História I Wanna Be Yours - Capítulo 3


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Categorias MasterChef Brasil
Personagens Ana Paula Padrão, Paola Carosella, Personagens Originais
Tags Ana Paula Padrão, Pana, Paola Carosella
Visualizações 217
Palavras 4.770
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Orange, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi mores meus, como vão? Espero que de mal a pior rsrs' tô brincando, mas enfim, não tenho muito o que dizer aqui, apenas que aguentem o tranco

• Jobbit obrigada por revisar parte do capítulo, não consigo esperar amanhecer pra tu revisar o resto, então vai assim mermo... Porém te amo, bb ~ blue heart~

Capítulo 3 - Capítulo 2 - Memórias sufocadas.


Estava dirigindo em direção a casa de Paola, tinha que pegar Francesca, pois iríamos jantar juntas e obviamente ela dormiria comigo. Suas férias eram para isso, para termos um tempo juntas. Contudo uma sensação esquisita de ansiedade e medo me revirava o estômago... Toda essa história... Tudo era tão complicado.

Quando finalmente estacionei frente aos portões, suspirei. Uma enxurrada de pensamentos se atropelavam em minha cabeça, apenas por ver a fachada desse lugar. Será possível apenas uma casa me causar tamanha ansiedade? Puff, a quem eu queria enganar? Não era só uma casa, nunca foi. Era a nossa casa! Os muros altos eram por segurança, e o portão de madeira, pesado, também dificultaria qualquer imprevisto que acontecesse... Assim Paola disse-me quando a visitamos pela primeira vez.

Respirei fundo e desci do carro.

— Ok, Ana Paula, é só pegar Francesca e ir embora. Nada mais! — Sussurrei numa tentativa de me acalmar e me convencer de que estava tudo bem.

A última vez que passei para dentro desses muros fora a tanto tempo... Em um momento totalmente diferente. Respiro fundo, mais uma vez naquela tarde, tentando acalmar meu corpo. Minha mente. A mim!

Quando eu estava prestes a tocar o interfone, o portão fora aberto por um homem alto, de terno preto. Possuía um olhar desconfiado, severo, e um cigarro no canto da boca, como se estivesse com preguiça de segurá-lo. Será italiano?

La signorina? — Óbvio que era italiano, como não haveria de ser? Sua expressão agora era ainda mais duvidosa, acho que talvez estivesse se perguntando se eu realmente era quem Paola esperava — Você é a esposa da senhora Carosella? — O sotaque era forte, o bastante para fazer seu português ficar enrolado.

— Infelizmente, querido!

Respondo sem muita emoção, no automático, ao passo que caminho para dentro daqueles portões. Ele pigarrea, tirando o cigarro da boca, como se tivesse ficado realmente desconfortável com a minha resposta. Não... Ofendido era a palavra certa! Céus, essa lealdade desmedida, essas dores tomadas por pouco, me irritam!

Seus passos pesados soam como um baque em meus ouvidos. Incomodam, na verdade. Parece marchar para a guerra.

— Não precisa me acompanhar, eu sei o caminho!

Era nítido como ele pestanejava se deveria me obedecer ou não. Ele não me conhece, é justo duvidar.

— Isso não é um pedido. — Digo por fim. Não que eu esteja sendo arrogante, pois não estou, todavia se for para entrar nesta casa, que seja sem um guarda roupa me acompanhando para ter certeza de que não matarei ninguém.

A contragosto ele deixa de me seguir. Fica na metade do caminho do jardim. Observo em volta rapidamente e percebo outros homens, armados, espalhados por ali... Essa é a parte que menos sinto saudade! Definitivamente. Ainda lembro-me da sensação horrível de falta de privacidade e o medo quando eu tinha de andar com alguns desses. Era como se a qualquer momento alguma coisa de ruim fosse acontecer... Era difícil se acostumar com essa ideia.

