoberta. Eu preciso de respostas. Nicholas guiou seu olhar a Ryan, de uma forma que aparentasse passar algum recado.

— Não espera que eu a deixe sozinha na sua companhia, não é mesmo? — Ryan adotou seu tom ríspido, direcionando-se rigidamente a Nicholas por entender este ser seu recado implícito.

— Acha que vou machuca-la? ― Nicholas rosnou insatisfeito com o seu contrariar. ― Você sabe que eu não sou de reprimir minhas vontades. Se eu a quisesse fazer mal, já teria feito.

― Você já a fez mal. ― Ryan rebateu. ― o que você mais fez foi fazê-la sofrer. Não espera agora que eu caia no seu papinho furado. ― Nicholas trincou seu maxilar, adotando uma expressão um tanto raivosa. ― E sei também o quanto você é impulsivo. ― Ryan continuou. ― Quem me garante que não vai mudar de ideia?

― Ryan! ― Nicholas irritou-se. ― Preciso conversar com ela sobre os acontecidos. Você sabe que ela deve estar muito confusa. Sou a melhor pessoa para explicar o que realmente aconteceu. E na medida do campeonato, ela já deve saber a verdade, não acha?

― Eu posso ficar aqui enquanto conversam.

― Quero privacidade. ― Nicholas insistiu.

― Então deixe que eu mesmo explico os assuntos.

― Sou eu quem sabe todas as respostas das perguntas dela. ― Nicholas rebateu. ― Tentarei explicar pelo menos o que ela precisa saber no momento. Você só atrapalharia por colocar sua preocupação no meio.

― Mas se você ousar machuca-la... ― Nicholas o interrompeu.

― Não ouse me ameaçar. Farei o que eu bem entender, porém não a machucarei. Terá minha palavra.

Ryan parece hesitante.

― Ry.. ― chamei-o. ― Por favor, deixe. Preciso de respostas sobre muita coisa.

— Está de acordo com a situação, Sophia? ― Ryan direcionou sua fala a mim. Apenas assenti em afirmação à sua resposta. ― Se acontecer qualquer coisa, grite! Estarei por perto.

Novamente limitei-me a assentir. Ryan deu um beijo em meu rosto. Antes de hesitantemente guiar-se até a porta, direcionou um olhar ameaçador a Nicholas, assim se  retirando do quarto. Ajeitei-me, cautelosa na cama, sentando-me mais confortavelmente. 

— Como você está? ― Nicholas perguntou. Apesar de sua pergunta, nenhum sentimento de preocupação parecia presente. Simplesmente pergunta por perguntar.

— Poupe sua voz com perguntas sem intuito.

— Que bom! Isso significa que não preciso bancar o idiota para tentar diminuir a tensão no clima. ― Nicholas disse ríspido. ― Podemos pular diretamente ao assunto sem que isso te deixe extremamente assustada. 

Ele girou a chave na porta a trancá-la, causando-me confusão e desconfiança por seu ato.

― Por que está trancando a porta? ― Ryan dizia, do outro lado da porta, enquanto girava diversas vezes a maçaneta, deferindo alguns socos na madeira escura. Nicholas soltou um palavrão, irritado.

― Você pretendia ficar atrás da porta só escutando? ― ele indignou-se.

― Todo cuidado é pouco quando se trata de você Nicholas! ― Ryan disse, continuando com suas tentativas. ― Abra logo essa porta. Não há necessidade disso.

― Pelo jeito não vou conseguir ter um momento com mais privacidade na minha própria casa. ― Nicholas suspirou, voltando a guiar sua atenção a mim. ― Vamos sair Sophia, para bem longe do teu carrapato aí.

Estreitei os olhos receosa a sua fala. Não gosto disto. Sair apenas na companhia de Nicholas não é uma das coisas mais seguras do mundo. Engulo ruidosamente em seco, com pensamentos negativos rondarem-me em alerta ao perigo.

— Então..  ― Nicholas disse impaciente, retirando a chave de seu carro do bolso. ― Por que ainda está ai? Levanta.

— Agora? ― indaguei confusa. ― Mas eu mal acordei.

― Vou te dar dez minutos para resolver isso. ― ele apenas disse.

― Preciso de mais tempo. Meu corpo precisa urgentemente de um banho.

― Vinte minutos apenas. ― Nicholas por fim destrancou a porta do quarto, a qual de imediato foi aberta bruscamente por Ryan. ― Entre caso queira vê-la ir tomar banho e se arrumar. ― Nicholas direcionou sua fala debochada a Ryan e logo se retirou. Ryan olhou-me,  guiando um olhar receoso.

― Tem certeza que quer sair sozinha com ele? ― Ryan parece mais receoso a isto do que a mim mesma.

― Não tenho certeza sobre isso. ― suspirei insegura. ― apenas sei que preciso de respostas sobre muitas coisas.

― Você mal acabou de acordar.Você não precisa se esforçar ao sair, pode e deve ficar em repouso. ― Seu tom de voz parece mais uma repreensão.

― Não estou perfeitamente bem, ainda sinto certa fraqueza. ― confessei. ―  Mas nada tão sério.

― Você tem mesmo certeza que precisa conversar com Nicholas a sós? Posso acompanhá-los. — Ryan insistiu.

― Eu preciso das respostas. ― firmei. ― Não se preocupe, eu vou ficar bem.

―Tudo bem..― Ryan pareceu hesitar. ― Então vou te dar privacidade para que se arrume.

Apenas assenti e Ryan hesitante retirou-se do quarto. Por um momento apenas fixei meu olhar em um ponto qualquer ao pensar amedrontada que este pode ser mais um problema que posso me envolver. Suspirei em confirmação a esta ser minha vida, cheia de baixos desde que conheci Nicholas. Mas preciso urgentemente de respostas do motivo que minha vida de uma hora pra outra virou de cabeça para baixo. Em passos determinados, caminhei rumo ao banheiro, intencionando que a boa água leve embora todos os pensamentos e lembranças ruins da noite anterior, e com o positivo pensamento que enfim descobrirei a verdade que tanto me ronda.

...

Optei por um conjunto mais confortável, acompanhado de uma sapatilha. Saí do quarto, e caminhei em direção à sala, intencionando ir de encontro a Nicholas, a quem como sempre, me espera sentado no grande sofá branco de sua sala, entretido em seu celular. Pigarrei, intencionando chamar sua atenção. Nicholas guiou seu olhar a mim, bloqueou seu celular e levantou do sofá, guardando-o em seu bolso. Logo caminhamos à porta de acesso à garagem. Porém antes que a atravessarmos, Margarete chamou-me, insistindo para que Nicholas deixasse ao menos eu me alimentar antes de seguir ao nosso destino, e assim alimentei-me antes de partimos.

Nicholas estacionou na frente de um lindo parque. Uma bela paisagem ambiental. Com árvores e plantas bem cuidadas, um caminho entre elas bem limpo, e cada parte bem organizada. Porém apesar de sua beleza, o local está vazio, fato que juntamente com a noite deixa o local atraentemente perigoso.

Nicholas saiu do carro, confiante de si mesmo ao não temer pelo perigo. Hesitante, respirei fundo antes de acompanha-lo. Sigo seus passos no caminho de pedras modernas e coloridas, passando por entre as árvores e flores do ambiente. Nicholas sentou em um banco afastado. Pelo caminho que passamos arrisco a dizer que estamos no centro do imenso parque. Apesar de ser uma ótima vista, confesso que minha atenção se aflora por estarmos em um local escondido.

― Senta. ― Nicholas disse apontando para o seu lado no banco. Hesitante, sentei-me cautelosa. ― Agora temos privacidade. Diga-me o que aconteceu ontem. Achei que Ryan tivesse te deixado escondida.

― Ele me deixou escondida. ― comecei. ― mas um homem suspeito se aproximou. Ele estava a minha procura, dizendo que tudo tinha sido planejado justamente para que naquelas circunstancias eu ficasse sozinha. Eu tentei fugir, e assim apareceu outro homem, a quem me questionou muitas coisas. Recordo-me que ele era o mesmo homem que tinha invadido sua casa.

Nicholas parece prestar atenção em cada palavra dita, pensativo.

― O que ele perguntou?

― Ele queria saber que ligação eu tinha com Juliana por tanto parecer com ela. — relatei.

― Jared era amigo dela. — ele explicou. — E me culpava a todo instante por sua morte.

― E você tem alguma coisa a ver com a morte dela? — A pergunta que o fiz talvez não tenha sido muito adequada. Nicholas trincou o maxilar desconfortável. Esse é um assunto delicado para ele, preciso tomar mais cuidado. ― Desculpe.. eu não quis insinuar nada.. só quero tentar compreender.

Nicholas fixou seu olhar em uma árvore ao longe, a qual tinha sua folhagem levemente balançada na lenta dança que o vento riscava no ar. Seus pensamentos parecem tão distantes, seu olhar é tão vazio.

― Você está bem? — perguntei estranhando suas reações. Nicholas parece engolir em seco, tentando recuperar seu foco.

― Você não precisa saber sobre ela agora. ― ele enfim pronunciou algo, porém desviou o foco da conversa sobre Juliana. ― O que mais ele questionou?

― Sobre você.. ele queria saber a importância que eu tinha na sua vida. — recordei-me, franzindo o cenho em confusão. — Não se preocupe que eu o informei que não há nada que possa te atingir.