Cada passo meu é acompanhado por um olhar diferente. Contudo, não é isso que me deixa nervosa e perturbada. Não é o fato de que verei Paola daqui a alguns segundos — mesmo que isso também não me traga boas sensações, ou eu não vá admitir que possam ser boas. É esta casa. Essas paredes. Os móveis... É ela que me incomoda. Ela é o motivo da minha perturbação nesse exato momento. Cada tijolo dessa casa me tira o ar... Como se eu pudesse sentir o peso desse lugar sobre o meu peito, me matando lentamente com lembranças. Com tudo que já vivi aqui com Paola. Não foram momentos tristes, muito pelo contrário, eram festas e jantares que duravam noite a dentro. Reuniões de famílias, o Natal e o aniversário de mamãe... Céus, como posso não ter voltado aqui por todo esse tempo?

Mas estar aqui se parecia exatamente como cutucar uma ferida não cicatrizada. Eu sei que vai doer, pois já está latejando. Que vai sangrar, e em algum momento terei de fazer alguma coisa para estancar isso.

Minhas mãos estão frias, suadas, deixando nítido meu nervosismo. E a sensação que tenho é que minha voz está perdida no fundo da garganta, que não consigo falar agora.

Subi lentamente cada degrau da escada que levava a porta da frente, estava tentando retardar — em vão — o que quer que eu fosse enfrentar ao passar por aquela porta! Educadamente um dos seguranças abriu-a para que eu pudesse passar. Esse já não tentou checar minha identidade, parecia ter certeza de quem eu era. Talvez ele fosse um dos tantos na Itália... Não sei, era difícil guardar todos os rostos, e nomes, e apelidos, já que em algum momento eles acabavam morrendo. Eles sempre morrem!

Tomei uma respiração profunda antes de entrar. Escutei a porta fechar, apenas um click, e meu coração voltou a trabalhar rápido. O cheiro ainda era o mesmo. Os móveis da sala ainda continuam exatamente no mesmo lugar. E meus passos, lentos, ecoavam pela enorme sala. Os saltos batiam com força contra o piso, meu corpo estava pesado. Paola não estava aqui, muito menos Francesca. Onde elas estavam?

Além de minha respiração e meus passos, nada mais podia ser ouvido nessa sala.

É loucura dizer que o silêncio pode parecer alto demais nesse momento? Pois para mim, e talvez minha falta de lucidez, ele me parece absurdamente ensurdecedor! Minha garganta coçava para soltar um grito e cortar essa agonia que me tomava aos poucos, mas isso não é coisa que se faça. Não nessa situação.

Olho em volta, observo cada maldito móvel dessa sala. Sufocada é como me sinto. As memórias dessa casa me tiram o ar, roubam-me o pensamento. Me deixam com as pernas moles. O doce sabor da felicidade que já senti estando nesse lugar se mistura com o amargor de uma mágoa guardada no fundo do peito. Uma dor aguda, a qual culpo Paola por sentir, mas no fundo eu sei que fora causada por mim.

Aliso o estofado do sofá, lembro-me de quando o escolhi... Fora eu quem decorei esse lugar. Exatamente cada mísero móvel daqui, ou de qualquer outro cômodo que você pensar, fora escolhido a dedo por mim. A nossa casa! Ou costumava ser. Era como chamávamos...

Um aparador de madeira, antigo e muito charmoso, ganha-me a atenção. Na verdade, são os retratos em cima dele que conquistam isso! No automático caminho para lá, como se alguma força maior me puxasse.

As pontas dos meus dedos formigaram assim que tomei um dos porta-retratos em minhas mãos. Lágrimas vem aos meus olhos e respiro fundo para contê-las. Não agora, Ana Paula! Era uma foto minha. Tirada por Paola. No dia em que nos conhecemos, minutos antes dela esbarrar em mim. Entre tantas outras eu tinha justamente de prestar atenção nessa? Inferno! Sentei no sofá, ainda com ela em mãos, já não dava mais para ficar em pé. Minhas pernas estavam bambas demais, sentia que a qualquer momento elas fossem trair-me e eu cairia de joelhos no chão.