― Jared está morto. ― Nicholas disse. ― Quando eu atirei, você caiu com tudo no chão, dando a falsa compreensão que a bala te atingiu. Mas logo percebi o corpo morto de Jared estendido ao asfalto. Então o que ele pensa ou pensou da conversa que teve com você não é importante, levando em conta que ele não poderá mais passar as informações a Bryan.

― Ele contaria tudo a Bryan? ― Estreitei os olhos insegura.

― Sim, pelo que sei tudo não passou de uma armadilha. ― Nicholas bufou descontente. ― Fomos para negociar uns assuntos. Porém, o traíra do Cameron era um aliado de Bryan, e toda a negociação não passava de um disfarce. Por sorte percebemos a tempo, e eu já havia planejado caso algo do tipo acontecesse, mas não imaginávamos que o real objetivo daquilo era te sequestrar.

― Você me fez de isca. — acusei.

― Quem não tem cão caça com gato. — ele deu de ombros, indiferente. — Você conhece o ditado. — Balancei a cabeça negativamente insatisfeita com sua personalidade perturbada. ― Bryan quer saber sobre você pessoalmente. ― Nicholas retornou sua fala. ― Ele quer ver se o que falam de você é verdade.

― Mas ele já sabe que eu não sou Juliana. ― disse agoniada. ― Não há necessidades de ele querer me sequestrar.

― E como você o convence disso? ― Nicholas ironizou. ― entregando sua carteira de identidade?

― Isso é muito confuso. — levei minhas mãos de forma exasperada ao meu cabelo. —  Alguém tem que explicar melhor a situação para ele. Eu não sou a Juliana, nem nunca me meti em nada do que ela poderia fazer ou fez. Sou apenas uma garota normal. Eu nunca me meti em nada fora da lei, pelo contrário, eu sempre fui certinha demais. Sempre tive medo de decepcionar minha família e amigos. Sempre procurei fazer o considerado correto pela sociedade. ― suspirei frustrada com meu desabafo. ― Agora eu simplesmente estou sendo ameaçada por ambos lados da moeda. Caçada por um maníaco e refém de um louco.

― A vida sempre foi injusta. ― Nicholas rebateu. ― Basta pegar o rumo e aprender a seguir.

― Não da forma errada.. ― suspirei. ― eu não quero e não vou me meter com coisas erradas. Por favor Nicholas, me deixe ir. Não vê que sou inútil para você e seus planos?

― Cada um segue sua vida da forma que julgar adequada. ― Nicholas disse. ― Eu não poderia imaginar quanta repercussão te sequestrar daria. Ao início minha única intenção ao ter feito isso, era ameaçar Ryan para que ele continue trabalhando para mim. Eu sabia que ele pretendia ter uma viagem para longe, e eu não estava disposto a perder seus ótimos serviços. Achei que te sequestrando, te faria como objeto de contrato para apenas segurar os serviços dele, pois eu tinha a certeza que ele nunca seria capaz de te prejudicar. Mas por coincidência você possui o sangue puro e ainda para complemento tem semelhanças a Juliana. — Ele suspirou profundamente antes de continuar. ― Confesso que minha intenção, assim que eu não precisasse mais dos serviços de Ryan, eu o liberaria, mas te mataria, claro faz parte do sacrifício. Mas agora, isso tudo tomou outras proporções. Bryan está atrás de você. As coisas estão fugindo do meu controle. Bryan não deveria saber de sua existência, pois agora que sabe quer a todo custo botar as mãos em você. E não vá achando que ele te colocará no luxo como eu fiz. Bryan é conhecido pelas torturas extremas que ele gosta de realizar em suas vitimas. Você tem a mesma aparência de Juliana, ele se aproveitaria disso para usa-la. Ele está furioso por achar que ela se escondeu dele durante todos esses anos. E mesmo que comprove que você não é ela, ele obtinha uma paixão doentia por ela, o que ocasiona que só pelo fato de você parecer, não duvido de que ele queira te ter em mãos para ao menos tentar diminuir a saudade que sente. Mas não duvide do que ele poderá fazer com você. Não te esqueças do que presenciou com sua prima. Você se auto condenou por simplesmente ter nascido.

― Você está me dizendo que mesmo se eu conseguir comprovar que não sou Juliana, ele ainda sim estaria a me perseguir? — engoli ruidosamente em seco com esta suposta e apavorante ideia. Nicholas assentiu em confirmação a minha pergunta. ― É só eu recusar ir com ele. Se ele sente um amor, seja lá o que for, por Juliana, tentará ter algo a mais comigo, dai eu recuso. Sempre farei de tudo para demonstrar meu desgosto em relação a ele. E talvez assim ele não goste da rejeição e me largue.

― Você conseguiu recusar quando eu te sequestrei? ― Nicholas ironizou. ― Sua prima conseguiu recusar? Pense Sophia, você não é tão burra assim. Quanto ao amor, Juliana também pensou da mesma forma.. ― Nicholas suspirou, desviando seu olhar. ― Mas Bryan abusou sexualmente dela. — Assustei-me com sua fala. Bryan pode ser mais perigoso do que pensei. Mais perturbado que a personalidade de Nicholas. ― Bryan não irá se importar se você o rejeitar, ele simplesmente fará o que quiser. — Nicholas continuou. — Não se importará se tiver que te violar.

― Então eu fujo. — pensei, cogitando qualquer ideia que esteja ao meu alcance. — Ele não terá nada que possa me prender por lá.

― E seus pais podem ser considerados como nada? ― Nicholas novamente ironizou, fazendo-me engolir ruidosamente em seco com a possibilidade alarmante. ― Ele irá sequestra-los para usa-los como uma ameaça.

― Não é muito diferente de você. ― não consegui evitar minha indignação. ― Também me sequestrou e me faz de prisioneira. Também me ameaça a não fugir senão machucará pessoas que eu amo.

― Eu não te deixo como prisioneira. ― Nicholas exaltou-se. ― Você tem todo luxo e conforto que precisa. Se eu fosse igual a Bryan, você viveria em meu porão, o lugar onde você seria torturada todos os dias, e quando eu quisesse me satisfazer, você seria minha escrava sexual.

― Então por que está se importando de Bryan por as mãos em mim? Ou por que eu tenho estas mordomias? ― questionei. — Como sou só um objeto de contrato.. então pra que você se preocupa?

Nicholas desviou rapidamente seu olhar, fixando-o a uma pequena flor vermelha a nossa frente. Suspirei frustrada, guiando meu olhar para as flores margaridas, que acompanhavam o vento em uma dança calma. Meus pensamentos estão altos. Tento pensar em soluções para meus problemas. Mas quanto mais penso mais problemas surgem. Não sei como posso enfrentar todas essas situações. Preciso de soluções que não botem nem a mim nem as pessoas que eu amo em perigo. Mas tudo parece tão sem sentido, minha vida tomou um rumo desorganizado e extremamente desastroso.

― Isso me faz pensar em Daniel.. ― dei uma pausa. ― Antes de morrer, ele me pediu para encontrar Bryan. Por que ele faria isso? Meu amigo de infância, a quem eu tinha tanto carinho, me mandaria para minha desgraça?

― Você não conhecia o verdadeiro Daniel. ― guiei meu olhar a Nicholas. ― Sua imagem era mais negra do que pensas. Eu não o matei porque eu queria te ameaçar, seu pavor foi apenas um bônus que consegui. Na verdade eu nem sabia que vocês se conheciam.

― Como assim? ― questionei. Nicholas por fim parecia se arrepender sobre sua confissão. ― Você não está cumprindo com suas ameaças sobre mim, não é mesmo?

Nicholas levantou-se rapidamente. Seu desconforto pelo meu questionamento é muito evidente.

― Vamos embora. ― ele guiou-se para o caminho das pedras coloridas.

― Nicholas.. eu sei o que você fez pra minha mãe. — Seus passos pararam imediatamente ao ouvir-me. ― Você disse que a destruiria. ― Aproximei-me lentamente. ― Mas a verdade é que você foi quem a salvou. Você está pagando o tratamento e as despesas hospitalares. ― Coloquei-me de frente para ele. Nicholas engole em seco. ― Eu não te conheço.. Achei que você era ruim, um louco.. e talvez até seja. ― dei uma pausa, analisando-o. Sua expressão é desconhecida. ― Mas no fundo tem algo bom em você. Não esconda isso. Não é feio ter sentimentos bons, isso só te faz humano.

― Eu não sou humano Sophia. ― Nicholas murmurou. Seu olhar se foca intensamente ao meu. ― Você já presenciou muita coisa estranha desde que eu te sequestrei. Nada foi coisa da sua imaginação. É tudo real. E eu também não sou o que aparento, eu não sou um humano. Minha natureza nunca me permitiria agir como um.

― Eu não entendo muito bem do que você fala. ― confessei confusa. ―  É verdade, eu presenciei muita coisa estranha, mas o que estou passando a descobrir sobre você, me relata que você não é uma dessas coisas. Você tem sentimentos que te fazem humano.

― Isso é apenas uma fraqueza. ― Nicholas desviou o olhar, passando de forma exasperado suas mãos por seu cabelo. ― Não posso permitir.

― Sim, você pode. ― um tanto hesitante ao meu gesto, segurei seu rosto em minhas mãos, voltando a guia-lo a mim. ― Não é feio ser humano. Permita-se sentir o quão bom pode ser o mundo, apesar de toda dor e sofrimento. O que percebo em você é que se importa muito com o que vão pensar ou falar a seu respeito. ― dei uma pausa. ―  Eu ouvi sua conversa com aquele ciclope, e o que me pareceu é que você está mais preocupado em agradar ao seu pai do que a si mesmo. Não sei quem é seu pai, mas de uma coisa tenho certeza. Você não precisa ser igual a ele. Permita-se ser você mesmo, apenas o que você tem de melhor.

O tom claro de seus olhos castanhos brilha intensamente. Seu olhar é profundo. Sinto um arrepio percorrer minha nuca, como se eu pudesse estudar sua alma através de um simples olhar. Em uma viagem em seus olhos, percebo uma escura constelação, mas lá no fundo há um brilho a renascer. A escuridão parece lutar contra o brilho, mas por alguma razão maior não consegue vencê-lo.

Nicholas engoliu em seco, afastando-se bruscamente. Balançou sua cabeça negativamente, piscando seus olhos diversas vezes, como se acordasse de um transe.

― Não leia minha essência. ― Sua fala me deixou confusa. Nicholas guiou-se em direção ao seu carro, rapidamente adentrando-o. Suspirei frustrada antes de o acompanhar. Nicholas logo ligou o carro, guiando-nos novamente à estrada. Guiei meu olhar para o estrelado céu, pensativa sobre todas as informações.

― Por que me trouxe naquele parque? ― questionei sem desviar meu olhar da paisagem em minha janela.

― Porque achei um ótimo lugar para que pudéssemos ter a conversa à sós, sem que ninguém interrompa. ― Nicholas respondeu sem desviar seu olhar da estrada.

― É um belo parque. ― relatei. ― Eu amo o meio ambiente.

― Temos um jardim lá em casa. ― Nicholas disse de repente. Guiei meu olhar a ele, imediatamente estranhando por ele dar continuidade ao assunto. ― É bem cuidado. Contrato os melhores jardineiros da cidade.

― Então também gosta? ― perguntei curiosa, ainda estranhando por estarmos na simples conversa.

― Não. ― ele respondeu rapidamente. ― São só para agradar minha mãe. Louca por jardinagem.

Estreitei meu olhar ao ouvir pela primeira vez ele falando de sua família. Curiosa, insisti novamente na conversa.

― E quais são as flores favoritas de sua mãe?

― Orquídeas. ― Nicholas respondeu. Posso perceber um esbouço de um leve sorriso em seu rosto.

― Eu gosto de todas. ― suspirei encantada. ― Mas tenho um amor secreto pela Tulipa Semper Augustus. Sempre tive o sonho de poder vê-la pessoalmente.

― Você sonha em conhecer flores? ― Nicholas fez uma careta em desgosto. ― Deveria sonhar com algo maior.

― Flores são ótimas para me fazerem feliz. Possuem um aroma maravilhoso, e uma beleza tão encantadora.

― Vou te mostrar o jardim que tem lá em casa qualquer dia. ― Por fim, não tive reações a sua fala. A surpresa me atinge muito intensamente. Pisco diversas vezes tentando raciocinar melhor. Mas minha surpresa é tão grande que não encontro palavras para continuar o assunto. E talvez não seja necessário uma continuação, o silêncio se implantou no ar de forma impressionantemente agradável. Sinto-me satisfeita e até curiosa pela conversa de caráter tão comum que tivemos.

Assim que chegamos em casa, Nicholas caminhou em direção à cozinha, e eu em direção ao quarto. Logo me deparo com Ryan deitado na cama, pouco adormecido. Suspira pesado, com um de seus braços cobrindo seu rosto. Nem sequer percebeu minha presença. Aproximei-me lentamente. Ryan por fim guiou seu olhar a mim, percebendo-me e direcionando um breve sorriso. Sentei-me ao seu lado na cama.

― Demoraram. ― ele disse.

― Conversamos sobre algumas coisas, mais especificamente sobre Bryan. ― expliquei. ―  Tentei entrar no assunto de minha mãe mas ele não fluiu a conversa. Nicholas parecia diferente..

― Lembre-se de não se deixar levar. ― Ryan alertou.

― Você tem razão. ― suspirei. Observei-o mais atentamente, analisando-o. Ryan veste uma roupa que eu não julgaria casual. Franzi o cenho. ― Parece que eu não fui a única que saí..

― Eu.. ― Ryan pigarreou. ― vou só visitar uma amiga. Eu só estava esperando você chegar para ter a certeza que está bem.

― Uma amiga? ― estreitei meus olhos, surpresa com sua fala. ― Qual o nome dela?

― Deixa isso pra lá. ― Ryan tentou encerrar o assunto.

― Vamos Ry. ― insisti. ― Me conte.

Ryan suspirou vencido.

― Eu vou ver como sua prima Ashley está. ― a surpresa atingiu-me. ― Desde o acontecido com Bryan, eu e ela nos aproximamos muito. Mas é só para ajuda-la.

― E você acabou se apaixonando? ― ri, feliz em entrar em determinado assunto, que tanto havia sido proibido por Ryan.

― Lógico que não.  ― ele negou rapidamente. De imediato pegou o pingente em forma de uma pequena aliança pendurada em seu cordão, segurando-o fortemente. ― Você sabe que eu nunca esquecerei ela. Meu coração sempre permanecerá na promessa eterna de meu amor.

Ryan carrega a pequena aliança em seu cordão há muito tempo, antes mesmo que eu o conhecesse. Pertencia a uma namorada que ele teve em seu passado. Seu amor por ela nunca foi superado, apenas parece mais intensificado a cada dia, como se eles fossem um só apesar da distância. Ryan nunca me disse o que aconteceu com ela ou o porquê estão há tanto tempo separados, mas em suas lembranças permanece vivo o amor que sentia pela dama Angelina.

― Seu voto de amor é lindo.. ― soltei um sorriso emocionada. Ryan sorriu. ― Mas não acha que deves seguir em frente.. ― seu sorriso murchou na mesma hora ao ouvir minhas palavras.

― Já entramos neta conversa antes.. ― ele desviou o olhar, incomodado.

― Eu sei, só me preocupo com você. ― suspirei. ―..e sei o quanto dolorido é esperar por alguém que nunca voltará. 

― Sophia, eu estou bem. ― ele disse rapidamente, se recompondo. Ele piscou algumas vezes, gesto que me fazia ter a certeza que ele mudaria de assunto. ― Bem.. vou visitar a Ashley, caso não tenha problemas para você.

― Claro que não tem problemas. ― respondi rapidamente. ― Cuide dela para mim, por favor.

― Você vai ficar bem? ― sua preocupação é evidente.

― Vou sim, não se preocupe.

Ryan deu um beijo em minha testa e após um longo abraço se retirou do quarto. Suspirei cansada antes de caminhar ao banheiro, realizando minha higiene e colocando um confortável pijama no mesmo tom de sempre, cinza. Deitei-me, pensativa nos acontecidos e descobertas. Principalmente desejando que Ryan enfim reencontre o amor em outra pessoa, e pare de sofrer pela sumida amada.

...

Lentamente abri meus olhos, espreguiçando-me. Estava tão cansada que nem ao menos percebi quando apaguei em sono. O quarto está iluminado apenas pela luz que emana do abajur. O silêncio reina sobre o calmo ambiente. Guiei meu olhar ao pequeno relógio digital no criado-mudo. São exatas três horas da madrugada.

— Ainda está acordada? — De repente assusto-me ao ouvir uma desconhecida voz masculina. De imediato, sentei-me na cama, varrendo o local com o olhar atrás do remetente da voz. O quarto tanto escuro me impossibilita ver a pessoa com precisão, porém percebo uma silhueta masculina a frente da porta, fechando-a. Meu coração dispara em nervosismo, assustada com o estranho a se aproximar.

— Quem é você? ― Perguntei nervosa. Seu rosto está parcialmente na pequena claridade do abajur. Apesar de não ter precisão em sua identidade, percebo que seus traços de alguma forma me parecem familiar. Sua pele tão branca como a neve e seus cabelos tão negros quanto a escuridão, causam-me de imediato um arrepio negativo com o suposto pensamento temeroso de ser Bryan.

— Você não precisa saber quem eu sou. ― O homem disse tranquilamente, colocando suas mãos nos bolsos de sua calça. ― Só precisa saber do que eu sou capaz de fazer com você por ter me feito esperar todo esse tempo, Juliana.

Não tive nem tempo de raciocinar sua frase direito, pois em um rápido movimento senti mãos fortes se fecharem bruscamente sobre meu pescoço. O susto atingiu-me com desespero e pavor. Debato-me diversas vezes, tentando soltar-me de seu aperto fatal, e por sorte uma de minhas tentativas me fizeram conseguir soltar-me apenas um tempo necessário para que em um grito de desespero clamasse por ajudar.

― Nicholas! — Não sei o porquê de eu ter clamado logo pela ajuda de Nicholas, nem ao menos sei o motivo de seu nome ter sido o primeiro a me vir em minha mente. Só me sinto desesperada para fugir desta assustadora situação, seja lá de que forma seja, só quero estar livre disto.

O homem apertava suas mãos contra meu pescoço, causando-me sufocamento. A intensidade do aperto é tão forte que sinto meu pescoço ser estrangulado como se mata um frango, eu me sinto um amedrontado animal diante de um monstro feroz. O aperto se fecha tão rápido quando me leva a perder os sentidos.