Nesse instante estava tomada por sentimentos que não escolhi sentir. Que eu supostamente não deveria sentir. Não agora. Não aqui! No entanto, é impossível controlar... Eu só sinto, contra a minha vontade, esse turbilhão de coisas que me revira o estômago. Deixam minhas mãos trêmulas. Geladas. E as malditas lembranças que não deixam-me a mente em paz...

Lentamente passo os dedos pelo vidro. Eu era tão nova! Aquela Ana Paula... Algo em mim desejava que ela estivesse de volta, pelo menos por alguns instantes, apenas para poder sonhar um pouco. Para sentir, por um momento, que eu poderia desbravar o mundo se quisesse. Dessa vez não contenho as lágrimas! Elas correm por meu rosto como um rio. Aos poucos minha visão fica embaçada e sinto minha garganta fechada, tentando conter os soluços. Pare de chorar! Pare de chorar! Pedi a mim mesma, em vão.

Eu já não estava mais no controle de mim mesma. Por conta de uma foto. Por estar nessa casa. Pela volta repentina de Paola!

Tirei a foto da moldura e olhei atrás. A letra rebuscada de Paola, em traços finos, marcavam a data. 1993, 23, march. First meet with the love of my life.

Ano de 1993, 23 de março. Londres, Inglaterra, Reino Unido.

Estava frio, ventava um pouco, e meu copo de café fazia o trabalho de me esquentar. Havia acabado de sair da biblioteca... Semana de provas faziam com que eu me enfiasse por dias e dias ali. Fui tão boba ao pensar que viveria apenas em festas quando me mudasse para cá, mas vejam, em três anos na Inglaterra fui a exatamente cinco festas. Duas contra a minha vontade, pois fui praticamente carregada por meus amigos!

— Ana banana! — Grace me assustou ao gritar o apelido idiota e quase derrubei meu café.

— Oh, garota estúpida, assim vai me matar antes que eu consiga passar de semestre!

— Freddy quer sair e disse que Thomas lhe convidou também... — Ela soltou sugestivamente, mas minha única reação foi revirar os olhos.

— Não, obrigada! Meus livros são mais interessantes que aquele imbecil.

Agora ela é quem revira os olhos. Já havia meses que Grace tentava me arrumar alguém para sair, o que não estava em meus planos, já que estou aqui para estudar e não arranjar alguém para namorar.

— Ok, e se nós chamarmos Stef no lugar de Thomas? — Sua pergunta me dá mais três tons vermelhos em minhas bochechas — Oh, eu sei sobre as suas garotas, você é péssima em esconder seus olhares para Srta. Patrícia!

— Eu não... Olho ninguém! — Digo meia sem jeito... Mas quando é que minha sexualidade entrou em pauta aqui? — Você pare de dizer... — De repente sinto alguém se chocar contra mim e logo meu copo de café está no chão. Por pouco não estou fazendo companhia a ele. — Mas que diabos?! — Praguejo em português e Grace começa a rir.

— Desculpe! Me desculpe mesmo... Eu não... Olha, eu sou muito atrapalhada mesmo! — Seu sotaque britânico era forte, mas seus traços não se pareciam em nada com as pessoas daqui. Ela era bonita, bronzeada... Ingleses não são bronzeados assim, tão naturalmente. Ela tinha uma câmera pendurada ao pescoço, talvez fosse por isso que esbarrou em mim. Distraída fotografando alguma coisa... Não sei.

O sorriso tímido ainda esperava que eu aceitasse suas desculpas. Ou talvez lhe dissesse alguns palavrões.

— Tudo bem. Não tem problema, acidentes acontecem! — Minha voz sai meio arrastada, já que seus olhos quase me roubam o raciocínio. Quem era ela?

— E você é... Senhorita? — Grace se intrometeu, depois de um silêncio constrangedor e uma troca de olhares entre mim e a moça misteriosa.

— Paola Polverari.

— Italiana? — Perguntei curiosa. Seu sorriso fechado, como Mona Lisa, me causaram um leve nervosismo.

Céus, ela era tão alta, magra, contudo ainda sim muito bonita!

— Dalla testa ai piedi! — Sua voz ficou um tom mais grave no italiano, arrepiando minha pele por sob o casaco.

Mais um momento de silêncio. Mais olhares. Mais arrepios — que absolutamente não eram causados pelo vento frio que levantavam as folhas alaranjadas. Paola Polverari... Seu nome flutuava em minha mente enquanto eu lhe observava. Era como se eu sentisse uma necessidade de dizer seu nome, porque ele soava tão bem... Mas isso seria estranho. Por que eu repetiria seu nome?

— Uau, vocês vão se beijar em algum momento? Porque parece que um raio atingiu vocês e bum... — Grace soltou esbaforida, então acordei desse transe hipnótico súbito causado por Paola.

— Grace! — A repreendi em uma tentativa de calar-lhe a boca.

— O que foi? Você tinha que ver como pareciam ligadas nesse olhar esquisito. — Minha amiga conseguiu arrancar risadas de Paola e eu corei mais uma vez de vergonha.

Mas por que infernos eu estava corando?

— Grace, por favor, vá encontrar Freddy! — Pedi.

— E Thomas?

— Oh, pare com isso. Não vou sair com esse garoto... Agora vá!

— Ei, não precisa me expulsar... — Me deixou um beijo no meu rosto e logo se dirigiu a mais alta, estendeu-lhe a mão sendo retribuída pela a outra — Foi um prazer, italiana!

— O mesmo!

Ambas assistimos Grace se distanciar. E agora? O que ia acontecer? Eu só vou embora ou... Falo com ela? Droga, que nervosismo é esse? Me sinto burra por não saber o que fazer ou como agir!

— Você não vai me dizer seu nome? — Sua voz me arrancou dos meus devaneios.

— Meu nome? Oh, meu nome! — Estúpida! — Ana Paula!

— Latina?

— Sim, brasileira! — Esperei que a qualquer momento ela fosse dizer as palavras "praia" ou "samba" como todo mundo fazia, mas não aconteceu.

— Já ouvi falar que é muito bonito!

— Você pode ir um dia para ter certeza.

— Isso é um convite? — Seu tom foi sugestivo. Estávamos flertando ou algo do tipo? Ou o quê?

— Hm... Bem, talvez. Eu não sei!

Ela riu e eu sorri, sem graça.

— Posso lhe pagar outro café, já que não vai se submeter a um encontro com esse tal de Thomas? — Brincou.

— Não precisa se incomodar, foi um acidente!

— Bem, eu estou tentando ter sua companhia por mais alguns minutos, você pode fingir que quer a minha também, Ana? — Foi estranhamente direta e isso me deixou sem graça. Ela estava flertando comigo a segundos atrás! E agora queria minha companhia... O que eu faço? Céus, larga de ser estúpida Ana Paula!

— Você parece muito mais divertida que Thomas, Paola. — Decido me render a esse café — O café... Podemos ir se quiser!

— Só conheço uma cafeteria aqui... Se importa? — Dessa vez ela é quem fica sem graça.

— Oh não, o que você quiser!

Começamos a caminhar para fora do campus, vez ou outra ela pegava a câmera em seu pescoço e fotografava alguma coisa.

— Estuda por aqui?

— Economia! — Responde quase com uma careta, o que me arranca uma leve risada.

— Jurei que diria fotografia. — Ela sorri, mas nega com a cabeça e sussurra "é apenas um hobby". — Por que economia? Não me pareceu muito feliz ao responder!

Ela sorri rapidamente, sem muita vontade.