― Eu vou te matar hoje, não duvide disto. — Suas ríspidas palavras ecoaram em minha mente ates que eu apague por completo.

 

De repente, abri meus olhos assustada, levantando-me em um pulo. Varro o quarto rapidamente com o olhar. O quarto esta em um intenso breu, completamente escuro. De imediato ligo o abajur, clareando pouco o quarto, mas o suficiente para que eu procure pelo homem. Engoli ruidosamente em seco, não encontrando-o. Minha respiração está tão ofegante que me engasgo com um repentino sufocamento. O susto que sinto é tão grande que me faz entrar em paranoia. Custo a acreditar que nada disto passou de um pesadelo.

Solto o ar pesadamente, tentando acalmar-me do susto sofrido. Guiei meu olhar o relógio digital no criado-mudo ao lado esquerdo da cama, revelando-me ser 3 horas da madrugada. Estreitei os olhos, estranhando ao ser o mesmo horário que "acordei" em meu pesadelo. Engoli em seco, novamente procurando pelo quarto algo suspeito, temendo que as coisas se repitam.

De repente, uma forte trovoada assusta-me, seguida de um intenso clarão do relâmpago. De imediato guio meu olhar a janela, com suas cortinas abertas, percebendo que a madrugada é consumida pela forte tempestade. Engulo em seco, respirando profundamente, tentando acalmar-me do segundo susto na noite. Meu peito dói com os descompassados batimentos de meu coração. Minha garganta parece o deserto mais sedento por um copo d’água. Lentamente levantei-me, guiando meus passos ainda meio desnorteados à porta.

Assim que toquei a maçaneta, assusto-me com um repentino barulho vindo do corredor, algo parecia cair ao chão. Em seguida, ouvi a voz de Nicholas pronunciando um palavrão. Confusa, abri lentamente a porta. Pela pequena brecha, vejo Nicholas se abaixar no corredor ao juntar diversos papéis espalhados ao chão. Com a janela aberta ao final do corredor, entra uma forte corrente de vento, fazendo os papéis voarem sem ordem. Pensei por um tempo antes de dar um passo hesitante a fora do quarto. Guiei-me apressada à janela, com dificuldade fechando-a. O céu vermelho possui nuvens carregadas em um forte temporal. Guiei-me a Nicholas, a quem ainda junta os papéis ao chão. Cautelosamente aproximei-me, intencionando ajuda-lo. 

― Não precisa. ― ele recusou minha ajuda. ― Pode voltar a dormir.

― Deixe-me te ajudar. ― insisti. Desta vez, ele não contrariou. Rapidamente recolhemos todos os papéis e pôr-nos a levantar. ― Aqui está. ― entreguei os papéis que recolhi.

― Por que estava acordada? ― ele questionou curioso. ― Parece um pouco assustada. ― ele analisou-me.

― Foi um pesadelo.. nada de mais. ― desviei o olhar incomodada. ― Temporais sempre me fazem mal.

― O que é isso no seu pescoço? ― de imediato voltei a olha-lo, confusa com sua fala. Nicholas estreita seus olhos ao fixa-los em meu pescoço. A pergunta de Nicholas me fez de imediato guiar minhas mãos ao pescoço amedrontada por sua séria expressão. Nicholas fez um gesto com a cabeça, guiando a atenção para a parede ao meu lado. Guiei meu olhar, vendo um espelho. Rapidamente aproximei-me. Um extremo susto atingiu-me assim que foquei minha atenção em meu reflexo. Marcas avermelhadas estão presentes em volta de meu pescoço como um forte aperto. Lentamente passei minhas mãos pelas marcas assemelhadas a uma grande mão. De imediato lembrei-me de meu pesadelo.

― Tem alguém no seu quarto com você? ― Nicholas perguntou.

― Não. ― Respondi à sua pergunta sem desviar minha atenção das marcas. ― Isso é estranho.. Se assemelha ao meu pesadelo. Um homem não tão desconhecido tentando me enforcar. Parecia tão real.

― Provavelmente porque foi real, as marcas são provas disso. ― Nicholas firmou, causando-me confusão.

― Não, não.. não tinha ninguém no quarto além de mim. ― expliquei. ― Tinha sido apenas um pesadelo.

― Você ainda tem muito a aprender. ― Nicholas bufou em descontentamento. ― Nunca ouviu falar em bruxaria? ― Por fim guiei meu olhar em sua direção, estreitando meus olhos com sua fala. ― Alguém está querendo te ver morta. ― Engoli ruidosamente em seco com sua fala. ― Não mais obvio que Bryan. Imaginei que ele optaria por isso. Tem uma grande bruxa como aliada.

Seus pensamentos parecem voar mais altos que um foguete. Logo guiou-se à porta de seu quarto, adentrando-o, deixando-me sozinha com estas diversas dúvidas. Novamente engoli em seco, voltando a guiar meu olhar ao meu reflexo no espelho. Encontro-me totalmente confusa. Eu posso jurar que se tratava apenas de um pesadelo, como as marcas daquele aperto podem estar presentes?

Pisquei meus olhos diversas vezes, tentando acalmar-me. Agora tenho medo de voltar a dormir. Balancei minha cabeça, intencionado afastar esses pensamentos aflitos, e direcionei meu caminho à cozinha. Após beber um gelado copo d’água, voltei ao quarto. Liguei a luz, clareando-o por completo. Vasculho cada canto do quarto, banheiro e closet, não tendo resultados em minha busca por possivelmente algo que me explique tal acontecimento. Deito-me na cama cautelosa, encarando o teto branco com detalhes em gesso. Como uma ilusão, via letras se formarem em várias frases de um questionamento sem fim no espaço branco do teto. Os pensamentos giram sobre todos os acontecidos. Tenho medo de voltar a fechar meus olhos. Mas o cansaço não me ajuda, dando-me alguns pestanejos antes de por fim fechar meus olhos sendo carregada novamente pelas pesadas pálpebras.

...

Minhas pálpebras se moveram sonolentas. A luminosidade do dia radiante invade o quarto. As longas cortinas de cetim abertas organizadamente, dão-me a visão da bela manhã. Espreguicei-me antes de levantar da cama, caminhando ao banheiro. Após realizar minha higiene matinal, vesti-me confortavelmente. Guiei meu olhar ao relógio digital, conferindo o horário nove horas da manhã. Minha barriga ronca com a fome. Por este motivo, guiei meus passos em direção à cozinha.

Ainda no corredor ouvi a voz de Nicholas em tom ameaçador.

― Quais são os equipamentos que estão faltando? ―  Sua voz vinha de seu quarto, em tom tão alto tentava impor autoridade. Procurei não prestar atenção em sua conversa e apenas seguir em frente com meus passos, mas sua próxima fala me fez paralisar meus movimentos. ― Quero a máquina pronta hoje mesmo. ― Nicholas exigiu. ― Amanhã será o sacrifício dela.

Prendo o ar em desespero pela realidade. Meu tempo esgotou. Eu não sei como posso reverter minha situação. Tentei de tantas formas, mas nada me deu um resultado satisfatório. Não sei como posso reagir a isto, não sei como posso fugir desta realidade temida.

De repente, percebo que a maçaneta da porta do quarto de Nicholas se mexe, apressei meus passos pelo corredor, descendo rapidamente a imensa escada. Logo guiei-me à cozinha.

― Bom dia querida, venha tomar café da manhã. ― Margarete disse gentilmente apontando para o prato repleto de panquecas decorado com calda de chocolate em cima da bancada.

― Bom dia Margarete. ― respondi gentilmente. Sentei-me em um dos bancos próximos à bancada. Guiei minha atenção às panquecas no prato. A fala de Nicholas ecoa rudemente em minha mente. O meu tempo realmente se esgotou, o temporal de problemas aumentou e meu caminho chegou na reta final. Tento pensar em uma solução mas não se vem muitas coisas em minha mente, eu já tentei tudo ao meu alcance.

Suspirei, voltando a concentrar-me nas panquecas ao dar a primeira garfada. Assim que terminei de me alimentar, levei meu prato a pia, lavando-o. O medo sobre o dia de amanhã só se intensifica. Preciso encontrar-me com Ryan, talvez ele saiba o que fazer nessa situação. Como distração para meus pensamentos, foquei-me no conjunto de louças sujas na pia. Após terminar de lava-las, sequei-as e guardei-as em seus respectivos lugares nos diversos armários. 

Logo após retirei-me da cozinha, intencionando voltar ao quarto. Ao passar pela sala, o som estridente do telefone na mesa de canto ao meu lado chamou-me a atenção. Inconscientemente guiei rapidamente meu olhar ao visor, logo desviando-o e voltando a seguir meus passos. Por um momento, paralisei meus passos ao recordar-me do número. Pode ser coisa de minha imaginação, mas quase juro ter visto o número do hospital que minha mãe se encontra. De imediato voltei a guiar meu olhar ao visor do telefone que continua a tocar.

Franzi o cenho ao confirmar minha dúvida. Por qual motivo o hospital estaria ligando para a casa de Nicholas? Talvez ele tenha alguém  por lá, ou seria relacionado a minha própria mãe, afinal ele é quem está pagando suas despesas hospitalares, logo Nicholas vira o responsável por ela naquele local. Engoli ruidosamente em seco, nervosa com todas as possibilidades de motivos para esta ligação. Será que algo aconteceu com ela? Eu preciso saber. É a única chance que tenho para me comunicar com o hospital, e talvez seja a última oportunidade.

Hesitante, levei minha mão ao telefone. Respirei fundo ao tomar coragem e o retirei do gancho. Ao leva-lo ao meu ouvido, esperei para que os funcionários do hospital se apresentem. Mas tudo o que recebi foi um silêncio.

― Olá? ― Procurei por qualquer sinal mas nada escutei em resposta. Talvez seja apenas um engano. Porém assim que iria retirar do meu ouvido uma grave voz se fez presente.

― A moça gentil deixou que eu usasse o telefone. ― a masculina voz me parece tão familiar, tenho a pequena impressão que já a escutei antes. ― A segurança por aqui não é lá uma das melhores. Seria uma pena caso uma das pacientes magicamente sumisse.

Arregalei meus olhos, assustada com sua fala. Senti o ar faltar ao saber que se refere a minha mãe. Meu redor parece girar, meu coração dispara dolorosamente. Por algum motivo temo ser Bryan. Meu temor se concretiza com seu conhecimento sobre o estado de minha mãe. Eu não posso contra isto. Não posso deixar que ele a machuque.

― Deixe-a em paz. ― fraquejei.

― Pelo bem de sua mãe, é bom que preste atenção no que vou te falar. ― engoli ruidosamente em seco, aflita por sua suposta ameaça. ― Eu não gostei de sua atitude de fugir da casa de sua prima antes de nos reencontrarmos. Portanto, para corrigir a besteira que fizeste, hoje exatamente às dez e meia desta manhã vá para o jardim, onde Jason estará lhe esperando, siga-o e o obedeça. Hoje teremos um jantarzinho. E não pense em avisar a ninguém sobre isto, ou sua mãe irá sofrer suas consequências, e desta vez te dou minha total palavra que não pegarei leve. Espero que seus pais tenham lhe ensinado a ser obediente. Você querendo ou não. Não esqueça, você tem apenas meia hora. Eu prometo que farei tudo para que possamos nos reencontrar ainda hoje.

Formular frases para esta situação assustadora não estava ao meu alcance, a aflição e desespero batem a porta de forma avassaladora. Antes que eu pudesse recuperar meus sentidos, a chamada logo foi finalizada, deixando-me aos prantos da amargura. Minha cabeça gira. As fortes batidas de meu coração doem intensamente, causando-me um intenso sufocamento. Meus pensamentos estão em desordem. Não sei como reagir a esta ameaça. A vida de minha mãe não pode estar em jogo, não podem envolvê-la nisto..

Em movimentos trêmulos, devolvi o telefone ao gancho. Tento puxar o ar fortemente mas tem dificuldade em chegar em meus pulmões. Repeti uma profunda inspiração por diversas vezes, até eu obter ao menos o mínimo de coerência. Guiei meus passos desordenados em direção ao quarto, adentrando-o rapidamente. Levei minhas mãos exasperadas ao meu cabelo, não aguentando meu peso corporal ao permitir-me desabar ao chão. As lágrimas descem sem controle, o desespero me consome descontrolado.

Tragam quantas ameaças quiserem a mim, mas não mexam com minha mãe. Ela não tem nada a ver com esse assunto desastroso. Mas sei de uma coisa. Eu nunca botaria em risco sua vida. Preciso dar um jeito nesta situação, preciso tirá-la de perigo, nem que isto custe minha vida. Levantei-me determinada em minha decisão, soltando o ar intensamente a me preparar emocionalmente pelo que terei que enfrentar.

Assim que consegui coerência em meus pensamentos, permiti-me perceber a zorra que meu quarto se encontra, de imediato assustando-me por diversas coisas estarem reviradas. Engoli ruidosamente em seco ao pensar que estas devem fazer parte da ameça. Se eu não for, da mesma forma Bryan conseguirá chegar a mim. Este é o aviso. Afinal conseguiram entrar novamente na casa e revirar o quarto. Só essa imensa mansão não tem nenhuma proteção. Os seguranças de Nicholas não são confiáveis, aposto que grande maioria o detesta.

Rapidamente guiei meu olhar ao relógio na parede do quarto. Exatos dez e meia da manhã, o exato horário que foi informado por Bryan. Não tenho tempo para pensar em um plano, o momento chegou. Meu medo não me deixam raciocinar a pensar com lógica, a única coisa que meu ser inteiro grita é que livre logo minha mãe de sua mira.

Em um breve olhar, varri o quarto dominado pela bagunça, intencionando pensar em que eu possa levar para me ajudar. Minha mente grita tão alto que não consigo encontrar nada, movendo-me de imediato a sair do quarto. Preciso encontrar-me com tal de Jason no jardim da casa. Engulo em seco, meus movimentos são tão desordenados dominados pelo nervosismo. Minha mente grita a urgência que preciso em tirar minha mãe desta situação. Apresso meus passos pelo corredor.

De repente, estrondosos barulhos de tiros assustaram-me ao ecoar pelo ar. Imediatamente paraliso meus movimentos, sem ter a certeza se devo ou não prosseguir. O som assustador parece ser oriundo ao lado focado no jardim da casa, exato local onde sou compelida a chegar.

De repente, assusto-me com Nicholas aparecendo rapidamente a minha frente após subir apressado as escadas. Sinto-me tão avoada. Não sei como reagir, meu corpo não responde aos meus comandos consumido por sensações ruins. Guiei meu olhar de questionamento aos estrondosos tiros a Nicholas.

― Shhh.. ― Nicholas fez sinal de silêncio. ― Entra no quarto agora. ― Seu sussurro era acompanhado de uma feição apreensiva. Ao perceber meu estado paralisado em medo, Nicholas rapidamente puxou-me para o quarto. Percebo que ele se surpreende ao ver a reviravolta do ambiente, mas nada disse. Eu nem tive forças para explicar a situação, só sinto as primeiras lágrimas insistirem para cair com pavor.

Nicholas trancou a porta, logo guiando-se à janela. Com o brusco movimento de sua mão fechando as grandes cortinas, enfim percebi seu revolver dourado em sua mão direita. Seu objeto ameaçador só indica mais confirmações para o perigo que enfrentamos. Nicholas murmurou um palavrão, socando fortemente a parede. A rachadura repentinamente na parede demonstrava o tamanho de sua raiva e insatisfação, mas nada pareceu incomodar sua mão intacta sem nenhum corte ou arranhão. Eu já deveria estar acostumada com a resistência incrivelmente desumana que eles carregam, mas isto sempre me surpreenderá.

Por um momento, um silêncio  agonizante tomou conta de todo o território. Eu poderia ouvir apenas os batimentos de meu coração tão fortes em meu peito e a respiração pesada de Nicholas. De repente, assustando-me um grande barulho semelhar a coisas sendo derrubadas ecoaram.

― É tudo culpa minha! ― desabei em choro, não aguentando toda pressão. Levo minhas mãos aos meus ouvidos e fecho meus olhos fortemente intencionando acordar deste pesadelo sem fim. ― Eu não deveria ter atendido aquele telefonema. Mas.. era o número do hospital, achei que eram notícias sobre minha mãe.. Eu sofri uma ameaça, Bryan disse para eu estar no jardim às dez e meia da manhã, onde alguém estaria me esperando para levar-me.

― Você é burra? ― Nicholas exaltou-se, fazendo-me guiar meu olhar a ele. ― O que espera com isso? Acredita que ele poderia lhe deixar livre?

― Eu não acredito que ele poderia me soltar depois disto, mas ameaçou minha mãe. ― relatei. ― Ele estava no hospital com minha mãe. Eu não posso deixar que ele a machuque. Eu fiquei assustada, não sabia como reagir, só quero que minha mãe estivesse bem.

― E porque você não me contou? ― Nicholas voltou a se exaltar. ― Você tem noção da gravidade disto? Poderia pelo menos ter me contado. Eu teria dado um jeito.

― Desculpa mas você sabe que você não é a pessoa mais confiável a mim. ― murmurei sincera.

Assim que Nicholas me responderia, um estrondo barulho ecoou pelo quarto, chamando imediatamente nossas atenções. Encaro ao meu lado a porta do quarto derrubada ao chão. Nem tínhamos percebido quando forçaram a porta. 

― Ora, ora, os dois pombinhos já estão aqui reunidos. ― Um homem desconhecido, alto e repleto de tatuagens distribuídas por sua pálida pele, entrou ao quarto, acompanhado de outro que tanto lembra-me um conjunto de músculos com veias prestes a explodir. ― Assim facilita nosso trabalho.

Nicholas rapidamente apontou seu revólver em suas direções, mas antes que ele pudesse atirar, o homem de imediato se jogou pra perto de mim. Com um movimento tão rápido que mal pude raciocinar, eu já estava em seus braços com seu revolver posicionado em minha cabeça. Engoli ruidosamente em seco, tremendo de temor pelo ceifador de vidas engatilhado na mira.

― Abaixa a arma Wachowski! ― O outro homem presente direcionava seu revolver a Nicholas. ― Nossos revolveres estão carregados com balas sagradas. Você não se recuperará disto.

Nicholas permanece seu olhar fixo ao homem que me segura. De repente, assusto-me com um estrondoso barulho inesperado, a mão de Nicholas escorre sangue, causando repentinamente um susto em seus movimentos ao soltar seu revolver dourado ao chão.