— Minha família... É algo que eu precisarei no futuro! — Seu olhar vaga para longe — Direito seria uma ótima escolha, mas meu pai já me ensinou exatamente tudo que sabe sobre isso. Seria mais útil que eu cursasse economia, e não algo que já sei. — Por fim ela me olha, como se não tivesse mais nada para dizer, mesmo que essa história parecesse ter muito mais para ser dito.

Céus, claro que ela não contaria sua vida inteira para uma desconhecida feito eu.

— E você?

— Jornalismo. Quase fiz literatura francesa, mas acho que não combinaria muito comigo.

Sem perceber, desandei a falar sobre meu encanto pelo jornalismo, por contar histórias, de todos os tipos e lugares, que nem ao menos notei que a italiana tirava fotos atrás de fotos. Fotos minhas! Lá estava eu, mais uma vez, morta de vergonha com as bochechas rubras e o sorriso sem graça.

— Desculpe, mas é que não consegui me conter...



_________________________




— Essa foto... Ela é uma das minhas preferidas! — A voz de Paola soou alta. Grave. Inundando a sala, tirando-me de meus devaneios memoriais.


Droga! Enxuguei as lágrimas e tratei de voltar a foto para o porta-retrato. Levantei e lhe devolvi para seu devido lugar. Não sei a quanto tempo Paola estava me assistindo divagar com essa foto em mãos, todavia não encontro coragem de virar e lhe encarar agora. Meus olhos estão vermelhos, com toda certeza, e levemente inchados, eu posso sentir isso... Denunciando totalmente meu choro. Não quero que ela me veja assim, tão... Vulnerável! Sinto-me totalmente exposta.


— Ana... — Ouvi seus passos em minha direção e finalmente me virei, encontrando-a a poucos centímetros de distância.


— O que foi Paola? — Tentei me manter indiferente, mas aqueles malditos olhos... Eles revivaram minha alma. Minha mente. Simplesmente me punham de cabeça para baixo!


Minha mulher findou o espaço que nos separava. Respiravamos o mesmo ar... Eu conseguia perceber seu hálito alcoólico me embriagando.


Nunca senti tanto que precisa de um cigarro. Só queria a nicotina — e todas as milhares de substâncias que antecepariam minha morte — relaxando-me nesse momento!


— Você precisa parar de beber! — Tentei descontrair e lhe arranquei um riso. O mesmo riso leve, puxado de canto, de quando nos conhecemos naquela tarde de primavera.


— Não posso lhe prometer algo que não vou cumprir, pequena. — Sua voz era tão carinhosa. Doce. Seus dedos alisaram minhas bochechas, como ela sempre fazia.


Costumes. Vícios. Traços.... Nada nunca fora esquecido por mim. Me lembro de cada mínimo detalhe sobre ela. Sobre nós. Fechei os olhos, apenas esperando seus dedos trilharem o caminho até minha boca. Quando ela fez, suspirei. A ponta de seus dedos contornou cada traço de meus lábios, tão devagar... Meu coração era totalmente o oposto.


— Aninha... — Um sussurro. Sua respiração estava tão perto, que fiquei com medo de abrir os olhos. Eu sei o que Paola esperava, no fundo eu também queria, mas essa permissão em voz alta, eu não conseguiria dizer nesse momento.


— Mamãe! — Francesca apareceu na sala, gritando em nossa direção e suspirei aliviada. Obrigada, filha!


Paola se afastou, enfiando as mãos no bolso da calça, e sorriu para nossa filha.


— Oi meu amor... Você está pronta para ir? — Tive de procurar minha voz no fundo da garganta. Minha mente gritava para que eu saísse dali, mas meu corpo, totalmente estupido, estava parado, sem reação alguma.


— Não sei onde estão minhas malas... Mamma?


— Não se preocupe, polita! Nicholas vai levar suas malas até o carro de sua mãe. — Respondeu, atenciosa e paciente, como sempre era com Francesca.


— Pois então vamos, mocinha! — Tento parecer animada, mas não tenho muita certeza se fui bem sucedida, já que Paola me olha com um riso escondido. Debochada do caralho! — Se despeça da sua mãe, Fran.