― Muito bem, deve-me obediência. ― O homem a sua frente zombou, e os dois acompanharam um riso debochado. Nicholas parece engolir em seco, pressiona fortemente sua mão, tentando estancar o sangramento. Sua feição, demostra que apesar da cara de durão, aquilo estava doendo.

O homem, em postura confiante e carregada de ego superior, aproximou-se de Nicholas, e empurrou o revolver dourado no chão para longe. Por um breve momento, Nicholas guiou-me seu olhar. Sua expressão é indescritível. Tão rapidamente quanto pude raciocinar, arremessou um brusco soco ao homem com sua mão livre. Com o descuido pelo inesperado ato, o homem acabou por perder o foco de seu revolver preto, o qual foi rapidamente tomado por Nicholas em um golpe tão habilidoso que o homem repentinamente caiu ao chão morto após outro estrondoso tiro.

De imediato Nicholas já apontava a mira do revolver preto em direção ao homem que me segura.

― Não faça besteiras Nicholas, caso contrário a mato! ― o homem disse apressado, receoso às suas atitudes.

― Você não pode mata-la. ― Nicholas rebateu. ― Precisa levá-la viva até Bryan.

O homem engoliu em seco, inconscientemente revelando essa ser a verdade.

― Abaixa a arma agora Nicholas! ― Ele novamente ordenou. ― Não tenho medo de atirar!

Nicholas hesitantemente abaixou seu revolver. Sua expressão é séria, porém pensativo como se estivesse a calcular. O homem riu debochado ao vê-lo se render. Nicholas continuava com seu olhar fixo a mim, a quem piscou seu olho direito como uma forma de comunicação. Pouco consigo compreender seu sinal. Num movimento rápido dei uma cotovelada no estômago do homem, a quem apenas olhou-me seriamente, meu golpe não lhe causou danos, porém causou a distração perfeita para que Nicholas agisse. Foi só o tempo de desviar-me, e a bala atravessou o peitoral do homem, a quem agora caiu morto ao chão.

― Você está bem Sophia? ― Nicholas direcionou-me sua pergunta enquanto apressadamente pegava seu revolver dourado ao chão.

― Eu que deveria te fazer essa pergunta! ― respondi guiando meu olhar à sua mão baleada.

De repente, outro estrondoso tiro é disparado. O grunhido doloroso de Nicholas fez-me perceber a bala atingiu sua perna. Tão rapidamente Nicholas atirou ao homem que acabara de aparecer sobre a porta. Nicholas imediatamente soltou seu peso, sentando-se na cama, tentando remover a bala primeiramente de sua mão. A cada toque a bala parece o queimar intensamente. Estranho tal acontecimento, porém aproximo-me, intencionando ajuda-lo. A carne viva de seu ferimento quase me faz ter vertigem.

Respirei fundo controlando-me, e guiei minha mão à bala presa entre o músculo de sua mão, retirando-a cautelosamente. Engoli em seco ao ver minha mão suja de sangue segurando a pequena bala gravada com diversos símbolos estranhos.

― Bala sagrada. ― Nicholas explicou percebendo minha confusão. ― A única capaz de verdadeiramente matar um ser das trevas.

Novamente adentramos a um assunto confuso. Seres das trevas? Quase esqueço-me de que já presenciei tantas coisas sem coerência e lógica que criaturas mitológicas não deveriam mais me causar tanta descrença. Presenciei tantas coisas, capaz de dar a certeza que tudo de mais assustador existe no mundo.

Tentando não distrair meus pensamentos sobre tais coisas, guiei-me rapidamente ao ferimento na perna de Nicholas, retirando a outra bala alojada em seu músculo. De repente, novos estrondosos tiros novamente dominavam o ambiente da casa.

― Rápido! ― Nicholas disse apressado, guiando-nos para fora do quarto. ― Precisamos sair daqui.

Seus passos são dificultosos pelo ferimento em sua perna. Mesmo recusando minha ajuda, o apoiei sobre meu ombro, ajudando-o descer a escada. Nicholas apressou seus passos à uma porta branca presente na sala, logo percebo seu escritório. Ele rapidamente direcionou-se a um quadro abstrato preso à parede, retirando-o e destravando uma alavanca. De repente a estante de livros se move revelando algum tipo de passagem secreta. Assim que passamos por ela, a passagem atrás de nós se fecha. Ao seguir um longo corredor subterrâneo, adentramos em um certo local semelhante a um escritório com tecnologia potente de última geração. Ao centro, tinha um de seus carros esportivos.

Nicholas guiou-se à uma mesa moderna, retirando um monte de pastas recheadas com diversos documentos. Rapidamente abriu a porta do carro, jogando todos as pastas dentro. Por fim pegou uma maleta preta e abriu-a em cima da mesa, revelando algo como um computador em disfarce. Nicholas digitou uma espécie de código antes de um som de bip se fazer presente em uma contagem regressiva.

― Já estava na hora de eu comprar outra casa mesmo. ― Nicholas disse, permanecendo sua postura firme. Logo entrou no carro, guiei-me ao seu lado na porta.

― Nicholas, vai pro lado do passageiro. ― disse. ― Eu vou dirigir. Você não tem condições para isto, sua perna baleada não pode fazer esse esforço.

― Nada disso! ― ele encarou-me ríspido. ― Não temos tempo pra discutir. Entra logo no carro Sophia!

Sua irritação era bem evidente.

― Concordo! Não temos tempo pra discutir. Então afasta logo!

O som da bomba armada causava-nos apreensão. Nicholas bufou, cedendo ao meu pedido ao passar para o banco do passageiro. Rapidamente entrei no carro, tomando um susto com o luxo indiscutível de seu carro. Nicholas apertou um botão cinza, fazendo com que o teto acima de nós se abrisse e a plataforma onde está o carro nos movesse para cima. Logo pude perceber os clarões do sol radiante no ambiente. Rapidamente varro o local, situando-me. Estamos no jardim de Nicholas, rumo em um caminho asfaltado que nos dará acesso ao grande portão principal.

Respirei fundo antes de dar uma situada em todos os botões e pedais do carro, lembrando-me de minhas aulas na autoescola. Sem perder mais nenhum tempo, arranquei com o carro rumo pelo caminho. Por onde passamos, há muitos seguranças mortos. Alguns corpos estão estraçalhados como se fossem comidos por um bicho selvagem. Pergunto-me apavorada o que poderia ter feito isto.

Sem demoras a minha pergunta, o chão parece tremer com sons altos e fortes de passos. Ao olhar rapidamente para o retrovisor, percebo um monstruoso cão de três cabeças tão grande quanto a imensa mansão. Seus grandes dentes afiados para fora derramavam uma espuma branca e seu rosnado forte demonstrava sua extrema raiva. Assustei-me de imediato com a descrença no que vejo.

― Não se abale. ― Nicholas chamou minha atenção. ― Apenas acelere. Rápido, não perca tempo.

Como uma imediata reação, pisei pesadamente meu pé no pedal do acelerador. Os fortes passos atrás de mim fazia o chão tremer, o carro quase levantava voo na velocidade da luz. O assustador cão raivoso caçava-nos como se fossemos um suculento osso para afiar suas presas. Estou em um assustador filme de terror, em um mar de sangue causada por um perseguidor monstruoso. Meu estômago revira anunciando uma ânsia quase incontrolável. 

A minha frente o grande portão uma vez aberto, ameaçava se fechar. Apressei-me ainda mais, com o temor de ficar presa nas grandes garras deste monstro.

― Não vai dar tempo.  ― Nicholas disse apreensivo. ― Precisamos traçar outra rota, mude o percurso, nos fundos há outro portão.

― Vai dar da gente passar! ― Aos invés de adaptar-me à sua fala, insisti nesta ideia.

― Você é louca garota? Não tem como passar! ― Nicholas exaltou-se, tentando recuperar o controle do carro ao segurar o volante. Porém permiti-me forte na direção. Afundei ainda mais meu pé no acelerador, fazendo Nicholas soltar um palavrão insatisfeito. O barulho de pintura de carro arranhando ecoou incomodamente por nossos ouvidos. Por fim conseguimos atravessar a tempo.Sem preder tempo guiei-nos à estrada, observando no retrovisor o grande cão derrubar o portão, mas parar seus movimentos ao observar-nos se aproximar da aglomeração de carros.

― Você me deve um carro novo. ― Nicholas murmurou, chamando minha atenção. ― A proposito, como você conseguiu enxergar o Cérbero? Somente seres de outra dimensão conseguiriam enxerga-lo. 

― E-eu não sei. ― murmurei confusa e ainda descrente para o que presenciei. Mal acabei de falar, e o retrovisor se encheu de carros pretos em alta velocidade a se aproximar. Nicholas soltou um palavrão sabendo que novamente entrávamos em uma perseguição. Segurei-me firme na direção, aumentando novamente a velocidade do carro. De imediato, virei rapidamente em uma estrada de terra. Suspirei ao olhar no retrovisor que ao menos metade dos carros passaram reto pela excessiva velocidade que não o deixaram parar a tempo. Porém ainda possuem quatro carros na nossa cola. Continuo firme na longa rua única, assustando-me ao repentinamente deparar-me com os mesmos carros que passaram reto agora encontravam-se na nossa frente, posicionados como uma barreira. Sem ter escolhas adentrei rapidamente em uma estrada na contra mão. Os carros buzinavam ensurdecidamente enquanto ao máximo tentava desviar dos obstáculos. Rapidamente guiei meu olhar ao retrovisor, não constatando mais nenhum carro na nossa cola.

De imediato entrei na próxima rua à direita, pegando a mão certa, e logo pegando outra rua à esquerda e após três outra à esquerda.

― Nada mal. ― Nicholas disse, certificando-se de que ninguém mais nos seguia. Após um tempo, realmente tendo a certeza disto, Nicholas guiou-me por uma determinada estrada de barro que por ela seguimos por um longo tempo. Conforme avançávamos, a paisagem ia ganhando características rurais. Árvores estão presentes ao redor do caminho. Apenas sigo suas instruções.

Após um determinado tempo, finalmente cheguei ao destino trajado por Nicholas. Em um lugar que eu diria ser bem escondido. Nunca imaginaria que existiria algo por essas bandas. Logo a frente tinha um galpão que pela aparência parecia abandonado. Sua pintura queimada evidenciava que há muito tempo o local foi alvo de um grande incêndio. Nicholas saiu do carro e eu apenas o acompanhei.

― Quer que eu te ajude? ― perguntei ao observa-lo ter dificuldade para andar. O estado de Nicholas é preocupante, ele perdeu muito sangue.

― Eu consigo fazer isto sozinho. ― Nicholas disse ríspido. Dei de ombros com desdém por sua brusca resposta. Apenas observei Nicholas em dificuldade a cada passo. Bufei e me aproximei, ajudando-o mesmo contra sua vontade. No início Nicholas desviou de meus movimentos, mas logo se deu por vencido e aceitou minha ajuda. ―Por aqui. ― ele apontou para uma porta nos fundos do galpão, seguimos em direção. Empurrei a grande porta, causando um barulho incomodante por sua ferrugem. O lugar é meio sujo e com a iluminação fraca.

― Temos mesmo que entrar aí? ― questionei apreensiva. Nicholas revirou os olhos demonstrando seu desgosto por minha pergunta, em seguida apenas assentiu em afirmação. Respirei fundo antes de adentrar ao escuro local. Assim que passamos pela porta, Nicholas fechou-a, deixando o local mais escuro ainda. Demorei para acostumar minha visão ao ambiente. Em passos apressados caminhamos pelo sombrio corredor. De repente lâmpada penduradas ao teto iluminaram fracamente o local. Ao final deparei-me com uma outra porta, revelava-se uma sala bem iluminada e organizada, totalmente o contrário do sombrio corredor, nem parece que ainda estamos no mesmo galpão.

De imediato percebo Ryan, Charlie, Christian, e um outro homem desconhecido por mim, sentados nos sofás ao discutir sobre algum determinado assunto. Eles se interromperam ao perceber-nos, rapidamente levantando-se dos sofás ao nos encarar apreensivos.

― Você está bem? ― Ryan de imediato se aproximou de mim. Apenas assenti em afirmativo à sua pergunta, meio confusa sobre isto e sobre tudo o que acabara de me acontencer.

― O que houve? ― Christian pronunciou-se. Seu engolir em seco é possível perceber que a apreensão e aflição o atingem. ― O que fazem aqui?

― Invadiram minha casa. ― Nicholas informou irritado, causando surpresa de todos.

― Eu te disse que aquela casa não tinha nenhuma proteção. ― Ryan direcionou-o a palavra em repreensão. Nicholas apenas bufou insatisfeito.

― Tem ideia de quem seja? ― Charlie se pronunciou após soltar um palavrão.

― E você ainda pergunta? ― Nicholas ironizou. ― Bryan, é claro.

Suas expressões parecem enrijecerem com um ódio evidente ao nome pronunciado. Nicholas rapidamente guiou-se à uma porta, adentrando-a. Ele procura por algo em grandes caixas brancas. Charlie rapidamente guiou-se a mexer em um computador, e Christian e o outro homem puseram-se a ler uns documentos em cima de uma grande mesa arredondada. Percebo que Nicholas toma um pequeno frasco, franzindo o cenho em uma careta de desgosto pelo péssimo gosto. Estranhamente, percebo que seus ferimentos estancam o sangramento, lentamente se cicatrizando. Arregalo meus olhos em descrença ao constatar por fim a cicatrização completa de seus ferimentos. 

― Tem certeza que está bem? ― Ryan voltou a questionar-me, preocupado, chamando minha atenção.

― Acho que sim. ― sussurrei confusa a todos os acontecimentos. É uma descrença maior que a outra. Não me surpreenderia se de repente eu acordasse e percebesse que nada disto na verdade aconteceu, nada não tivesse passado de um sonho extremamente maluco. Encontro-me de uma forma que já não sei mais a diferença entre a realidade e a ilusão.

Nicholas guiou-se a Christian. Sua aparência e movimentos estão ótimos, como se nunca tivesse sido baleado.

― O que conseguiram achar? ―  ele questionou. O homem desconhecido lhe entregou um papel, com um breve sorriso satisfeito. Ao analisa-lo, um sorriso convencido contagiou o rosto de Nicholas. ― Ótimo trabalho Lil!

Após sua fala, Nicholas caminhou a Charlie, entregando-lhe o papel. Charlie analisou-o e logo digitou algo em seu computador, enquanto Nicholas apenas o observava atentamente.

De repente o alto barulho da porta dos fundos do galpão ao se abrir nos assustou. Tão rapidamente, seus revolveres já estavam posicionados em mira certa. Todos encararam, atentos, a porta de acesso ao pequeno e sombrio corredor. Um grunhido doloroso ecoou pelo local, e a porta logo se abriu. Elizabeth adentra o local com o braço baleado, a qual ela pressiona com um pano que já está encharcado com seu sangue. Abaixaram a guarda ao vê-la.

― O que aconteceu? ― Nicholas perguntou, erguendo uma de suas sobrancelhas.

― Jonathan me achou. ― Elizabeth dizia apressada passando pela mesma porta que Nicholas tinha passado um tempo atrás. Nicholas a acompanhou adentrando também ao ambiente, o qual parece uma sala de enfermagem. Elizabeth procura desesperadamente algo na mesma grande caixa branca, enquanto Nicholas a encara confuso. ― Eu estava na minha casa quando os policiais chegaram. De alguma forma, suas balas continham símbolos sagrados. Jonathan com certeza sabe de algo.

Estreitei meus olhos, confusa. Estariam eles falando de meu pai. Não, com certeza não referem-se a ele. Afinal o que ele teria a ver com toda esta situação. Meu pai não é policial, muito menos um detentor de conhecimentos sobre este mundo de descrenças. O trabalho de meu pai é tomar conta da parte contábil de uma grande empresa comercial.

Elizabeth pronunciou um palavrão ao colocar o líquido transparente no profundo machucado em seu braço, e ao manusear uma pinça retirou a bala alojada em seu músculo. Logo virou por sua garganta o mesmo líquido de um pequeno frasco, causando-a uma careta em descontentamento. De repente, meus olhos observam em câmera lenta o mesmo processo de cicatrização se repetir.

De repente estrondosos sons de tiros invadiram o local, assustando-nos. Engulo ruidosamente me seco, apreensiva por não querer acreditar que todo pavor se inicia novamente. Faz-me lembrar da promessa de Bryan que faria de tudo para ainda hoje nos "reencontrarmos". Sinto um calafrio amedrontado ao pensar nesta possibilidade. Ele não desistirá até que consiga o que quer.

De imediato, Nicholas abriu um armário, revelando-se diversos armamentos pesados. Imediatamente cada um na sala pegou uma, e logo as carregavam. Com uma agilidade tão grande, todos presentes na sala já posicionaram seus respectivos revolveres em mira à porta. 

― Vem comigo! ― Ryan direcionou sua fala  a mim, apressado ao guiar-me à uma outra porta, a qual possuía um longo corredor, muito pouco iluminado e com um cheiro forte de esgoto.

― O que acham que estão fazendo? ― Nicholas questionou impaciente ao se aproximar.

― Vou tirar Sophia daqui. ― Ryan disse firmemente. Nicholas nos encarou por um momento.  

― Só não fuja. ― ele disse. ― Obedeça às instruções corretamente.

Um alto barulho assemelhando-se aquela grande porta da entrada sofrer diversos fortes empurrões. Estão tentando derrubá-la, o barulho é ensurdecedor. Nicholas correu para preparar-se de escolta para a entrada deles.

― Sophia, preste atenção! ― Ryan chamou-me a atenção. ― Quero que você siga esse corredor. Ao final, terá uma porta preta, passando por ela, você estará fora do galpão. Tenha cuidado para não ser vista! Corra até uma trilha que tem na mata, você logo a achará. Siga-a até o final e logo você vai ver uma rua, siga por ela até encontrar a primeira casa da cor verde claro entre nela e procure por Alfredo, ele lhe ajudará!

Engoli em seco com tanta informação para assimilar e lembrar de suas rápidas palavras.

― Você não vem? ― perguntei preocupada.

― Não agora. ― ele negou, causando-me aflição. ― Eu tenho que ajudar aqui, mas logo estarei com você.

― Não, Ryan. Por favo, venha comigo. ― desesperei-me. ― Eu não consigo ir sem você. Você não pode ficar aqui. Eu não posso te perder.