As duas se abraçam e Paola pega essa pequena gigante no colo, elas conversam algo em tom baixo... Claramente era algum segredo. Talvez pudesse me envolver. Ou Paola apenas estava brincando com a minha paranóia. Não sei mais o que pensar, tenha a impressão que meus neurônios estão pedindo por um intervalo de toda essa... Coisa!


Quando as duas Carosella terminaram as confidências, eu e Fran seguimos para a saída. Nenhuma das duas comentou sobre os cochichos e eu também não o faria! Paola nos acompanhava, silenciosa, apenas para que desse a ordem a um de seus afilhados. Ainda soava-me esquisito esse pensamento, quem dirá em voz alta!


— Nicholas. — O mesmo homem, o que me recebera, se aproximou. Dessa vez seu olhar já não era desconfiado, mas tinha a leve impressão de que ele não gostara muito de mim — Pegue as malas de Francesca com Marieta e leve-as para o carro da minha mulher!


— Pode deixar, cacciatrice¹. — Ouvir o apelido de Paola me arrepiou a nuca. Fora como um balde d'água fria!


— Nós vamos esperar lá fora! — Avisei e sai com Francesca.


Paola continuou a nos acompanhar. Não disse qualquer palavra até chegarmos ao meu carro, já do lado de fora.


— Nicholas acompanhará vocês duas... Apenas por precaução. — Ela avisou. Não! Porra, claro que não!


Um sorriso irônico surgiu em meu rosto e balancei a cabeça negativamente.


— Nós não estamos na Itália, Paola! — Respondi e ela suspirou já coçando a cabeça — Em todos esses anos nunca precisei de seus homens me seguindo! Em todas as férias de Francesca comigo, também não foi necessário.... Se a sua presença aqui significa perigo, então é você quem tem que ir! — Seu corpo estava tão em estado de alerta quanto o meu. Esse assunto havia mudado totalmente o clima. Era mais pesado, denso. Quase palpável!


— Não ouse dizer que ponho a vida da minha filha em risco por estar perto dela! — Seu tom saira magoado e os castanhos, tão tempestuosos de seus olhos, confirmavam isso.


Entrei em um dilema interno entre prosseguir nesse assunto e continuar a ferir a italiana com minhas palavras, ou apenas encerrar essa briga iminente que poderia surgir.


— Não quero brigar. — Suspirei resignada — Mas Nicholas fica! Francesca e eu passaremos bem, Paola.


Ela mais nada diz. Quando o italiano desconfiado chega, e guarda as malas da minha pequena, entro no carro e rumo para meu apartamento. A única coisa que preciso agora é um banho e ficar com minha filha.


— Mamãe? — Fran me chamou a atenção mais uma vez, estávamos praticamente presas a esse trânsito insuportável de São Paulo.


— O que foi, meu amor?


— Me deixa jogar no seu celular? A gente nunca chega em casa! — Pediu manhosa, amolecendo o corpo no banco. Sorri desacreditada com essa atuação para conseguir jogar em meu telefone.


— Só porque estamos presas nesse trânsito horrível... Mas não se acostume! — Lhe entreguei o celular e depois liguei o aparelho de som do carro, apesar de estar aérea eu também precisava de uma distração.



______________________



Havia acabado de por Francesca na cama, também deveria ir, mas o sono não parece querer alguma coisa comigo esta noite! Pego a taça de vinho na bancada e volto para a sala, olho para a carteira de cigarro jogada na mesinha de centro, decidindo se caio em tentação ou apenas suporto com a bebida. Há alguns meses eu havia, com muito esforço, conseguido parar de fumar. Vícios são difíceis de se abandonar, pois por mais que sejam — em sua maioria — destrutivos, são algo que, de alguma forma, nos acalma e acalenta... Uma válvula de escape. Os meus eram péssimos: bebida e cigarro, um casamento mortífero!


Nesse silêncio, que me consome lentamente, e as lembranças que parecem uma sinfonia, dançando e flutuando no salão dos meus pensamentos... Não tenho como não fumar. Eu preciso! Assim que ascendo o cigarro, já do lado de fora na varanda, já na primeira tragada sinto um alívio. Quem sabe isso não fosse psicológico?! Observo a grande São Paulo e a fumaça que se perde ao sair por entre meus lábios, sendo levada pelo vento manso que começa a gelar a noite. Aos poucos percebo a nicotina deixar meu corpo leve, como se formigasse, e o vinho ajuda ainda mais nesse processo... Seja ele qual for.


E mais uma vez naquele dia meus pensamentos caem sobre ela. Paola. Por que é tão difícil me manter sã perto dela? Aquele quase beijo, estávamos tão perto e... Céus, se eu tivesse cedido... Minha pele se arrepia com o pensamento.


Imediatamente os lábios dela invadiram a minha cabeça... Era tão clara a sensação que eu tinha deles grudados aos meus. Macios e tão exigentes. Oh merda, não pense nisso, Ana Paula! Não! Não! Definitivamente não! Terminei de fumar o cigarro que ainda estava entre meus dedos e logo voltei para dentro, ainda mais afetada que antes!


Decido ir me deitar, dormir é o melhor que posso fazer agora. Antes de definitivamente ir, pego a garrafa de vinho sobre a bancada e só então vou para meu quarto. Sobretudo, ao chegar lá sou traída por mim e a vontade de tê-la por perto... Quando me dou conta, já peguei a caixa dentro do guarda roupa e uma foto de Paola está em minhas mãos. Argh! Como posso ser tão boba a esse ponto?


— Não se preste a esse papel, Ana Paula! — Digo olhando minha imagem refletida no espelho. Não posso enganar a mim, já é algo que aparentemente não consigo mais e meus olhos... Eles possuem esse autojulgamento que nunca desaparece.


Encaro a caixa sobre da cama. Tão repleta de lembranças. Todos os poemas, as cartas e as fotografias... Exatamente intactos. As lágrimas vem aos meus olhos e não me repreendo. Dessa vez estou sozinha e por mais que esse autojulgamento ainda esteja gritando aqui dentro do meu peito, não tenho como me negar esse momento. Em todos esses cinco anos longe de Paola nunca me permiti abrir essa maldita caixa, porque era difícil encarar que nós havíamos chego ao fim, mas agora... Agora eu sei que esse fim nunca fora realmente um final. Estava mais para assunto mal resolvido e admitir isso doía.


Todos esses papéis, eles ainda possuem o cheiro dela, misturados levemente com o de coisas guardadas. É estranho! A sensação que tenho é a mesma de arrancar um suéter seu escondido no fundo do guarda roupa, o seu cheiro ainda está tão presente, mas misturado com o do tempo... Isso faz algum sentido? Talvez também seja psicológico essa coisa de cheiros, eu já não sei mais.


A foto que tenho em mãos fora a mesma que mandei em um anexo de e-mail para papai, e-mail esse sobre Paola. Quando eu estava em Londres nós dois passamos a nos comunicar por longos e longos e-mails, também haviam as ligações, mas as cartas eletrônicas eram muito mais recorrentes. Seu Fausto era meu confidente, sempre fora, desde de muito nova, e na mesma semana em que a conheci, tive de contar a ele sobre ela. Foi inevitável! Ainda me recordo das palavras que usei naquela conversa com papai.



De: Ana Paula Padrão

Para: Fausto de Vasconcelos Padrão

Assunto: Confidências.

Data: 30 de março de 1993 01:27


Papai, lhe escrevo hoje para contar-lhe algo que já não consigo mais guardar apenas para mim. Quem sabe seja apenas euforia antecipada por algo que nem ao menos tenho certeza por onde está caminhando, contudo espero que ajude-me a clarear as ideias. Sua filha mais velha com toda certeza quer seu colo agora, mas como esse não posso ter, seus conselhos e o carinho de longe podem me bastar para acalmar-me.