Senti meus olhos marejarem com medo de algo ruim acontecer a ele. O ar falta-me com a cruel possibilidade gritando em minha mente como um zombamento do pavor.

― Vai ficar tudo bem. ― Ryan disse, envolvendo-me em um rápido abraço. ― Não chore e nem se preocupe, eu já estarei com você. O caminho não há erro, você vai conseguir.

As primeiras lágrimas já desciam dolorosamente com o medo se apossando de meus sentimentos. De repente um alto estrondo ecoou, e os tiros ensurdeciam qualquer um no local.

― Ryan eu não vou te deixar. ― murmurei amedrontada.

― Tenha calma. Tudo ficará bem. ― Ryan puxou-me novamente a um forte abraço, beijando minha testa. Ele olhou-me por um momento. Sua expressão demonstrava dor. ― Lembra que eu te amo.

Estreitei os olhos confusa com o tom melancólico de sua fala. Tão rapidamente Ryan correu ao passar rapidamente pela porta quanto fechou-a. Corri apressada em direção à porta.

― Ryan! ― gritei desesperada com a possibilidade de algo ruim o acontecer. Girei e soquei por diversas vezes sua maçaneta mas não tive sucesso em minhas tentativas. ― Por favor abre a porta. Não vai!

Passei as mãos exasperada por meu cabelo, desabando ao choro descontrolado com medo de perdê-lo. Ryan não podia ter feito isto comigo. Ele sabe que eu não aguentarei se algo o acontecesse. Eu não posso deixa-lo. Eu não quero deixa-lo.

Tentei concentrar-me em sua voz e tentar acalmar-me, mas é quase impossível. A cada disparo de tiros meu coração grita na maior nota dolorida com um extremo sufocamento. Sentindo-me sem ar, guiei meu olhar para o escuro corredor estreito. Forço minha vista a enxergar, a única luminosidade do local é de uma pequena brecha em uma janela.

― Tenha calma, tudo ficará bem. ― Fechei meus olhos ao concentrar-me em sua voz. Inspiro e expiro profundamente, tentando acalmar-me ao me apegar nas esperanças de que ele ficará bem, e em breve nos reencontraremos.

Cautelosa dei alguns passos em diante no corredor, respirando novamente profundamente antes de voltar a seguir meus passos. O apertado local dá a impressão que quanto mais eu ando mais longe eu fico da saída. O único som que se escuta é o eco de goteiras e de meus passos. O ambiente é totalmente sombrio. Meu estômago embrulha com o fedor podre de esgoto. Algumas poças de água suja fazem meus passos causarem respingos com o impacto. As paredes são de ferro, sujas com algum tipo de graxa e ferrugem.

Após um longo tempo, finalmente avistei uma grande porta de metal enferrujado. Apressei-me ao me aproximar, de imediato fazendo um grande esforço para puxa-la e enfim abri-la. A claridade do sol invadiu meus olhos com uma grande intensidade, causando-me como reação um rápido fechar de olhos. Parece que eu não vejo a luz solar há anos. Lentamente meus olhos voltaram a se acostumar com a claridade.

Rapidamente, recompus-me ao ouvir conversas. Varri o local com o olhar, percebendo alguns homens armados, um pouco afastados. Não parecem nada amigáveis. Pergunto-me como conseguirei sair deste local sem que eu chame atenção.

Por minha talvez sorte, os homens conversam distraidamente. Julgando essa distração favorável a mim, dei pequenos e cautelosos passos a frente, guiando-me escondida pelos arbustos que se encontravam na lateral do galpão. Logo pude perceber, pouco escondida por grandes folhas, a trilha na qual Ryan tinha me dito. Mas a questão é: como chegarei lá? Encontra-se um pouco afastada, temo que assim que eu sair de trás desses arbustos eu atraia a atenção indesejável.

Meu olhar não desvia de suas direções, observando-os ainda distraídos na conversa. Respirei fundo, encorajando-me a continuar. Cautelosamente levante-me, saindo lentamente dos arbustos para enfim poder correr rumo ao caminho entre a mata. Em passos longos e cautelosos, caminhei em direção à trilha, em nenhum momento tirando meu atento olhar de seus movimentos. De repente percebo que meu pé ficou preso entre as raízes secas de um arbusto. Forcei meu pé a sair do aglomerado, acabando por me fazer direcionar todas minhas atenções ao me desfazer das raízes.

― Bela Juliana. ― De repente ouvi a voz em deboche, causando um imediato direcionar da minha atenção. Os homens, a quem momentos atrás conversavam distraídos, agora possuem seus olhos bem fixos a mim. Sem pensar duas vezes, corri até a trilha, adentrando-a na imensa mata. Meus apressados passos contém desespero em sumir de suas vistas, sumir desta perseguição, sumir de ser o alvo destes problemas. Posso ouvir os passos e vozes dos homens correndo atrás de mim. Isso deixa-me apavorada. 

Enfim avistei o final da trilha, fazendo-me apressar ainda mais meus passos para alcança-la o mais rápido possível. Mas de repente sinto uma forte dor com meu cabelo sendo puxado bruscamente para trás. O bruto golpe arremessou-me à lamacenta terra molhada com algumas folhas secas. Meu braço foi puxado bruscamente, fazendo-me levantar. Meu olhar rapidamente se encontrou com o olhar frio do homem a minha frente. Sua pele é morena coberta por tatuagens até em seu pescoço, seus olhos são verdes escuros e seus cabelos negros como a escuridão. Ele se limitou a apenas encarar-me sério, antes de me arrastar para o lado oposto de meu destino.

― Me solta! ― debati-me, tentando soltar-me de seu aperto forte. Meus pés se fincavam à terra molhada intencionando pará-lo, mas nada o impedia. Saímos da mata, aproximando-nos de um carro preto, cercado de um grupo de homens mau intencionados. O homem tentou jogar-me dentro do carro, porém agarrei-me na porta, impedindo-o de realizar seu ato. Senti um doloroso puxão nos fios do meu cabelo, arremessando-me ao asfalto gelado. 

― Seria uma bela posição pra te foder agora. ― o homem maliciou pronunciando sua palavra pela primeira vez, o que arrecadou risadas debochadas dos outros homens, a quem observavam tudo com expressões de divertimento. De repente a expressão do homem a minha frente adotou um ar sério e ríspido, seus olhos verdes pareciam ganhar um tom completamente escuro sob mim. Sua paciência parece ter se esgotado.

Imediatamente, levantei-me, sem pensar duas vezes ao correr na direção oposta. Mas em um movimento tão rápido quanto eu pude perceber, meu rosto foi em um brusco encontro ao material ríspido do carro. A tontura me atingiu e o líquido avermelhado escorreu por minha testa. Tão rapidamente quanto eu pudesse raciocinar, sua mão fechou-se em meu cabelo, impulsionando bruscamente minha cabeça novamente contra o rígido material. Minha visão desfocou-se, posso perceber o amassado de minha cabeça ao carro. Sua força me deixa novamente sem explicações.

O homem fez um sinal com a cabeça pra um garoto que se encontrava entre a plateia de homens. O menino aparenta ter minha idade, talvez até mais novo, contém uma expressão séria e até mesmo demonstrando desgosto pela situação. Ele, entendendo o recado lhe dado, molhou um pequeno pano com uma substância suspeita, jogando-o em nossas direções. Meu raciocínio não foi rápido o suficiente para que eu pudesse evitar, que este mesmo pano seja pressionado incisivamente contra meu rosto. Minha visão enturva-se rapidamente. Tento permanecer-me firme em meus movimentos de desvio, mas sinto-me aos poucos perder os sentidos com o forte cheiro da substância adentrar por minhas narinas. Meu equilíbrio bambaleia trêmulo. Minhas pálpebras pesam a querer se fechar.

― Tenha belos sonhos. ― o homem disse satisfeito com minha indisposição.

De repente assustei-me com estrondosos disparos de tiros. Fechei meus olhos com força, tentando segurar-me na porta do carro ao perceber meu corpo inteiro pesar para a gravidade. Não pude evitar sem qualquer equilíbrio ir bruscamente ao chão. Assim que voltei a abrir meus olhos, percebo que todos estavam mortos. Apavorada em meios de corpos sem vida, tento permanecer minha visão coerente, porém aos poucos se apaga sob os efeitos da substância inalada. Antes de perder completamente meus sentidos, percebi uma mácula silhueta a se aproximar, a quem não obtive resultados em identifica-la por meus sentidos serem bruscamente estraçalhados pela escuridão.

 

 

 

 

 

 

Amparado pela Lei 9.610/98 (Lei de Direito Autorais) em combinação com o Código Penal Brasileiro. Para melhor compreensão, vide o artigo 184 do Código Penal (Pena de Detenção: 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa). Nos casos previstos nos parágrafos §1° e §3° deste mesmo artigo: (Pena de Reclusão: 2 (dois) anos a 4 (quatro) anos, e multa). Não queira ficar atrás das grades por um comportamento inadequado. Converse com o(a) autor(a), peça autorização antes de copiar total ou parcialmente sua obra ! **


Notas Finais


**Aos meus verdadeiros leitores, peço que desconsiderem o aviso no final, destina-se apenas aos plagiadores em potencial.
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Desculpem pela demora, precisei me ausentar por problemas pessoais.
Mas aqui está o capítulo. Obrigada a todos(as) que acompanham. <3
Estou muito feliz por todos os comentários e favoritos. Muito Obrigada de coração.


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