O senhor sabe bem que nunca me rendi aos encantos de qualquer ingles por aqui, sequer as inglesas, mas acho que talvez, só talvez, as coisas possam ter mudado um tanto de figura. Ela não é inglesa, na verdade é italiana. Alta, com os olhos marcantes, a pele bronzeada e os cabelos selvagens. É estranhamente tímida e direta... Um jeitinho tão ambíguo, penso que seja isto que está me ganhando, aos poucos, sem que eu tenha muito controle. Paola é seu nome! Nos conhecemos a apenas uma semana. Sete dias que foram encantadoramente ocupados por ela. Essa italiana já me divertiu nessas tardes e noites muito mais do que já me diverti nesses três anos por aqui, fizera questão de me levar aos pontos turísticos que me recusei a ir e agora temos centenas de fotos, nossas, por pelo menos metade dessa cidade! Tenho certeza que você adoraria conhecê-la, papai. Do mesmo modo como também estou!

Atenciosamente, sua filha mais velha e cheia de saudades. Beijos, velhinho meu.


Lembro-me de sentir nervosa a espera da resposta de papai. Logo as frases bem elaboradas e sentimentais de seu Fausto não tardaram a chegar.


De: Fausto de Vasconcelos Padrão

Para: Ana Paula Padrão

Assunto Surpresas de um confidente saudoso.

Data: 30 de março de 1993 01:58


Amanhecer, com um dia ensolarado, e as confidências de minha caçula de tamanho, já deixa minha manhã extraordinária e alegre. Acredite se quiser, mas me fizera largar um sorriso em plena seis, por quase sete, dessa manhã de terça-feira. Vejo que essa moça de nome Paola, italiana. Bonita. De pele bronzeada. E cabelos selvagens, está mexendo em demasia com a cabeça esvoaçante de minha primogênita. Como isso fora possível, já que bem sei como és fechada e tão exigente com esses tais amores e paixões que já viveu, ainda não sei bem! Ela já tem-me alguma admiração por conseguir lhe cativar dessa forma, pois fora descrita com tanto encanto, que por pouco não passo por cima de meu medo com aviões e marco a passagem de voo para daqui algumas horas. Não nego que minha curiosidade já está mais que desperta para conhecê-la, também tenho a leve impressão de que nos gostaremos.

Por certo que fico deveras feliz pela confidencia e a procura de conselhos, todavia vejo que não precisa de muito, minha pequena. Abra os olhos e perceba como já tens as repostas, por si só. É claro, como água, seu encanto pela moça e pelo que percebo, ela também não parece-me estar muito longe disso. Seu coração apenas está ansioso pela nova paixão, minha querida. Não quer dizer que preciso lhe acalmar os pensamentos, muito menos indicar-lhe uma dose de uísque; penso que você é que esteja querendo complicar o que não há de ser complicado. Como se dizia em Minas, procurando chifre em cabeça de égua! Não lhe negue a chance desse amor, afinal, não é todo dia que se tem uma italiana tão bela lhe cortejando.

Um beijo grande e um abraço apertado para lhe aquecerem nesse frio de Londres. Amo-te profundamente, pequenina minha.


Após recordar tão claramente sobre aquela conversa, pego a garrafa de vinho, a caixa, e me sento no chão. Com alguns bons goles — conselhos de papai: se não consegues só, a bebida lhe ajuda! — e já me sinto pronta para revirar as lembranças que por tanto tempo foram sufocadas nessa caixa!


Notas Finais


¹ Caçadora. Esse é o apelido mafioso da Paola. É o seguinte, quando você tá envolvido na máfia, ter um apelido é sinônimo de honra, então todo mundo tem um apelido, é essencial para que você seja alguém respeitado. Como o apelido da nossa italiana foi escolhido... Só mais pra frente pra saberem.



Eh isto, espero que tenham sofrido, quer dizer, sorrido*** rs'


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